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30 dezembro, 2024
𝑩𝒓𝒆𝒗𝒊á𝒓𝒊𝒐 𝒅𝒂𝒔 𝑨𝒍𝒎𝒂𝒔, de Joaquim Mestre
Autor: Joaquim Mestre
Título: Breviário das Almas
N.º de páginas: 105
Editora: Oficina do Livro
Edição: Fevereiro 2009
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3597)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Este Breviário das Almas são relatos de vidas difíceis, duras do meio rural alentejano, algarvio ou de qualquer outra região do nosso país. Outrora, a “vida era mesmo assim”. A da mulher era tratar da lida da casa, dos filhos, dos animais, do… ; a do homem era tratar do campo, caçar com os amigos, beber, … Encontramos o peso de um trabalho quotidiano que embrutece, oprime e isola. “ (…) e no outro dia e todos os dias, fazer a lida da casa e “ (p. 23)
São relatos tristes onde a morte é uma constante seja ela natural, desafiada ou causada. Dá-se relevo às crenças, aos santos; vive-se enclausurado na ignorância; acredita-se no destino; espera-se pela morte.
Mestre retrata muito bem o ambiente e o linguajar rurais. Numa escrita simples, fluente e intensa, os seus textos, alguns bem curtos, aproximam-se do neo-realismo que tanto aprecio. Fez-me lembrar a prosa de Manuel da Fonseca tão representativa da vida dura dos alentejanos e entranhada de crítica social e política.
Breviário das Almas contém no seu título o essencial do livro, isto é, o relato breve da vida de cada personagem que perturba o leitor ao (re)ver neles (nos textos) e nelas (nas almas) o atraso do país rural que encerra tristezas, solidão e abandono.
Joaquim Mestre publicou este livro em 2009. Os seus textos não estão datados, pelo que quero acreditar que se reportem a tempos anteriores e que o presente do meio rural seja bem mais risonho para as mulheres e para os homens que nele vivem.
28 dezembro, 2024
𝑪𝒐𝒓𝒂çã𝒐 𝒅𝒆 𝒑á𝒔𝒔𝒂𝒓𝒐, de Mar Benegas e Rachel Caiano
Autora: Mar Benegas
Título: Coração de pássaro
Tradutora: Maria João Moreno
Ilustradora: Rachel Caiano
Ilustradora: Rachel Caiano
N.º de páginas: --
Editora: Akiara Books
Edição: Maio 2020
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (3500)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
𝑪𝒐𝒓𝒂çã𝒐 𝒅𝒆 𝒑á𝒔𝒔𝒂𝒓𝒐 é um livro maravilhoso. O texto melodioso e poético congraça com o traço subtil e as cores sensíveis (apenas três: preto, azul e vermelho) das ilustrações. É um deslumbramento visual. Confesso que tenho um fraquinho pelas ilustrações da Raquel Caiano. Acho as figuras femininas, encantadoras. E, neste livro, a representação da menina confirma o meu sentimento.
Nana, a menina que nasceu junto ao mar brincava com as palavras, fazia perguntas difíceis “Quem é que pinta o céu, à tarde?” e via o que quase ninguém vê. Nana tinha um amigo, Martim, a quem confiava os seus segredos e os tesouros que encontrava na praia e que segundo a professora “tudo isso se chama poesia.”
Mais tarde, os dois amigos separaram-se. Nana foi viver para a cidade, mas Martim manteve o hábito de recolher os “tesouros e guardo-os cuidadosamente. Para não se perderem e a poesia continuar aqui, quando voltares.” Deixo-vos descobrir o que aconteceu.
Mais tarde, os dois amigos separaram-se. Nana foi viver para a cidade, mas Martim manteve o hábito de recolher os “tesouros e guardo-os cuidadosamente. Para não se perderem e a poesia continuar aqui, quando voltares.” Deixo-vos descobrir o que aconteceu.
Esta história belíssima, para todas as idades, transborda poesia e amizade e amor. É o “conto dos segredos e da poesia” que convida o leitor a experienciar o mundo mágico dos poetas.
27 dezembro, 2024
𝑽𝒐𝒍𝒕𝒂𝒓 𝒅𝒐 𝑩𝒐𝒔𝒒𝒖𝒆, de Maddalena Vaglio Tanet
Autora: Maddalena Vaglio Tanet
Título: Voltar do Bosque
Tradutora: Ana Maria Pereirinha
Tradutora: Ana Maria Pereirinha
N.º de páginas: 263
Editora: D. Quixote
Edição: Abril 2014
Classificação: Romance
N.º de Registo: (--)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Baseado numa história real, este romance arrasta o leitor para o interior de um bosque que metaforicamente representa a perda, o abandono e o refúgio libertador . O enredo é doloroso, triste, melancólico e, simultaneamente, poético e esperançoso.
A acção gravita à volta de uma professora que, por uma razão que não vou desvendar, decide desaparecer e esconder-se num bosque. Esta atitude vai alvoroçar e preocupar toda a população de uma aldeia italiana e, vai, sobretudo, envolver directamente uma criança, Martino. Saberá ele manter-se fiel à promessa que fez?
