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29 setembro, 2026

𝑼𝒎𝒂 𝒍𝒐𝒏𝒈𝒂 𝒗𝒊𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒄𝒐𝒎 𝑱𝒐𝒔é 𝑺𝒂𝒓𝒂𝒎𝒂𝒈𝒐, de João Céu e Silva


Autor: João Céu e Silva
Título: Uma longa viagem com José Saramago
N.º de páginas: 416
Editora: Porto Editora
Edição: Março 2009
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (2529)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


16 setembro, 2026

𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂, de Ana Paula Tavares



Autora: Ana Paula Tavares
Título: O Sangue da Buganvília
N.º de páginas: 247
Editora: Caminho
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3812)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Sangue da Buganvília, de Ana Paula Tavares, é um livro que exige vagar. Cada crónica nasce da terra e devolve ao leitor a memória de um país marcado por perdas profundas. A escrita da autora angolana é depurada, sensorial e feita de silêncios que revelam muito mais do que qualquer discurso directo. Aqui, a crítica social e histórica surge nos detalhes, nos objectos e nas vozes que atravessam o quotidiano.

A buganvília, bela metáfora, é o fio condutor deste livro. Esta árvore que cresce junto às casas e resiste ao calor e ao tempo, funciona como uma memória viva; guarda histórias, revela palavras e sonhos, protege rituais ancestrais e acompanha a vida das mulheres que sustentam o mundo através de um trabalho silencioso. Em cada crónica, há como um ramo que se estende para o passado e outro que procura o futuro. A árvore torna-se, assim, símbolo de continuidade, de força discreta, de permanência.

Grande parte das crónicas regressa a uma Angola ferida pela destruição, pela guerra, pela colonização e por políticas que teimam em não conseguir erguer o que foi destruído. As imagens criadas pela autora são simples, mas carregam uma verdade profunda. A dor aparece como uma sombra constante, a esperança surge num gesto e a memória funciona como a raiz que insiste em não morrer.

No centro desta resistência estão as vozes femininas, que atravessam o livro com uma firmeza impressionante. Estas mulheres são as verdadeiras guardiãs de saberes antigos e de práticas que mantêm a comunidade unida. Ana Paula Tavares escreve sobre elas com precisão e delicadeza, oferecendo-nos imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. A sua crítica surge de forma subtil, uma marca deixada por quem viveu demasiado para acreditar em soluções fáceis.

Ler O Sangue da Buganvília é entrar num território onde as recordações se entranham na própria terra. As crónicas avançam como ramos que procuram a luz, e penetram “na linguagem secreta das coisas da alma” como escreve a autora e destacou, também, Tania Macêdo no prefácio. O “sangue” do título evoca inevitavelmente o sangue derramado na história de Angola, um traço profundo que atravessa gerações e permanece vivo na identidade do seu povo.


07 setembro, 2026

𝑨𝒕𝒐𝒔 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒐𝒔, de Han Kang


Autora: Han Kang
Título: Atos Humanos
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 227
Editora: D. Quixote
Edição(2.ª): Outubro 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3669)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Fechei o livro e fiquei a olhar para ele. O silêncio do meu quarto pareceu-me pesado, quase sufocante. Há leituras que nos deixam a cogitar no escuro. Como é possível que a crueldade encontre sempre novas formas de se repetir? Como é que a humanidade alberga, ao mesmo tempo, uma violência infinita e uma resiliência tão silenciosa?

O livro confronta-nos directamente com o Massacre de Gwangju, de 1980, na Coreia do Sul. Ao expor a brutalidade extrema do regime militar, que trata os corpos como objectos descartáveis, revela também gestos de resistência humana como contar os mortos, recolher os corpos, acender as velas, fazer o luto.

Impressionou‑me a forma como Han Kang trabalha o tempo, com saltos constantes entre passado e presente. Em vez de reconstruir os factos históricos de forma directa, ela aproxima‑nos da verdade através das experiências dos narradores (incluindo a alma de um rapaz morto), uma sobrevivente torturada, um prisioneiro e outros. Cada perspectiva revela que o trauma não ficou preso a 1980, enraizou‑se nos sobreviventes e continuou a destruir relações, casamentos e a própria sanidade ao longo de trinta anos.

A escrita de Han Kang é poética e sensível. Não suaviza a violência; fixa-se na dor íntima e silenciosa, tornando o sofrimento quase palpável. É uma escrita que magoa precisamente por ser tão bonita.

Atos Humanos deixa-nos uma cicatriz que não desaparece. Não é uma leitura feliz, mas é uma leitura necessária num mundo que insiste em esquecer o valor da empatia. A dor que persiste não é apenas a dos que viveram Gwangju; é também a de quem lê.
Saí desta leitura devastada, sim, mas mais desperta para o que ainda precisa de ser lembrado.
E concordo com a tradutora, que encerra a sua introdução lembrando que este romance é também uma resposta pessoal e política aos recentes desenvolvimentos, e um alerta para os actos humanos de que todos somos capazes – “atos brutais e atos generosos, atos básicos e atos sublimes”.



30 agosto, 2026

𝑼𝒎 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐𝒔, de Nadine Gordimer



Autora: Nadine Gordimer
Título: UmMundo de Estranhos
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas: 288
Editora: Bibliotex Editor/ DN
Edição: 2003
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (1487)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler Nadine Gordimer é um convite ao desconforto. Em Um Mundo de Estranhos, a Nobel da Literatura sul‑africana (1991) transporta-nos para a Joanesburgo dos anos 50, em pleno auge do apartheid. Acompanhamos Toby Hood, um jovem inglês que chega à África do Sul determinado a manter-se neutro, querendo apenas viver a sua vida privada e profissional, longe das amarras da política. No entanto, a genialidade da obra reside precisamente em mostrar como, num regime opressivo, a neutralidade é uma escolha impossível.

