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31 março, 2025

Galveias - nos trilhos de José Luís Peixoto

 No dia 29 de Março, o grupo de leitores de Uma Casa Sem Livros rumou em direcção a Galveias para visitar o Centro Interpretativo José Luís Peixoto e visitar alguns dos pontos principais da obra Galveias. 
Foi um dia agradável de convívio e de aquisição de conhecimentos literários e culturais. 



        

                        

                  

                  

       
 
                  

         




16 março, 2025

𝑹𝒆𝒈𝒓𝒆𝒔𝒔𝒐 𝒂 𝑪𝒂𝒔𝒂, de José Luís Peixoto

 


Autor: José Luís Peixoto
Título: Regresso a Casa
N.º de páginas: 110
Editora: Quetzal
Edição: Agosto 2020
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3255)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



José Luís Peixoto (JLP) abre este livro de poesia com um belíssimo apelo. “Repara na manhã que nos rodeia”, repara na vida, nas palavras, na poesia. É um Regresso a Casa, às “suas casas”, lugares de afecto, às suas memórias, aos seus livros, às suas viagens.
Este regresso à poesia, em tempos de confinamento, é um mergulho emotivo e sincero na realidade e na sua intimidade, mas também uma fuga ao isolamento (quase claustrofóbico), ao receio de um futuro incerto. 
JLP encontra no poema e nas palavras uma janela propícia à reflexão, às lembranças, à saudade, mas também à confirmação de uma identidade. A sua.
“O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.”

JLP transforma a escrita, a poesia em terapia, como uma protecção e um escape à realidade. Para quem viaja regularmente, torna-se necessariamente difícil ficar “preso” em casa. Nos seus poemas captamos os afectos pelas pessoas, pelos lugares; as emoções; o amor; os instantes que preenchem “quarenta e cinco anos”.

Hoje, ao lê-lo, e ao partilhar o seu diálogo introspectivo, revejo-me na “minha casa” fechada entre quatro paredes, nas aulas aos quadradinhos, de volta dos livros e focada nas múltiplas partilhas de solidariedade que, espontaneamente, surgiam na internet; assaltam-me certas memórias que também recuperei e rememoro as dúvidas e os receios, então, vividos diariamente. Porém, a leitura deste livro proporciona-me, sobretudo, um melhor conhecimento de JLP, quer através da dimensão intimista que nos lega em diversos poemas, quer através da revisitação de algumas das suas obras publicadas até então. Como exemplo, o poema intitulado “Morreste-me” é enternecedor. Não ficamos indiferentes às palavras sentidas e sensíveis, tal como não ficámos aquando da leitura do livro homónimo.

Recomendo muito este Regresso a Casa. Lê-se lindamente e “carrega ecos” de um tempo e de um autor que muito aprecio. E termino como iniciei. “Repara” na vida, na poesia! Lê poesia! Lê JLP.
“(…)
Estamos vivos, repara. Um livro
de poesia, como uma trégua secreta,
uma janela, como os teus olhos
a verem-me em silêncio, ou os meus
olhos a verem-te. Um livro de poesia, como um regresso a casa.”




05 maio, 2024

Mãe!

 

                                                                        Foto GR



mil estrelas no colo

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


in A Casa, a Escuridão, José Luís Peixoto




04 novembro, 2023

𝑶𝒏𝒅𝒆, de José Luís Peixoto

 



Autor: José Luís Peixoto
Título: Onde
N.º de páginas: 139
Editora: Quetzal
Edição: Julho  2022
Classificação: Roteiro literário
N.º de Registo: (3380)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Como classificar Onde? Um livro de crónicas, um guia de viagens, um texto poético? É uma mescla de tudo isso, é um roteiro literário já que versa por terras de Botto, Camões e Gil Vicente.

José Luís Peixoto a partir da Praça da República, centro do Sardoal e do mundo, convida o leitor a avançar pelas páginas do seu livro, pela sua geografia. E o leitor entusiasmado deixa-se conduzir pelas suas palavras poéticas.

