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29 setembro, 2026

16 setembro, 2026

𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂, de Ana Paula Tavares



Autora: Ana Paula Tavares
Título: O Sangue da Buganvília
N.º de páginas: 247
Editora: Caminho
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3812)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Sangue da Buganvília, de Ana Paula Tavares, é um livro que exige vagar. Cada crónica nasce da terra e devolve ao leitor a memória de um país marcado por perdas profundas. A escrita da autora angolana é depurada, sensorial e feita de silêncios que revelam muito mais do que qualquer discurso directo. Aqui, a crítica social e histórica surge nos detalhes, nos objectos e nas vozes que atravessam o quotidiano.

A buganvília, bela metáfora, é o fio condutor deste livro. Esta árvore que cresce junto às casas e resiste ao calor e ao tempo, funciona como uma memória viva; guarda histórias, revela palavras e sonhos, protege rituais ancestrais e acompanha a vida das mulheres que sustentam o mundo através de um trabalho silencioso. Em cada crónica, há como um ramo que se estende para o passado e outro que procura o futuro. A árvore torna-se, assim, símbolo de continuidade, de força discreta, de permanência.

Grande parte das crónicas regressa a uma Angola ferida pela destruição, pela guerra, pela colonização e por políticas que teimam em não conseguir erguer o que foi destruído. As imagens criadas pela autora são simples, mas carregam uma verdade profunda. A dor aparece como uma sombra constante, a esperança surge num gesto e a memória funciona como a raiz que insiste em não morrer.

No centro desta resistência estão as vozes femininas, que atravessam o livro com uma firmeza impressionante. Estas mulheres são as verdadeiras guardiãs de saberes antigos e de práticas que mantêm a comunidade unida. Ana Paula Tavares escreve sobre elas com precisão e delicadeza, oferecendo-nos imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. A sua crítica surge de forma subtil, uma marca deixada por quem viveu demasiado para acreditar em soluções fáceis.

Ler O Sangue da Buganvília é entrar num território onde as recordações se entranham na própria terra. As crónicas avançam como ramos que procuram a luz, e penetram “na linguagem secreta das coisas da alma” como escreve a autora e destacou, também, Tania Macêdo no prefácio. O “sangue” do título evoca inevitavelmente o sangue derramado na história de Angola, um traço profundo que atravessa gerações e permanece vivo na identidade do seu povo.


21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


09 julho, 2026

𝑷𝒂𝒓𝒕𝒊𝒅𝒂, de Julian Barnes

 

Autor: Julian Barnes
Título: Partida
Tradutor: Salvato Teles de Menezes
N.º de páginas: 185
Editora: Quetzal Editores
Edição: Janeiro 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3778)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Partida, de Julian Barnes, surge como o seu testamento criativo definitivo, uma obra-prima onde o autor se despe de artifícios para estabelecer uma conversa com o leitor. Barnes escreve como se estivesse sentado ao nosso lado, numa esplanada de café, com um humor refinado e a consciência tranquila de quem sabe que esta é a sua última oportunidade de dialogar antes do silêncio definitivo.

O fio narrativo que sustenta esta reflexão é a história de Stephen e Jean, dois amigos de faculdade que namoraram na juventude e que foram apresentados pelo próprio narrador. Quarenta anos depois, após caminhos totalmente separados, os dois reencontram-se, de novo, com a cumplicidade do narrador, para tentar o que chamam de “a última possibilidade de ser feliz”. O contraste entre o amor idealizado da juventude e o afecto pragmático e adaptado à velhice serve de cenário perfeito para Barnes analisar o impacto avassalador do tempo nos afectos e nas relações.

É precisamente através deste reencontro que ganha uma importância fulcral a Memória Autobiográfica Involuntária (MAI). Enquanto a memória voluntária falha, esquece ou edita o passado, a MAI surge como uma força incontrolável. Através de gatilhos  inesperados como um vislumbre, um odor, um gesto, uma palavra… o passado assalta as personagens com uma verdade emocional e involuntária. Para Barnes, este mecanismo prova que os nossos "pequenos eus" da juventude continuam intactos e vivos dentro de nós, ligando o passado ao presente à revelia da nossa própria vontade, mesmo quando o corpo físico começa a falhar.

Essa falha do corpo é, aliás, o outro grande pilar do livro. Diagnosticado com um cancro no sangue, que espelha a própria realidade de Barnes, o narrador encara a doença que o acompanhará até ao fim com uma neutralidade desarmante. A velhice e a degradação física são tratadas como meros factos da biologia humana. Ele aborda a própria mortalidade através do filtro da ironia (muito britânica), como uma comédia ligeira que caminha inevitavelmente para um desfecho melancólico.

Pensei concluir, articulando esta despedida com O Sentido do Fim, uma vez que ambas as obras partilham a mesma estrutura de olhar para trás, após um hiato de quatro décadas. Escrito também na primeira pessoa, e com recurso a uma analepse de mais de 40 anos, a narrativa de O Sentido do Fim prende e inquieta o leitor desde o início. Nele, a escrita sensível e profunda patenteia o estado de espírito do protagonista, Tony Webster, impondo-se a um leitor que a lê avidamente, numa ânsia pela descoberta do final para libertar a personagem da agitação e da dúvida que a consomem. É aí que Barnes nos dá uma lição brutal sobre a importância do tempo que tece falhas na memória à medida que o homem envelhece, desenvolvendo o tema da morte focado nas circunstâncias e no que ficou na lembrança do protagonista, levando-nos a concluir que a “vida não é só adição e subtração. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso e remorso”.

Em Partida, Barnes dá o passo definitivo que pacifica essa inquietação. Se no livro anterior o leitor e Tony Webster ficavam sufocados pelo peso dessa acumulação de falhas, de perdas e remorsos, neste, o autor desiste do controlo racional e entrega a verdade à imprevisibilidade da MAI. Diante do diagnóstico, já não há a agitação ou a dúvida que consumiam o protagonista de O Sentido do Fim; há um despojamento pacífico. Julian Barnes já não procura decifrar ou julgar os erros do tempo; ele aceitou a finitude. Sendo este o último livro escrito pelo autor (assim, o afirma), a sua jornada criativa encerra-se aqui de forma intencional e lúcida. Contudo, para mim, enquanto leitora, Partida não será o ponto final absoluto. Se para ele este é o livro do adeus, para quem o lê a sua voz permanece viva, até porque ainda me restam descobrir e ler outras obras do seu passado. Enquanto a vida tem um final certo para o homem de carne e osso, a literatura garante que, para os seus leitores, os escritores, e neste caso, Julian Barnes, nunca deixarão de escrever.