O acto da professora vai levantar ao leitor inúmeras questões sobre a perda de uma pessoa, a culpa, o luto, a solidão, a lealdade, a sinceridade e, por que não, a amizade.
A escrita delicada de Tanet requer uma leitura lenta, que assimile toda a informação presente nas descrições da natureza e das personagens; que se aproprie de todos os detalhes desconcertantes e que capte as emoções profundas vividas nos momentos de dor e, também, resgatadas por via das memórias, dos sonhos, dos pensamentos.
No final, a esperança e a amizade sobrepõem-se à dor e, daí, intuímos que há uma relação intrínseca e salvífica entre a natureza e o ser humano.
Este é o primeiro livro de Maddalena Vaglio Tanet. Vou ficar atenta a novas publicações.
25 dezembro, 2024
𝑪𝒂𝒎õ𝒆𝒔 𝑪𝒐𝒏𝒔𝒆𝒈𝒖𝒊𝒖 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒓 𝑴𝒖𝒊𝒕𝒐 𝑷𝒂𝒓𝒂 𝑸𝒖𝒆𝒎 𝑺ó 𝑻𝒊𝒏𝒉𝒂 𝑼𝒎 𝑶𝒍𝒉𝒐, Lúcia Vaz Pedro
Autora: Lúcia Vaz Pedro
Título: Camões Conseguiu Escrever Muito...
N.º de páginas: 4285
Editora: Manuscrito
Edição: Setembro 2019
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (BE)
Lúcia Vaz Pedro, Professora de Português do 3.º ciclo e ensino secundário compilou neste livro perguntas, comentários, respostas e erros de alunos que foi registando ao longo da sua carreira.
São muitos os professores que registam os seus “tesourinhos” para mais tarde recordar. Esta professora entendeu que seria uma mais-valia, e ainda bem que o fez, publicar um livro com estas preciosidades e acrescentar a devida correcção e/ou cenários de resposta, a explicação de cada erro e informação complementar quer gramatical quer literária – “Vamos aprender”.
São múltiplos os comentários, respostas e perguntas caricatos e até despropositados, por desconhecimento total dos conteúdos, das regras, do assunto, por distracção, por má interpretação do solicitado. Porém, muitos revelam uma enorme capacidade criativa dos alunos.
Lúcia Vaz Pedro considera, e bem, que rir “é o melhor remédio”, tal como Gil Vicente apregoava “ridendo castigat mores”, a professora não pretende “castigar”, mas sim ensinar a bem escrever e falar, recorrendo ao riso e ao sentido de humor. Afinal, a brincar também se aprende. E bem, acrescento eu.
22 dezembro, 2024
𝑨 𝑩𝒓𝒆𝒗𝒆 𝑽𝒊𝒅𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑭𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔, de Valérie Perrin
Autora: Valérie Perrin
Título: A Breve Vida das Flores
Tradutora: M.ª de Fátima Carmo
Tradutora: M.ª de Fátima Carmo
N.º de páginas: 444
Editora: Editorial Presença
Edição: Fevereiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (-)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Decidi ler A Breve Vida das Flores por ser, talvez, um dos livros mais elogiados do momento. Apesar disso, não criei grandes expectativas porque, quando todos falam muito bem de um livro, eu desconfio. No início, a história não me agarrou, estive quase a desistir. Li outro nos entretantos, e voltei a pegar-lhe por sugestão de outras leitoras por quem tenho consideração.
À medida que avançava na leitura fui conquistada pela escrita poética pincelada de algum humor e pela personagem feminina, Violette Toussaint, que se revela generosa, trabalhadora, sensível e inteligente; que prefere a vida à morte, o sol à sombra; que adora tratar do seu jardim e das suas flores e que se veste de cores vivas. Violette conquista-nos pela sua maneira de ser e de encarar a dor e a tristeza; pelo carinho e cuidado que dedica aos outros.
“Saboreio a vida, bebo-a em pequenos goles como chá de jasmim com mel. (…) Eu estava muito infeliz; aniquilada, mesmo. Inexistente. Vazia. (…) Contudo, como nunca tive gosto pela infelicidade, decidi que isso não iria durar.” (pp. 10 e 11)
A narrativa oscila entre passado e presente, e os acontecimentos são desvendados a conta-gotas pelo viés de memórias, de conversas, de cartas e de diários.
Destaco os momentos de introspecção que evidenciam a solidão e a tristeza, mas também momentos de partilha, de apoio que relevam a amizade, o amor, a compaixão e a perseverança.
Valérie Perrin foi brilhante ao colocar grande parte da acção num cemitério. Aí, coabitam a vida e a morte de pessoas, de flores, de animais; surgem encontros improváveis e inesperados; ocorrem vivências tristes e hilariantes. É o local ideal para servir o seu propósito, isto é, de levar o leitor a reflectir sobre a vida e a morte, sobre a perda e o luto, sobre a beleza do mundo.
