MAR

MAR

31 julho, 2020

Adoração, de Cristina Drios




OPINIÃO

É o primeiro livro que leio da autora e gostei bastante. Trata-se de uma trama diferente, muito bem estruturada e concebida já que nela se cruzam dois tempos,  o passado e o presente. A acção ocorre em Palermo e inicia com um crime perpetrado pela Máfia. Poder-se-á pensar que estamos perante um policial, mas não. 

A autora, ao longo da narrativa, vai conduzindo o leitor através dos meandros da intriga, apresentando-lhe Antónia Rei, narrando-lhe detalhes da vida de Caravaggio, revelando-lhe aspetos da investigação de Salvatore Amato, criando suspense à volta dos personagens e de uma obra de Michelangelo Merisi, o Caravaggio. 

«A tela Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, ou A Adoração, pintada em 1609 por Michelangelo Merisi, o Caravaggio, foi roubada do Oratório de São Lourenço, em Palermo, a 17 de Outubro de 1969 e continua desaparecida.” 

É uma história maravilhosa, cheia de segredos e mistérios que muito nos diz sobre Caravaggio e a sua arte. 

“Um brigão, um arruaceiro, um desalmado sedutor que nada, excepto a sua paleta, domava. Eis o homem; um cão desaçaimado a ladrar na noite escura. Cedo na sua vida, viu-se homicida. E soube-se foragido.
A irascibilidade perdoa-se aos génios. (…) Caravaggio o génio da pintura dos corpos e das sombras, foi perdoado. “ (p. 94)

Numa escrita cuidada e límpida, dificilmente separamos a realidade da ficção. Tal como na obra de Caravaggio, há um constante jogo de luzes e sombras, de espelhos, um cruzamento de esperança, de dor, de morte e de desencontros. 
Recomendo vivamente.



27 julho, 2020

O Desfile de Primavera, de Richard Yates


OPINIÃO

Neste romance, Yates logo no início, dá o mote em relação ao destino das protagonistas da narrativa. “Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz”. 

E assim acontece, de facto. Apesar de muito diferentes e de terem tomado opções de vida antagónicas, o augúrio cumpre-se. Resta ao leitor descobrir as razões que tornam infelizes Sarah e Emily. A primeira, a mais velha, casou, teve filhos e assumiu o casamento como um acto “sagrado” pelo que suportou tudo... Emily, a mais nova e mais independente, opta por uma vida inconstante quer nas relações amorosas quer nos empregos. Admirada pela família, é considerada “a personificação da mulher liberta”. Mas esta liberdade vai transformá-la numa mulher infeliz e egoísta. Apesar da existência de um amor familiar, por vezes mais aparente do que efectivo, as mulheres da família, incluindo a mãe, divorciada há muito, caem no vício do álcool. Se assinalam um evento, uma festa, um encontro, celebram com álcool! Se fracassam ou se algo corre menos bem, mergulham no álcool! 

“Com a mãe em coma a uns trinta quilómetros, as duas abraçaram-se embriagadas e choraram pela perda do pai.” (p. 150) 

Assim, de forma sucinta e clara, o autor narra-nos a vida desta família, com destaque para a de Emily, e mostra-nos o essencial para compreendermos o destino das personagens. Sem contemplação assistimos à degradação das irmãs. Yates não poupa o leitor, apresenta descrições detalhadas de momentos de amor ilusório e transitório, de vivências emotivas e sofridas, mas, no final, o que prevalece é a melancolia e a solidão a que são votadas as personagens. 

“Tenho quase cinquenta anos e nunca compreendi nada em toda a minha vida” - termina Emily (p. 245).


23 julho, 2020

Folhas de viagem, de Blaise Cendrars



OPINIÃO



Feuilles de Route/ Folhas de Viagem é um diário de bordo, em forma de poema. Em janeiro de 1924, o autor é convidado para ir ao Brasil. Embarca no Havre, a bordo do Formose, e chega ao Rio de Janeiro, em fevereiro do mesmo ano. Ao longo da viagem, vai registando as suas impressões… São 40 os poemas, nesta edição em bilingue (francês e português). Eis dois excertos:

SUR LES CÔTES DU PORTUGAL 
Du Havre nous n’avons fait que suivre les côtes comme les navigateurs anciens
Au large du Portugal la mer est couverte de barques et de chalutiers de pêche 

Elle est d’un bleu constant et d’une transparence pélagique
Il fait beau et chaud
Le soleil tape en plein
(…) 

SAINT-PAUL
J’adore cette ville
Saint-Paul est selon mon cœur
Ici nulle tradition
Aucun préjugé
ni ancien ni moderne
(…) 

E termina desta forma: 

POURQUOI J’ÉCRIS?
Parce que… 

Para mim, simples leitora, esta resposta agrada-me, não preciso de saber por que escreve, basta-me apreciar o que escreve tão bem! 



