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19 novembro, 2025

Carla Pais vence prémio LeYa 2025

 


foto retirada da internet

                         
A vencedora do Prémio LeYa 2025 é Carla Pais, com a obra A sombra das árvores no inverno.

O presidente do júri, Manuel Alegre, destacou a elegância da escrita, referindo que a autora "traz, ao curso do enredo e ao trajeto íntimo e social das personagens, situações problemáticas e convulsas de candente atualidade na Europa, sobretudo decorrentes da imigração oriunda de África e Próximo Oriente".

Constituíram o júri o escritor Manuel Alegre, José Carlos Seabra Pereira, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Isabel Lucas, jornalista e crítica literária, Lourenço do Rosário, ex-reitor da Universidade Politécnica de Maputo, Ana Paula Tavares, poeta e Prémio Camões deste ano, e Josélia Aguiar, jornalista e historiadora.

Carla Pais para além de alguns contos já premiados, tem dois romances publicados. O primeiro, Mea culpa, obra  indigitada para o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, granjeou um enorme reconhecimento por parte do público e da crítica. O segundo, Um cão deitado à fossa, recebeu o prémio Cidade de Almada 2018 e o Prémio SPA, para o melhor livro de ficção narrativa 2023.

Já li e recomendo os dois romances da autora. 
partilho a minha opinião sobre os dois romances:





28 julho, 2024

𝑼𝒎 𝒄ã𝒐 𝒅𝒆𝒊𝒕𝒂𝒅𝒐 à 𝒇𝒐𝒔𝒔𝒂, de Carla Pais

 

Autora: Carla Pais
Título: Um cão deitado à fossa
N.º de páginas: 211
Editora: Porto Editora
Edição: Fevereiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3349)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de Um cão deitado à fossa estranha-se no início e depois entranha-se gradual e emocionalmente.

Estranha-se pela estrutura não linear da narrativa, pela alternância de vozes, a do narrador na 3.ª pessoa e a de Urbano, na primeira pessoa, pela repetição constante e ritmada de expressões/frases, pelas palavras cruas; entranha-se, exactamente, pelas mesmas razões pelas quais se estranha, mas sobretudo pela força e beleza da linguagem. A condução da sua narrativa revela uma capacidade brilhante de expor registos diferentes quer ao nível do grafismo quer ao nível da linguagem utilizada pelas personagens.

Nesta narrativa, a autora não poupa o leitor. A sua escrita, como já o referi, é cuidada e poética, mas é de uma extrema crueza. Este aspecto acaba por se destacar na medida em que é, na minha opinião, intencional. As palavras cruas e cruéis, difusamente repetidas nas falas, nas interrogações, nos pensamentos das duas personagens principais, Urbano e Ofélia, caem no leitor como “um soco”. 
Um soco que o desperta para a existência de uma cultura geracional (o livro aborda três gerações) enraizada numa sociedade machista e violenta, de submissão da mulher-objecto que cuida da casa e dos filhos “ (porque choras, mãe?) ”; um soco que põe a nu a indiferença “sou feito de pó (…) que se cola às paredes (…) do corpo, ainda não cresci, pai, falta-me carne dentro da pele suja”, o desamor, a infidelidade, a agressividade “és como a puta da tua mãe, um inútil, desgraçado…”; um soco que sacode as emoções de quem página após página “vive”, de igual modo, as agruras de uma vida rural povoada de fantasmas no pó dos dias da “madeira esfarelada que se crava na pele e nos olhos”; um soco que o acorda para a realidade violenta de uma família destruída.


Carla Pais, tal como em Mea Culpa, leva o leitor a reflectir sobre os sentimentos humanos, a dureza da vida e, neste caso em particular, sobre a família. A ausência de afectos, o sofrimento silencioso que muitas vezes cala a violência doméstica, a traição, a submissão da mulher ao homem são ainda agravos desprezíveis e inaceitáveis da nossa sociedade.

Para terminar, Um cão deitado à fossa, que remete para um verso de Herberto Helder, citado como epígrafe, caracteriza desde logo o protagonista. Urbano rejeitado por um pai numa família desfeita, vai ele próprio destruir a sua família, destratando a mulher e afastando afectivamente os filhos.

Por isso Carla Pais oferece-nos um livro que mexe com o leitor, que abala profundamente os seus sentimento e que o força a encarar a realidade de frente. Nem que para isso lhe envie “socos” e mais “socos”.
“ajeita o teu corpo no meu, Urbano”
(…)
“Ajeita os teus olhos nos teus filhos que cresceram,”

Se gostam de livros que mexem com as emoções e se ainda não conhecem a obra de Carla Pais procurem-na e leiam os seus livros. Não se vão arrepender.



13 novembro, 2017

Mea Culpa de Carla Pais



Trata-se de uma surpresa agradável, este primeiro romance de Carla Pais. Numa escrita poética, cuidada e crua, a autora narra-nos a história de duas personagens desprotegidas numa sociedade decadente, que nasceram “no outro lado da ponte”. Amadeu Jesus, filho de uma puta que vive na aldeia, cumpriu uma pena de dez anos, acusado de ter assassinado a filha do Sr. Presidente da Junta; Briosa, que tem uma mãe que passa o dia sentada à mesa a beber e um irmão acorrentado, gosta de se deitar em cima do curral das ovelhas para ver as estrelas. A autora desenvolve habilmente a narrativa e conta-nos os factos que levaram o protagonista à prisão, os mexericos próprios de uma aldeia, as injustiças sociais. Apesar da miséria e decadência existentes ao longo do romance, este termina com uma mensagem de esperança. 

Gostei muito.