O que torna este livro uma leitura magnética é a forma como a autora contrasta a opulência oca da elite branca com a vitalidade pulsante dos bairros negros. Esse contraste ganha corpo na própria vida de Toby, que divide a sua existência em dois cenários opostos. Por um lado, frequenta as festas da alta burguesia, palcos de vaidade, preconceito e jogos de interesse e validação social. É um ambiente artificial e asfixiante. Por outro lado, é nos subúrbios segregados que descobre a verdadeira liberdade, num espaço onde a música funciona como antídoto à rigidez do mundo branco. Ali, o jazz devolve dignidade a quem vive sob vigilância. Ali, a música é liberdade pura, sem cálculo, atraindo irresistivelmente um Toby cansado da hipocrisia do seu próprio mundo.

Entre estes dois mundos, Gordimer introduz ainda uma zona intermédia, o espaço híbrido onde vive Anna Louw. Ali, convivem pessoas que escapam parcialmente às fronteiras rígidas do apartheid, brancos progressistas, indianos, mestiços, activistas que circulam num território de mistura vigiada. É um lugar de transição, onde a segregação não desaparece, mas se torna mais porosa. A presença de Anna nesse limiar representa uma possibilidade de cruzamento, mas também os limites dessa possibilidade.

A imersão de Toby no mundo subjacente de Joanesburgo deve-se a Steven Sitole. Mais do que amigo, Steven é o guia que abre as portas dessa realidade proibida. Com o seu magnetismo e a recusa em ser reduzido a vítima, mostra que a dignidade e a alegria podem ser formas poderosas de resistência.

Mas é nas relações amorosas que a contradição de Toby se expõe. Ele apaixona-se por Cecil, uma branca alienada, e envolve-se com Anna Louw, que habita essa zona intermédia, mas nunca atravessa a fronteira da intimidade com uma mulher negra. Toby consome a cultura negra, mas não se mistura com ela. A sua incursão é escolha, privilégio revogável

Criar uma personagem que desafia convenções sociais mas permanece presa às suas próprias barreiras invisíveis foi uma audácia tremenda em 1958. A reacção do regime do apartheid não se fez esperar e o livro foi banido durante doze anos.

Ao fechar o livro, a lição que ecoa é brutal. Numa sociedade estruturada pela opressão, a neutralidade é uma ilusão e as bolhas de liberdade individual serão sempre esmagadas se não houver uma libertação colectiva. Uma obra desconfortável que desafiou a censura para dar a conhecer a verdade que o apartheid tentava silenciar.


21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


03 agosto, 2026

𝑨 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂 𝑴𝒂𝒍𝒅𝒊çã𝒐, de Rui Couceiro

 

Autor: Rui Couceiro
Título: A mais Bela Maldição
N.º de páginas: 201
Editora: Porto editora
Edição (2.ª): Maio 2026
Classificação: Não-Ficção
N.º de Registo: (3814)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em A Mais Bela Maldição, Rui Couceiro constrói um tributo à literatura através de dez narrativas distintas. O subtítulo, Histórias de gente apaixonada por livros, define, desde logo, o mote principal. Para estas pessoas, a leitura vai muito para além de um mero passatempo ou de uma ocupação. Ela funciona como um refúgio e uma forma de sobrevivência emocional.

O grande trunfo do autor reside na forma como escuta e restitui estas vidas. Deslocou-se ao encontro de cada uma delas, viajando pelos diferentes cantos do mundo para ouvir os seus testemunhos, pelo que descreve minuciosamente o meio envolvente que as molda. Seja através da caracterização geográfica das paisagens, do peso das dinâmicas familiares ou das pressões do contexto social. Cada atmosfera é desenhada com precisão e mostra que o amor aos livros nasce, resiste e floresce em cenários quotidianos muito concretos.

Em cada história, o autor demonstra que a leitura e o ambiente social coexistem e se influenciam mutuamente. Para uns, os livros são o ponto de ligação com um passado familiar esquecido; para outros, representam a única janela de liberdade contra um meio social sufocante. Ao cruzar a envolvência geográfica e social com o ato de ler, o autor humaniza profundamente estas pessoas e revela a diversidade de formas que a paixão literária pode assumir.

Como coleccionadora de livros e leitora ávida, este livro tocou-me de forma muito especial. Reconheci a essência de cada história, pois conheço bem o prazer de acumular histórias nas estantes e de me perder nas suas páginas. Num tempo em que quase tudo se vive através de ecrãs e ligações instantâneas, estas histórias lembram‑nos que a leitura continua a ser a mais bela maldição que nos afasta da ignorância e nos devolve a liberdade de pensar com autonomia.
A Mais Bela Maldição é, para mim, a validação perfeita de que a nossa paixão partilhada pela literatura e pela leitura é, sem dúvida, a mais bela e necessária das obsessões humanas.


25 julho, 2026

𝑳𝒖𝒕𝒐 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒔 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒖𝒈𝒖𝒆𝒔𝒆𝒔, de Rui Zink

 

Autor: Rui Zink
Título: Luto pela Felicidade dos Portugueses
N.º de páginas: 154
Editora: Quasi
Edição: Maio 2007
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2311)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Será que o português sabe ser feliz ou prefere a melancolia de se queixar, esse hábito antigo que lhe serve de companhia? Em Luto pela Felicidade dos Portugueses, Rui Zink responde a esta e a muitas, muitas outras perguntas através de uma lente crítica que é tanto desconcertante quanto hilariante.

O livro reúne crónicas escritas originalmente entre 2000 e 2005 para a revista SOS Saúde, mas desengane-se quem procurar nestas páginas conselhos médicos tradicionais ou receitas de bem-estar. Zink oferece consciência, ironia e uma espécie de ternura que só existe quando se conhece bem o paciente. Ao incluir-se no diagnóstico e nas receitas, retira qualquer superioridade moral e mostra que os vícios que aponta são também os seus. Essa auto‑ironia atribui às crónicas uma autoridade e uma empatia que conquistam o leitor.

