24 abril, 2021

𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔, de Afonso Cruz



Autor: Afonso Cruz
Título: O vício dos livros
N.º de páginas: 118
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1.ª- Abril 2021
Classificação: Reflexões
N.º de Registo: 3281


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Para assinalar o Dia Mundial do Livro, li este belíssimo livro escrito e ilustrado por Afonso Cruz. Como se trata de um livro pequeno e de breve leitura, decidi Interromper a minha leitura actual  O Infinito num Junco, de Irene Vallejo, (livro fabuloso que apaixona qualquer viciado em livros, mas de leitura bem mais lenta quer pela dimensão quer pela informação) e assim comemorar o Dia em pleno.
𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 reúne histórias, relatos, poemas, memórias pessoais e reflexões sobre leitores, críticos e obviamente sobre o poder dos livros.

Lego-vos o pequeno texto “Princípio de anti-Fermat” que achei delicioso (p. 45)
Quando era adolescente, ia para a escola ler. Apanhava o autocarro que levava mais tempo (hora e meia em vez de uma hora, no total) porque assim não tinha de sair e apanhar o metro, permitindo-me passar mais tempo a ler. Como a paragem de origem era perto de minha casa, havia sempre lugar no autocarro. Escolhia o último, à janela.
O princípio de Fermat diz-nos que a luz não percorre a distância mais curta, mas sim o tempo menor entre dois pontos. Um leitor, muitas vezes, tenta encontrar o caminho mais lento entre dois pontos. Era isso que eu fazia. Ia para a escola pelo caminho com mais palavras.” (sublinhado meu)

E como amanhã se comemora o Dia da Liberdade, transcrevo também um excerto do texto “Liberdade” (p.49)
“ Caminhei pelo centro da cidade com uma escritora, bastante famosa no mundo árabe, (…). Tinha sido casada, durante mais de uma década, com um homem de uma família muito conservadora, teve dois filhos e depois divorciou-se. O que aconteceu? Perguntei eu, e ela respondeu que se libertou. Como? Insisti.
- Comecei a ler e libertei-me.”

E para terminar: “Ao contrário de tantos outros vícios, o dos livros, é, na verdade, uma virtude. De facto, ter livros não é o mesmo que, por exemplo, ter dinheiro. Ter livros é como ter amigos, ter dinheiro é como ter com que pagar a amigos. (p.65)

Recomendo a todos os viciados em livros. Só mesmo aos viciados porque os não-viciados não compreenderão que “a leitura é um diálogo entre autor e leitor e que, se não houver um abalo qualquer naquele que lê, então tudo terá sido em vão.” (p.62)

    



17 abril, 2021

𝑩𝒆𝒍𝒐𝒗𝒆𝒅 , de Toni Morrison

 


Autor: Toni Morrison
Título: Beloved
N.º de páginas: 351
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- 2009
Classificação: Romance
N.º de Registo: 2710


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Beloved talvez seja o romance mais conhecido de Toni Morrison, venceu o Prémio Pulitzer em 1988 e foi certamente importante na atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1993. É o primeiro romance de uma trilogia que inclui Jazz e Paraíso.
Baseado em factos reais mas também sobrenaturais, resgata a memória individual de algumas personagens, mas sobretudo colectiva da escravatura norte-americana no estado de Ohio no pós-Guerra da Secessão. Trata-se de uma narrativa de redenção, da história de um povo que foi escravizado, violentado, torturado. Mesmo após a liberdade, as marcas permanecem, corroem e desgastam.
“Os brancos achavam que quaisquer que fossem os modos, sob cada pele escura existia uma selva. (…) Quanto mais os negros se desgastavam a tentar convencê-los que eram amistosos, que eram inteligentes e afectuosos, que eram humanos, quanto mais se cansavam a convencer os brancos de algo que achavam que nem devia ser questionado, mais a selva crescia e se adensava.”(p. 259)

A leitura não é linear, é mesmo, em certas passagens, desconexa e requer alguma concentração. Apesar de uma linguagem poética e pungente, há passagens difíceis não só devido às histórias cruéis, ao desgaste emocional, aos traumas vividos pelas personagens mas também devido a uma linguagem mais densa e a uma estrutura complexa.
É uma leitura desafiante que causa ambiguidades e que obriga o leitor a juntar as peças, como num puzzle, para acompanhar a mensagem. Tal como em relação ao holocausto é necessário escrever e ler sobre estes períodos da nossa História para que a memória permaneça.





09 abril, 2021

𝑳é𝒙𝒊𝒄𝒐 𝑭𝒂𝒎𝒊𝒍𝒊𝒂𝒓, de Natalia Ginzburg

 


Autor: Natalia Ginzburg
Título: Léxico Familiar
N.º de páginas: 191
Editora: Relógio d'Água
Edição: 1.ª- Janeiro 2019
Classificação: Romance 
N.º de Registo: 3277



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Natalia Ginzburg conta a história da sua família integrada numa Itália de Mussolini. Esta suposta, digo suposta porque a autora refere na advertência que “não se trata da minha história, mas antes, embora com vazios e lacunas, da história da minha família”), autobiografia romanceada está bem escrita, e os acontecimentos familiares e históricos são narrados de forma sincera, íntima, elegante e divertida.

Tratando-se de histórias banais do dia-a-dia, por vezes sem importância, a autora, apesar de também narrar momentos de detenção, de perseguição e de morte, opta por resgatar a sua memória familiar dando ênfase ao “léxico”, às frases proferidas por cada elemento da família. O mais marcante e peculiar é sobretudo o do pai. Este, bastante severo nos seus juízos, dirigia-se aos filhos e à esposa de forma insultuosa e preconceituosa. Todos eram estúpidos e tratava-os de “cafres” e “asnos”.

“Qualquer ato ou gesto nosso que considerasse inapropriado, definia-o como «uma cafrealidade». – Não sejam cafres! Não façam cafrealidades! – gritava-nos a todo o momento.” (p. 9)

A trama avança, assim, transportada pelos gritos do pai, pelos desabafos da mãe, pela poesia de uns, pelas expressões de outros, pelas frases vezes sem conta repetidas e que atribuem identidade e ritmo à história.

“Somos cinco irmãos. Vivemos em cidades diferentes, alguns de nós no exterior, e não nos escrevemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, uns para os outros, indiferentes ou distraídos. Mas basta, entre nós, uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo da nossa infância. (…), para redescobrirmos no mesmo instante as nossas relações de outrora, e a nossa infância e a nossa juventude, indissoluvelmente ligadas a essas frases , a essas palavras. Uma dessas frases ou palavras faria que nos reconhecêssemos mutuamente, como os irmãos que somos, na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso latim, o vocabulário dos nossos dias idos, (…) o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive nos seus textos, salvos da fúria das águas, da corrosão do tempo. Essas frases são o fundamento da nossa unidade familiar,…(pp. 25 e 26)

O leitor abanca nesta família judia, intelectual e activista, convive com os amigos e familiares, diverte-se com as piadas, toma partido nas brigas entre irmãos, acompanha as lutas de resistência antifascista, de prisão, de fuga e de morte, aceita a forma subtil e por vezes ingénua da autora em relação à intolerância e à perseguição dos antifascistas e dos judeus porque fica claro que a autora não pretende explorar os seus sentimentos, mas sim em revisitar os momentos vividos em família e com os amigos.