São 139 páginas de textos breves que nos proporcionam a descoberta de igrejas, de fontes, de miradouros, de ruas, de árvores, de paisagem, de monumentos, de bibliotecas…. Para o leitor que já visitou Abrantes, Constância e Sardoal, esta viagem pode tornar-se num avivar de memórias, de recordações, mas pode também tornar-se num enorme lamento porque percebe que então, o seu olhar não captou a realidade existente no “cruzamento entre o tempo e o espaço” e que não “soube manobrar o olhar”, pelo que no final do livro, sente vontade de regressar com os olhos bem abertos, de seguir os passos e as palavras do autor, de apreender tudo de novo, de captar a essência de cada lugar e de terminar na Biblioteca Municipal de António Botto (inevitável) para sentir o seu olhar, para ser biblioteca:

“ A BIBLIOTECA ESTÁ A VER-TE. A partir das janelas abertas, esse olhar não te larga, fixa cada um dos teus movimentos, até os mais ínfimos: o peito a encher-se e a esvaziar-se, o ligeiro tremor com que te firmas nas pernas. Existes no olhar da biblioteca, da mesma maneira que estas palavras existem no teu olhar. (…) Mas agora estás aqui, és uma figura ao longe. A tua pele são as tuas paredes, como as paredes da biblioteca são a sua pele. As prateleiras de livros são as suas veias e artérias. Através delas, fluem palavras como sangue ou seiva, são a transcrição literal dos teus pensamentos. A biblioteca está a ler-te. Tu és a biblioteca da biblioteca. “ (pp. 85. 86)

Em jeito de conclusão, Onde é um livro diferente, que se pode ler num ápice. Contudo, recomendo que se leia com vagar, que se aprecie a escrita simplesmente poética porque “PRECISAMOS DAS BORBOLETAS para falarmos de delicadeza. Sem elas, seria muito mais difícil escolher palavras finas e raras, prontas a pousar lentamente nos ouvidos de quem as escute, nos olhos de quem as leia.” (p. 83) e, também, porque “às vezes, a poesia é a loucura arrumada em versos, palavras que se parecem com os seus sinónimos mas que, ao serem lidas, nos puxam para um lugar com outra lógica.” (p. 87)

É isto! É poesia! São palavras belas, são borboletas!

A certa altura, JLP escreve “Sorrir foi a lição mais importante.” Eu sorri bastante.





25 abril, 2022

𝑨𝒃𝒓𝒂ç𝒐, de José Luís Peixoto

 



Autor: José Luís Peixoto
Título: Abraço
N.º de páginas: 655
Editora: Quetzal
Edição: Outubro 2011
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2857)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Abraço é uma colectânea de cento e sessenta e duas crónicas escritas ao longo de dez anos e que marcam três fases distintas: os seis, os catorze e os trinta e seis anos da vida do autor. A sequência das crónicas que integram este livro foi sublimemente organizada. Tudo faz sentido. Assumimos o livro como um todo e não como uma colectânea de textos que foram publicados de forma avulsa em jornais e revistas.

Os textos apresentam uma escrita intimista, corajosa e aparentemente simples, já que o autor parte do banal, do quotidiano, por vezes, de uma palavra, de uma ideia, de uma emoção para olhar para dentro de si, para expor os seus segredos, as suas vivências pessoais e familiares, sobretudo com os filhos, os pais e a irmã, as suas viagens, o seu processo de criação, as suas leituras, os seus pensamentos, as suas vitórias. Falam da sua infância e adolescência no Alentejo; falam de livros, livrarias, escritores, de filmes e cinema, de objectos banais; falam de amor, da vida, da sua vida de forma desassombrada, intimista, sem filtros, e cativante.

À conta de tudo isto, há todo um processamento da memória, mas há também o registo presente, simultâneo, do vivido e do escrito e há ainda a interpelação directa ao leitor que, em muitos textos, participa quase espontaneamente como se ele próprio abraçasse a escrita. Interessante como a narração, a descrição de um facto banal se transforma em literatura, em prosa poética e o leitor fica suspenso nas palavras, nas frases, na beleza da história.