22 julho, 2020

Duas Histórias de Praga, de Rilke



OPINIÃO

Estas duas histórias, escritas pelo autor quando tinha 24 anos, retratam o ambiente político agitado pelo confronto nacionalista, no final do século XIX, em Praga. Na altura, era habitada por cento e quarenta mil checos e vinte e sete mil alemães.
“Foi ali [no Café Nacional, por poetas e pintores, actores e estudantes] que Wanda ouviu falar das questões da “nação” e que tomou, pela primeira vez, conhecimento das suas aflições e dificuldades e das suas aspirações secretas e profundas” (p.101)
Os protagonistas são jovens estudantes que vivem a ocupação alemã e por conseguinte acompanham os ideais revolucionários da época. 
As duas histórias apresentam a mesma temática e algumas personagens em comum. No segundo conto 
Gostei de ler e de conhecer o testemunho do autor sobre esta época conturbada da sua cidade natal.


19 julho, 2020

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian,



OPINIÃO



Pequeno livro de escrita simples e subtil, composto por seis contos, sendo que o último – Instantâneos - consiste numa seleção de apontamentos, observações, descrições, … 

Os cinco primeiros contos abordam situações comuns que refletem não só o modo de pensar da sociedade oriental, mas também o da ocidental. Temos temas como a felicidade de um jovem casal em lua-de-mel; a brevidade da vida retratada num acidente mortal com as habituais e múltiplas opiniões da multidão “entendida”, situação depressa resolvida e esquecida; a indiferença perante as dificuldades do outro, um jovem quase morre afogado e ninguém se apercebe; o desinteresse e a dor causada pela ausência do outro, uma rapariga chora num parque enquanto espera, em vão, que o outro chegue; o encontro e a lembrança de um amor passado e que já não faz sentido; a saudade de uma infância feliz rememorada na procura dos lugares onde viveu com o avô e a dor sentida ao descobrir que desapareceram e foram substituídos por uma cidade de betão. 
É no último conto que deu título ao livro (o meu preferido) que o autor melhor explana a sua escrita poética e melancólica, porque sendo mais extenso, tem espaço para criar uma história mais comovente, mais emotiva. Ao contrário das primeiras narrativas, que sendo mais curtas, nem tudo é dito, cabe ao leitor ler nas entrelinhas e captar a profundidade da mensagem.



17 julho, 2020

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf


OPINIÃO

Foi uma viagem maravilhosa através da Suécia e na companhia de um grupo muito simpático de patos bravos, de um ganso branco e de Nils. O jovem Nils, é-nos apresentado como um jovem rebelde e cruel para os animais da casa, até que um dia, algo lhe acontece e Nils inicia uma viagem muito particular que o levará até à Lapónia. Para o nosso jovem protagonista será uma viagem de aprendizagem e de ensinamentos que o transformará completamente. Nils aprende a conhecer o seu país, a sua história e geografia, apreende valores como a liberdade, a solidariedade, a humildade e o respeito pelo outro e pela natureza. 
Através de uma história cativante, a autora revela-nos muito do seu país, das suas tradições e crenças, mas o mais importante são os ensinamentos e valores transmitidos.





11 julho, 2020

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis


OPINIÃO


Livro maravilhosamente bem escrito. Capítulos curtos. Enredo interessante e fora do comum já que o narrador conta a sua vida como defunto. Através das suas memórias póstumas, o protagonista, Brás Cubas, tece fortes críticas à sociedade burguesa da época. O facto de estar morto permite-lhe abordar os assuntos sem rodeios. E informa o leitor, interpelando-o directamente, disso mesmo. 

“Talvez espante o leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a fraqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião. O contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade!” (pp. 83 e 84) 

Através de uma ironia fina e de um sentido de humor apurado, Brás Cubas põe em evidência a hipocrisia dos homens e da religião, dos valores familiares e políticos, da escravatura. Ele próprio, que se considera medíocre, inútil e fútil, aceita as condições vigentes, o que lhe permite abordar os assuntos com propriedade. É falando dele que ridiculariza os outros. 