 

17 junho, 2026

𝑴𝒊𝒓𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝑩𝒂𝒏𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑴ú𝒔𝒊𝒄𝒂, de Hernán Rivera Letelier



Autor: Hernán Rivera Letelier
Título: Miragem de Amor com Banda de Música
Tradutor: Carlos Vieira da Silva
N.º de páginas: 273
Editora: Quetzal Editores
Edição: Fevereiro 2000
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1117)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

A leitura de Miragem de Amor com Banda de Música marcou o meu primeiro contacto com o universo literário de Hernán Rivera Letelier, revelando-se uma excelente e surpreendente descoberta. Neste romance, o autor chileno transporta-nos com mestria para o ambiente árido da pampa salitreira do Atacama, no início do século XX. Através do cruzamento de vidas marcadas pela ilusão, a obra constrói um retrato humano profundo sobre a efemeridade da vida e do amor, as condições de trabalho e a resistência à opressão.

O motor emocional da narrativa assenta no contraste absoluto entre as duas figuras principais, Bello Sandalio, o trompetista boémio, mulherengo e destemido, e Golondrina del Rosario, a pianista idealista e de educação rígida. A ligação entre ambos surge através da música, que funciona como uma linguagem universal e um refúgio de sensibilidade num quotidiano duríssimo.

Esta paixão improvável desenvolve-se sob o peso de uma forte crítica social e política. O autor expõe sem rodeios as condições desumanas de trabalho nas explorações de salitre, onde a ambição do "ouro branco" esmaga a dignidade dos mineiros. Esta opressão culmina no idealismo revolucionário do barbeiro Sixto Pastor Alzamora, pai de Golondrina, cuja tentativa de tiranicídio espelha a revolta sufocada daquela população.

Toda esta envolvência é moldada pelo simbolismo do deserto do Atacama e da própria miragem. Tanto o amor impossível como a utopia política revelam-se meras ilusões, condenadas a desaparecer sob a areia e o esquecimento, tal como a própria povoação de Pampa Unión.

Miragem de Amor com Banda de Música revelou-se uma leitura profundamente marcante. O aspecto mais fascinante da obra reside no cruzamento magistral entre a crueza da vida salitreira, a complexa condição sociopolítica do Chile daquela época e a vida devassa que consumia aquela povoação no fim do mundo, onde os fins-de-semana dos salitreiros eram marcados pelo excesso e pelo álcool. Hernán Rivera Letelier consegue a proeza de transformar a miséria e o isolamento numa narrativa cheia de cor, música e humanidade. Foi, sem dúvida, uma excelente porta de entrada na literatura do autor. Diverti-me imenso com as peripécias amorosas e rocambolescas protagonizadas por certas personagens. 


17 maio, 2026

𝑨𝒔 𝑰𝒍𝒉𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔 - 𝑵𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝒑𝒂𝒊𝒔𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Raul Brandão

 


Autor: Raul Brandão
Título: As Ilhas Desconhecidas 
N.º de páginas: 204
Editora: Quetzal
Edição: Março 2011
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (3467)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐



As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, de Raul Brandão, é um livro de viagens que se lê como se percorresse uma galeria de quadros vivos. O autor não descreve apenas as ilhas, pinta-as, atribui-lhes um encanto particular e muito próprio. Cada página é uma tela onde a luz, o vento, o mar e as pessoas surgem em pinceladas largas, ora luminosas, ora sombrias, mas sempre intensas.
“Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com o sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima.” (p. 146)

Como acabei de referir, Brandão encontra nos Açores uma beleza agreste, feita de contrastes. As ilhas que visita revelam-lhe a alma do arquipélago e oferecem-lhe uma paleta inesperada, o dourado dos campos, o roxo profundo das hidrângeas/hortênsias, os verdes múltiplos das encostas, o alaranjado do sol, o negro do pico, o branco e cinzento das nuvens e o azul imenso do mar. Ele próprio se deslumbra com as “manchas roxas” das hidrângeas que bordam as estradas, e escreve, com gratidão poética, que o homem que teve essa ideia merecia uma estátua.
Mas para além da beleza, Brandão vê a dureza da vida. No Corvo, sobretudo, encontra uma comunidade pequena e resistente, moldada pelo isolamento, pelo clima severo e pela força do mar. A vida ali é um combate diário, mas também um exemplo de união. Todos se conhecem, todos se ajudam, todos dependem uns dos outros, todos são parentes. É uma humanidade sólida e silenciosa, que o impressiona tanto quanto a paisagem.

A essa dureza junta-se a pesca da baleia, uma das tarefas mais árduas e perigosas que ele testemunha. Brandão descreve os botes frágeis lançados ao mar, a coragem dos homens que enfrentam o animal colossal, o trabalho exaustivo que se segue para extrair o óleo e o cheiro intenso que impregna roupas, mãos, ar, chão. A peca à baleia surge como uma epopeia quotidiana feita de risco numa relação íntima com o mar.

O Pico, visto à distância, torna-se quase personagem. De São Jorge ou do Faial, a montanha surge como uma aparição que muda de forma conforme a luz e o nevoeiro.
“ISTO QUE DE LONGE era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno.” (p. 93)

E depois há a Madeira, que completa o arco da viagem. Após a rudeza atlântica dos Açores, surge como um jardim suspenso, mais luminoso e “muito inglês”, demasiado inglês para o autor. Aqui, a natureza parece dialogar com o homem de forma mais suave. A cor também é outra, mais tropical, mas o olhar crítico de Brandão mantém-se atento, impressionista, capaz de transformar cada detalhe em pintura.

A escrita de Raul Brandão é de uma enorme sensibilidade. Não se limita ao olhar, oferece o sabor do leite, do vinho, das frutas; convoca o cheiro da terra, o aroma dos ananases, o perfume do chá nas encostas, e até a doçura das bananas madeirenses. Cada frase abre uma porta para dentro da paisagem, como se o leitor respirasse o mesmo ar que ele. É uma prosa que vê, que cheira, que toca e que, por isso mesmo, pede ritmos próprios, pausas, desvios (pesquisa de imagens), reflexões e até sorrisos. Alguns desses ritmos pertencem, apenas, à beleza da frase. Os travessões, por exemplo, o autor usa‑os com naturalidade e insistentemente. Para os espíritos apressados que hoje vêem travessões e logo suspeitam de máquinas, vale a pena lembrar que Raul Brandão — esse pintor de palavras — usava e abusava deles muito antes de existir qualquer IA. O estilo não é um algoritmo, é uma voz. E a dele continua viva, luminosa e cheia de travessões.

No conjunto, As Ilhas Desconhecidas é um livro que revela lugares e modos de estar no mundo. A força das paisagens, a dignidade das gentes, a vibração das cores, a dureza da baleação, a instabilidade do tempo e a escrita que parece pintura fazem desta obra uma das mais belas viagens literárias da nossa literatura.