Até aqui, a minha apreciação é positiva e reitero que gostei imenso do enredo que envolve a protagonista. Porém, considero que a partir de um certo momento começam a surgir muitas histórias, muitas personagens que, na minha opinião, só servem para desviar o leitor da acção principal. A narrativa cai um pouco na banalidade e torna-se, desta forma, enfastiante. Por vezes, menos é mais. Penso que se tivesse omitido alguns episódios, o livro ficaria ainda melhor.
15 dezembro, 2024
𝑶 𝑴𝒆𝒖 𝑷𝒂𝒊 𝑽𝒐𝒂𝒗𝒂, de Tânia Ganho
Autora: Tânia Ganho
Título: O Meu Pai Voava
N.º de páginas: 189
Editora: D. Quixote
Edição: Julho 2024
Classificação: Memórias
N.º de Registo: (3619)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Em O Meu Pai Voava, Tânia Ganho entretece pensamentos, memórias e desassossegos. Após a morte de seu pai, naturalmente, sentiu necessidade de manifestar os sentimentos e as dúvidas que a assolaram num momento de profunda tristeza. Foi na escrita que encontrou a forma de falar do luto e de glorificar o pai. Tânia Ganho, logo no início, informa o leitor que escreve este livro para se encontrar, para recalibrar a sua vida, para enfrentar a perda. “Não sei para quem escrevo estas palavras. Para ele, talvez. Para a minha mãe. É aqui que faço o luto. Desde que morreu, escrevo sem parar. Escrevo para recuperar o fulgor com que ele viveu, porque tudo se me afigura triste e ermo.” (p. 11)
Este pequeno livro é de uma sensibilidade extrema. Tânia Ganho cristaliza com imenso carinho episódios que viveram juntos. Recupera memórias, recordações; retrata o amor que os unia; narra episódios vividos em família, as conversas mantidas; fala da doença do pai, da perda de lucidez, da perda do sorriso do olhar, da perda das palavras, da sua “desmemória”; fala da morte, do velório; cita os livros que leu e os filmes que viu e que a ajudaram a ultrapassar a dor, mas não sabe a última palavra que o pai lhe disse. A última conversa que tiveram. A última vez que o pai a reconheceu.
Quem convive com doentes com Alzheimer sabe que é assim. Também eu deixei de saber o dia em que o meu pai deixou de me reconhecer, de falar comigo, de me dar um beijo. Por isso, este livro fez-me reviver o meu passado. Foi um submergir, de novo, à superfície. Foi um reabrir o que considerava há muito trancado. Pela mão da Tânia e pelas suas palavras recuperei momentos felizes da minha infância, da minha vida. Mais duro foi reacender passagens da doença, o fim de um tempo que acabou por arrastar a minha mãe.
Recomendo a leitura deste livro belo e corajoso. Há momentos que nos fazem sorrir, há outros mais dolorosos. A escrita, rigorosa no uso das palavras, revela, como já referi, uma tal sensibilidade que torna belos os momentos de tristeza. É, sem dúvida, uma bonita homenagem ao seu pai e um legado maravilhoso que partilha com o seu filho.
“A morte devolve-me o pai herói que, durante anos, a doença esbateu.”
(p. 147). É isto.
(p. 147). É isto.
11 dezembro, 2024
𝑮𝒐𝒐𝒅𝒃𝒚𝒆, 𝑪𝒐𝒍𝒖𝒎𝒃𝒖𝒔 𝒆 𝒄𝒊𝒏𝒄𝒐 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Philip Roth
Autor: Philip Roth
Título: Goodbye, Columbus e cinco contos
Tradutor: Francisco Agarez
Tradutor: Francisco Agarez
N.º de páginas: 293
Editora: D. Quixote
Edição(4.ª): Maio 2012
Classificação: Novela e contos
N.º de Registo: (3521)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
O livro de Philip Roth é composto por uma novela e cinco contos. Todos incidem sobre aspectos da cultura, da religião e modos de vida dos judeus nos Estados Unidos. Neste seu livro de estreia, Roth já nos reverbera com o seu humor corrosivo tão presente em toda a sua obra.
Pelo viés da observação e com recurso a uma crítica humorada, Roth expõe de forma exímia os dogmas e os costumes do povo judaico.
Na novela Adeus, Columbus, Roth com uma escrita despojada entra no universo delicado de um primeiro amor entre Niel Klugman, um bibliotecário sem grandes recursos económicos, e Brenda Patimkin, uma rapariga de família riquíssima.
A narrativa, que se afasta da lamechice, do sentimentalismo barato, seduz de imediato o leitor que se deixa envolver pela subtileza da mensagem genuína e sensual da primeira experiência amorosa.
Os cinco contos que se seguem são uma sátira aos dogmas religiosos. Narram histórias intrigantes com consequências trágicas e finais absurdos. Roth recorre à ironia e à sátira para reflectir a respeito da fé e da tradição judaicas beliscadas pela civilização moderna.