No último capítulo, ao qual atribuiu o título “Das Negativas”, ele define-se desta forma: “ Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. (…) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. (p. 314). Porém, viveu uma grande história de amor (que ocupa grande parte da narrativa), cimentada no adultério. Percebemos, ao longo do livro, que Brás Cubas é um fraco que se deixa arrastar pelas ocasiões, que não luta pelos seus interesses. Senão vejamos: “Não a vi partir; mas à hora marcada, senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico.” (p. 245) 

Recomendo vivamente este livro. Confesso que eu própria já o devia ter lido. É incompreensível que um livro desta qualidade tenha ficado tanto tempo na estante. Contrario a consideração do narrador, no capítulo “O Senão do Livro”, ao referir que o seu livro é “enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica” (p. 172). Pelo contrário é muito vivo e satírico com laivos de humor cirúrgicos. 

Termino com esta citação que vem no seguimento da anterior e que para mim revela a genialidade do autor.
(…) vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…” (p. 172)



04 julho, 2020

No vazio da Onda- Trio e Quarteto, de R. L. Stevenson


OPINIÃO


Esta narrativa que se divide em duas partes tem tanto de cómico como de trágico. A acção inicia em Papeete, na ilha de Taiti, continua em viagem pelo mar (primeira parte) e vai terminar na “Ilha nova” (segunda parte), uma ilha perlífera.
A história incide no fracasso, no desencanto da vida, na redenção. Os protagonistas são três homens com características comportamentais bem diferentes e que por razões também diversas se encontram em Papeete, a viver miseravelmente na rua. Com identidades falsas, os três embarcam, literalmente, numa aventura que não terá um final feliz para todos. 

É um livro de leitura agradável que nos faz reflectir sobre o carácter das pessoas e as opções de vida.



30 junho, 2020

A portuguesa e outras novelas, de Robert Musil


OPINIÃO

Este livro divide-se em duas partes: a primeira, Três Mulheres - Novelas e a segunda, Uniões – Duas Narrativas.
Numa escrita irrepreensível e ensaística, Musil tece reflexões sobre o comportamento e os sentimentos das protagonistas de cada história. 

“E enquanto ela se retraía como uma película, sentindo nas pontas dos dedos a angústia silenciosa de pensar em si e as suas sensações se lhe colavam como pequenos grãos e as emoções escorriam como areia (…) o passado surgiu-lhe então, repentinamente, como expressão inacabada de algo ainda para acontecer.” (p. 143) 

De forma minuciosa, vamos conhecendo as dúvidas existenciais e, por vezes complexas, das personagens femininas. Estas dúvidas dissecadas, questionadas até à exaustão provocam algum desconforto no leitor porque este participa na mediação constante entre o sentimento e a razão; conhece os seus pensamentos, as emoções, as ideias, as motivações; especula e julga as decisões tomadas. 
“Para uma busca indefinida, a alma é qualquer coisa deste género. Durante toda a sua vida obscura, Verónica sentira receio de um amor e nostalgia de um outro; em sonhos, as coisas são por vezes idênticas ao que ela desejaria”. (p. 218) 

Musil é exímio na interpretação do comportamento humano. Ele interliga o presente e o passado, a realidade e o sonho; ele invoca os traumas psicológicos da infância, de algumas personagens, e fá-los reviver na vida adulta; ele retrata o desassossego constante. 
Musil não poupa o leitor, pelo contrário, embrenha-o nas narrativas, incomoda-o, instiga-o à reflexão. 

(…) Havia nela um ligeiro desassossego, uma nostalgia quase malsã de uma tensão extremada, o pressentimento de uma derradeira agudização. E, às vezes, parecia destinada a um mal de amor desconhecido.” (p.140)

28 junho, 2020

A Balada do Medo, de Norberto Morais


OPINIÃO



Neste segundo livro, Norberto Morais transporta-nos de novo para um espaço imaginário. São Gabriel dos Trópicos é o país inexistente onde decorre uma parte da acção já que o protagonista, Cornélio Santos Dias de Pentecostes, passa muitos anos da sua vida, primeiro como suposto caixeiro-viajante, a circular pela região e mais tarde a fugir de uma morte anunciada. 
Ao longo da narrativa, o leitor fica deslumbrado quer pelas descrições dos locais quer pela caracterização das numerosas personagens pitorescas e extraordinárias presentes. 
O próprio protagonista é uma personagem fabulosa. Tem uma vida múltipla, com várias identidades, vive rodeado de mentira e de subterfúgios para trair a sua mulher e enganar as restantes mulheres que vai conquistando por onde passa. “Era com elaborado engenho que mantinha uma vida múltipla, conjugando afectos em todas as províncias do Norte, onde tinha mulheres aguardando-lhe o regresso. A solidão e a lonjura entre as cidades amparavam-lhe os pretextos” (p.9) 

Mas um dia tudo muda, e o folgazão passa a viver sob a égide do medo e do desespero de ludibriar o seu algoz e de assim escapar com vida. 