09 abril, 2026

𝑶 𝑷𝒐𝒅𝒆𝒓 𝒅𝒂 𝑳𝒊𝒕𝒆𝒓𝒂𝒕𝒖𝒓𝒂, de Maria do Carmo Vieira

 


Autora: Maria do Carmo Vieira
Título: O Poder da Literatura
N.º de páginas: 125
Editora: FFMS
Edição: Abril 2025
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3694)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




O Poder da Literatura revela, desde as primeiras páginas, a força que a leitura pode ter quando encontra leitores dispostos a agir. Um dos aspectos mais fascinantes do livro é o relato do trabalho desenvolvido em torno do Café Martinho da Arcada.
A partir da leitura de Fernando Pessoa, um grupo de alunos da Escola Secundária Marquês de Pombal, nos anos 80, descobre naquele café não apenas um cenário biográfico, mas um lugar de memória a exigir cuidado. O livro acompanha o modo como esses jovens, inicialmente distantes da poesia, se envolvem numa verdadeira cruzada cívica: organizam um abaixo-assinado, criam a APAMA – Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, promovem um concurso internacional de arquitectura e mobilizam esforços para impedir a descaracterização do espaço.
Este percurso mostra como a literatura pode sair do livro, atravessar a sala de aula e inscrever-se na cidade, convertendo um gesto de leitura numa forma de cuidado cívico.

O Martinho da Arcada surge, assim, não apenas como cenário pessoano, mas como um lugar onde memória, identidade e pertença se entrelaçam. Ao acompanhar o empenho dos alunos na defesa daquele espaço, Maria do Carmo Vieira mostra como a literatura pode despertar um sentido de responsabilidade cultural que vai muito além do cumprimento do programa. A mobilização que estes jovens conseguiram é, aliás, notável: figuras da política, do meio artístico, do universo educativo e muitas pessoas anónimas juntaram-se à causa, reconhecendo no café um símbolo que merecia ser preservado. O Martinho torna-se, deste modo, um território simbólico, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a voz de Pessoa e a voz dos jovens que o redescobrem. E a intervenção dos alunos revela que a leitura, quando verdadeiramente vivida, é capaz de gerar cuidado, mobilização e continuidade.

No centro de O Poder da Literatura está também a figura de Maria do Carmo Vieira, uma professora cuja presença pedagógica ultrapassa largamente o espaço da sala de aula. O livro revela uma docente que alia conhecimento profundo, entusiasmo contagiante e uma empatia firme, capaz de transformar alunos que, à partida, não gostavam de Português, de poesia ou de Fernando Pessoa. A sua prática pedagógica assenta na convicção de que a literatura pode despertar, orientar e mobilizar. E é essa confiança no poder formativo dos textos que permite que os alunos se aproximem da leitura não como obrigação escolar, mas como descoberta pessoal e caminho de pertença.
A força do seu ensino reside numa combinação rara de rigor e afecto. Maria do Carmo Vieira não simplifica os textos para os tornar “acessíveis”; convida os alunos a subir até eles, confiando na sua capacidade de sentir e pensar. Essa exigência, temperada por uma atenção genuína às fragilidades e potencialidades de cada um, cria um ambiente onde a leitura deixa de ser um exercício escolar e ganha espessura interior. A professora não impõe entusiasmo: contagia-o. E é nesse gesto, simultaneamente intelectual e humano, que se percebe como conseguiu transformar alunos inicialmente distantes da literatura em leitores atentos, curiosos e capazes de reconhecer na palavra poética uma forma de se aproximarem do mundo.

Há, contudo, no livro, uma afirmação que merece ser interrogada: a ideia de que “todo o professor de Português gosta de ler”. Maria do Carmo Vieira formula-a a partir da sua própria ética profissional, onde a leitura é um gesto vital e quotidiano. Mas a minha leitura levou-me a suspender essa generalização. A experiência escolar mostra que nem todos os docentes cultivam uma relação viva com os livros, e que o gosto pela leitura não é um atributo automático da profissão, mas uma prática que exige dedicação, curiosidade e disponibilidade interior. É precisamente por isso que o exemplo da autora se destaca. porque. O ponto de interrogação que deixei nas margens do livro não diminui a força da sua afirmação; antes sublinha a singularidade da sua presença pedagógica.

O Poder da Literatura é, no fundo, a demonstração concreta de que a leitura pode transformar pessoas e lugares quando encontra mediadores verdadeiros. A luta pelo Martinho da Arcada, a mobilização inesperada de alunos e de toda uma comunidade, e a presença luminosa de Maria do Carmo Vieira revelam como a literatura, quando ensinada com autenticidade, ultrapassa o espaço escolar e inscreve-se na vida. Ao apresentar a ideia de que todos os professores de Português gostam de ler, o livro convida também a pensar sobre o que significa ensinar literatura hoje. Não basta transmitir conteúdos e “formatar” para os exames, é necessário criar condições para que a palavra literária se torne experiência, descoberta e responsabilidade.
A força deste livro reside em mostrar que a literatura continua a ser um lugar onde o mundo se pode reencontrar. E que mundo maravilhoso!


09 março, 2026

𝑴𝒂𝒓𝒈𝒖𝒆𝒓𝒊𝒕𝒆 𝒀𝒐𝒖𝒓𝒄𝒆𝒏𝒂𝒓 - 𝑳𝒊𝒃𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒆 𝑷𝒂𝒊𝒙ã𝒐, de Cristina Carvalho



Autora: Cristina Carvalho
Título: Marguerite Yourcenar - Liberdade e Paixão
N.º de páginas: 150
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2025
Classificação: Romance biográfico
N.º de Registo: (3755)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


No Dia Internacional da Mulher, poucas leituras dialogam tão profundamente com a liberdade feminina como Marguerite Yourcenar – Liberdade e Paixão, de Cristina Carvalho. Não é uma biografia convencional, nem um estudo literário, mas, sim, um romance biográfico onde duas mulheres de pensamento livre se encontram: a biografada, Marguerite Yourcenar, e a autora, que lhe empresta a voz e, por vezes, deixa entrever a sua própria respiração.

Cristina Carvalho escreve na primeira pessoa, assumindo a voz de Yourcenar. E, ao fazê-lo, aproxima-se da mulher por detrás da escritora; do seu olhar atento; do seu caminhar; dos gestos quotidianos que revelam mais do que qualquer análise académica. A biógrafa, repetidamente, informa que não pretende “escarafunchar” a obra publicada; prefere partilhar pormenores do dia-a-dia, a infância, a juventude, as paixões que a moldaram e que a tornaram uma figura singular no panorama literário do século XX. Yourcenar conquista um lugar histórico ao tornar-se a primeira mulher a entrar para a Academia Francesa de Letras, em 1980. Um feito extraordinário, mas longe de ser simples. A sua homossexualidade e o facto de ter adquirido a nacionalidade americana alimentaram resistências entre os membros mais conservadores da instituição. Ainda assim, como Cristina Carvalho sugere, mesmo entre os conservadores há espíritos inteligentes que reconheceram, acima de tudo, a grandeza da obra de Yourcenar.

