30 agosto, 2026

𝑼𝒎 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐𝒔, de Nadine Gordimer



Autora: Nadine Gordimer
Título: UmMundo de Estranhos
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas: 288
Editora: Bibliotex Editor/ DN
Edição: 2003
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (1487)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler Nadine Gordimer é um convite ao desconforto. Em Um Mundo de Estranhos, a Nobel da Literatura sul‑africana (1991) transporta-nos para a Joanesburgo dos anos 50, em pleno auge do apartheid. Acompanhamos Toby Hood, um jovem inglês que chega à África do Sul determinado a manter-se neutro, querendo apenas viver a sua vida privada e profissional, longe das amarras da política. No entanto, a genialidade da obra reside precisamente em mostrar como, num regime opressivo, a neutralidade é uma escolha impossível.

O que torna este livro uma leitura magnética é a forma como a autora contrasta a opulência oca da elite branca com a vitalidade pulsante dos bairros negros. Esse contraste ganha corpo na própria vida de Toby, que divide a sua existência em dois cenários opostos. Por um lado, frequenta as festas da alta burguesia, palcos de vaidade, preconceito e jogos de interesse e validação social. É um ambiente artificial e asfixiante. Por outro lado, é nos subúrbios segregados que descobre a verdadeira liberdade, num espaço onde a música funciona como antídoto à rigidez do mundo branco. Ali, o jazz devolve dignidade a quem vive sob vigilância. Ali, a música é liberdade pura, sem cálculo, atraindo irresistivelmente um Toby cansado da hipocrisia do seu próprio mundo.

Entre estes dois mundos, Gordimer introduz ainda uma zona intermédia, o espaço híbrido onde vive Anna Louw. Ali, convivem pessoas que escapam parcialmente às fronteiras rígidas do apartheid, brancos progressistas, indianos, mestiços, activistas que circulam num território de mistura vigiada. É um lugar de transição, onde a segregação não desaparece, mas se torna mais porosa. A presença de Anna nesse limiar representa uma possibilidade de cruzamento, mas também os limites dessa possibilidade.

A imersão de Toby no mundo subjacente de Joanesburgo deve-se a Steven Sitole. Mais do que amigo, Steven é o guia que abre as portas dessa realidade proibida. Com o seu magnetismo e a recusa em ser reduzido a vítima, mostra que a dignidade e a alegria podem ser formas poderosas de resistência.

Mas é nas relações amorosas que a contradição de Toby se expõe. Ele apaixona-se por Cecil, uma branca alienada, e envolve-se com Anna Louw, que habita essa zona intermédia, mas nunca atravessa a fronteira da intimidade com uma mulher negra. Toby consome a cultura negra, mas não se mistura com ela. A sua incursão é escolha, privilégio revogável

Criar uma personagem que desafia convenções sociais mas permanece presa às suas próprias barreiras invisíveis foi uma audácia tremenda em 1958. A reacção do regime do apartheid não se fez esperar e o livro foi banido durante doze anos.

Ao fechar o livro, a lição que ecoa é brutal. Numa sociedade estruturada pela opressão, a neutralidade é uma ilusão e as bolhas de liberdade individual serão sempre esmagadas se não houver uma libertação colectiva. Uma obra desconfortável que desafiou a censura para dar a conhecer a verdade que o apartheid tentava silenciar.


29 agosto, 2026

Ainda vamos escrever sobre isto!

 

Copilot 03_08_2026 _ 19H


Tudo começou com a partilha de um vídeo no nosso grupo de leitores, no WhatsApp. Um daqueles pequenos fragmentos que subitamente acendem a imaginação colectiva. Mal o vídeo apareceu, alguém declarou: “Que iniciativa gira! Muito bom!”.
O vídeo ainda nem tinha terminado e já se sentia movimento no ar porque outra voz, movida pela mesma energia, escreveu: “Adorava participar”.
O entusiasmo espalhou-se pela porta já escancarada: “Que bela iniciativa e fácil de concretizar!”.

A primeira exigência caiu logo ali, como se o vídeo tivesse convocado a bicharada e não os leitores: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar”. A galinha, ofendida e assustada, pensando que ia parar à grelha, bateu as asas para fora do ecrã.

Cada vez mais entusiasmado, o grupo decidiu recriar o evento dando-lhe um toque particular: “Eheheh. Fazemos um piquenique literário”.
E alguém, muito atento, lembrou: “Olha os animais!”. Não fôssemos fugir à ideia original que tanto animou o grupo. Já imaginaram termos um rato de biblioteca a ler… este meu brilhante pensamento foi cortado por uma alma bem mais prudente que tentou organizar o caos que se antevia: “Mas nós prescindimos dos animais. Quem tiver cão ou gato, pode levar. Só esses.”. Ora bolas!!! Esta proposta vem retirar todo o encanto ao nosso evento! Mas há mais derrotistas porque, discretamente, alguém lançou: “Só falta a relva ...”.

