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30 junho, 2026

𝑶 𝑨𝒓𝒄𝒐-Í𝒓𝒊𝒔, de Yasunari Kawabata

 

Autor: Yasunari Kawabata
Título: O Arco-Íris
Tradutor: Francisco Agarez
N.º de páginas: 207
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3651)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



O Arco‑Íris é um romance de grande delicadeza formal e espiritual onde cada gesto, cada cor, cada silêncio se tornam matéria emocional. A escrita é depurada, sensível, luminosa. A natureza é linguagem. A dor é tratada com respeito. E a beleza surge como promessa de continuidade.

Kawabata constrói uma narrativa que avança por subtilezas, recusando o excesso e confiando na sensibilidade do leitor. A natureza faz parte integrante da história, revelando o estado interior das personagens com uma precisão quase táctil.

No centro do romance, o pai, arquitecto, e as três meias‑irmãs movem‑se num território de memórias assimétricas. As duas mais velhas crescem na ausência das mães e procuram a irmã mais nova, que vive com a sua mãe. Essa diferença funda uma distância que acentua a fragilidade familiar. A busca da irmã atribui ao enredo um desejo de aproximação afectiva numa tentativa de recompor o que ficou disperso.

Com as histórias das três meias-irmãs, Kawabata resgata a fragilidade da existência humana ao explorar temas universais como o luto, a culpa, a sexualidade, o amor e a identidade.

O arco‑íris de inverno, imagem inaugural, funciona como metáfora e estabelece o tom luminoso que insiste em aparecer mesmo num mundo devastado. O autor procura essa luz discreta e faz dela o centro da sua escrita.

A dor do pós‑guerra surge sem dramatização, insinuada nos detalhes da paisagem, nas casas improvisadas, nos templos feridos, nas famílias deslocadas e nos gestos das personagens. Essa contenção dá ao livro uma força única e perpassa uma emoção subtil e permanente, vibrando em cada página.

Ler um livro seu é como observar uma pintura, uma experiência que pede ao leitor que abrande, que escute, que se deixe tocar pela luz discreta das coisas. Este é o terceiro livro que leio de Kawabata e reconheço, cada vez mais, a delicadeza da sua escrita, onde a natureza tem um papel primordial.



07 janeiro, 2024

𝑨 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂𝒔 𝑨𝒅𝒐𝒓𝒎𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔, de Yasunari Kawabata

 


Autor: Yasunari Kawabata
Título: A Casa das Belas Adormecidas
Tradutor: Luís Pignatelli
N.º de páginas: 158
Editora: D. Quixote
Edição (4.ª): Julho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3320)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A Casa das Belas Adormecidas é um romance fortemente perturbador centrado num universo fechado, sinistro e misterioso, envolto em segredos, frequentada por “cavalheiros de idade”, isto é, “clientes no inativo”, também referidos como “velhos inativos”.

A narrativa na terceira pessoa descreve as noites que o velho Eguchi, de 67 anos, passa na casa. Sem qualquer julgamento, a história oscila entre a descrição pormenorizada das jovens adormecidas, à reflexão inerente ao desejo e aos sentimentos do velho Eguchi e às recordações das relações com outras mulheres da sua vida.

“E evite, peço-lhe, as brincadeiras de mau gosto, por favor. Não tente meter os dedos na boca da pequena que dorme! Não é de bom tom!”, recomendou a hospedeira ao velho Eguchi.” (p. 13). Com esta advertência inicial, fica claro que os frequentadores, velhos, como já citei, estão impedidos de ter relações com as jovens, muito jovens e virgens, porque elas estão dopadas para não acordarem e eles estão sexualmente impotentes. Assim, entende-se que o objectivo da casa é revitalizar homens que, decadentes, precisam iludir a sua virilidade, “ruminar tristemente as saudades da sua juventude perdida” (p. 103)

Apesar da sensibilidade e da elegância presentes na escrita da narrativa, esta é perturbadora e simultaneamente fascinante porque, na minha opinião, no universo erótico descrito, a mulher é desumanamente “abusada”, coisificada, na medida em que está totalmente nua e profundamente adormecida, como se fosse uma boneca, permitindo ao homem que frua de uma noite ao seu lado, que lhe admire o corpo, que a acaricie, e sinta o seu odor corporal. É nisto que reside a perturbação. Na cumplicidade leitora de assistir à contemplação da jovem pelo olhar do “velho inativo” que Eguchi ainda não é, de acompanhar o fluir dos seus pensamentos que tece fantasias e recorda vivências eróticas anteriores.

Assim, erotismo, decadência, solidão, memórias, velhice e morte - materializada no assombro do último sono - entretecem-se habilmente e de forma perfeita. A apreensão destas questões associada à reflexão que delas inferimos ao longo da leitura é facilmente transposta pela descrição sublime das belas adormecidas intocáveis. E no final, o leitor “aterrado e entontecido” e com imensas dúvidas sobre esta forma de lidar com a sexualidade na terceira idade, acaba por se render à beleza da escrita. Uma escrita que segundo Yukio Mishima (introdução) é fragmentária e erótica já que nos oferece cada detalhe, cada sensação, cada fantasia “ É admirável a precisão, a extrema elegância no pormenor, com que Kawabata descreve a primeira das «belas adormecidas» com que o sexagenário Eguchi passa a noite – como se fossem as palavras a acariciá-la.” (p. 10)



26 abril, 2017

Terra de Neve de Yasunari Kawabata




O autor japonês, Yasunari Kawabata, narra a história de um homem de Tóquio que vai passar uns dias a uma estância termal, em Terra de Neve. Aí conhece uma gueixa com quem vai manter uma relação. Percebe-se que este relacionamento não vai durar muito tempo devido ao comportamento inseguro de Komako (a gueixa).
Toda a acção gira à volta destas duas personagens, sem muita vivacidade.
No entanto, apreciei a escrita do autor sobretudo as suas descrições minuciosas das fisionomias das mulheres e da transformação da natureza (as cores, o frio, a neve, as montanhas...)