Gostei e recomendo este livro porque está muitíssimo bem escrito e porque nos transporta para uma época importante da história e da cultura de Itália. 



04 abril, 2021

𝑺𝒖𝒊𝒕𝒆 𝑭𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒊𝒔𝒆, de Irène Némirovsky

 

Autor: Irène Némirovsky
Título: Suite Francesa
N.º de páginas: 579
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Outubro 2005
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: 2026

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Suite Française, escrito aquando da invasão da França pelas forças nazis, contém duas, “Tempestade de Junho” e “Dolce”, das cinco partes previstas pela autora; várias notas manuscritas que evidenciam o seu método de trabalho e as suas pretensões sobre este livro, por exemplo, nelas ficamos a saber que a terceira parte se chamaria “Cativeiro”; e ainda um vasto conjunto de cartas que indicam a troca de correspondência existente entre o seu marido e várias pessoas/organismos para tentar libertar a sua mulher que foi capturada e deportada para Auschwitz.

Uma das particularidades deste livro, publicado postumamente pela sua filha mais velha, Denise Epstein (2004), é o facto de a autora escrever a sua história à medida que vive os acontecimentos. O que narrou foi o que testemunhou, e na impossibilidade de continuar a escrever porque foi deportada, não concluiu a terceira parte que já se encontrava em fase avançada. A autora já tinha anotado o que pretendia narrar, mas faltava-lhe o desenvolvimento real da acção (esta intenção está muito clara nas notas anexadas) porque o caracter e o destino das personagens vão-se modificando de acordo com o evoluir da ocupação, da guerra.

Na primeira parte, a autora descreve a debandada geral dos franceses de Paris. Não se debruça tanto sobre os factos em si, mas sim sobre os detalhes dos comportamentos das personagens-tipo seleccionadas. É através da caracterização das personagens e das suas atitudes que percebemos o cenário do enredo influenciado por “factores de ordem social, cultural e económica”. Sem fazer juízos de valor, a autora incide nas reacções, nos comportamentos egoístas, mesquinhos, hipócritas dos franceses abastados forçados a abandonar o conforto do lar e a segurança do seu emprego/estatuto, mas também na ingenuidade e integridade de algumas personagens, poucas, de classe média.

“Meu Deus, o que eu vi! Portas fechadas, onde se batia em vão para pedir um copo de água, refugiados que pilhavam as casas; por toda a parte, de uma ponta à outra, a desordem, a cobardia, a vaidade, a ignorância! Ah! Que triste figura a nossa!” (p. 241)

Na segunda parte, a narrativa desloca-se para o campo, para um pequeno burgo ocupado pelos alemães. Nesta parte, a autora vai insistir nos afectos, nas relações entre familiares, entre vizinhos, mas sobretudo no relacionamento entre franceses e alemães. Há descrições fabulosas de desentendimentos familiares, de denúncias de vizinhos, de favores, de colaboracionismo, de revolta, de amor e de resistência. O leitor não ficará alheio à história de Lucile, viúva(?) e de Bruno Von Falk (esta história, trouxe-me à memória outro livro, também citado nas notas do tradutor, célebre pela narração de uma história idêntica, Le Silence de la Mer, de Vercors).
A autora foi criticada pela sua “suposta” empatia e aceitabilidade do alemão inimigo instalado nos lares franceses, mas o que ela pretendeu foi pôr em evidência o contraste de alguns alemães sensíveis e cultos perante a hipocrisia, a cobardia e o oportunismo de alguns franceses colaboracionistas. Em seu abono, não devemos esquecer que nessa altura ainda se desconhecia muito do que iria acontecer e que ela própria iria viver, e também que tinha previsto mais três partes que certamente esclareceriam a sua posição perante o inimigo. (já se antevê nas suas notas)

Numa escrita intensa apesar de sóbria e simples, com ambientes e personagens meticulosa e soberbamente descritos, a autora agarra o leitor e transporta-o para um cenário de caos, de medo, de traição, de morte, mas também de paixão e leva-o a questionar-se sobre o papel de cada um nesta guerra. Nas notas, a autora alerta ”o leitor só tem de ver e ouvir”.

Recomendo vivamente. Este é sem dúvida o melhor livro que li da autora. Ganhou o Prémio Renaudot em 2004 e foi adaptado ao cinema por Saul Dibb, em 2014.



23 março, 2021

𝙊 𝙖𝙢𝙤𝙧 𝙦𝙪𝙚 𝙨𝙞𝙣𝙩𝙤 𝙖𝙜𝙤𝙧𝙖, de Leila Ferreira


 Autor: Leila Ferreira
Título: O amor que sinto agora
N.º de páginas: 220
Editora: Planeta
Edição: 1.ª- Julho 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3151


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Foi um livro que me surpreendeu pela positiva. Foi-me oferecido e só o li porque me foi recomendado. É um daqueles livros que nunca compraria pelo título, mas ainda bem que cedi à recomendação e confesso que também fui influenciada pela opinião do Agualusa.
Trata-se de um livro assaz pequeno, não pelo número de páginas, mas pela quantidade de texto já que se trata de um romance epistolar. A escrita é simples, mas profunda e que subtilmente nos conduz através de uma narrativa dura, intimista e dolorosa que nos faz reflectir sobre violência, amores, desamores, opções de vida, incompletudes.

Quatro anos após a morte de sua mãe, Ana arranja finalmente coragem para ler a carta que ela lhe deixou. É uma carta dolorosa como se calcula e Ana ao “abrir as janelas do quarto trancado onde guardou a dor”, sente necessidade de retomar o diálogo, de ”desenterrar o léxico do [nosso] afecto e devolver a cada sílaba e a cada sentimento o direito de existir” (p.16) e, então, decide escrever-lhe cartas para lhe narrar tudo o que nunca teve coragem de dizer de viva voz.
O leitor vai acompanhando a viagem interior de Ana, vai tomando conhecimento da sua infância infeliz, dos seus medos, das suas reflexões. Ana recebe uma herança pesada, sofrida, violentada, que se inicia com a sua bisavó, e chega até ela. Quatro gerações, é muito tempo para quebrar hábitos e valores estabelecidos em que tudo se suporta, mesmo a violência sexual por amor aos filhos.
Ana, caiu no fundo, mas lentamente soube erguer-se, fez o luto das três mulheres que marcaram a sua vida, sobretudo a sua mãe, e conquistou a esperança de ser feliz.