A genialidade da obra começa no título, onde “luto” carrega um duplo sentido que retrata a nossa identidade. Por um lado, evoca o verbo lutar, remetendo para a ideia de quem batalha pela dignidade e pela felicidade do seu povo. Por outro, surge como o substantivo, representando a tristeza e o pessimismo de um país. Ao juntar o luto à felicidade, Zink fixa o tom paradoxal da obra numa sátira que morde e, ao mesmo tempo, revela um carinho e um conhecimento profundo pelo país que critica.

Para lá da sua aparente leveza, a estrutura do livro funciona como uma paródia inteligente aos velhos fantasmas da identidade nacional, reorganizando Deus, Pátria e Família (três partes) em “laboratórios” onde o autor desmonta as suas/nossas obsessões.

Ao lermos estas crónicas hoje, mais de duas décadas depois, a sensação de déjà-vu é inevitável e quase cómica. Mudaram os palcos, do café para o Instagram ou outra rede social, mas os actores seguem o mesmo guião. Portugal continua a dar-se mal com a vida. Continua a não saber se o sexo dá felicidade? Se a felicidade dá dinheiro? E se o dinheiro dá saúde?

No fim de contas, Rui Zink deixa-nos com uma dúvida desconfortável - e se o nosso maior trauma não for a falta de felicidade, mas sim a perspectiva de um dia virmos a ser genuinamente felizes? Sem partilhar uma pequena maleita, sem amaldiçoar o(a) companheiro(a) infiel, sem sentir inveja/cobiça ou sem a meteorologia para justificar o humor, quem seríamos nós?

E hoje, ainda somos o povo neurótico, stressado e obcecado com as aparências que Rui Zink retratou entre 2000 e 2005? Ou será que o Instagram e as novas modas do bem-estar apenas maquilharam o velho fado que teima em permanecer? Querem responder?


22 julho, 2026

𝑨 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒄𝒂𝒔𝒂 é 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒆𝒔𝒕á 𝒐 𝒄𝒐𝒓𝒂çã𝒐, de Toni Morrison

 

Autora: Toni Morrison
Título: A nossa casa é onde está o coração
Tradutora: Manuela Madureira
N.º de páginas: 140
Editora: Presença
Edição (3.ª): Agosto 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3810)



OPINIÃO ⭐⭐⭐
⭐


Em A nossa casa é onde está o coração, Toni Morrison entrega-nos uma narrativa minimalista na extensão, mas monumental no seu impacto emocional e social. A autora transporta-nos para a América da década de 1950. Uma época profundamente marcada pelas cicatrizes do racismo estrutural e pelos traumas da Guerra da Coreia.

A trama acompanha Frank Money, um jovem veterano negro que regressa do combate com um caso severo de depressão. Frank está desancorado, a derivar num país que exigiu o seu sacrifício na frente de batalha, mas que lhe nega a dignidade mais básica nas ruas. A narrativa torna-se mais viva quando ele recebe a notícia de que a sua irmã mais nova, Cee, corre perigo de vida após ser alvo de experiências médicas abusivas. A travessia geográfica que Frank empreende para a salvar transforma-se, progressivamente, numa viagem de resgate da sua própria identidade e sanidade.

Para estes dois irmãos, a sua terra natal em Lotus, na Geórgia, sempre foi um lugar detestado e associado à opressão. No entanto, é precisamente nesse espaço rural e comunitário que ambos encontram a redenção.

A escrita de Toni Morrison é poética e cirúrgica. Nenhuma palavra é desperdiçada. E a estrutura torna-se, na minha opinião, num dos aspetos mais fascinantes da obra. A narrativa, na terceira pessoa, é periodicamente interrompida pela voz do próprio Frank, na primeira pessoa. Nestas passagens, o protagonista questiona e desafia o próprio narrador, um processo genial que espelha a mente fragmentada de um soldado a tentar reconstruir a sua própria verdade.

A nossa casa é onde está o coração retrata a violência histórica e a segregação, mas recusa-se a ser uma história de desespero. É, acima de tudo, uma celebração poderosa dos laços fraternos e da conquista do nosso destino.

Recomendo vivamente a leitura deste livro a quem procura uma história intensa, fluída, e marcante. Sendo esta a minha segunda experiência com Toni Morrison, depois de ter ficado deslumbrada com Beloved, posso afirmar que estas duas obras se complementam de forma magnífica. Enquanto Beloved nos esmaga com o peso histórico da escravatura e do trauma materno, A nossa casa é onde está o coração oferece uma perspectiva mais focada na cura e na reconstrução da identidade no pós-guerra. 
São dois livros que justificam a atribuição do Prémio Nobel (1993) e provam por que razão Morrison  se tornou uma  voz relevante da literatura mundial.

"Fiquei ali um longo momento a contemplar aquela árvore.
Tinha um aspeto tão forte,
Tão belo.
Ferida ao meio de cima a baixo
Mas viva e de saúde.
A Cee tocou-me no ombro
Ao de leve.
Frank?
Sim?
Anda, irmão. Vamos para casa."



14 julho, 2026

𝑳𝒂𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒂, de Ana Cláudia Santos

 

Autora: Ana Cláudia Santos 
Título: Lavores de Ana
N.º de páginas: 122
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐



A novela Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, prende o leitor pela forma como retrata a aventura de mudar de país. Acompanhar a protagonista em Nápoles, a lidar com um dialecto difícil e com os choques do quotidiano, é um processo muito autêntico. A cena inicial com ela trancada na varanda dita um tom divertido e humano que anuncia um enredo dinâmico.

O ponto mais original da obra é a forma como a profissão da protagonista molda o seu modo de pensar. Sendo tradutora, não traduz apenas livros; passa o tempo a tentar “traduzir” as pessoas, os gestos e as manias dos outros. E traduz também as suas paixões humanas, reveladas nas relações amorosas com Enzo e Marco. Cada encontro funciona como um exercício de interpretação, uma tentativa de decifrar intenções, silêncios e impulsos com a mesma minúcia que aplica a um texto.