A leviandade e a falsidade protagonizadas por Cornélio são apresentadas com grande sentido de humor e uma grande mestria ao nível da escrita e da construção do romance. Porém, o autor pretende mais do que divertir com as peripécias amorosas da personagem, ele convoca o leitor a uma reflexão sobre a irracionalidade do ser humano perante a iminência da morte.


17 junho, 2020

O Homem que via passar os comboios, de Georges Simenon



OPINIÃO

É o primeiro livro que leio do autor e é considerado, segundo algumas críticas, como o seu melhor. 
Confesso, que também gostei muito. É um policial diferente de todos os que já li. Aqui, a narrativa não se centra na figura policial ou no detective, mas sim no criminoso. Nada de suspense, tudo nos é apresentado com naturalidade como se a loucura fosse o passo para a felicidade. E não será?
É fantástico acompanhar os actos e os pensamentos de Kees Popinga. Tudo é magistralmente planeado para que nada falhe e consiga escapar à polícia. O leitor torna-se cúmplice ao acompanhar a nova vida errática da personagem e vai gerindo as suas emoções ora com um sorriso ora com incredulidade. 
Fica a promessa de outras leituras.



13 junho, 2020

Ofício de Amar, Al Berto no Programa - A Vida Breve



Al Berto - Programa diário de poesia dita pelos seus autores, acrescentando património raro e valioso ao arquivo da rádio

https://www.rtp.pt/play/p1109/e202326/a-vida-breve    (para ouvir abrir link ou clicar no título)

Ofício de Amar

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto

10 junho, 2020

Luanda, Lisboa; Paraíso, de Djaimilia Pereira de Andrade




OPINIÃO


É o segundo livro que leio da autora. Este, na minha opinião, mais intenso quer na escrita quer na narrativa.
O livro com capítulos curtos poder-se-ia ler num fôlego, mas não, lemos e relemos para melhor absorver o sentido das palavras, que de tão poderosas e simbólicas, nos atingem profundamente. 
O início da narrativa é premonitório. O leitor antevê que não vai ser fácil, que a narrativa irá por caminhos difíceis, duros, emotivos. E de facto assim acontece.

“Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar. O calcanhar esquerdo do filho mais novo de Cartola de Sousa nasceu malformado. O pai deu-lhe um nome helénico, tentando resolver o destino com a tradição.” 

Os protagonistas, Cartola e Aquiles, pessoas simples e de boa fé, partem de Luanda rumo a Lisboa (“a cidade do progresso”) para tratar do calcanhar de Aquiles. Esta viagem, Cartola, o pai, “sonhara com ela uma vida inteira”. E representa a esperança de um futuro mais risonho e a cura do calcanhar do filho. Porém, mais não é do que o trampolim para o desenraizamento, o desencanto, o silêncio, a miséria.
“Pai e filho não enganaram nem a fome nem o frio, mas haviam-nos enfrentado como dois ventos contrários que se disputam num cruzamento. Seis anos passaram sem melancolia.”
“ (…) A história empurrou-os para uma margem sem que dessem conta de que tinham chegado a terra. Postos de parte, não tinham nem a dignidade dos espoliados nem a honradez redutora dos desgraçados. Tinham apenas o heroísmo insuspeito de terem ficado de lado, como ervas daninhas, querubins, migalhas de pão, e a graça de se poderem reerguer fora do campo de visão de quem os soubesse existentes, enquanto clandestinos…”

Esta dureza é atenuada por breves momentos de ternura e de amor presentes nas cartas e telefonemas trocados, de quatro em quatro semanas, entre Cartola e Glória, a mulher, e pela amizade que o unia a Pepe, o taberneiro, e a Iuri, um miúdo de Paraíso, o bairro onde (sobre)vivem. Com o desenvolvimento destas amizades, a esperança reavivou-se. Mas o Fado há muito que estava traçado. 
Recomendo muito. É um livro fabuloso, muito marcante. Djaimilia sabe do que fala e fá-lo muito bem.