22 março, 2021

𝙑𝙖𝙡𝙚 𝘼𝙗𝙧𝙖ã𝙤, de Agustina Bessa-Luís




Autor: Agustina Bessa-Luís
Título: Vale Abraão
N.º de páginas: 273
Editora: Relógio d'Água
Edição: 7.ª- Setembro 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3162

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em Vale Abraão, deparamo-nos com uma releitura de Madame Bovary, de Flaubert. A história de Ema, a “Bovarinha” portuguesa vai desenrolar-se nas margens do Douro senhorial e vinhateiro.
Ao longo da obra, admiraremos a beleza da região ,magnificamente descrita, e assistiremos à decadência das suas casas, das famílias rurais e à imposição da “burguesia de jeans”.
“Sim, é certo, das janelas do Romesal via-se o Vale Abraão, terra de Paivas e Semblanos. Destacavam-se as propriedades mais sumptuosas, entre maciços das árvores de jardim; o resto eram casas agaioladas com mansardas revestidas de lousa, mas raras. Que o vale era sobretudo recatado na sua abastança, que decaíra muito com a alta dos salários e as vocações migratórias.” (p.43)

Ema que casou com um dos Paivas, Carlos Paiva, o médico medíocre e apático, vai manter uma vida que romperá com os valores tradicionais atribuídos à mulher da província. Inteligente e de uma beleza exorbitante, por isso considerada de perigosa quer pelos homens, que a desejam e rejeitam simultaneamente, quer pelas mulheres que a invejam.
“Desde que se dispôs a frequentar uma sociedade acima do seu meio e educação. Ema optou por usar, a título de ameaça, um comportamento desequilibrado. Encarnou a personagem associal, primeiro desajeitadamente, o que era quase o segredo do seu sucesso.” (p. 200)

Ema, à semelhança de muitas protagonistas agustinianas, vai ter uma vida tumultuosa, de constantes crises, sempre em busca de algo que a satisfaça. Invejada e inconstante, rejeita o fracasso e repele o sofrimento. Inconformada com a passividade e mediocridade do marido, considerado por muitos como um santo e o “cornudo simpático”, procura fora de casa uma forma de consolo, de prazer carnal, já que verdadeiramente, não ama ninguém. Insatisfeita com os seus próprios desejos, leva uma vida mesquinha e fútil tentando escapar de uma mediocridade há muito interiorizada. “ Os mimos, os pequenos sonhos perdulários que o pai lhe permitia, estavam proibidos naquela casa que era pior do que pobre, era mesquinha.” (p. 47).

Ao longo da narrativa, e à medida que vamos assistindo ao desgaste físico e psicológico da protagonista, vamos igualmente acompanhando a degradação e a ruína das casas do vale. Desde cedo que se antevê um final trágico para Ema e para a região.

Recomendo a leitura desta e de outras obras. A autora que tem uma obra riquíssima é, por muitos, ignorada porque se considera a sua escrita complexa. Pode ser verdade, mas se lida com cuidado e atenção, verificaremos que é afinal sublime e veiculadora de uma história bem portuguesa.


11 março, 2021

𝙊𝙨 𝙇𝙤𝙪𝙘𝙤𝙨 𝙙𝙖 𝙍𝙪𝙖 𝙈𝙖𝙯𝙪𝙧, de João Pinto Coelho

 


Autor: João Pinto Coelho
Título: Os Loucos da Rua Mazur
N.º de páginas: 311
Editora: Leya
Edição: 1.ª- Novembro 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3043


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Nesta segunda leitura, realizada para participar no evento promovido pelo clube de Leitura do PNL2027, e conhecendo já a história, apreciei sobretudo a escrita, deliciei-me nos melhores momentos do enredo e despachei as descrições de crueldade e de intolerância.

São belíssimas as descrições dos encontros dos três amigos de infância, Yankel, Eryk e Shionka, mas sobretudo de Yankel e Shianka. Assim, como a descrição final.

Neste livro, há uma demonstração clara do comportamento humano, e no caso, em particular, protagonizado numa pequena localidade por vizinhos cristãos e judeus. Enquanto nas crianças vinga a inocência e o amor, nos adultos domina a inveja e a intolerância que os leva a cometer actos de grande crueldade.

Continuo a achar que é um livro magnífico, agora ainda mais. Não é um livro sobre o Holocausto, embora possa parecer, é um livro sobre a leitura, o amor e a maldade humana.

Recomendo muito, esta e qualquer obra do autor.

08 março, 2021

Dia da Mulher





O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes,

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética




06 março, 2021

𝙀𝙢 𝙏𝙤𝙙𝙤𝙨 𝙤𝙨 𝙎𝙚𝙣𝙩𝙞𝙙𝙤𝙨, de Lídia Jorge



Autor: Lídia Jorge
Título: Em Todos os Sentidos
N.º de páginas: 261
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Abril 2020
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: 3230


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


São 41 os textos classificados na introdução pela autora como crónicas “Como não podemos vencer o tempo, escrevemos textos que o desafiam a que chamamos crónicas.” (p. 11). Porém, no texto 24, “O Signo da Brevidade”, a autora também escreve “dizem-me que estas crónicas não são verdadeiras crónicas porque têm contos na sua origem. Aceito essa declaração de impureza. Infiel seria eu se assim não fosse. Pois, na verdade, escrevo contos desde que aprendi a redigir,… Porque um conto é um raciocínio colorido,” (p.149).

Ora é justamente esta mescla de crónica, de conto, de testemunho, de memórias que tornam estes textos interessantes e singulares. Neles, a autora apresenta-nos o seu olhar atento e lúcido sobre a actualidade, reflexões críticas deste mundo ora cruel, ora solidário, ora selvagem… mas também de um mundo belo, de amizade, de aceitação do outro,… estes textos revelam uma enorme serenidade, sabedoria e lucidez.

Todos partem de uma história, de uma memória, de um facto concreto, mas que em crescendo se vão desenvolvendo até ao propósito final que por vezes é apenas sugerido. O que me leva a concordar com a afirmação “ Existe um oximoro na arte, ela atinge-nos em pleno peito quando sugere, e não mostra.” (p. 211)

Recomendo vivamente.


01 março, 2021

𝙊 𝘿𝙚𝙡𝙛𝙞𝙢, de José Cardoso Pires


Autor: José Cardoso Pires
Título:O Delfim
N.º de páginas: 363
Editora: Moraes
Edição: 1.ª- Maio 1968 - 7..ª  - Janeiro 1978
Classificação: Romance
N.º de Registo:184


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de O Delfim, considerada a melhor obra do escritor, foi um autêntico deleite linguístico. Muito bem escrito, num tom bem-humorado e repleto de ironia, transporta-nos para uma pequena localidade, Gafeira, onde nada de importante acontece a não ser a caçada anual.
“Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço, pelas nádegas.” (p.39)

É nesta magnífica encenação que o leitor vai tomar conhecimento, pela voz do escritor-caçador, de uma história de crime e mistério que ocorreu na lagoa da aldeia.
“Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.” (p.9) e acrescento eu, O Delfim.

Gafeira, terra de uma família tradicional e privilegiada, dona de uma lagoa mítica, é então o palco do passado, das lendas, dos rumores, das sombras, das superstições, onde a sua população vive uma existência rural, alheia ao progresso, apesar das marcas de modernidade que vão surgindo, e confinada em si mesma, onde misticismo e realidade muitas vezes se confundem.