A imaginação levantou voo: “Temos de descobrir um campo”. E a necessidade repetiu-se, insistente, como se o vídeo tivesse ficado preso num loop: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar!”.

Uma das intervenientes, sempre pronta a puxar a conversa para o digital, comentou: “Original…mas a IA também pode andar por ali”. Outra, cansada de tanto bicho e de projectos loucos, respondeu: “Concordo... são coelhos a mais”. Até que alguém, mais lúcido, alertou para um possível perigo: “Ainda nos comem os livros”. Mas uma voz tranquilizou: “Não Graciosa ... Eles vão é pedir emprestados ...”. Contudo, o receio instalou-se e o alerta repetiu-se: “Eles são devoradores. E roedores”.
Como sempre, há quem se aproveita das ocasiões e desafia: “Ainda vamos escrever sobre isto”… mas o eco insistiu: “Eles são devoradores”. E uma leitora marota, conhecedora dos hábitos desta gente, piscou o olho e sussurrou: “Algumas de nós também 'devoram'”.

O título provisório nasceu logo ali: “piquenique literário com coelhos”. A leitora marota, feliz com a sua observação, repetiu-se: “Algumas de nós também ‘devoram’” e só se calou quando um grito breve anuiu: “Ya!!”. E, aí, o refrão regressou: “Olha os animais!”.

A certa altura, até a fauna local entrou em cena: “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”. Alguém antecipou o caos: “Vai ser um festim”. Como Quem conta um conto, acrescenta um ponto, a história cresceu: “Na Ribeira de Moinhos, sim. Por vezes vou às pinhas ou aos espargos, quando é tempo, e vejo a devastação no pinhal! E outro dia vi um coelho! Mas ele assustou-se mais do que eu”.

Ao lamento “Vegetação envolvente, aqui, não temos muita”, alguém respondeu: “Pois, aí é diferente. Mas as galinhas e os coelhos já animam. E ainda chamam a comadre”, e à insistência de “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”, a resposta veio certeira: “Ainda não! Temos gaivotas”.

Quando se pensava que o entusiamo tinha acalmado, surgiu outra voz bem-humorada: “Vocês são muito criativas. Nada que não pudesse vir a acontecer. Mas para termos essa bicharada toda à nossa volta era mais fácil as vacas criarem asas.” E alguém acrescentou, de imediato: “Mas se as vacas criarem asas, vão afugentar as gaivotas.” Com esta possibilidade teríamos um caos aéreo ou a solução para o fim das gaivotas? Um caso de estudo a propor à CMS.

Mas logo um pedido desesperado irrompeu: “Por favor, por favor, não deixem as vacas criar asas...isto com as gaivotas, já é mau demais!”. E alguém sensato assentiu: “Sim, tem razão. Já temos uma pandemia suficiente”. Ao que outra voz ainda acrescentou: “Muito bem. Se já tenho a varanda suja, imaginem as descargas vacarinas”.
- “Tal e qual!”- Rematou outrem.

O caos cresceu: “Que animação... Ausentei-me um bocadinho e já temos vacas voadoras ... Não tarda nada até entra um porquinho a andar de bicicleta...”. E outra voz, enigmática, lançou: “Quem sabe!?”.

A gaivota infantil, que não constava no vídeo inicial, entrou em cena por alguém desesperado: “Eu tenho uma gaivota em idade de infantário…no meu quintal” que acrescentou ainda : “E os progenitores a tomarem conta dela e de mim. Ando de varapau em punho para me defender, se necessário.”

É caso para afirmar que Fiado por fiado, o fio puxa o novelo porque outra história nasceu: “Aqui perto da minha casa há duas, que caíram do telhado onde nasceram, e ali estão no quintal com os pais sempre a ‘falar’ para elas, aflitos porque não as conseguem pôr a voar...”

Como para um bom leitor há sempre uma solução, seja ela fantasiosa ou absurda, esta apareceu, naturalmente: “Temos de chamar o gato do Sepúlveda, que ele trata do assunto”. E uma voz diplomática confessou: “Gosto de animais, mas se fossem passear para outro lado…fecharia o portão!!!”

A memória literária iluminou a atmosfera: “ (História da gaivota e do gato que a ensinou a voar, para mim é das mais bonitas que li)”, e eu magiquei logo que também poderíamos convocar a Alice no País das Maravilhas, ou mesmo O Principezinho, ou ….
“E não me ponham estendida na relva porque depois não conseguem levantar-me!!!!” ecoou, de repente, uma Carolinice!