Para quem conhece a obra de Roth e só agora lê este livro, percebe que o autor já no seu início dominava a arte da escrita. É um exercício interessante ler primeiro as obras de um autor consagrado e maduro e só depois descobrir a sua primeira obra. Não fiquei decepcionada. Philip Roth é um dos meus escritores de eleição.
06 dezembro, 2024
𝑴𝒐𝒖𝒔𝒄𝒉𝒊, 𝑶 𝑮𝒂𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒏𝒆 𝑭𝒓𝒂𝒏𝒌, de José Jorge Letria com ilustrações de Danuta Wojciechowska
Autor: José Jorge Letria
Título: Mouschi, O Gato de Anne Frank
Ilustradora: Danuta Wojciechowska
Ilustradora: Danuta Wojciechowska
N.º de páginas: 36
Editora: Edições ASA
Edição (2.ª): Setembro 2002
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
José Jorge Letria dá voz a um personagem muito especial, o gato Mouschi, para nos revelar a história angustiante da família de Anne Frank que se refugiou num anexo, de um sótão, durante dois anos.
A história narrada pelo gato, que esteve sempre com a família no anexo, centra-se, sobretudo na sua relação com a menina Anne Frank. É pelo seu sentir que acompanhamos o crescimento de Anne, ao longo destes dias: as suas angústias, a sua paixão pela escrita, registada no seu diário, o seu amor por Peter, os desentendimentos com a mãe, os seus sonhos, a sua crescente tristeza, e a sua captura por “cinco homens, um com a farda da polícia alemã”. É ainda pela sua voz que tomamos conhecimento que só o pai de Anne, sobrevive.
Quem conhece O Diário, de Anne Frank, já não é surpreendido pelo trágico final da família. Contudo, este pequeno livro, tão bem ilustrado pela Danuta Wojciechowska, é uma excelente abordagem, para iniciar os mais jovens aos horrores do holocausto, à perseguição dos judeus, ao extermínio nos campos de concentração.
Mouschi é um gato sensível, muito curioso e carinhoso que tudo faz para tornar os dias de Anne menos tristes, mas acaba por confessar que não compreende certas situações:
“Eu, como era gato, e ainda por cima um gato jovem, tinha dificuldade em compreender que aquela menina tinha perdido tudo o que contara para ela - os amigos, a escola, o sonho, a liberdade - e que aquele diário era um postigo que se abria para o exterior e a iluminava por dentro como uma vela que o vento não conseguia apagar ou uma estrela distante mas infinitamente amiga” (p. 12)
No final do livro, Mouschi fala-nos um pouco de si, da libertação de Amsterdão e termina a história com uma mensagem muito linda, carregada de simbolismo e actualíssima.
“Uma coisa é certa. Passaram tantos anos e eu, no pequeno céu dos gatos mortos de tristeza e solidão, nunca mais me esqueci da minha querida Anne Frank, nem nunca mais cheguei a perceber o que pode levar seres humanos a serem por vezes tão cruéis e tão violentos.
Se eu soubesse chorar, mesmo transformado em personagem deste livrinho de memórias, teria sempre duas lágrimas guardadas: uma para Anne e outra para o meu amor por ela. Quem matou esta menina merece ser castigado eternamente por todas as estrelas que há no céu.” (p. 36)
Recomendo este e outros livros que tratem esta temática. É importante que a memória permaneça viva. Não podemos ignorar o passado e permitir que seres humanos cruéis comandem a vida de pessoas inocentes. Infelizmente, o passado está, de novo, bem presente e, o céu continua a receber “estrelas”.
01 dezembro, 2024
27 novembro, 2024
𝑴𝒂𝒕𝒂𝒓á𝒔 𝑼𝒎 𝑪𝒖𝒍𝒑𝒂𝒅𝒐 𝒆 𝑫𝒐𝒊𝒔 𝑰𝒏𝒐𝒄𝒆𝒏𝒕𝒆𝒔, Rodrigo Guedes de Carvalho
Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Título: Matarás Um Culpado e Dois Inocentes
N.º de páginas: 350
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3627)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Quando terminei As Cinco Mães de Serafim, escrevi que o facto de o autor não ter desvendado alguns mistérios não era relevante para o propósito do livro porque o importante estava lá, dito directamente ou nas entrelinhas. Agora que li a sequela, considero que este livro tinha mesmo de ser escrito. A revelação dos segredos que ficaram em aberto, no anterior, torna a história da família Temeroso bem mais empolgante e emotiva. A narração do mistério que envolveu o desaparecimento de uma irmã do protagonista, Miguel Temeroso, e a morte de outras três, levanta questões profundas sobre noções de culpa, inocência, redenção. A tragédia ocorrida há 50 anos, na noite de 24 de Abril de 1974 acabou por passar quase despercebida, na pequena localidade de Gondarém, devido ao “acto revolucionário que fez cair o regime” e que ocorreu na mesma noite. Só o irmão, Miguel Serafim, permanece emotivamente perturbado (“Morri no dia em que morreram as minhas três irmãs. A única diferença é que continuei a respirar”), num estado de dúvida e de incompreensão, até ao dia em que lhe é revelado um segredo.