06 junho, 2020

O macaco bêbedo foi à ópera, de Afonso Cruz



OPINIÃO



O macaco bêbedo foi à ópera é um breve, mas muito interessante ensaio sobre a influência do álcool, da embriaguez, na civilização ao longo dos tempos. Afonso Cruz desenvolve a teoria de que os macacos desceram das árvores para apanhar os frutos maduros que se encontram no chão. Ora, segundo a mesma teoria, os frutos maduros têm mais açúcar, fornecem mais energia e emanam um cheiro a álcool. “O que sustenta a teoria do macaco bêbedo é que o fruto caído e demasiado maduro está em processo de fermentação. Cria etanol. E o etanol viaja pelo ar com facilidade e chega ao nariz de quem procura açúcar. Resumindo: o macaco desce da árvore porque lhe cheira a álcool e isso significa açúcar, energia, calorias, consequentemente um cérebro maior, e muitos milénios depois a possibilidade de ir à ópera.” (p. 14) 

Porém o autor não fica por aqui, para além de demonstrar claramente como tudo isto se processa, o autor foca-se também no desenvolvimento da agricultura, na sedentarização do homem, no fabrico do álcool, sobretudo da cerveja, no consumo do mesmo e no impacto causado no homem e por conseguinte na sociedade.
“Essa mudança teve consequências, boas e más, cabendo a cada um relevar ou obliterar os argumentos que porá na sua balança filosófica, política, social e ética.” (p. 39) 

Para desenvolver a sua teoria deveras surpreendente, pelo menos para mim, o autor lega-nos, ao longo do texto, várias referências a outros livros permitindo, a quem o desejar, o aprofundamento deste tema. Ma o que destaco deste ensaio é a simplicidade e a clareza da escrita, com pinceladas de ironia o que de certa forma facilita a assimilação da informação e torna a leitura cativante. A certa altura, quando o autor desenvolve alguns aspectos causados pela embriaguez, como a loucura, a jovialidade, a demência temporária, entre outros, refere que “ a poesia é uma forma de embriaguez da língua, das palavras, e que o poeta, um pouco como o bêbedo, a criança, o profeta (…) relaciona coisas irrelacionáveis e as transforma em beleza e, mais do que isso, na possibilidade de novas teorias científicas, sociais, políticas e tecnologia.” (pp. 46, 47) 

Ora, foi isto que aconteceu na escrita deste ensaio. Afonso Cruz certamente um pouco embriagado (ele próprio é produtor de cerveja artesanal), ofereceu-nos este delicioso pequeno livro.


31 maio, 2020

Trold - Histórias dos mares do Norte, vol.1, de Jonas Lie



OPINIÃO

Este primeiro volume contém 16 contos. A maioria desenrola-se no Norte da Noruega, nos mares, nos fiordes, nas falésias escarpadas, nas florestas. É nestes ambientes agrestes que a população vive, tendo no mar o seu principal sustento. “Não era nada fácil lutar contra as ondas do mar nas tempestades de inverno. Não era muito longa a vida dos pescadores. “
Jonas Lie relata-nos essas dificuldades povoando os seus contos de monstros e seres fantásticos com poderes sobrenaturais, deuses nórdicos, povos estranhos, figuras fantasmagóricas. Estamos perante uma temática plena de misticismo e crenças populares. 
“Toda a falésia escarpada de Lofoten tem um aspecto tão estranho que evoca exactamente os trolls do Loke de Utgard, os quais foram transformados em pedra, lá no distante mar do Norte”

É uma leitura agradável. Facilmente ficamos seduzidos pela escrita simples destas histórias encantatórias.



28 maio, 2020

O Egipto - Notas de Viagem, de Eça de Queiroz



OPINIÃO


Estas notas são os registos e impressões de Eça resultantes da viagem que realizou ao Oriente, em 1869, como convidado para assistir à inauguração do canal de Suez. Tinha então quase 24 anos, e a viagem prolongou-se por 2 meses e 10 dias… 

Eça conhece várias cidades e aí visita mesquitas, museus, túmulos, cemitérios, bazares, pirâmides, … ; toma um banho turco; viaja de comboio, de barco, de caleche, de burro; deambula pelas ruas estreitas e pelos bairros apinhadas de gente, pelo rio Nilo, pelo deserto e tudo e todos observa atentamente e regista nos seus cadernos.