E então, como se o grupo piscasse o olho ao próprio delírio, surgiu a nota que fecha tudo com graça: “Carolina e o seu (bom) humor…

Assim, termina esta divagação que nasceu de um vídeo partilhado no grupo e cresceu com a espontaneidade das falas que o seguiram. A bicharada entrou sem pedir licença, o absurdo tomou conta da relva inexistente e a imaginação manteve tudo unido. Carolina fechou o círculo com o seu (bom) humor, lembrando-nos que, no fim, o que importa é a alegria de inventar juntos.

 11.07.2026

GR 




28 agosto, 2026

Quando um livro relincha




 


Sempre que termino a leitura de um livro, cumpro um pequeno ritual. Caminho até às estantes da minha biblioteca, aproximo-me da secção dos livros por ler e pego num, depois noutro, deixo-me seduzir por aquele que, mais atrevido, me pisca o olho. Nem sempre é assim, mas quase sempre a escolha se faz num jogo silencioso entre mim e os livros.

Num destes dias, enquanto hesitava entre futuras leituras, pareceu-me ouvir um relinchar leve, quase um sopro vindo de dentro das páginas. Fiquei imóvel. Olhei em volta. "Estou a enlouquecer", pensei. E então vi um livro de capa verde pousado na secretária, a olhar para mim com descaramento. Na capa, um burrico novinho, de olhar tão terno, parecia chamar-me pelo nome.

- Hum… afinal queres que te leia - murmurei-lhe. E tens razão em insistir. Foste-me emprestado pela nossa amiga Carolina e já pedes regresso.

Folheei-o devagar. Detive-me nos desenhos de Bernardo Marques. Depois instalei-me na cadeira da varanda, onde a luz da tarde  se impunha, e iniciei a leitura.
O texto corria com suavidade, capítulos breves, poucas páginas… podia lê-lo numa tarde, pensei. Mas não. O livro não me deixou. Agarrou-me. Prendeu-me pelo colarinho da alma.

Dei por mim a saboreá-lo, a parar, a voltar atrás, a reler… Como a criança do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, eu também “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
Sim, estava extasiada com a beleza da escrita, com aquelas histórias simples e luminosas vividas por Platero e pelo narrador. E, ainda como a criança do conto, também eu me balançava “com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Sempre gostei deste conto e tantas vezes o recomendei para promover a leitura, mas agora, depois de ler Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, compreendo, enfim, a verdadeira profundidade da metáfora de Clarice Lispector. Há livros que não se lêem, acontecem-nos.

Quando terminei o livro, voltei ao início. Queria viver a simplicidade que emanava de cada episódio, como se eu também fosse personagem. Uma criança a brincar meigamente com Platero.
Só tenho um lamento. Como o livro não é meu, não pude sublinhar todas as frases que me encantaram. Fiquei com a sensação de ter deixado para trás pequenas pepitas de ouro que queria guardar comigo.

Já li muitos livros. Muitos, muito bons, maravilhosos, marcantes. Mas de vez em quando, encontro uma pérola assim, como esta, que me faz acreditar em Borges quando referiu: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca.” 
E talvez por isso, por esta felicidade que o livro deixou em mim, tenha decidido preparar uma pequena surpresa para quem lê comigo. Uma proposta de escrita. Um desafio suave. Nada de complicado, apenas o suficiente para que, como eu, alguém sinta o passo leve de Platero, tão discreto, a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.

18.06.2026
GR

21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


07 agosto, 2026

Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita | O Setubalense



Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita

Por O Setubalense  |    Agosto 7, 2026



A noite ainda mora em Sines. O vento arrasta o cheiro a maresia pelas ruas vazias. Mais adiante, é possível ver uma varanda voltada para o mar, onde as malvas crescem desordenadas. Ali, onde a areia encontra o silêncio, continua a viver o poeta que escreveu contra o medo. Al Berto pertence à noite. Escrevia nela, respirava-a e deixava que o escuro lhe acendesse as palavras. Dizia que a poesia era um lugar de sombra e de iluminação, onde o inútil se separa do essencial. Talvez por isso escrevesse: para descobrir o que ainda faltava compreender. Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra, no dia 11 de janeiro de 1948.

Com apenas um ano, muda-se para Sines, onde cresce numa família com raízes inglesas. Desde pequeno, viveu rodeado de livros; “Entraram na minha vida como passei da papa para o bife”, recordava, com humor. O pai e a mãe leram durante toda a vida, e cedo aprendeu que ler era outra forma de sentir prazer; lia sempre deitado na cama, e um livro que não o conquistasse nas primeiras páginas não merecia lugar na estante. Foi assim que redescobriu Cesário Verde, o “poeta-fotógrafo”, Fernando Pessoa — sobretudo Álvaro de Campos — e Eugénio de Andrade, a quem chamou descoberta. “A minha aprendizagem faz-se por uma espécie de amor e paixão por outros autores”, confessou. A sua primeira paixão nasce entre a escultura e a pintura. Em casa, moldava bonecos de argila, lembrança que os amigos de infância ainda guardam, muito antes de chegar à Escola António Arroio e à Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.