RGC mantém a escrita límpida e inteligente do romance anterior e já citado. Aprecio sobremaneira o entrelaçar dos tempos e das histórias que mantém o leitor suspenso. A atmosfera, neste livro, é bem mais densa e envolvente. Há uma aura de mistério, de sobrenatural, que engrandece a narrativa. Sem pressa e envoltas em suspense, as respostas vão surgindo, oscilando entre momentos de dúvidas e de confissões, de violência e de ternura, de desesperança e de aceitação, de encontros, de revelações e de libertação emocional.
Concluo, mantendo a convicção de que “a amizade talvez seja um outro nome para família”.
É esta a mensagem tão bem explorada nos dois livros do RGC e que, neste, eleva a narrativa a um patamar superior, que merece ser lido. No fundo, o importante não é saber quem e como matou. O importante é, mesmo, saber que há alguém, por perto e atento, para apoiar e erguer os que sobrevivem à dor, ao sofrimento.
Recomendo a leitura dos dois livros, contudo este, que pode ser lido de forma autónoma, é, para mim, muito mais impactante.
20 novembro, 2024
𝑵ã𝒐 𝑺𝒐𝒎𝒐𝒔 𝑨𝒃𝒐𝒓𝒓𝒆𝒄𝒆𝒏𝒕𝒆𝒔: 𝑺ó 𝑷𝒓𝒆𝒄𝒊𝒔𝒂𝒎𝒐𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝑨𝒍𝒈𝒖é𝒎 𝒏𝒐𝒔 𝑬𝒏𝒕𝒆𝒏𝒅𝒂, de Diana Borges
Autora: Diana Borges
Título: Não somos Aborrecentes: Só Precisamos
que Alguém nos Entenda
N.º de páginas: 67
Editora: (independente)
Edição: Setembro 2024
Classificação: Testemunhos
N.º de Registo: (--)
OPINIÃO ⭐⭐⭐
Diana Borges é uma jovem estudante que ama as palavras. Conhecia-lhe o gosto pela leitura, a voz melodiosa e emotiva, mas desconhecia-lhe o hábito de registar as suas reflexões, angústias e emoções num diário muito pessoal e que, com incentivos de ordem vária, em boa hora, se transformou no seu primeiro livro.
Senti um enorme orgulho quando ela, com um brilhozinho nos olhos e um largo sorriso, me revelou que tinha editado um livro. Quis lê-lo imediatamente. Foi uma agradável surpresa, porque sendo a Diana ainda tão jovem, conquistou-me com uma escrita que evidencia uma responsabilidade e uma maturidade pouco comuns nos dias que correm. Convivo, diariamente, com jovens, por isso, refiro-o com segurança e conhecimento de causa.
Não Somos Aborrescentes, Só Precisamos que Alguém Nos Entenda assenta, essencialmente, em depoimentos de adolescentes que se centram em vivências muito íntimas como, o amor e o sexo na adolescência; os relacionamentos; o ambiente escolar; o bullying; os vícios; a depressão e a ansiedade.
Todos os testemunhos incidem sobre estes temas delicados, todos muito sensíveis, vividos por jovens (rapazes e raparigas). As reflexões da Diana, no final de cada temática, conduzidas com subtileza, mergulham na complexidade da vida destes jovens, nas suas inquietações que vão muito para além do problema das borbulhas ou do aspecto visual e expõem o que, também, ela viveu e sentiu, sobretudo quando teve de se ambientar e integrar numa cultura e mentalidade tão diferentes da sua.
O apelo que ecoa ao longo de várias páginas “EU NÃO QUERO ME MATAR”, bem como a repetição de verbos como “precisamos” e necessitamos” na reflexão final, demonstram que estes jovens não são “aborrecentes", apenas, e só, procuram a compreensão dos pares, dos pais, dos professores, dos educadores, da sociedade.
As sessenta e sete páginas deste livro são preciosíssimas para quem pretende entender e acompanhar os jovens. Recomendo.
15 novembro, 2024
𝑽𝒆𝒓𝒎𝒆𝒍𝒉𝒐 𝒅𝒆𝒍𝒊𝒄𝒂𝒅𝒐, de Teresa Veiga
Autora: Teresa Veiga
Título: vermelho delicado
N.º de páginas: 130
Editora: Tinta-da-China
Edição: Setembro 2024
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3636)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
É o primeiro livro que leio de Teresa Veiga e, como tinha boas referências, iniciei a leitura de Vermelho Delicado com grandes expectativas. Segundo várias opiniões, Teresa Veiga é mestre na narrativa curta e revela uma capacidade singular de criar personagens, sobretudo, femininas envoltas em mistério.
Assumo que fiquei rendida à beleza e à qualidade da sua escrita expressa neste conjunto de sete contos. Num estilo muito próprio e sedutor, a autora tece os seus enredos e dá protagonismo às mulheres, à excepção de um conto, e todas revelam desvarios mentais, vestígios de loucura que num universo de aparente normalidade, as transporta para situações da ordem do fantástico.