Entre as paixões que a moldaram, destaca-se a relação fundadora com o pai, Michel René, homem inteligente, culto, compreensivo, sonhador, pecador… Foi o seu primeiro mestre, o primeiro companheiro de viagem, aquele que lhe transmitiu o amor pelos livros, pelas línguas, pela cultura e pelo mundo.
A infância feliz, em Mont Noir, na Flandres, com a sua paisagem densa e formadora, surge como um território mítico onde se adivinha já a escritora que virá a ser. Mais tarde, em Mount Desert Island, no Maine, a ilha torna-se o cenário perfeito para a maturidade de Marguerite; um lugar onde a sua liberdade encontra finalmente morada.

Também as relações amorosas surgem tratadas com respeito e humanidade. Grace Frick, companheira de décadas, presença sólida e cúmplice; Jerry Wilson, paixão tardia e frágil. Cristina Carvalho não dramatiza, não julga; observa. E nessa observação há uma ética profunda.

A natureza, os animais, a paisagem são elementos centrais na vida de Yourcenar. São presenças vivas, quase espirituais. E é precisamente nesses momentos que sentimos a voz de Cristina Carvalho emergir, discreta mas firme, revelando afinidades que atravessam o tempo: o pensamento livre, a paixão pelo mundo natural, a recusa de viver segundo expectativas alheias.

O resultado é um livro que respira. Respira liberdade, paixão, silêncio, rigor. E mostra como duas mulheres, separadas por décadas, podem encontrar-se num mesmo modo viver, de estar no mundo. Atento, indomável, profundamente humano.

É uma leitura que permite clarificar a compreensão da obra de Marguerite Yourcenar, sobretudo para quem a admira e deseja aproximar-se da mulher por detrás dos livros. Cristina Carvalho oferece-nos essa possibilidade como um murmúrio, uma lembrança de que a liberdade se constrói todos os dias, nos gestos pequenos e nas escolhas silenciosas. E talvez seja essa a maior homenagem deste romance biográfico, já que nos permite caminhar ao lado de Marguerite Yourcenar, mulher livre, feliz, apaixonada e culta.


 

18 fevereiro, 2026

𝑫𝒆𝒅𝒊𝒄𝒐-𝒍𝒉𝒆 𝒐 𝑴𝒆𝒖 𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐, de Mario Vargas Llosa

 

Autor: Mario Vargas Llosa
Título: Dedico-lhe o Meu Silêncio
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 252
Editora: Quetzal
Edição: Julho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3656)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 



Dedico‑lhe o Meu Silêncio é um romance breve e surpreendentemente luminoso, onde Mario Vargas Llosa regressa ao Peru pela via mais íntima, a da música crioula.
A narrativa organiza‑se em alternância: um capítulo acompanha Toño Azpilcueta e a sua obsessão sobre a valsa peruana e o desejo de escrever o livro sobre a vida fugaz de Lalo Molfino, o génio da guitarra; o capítulo seguinte abre‑se para a história cultural do Peru, explorando a música popular como veículo da identidade do país. Este movimento contínuo entre o percurso individual e a memória colectiva dá ao romance uma pulsação própria e profundamente envolvente. Entre essas duas linhas narrativas, a figura de Lalo Molfino destaca‑se como o coração musical do romance. É através dele que o livro encontra a sua vibração mais funda: “Não, não era simplesmente a destreza com que os dedos do chiclayano arrancavam notas que pareciam novas. Era algo mais. Era sabedoria, concentração, mestria extrema, milagre.” (p. 29)

A música crioula surge como território afectivo e como espelho do Peru: mestiça, popular, contraditória, capaz de atravessar classes sociais e de abalar preconceitos. Toño acredita, com uma fé quase utópica, que a valsa peruana tem a força de unir o país, de reconciliar diferenças, de recordar a todos uma origem comum. Essa crença, ingénua e grandiosa, dá ao romance uma vibração emocional rara, como se Llosa escrevesse para salvar uma música que, sendo do povo, “inspira a sociabilidade”.

Um outro elemento forte do romance é a metáfora das ratazanas, que atormentam Toño sempre que algo lhe corre mal. Para ele, esses animais representam “a corrupção, a doença e a debilidade” que ameaçam o espírito colectivo da música crioula. São a sombra do país e a sombra do próprio protagonista: forças que corroem, que dividem, que minam a utopia de união que a valsa crioula promete. Sempre que falha, Toño “sente” as ratazanas a treparem‑lhe pelo corpo, como se o seu medo tivesse forma e movimento. Esta imagem, tão física e tão perturbadora, contrasta com a leveza da música e reforça a tensão entre o sonho e a ruína que atravessa o romance.

É aqui que Lalo Molfino se torna essencial. Ele encarna o génio popular e, simultaneamente, a ruína; o músico que não precisa de teoria nem de tratados para compreender a alma da valsa peruana, não sabe conviver com os pares. A sua guitarra é memória, improviso, dor e festa. Através dele, Llosa mostra que a música crioula não é apenas um género, mas uma forma de estar no mundo, uma respiração colectiva. “(…) serviu para aproximar as pessoas e combater os preconceitos e o racismo.” (p. 91)

O arco das três edições do livro dentro do livro funciona como uma parábola sobre o acto de criar. A primeira edição nasce após múltiplas revisões; a segunda confirma o sucesso; a terceira, inflada por mais cem páginas, revela o perigo do excesso. A ruína editorial que se segue é também simbólica. Llosa sugere que há um momento em que a obra deixa de pertencer ao autor e passa a pertencer ao mundo.

No fundo, este romance é uma homenagem ao poder e à beleza da música que vive na voz e nos sons dos seus autores e que incarna uma identidade que se reinventa a cada momento. Llosa celebra a utopia de acreditar que uma música pode unir um povo, mesmo sabendo que essa utopia é, talvez, o mais belo dos fracassos.



06 fevereiro, 2026

𝑨𝒔𝒔𝒊𝒎 𝑳𝒉𝒆𝒔 𝑭𝒂𝒛𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒂 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Joseph Andras

 


Autor: Joseph Andras 
Título: Assim Lhes Fazemos a Guerra
Tradutor: Luís Leitão
N.º de páginas: 108
Editora: Antígona
Edição: Abril 2022
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3772)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Joseph Andras é um caso singular na literatura contemporânea. Segundo a breve pesquisa que registei, recusa prémios (Prix Goncourt 2016 e Prix Maya 2022), recusa fotografias, recusa a maquinaria da consagração. Escreve na sombra, com pseudónimo, quase clandestino, e talvez por isso a sua voz seja tão livre. Pouco conhecido do grande público, tornou‑se, no entanto, uma das consciências éticas mais intensas da literatura francesa.