Este livro, publicado em 1968, é uma verdadeira caricatura do Estado Novo e simboliza, por excelência, o tempo da decadência, o fim de um regime, muito bem plasmado em Palma Bravo, O Delfim, que sem poder ter filhos, representa o fim de uma linhagem, em Maria das Mercês, sua mulher, que morre afogada na lagoa, na própria lagoa que adquire características fantasmagóricas e no narrador que insone no seu quarto desfila em pensamento o passado e o presente, as conversas que teve com os habitantes da aldeia e os acontecimentos que ocorreram, sem todavia desvendar o mistério das mortes.

Se ainda não vos convenci a ler este livro, deixo mais dois excertos que considero magníficos:
Falta uma vírgula na paisagem:
E a tarde escorre sem estremecer. Nem um golpe de ar, nem um pássaro, um ruído ao menos a descer dos montes pela estrada. Isto, no fundo, é morte. Podia-se pôr uma cegonha na torre da igreja – seria a vírgula. Um pescoço longo e curvo. Espalmado no ar sobre o largo.” (pp.136 e 137)
e
“«Mulher inabitável…» Gosto, é frase altiva, a prumo – de título para alegoria:
A MULHER INABITÁVEL
Na brancura de uma folha de papel (que é indiscutivelmente um território de sedução, um corpo a explorar), no centro e bem ao alto, planta-se a frase. Ela apenas, o título, como um diadema de dezassete letras.” (p. 139)




26 fevereiro, 2021

22.ª Edição de Correntes d'Escritas

 



Nos dias 26 e 27 de fevereiro, o Correntes d'Escritas marca encontro com o seu público para a 22ª edição, a realizar-se em formato online. O grande festival literário irá ser vivido de forma exclusivamente virtual, mas com a mesma paixão e garantia de acesso livre para todos, sem inscrição prévia, através da transmissão em direto via internet, no portal da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e das redes sociais, nomeadamente no facebook do município e do Correntes.

Conheça o programa completo aqui


23 fevereiro, 2021

𝙊𝙡𝙞𝙫𝙚 𝙆𝙞𝙩𝙩𝙚𝙧𝙞𝙙𝙜𝙚, de Elizabeth Strout



Autor: Elizabeth Strout
Título: Olive Kitteridge
N.º de páginas: 347
Editora: Alfaguara
Edição: 1ª edição - Julho 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo:3266


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Trata-se de um romance composto por 13 pequenas histórias que ocorrem na pequena localidade de Crosby, no Maine. O fio condutor entre estas histórias é, precisamente, Olive Kitteridge, uma professora de matemática aposentada, bastante pragmática, severa e pouco amada pela vizinhança. Está casada com Henry, o farmacêutico gentil, e é mãe de um rapaz Christopher.
Apesar desta carapaça dura, Olive vai conquistando o leitor que de história em história, lentamente, vai registando as mudanças da vila e com elas, as da própria personagem.
Todas estas histórias, centradas numa personagem, se desenrolam à volta de um drama, de mexericos, de relacionamentos familiares, profissionais, sociais. Tudo isto faz parte da vida desta comunidade, e do mundo em geral. Temas como o envelhecimento, a doença, a separação, a solidão, o abandono são subtil e brilhantemente apresentados através da descrição de situações e personagens que facilmente o leitor aceita como sendo reais.
Para mim, a beleza deste romance está na forma como as histórias se vão entrelaçando e sobretudo na ligação de Olive a todas elas. Em muitas, aparece como personagem que relata a sua vida e que assim vai tomando conhecimento de si própria, que se adapta e se transforma, noutras é apenas citada por uma ou outra razão.
Aparentemente simples, esta obra carrega inúmeras situações, impostas pelas vicissitudes da vida, que provocam no leitor reflexões sobre a condição humana, sobre a sua própria vida.
O leitor não sai incólume desta leitura, fica incomodado e isso é bom. É literatura.


13 fevereiro, 2021

𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒓𝒏𝒆𝒄𝒂 𝒂𝒐 𝑬𝒏𝒕𝒂𝒓𝒅𝒆𝒄𝒆𝒓, de Florbela Espanca

 



Autor: Florbela Espanca 
Título: A Charneca ao Entardecer (contos escolhidos)
Selecção, organização e introdução: Jose Luís Peixoto
N.º de páginas: 88
Editora: Edições Quasi
Edição: 3.ª edição - Fevereiro 2007
Classificação: Contos
N.º de Registo: 2978


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

É a primeira incursão que faço na prosa ficcional de Florbela Espanca. A Charneca ao Entardecer é uma pequena antologia de sete contos selecionados e organizados por José Luís Peixoto que nos diz na sua introdução que “os contos foram escolhidos de acordo com o meu gosto”.
Assim, parti desde logo do princípio de que também eu iria gostar. Não fiquei nada desiludida, mas, mesmo assim, confesso que prefiro a sua poesia.

A sua charneca alentejana está muito presente nos primeiros contos. Nestes, aprecio a sua escrita sensorial muito poética sobretudo quando descreve a paisagem.
“Em volta, o silêncio era tão profundo, tão religiosa e extática a paz dos campos, que os olhos do lavrador incrédulo se ergueram da terra numa instintiva acção de graças. (…) É que os sombrios olhos alentejanos precisam encher-se de infinito, precisam das amplas extensões onde o ar corre liberto, e o Sol, pelas tardinhas solitárias, adormece cansado, imperador aborrecido do seu trágico gozo de incendiar.” (pp.29 e 30).

É lindo! Só quem vive no Alentejo pode sentir e entender estas palavras, estas imagens, este enlevo, esta sensação de plenitude.

A outra temática abordada é a morte. Temos alguns contos dedicados ao seu irmão que perdeu a vida de forma prematura. Esta perda absurda vai deixar marcas físicas e psicológicas na autora. Em “Dedicatória”, o conto é dirigido ao seu “querido irmão Morto”, estamos então perante uma escrita intensa e profunda, carregada de melancolia, de sofrimento e de culpa.
“Aquele que traz no rosto as linhas do teu rosto, nos olhos a água clara dos teus olhos, o teu Amigo, o teu Irmão, será em breve apenas uma sombra na tua sombra, uma onda a mais no meio doutras ondas, menos que um punhado de cinzas no côncavo das tua mãos?!...” (p.47)

Gostei bastante desta selecção, mas preciso de ler mais contos para validar a minha opinião sobre a vertente contista da autora.