Teresa Veiga expõe os seus enredos como uma espécie de enigma, por exemplo, uma história só é validada se for narrada, de forma diferente, por duas pessoas. Como se de um jogo de espelhos se tratasse, ou então, parte de uma acção do quotidiano, de uma pista ínfima para nos conduzir, através de detalhes e de descrições sublimes, a um final incómodo que nem sempre é deslindado. A inquietação provocada pelo mistério não esclarecido advém de frases dúbias, de sentimentos contraditórios ou ambivalentes, de um final não revelado ou, apenas, sugerido.
No final de cada conto, o leitor permanece na dúvida se assimilou a mensagem, mas é aí que reside o encanto da leitura. O carácter de inacabado permite-nos imaginar, terminar a narrativa como nos apraz. Como se o leitor também existisse no enlace que imagina.
Fiquei seduzida pela escrita de Teresa Veiga. Uma escrita rigorosa e sóbria que abre possibilidades subtis, que usa a ironia e o humor para confundir. Uma escrita perturbante.
06 novembro, 2024
𝑨𝒖𝒈𝒖𝒔𝒕𝒂 𝑩. 𝑶𝒖 𝑨𝒔 𝑱𝒐𝒗𝒆𝒏𝒔 𝑰𝒏𝒔𝒕𝒓𝒖í𝒅𝒂𝒔 80 𝑨𝒏𝒐𝒔 𝑫𝒆𝒑𝒐𝒊𝒔, de Joana Bértholo
Autora: Joana Bértholo
Título: Augusta B.
N.º de páginas: 99
Editora: Caminho
Edição: Maio 2024
Classificação: Novela
N.º de Registo: (3587)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 anos Depois, desvenda as peripécias de duas jovens de 22 anos que tentam publicar um anúncio igual ao de Agustina Bessa-Luís (ABL).
A novela de cerca de 100 páginas transporta-nos para dois universos bem distintos ou talvez não: o universo das aplicações de encontros, das redes sociais e o universo dos anúncios de jornais.
Joana Bértholo de forma inteligente e criativa explora o famoso anúncio publicado no primeiro de Janeiro, há 80 anos, por Agustina Bessa-Luís, uma jovem instruída, à procura de correspondência “inteligente e culta”.
Tendo, assim, Agustina e o anúncio como fio condutor, a autora cria uma novela que estabelece a ponte com a actualidade ao envolver as duas amigas, Raquel e Augusta, paralelamente, em encontros por via das aplicações e na replicação do famoso anúncio no jornal O Público. Todo o enredo gira à volta das tramas amorosas, das reflexões e interpelações das duas jovens e da narrativa sobre as dificuldades que enfrentam em publicar o anúncio “dado que o conteúdo não se enquadra com a linha editorial do jornal.”
O anúncio acabou por ser publicado, no entanto, não vou revelar de que forma para que não anule o prazer da descoberta. Posso afirmar que o paralelismo estabelecido entre o antes (1944) e o presente está muito bem conseguido. O que hoje é banal, era inconcebível há 80 anos, sobretudo por uma mulher. Neste simples gesto, fica claro como Agustina era uma mulher ousada, muito à frente do seu tempo.
Outro aspecto que me agradou imenso nesta novela é a intertextualidade com a obra de Agustina. A jovem Raquel, leitora ávida, vai despertando na sua amiga Augusta, mais vocacionada para as aplicações digitais na procura incessante da relação certa, um interesse cada vez maior ao ponto de se “estabelecer um diálogo interno” entre ela e Agustina.
“A Agustina-interior primava pela clarividência e segurança; sabia o que queria e não duvidava do seu valor nem enquanto scritora, nem enquanto mulher. Tudo aquilo que Augusta sentia que lhe faltava. Completavam-se.” (p. 77)
Recomendo muito este pequeno livro. Joana Bértholo tem a capacidade de nos agarrar às suas histórias. Esta é bem cativante e tem, para mim como professora bibliotecária, não um, mas dois finais felizes.
03 novembro, 2024
𝑼𝒎 𝑺𝒐𝒑𝒓𝒐 𝒅𝒆 𝑽𝒊𝒅𝒂 (𝑷𝒖𝒍𝒔𝒂çõ𝒆𝒔), de Clarice Lispector
Autora: Clarice Lispector
Título: Um Sopro de Vida (Pulsações)
N.º de páginas: 141
Editora: Relógio d' Água
Edição: Dezembro 2012
Classificação: Romance (inclassificável)
N.º de Registo: (3433)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Um sopro de vida (Pulsações) foi publicado postumamente (1978). O livro, dividido em três partes: 1) O Sonho Acordado É Que É a Realidade, 2) Como Tornar Tudo Um Sonho Acordado? e 3) Livro de Ângela, foi escrito quando Clarice Lispector se encontrava gravemente doente.