Andras funde rigor documental e sensibilidade pelo que a sua escrita é de uma precisão admirável e de uma prosa poética, feita de frases tensas e contidas, que afasta o sentimentalismo e o espectáculo da dor. Há nela uma ética do olhar, firme, lúcida, sem adornos e uma economia verbal que questiona o conceito de progresso científico, da exploração animal e das minorias e que aproxima o leitor dos factos com uma lucidez quase física.

Em Assim Lhes Fazemos a Guerra, Andras constrói um tríptico a partir de três acontecimentos reais, separados por mais de um século e por três geografias distintas (Londres, Califórnia, Charleville). Cada painel acompanha um animal colocado no centro de práticas humanas que raramente são questionadas, mas que aqui surgem expostas na sua dimensão ética. Sem revelar o que sucede em cada caso, basta dizer que o autor convoca episódios documentados que atravessam laboratórios, instituições e sistemas de produção, e que os inscreve na história dos movimentos de libertação animal, que há mais de um século denunciam esta violência normalizada.

E há um detalhe que retive no terceiro painel. Andras convoca Rimbaud, porque a acção decorre em Charleville, a cidade natal do poeta, e evoca a forma como ele morreu, como se essa memória iluminasse o que está em jogo no episódio.
A metáfora é de Andras, mas ressoou em mim, porque também Rimbaud sentiu a urgência da fuga, a recusa do destino imposto. Há nessa coincidência uma pequena rebelião poética, um lampejo de liberdade no meio da violência banalizada.


12 janeiro, 2026

𝑶 𝑻𝒆𝒔𝒐𝒖𝒓𝒐, de Selma Lagerlöf

 


Autora: Selma Lagerlöf
Título: O Tesouro
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 92
Editora: Cavalo de Ferro
Edição(4.ª): Junho 2023
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3771)

OPINIÃO ⭐⭐⭐/⭐



O Tesouro, de Selma Lagerlöf, parte de um crime brutal no presbitério de Marstrand para construir uma narrativa onde a violência inicial se transforma em ferida moral duradoura. 
Elsalill, única sobrevivente, cresce entre a necessidade de afecto e a memória traumática que a habita. A ambiguidade das suas reflexões nasce dessa tensão. A jovem deseja confiar e amar, mas carrega dentro de si a sombra do passado, que regressa sob a forma do fantasma da irmã. Esta aparição não é mero artifício sobrenatural, funciona como consciência ética, lembrança viva da injustiça e força que impede Elsalill de se entregar ao esquecimento. A sua interioridade oscila entre o impulso de ter uma vida melhor e o dever de recordar, e é dessa oscilação que o conto retira a sua força trágica.

A natureza desempenha um papel decisivo e quase mítico. O mar gelado, que impede os barcos de navegar, funciona como barreira física e moral. Enquanto o crime permanece impune, a própria paisagem se fecha, como se recusasse permitir a fuga ou a continuação da vida normal. Só quando os ladrões e assassinos são finalmente identificados e presos é que uma tempestade súbita provoca o degelo, abrindo novamente as rotas marítimas. Este momento, situado entre o natural e o sobrenatural, sugere que a natureza participa na restauração da justiça, alinhando‑se com a verdade que insiste em emergir. O mar, o vento e a noite não são cenário, mas agentes silenciosos que vigiam o destino das personagens e protegem o tesouro manchado de sangue.

Publicado cinco anos antes de Selma Lagerlöf receber o Prémio Nobel da Literatura — distinção que a tornou na primeira mulher laureada — este conto já revela o poder singular da sua escrita. A autora une imaginação e ética, realismo e lenda, numa prosa clara e encantatória que transforma uma história breve numa meditação sobre culpa, responsabilidade e destino. O Tesouro mostra, em miniatura, a amplitude da obra de Lagerlöf e antecipa a razão pela qual a sua voz se tornou uma das mais marcantes da literatura europeia.

A leitura deste conto ganha ainda mais profundidade quando colocada ao lado de outras obras da autora que já percorri, como A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia e O Livro das Lendas. Esses livros revelam a amplitude da sua imaginação, a delicadeza com que trabalha o maravilhoso e a forma como entrelaça ética, natureza e mito. Reconheço, em O Tesouro, a mesma força narrativa que atravessa toda a sua obra. A capacidade de transformar histórias simples em meditações luminosas sobre a condição humana. 
Ler este conto depois dessas obras é reencontrar Selma Lagerlöf na sua essência — uma voz pioneira, clara e encantatória, que continua a ressoar muito para além do seu tempo.



16 dezembro, 2025

𝑳𝒊çõ𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑮𝒓𝒆𝒈𝒐, de Han Kang

 

Autora: Han Kang
Título: Lições de Grego
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 193
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Outubro 2024
Classificação: romance
N.º de Registo: (3647)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Na constelação literária de Han Kang — onde o corpo, o silêncio e a ferida são matéria de escrita — Lições de Grego surge como um romance de aproximação lenta, feito de gestos mínimos e de uma escuta atenta. Em diálogo com o universo de A Vegetariana, este romance volta a explorar o corpo que falha e a linguagem que se fragmenta, mas fá-lo com uma luz mais ténue, mais humana.

A protagonista vive num mutismo, consequência de  traumas recentes: a morte da mãe e a perda da custódia do filho. A voz não lhe responde — não como função física, mas como gesto emocional. O silêncio torna-se o único território onde ainda consegue respirar. É um silêncio denso, activo, que organiza o luto e protege o que resta dela.

O professor de Grego enfrenta a perda progressiva da visão. O mundo estreita-se, desfoca-se, ameaça desaparecer. A cegueira iminente não é apenas diagnóstico, é metáfora da fragilidade, da dependência crescente, da necessidade de reaprender a ver para além do visível.

Ambos carregam fragilidades que não os definem, mas que moldam a forma como se aproximam do outro.

Ela conhece o professor nas aulas. Entra muda e permanece muda. E, no entanto, a sua presença é tudo menos passiva. O silêncio dela tem peso e ambivalência, como uma presença que se move sem fazer ruído. Obriga-o a abrandar, a ajustar o ritmo, a ensinar de outra maneira. Ele, que vê cada vez menos, aprende a perceber gestos, pausas, respirações. Ela, que não consegue falar, encontra outras formas de comunicar.

A relação nasce dessa interdependência discreta. Uma relação que não resolve, mas que ilumina. Uma relação que transforma o silêncio em gesto e a fragilidade em possibilidade.

Se A Vegetariana explora a recusa do corpo — o corpo que se nega, que se retira do mundo — Lições de Grego trabalha o corpo que falha, mas que continua a procurar ligação. Nos dois livros, Han Kang escreve a violência interior com uma delicadeza quase orgânica. Em ambos, o silêncio é linguagem. E em ambos, o corpo é metáfora e campo de batalha.