12 fevereiro, 2021

𝑶𝒔 𝑨𝒏𝒐𝒔, de Annie Ernaux

 


Autor: Annie Ernaux
Título: Os Anos
N.º de páginas: 196
Editora: Livros do Brasil /Porto Editora
Edição: 1.ª edição - Fevereiro 2020
Classificação: Autobiografia
N.º de Registo: 3265


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Os Anos. Os Anos, de Annie Ernaux são um autêntico mergulho no tempo e nas múltiplas gavetas da sua memória. Refiro "gavetas" com intenção porque tratando-se de um texto contínuo (sem capítulos), porém fragmentado como se a autora abrisse uma gaveta e dela retirasse uma fotografia, um filme, uma música, parece-me que a palavra espelha bem a estrutura e o conteúdo do livro.
Esta narrativa clara, objetiva e sem preconceitos desliza “num imperfeito contínuo, devorando o presente progressivamente até à última imagem de uma vida.” (p.194) Ao ritmo dessas memórias visuais, mentais e sentimentais, a autora relata a sua vida pessoal, familiar, profissional e social estabelecendo relações com a evolução de uma sociedade, a francesa em particular, desde 1941 até 2006. Partindo de uma retrospectiva imagética “Numa fotografia a preto e branco” (p.43), quase cronológica, como se de uma "Existência de papel" (título de um livro de Al Berto) se tratasse, a autora rememora o "eu/ela" inserido na história de um país, e de certa forma do mundo.
É este entrelaçamento entre o “eu” da enunciação, o “ela” da escrita e o “alguém” ou “nós” (p.194) de uma sociedade que tornam este livro fascinante.
“Gostaria de reunir múltiplas imagens dela própria, separadas, sem relação entre si, ligadas por um fio narrativo, o da sua existência, (…) como representar simultaneamente a passagem do tempo histórico, a transformação das coisas, das ideias, dos hábitos e o carácter íntimo dessa mulher. (…) A sua principal atenção incide na escolha entre “eu” e “ela”. Existe demasiada continuidade no “eu”, algo de limitado e sufocante, e no “ela” demasiada exterioridade e distanciamento.” (p.144)

Estamos perante um extraordinário manancial de referências sociais, políticas e culturais que marcaram toda uma geração.
Para mim, que vivi a minha adolescência neste ambiente (ou pelo menos uma parte), a leitura deste livro está a causar-me sensações contraditórias porque me traz à memória momentos muito bons e outros menos bons. Mas que é redentor, é! A anos de distância, sinto a melancolia, a adrenalina e a desilusão vividas na época e que a autora tão bem retrata.


04 fevereiro, 2021

𝘼 𝙄𝙣𝙫𝙚𝙣çã𝙤 𝙙𝙚 𝙈𝙤𝙧𝙚𝙡, de Adolfo Bioy Casares


Autor: Adolfo Bioy Casares
Título: A Invenção de Morel
N.º de páginas: 152
Editora: Antígona
Edição: 3.ª edição - Março 2020
Classificação: Romance/Diário
N.º de Registo: 3223


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Se Jorge Luís Borges, no prefácio, refere “não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo como perfeito,” que poderei eu, simples leitora, acrescentar? Nada! Está absolutamente perfeito!

Estamos perante uma narrativa, em forma de diário, de um foragido da lei que se refugiou numa ilha deserta. “ Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre. (…) Escrevo estas linhas para deixar testemunho do milagre adverso.” (p.15). O leitor é, desde logo, informado das razões deste diário.
A ilha, considerada amaldiçoada e inóspita tem, no entanto, três construções (um museu, uma capela e uma piscina). Aquando da sua expedição ao interior dos edifícios, descobre uma máquina, que saberá mais tarde, que foi inventada por Morel. Uma das várias personagens que aparecem na ilha.
“Estou na posse de um dado que pode servir aos leitores deste relato para conhecerem a data da segunda aparição dos intrusos…” (p.75)

O relato é vincadamente marcado pela luta de sobrevivência e pelo medo de ser descoberto por estes intrusos. Ele observa-os à distância, ouve as suas conversas e apaixona-se por uma das mulheres, Faustine.
“ A mulher do lenço tornou-se-me agora imprescindível. Talvez toda a minha higiene de nada esperar seja um pouco ridícula. Nada esperar da vida, para nada arriscar; dar-me por morto para não morrer. (…) Voltei duas tardes mais: a mulher lá estava; comecei a achar que esse era o único milagre…” (pp. 37 e 38)
Mas será esta uma realidade? É que para sobreviver à fome, o nosso fugitivo ingere plantas e raízes que provocam delírios, alucinações, pesadelos.

É nesta multiplicação de imagens que a escrita de Casares se torna mágica, ou citando Borges, perfeita. A realidade e a fantasia misturam-se, o presente e o futuro são constantemente indagados e este questionamento e consequente reflexão levam-nos, a nós leitores, a pensar sobre a fragilidade da vida e as fronteiras do real.

Narrativa muito actual, já que a explicação do funcionamento da invenção de Morel, bem como o desfecho da narrativa, nos remetem, inequivocamente par o mundo em que vivemos numa mescla de real e virtual.



31 janeiro, 2021

𝑨 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒂 𝒇𝒂𝒄𝒆 𝒅𝒐 𝒓𝒊𝒔𝒐 , Isabel Gouveia

 



Autor: Isabel Gouveia
Título: A Outra Face do Riso
N.º de páginas: 147
Editora: Universitária Editora
Edição: 1.ª edição Jul. 2003
Classificação: Contos
N.º de Registo: 1587


OPINIÃO ⭐⭐⭐

A Outra Face do Riso é um livro que provoca sorrisos mais pelo carácter dramático de algumas histórias do que propriamente pelo cómico. São 23 contos interessantes que me fizeram regressar à minha infância, também beirã. Ao longo do livro, revi algumas personagens-tipo muito bem caracterizadas, espaços e eventos descritos na perfeição, vícios e costumes típicos dos habitantes da província. Os vários estratos sociais foram retratados sem o menor pudor. Ninguém foi poupado. Poder-se-á afirmar que a autora, como advogada, conhecia bem os meandros da sociedade da época.

A escrita é muito cuidada, demasiado por vezes. Houve a preocupação de bem escolher as palavras, de não sair de uma certa linha de escrita. Foi pena, alguns contos seriam bem mais interessantes se a linguagem usada fosse mais popular e até com recurso a alguma brejeirice. A ironia e a malícia estão presentes, mas aplicadas num outro tom teria sido bem mais agradável e evidente.

Foi uma leitura agradável.