A divisão invulgar dos capítulos — OUVIDO, LÍNGUA, MÃO, SOPRO e VOZ — reforça esta leitura. Estão profundamente ligados à forma como ela vive a juventude em liberdade, em rebeldia, em experimentação. E são também instrumentos da tradução. Ouvir o mundo novo, arriscar a fala, escrever noutra língua, respirar fora do lugar de origem, encontrar uma voz própria. A protagonista organiza a vida por estes eixos, como se cada um fosse uma forma de se situar e de transformar o que vive.
Sendo a minha primeira experiência com a autora, a escrita deixou-me uma boa impressão. É limpa e directa, o que torna a leitura fluída. Ainda assim, o livro deixa um sabor agridoce. Na minha opinião, falta-lhe uma faísca emocional. Convence, mas não chega a apaixonar.

Recomendo a leitura pela leveza e pela escrita cuidada, embora não seja um livro para leitores muito exigentes. Quem procura algo que ultrapasse a narração de uma estada em Nápoles, o choque cultural e a juventude fértil em paixões poderá sentir alguma frustração. Anos mais tarde, já casada, a protagonista regressa à cidade, trazendo consigo uma experiência íntima que marca silenciosamente a vida adulta. Esse retorno ilumina a distância entre a leveza da juventude e a vida adulta que entretanto se consolidou. A cidade torna-se memória, e essa consciência dá ao final uma melancolia mais acentuada.



09 julho, 2026

𝑷𝒂𝒓𝒕𝒊𝒅𝒂, de Julian Barnes

 

Autor: Julian Barnes
Título: Partida
Tradutor: Salvato Teles de Menezes
N.º de páginas: 185
Editora: Quetzal Editores
Edição: Janeiro 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3778)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Partida, de Julian Barnes, surge como o seu testamento criativo definitivo, uma obra-prima onde o autor se despe de artifícios para estabelecer uma conversa com o leitor. Barnes escreve como se estivesse sentado ao nosso lado, numa esplanada de café, com um humor refinado e a consciência tranquila de quem sabe que esta é a sua última oportunidade de dialogar antes do silêncio definitivo.

O fio narrativo que sustenta esta reflexão é a história de Stephen e Jean, dois amigos de faculdade que namoraram na juventude e que foram apresentados pelo próprio narrador. Quarenta anos depois, após caminhos totalmente separados, os dois reencontram-se, de novo, com a cumplicidade do narrador, para tentar o que chamam de “a última possibilidade de ser feliz”. O contraste entre o amor idealizado da juventude e o afecto pragmático e adaptado à velhice serve de cenário perfeito para Barnes analisar o impacto avassalador do tempo nos afectos e nas relações.

É precisamente através deste reencontro que ganha uma importância fulcral a Memória Autobiográfica Involuntária (MAI). Enquanto a memória voluntária falha, esquece ou edita o passado, a MAI surge como uma força incontrolável. Através de gatilhos  inesperados como um vislumbre, um odor, um gesto, uma palavra… o passado assalta as personagens com uma verdade emocional e involuntária. Para Barnes, este mecanismo prova que os nossos "pequenos eus" da juventude continuam intactos e vivos dentro de nós, ligando o passado ao presente à revelia da nossa própria vontade, mesmo quando o corpo físico começa a falhar.

Essa falha do corpo é, aliás, o outro grande pilar do livro. Diagnosticado com um cancro no sangue, que espelha a própria realidade de Barnes, o narrador encara a doença que o acompanhará até ao fim com uma neutralidade desarmante. A velhice e a degradação física são tratadas como meros factos da biologia humana. Ele aborda a própria mortalidade através do filtro da ironia (muito britânica), como uma comédia ligeira que caminha inevitavelmente para um desfecho melancólico.

Pensei concluir, articulando esta despedida com O Sentido do Fim, uma vez que ambas as obras partilham a mesma estrutura de olhar para trás, após um hiato de quatro décadas. Escrito também na primeira pessoa, e com recurso a uma analepse de mais de 40 anos, a narrativa de O Sentido do Fim prende e inquieta o leitor desde o início. Nele, a escrita sensível e profunda patenteia o estado de espírito do protagonista, Tony Webster, impondo-se a um leitor que a lê avidamente, numa ânsia pela descoberta do final para libertar a personagem da agitação e da dúvida que a consomem. É aí que Barnes nos dá uma lição brutal sobre a importância do tempo que tece falhas na memória à medida que o homem envelhece, desenvolvendo o tema da morte focado nas circunstâncias e no que ficou na lembrança do protagonista, levando-nos a concluir que a “vida não é só adição e subtração. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso e remorso”.

Em Partida, Barnes dá o passo definitivo que pacifica essa inquietação. Se no livro anterior o leitor e Tony Webster ficavam sufocados pelo peso dessa acumulação de falhas, de perdas e remorsos, neste, o autor desiste do controlo racional e entrega a verdade à imprevisibilidade da MAI. Diante do diagnóstico, já não há a agitação ou a dúvida que consumiam o protagonista de O Sentido do Fim; há um despojamento pacífico. Julian Barnes já não procura decifrar ou julgar os erros do tempo; ele aceitou a finitude. Sendo este o último livro escrito pelo autor (assim, o afirma), a sua jornada criativa encerra-se aqui de forma intencional e lúcida. Contudo, para mim, enquanto leitora, Partida não será o ponto final absoluto. Se para ele este é o livro do adeus, para quem o lê a sua voz permanece viva, até porque ainda me restam descobrir e ler outras obras do seu passado. Enquanto a vida tem um final certo para o homem de carne e osso, a literatura garante que, para os seus leitores, os escritores, e neste caso, Julian Barnes, nunca deixarão de escrever.