Nele, Clarice Lispector traça um diálogo contínuo que se/nos submete, simultaneamente, a uma forte introspecção. Toda a narrativa é alicerçada em fragmentos dialogais, em vislumbres, em “instantâneos fotográficos das sensações – pensadas”, em trechos existenciais de auto reconhecimento, de auto questionamento, de auto negação. Ela constrói uma personagem e ao longo do livro mantém uma interação introspectiva fortíssima entre o narrador-criador (um autor) e a personagem criada (Angela Pralini).
“ (…) o que escrevo e Ângela escreve são trechos por assim dizer soltos, embora dentro de um contexto de… (…) são restos de uma demolição de alma, são cortes laterias de uma realidade que se me foge continuamente. Esses fragmentos de livro querem dizer que eu trabalho em ruínas.” (p. 17)
A interacção expõe as (in)capacidades, as (in)decisões, as invenções, os desejos (in)alcançados os sonhos e, desta forma, a personagem criada funciona como um espelho e cria uma dualidade, no sentido em que balança entre o que pensa e o que sente, entre a racionalidade e o instinto, entre a liberdade e a loucura, entre o vazio e a pungência da escrita..
“Tive um sonho nítido inexplicável; sonhei que brincava com o meu reflexo: Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu.
Por causa desse sonho é que inventei Ângela como meu reflexo? (…) Será que criei Ângela para ter um diálogo comigo mesmo? Eu inventei Ângela porque preciso me inventar:” (pp. 23-26)
Este último livro impõe-se pelas reflexões e pela capacidade de Clarice Lispector dissecar as complexidades da existência humana. É magistral a forma como recorre à espiritualidade para se encontrar, para se absolver, para se aceitar. Numa prosa poética e imagética a autora explora temas como a criação literária, a identidade, a solidão, o silêncio, a liberdade, a loucura e a finitude.
“Escrever pode tornar a pessoa louca… Eu sei criar silêncio …Tenho medo de minha liberdade… o silêncio não é o vazio, é a plenitude”. (p. 48)
Quando terminamos a leitura, permanecemos em silêncio (de plenitude) e, calmamente, regressamos às quatro epígrafes citadas na abertura. Nesta fase, entendemo-las na perfeição. Contudo, extasio-me perante a segunda, “ A alegria absurda por excelência é a criação,” (de Nietzsche), que tão bem espelha a escrita de Clarice Lispector. E é de facto, também para o leitor, uma alegria quando nos deparamos com uma criação deste calibre.
01 novembro, 2024
27 outubro, 2024
𝒄𝒐𝒎𝒑ê𝒏𝒅𝒊𝒐 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒅𝒆𝒔𝒆𝒏𝒕𝒆𝒓𝒓𝒂𝒓 𝒏𝒖𝒗𝒆𝒏𝒔, de Mia Couto
Autor: Mia Couto
Título: compêndio para desenterrar nuvens
N.º de páginas: 142
Editora: Caminho
Edição: Outubro 2023
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3509)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Em compêndio para desenterrar nuvens, Mia Couto presenteia-nos com vinte e dois contos que testemunham fragmentos de vida de uma realidade moçambicana actual. Estas estórias entretecem o real e o imaginário, exploram cenários de um quotidiano difícil onde, ainda prevalece a guerra, a miséria, a violência, o analfabetismo.
“A vizinha fazia o luto, tal como fizera o viver: sem que ninguém se apercebesse de que existia.
Sabia-se dela quando, para além das paredes, escutávamos o marido que a espancava e nunca ninguém no bairro se deu ao incómodo de intervir. (…) Acudir, seria, além disso, um imperdoável desrespeito para com o dono da casa.” (p. 23)
Ao longo do livro e nos diversos textos, o autor de forma irónica relata factos e denuncia situações de violência, de alcoolismo, de “raivas milenares”, de “vozes subversivas”, de maleitas próprias da velhice, de “modernices” como as redes sociais e as tecnologias. Denota-se a preocupação do autor com a sociedade, com a guerra, com as pessoas que ainda se encontram enraizadas numa cultura “de um país sem chão”.
Mia Couto usa um estilo poético que lhe é bem particular, contudo, nestes textos distancia-se dos usuais neologismos, que tanto aprecio, e apropria-se de alguns provérbios (“Mais vale ter o tempo como doença do que o futuro como inimigo”) e do uso da oralidade tão característica das estórias africanas.
“Nessa noite, ninguém dormiu na aldeia, as pestanas palpitando como descontrolados ponteiros de um enlouquecido relógio.” (p. 35). É com imagens deliciosas como esta que Mia Couto convida o leitor a mergulhar nas emoções de um povo sofredor, apesar da sua riqueza cultural. Recomendo muito.
21 outubro, 2024
𝑶𝒍𝒉𝒂𝒓 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒕𝒓á𝒔, Juan Gabriel Vásquez
Autor: Juan Gabriel Vásquez
Título: Olhar para trás
Tradutor: Vasco Gato
N.º de páginas: 490
Editora: Alfaguara
Edição: Setembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3342)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Olhar para trás entrelaça uma história de vida, a de Sergio Cabrera, realizador colombiano, e a trajetória política da Colômbia e da China do século XX.