29 janeiro, 2021

𝑨𝒑𝒏𝒆𝒊𝒂, de Tânia Ganho

 

Autor: Tânia Ganho
Título: Apneia
N.º de páginas: 692
Editora: Casa das Letras
Edição: 1.ª edição Jul. 2020 / 2.ª edição Jul. 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Apneia: “Ausência ou interrupção momentânea da respiração” foi neste estado que permaneci ao longo da leitura deste livro. Tive de retrair o impulso de o ler de seguida, senti que se o fizesse também eu ficaria perturbada, insone. Foi necessário dosear a leitura para acompanhar a violência psicológica, o medo, a náusea vividos por Adriana e Edoardo, o seu filho.
Este livro é um autêntico murro no estômago. Não é novidade para ninguém o quão doloroso é um processo de guarda partilhada de um filho, sobretudo quando um dos progenitores semeia ódio e manipula a criança para atingir o outro cônjuge. São 692 páginas de demonstração de ódio, de manipulação, de mentiras, de submissão, de terror, de idas a tribunais, ao psicólogo, ao psiquiatra, a advogados, e finalmente de descobertas… descobertas terríveis que sufocam o leitor, que o mantêm em apneia, que o deixam indignado com a lentidão e a inoperância da justiça e de todos os que deviam defender os direitos e o bem-estar de uma criança. É inadmissível a cegueira da justiça que nesta história, como em tantas da vida real, falha na sua missão de proteger a criança, de proteger a mulher violentada…
“Estava em guerra contra o sistema que, podendo prevenir, optava por remediar. «A justiça não é preventiva», explicara-lhe uma das muitas autoridades que contactara. «A justiça é punitiva.»” (p. 577)

Gostei muito da escrita sensível e comprometida de Tânia Ganho. Gostei da intertextualidade com a poesia de Anne Sexton. “Que arca/poderei eu encher para ti quando o mundo se tornar selvagem?” (p.49)
Gostei da estrutura que, de início, atrapalha o leitor porque anacrónica, mas que pretende representar o estado mental caótico de Adriana, (um reflexo da sua fragmentação” p. 348) a mãe que tudo fez para manter a saúde mental do seu filho nesta guerra parental à custa de tanta dor, de tanta mágoa, de tanta injustiça, mas também de tanta perseverança e amor.


28 janeiro, 2021

𝗨𝗺𝗮 𝗩𝗶𝗮𝗴𝗲𝗺 à Í𝗻𝗱𝗶𝗮, de Gonçalo M. Tavares


Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma Viagem à Índia
N.º de páginas: 456
Editora: Caminho
Edição: 1.ª edição 2010 / 2.ª edição 2011
Classificação: Epopeia
N.º de Registo: 2701

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

É admirável a escrita e a versatilidade do autor. Neste livro, estamos perante uma epopeia, a narrativa de um herói, dividida em 10 cantos, e escrita em verso (1102 estrofes). É, por isso, inevitável a comparação com a nossa obra maior Os Lusíadas, de Luís de Camões ao nível da estrutura, do destino da viagem, dos elementos da natureza, do divino e de outras referências ao longo da narrativa. Claro que há diferenças, tais como a ausência de rima, a irregularidade do número de versos de cada estrofe, o herói individual e não colectivo, entre outros aspectos.

Temos ainda, uma proposição, é-nos anunciado, logo no início, qual o propósito do livro: “Falaremos de uma viagem à Índia. /E do seu herói, Bloom” (p. 32) e uma invocação:
“Mas agora quem quer falar é quem escreve.
Que as ninfas e as musas, e ainda a minha
cabeça, me ajudem na escrita, pois escrever
assim – epopeias – é exigência de minúcia
em animal de grande porte e exigência de grandeza
em animais ferozes mas minúsculos.” (p. 320)

Quem conhecer bem a epopeia camoniana não deixará de perceber o paralelismo estabelecido nesta Melancolia Contemporânea (subtítulo).

Bloom, o nosso herói, foge de Lisboa, do passado e vai procurar a sabedoria à Índia, porém, aí, encontra decadência e hostilidade e constata que no Ocidente e no Oriente os homens são idênticos. O herói, regressa da Índia sem conquistar um novo mundo, o passado mantém-se vivo, o presente afigura-se-lhe melancólico e o futuro entediante.
“ Ele aproxima-se da mulher e o mundo prossegue,
mas nada que aconteça poderá impedir o definitivo tédio de
Bloom, o nosso herói.” (p.456)

Em conclusão, penso que, apesar do título, não estamos perante um livro de literatura de viagens, mas sim de uma viagem interior “a viagem interior de Bloom”, de aprendizagem, de auto-conhecimento, de reflexão.
Apesar de se tratar de uma leitura complexa porque navega sobre muitos assuntos, vale a pena ler, com tempo, para subtrair o essencial e reflectir.


15 janeiro, 2021

𝑪𝒐𝒏𝒇𝒖𝒔ã𝒐 𝒏𝒐 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆𝒅𝒐𝒓 𝒅𝒐𝒔 𝑬𝒏𝒍𝒂𝒕𝒂𝒅𝒐𝒔, de José Luís Peixoto

 

Autor: José Luís Peixoto
Ilustrador: Catarina Bakker
Título: Confusão no Corredor dos Enlatados
N.º de páginas: 38
Editora: Zero Desperdício
Edição:  s/data
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (ebook)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

São quatro os livros que integram esta coleção editada com o objectivo de “educar para uma alimentação saudável”, este, em particular, foca-se no desperdício alimentar. 
Destinado aos mais pequenos (1.º ciclo), mas que pode e deve ser lido por qualquer um. Com uma escrita simples, uma linguagem muito acessível e ilustrações maravilhosas, a história encerra uma mensagem muito interessante e actual, excelente para desenvolver na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Foi no âmbito desta disciplina que lemos, de forma expressiva, este conto aos alunos do 7.º ano. No final, houve troca de ideias e de boas práticas. 
Divertimo-nos imenso! E os pequenos adoraram! 
Recomendo a leitura! Vão adorar conhecer a Mimimi (Maria Isabel Mónica Ivone Matilde Inês Silva da Silva) e seguir os seus conselhos!

11 janeiro, 2021

Celebrar Al Berto !

 



As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo
e o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto, in O Medo

(11 de Janeiro de 1948 -13 de Junho de 1997)

10 janeiro, 2021

𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, de João Tordo

                                                     

Autor: João Tordo
Título: Felicidade
N.º de páginas: 390
Editora: Companhia das Letras
1.ª Edição: Outubro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3253


OPINIÃO: ⭐⭐⭐⭐

É o nono livro que leio de João Tordo e a minha admiração pela sua escrita, pelo seu poder criativo quer ao nível da construção quer do enredo, tem vindo a crescer de livro para livro. 

Felicidade apresenta características de uma tragédia grega, não sendo uma peça de teatro, há contudo aspectos que para aí remetem, como por exemplo, a estrutura do romance, a divisão em três actos; o culto à mitologia grega; o tema da morte e a história trágica e dramática derivada da paixão humana; a tensão permanente em que vive a personagem e o final infeliz e trágico. 

Ao longo da narrativa, acompanhamos um jovem (não lhe foi atribuído um nome) desde os tempos em que frequentava o liceu até à vida adulta, ao desenlace trágico. Conhecemos a sua família, alguns amigos e as trigémeas: Felicidade, Esperança e Angélica. 
Trata-se de uma história intensa, marcada por muito sofrimento, solidão e loucura, ao contrário do que os nomes atribuídos às figuras femininas poderiam indiciar: uma história de amor, de felicidade e de tranquilidade. O leitor nem terá tempo de alimentar essa ilusão porque logo nas duas primeiras páginas, o narrador revela o estado final das irmãs e ao apresentá-las, cria um certo suspense que provoca no leitor uma vontade enorme de descobrir o mistério que envolveu a vida deste jovem. 