 

30 junho, 2026

𝑶 𝑨𝒓𝒄𝒐-Í𝒓𝒊𝒔, de Yasunari Kawabata

 

Autor: Yasunari Kawabata
Título: O Arco-Íris
Tradutor: Francisco Agarez
N.º de páginas: 207
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3651)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



O Arco‑Íris é um romance de grande delicadeza formal e espiritual onde cada gesto, cada cor, cada silêncio se tornam matéria emocional. A escrita é depurada, sensível, luminosa. A natureza é linguagem. A dor é tratada com respeito. E a beleza surge como promessa de continuidade.

Kawabata constrói uma narrativa que avança por subtilezas, recusando o excesso e confiando na sensibilidade do leitor. A natureza faz parte integrante da história, revelando o estado interior das personagens com uma precisão quase táctil.

No centro do romance, o pai, arquitecto, e as três meias‑irmãs movem‑se num território de memórias assimétricas. As duas mais velhas crescem na ausência das mães e procuram a irmã mais nova, que vive com a sua mãe. Essa diferença funda uma distância que acentua a fragilidade familiar. A busca da irmã atribui ao enredo um desejo de aproximação afectiva numa tentativa de recompor o que ficou disperso.

Com as histórias das três meias-irmãs, Kawabata resgata a fragilidade da existência humana ao explorar temas universais como o luto, a culpa, a sexualidade, o amor e a identidade.

O arco‑íris de inverno, imagem inaugural, funciona como metáfora e estabelece o tom luminoso que insiste em aparecer mesmo num mundo devastado. O autor procura essa luz discreta e faz dela o centro da sua escrita.

A dor do pós‑guerra surge sem dramatização, insinuada nos detalhes da paisagem, nas casas improvisadas, nos templos feridos, nas famílias deslocadas e nos gestos das personagens. Essa contenção dá ao livro uma força única e perpassa uma emoção subtil e permanente, vibrando em cada página.

Ler um livro seu é como observar uma pintura, uma experiência que pede ao leitor que abrande, que escute, que se deixe tocar pela luz discreta das coisas. Este é o terceiro livro que leio de Kawabata e reconheço, cada vez mais, a delicadeza da sua escrita, onde a natureza tem um papel primordial.



24 junho, 2026

𝑨 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒖𝒎𝒂 𝑭𝒂𝒄𝒂, de Annie Ernaux

 

Autora: Annie Ernaux
Título: A Escrita como uma Faca
Tradutora: Maria Etelvina Santos
N.º de páginas: 144
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2025
Classificação: Não -ficção/Entrevista
N.º de Registo: (3742)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



A Escrita como uma Faca é um autêntico mergulho no processo mental de uma escritora que recusa a ficção como máscara e transforma a própria vida em matéria literária. Para quem já leu vários dos seus livros, este funciona como um espelho que reflecte escolhas, métodos, obsessões e torna mais nítido tudo o que foi lido antes e tudo o que virá depois.

Annie Ernaux distingue‑se pela coragem rara de não se esconder. Onde muitos escritores se protegem atrás da ficção, ela expõe‑se para chegar ao ponto mais cru da experiência humana. Como referiu Frédéric-Yves Jeannet (F.-Y.J.) na introdução, ela usa um método rigoroso, “uma trajetória exigente e arriscada, a sua escrita que não mente, dissecada até ao osso, pondo a nu a dor, a alegria, a complexidade de existir.” (p.10). A sua vida funciona como campo de observação social, onde o íntimo e o coletivo se entrelaçam. Ao narrar‑se, narra também a mulher da sua época, a classe social de onde veio, a memória que partilha com os seus leitores.

Mas há um elemento fundamental que torna este livro único, a inteligência da condução da entrevista por F.-Y.J. As perguntas são instrumentos de precisão. O entrevistador sabe, “com tenacidade e subtileza”, quando insistir, quando recuar, quando abrir espaço para que Ernaux aprofunde uma ideia ou revele uma hesitação. Há uma escuta activa, quase invisível, que permite que a autora pense em voz alta sem perder rigor. O formato por correio electrónico, ao longo de um ano, amplifica essa qualidade, cada pergunta chega como uma provocação meditativa e cada resposta nasce de um tempo de reflexão que raramente existe na oralidade.

O leitor acompanha esse pensamento quase em tempo real. É como assistir ao trabalho de uma cirurgiã literária que abre a própria escrita para mostrar o mecanismo por dentro e, também, ao trabalho de um entrevistador que sabe exactamente onde colocar a lâmina.

Percebemos que a recusa da ficção é para a autora um gesto ético. Inventar seria uma forma de suavizar ou desviar o olhar. Na sua opinião, a realidade, tal como é vivida, já contém toda a violência e toda a beleza necessárias, pelo que usa a sua linguagem é seca e precisa, sem “metáforas, sem efeitos”, sem sentimentalismos. Limita-se a revelar.
Por isso este livro, tão fundamental, mostra a liberdade de pensamento que sustenta toda a sua obra. Uma liberdade conquistada, lúcida, sem pruridos. Uma autora que não teme dizer “eu”, porque sabe que esse “eu” é atravessado pela história, pela classe, pelo género, pela memória colectiva.

Ler A Escrita como uma Faca é acompanhar Ernaux no momento em que ela afia a própria lâmina e acompanhar também quem lhe passa a pedra de afiar. Depois disso, todos os seus livros se tornam mais vivos e inevitáveis.
“Tudo o que sei é que esse livro [Um Lugar ao Sol] inaugurou, como disse, uma postura descrita que mantenho, exploração de uma realidade exterior ou interior, do íntimo e do social num mesmo movimento, fora da ficção. E a escrita “clínica” como lhe chama, que utilizo, é parte integrante da investigação. Sinto-a como uma faca, quase uma arma, de que necessito.” (p. 34)



20 junho, 2026

A Primavera

 

                                                                      (C) GR


No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então, ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de ce cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.


In, Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, pág. 16 

19 junho, 2026

𝑷𝒍𝒂𝒕𝒆𝒓𝒐 𝒆 𝑬𝒖, de Juan Ramón Jiménez

 

    
                          
Autor: Juan Ramón Jiménez
Título: Platero e Eu
Ilustrador: Bernardo Marques
Tradutor: José bento
N.º de páginas: 140
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/Data
Classificação: Prosa poética
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam devagar, como quem pede licença para entrar na nossa vida. Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, não se impõe; insinua-se, devagarinho, com delicadeza. E quando damos por isso, já estamos sentados ao lado de Platero, a sentir o seu passo leve atravessar as páginas.

Jiménez constrói um livro que é, ao mesmo tempo, memória, poesia e infância reencontrada. A estrutura fragmentada (pequenos episódios) cria uma cadência simples, como se cada capítulo fosse um relincho breve, cheio de vida. A simplicidade é apenas aparente, por detrás dela pulsa uma sensibilidade profunda, uma atenção ao quotidiano, ao gesto, ao instante.

A relação entre o narrador e Platero é o centro afectivo da obra. A amizade entre um homem e o seu burrico devolve ao leitor a possibilidade de olhar o mundo com ternura. Platero, com a sua doçura, torna-se espelho e companhia; presença constante que transforma o banal em revelação. É impossível não sentir que caminhamos com eles pelas ruas de Moguer, onde cada detalhe - uma flor, uma criança, uma andorinha, um coice, um entardecer,… se transforma em matéria poética.

Na escrita de Jiménez há uma musicalidade que se aproxima da prosa poética, mas sem excessos, sem ornamentos desnecessários. O autor sabe que a emoção verdadeira nasce do essencial.

Ler Platero e Eu é entrar num estado de delicadeza. É permitir-se abrandar. É aceitar que a beleza pode surgir num gesto simples, num olhar terno, num relincho. Talvez por isso, tantos leitores, ao terminarem o livro, sintam vontade de voltar ao início para permanecer mais um pouco naquele lugar onde a poesia se confunde com a vida.

Há livros que acontecem. Este é um deles. E quando acontece, deixa uma marca suave, como o toque de Platero a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.


17 junho, 2026

𝑴𝒊𝒓𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝑩𝒂𝒏𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑴ú𝒔𝒊𝒄𝒂, de Hernán Rivera Letelier



Autor: Hernán Rivera Letelier
Título: Miragem de Amor com Banda de Música
Tradutor: Carlos Vieira da Silva
N.º de páginas: 273
Editora: Quetzal Editores
Edição: Fevereiro 2000
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1117)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

A leitura de Miragem de Amor com Banda de Música marcou o meu primeiro contacto com o universo literário de Hernán Rivera Letelier, revelando-se uma excelente e surpreendente descoberta. Neste romance, o autor chileno transporta-nos com mestria para o ambiente árido da pampa salitreira do Atacama, no início do século XX. Através do cruzamento de vidas marcadas pela ilusão, a obra constrói um retrato humano profundo sobre a efemeridade da vida e do amor, as condições de trabalho e a resistência à opressão.

O motor emocional da narrativa assenta no contraste absoluto entre as duas figuras principais, Bello Sandalio, o trompetista boémio, mulherengo e destemido, e Golondrina del Rosario, a pianista idealista e de educação rígida. A ligação entre ambos surge através da música, que funciona como uma linguagem universal e um refúgio de sensibilidade num quotidiano duríssimo.

Esta paixão improvável desenvolve-se sob o peso de uma forte crítica social e política. O autor expõe sem rodeios as condições desumanas de trabalho nas explorações de salitre, onde a ambição do "ouro branco" esmaga a dignidade dos mineiros. Esta opressão culmina no idealismo revolucionário do barbeiro Sixto Pastor Alzamora, pai de Golondrina, cuja tentativa de tiranicídio espelha a revolta sufocada daquela população.

Toda esta envolvência é moldada pelo simbolismo do deserto do Atacama e da própria miragem. Tanto o amor impossível como a utopia política revelam-se meras ilusões, condenadas a desaparecer sob a areia e o esquecimento, tal como a própria povoação de Pampa Unión.

Miragem de Amor com Banda de Música revelou-se uma leitura profundamente marcante. O aspecto mais fascinante da obra reside no cruzamento magistral entre a crueza da vida salitreira, a complexa condição sociopolítica do Chile daquela época e a vida devassa que consumia aquela povoação no fim do mundo, onde os fins-de-semana dos salitreiros eram marcados pelo excesso e pelo álcool. Hernán Rivera Letelier consegue a proeza de transformar a miséria e o isolamento numa narrativa cheia de cor, música e humanidade. Foi, sem dúvida, uma excelente porta de entrada na literatura do autor. Diverti-me imenso com as peripécias amorosas e rocambolescas protagonizadas por certas personagens. 


31 maio, 2026

𝑯𝒖𝒎𝒊𝒍𝒉𝒂𝒅𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒇𝒆𝒏𝒅𝒊𝒅𝒐𝒔, de Fiódor Dostoiévski

 

Autor: Fiódor Dostoiévski
Título: Humilhados e ofendidos
Tradutora: Maria Franco
N.º de páginas: 297
Editora: Editores Associados (Unibolso)
Edição: s/data
Classificação: Romance
N.º de Registo: (92)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Humilhados e Ofendidos é um romance onde já se reconhece, com nitidez, a mão de Dostoiévski, mesmo antes da maturidade plena que viria a marcar os seus grandes livros. Nesta fase, a sua escrita já mergulha fundo na psicologia das personagens, sempre em diálogo com o meio que as molda – a pobreza, a doença, a morte, os quartos apertados, as ruas frias, a solidão, a vergonha, a necessidade de amor, a intriga e a ofensa.

O que mais me impressiona neste romance é a forma como a bondade e a vulnerabilidade convivem na mesma alma. Há quem ame em silêncio, quem renuncie por lealdade, quem aceite perder para não ferir ainda mais quem já está ferido. Há também quem se mova por impulsos juvenis, por cegueira emocional, pela ânsia de agarrar o que parece destino, por amor. E, no extremo oposto, há quem viva de intrigas, enganos e oportunismo, manipulando os outros com uma elegância fria e calculada.