Aqui, ao contrário da radicalidade de A Vegetariana, há uma ternura subterrânea, uma aproximação lenta, quase respiratória. O que une estes dois romances é a capacidade de Han Kang de transformar o que é frágil em matéria luminosa.

A estrutura do romance acompanha essa respiração. Alterna momentos de introspecção com cenas de grande quietude, onde o gesto substitui a palavra e o silêncio ocupa o espaço narrativo. Não há pressa em avançar a acção; o que importa é o movimento interior, a forma como cada personagem se recria. A narrativa progride como quem tacteia no escuro — devagar, mas com intensidade crescente. A estrutura fragmentada espelha essa incompletude, essa tentativa de reconstruir sentido a partir do que se perdeu.

Há ainda uma musicalidade subtil: repetições, pausas, motivos que regressam como ecos. É uma escrita que pede atenção e convida o leitor a entrar no mesmo compasso das personagens — um compasso feito de silêncio e hesitação. Depurada, precisa, quase respiratória, a prosa de Han Kang assenta em frases curtas, ritmo contido e imagens sensoriais que traduzem o que as personagens não conseguem dizer.

Lições de Grego é um romance sobre duas solidões que se reconhecem. Sobre corpos que falham e, ainda assim, procuram sentido. Han Kang transforma fragilidade em forma literária, num livro que se lê devagar, como quem aprende uma língua nova — uma língua feita de silêncio, de cuidado e de uma luz que se insinua mesmo nos momentos mais sombrios.




16 novembro, 2025

𝑽𝒊𝒈í𝒍𝒊𝒂𝒔, de Al Berto

 


Autor: Al Berto
Título: Vigílias (antologia)
Selecção: José agostinho Baptista
N.º de páginas: 207
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Maio 2004
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (1729)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Vigílias — Al Berto lido por José Agostinho Baptista

Vigílias é uma antologia de poemas de Al Berto, escolhida e apresentada por José Agostinho Baptista, que lhe dedica um prólogo intenso e sensível. Publicada em 2004, na colecção Grãos de Pólen (Assírio & Alvim), procura condensar a força da obra de Al Berto numa selecção que privilegia o gesto poético como vigília — estado de atenção e combustão.

Nesta colecção, cada volume é uma antologia escolhida por outro poeta, criando diálogo entre gerações. Aqui, Baptista lê Al Berto como alguém que “ardia nas chamas da alta combustão do poema”, sugerindo que cada verso é vigília contra o esquecimento.

O título Vigílias evoca permanência: estar acordado diante da vida e da morte, da memória e da paisagem. Dentro de Uma existência de papel, há uma secção intitulada “Vigílias” com seis poemas, todos incluídos na antologia. Foi desse núcleo que Baptista retirou o título, transformando-o em chave simbólica de leitura. O fecho dessa secção condensa a essência da obra:
“então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e desgasto”

É desta vigília que nasce a antologia: escrita como iluminação e desgaste, combustão que atravessa corpo, território e memória.

Todos os poemas reunidos integram O Medo, a colectânea completa. Ao reunir esta selecção, Baptista oferece ao leitor uma entrada mais acessível na obra de Al Berto. A poesia, densa e fragmentada, não é de leitura imediata; Vigílias funciona como chave de iniciação, abrindo caminho para a combustão integral de O Medo.

No prólogo, Baptista afirma: “Nada, quase nada, há que dizer sobre os poetas. Eles que digam tudo, quase tudo, eles que nos cerquem, que nos toquem.” O prólogo é, assim, uma declaração de afinidade poética, sublinhando a energia vital e inquieta que atravessa os versos.

Na antologia, o corpo surge como pele-papel, lugar de inscrição e de memória. Em livros como Outros Corpos, Sete dos Ofícios, Trabalhos do Olhar e Uma Existência de Papel, o corpo é atravessado por desejo e fragilidade, cada poema funcionando como cicatriz ou tatuagem de fogo. A escrita não é apenas representação, é ferida que se abre e cicatriz que permanece, transformando o corpo em suporte vivo da poesia.

A antologia segue uma ordem cronológica e dá relevo ao território. Sines aparece em mar-de-leva, mas também em poemas que evocam lugares concretos como a “Quinta de Santa Catarina”, a “Rua do Forte”, São Torpes ou Milfontes. O mar, o porto e as ruínas tornam-se páginas vivas, papel marítimo onde o poema se inscreve. Aqui, a vigília é comunitária: o poeta vigia a cidade, e a cidade vigia o poeta.

Em O Livro dos Regressos, a pele guarda o passado como chama que ainda arde. Infância, lugares perdidos e pertença inscrevem-se como memória viva. O regresso é inscrição na pele do tempo, papel onde o passado se grava e se prolonga.

Mas Vigílias é também melancolia: a vida que se abate sobre a folha de papel, o corpo que se ilumina e se desgasta, a cidade que se inscreve em ruína e saudade. A antologia abre caminho ao leitor, mas mantém essa sombra, como vigília silenciosa que acompanha cada poema.

Já escrevi sobre vários livros de Al Berto e o título que dei a um trabalho mais longo — Al Berto in lugares: o deambular da melancolia lunar do corpo — nasce de dentro da própria obra e também da antologia. Tal como Baptista escolheu Vigílias como chave de leitura, também eu inscrevi a minha leitura crítica num verso que condensa corpo, território e melancolia. A crítica torna-se continuação da poesia: vigília, errância, melancolia e combustão.

Em suma, para quem não conhece a obra de Al Berto, Vigílias é uma porta de entrada: oferece uma selecção que privilegia intensidade e ressonância, convocando o leitor para estar atento à vigília silenciosa dos poemas.


22 outubro, 2025

𝑼𝒎 𝑫𝒊𝒂 𝒏𝒂 𝑽𝒊𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑨𝒃𝒆𝒅 𝑺𝒂𝒍𝒂𝒎𝒂, de Nathan Thrall

 

Autor: Nathan Thrall
Título: Um Dia na Vida de Abed Salama
Tradutora; Sara Veiga 
N.º de páginas: 205
Editora: Livros Zigurate
Edição: Outubro 2023
Classificação: Testemunho
N.º de Registo: (3553)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Um Dia na Vida de Abed Salama é mais do que uma reportagem sobre um trágico acidente envolvendo crianças em visita de estudo a um parque temático, nos arredores de Jerusalém. É, sobretudo, um testemunho pungente do conflito israelo-palestiniano e da vida quotidiana sob ocupação.
Milad Salama, filho de Abed Salama, é uma das crianças envolvidas no acidente de viação — ponto de partida para uma narrativa que se desdobra em múltiplas camadas de dor, resistência e denúncia.