Juan Gabriel Vásquez (JGV) mesclando realidade e ficção, de forma sublime, oferece-nos um relato avassalador. Pela voz do protagonista, Sergio Cabrera, percorremos caminhos complexos da Guerra Civil de Espanha, do exílio na América Latina (vários países), da Revolução Cultural da China de Mao e da guerrilha na selva colombiana.
A morte de Fausto Cabrera, pai de Sergio, com 92 anos surge no início da narrativa e é o pretexto para a rememoração de uma vida fascinante repleta de lutas, de convicções, de mágoas, de silêncios, mas também de amor pela família, pela causa política, pelo cinema.
Sergio Cabrera e a sua família (avô, pais e irmã) viveram de forma activa e determinada os ideais de esquerda. Viveram na China para um melhor entendimento da ideologia de Mao e regressaram à Colômbia com o intuito de replicarem os seus conhecimentos, integrando os grupos de guerrilha durante alguns anos.
Decepcionados e desencantados pelas acções do partido comunista, acabam por abandonar a guerrilha e fugir do país. “ A decepção de Luz Elena (a mãe) foi dilacerante. Sentia-se traída pelo partido ao qual entregara os últimos anos da sua vida.” (p. 420). O pai que “era uma figura de renome, da qual a gente do teatro (mas também a da televisão e do cinema) falava com o respeito suscitado pelos pioneiros, ainda que as controvérsias sempre o tivessem rodeado e tivesse tantos amigos como inimigos.” (p. 16).
A morte do pai marca, para o filho, o fim de um ciclo. Sérgio, então em Lisboa, com uma restrospectiva dos seus filmes agendada para Barcelona, decide que não viajará para assistir ao funeral do seu pai, na Colômbia. O seu “lugar é com os vivos, não com os mortos.” (p. 24)
Este livro, Olhar para trás, resgata a memória de um passado doloroso da história colombiana. A partir das conversas que JGV manteve com Sergio Cabrera e a sua irmã Marianella, ao longo de sete anos, e da recolha de testemunhos, o autor constrói a narrativa de uma família devastada e decepcionada pelo fanatismo comunista. A partir dos factos vividos, nas contradições e nas emoções reveladas por Sergio, o autor acrescenta-lhe a sua subjectividade e interpretação e lega-nos um romance brutal que tem tanto de histórico como de vida privada e intima.
No F(o)lio, em Óbidos, JGV referiu que “um romancista não vale nada se não for um historiador de emoções”. Penso que neste romance o conseguiu muito bem porque a sua narração vai muito para além da mera descrição dos factos vividos por Sergio Cabrera. Esta afirmação, também referida por outras palavras, na Nota do autor, clarifica a epígrafe de abertura deste livro:
“Pois, segundo a nossa visão das coisas, um romance deveria ser a biografia de um homem ou de um caso, e toda a biografia de um homem ou de um caso deveria ser um romance” (FORD MADOX FORD)
Recomendo. Li, apenas, dois dos vários livros publicados em Portugal, mas fica a promessa de outras leituras.
03 outubro, 2024
𝑵ã𝒐 𝑯á 𝑳𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝑫𝒊𝒗𝒐𝒓𝒄𝒊𝒂𝒅𝒂𝒔, Francisco Moita Flores
Autor: Francisco Moita Flores
Título: Não Há Lugar para Divorciadas
N.º de páginas:166
Editora: Casa das Letras
Edição (6.ª): Fevereiro 2005
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
O que eu me diverti ao ler este livro. À boa maneira de Gil Vicente, e cumprindo o lema “ridendo castigat mores”, em Não Há Lugar para Divorciadas, Francisco Moita Flores (FMF) apresenta-nos uma história mordaz e divertida. Ele eleva ao ridículo a forma como Leônidas Júlio de Tábuas e Távora, um homem sem estudos e sem escrúpulos, se filia num partido e chega a ministro.
A acção desta paródia “decorre trinta anos depois da leitura deste livro.” (p. 76). Esta premissa é importante porque atribui à história um factor de actualidade e de continuidade futura, isto é, como o tempo da história parte do tempo da leitura (pelo leitor) e não da escrita (2003), os acontecimentos estão sempre actualíssimos.
O oportunismo, a hipocrisia, a vaidade e o adultério são os traços principais do protagonista. FMF é corrosivo na criação da sua personagem. Desta forma a política e os governantes, bem como a comunicação social são fortemente ridicularizados. Pela figura de Leónidas, o autor destaca a presunção, a preguiça, a estupidez intelectual, a manipulação e o interesse pelo poder dos políticos de ontem, de agora e de amanhã.
Recomendo este como outros livros de FMF. De leitura fácil, este livro cativa pela ironia sempre presente, pelas farpas lançadas e pelas aventuras dos “comparsas políticos”.
É uma delicia tentar atribuir as características deste ministro a outro(s) dos que nos governam nos nossos dias.
01 outubro, 2024
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