As relações, entre estas figuras, de amizade, amor, dependência, desilusão, protecção, manipulação formam um tecido delicado onde cada uma tenta sobreviver ao seu próprio passado. O romance avança assim, entre silêncios e paixões, gestos de generosidade e pequenas crueldades, afrontas e enganos. E, ao leitor resta descobrir como é que se mantém a dignidade num mundo que tantas vezes a nega? A pergunta que Dostoiévski nos impõe sempre nos seus romances.

Mesmo sem a maturidade plena dos grandes romances posteriores, já se sente aqui a excelência do autor, isto é, a capacidade de transformar vidas humildes em matéria literária intensa, de revelar grandeza onde o mundo só vê fraqueza. E, apesar da dor que atravessa estas vidas, há sempre uma fresta de redenção que nasce de um gesto de ternura, de um olhar que finalmente compreende.

Em suma, mesmo entre os humilhados e os ofendidos, há sempre alguém que resiste, alguém que ama, alguém que salva e alguém que, no fim, encontra o seu caminho para a luz. E é também por isso que vale a pena regressar aos grandes autores, porque neles descobrimos histórias vivas, cheias de personagens fabulosas, com todas as suas sombras e claridades, que nos acompanham muito para lá do livro. Ler os mestres, como Dostoiévski, confirma que a literatura continua a ser um dos lugares onde ainda podemos compreender o mundo e, quem sabe, compreender‑nos um pouco melhor.



22 maio, 2026

𝑪𝒊𝒏𝒛𝒂𝒔, de Grazia Deledda

 


Autor: Grazia Deledda
Título: Cinzas
Tradutora: Graziella Saviotti
N.º de páginas: 252
Editora: Sibila Publicações
Edição: Setembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3768)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Cinzas, de Grazia Deledda - a segunda mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura - é um romance de uma intensidade marcante. A autora retrata na perfeição as forças invisíveis que moldam a vida humana e a paisagem da Sardenha, tão áspera quanto luminosa.

No centro da narrativa está Anania que cresce marcado por uma ferida que não sarará nunca. A mãe, pobre até ao limite da sobrevivência, vê-se obrigada a abandoná-lo na casa do pai e da madrasta. Não se trata de um abandono irreflectido; é um abandono imposto pela miséria. E é precisamente essa nuance, esse amor derrotado pela fome, que Deledda trabalha com uma delicadeza devastadora.

Ao longo do romance, Anania vive com a obsessão silenciosa de reencontrar a mãe. Não tem notícias dela, apenas rumores, frases soltas, insinuações de que a vida que ela leva depois da separação não será a melhor. Essa incerteza corrói-o. Ele imagina-a perdida, humilhada, talvez explorada, talvez doente e sente que a sua missão é resgatá-la e oferecer-lhe uma vida digna. Quer estudar, trabalhar, subir na vida. Ele acredita que, tornando-se alguém “melhor” conseguirá atingir os seus objectivos. Quer ser digno dela. Quer ser forte onde ela foi frágil. Quer ser o adulto que ela não pôde ser. E, ao mesmo tempo, carrega a culpa de ter sobrevivido melhor do que ela.

A Sardenha que Deledda retrata é determinante no romance. A ilha surge marcada por pobreza estrutural, isolamento geográfico, hierarquias sociais rígidas e um peso moral e religioso que condicionam cada gesto. É um mundo onde as mulheres pobres, como a mãe de Anania, são as primeiras a cair nas margens, sem protecção, sem direitos, sem voz.

Neste contexto, Anania torna-se símbolo de uma geração que tenta romper com o determinismo social, mas que se vê constantemente puxado para trás por laços invisíveis como a vergonha e a pobreza. Ele é frágil, hesitante, por vezes egoísta. No entanto, é essa imperfeição que o torna profundamente humano.

A escrita de Deledda tem aquela simplicidade enganadora que só os grandes conseguem. Lamento, porém, as múltiplas gralhas desta edição. Ao descrever as suas personagens com uma compaixão firme e uma lucidez tão viva, a autora mostra como a pobreza destrói famílias, identidades e destinos. Há encontros que chegam tarde demais e revelações que exigem um preço emocional que nem sempre estamos preparados para pagar. E o romance sugere que há momentos em que a vergonha pesa mais do que o amor, e decisões que, uma vez tomadas, deixam apenas cinzas… ainda quentes o suficiente para queimar quem as toca.

Assim, em Cinzas, o passado é matéria viva, que queima. A metáfora do título permanece como resto, como culpa, mas também como possibilidade de renascimento.


17 maio, 2026

𝑨𝒔 𝑰𝒍𝒉𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔 - 𝑵𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝒑𝒂𝒊𝒔𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Raul Brandão

 


Autor: Raul Brandão
Título: As Ilhas Desconhecidas 
N.º de páginas: 204
Editora: Quetzal
Edição: Março 2011
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (3467)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐



As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, de Raul Brandão, é um livro de viagens que se lê como se percorresse uma galeria de quadros vivos. O autor não descreve apenas as ilhas, pinta-as, atribui-lhes um encanto particular e muito próprio. Cada página é uma tela onde a luz, o vento, o mar e as pessoas surgem em pinceladas largas, ora luminosas, ora sombrias, mas sempre intensas.
“Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com o sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima.” (p. 146)

Como acabei de referir, Brandão encontra nos Açores uma beleza agreste, feita de contrastes. As ilhas que visita revelam-lhe a alma do arquipélago e oferecem-lhe uma paleta inesperada, o dourado dos campos, o roxo profundo das hidrângeas/hortênsias, os verdes múltiplos das encostas, o alaranjado do sol, o negro do pico, o branco e cinzento das nuvens e o azul imenso do mar. Ele próprio se deslumbra com as “manchas roxas” das hidrângeas que bordam as estradas, e escreve, com gratidão poética, que o homem que teve essa ideia merecia uma estátua.
Mas para além da beleza, Brandão vê a dureza da vida. No Corvo, sobretudo, encontra uma comunidade pequena e resistente, moldada pelo isolamento, pelo clima severo e pela força do mar. A vida ali é um combate diário, mas também um exemplo de união. Todos se conhecem, todos se ajudam, todos dependem uns dos outros, todos são parentes. É uma humanidade sólida e silenciosa, que o impressiona tanto quanto a paisagem.

