Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.
Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.
Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.
Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.
Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.
No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.
A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.

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