Este livro é um compêndio de abraços à vida, às palavras lidas e escritas, aos leitores, aos lugares.
“Pureza, aceita esta palavra nos teus gestos, em cada uma das tuas palavras, e, aos poucos, chegará ou regressará aos teus pensamentos. (…) Não deixes que te armadilhem os cálculos e labirintos. São demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. (…) Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.
Agora, vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.” (pp. 653 a 655)




11 junho, 2021

𝑨𝒍𝒎𝒐ç𝒐 𝒅𝒆 𝑫𝒐𝒎𝒊𝒏𝒈𝒐, de José Luís Peixoto

 


Autor: José Luís Peixoto
Título: Almoço de Domingo
N.º de páginas: 257
Editora: Quetzal
Edição: 1.ª Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3274)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Este romance biográfico revela-nos uma narrativa que decorre no futuro. Os três capítulos que o compõem marcam três dias importantes da vida de um alentejano de Campo Maior, império dos cafés Delta.

26, 27 e 28 de março. Os dois primeiros dias antecedem uma data muito importante, o dia do aniversário do Sr. Rui. São 90 anos. 90 anos de uma vida cheia de acontecimentos memoráveis. 90 anos de memórias e de recordações que de forma magistral e com muita sensibilidade nos vão sendo narradas.
Nestes três dias, e numa estrutura muito bem arquitectada, vamos descobrindo, no presente, a rotina pessoal e profissional do biografado, pela visão do narrador, e o passado que flui através da memória do mesmo protagonista. A acção que acontece no presente traz à memória uma acção idêntica, mas com anos de distância. E assim, numa intersecção de presente e passado, ao sabor da memória do Sr. Rui (ou será que é ao sabor da escrita do autor?) vamos conhecendo a sua família, as suas casas, os seus amigos, os seus empregados, os seus afectos, os seus sonhos, a sua resistência à pobreza, a sua luta no contrabando, a sua generosidade, o seu sucesso. Fica claro que para este homem a sua família desempenhou e continua a desempenhar um papel fulcral. Através da sua memória ele mantém essa ligação. Nos seus pensamentos convivem os pais, os irmãos, o tio, a sempre presente e doce Alice, a sua esposa, os filhos, as noras, os netos e bisnetos.

Este romance transpira humildade e generosidade quer do autor quer do biografado. É um hino ao Alentejo, à sensibilidade, à beleza e à resistência da gente alentejana. É uma homenagem ao homem, ao patriarca de uma família, ao patrão de toda uma povoação. É uma ode ao amor, ao amor sincero de toda uma família, a do passado e a do presente, que se reúne num almoço de domingo para celebrar os 90 anos do homem que tão bem soube conduzir a sua vida e a dos outros.

“Há silêncio bom, a companhia e a importância uns dos outros. Incentivado pelo domingo, começo a dizer alguma coisa, talvez alguma história da escola, não importa o assunto, desta vez não importa o assunto, conta muito mais que, neste instante, estamos juntos, tenho a atenção do meu pai, da minha mãe, das minhas irmãs e do meu irmão, Olham-me e escutam-me, estão fixos em cada palavra que digo. Estamos juntos. Sem parar de falar, satisfeito e criança, baixo o olhar sobre as minhas mãos de dez anos.
Quando o senhor Rui levantou o olhar das mãos de noventa anos, a pele engelhada e as veias nas costas das mãos, tinha todos à sua frente: os filhos, os netos, as noras, os bisnetos.” (p. 238)

“Com noventa anos o senhor Rui estava rodeado pela sua vida.” (p.249)


15 janeiro, 2021

𝑪𝒐𝒏𝒇𝒖𝒔ã𝒐 𝒏𝒐 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆𝒅𝒐𝒓 𝒅𝒐𝒔 𝑬𝒏𝒍𝒂𝒕𝒂𝒅𝒐𝒔, de José Luís Peixoto

 

