21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


07 agosto, 2026

Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita | O Setubalense



Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita

Por O Setubalense  |    Agosto 7, 2026



A noite ainda mora em Sines. O vento arrasta o cheiro a maresia pelas ruas vazias. Mais adiante, é possível ver uma varanda voltada para o mar, onde as malvas crescem desordenadas. Ali, onde a areia encontra o silêncio, continua a viver o poeta que escreveu contra o medo. Al Berto pertence à noite. Escrevia nela, respirava-a e deixava que o escuro lhe acendesse as palavras. Dizia que a poesia era um lugar de sombra e de iluminação, onde o inútil se separa do essencial. Talvez por isso escrevesse: para descobrir o que ainda faltava compreender. Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra, no dia 11 de janeiro de 1948.

Com apenas um ano, muda-se para Sines, onde cresce numa família com raízes inglesas. Desde pequeno, viveu rodeado de livros; “Entraram na minha vida como passei da papa para o bife”, recordava, com humor. O pai e a mãe leram durante toda a vida, e cedo aprendeu que ler era outra forma de sentir prazer; lia sempre deitado na cama, e um livro que não o conquistasse nas primeiras páginas não merecia lugar na estante. Foi assim que redescobriu Cesário Verde, o “poeta-fotógrafo”, Fernando Pessoa — sobretudo Álvaro de Campos — e Eugénio de Andrade, a quem chamou descoberta. “A minha aprendizagem faz-se por uma espécie de amor e paixão por outros autores”, confessou. A sua primeira paixão nasce entre a escultura e a pintura. Em casa, moldava bonecos de argila, lembrança que os amigos de infância ainda guardam, muito antes de chegar à Escola António Arroio e à Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.

Saiu de Portugal aos dezoito anos e partiu em direção a Bruxelas. Era uma decisão precisa. Queria estudar pintura, ser artista, seguir o rasto de Picasso. Longe da língua portuguesa, levou consigo apenas um livro — “Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac— que foi apreendido pela PIDE dois dias depois de sair.

Com o passar do tempo, trocou o barro pelas palavras. Pintar já não bastava, era preciso tocar o invisível, dar forma ao que o perturbava. “A escrita vem de uma perturbação”. Para Al Berto, o momento da criação é terrível. Afirma que ninguém escreve porque respira, nem porque anda, e que o que surge no papel é apenas um vestígio daquilo que alguma vez sentira. A poesia, para ele, nasce do corpo, da experiência de viver. “Se eu não viver, não há escrita”, dizia. Al Berto assumia pertencer “a uma linhagem de poetas onde a escrita passa pelo corpo”, sem arrogância nem falsa modéstia. Estava tão bem, tão dentro de si e do seu corpo, que escrevia para lá da gramática, para lá da linguagem: “Por que não construir de outra maneira, rebentar com a gramática, com a sintaxe, tudo?”. Quando regressa, em 1974, reencontra-se com a língua e com o país que deixara para trás. Escreve o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”, e descobre na poesia o espaço onde tudo cabe: o amor e a perda, o corpo e o medo.

O reconhecimento literário veio em 1987, com o Prémio P.E.N [prémio literário instituído pelo P.E.N. Clube Português], que disse ter tido um sabor especial. A vida de Al Berto foi uma tensão constante entre o que se sente e o que se consegue transpor para o papel.

Hoje, a noite em Sines guarda a sua presença. A varanda voltada para o mar mantém o rasto do seu olhar, e as malvas crescem como testemunhas de uma vida que ousou ir além do esperado. Permanece a sensação de um poeta que desafiou regras e abriu caminhos que poucos ousaram percorrer. Al Berto pertence, para sempre, à noite.


Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS


03 agosto, 2026

𝑨 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂 𝑴𝒂𝒍𝒅𝒊çã𝒐, de Rui Couceiro

 

Autor: Rui Couceiro
Título: A mais Bela Maldição
N.º de páginas: 201
Editora: Porto editora
Edição (2.ª): Maio 2026
Classificação: Não-Ficção
N.º de Registo: (3814)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Em A Mais Bela Maldição, Rui Couceiro constrói um tributo à literatura através de dez narrativas distintas. O subtítulo, Histórias de gente apaixonada por livros, define, desde logo, o mote principal. Para estas pessoas, a leitura vai muito para além de um mero passatempo ou de uma ocupação. Ela funciona como um refúgio e uma forma de sobrevivência emocional.

O grande trunfo do autor reside na forma como escuta e restitui estas vidas. Deslocou-se ao encontro de cada uma delas, viajando pelos diferentes cantos do mundo para ouvir os seus testemunhos, pelo que descreve minuciosamente o meio envolvente que as molda. Seja através da caracterização geográfica das paisagens, do peso das dinâmicas familiares ou das pressões do contexto social. Cada atmosfera é desenhada com precisão e mostra que o amor aos livros nasce, resiste e floresce em cenários quotidianos muito concretos.

Em cada história, o autor demonstra que a leitura e o ambiente social coexistem e se influenciam mutuamente. Para uns, os livros são o ponto de ligação com um passado familiar esquecido; para outros, representam a única janela de liberdade contra um meio social sufocante. Ao cruzar a envolvência geográfica e social com o ato de ler, o autor humaniza profundamente estas pessoas e revela a diversidade de formas que a paixão literária pode assumir.

Como coleccionadora de livros e leitora ávida, este livro tocou-me de forma muito especial. Reconheci a essência de cada história, pois conheço bem o prazer de acumular histórias nas estantes e de me perder nas suas páginas. Num tempo em que quase tudo se vive através de ecrãs e ligações instantâneas, estas histórias lembram‑nos que a leitura continua a ser a mais bela maldição que nos afasta da ignorância e nos devolve a liberdade de pensar com autonomia.
A Mais Bela Maldição é, para mim, a validação perfeita de que a nossa paixão partilhada pela literatura e pela leitura é, sem dúvida, a mais bela e necessária das obsessões humanas.