“A primeira das trigémeas foi o meu grande amor, a segunda a minha mulher e a terceira participante involuntária da minha ruína. Juntas, elas destruíram a minha vida de maneira lenta e insidiosa, como uma matilha de cadelas que rodeia, dia após dia, um passarinho esfomeado, até este jazer morto no chão da sua gaiola. Finalmente, encontram-se saciadas”. 

Para além do enredo trágico há uma excelente contextualização da História e da Cultura da época em Portugal (anos 70 e 80), bem como uma importante referência à mitologia grega que muito enriquecem a história. Gostei muito desta contextualização porque reavivou a minha memória. Quem viveu estes tempos sabe quão importantes foram. 

Recomendo a sua leitura. É um romance enigmático, trágico com pinceladas de humor e algumas passagens surpreendentes. 

03 janeiro, 2021

Pedro Páramo, de Juan Rulfo

 


Autor: Juan Rulfo
Título: Pedro Páramo
N.º de páginas: 169
Editora: Cavalo de Ferro
3.ª Edição: Junho 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Empréstimo BE)


OPINIÃO: ⭐⭐⭐⭐⭐

Há muito que andava para ler este livro considerado, por muitos, como um dos melhores clássicos da literatura. Penso que se Gabriel García Márquez afirma que “o escrutínio a fundo da obra de Juan Rulfo me deu, por fim, o caminho que procurava para continuar os meus livros”, então está tudo dito. Estamos efectivamente perante um livro notável, singular, místico onde o murmúrio e o silêncio predominam e indiciam a morte.

“Agora estava aqui, nesta aldeia sem ruídos. (…) E embora não houvesse crianças a brincar, nem pombas, nem telhados azuis, senti que a aldeia estava viva. E que, se eu ouvia apenas o silêncio, era porque não estava ainda habituado ao silêncio; talvez porque a minha cabeça vinha cheia de ruídos e vozes.” (p. 24
Memórias e realidade entrecruzam-se a várias vozes. Tal como em Cem Anos de Solidão (romance em que se nota a influência de Rulfo sobre García Márquez), o realismo mágico é a característica dominante. 
Estamos perante um romance que revela muitos personagens, vivos e mortos (mais mortos do que vivos). São almas, fantasmas que vagueiam de noite, que murmuram, que falam entre si, que vão narrando a Juan Preciado, filho de Pedro Páramo, a história de seu pai que do nada foi “crescendo como uma erva daninha”, a sua paixão por Susana San Juan, a sua morte e com ela, a de Comala. 

“ – Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Uma gargalhadas já muito velhas como se estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso. Ouves tudo isso.” (p.59) 

Poder-se-á afirmar que Rulfo ao comparar Comala ao Inferno é uma alegoria ao continente sul-americano e mais concretamente ao México, já que na obra há referências à história e à política mexicanas. 

“- Sim, e isto [o calor] não é nada – respondeu-me. - Espere. Vai senti-lo ainda mais quando chegarmos a Comala. Aquilo está sobre as brasas da Terra, na própria boca do Inferno. Basta dizer-lhe que muitos dos que lá morrem, quando chegam ao Inferno, regressam em busca do seu agasalho. “ (p.22)



01 janeiro, 2021

Iniciar 2021 em poesia...


                                  



Tinha nevado. Lembro-me
de música saindo de uma janela aberta.

Vem a mim, dizia o mundo.
Não significa
que o fizesse com frases
mas era assim que eu intuía a beleza.
Aurora. Uma película de humidade
sobre cada ser vivo. Poças de luz fria
formavam-se nas sarjetas.

Eu esperava
na soleira,
por mais ridículo que pareça agora.

O que outros encontravam na arte,
encontrava eu na natureza. O que outros encontravam
no amor humano, encontrava eu na natureza.
Muito simples. Mas não havia nenhuma voz ali.

Louise Glück, Averno



30 dezembro, 2020

Balanço Final




Para preencher na totalidade os desafios, #desfiodeleituramantadehistorias20 #lêportuguês #escapadelaliterária e #lercomelas, propostos pelo Clube de Leitura Manta de Histórias, li 70 livros. 
Como o meu objectivo é não repetir livros nos vários desafios (apenas repeti um, mas li outro “pelo prazer de ler…” para compensar), só consegui ler 1 para o #hohohobooks. Ainda seleccionei outro, mas as novidades dos últimos dias, desviaram-me para outras tarefas, também muito interessantes…

Assim no total li 71 livros (tanta conversa para dizer isto):
- 32 de autores portugueses (16 Homens, 16 Mulheres);
- 6 de autores lusófonos (5 H, 1 M)
- 33 de autores estrangeiros (22 H, 11 M) este ano abusei de autores estrangeiros… 
destes autores, li 3 em língua francesa (é pouco)

Tentei diversificar os géneros literários, e para além dos específicos dos desafios, li poesia (vários), teatro e crónicas. Não li cartas/correspondência nem diários (talvez inclua no desfio de 2021)

Para além destes desafios, participo em tertúlias da minha escola e no Clube de Leitura do PNL, no GoodReads (estas duas atividades condicionam as leituras, já que indicam concretamente o livro a ler. Estas leituras integram também os desafios do CLMH. 
Finalmente, resta-me dizer que superei o número estabelecido de leituras no GoodReads. 
Agradeço o contributo de todos os que sugeriram livros e foram partilhando opiniões. 

Consultar a etiqueta Desafio de Leitura 2020 para aceder às opiniões dos livros lidos, carregar na imagem ou  aqui para aceder à página do Goodreads.



𝘈𝘴 𝘌𝘴𝘵𝘢çõ𝘦𝘴 𝘥𝘢 𝘝𝘪𝘥𝘢, de Agustina Bessa-Luís



OPINIÃO

Pequeno livro, pouco divulgado, penso eu, porém uma autêntica pérola dos usos e costumes da gente do norte. Estas Estações da Vida, são nada mais do que um elencar de “memórias de viagens de pequeno curso que, desde a infância, me transportam de um lugar ao outro.” (p.17). A autora na sua viagem “de comboio” à beira do Douro, transporta-nos para “antigas carruagens”; faz-nos descobrir pessoas, costumes e terriolas; desvenda-nos histórias narradas nos painéis de azulejos. 
Apesar de pequeno, a narrativa contém informação vasta sobre a época, Agustina narra com subtileza e uma ponta de ironia certos episódios que viveu ou observou da sua aldeia. “Desde a aldeia de Ariz, podíamos ver quem entrava no comboio, se usássemos um binóculo. Quem se tinha por ilustrado e ocioso elegante tinha um binóculo em casa.” (p.29)

Adoro este excerto que mostra a perspicácia e o sentido crítico de Agustina:

“(…)Ninguém levava farnel nas carruagens de primeira classe. (…) era tudo muito discreto, muito digno, não se tirava o chapéu nem as luvas nem se abanava o rosto com um papel pregueado. 
(…) Nas carruagens de segunda classe era tudo mais falado. Faziam-se amizades, trocavam-se merendas, conselhos, as mães diziam coisas dos filhos e como os criavam. (…) A alma sensata viajava em segunda classe, era opiniosa e moderada; escandalizava-se facilmente. (…) Enquanto na terceira classe era a festa, diziam-se larachas, derramava-se vinho, ouvia-se o piar dos frangos nas cestas de vime vermelho. (pp.21 a 23)