Autor: José Luís Peixoto
Ilustrador: Catarina Bakker
Título: Confusão no Corredor dos Enlatados
N.º de páginas: 38
Editora: Zero Desperdício
Edição:  s/data
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (ebook)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

São quatro os livros que integram esta coleção editada com o objectivo de “educar para uma alimentação saudável”, este, em particular, foca-se no desperdício alimentar. 
Destinado aos mais pequenos (1.º ciclo), mas que pode e deve ser lido por qualquer um. Com uma escrita simples, uma linguagem muito acessível e ilustrações maravilhosas, a história encerra uma mensagem muito interessante e actual, excelente para desenvolver na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Foi no âmbito desta disciplina que lemos, de forma expressiva, este conto aos alunos do 7.º ano. No final, houve troca de ideias e de boas práticas. 
Divertimo-nos imenso! E os pequenos adoraram! 
Recomendo a leitura! Vão adorar conhecer a Mimimi (Maria Isabel Mónica Ivone Matilde Inês Silva da Silva) e seguir os seus conselhos!

10 janeiro, 2020

A criança em ruínas, de José Luís Peixoto



OPINIÃO


Por questões de trabalho, volto a ler este pequeno livro de poesia. Faço-o sempre com muito prazer, pois gosto da escrita do JLP. É um livro pleno de sensibilidade, com resquícios de tristeza e de saudade muito presentes no seu primeiro livro Morreste-me. 
O autor partilha com o leitor a solidão e a dor causadas pela desintegração/separação da família: a perda do pai, a saída de casa das irmãs, o alheamento da mãe.

“na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.” 

Para colmatar a saudade e a angústia dos lugares vazios, (“o teu sono anoiteceu mais que as mortes/que posso suportar e hei-de escrever-te/sempre e mais uma vez sozinho nesta noite”) o autor evoca a infância, relembra e (re)vive momentos de felicidade, de ternura e de amor. “recordas mãe a segurança /calada dos nossos abraços distantes?”

É impossível ficar indiferente a tanta melancolia e sensibilidade porque, afinal, em todos nós, há um pouco desta “criança em ruínas” que tenta sobreviver à tristeza e que acredita na existência da felicidade. 

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade.”



14 agosto, 2019

Autobiografia de José Luís Peixoto



SINOPSE

Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação, nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura. 

A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.

OPINIÃO

Autobiografia. “Texto ficcional de cariz biográfico”. É assim que está definido na obra pelo José. 
Na minha opinião, trata-se de uma abordagem da vida de José Saramago muito inteligente numa intersecção de realidade e de ficção.
Em Lisboa, nos finais da década de 90, os destinos de José, aspirante a escritor, e Saramago, escritor consagrado, cruzam-se. José escreveu o seu primeiro romance e vive em plena angústia pela falta de inspiração para um segundo romance. É durante este impasse que José é convidado a escrever a biografia de Saramago.

A estrutura da narrativa, o diálogo recorrente com o leitor, a inclusão de personagens e de acontecimentos de vários livros de Saramago torna a leitura do livro Autobiografia cativante. Há um entendimento claro da literatura enquanto jogo de espelhos, enquanto “espaços vazios a serem preenchidos por quem os interpreta”. Há (ou não) uma coincidência de nomes: José, o narrador; José Saramago o escritor biografado; Sr. José, personagem de Todos os Nomes, último livro publicado por Saramago (2 de Julho de 1997) e o próprio José Luís Peixoto. Há sobreposição de vidas, de espaços e de factos que confundem ainda mais o leitor na distinção entre a realidade e a ficção. Mas o que importa mesmo é deixar-se embrenhar pelo enredo fabuloso.

Recomendo vivamente.