A essa dureza junta-se a pesca da baleia, uma das tarefas mais árduas e perigosas que ele testemunha. Brandão descreve os botes frágeis lançados ao mar, a coragem dos homens que enfrentam o animal colossal, o trabalho exaustivo que se segue para extrair o óleo e o cheiro intenso que impregna roupas, mãos, ar, chão. A peca à baleia surge como uma epopeia quotidiana feita de risco numa relação íntima com o mar.

O Pico, visto à distância, torna-se quase personagem. De São Jorge ou do Faial, a montanha surge como uma aparição que muda de forma conforme a luz e o nevoeiro.
“ISTO QUE DE LONGE era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno.” (p. 93)

E depois há a Madeira, que completa o arco da viagem. Após a rudeza atlântica dos Açores, surge como um jardim suspenso, mais luminoso e “muito inglês”, demasiado inglês para o autor. Aqui, a natureza parece dialogar com o homem de forma mais suave. A cor também é outra, mais tropical, mas o olhar crítico de Brandão mantém-se atento, impressionista, capaz de transformar cada detalhe em pintura.

A escrita de Raul Brandão é de uma enorme sensibilidade. Não se limita ao olhar, oferece o sabor do leite, do vinho, das frutas; convoca o cheiro da terra, o aroma dos ananases, o perfume do chá nas encostas, e até a doçura das bananas madeirenses. Cada frase abre uma porta para dentro da paisagem, como se o leitor respirasse o mesmo ar que ele. É uma prosa que vê, que cheira, que toca e que, por isso mesmo, pede ritmos próprios, pausas, desvios (pesquisa de imagens), reflexões e até sorrisos. Alguns desses ritmos pertencem, apenas, à beleza da frase. Os travessões, por exemplo, o autor usa‑os com naturalidade e insistentemente. Para os espíritos apressados que hoje vêem travessões e logo suspeitam de máquinas, vale a pena lembrar que Raul Brandão — esse pintor de palavras — usava e abusava deles muito antes de existir qualquer IA. O estilo não é um algoritmo, é uma voz. E a dele continua viva, luminosa e cheia de travessões.

No conjunto, As Ilhas Desconhecidas é um livro que revela lugares e modos de estar no mundo. A força das paisagens, a dignidade das gentes, a vibração das cores, a dureza da baleação, a instabilidade do tempo e a escrita que parece pintura fazem desta obra uma das mais belas viagens literárias da nossa literatura.



03 maio, 2026

𝑵𝒂𝒅𝒂, de Carmen Laforet

 

Autora: Carmen Laforet
Título: Nada
Tradutores: Sofia Castro Rodrigues;
Virgílio Tenreiro Viseu
N.º de páginas: 275
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3720)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Li Nada, de Carmen Laforet, e fiquei com tudo. A escrita é maravilhosa, precisa, sensorial, cheia de uma força silenciosa. As descrições dos ambientes funcionam como verdadeiras cenas cinematográficas, expondo com nitidez os contrastes entre o belo e a liberdade das escapadelas da protagonista e o sombrio, obsessivo e quase sufocante da casa da rua Aribau. Acompanhamos Andrea, recém‑chegada a Barcelona para estudar, carregando aquela esperança frágil que só os dezoito anos conseguem suportar. Mas o que encontra na casa da rua Aribau não é acolhimento, mas um labirinto de adultos partidos, tensões antigas, gritos, violência. Andrea move‑se como quem tenta decifrar um enigma emocional, observando tudo com uma lucidez que a protege e a fere ao mesmo tempo.

A força do romance está muito na forma como Carmen Laforet constrói esta protagonista. Andrea não é heroína nem vítima. É uma jovem que tenta sobreviver ao caos com dignidade, inteligência e uma espécie de inocência resistente. A sua voz é contida e vulnerável, moldada pelo medo e pela lucidez; uma força que não se impõe, mas resiste.

À medida que avançamos, percebemos que a casa é quase uma personagem; um organismo cansado, cheio de quartos sujos, sombrios, desgastados onde a vida se desfez. A violência doméstica, tanto física como psicológica, instala‑se, moldando gestos, medos e relações; a fome impõe-se; a pobreza infiltra‑se nos objectos, nos silêncios, nos corpos e os sonhos perdidos pairam sobre cada figura como poeira antiga.

E, embora Laforet nunca o diga explicitamente, a devastação do regime franquista está em todas as entrelinhas. Está na miséria que se normalizou, na agressividade que se tornou linguagem, na claustrofobia moral, na sensação de que o futuro foi amputado. O romance não precisa mencionar Franco para que o sintamos. Ele está no ar pesado, na cidade cinzenta, na casa que parece sobreviver a um cerco invisível. É o pós‑guerra como estado psicológico. Uma ferida que não se vê, mas que molda tudo.

É aqui que o prefácio de Vargas Llosa funciona como farol. Ele ilumina o que o romance deixa nas sombras, a coragem literária de Laforet, a sua capacidade de captar a verdade emocional de uma época inteira sem recorrer ao discurso político. Vargas Llosa mostra como Nada é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico, pessoal e colectivo e como Andrea encarna uma geração que tenta respirar depois da devastação.

No final, Andrea desce as escadas “com viva emoção”, recordando a esperança com que as subira e percebendo que da casa da rua Aribau “não levava nada consigo”. Lá fora, o ar fresco da manhã e os primeiros raios de sol anunciam a possibilidade de um recomeço.

Para contrariar o Nada que a acompanhou, permaneço na claridade que finalmente se abre e na esperança que ela deixa entrever.