28 dezembro, 2020

𝓑𝓪𝓲𝓵𝓪𝓻𝓲𝓷𝓪𝓼 𝓭𝓮 𝓒𝓸𝓻𝓭𝓪, de Lília Tavares

 


OPINIÃO


“Que tumulto é este, que inquietude salta/ dos corações das mulheres que agitam as palavras?” (p.50). 
Assim, começa um dos poemas deste livro que enaltece e homenageia as mulheres. Todas as mulheres. A mulher-menina, a jovem mulher, mulher amada, mãe, esposa, marinheira, bordadeira, professora, abandonada, feliz, sonhadora, saudosa, perdida, conformada… 
“(…) abdicam de ser felizes/ ao largarem flores nos lugares onde choraram.” (p.31)

Todas bailarinas porque descritas com delicadeza, harmonia, elegância, mesmo quando “forçadas” a agir pela força da “corda”. 

“Há mulheres que diariamente são flores.
Frescas, portadoras de gotas de orvalho matinal.
Perfumam quem as rodeia como se fossem óleo aromático
em lamparinas que teimam em manter a claridade
na negrura da indiferença das noites longas.
Cantam.
São água que na madrugada sacia a avidez de colo
e de ternura.”

Ao longo dos 65 poemas, a mulher é descrita em união com a natureza, em harmonia com a beleza das flores, das aves, da água, do mar, mas também do vento, do sol, da noite.
“As mulheres têm a força de uma cascata /e a suavidade das violetas que respiram na janela.” (p.25)

Numa escrita poética, simples, emotiva e sincera, a mulher-poeta deixa transparecer a admiração, a gratidão, o carinho e o amor que sente por todas estas mulheres, sejam elas bailarinas porque felizes, fortes e amadas, ou bailarinas de corda porque conformadas e passivas, que preencheram ou ainda preenchem a sua vida. Há, assim, uma mulher que “agita as palavras” e as transforma em emoções.

“Tocam, cegas pelas palavras, labirintos de sonhos
e chegam ao seu lugar, um vasto areal de afectos que se
conjugam em todos os tempos, Ali quase todas as mulheres
ardem em incêndios efémeros e nos barcos dormem
ao som da ladainha verde das ondas. A praia no outono
é um leito frágil de silêncios e limos. São bailarinas
delicadas que se aconchegam nos braços amados, na
intermitência…
da luz. No abraço da noite, em mão amantes, os seus olhos
ousam uma certa forma de errância. Para elas
há muito as estrelas foram reticências. Contemplam
o firmamento na busca do significado para a claridade 
em andrómeda, órion e cassiopeia.



27 dezembro, 2020

𝘔𝘢𝘵𝘢𝘪-𝘷𝘰𝘴 𝘶𝘯𝘴 𝘢𝘰𝘴 𝘰𝘶𝘵𝘳𝘰𝘴, de Jorge Reis

 


OPINIÃO

Matai-vos uns aos outros é considerado um dos melhores romances do neo-realismo e “talvez o melhor romance policial português” (Óscar Lopes). Escrito em 1958 e publicado em 1962, foi proibido e retirado do mercado pela Censura, tendo circulado de forma clandestina. 
A narrativa decorre na localidade de Vila Velha, em 1948. O agente António Santiago tinha 36 anos e fora incumbido de desvendar a morte de Manuel dos Santos. 

“Caíra na Polícia Judiciária, não por temperamento ou vocação para esteio da ordem, mas por necessidade – e ainda a conselho e pelas cunhas do padrinho, chefe da brigada de costumes”. (p.17)

Muito bem escrito, com pinceladas de ironia, relata factos, episódios (alguns caricatos) e costumes de uma terra do interior. Na tentativa de descobrir o presumível assassino de entre dez suspeitos, Santiago, durante sete dias (de quarta a terça-feira) convive com a dita elite da terra, intercepta a hipocrisia, o oportunismo e a corrupção, assiste à violência da praça (guardas) e às manifestações de descontentamento e de pobreza do povo trabalhador e oprimido. 
Jorge Reis escolhe Vila Velha, mas é Portugal que pretende retratar. Narrando os factos e descrevendo aquelas personagens, o autor desvenda magistralmente os meandros da cumplicidade, da arrogância, da opressão e da violência das gentes do poder, da época.

“Triste época a nossa – ia dizendo D. Virgínia – Vivemos no reino dos cascas-grossas e dos brutos a arrotar a broa!... Antigamente, o homem era respeitado pelo seu valor pessoal!... Hoje!...” (p.76) 

“Enfim, um povo em estado de falência crónica”. (p.133) 

“(…) Pior: vivem no medo! Não o medo que, ante um perigo preciso, todo o homem cobra normalmente – senão esse pavor difuso, incerto, acabrunhador, medíocre que leva o vizinho a arrecear-se do vizinho, o irmão a denunciar o irmão! O medo filho da má consciência, do pão que sabe ao pó da mentira e dos caminhos do futuro vedados em todas as encruzilhadas!... “ (p. 149)


25 dezembro, 2020

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler

 



OPINIÃO

Este livro narra a história de John Zarco Stewart, filho de mãe judia e pai escocês, que nasceu no Porto em 1791. A acção vai decorrer sobretudo no início do século XIX (já John tem 9 anos) e relata vários episódios históricos como a perseguição aos judeus e cristãos-novos, as invasões francesas, a ascensão da Companhia das Vinhas, a escravatura no Estados-Unidos, sobretudo na Carolina do Sul. 


Para além destas referências históricas penso que é a história de John que verdadeiramente interessa. Sempre se revelou uma criança curiosa, afectuosa e traquinas. John foi crescendo rodeado de amor (pais e vizinhos e mais tarde a mulher e as filhas) e de amizade (Daniel e Violeta), mas também de traição. Contudo, é Meia-Noite, o curandeiro africano, trazido de África para o Porto pelo pai para o salvar, que lhe vai incutir valores e princípios que o sustentarão ao longo da sua vida, é ele que lhe forja uma personalidade forte e que lhe ensina a superar os seus próprios medos. 

Ao longo da narrativa vamos conhecendo as aventuras de John, os ensinamentos que vai adquirindo, as revelações do seu passado, as perdas e as conquistas, mas vamos sobretudo acompanhando o seu crescimento interior, a forma como (sobre)viveu à sombra do amor, mas também da culpa, da perda, da morte, causando-lhe ódios, revoltas, remorsos, dúvidas. 
Foram estas dúvidas que o levaram a uma busca incessante da verdade e a vencer a "hiena" que frequentemente o assaltava. 

É um romance fabuloso. É um romance que põe em evidência o carácter das pessoas, independentemente da sua cor de pele, de raça ou religião. É um romance sobre a perseguição, a opressão, a escravidão e a traição, mas também sobre o amor incondicional e sobre a fé e a crença e a esperança.