Nathan Thrall, jornalista americano radicado em Israel, entrelaça com mestria o relato do acidente com a crónica da segregação imposta ao povo palestiniano. Ao longo do livro, revela-se o labirinto de constrangimentos que molda o dia-a-dia: cartões de identidade verdes ou azuis que restringem a circulação, muros que se erguem como fronteiras físicas e simbólicas, a “auto-estrada do apartheid” que separa, e os postos de controlo que atrasam — ou impedem — a assistência em momentos de urgência. O acidente, que vitimou oito crianças, expõe com brutal clareza como a pertença palestiniana condiciona até o socorro. Arruinou vidas. Deixou marcas em todos.
“O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira.” (p. 194)

A falta de assistência imediata às crianças palestinianas não é apenas uma consequência logística — é um reflexo brutal da estrutura de segregação que atravessa o território. O tempo de resposta foi dilacerado por barreiras físicas e burocráticas: ambulâncias impedidas de circular livremente, pais retidos em postos de controlo, hospitais inacessíveis por estarem do “lado errado” do muro. Cada minuto perdido foi uma consequência directa da geografia da exclusão. O livro revela como, num momento em que a urgência deveria unir, a ocupação separa — e como a infância palestiniana é atravessada por essa violência estrutural desde o primeiro suspiro.

Com este livro, Thrall conquistou o Prémio Pulitzer de Não Ficção (2024). A sua experiência jornalística, aliada a uma escrita literária precisa e comovente, oferece-nos a visão de um mundo colapsado, onde a tragédia, a opressão e a segregação são ingredientes quotidianos. Num tempo em que o ódio, a desumanização e a xenofobia crescem, este livro convoca-nos à escuta, à análise das causas e à urgência de estar informado.



13 setembro, 2025

𝑮𝒆𝒏𝒕𝒆 𝒅𝒆 𝑫𝒖𝒃𝒍𝒊𝒏, de James Joyce

 

Autor: James Joyce
Título: Gente de Dublin
Tradutor: B. de Carvalho
N.º de páginas: 221
Editora: Vega/Público
Edição: 1995
Classificação: Contos
N.º de Registo: (563)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Gente de Dublin (Dubliners) é considerada por muitos como uma obra-prima já reveladora da genialidade estilística e temática de James Joyce. Publicada em 1914, contém quinze contos que retratam com precisão e melancolia a vida quotidiana da classe média e trabalhadora de Dublin, no início do século XX.

Cada história é autónoma, mas juntas formam um retrato colectivo da cidade, como espaço estagnado, e dos seus habitantes. Nelas, nas histórias, Joyce constrói um mosaico de vidas marcadas pela memória, pela ironia devastadora, pela hesitação emocional, pela rotina, pela perda da fé, pela paralisia intelectual e pela morte – morte de sonhos, de possibilidades, de relações.

Joyce recorre a uma escrita realista, precisa e observadora, evita sentimentalismos e usa a cidade – Dublin – como presença viva que molda os destinos das suas personagens. O passado e a memória são uma constante. Influenciam na tomada de decisão de algumas personagens, gente simples, e revelam uma identidade irlandesa, muito conservadora, em busca de sentido.

Gente de Dublin revela-nos um território íntimo e crítico atravessado por silêncios e desejos não concretizados. Cada conto evolui ao ritmo do seu protagonista, numa época de transformações socais e políticas, permitindo ao leitor aceder a camadas da relação, da vida humana sem que aconteçam grandes sobressaltos. É sempre o habitual, a normalidade que prevalece. Tudo fica igual, não há suspense. Muitos contos não apresentam uma conclusão, uma solução ao problema. Mas engane-se quem considerar que, pelo facto de não haver surpresas na evolução da história, a narrativa se torna aborrecida. Não! A beleza da escrita de Joyce encarrega-se de nos manter cativos ao enredo. A ingenuidade aparente de alguns relatos convida-nos à reflexão e surpreende-nos.

Gostei da leitura deste livro. Destaco o último conto – O Morto – que testemunha o desmoronar de uma época, de um país. Bela metáfora.




17 agosto, 2025

𝑨 𝑴𝒂𝒕é𝒓𝒊𝒂 𝑫𝒂𝒔 𝑬𝒔𝒕𝒓𝒆𝒍𝒂𝒔, de Isabel Rio Novo




Autora: Isabel Rio Novo
Título: A Matéria Das Estrelas
N.º de páginas: 191
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3711)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Já o referi, mais do que uma vez, e reitero que considero a Isabel Rio Novo uma das melhores escritoras portuguesas na nossa produção literária contemporânea.
Ao iniciar, A Matéria das Estrelas, já sabia que a fasquia estava elevada. O romance já recebera um prémio e as críticas eram muito positivas. Sabia de antemão que ia gostar, quando se gosta muito de um(a) autor(a) nunca se fica desiludido. Mas sabendo tudo isto, ainda fui surpreendida e fiquei muita agradada ao perceber que este romance dava uma enorme “piscadela de olho” a uma obra de Paulo M. Morais (obra magnífica e que recomendo muito). Não vou revelar muito desta interacção, para não retirar o prazer da descoberta, refiro, apenas que o protagonista, Jacinto, é também uma personagem do livro A Boneca Despida.
Esta cumplicidade entre os dois escritores, engrandece-os, na minha opinião. E se no livro, a dedicatória de Isabel Rio Novo “Ao Paulo, com quem caminho pelos terrenos da realidade e da ficção”, já fazia sentido pelo apoio mútuo com que se brindam, agora, faz ainda muito mais sentido.

Em A Matéria das Estrelas, Isabel Rio novo conduz o leitor até meados do século XX (anos 60 e 70) com incursões ao tempo das navegações, sobretudo de Bartolomeu Dias. A narrativa balança harmoniosamente entre a história de Jacinto, de Bartolomeu Dias e a do narrador investigador e omnisciente. A autora revela uma grande mestria ao cruzar os diversos tempos da narração: o histórico, o psicológico, o da memória, e o da ficção.

A narrativa oferece diversas camadas de leitura. São vários os temas abordados, mas podemos referir que se foca, essencialmente, no incidente misterioso que alterou o destino do jovem oficial da marinha, Jacinto da Silva Fernandes. É através da investigação conduzida pelo médico, com quem ainda mantém laços familiares, que tomaremos conhecimento, de forma não cronológica, da história de Jacinto, de alguns aspectos familiares que influíram na vida do jovem e de acontecimentos de um Portugal bafiento, injusto e hipócrita.

Isabel Rio Novo numa escrita simples e cuidada cria personagens fortes e perturbadoras e oferece-nos uma viagem maravilhosa sobre memórias, paixões e segredos da qual nunca saímos indiferentes porque, na história dos outros, encontramos, por vezes, a nossa, como referiu o doutor Eduardo a certa altura da investigação.

Recomendo muito.