08 janeiro, 2018

O Caminho imperfeito de José Luís Peixoto



Como o próprio autor o referiu "É um livro que fala sobre diversos caminhos, todos eles imperfeitos".  
O fio condutor do livro é a viagem que o autor realizou com o ilustrador Makarov à Tailândia, e que, de forma minuciosa, nos apresenta o seu olhar, a sua percepção sobre a cultura, a história e os costumes deste país. 
Não se pode, no entanto, concluir que se trata de um livro de viagens, no meu entender é um livro de reflexão pessoal e intimista. 
Nas três partes que compõem o livro, o autor apresenta-nos fragmentos dessa mesma viagem, de uma outra viagem a Las Vegas e da sua vida pessoal e familiar. É através da sua memória que o autor procura conhecer-se e encontrar-se naquele que é o caminho imperfeito da sua vida, convidando o leitor à partilha dessa descoberta. Confesso que foi um prazer viajar com o José Luís Peixoto pelos caminhos imperfeitos que nos proporcionaram estas páginas.



20 dezembro, 2014

José Luís Peixoto em Sines







José Luís Peixoto esteve ontem, em Sines, na Livraria À Das Artes para apresentar o seu novo livro. 

Galveias é uma homenagem à localidade alentejana onde o escritor nasceu há 40 anos, e que pretende divulgar “a realidade do interior de Portugal, onde há problemas bastante graves”. 

Como já é habitual, o autor, óptimo comunicador, conseguiu um ambiente agradabilíssimo e uma boa participação do público presente que encheu o espaço da Livraria. 





13 julho, 2013

José Luís Peixoto ganha Prémio Salerno Livro d'Europa



Livro



O escritor José Luís Peixoto  venceu a primeira edição do Prémio Salerno Livro d`Europa, em Itália, com a obra Livro.
 
O júri  que decidiu o prémio, com um valor pecuniário de 5 mil euros, foi constituído por 50 leitores e 50 personalidades ligadas ao meio editorial italiano.
 
Livro foi publicado em 2010, pela Quetzal Editores, e foi também finalista do Prémio Femina, atribuído em França.
 
O Prémio Salerno Livro d’Europa teve, como outros finalistas, a francesa Jakuta Alikavazovic, autora de La Bionda e il Bunker, na tradução italiana, o suíço  Arno Camenisch , autor de  Dietro la Stazione, o italiano Paolo Di Paolo, com Mandami Tanta Vita e a alemã Judith Schalansky com Lo Splendore Casuale delle Meduse.
 
José Luís Peixoto já venceu  em 2001, o Prémio Saramago com o romance Nenhum Olhar, e foi  distinguido com os prémios Daniel Faria e Cálamo Outra Mirada, ambos em 2008.
E Cemitério de Pianos (2006) está na primeira lista do Prémio Impact Dublin.

05 maio, 2013

Um poema de José Luís Peixoto

 
 
Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


 
José Luis Peixoto


 © Justine Brax in Petite mangue
 
 
 
 
 

07 novembro, 2012

Leituras

 
Desde o interior da ditadura mais repressiva do mundo, desde um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo.
Em Abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte.
Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.
A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens leva-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo.
Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios.
O novo livro de José Luís Peixoto,Dentro do Segredo, Uma viagem na Coreia do Norte, chega às livrarias portuguesas, a 16 de Novembro de 2012.
 
informação retirada da página Quetzal

08 março, 2012

um poema de José Luís Peixoto


   La Rêverie, 1877 - Pierre-Auguste Renoir
               

A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in A Casa, a Escuridão

16 outubro, 2011

Leituras


Começará a ser distribuído na apresentação na Quinta de Leitura (Teatro do Campo Alegre, Porto) a 27 de Outubro de 2011.
Chegará às livrarias de todo o país a 28 de Outubro de 2011.



A meio deste mês de Outubro será publicado Claraboia, o romance que José Saramago escreveu mas nunca quis publicar em vida.





"Um doloroso canto de uma mulher torturada" foi o ponto de partida para Comissão das Lágrimas, o novo livro de António Lobo Antunes. Já nas livrarias.





02 maio, 2010

Às mães - 3 poemas


Jan Vermeer



Palavras para a Minha Mãe

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

____________________

Mãe...

Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu podesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Antero de Quental, in "Sonetos"_______________________

Mãe

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

23 fevereiro, 2010

um poema de José Luís Peixoto

Wassily Kandinsky

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luis Peixoto, in a criança em ruínas