Saiu de Portugal aos dezoito anos e partiu em direção a Bruxelas. Era uma decisão precisa. Queria estudar pintura, ser artista, seguir o rasto de Picasso. Longe da língua portuguesa, levou consigo apenas um livro — “Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac— que foi apreendido pela PIDE dois dias depois de sair.

Com o passar do tempo, trocou o barro pelas palavras. Pintar já não bastava, era preciso tocar o invisível, dar forma ao que o perturbava. “A escrita vem de uma perturbação”. Para Al Berto, o momento da criação é terrível. Afirma que ninguém escreve porque respira, nem porque anda, e que o que surge no papel é apenas um vestígio daquilo que alguma vez sentira. A poesia, para ele, nasce do corpo, da experiência de viver. “Se eu não viver, não há escrita”, dizia. Al Berto assumia pertencer “a uma linhagem de poetas onde a escrita passa pelo corpo”, sem arrogância nem falsa modéstia. Estava tão bem, tão dentro de si e do seu corpo, que escrevia para lá da gramática, para lá da linguagem: “Por que não construir de outra maneira, rebentar com a gramática, com a sintaxe, tudo?”. Quando regressa, em 1974, reencontra-se com a língua e com o país que deixara para trás. Escreve o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”, e descobre na poesia o espaço onde tudo cabe: o amor e a perda, o corpo e o medo.

O reconhecimento literário veio em 1987, com o Prémio P.E.N [prémio literário instituído pelo P.E.N. Clube Português], que disse ter tido um sabor especial. A vida de Al Berto foi uma tensão constante entre o que se sente e o que se consegue transpor para o papel.

Hoje, a noite em Sines guarda a sua presença. A varanda voltada para o mar mantém o rasto do seu olhar, e as malvas crescem como testemunhas de uma vida que ousou ir além do esperado. Permanece a sensação de um poeta que desafiou regras e abriu caminhos que poucos ousaram percorrer. Al Berto pertence, para sempre, à noite.


Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS


03 agosto, 2026

𝑨 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂 𝑴𝒂𝒍𝒅𝒊çã𝒐, de Rui Couceiro

 

Autor: Rui Couceiro
Título: A mais Bela Maldição
N.º de páginas: 201
Editora: Porto editora
Edição (2.ª): Maio 2026
Classificação: Não-Ficção
N.º de Registo: (3814)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Em A Mais Bela Maldição, Rui Couceiro constrói um tributo à literatura através de dez narrativas distintas. O subtítulo, Histórias de gente apaixonada por livros, define, desde logo, o mote principal. Para estas pessoas, a leitura vai muito para além de um mero passatempo ou de uma ocupação. Ela funciona como um refúgio e uma forma de sobrevivência emocional.

O grande trunfo do autor reside na forma como escuta e restitui estas vidas. Deslocou-se ao encontro de cada uma delas, viajando pelos diferentes cantos do mundo para ouvir os seus testemunhos, pelo que descreve minuciosamente o meio envolvente que as molda. Seja através da caracterização geográfica das paisagens, do peso das dinâmicas familiares ou das pressões do contexto social. Cada atmosfera é desenhada com precisão e mostra que o amor aos livros nasce, resiste e floresce em cenários quotidianos muito concretos.

Em cada história, o autor demonstra que a leitura e o ambiente social coexistem e se influenciam mutuamente. Para uns, os livros são o ponto de ligação com um passado familiar esquecido; para outros, representam a única janela de liberdade contra um meio social sufocante. Ao cruzar a envolvência geográfica e social com o ato de ler, o autor humaniza profundamente estas pessoas e revela a diversidade de formas que a paixão literária pode assumir.

Como coleccionadora de livros e leitora ávida, este livro tocou-me de forma muito especial. Reconheci a essência de cada história, pois conheço bem o prazer de acumular histórias nas estantes e de me perder nas suas páginas. Num tempo em que quase tudo se vive através de ecrãs e ligações instantâneas, estas histórias lembram‑nos que a leitura continua a ser a mais bela maldição que nos afasta da ignorância e nos devolve a liberdade de pensar com autonomia.
A Mais Bela Maldição é, para mim, a validação perfeita de que a nossa paixão partilhada pela literatura e pela leitura é, sem dúvida, a mais bela e necessária das obsessões humanas.