08 julho, 2025

𝑶 𝑬𝒙é𝒓𝒄𝒊𝒕𝒐 𝑰𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒂𝒅𝒐, de David Toscana

 

Autor: David Toscana
Título: O Exército Iluminado
Tradutora: Helena Pitta
N.º de páginas: 180
Editora: Parsifal
Edição: Outubro 2014
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3718)





OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em O Exército Iluminado, David Toscana, pelo viés de uma visão quixotesca, tece uma metáfora do patriotismo, do nacionalismo ferido.
É uma narrativa ousada e provocadora plena de ironia e emoção que transforma os fracassos em heroísmo e o absurdo em beleza.

Ignacio Matus, protagonista e motor da narrativa, é um professor ressentido e obcecado por perdas importantes: do território do Texas para os Estados Unidos e pela medalha de bronze de maratonista que alega ter-lhe sido roubada por um atleta norte-americano, Clarence DeMar, nas Olimpíadas de Paris, em 1924.
Matus é expulso da escola onde lecciona, por insistir, junto dos seus alunos, naquilo que ele considera a “vergonha nacional”. Inconformado, decide formar um exército – o Exército Iluminado - de crianças com deficiência para recuperar o território perdido no século XIX.

Toscana cria uma utopia, e como tal, recorre a uma trama inusitada, absurda, misturando delírio com idealismo, trágico com cómico e humor negro e brinda-nos com uma narrativa magnífica recheada de personagens carismáticas. Tomemos, por exemplo, “o gordo Comodoro”, que apesar da sua condição física e das suas evidentes limitações, é retratado com afeto e humor.

Assim, Toscana transforma personagens marginalizadas, com limitações graves, em heróis, em símbolos de resistência. É a celebração dos fragilizados que se tornam iluminados.

O Exército Iluminado é, por isso, um livro fabuloso pela sua imprevisibilidade e ao mesmo tempo pela total falta de senso do protagonista que acredita ganhar uma guerra com estas cinco crianças. A missão de recuperar o Texas é absurda, mas é através desta metáfora que o autor estabelece uma relação directa com os delírios de D. Quixote.
Toscana constrói uma trama carregada de ironia para nos falar de uma realidade que marcou um país, da história mexicana. Cria uma narrativa original e sensível. De forma comovente, mas não lamecha, mescla a dimensão histórica com a efabulação para explorar a complexidade do ser humano. Ao estruturar a narrativa de forma fragmentada, como se revisitasse memórias soltas, permite que passado, presente e futuro coabitem naturalmente com as vivências das suas personagens, estabelecendo uma relação entre a vida e a história; o presente e o passado, ou melhor, a fragilidade da vida retratada nestes anti-heróis e a força da memória de um homem patriota.

Toscana conduz o leitor para um universo de realismo mágico, bem nos trilhos de um Gabriel Garcia Márquez ou de um Juan Rulfo. O leitor, facilmente, seduzido deixa-se comover pela escrita poética e crua com que narra os acontecimentos insólitos vividos pelas crianças e deixa-se, sobretudo, invadir ora pela tristeza ora pela esperança e determinação. Tudo isto é um convite à reflexão. David Toscana eleva a sua narrativa a um patamar tão quixotesco que nos impele a questionar o sentido da vida e a natureza da violência num mundo tão caótico.

Foi uma bela descoberta. Mais um autor a acrescentar à já longa lista de autores sul-americanos.


12 junho, 2025

𝑫𝒐𝒓 𝒇𝒂𝒏𝒕𝒂𝒔𝒎𝒂, de Rafael Gallo

 


Autor: Rafael Gallo
Título: Dor Fantasma
N.º de páginas: 275
Editora: Porto Editora
Edição: Março 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3685)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O enredo centra-se em Rómulo Castelo, um pianista conceituado, que ambiciona o reconhecimento mundial como “um dos maiores intérpretes de Liszt” ao estrear “a peça intocável” pelo seu grau de dificuldade - Rondeau Fantastique - na tournée pela Europa que já tem agendada.

O protagonista é professor universitário de piano. Herdou do pai, um famoso maestro, o gosto e a valorização da música que deve ser praticada com rigor e disciplina para alcançar a perfeição, a excelência. “O zelo exige rigor.” 

Rafael Gallo é exímio na condução da sua narrativa. Nas primeiras três páginas coloca o pianista em palco, a tocar Funerais, de Franz Liszt e as expectativas criadas “entre o palco e a plateia” estendem-se ao leitor. São três páginas em que o protagonista “foi a música” e o escritor “foi a escrita”. Ficamos, desde logo, deslumbrados e também preocupados com a antecipação da informação de que será o último recital.

O rigor absorvido ao longo da sua aprendizagem como músico e a obsessão pela perfeição faz de Rómulo Castelo uma pessoa antipática, exigente e intolerante com os alunos e colegas; insensível e cruel com a esposa, Marisa, e o filho, o pequeno Franz (Franzinho) que desde o nascimento “mostrou um desvio”.
Rómulo vive exclusivamente para a música. Em casa, foge da rotina doméstica e tranca-se “na sala de estudos: caixa-forte entranhada na alvenaria do lar, arquitetura da impenetrabilidade. O lugar dele.” (p.20) e isola-se de tudo e de todos. Num mundo só dele partilhado apenas com o seu Steinway e um retrato de Liszt. Um solitário que não entende a vida.
Até que um dia o destino lhe prega uma partida. Avassaladora. Rómulo não vai saber lidar com a nova realidade, com essa dor fantasma (que não vou revelar) e a sua vida regrada transforma-se num caos.

Rafael Gallo dirige a escrita, tal uma batuta, com andamentos intensos e inquietantes. A narrativa, dividida em quatro partes – Coda, Exposição, Desenvolvimento e Cadenza - confunde-se com uma partitura em que as palavras são música e silêncios. O final, então, é fabuloso. O leitor permanece siderado perante a beleza das palavras. E tal como Rómulo Castelo que, sempre que executava na perfeição a sua obra intocável, apontava um orgulhoso “Estala, estala, estala a medida consistente da perfeição.”, também, na minha opinião, se pode aplicar a Rafael Gallo em relação ao seu livro. Equivalem-se, assim, quanto à execução, protagonista e escritor.

Contudo, não posso deixar de referir que por muito que o protagonista se dedique à sua profissão, à música e considerando, ainda, que o autor tenha amenizado a personagem com os seus dramas, não consigo sentir empatia por ela. É inadmissível que uma pessoa que lida com a beleza e a sensibilidade da música não consiga tornar-se mais afável. Pelo contrário, a sua obsessão doentia vai levá-lo a agir sem escrúpulos, a magoar os seus familiares e amigos e vai conduzi-lo à loucura. Assim, o leitor vive um enorme paradoxo. Ora sente admiração pelo professor e músico, ora sente repulsa pelo homem. E é esta ambiguidade que vai manter o suspense e o interesse até ao final.

Para concluir, Dor Fantasma é uma crítica acérrima à busca obsessiva da perfeição, à ambição, à forma como encaramos a vida a partir do “Eu”, das preferências individuais e muito pessoais.