“A pureza indizível da cor, da diafaneidade, da vida da água, o desenho nítido das pequenas vegetações formam um todo cheio de suavidade. Dá vontade de nos banharmos, de movermos o corpo naquela virgindade viva do elemento” (…) Ao fundo , o morro de Gibraltar, escuro sobre o doce azul, com o seu perfil violento e altivo (…) De longe o seu aspecto é duro, hostil, repulsivo e a cidade, amarelada e humilde, parece uma aldeia pobre perdida na serra áspera, sem nada das outras doces cidades do Sul, (…). O morro de Gibraltar é impenetrável como um deus bárbaro, severo como a lei inglesa.” (pp. 22 e 23)

Tudo nos é descrito com minúcia, por vezes de forma repetitiva, e com grande riqueza de detalhes.

[nos bazares do Cairo] “Tudo aquilo é feito de materiais ligeiros, ténues, frágeis: as traves são delgadas como dedos, esculpidos como cabos de punhais venezianos; vêem-se colunas finas como cajados de pastores, torcidas, dobradas sustentando galerias, amparando pórticos de uma fantasia estranha. As fachadas são rendilhadas, tão buriladas, tão cheias de galerias, de ornatos, de arabescos, que parece que de cima a baixo se estende uma cortina de renda suja, escura, deslavada, rasgada aos pedaços. (…) É uma visão, é uma caricatura, é uma fantasmagoria! “ (p. 156)
Nas suas descrições apreendemos e absorvemos os cheiros, os sabores, as cores, os sons, a música, os cantos , as danças. Parece que também nós, leitores, viajamos até ao Oriente e testemunhamos tudo isto.
Só mesmo Eça de Queiroz com um grande poder de observação e uma curiosidade inata para absorver e transmitir tudo o que viveu, visualizou e captou.
“O Nilo ali é estreito, menos largo que o Tejo. Uma vegetação poderosa, profunda, violenta, cobre as margens, e vem mergulhar as suas raízes na água. Ao longe, as culturas têm o aspecto de uma decoração maravilhosa. É solene, é quase bíblico, de uma serenidade profunda e consoladora. Sente-se que quem atravessa aquelas culturas deve falar baixo. Do céu cai uma luz imóvel e abundante. (…) Aquelas longas linhas, aquela transparência de cores, a serenidade daqueles horizontes, tudo faz pensar num mundo que se desprendeu das contradições da vida, e entrou, se fixou na imortalidade.” (pp. 52 e 53)
“ O fellah (cultivador do vale do Nilo) é alegre, risonho, loquaz, imaginoso; tem uma degradação profunda de carácter , desconhece o que é consciência, dignidade, individualidade. Mas no fundo é feliz. Possui o clima! Anda roto, quase nu, mas neste ar puro e tépido não é um sacrifício (…) de resto, o fellah tem vícios: é mentiroso com simplicidade, falsifica tudo.” (p. 60)
No seu estilo muito próprio, acutilante e sarcástico, Eça descreve a beleza da natureza e ataca ferozmente a degradação das cidades, dos portos, das mesquitas, enfim tudo o que caiu, ruiu e pereceu por culpa do homem, da ganância do homem. Este homem tão bem personificado pelo abutre que voa ´”no céu implacável”.
“ E o rio, a verdura vão perder-se ao longe nas culturas do Delta, que se esbatem nos distantes horizontes, sob a pulverização faiscante da luz. Depois, mais longe, sobre a linha amarelada e fulva do deserto, destacam-se com uma das faces alumiada de sol, nítidas, de contornos finos, poderosas, enormes, as três pirâmides de Gizé. (…)
"O Cairo, visto da cidadela, é o Cairo histórico, dramático, sombrio. É a imensa cidade escura, pobre e arruinada, caindo em pedaços. (…) O Cairo morre de todas as feridas que lhe tem feito cada um dos governos, que lhe têm dado uma dentada! (…) Ali sente-se uma política sem força e sem ideal, uma religião sem espírito, uma arquitectura sem ideia, um povo sem pátria, uma existência de acaso, a ignorância, a vaidade, a sensualidade!” (pp.96 e 97)

No final, não nos restam dúvidas sobre o que verdadeiramente extasiou e surpreendeu Eça .

22 maio, 2020

Nova Iorque, de Brendan Behan


OPINIÃO



Este livro narra histórias muito pessoais de Brendan Behan vividas em Nova Iorque. Brendan Behan é um poeta e dramaturgo irlandês que revela ter uma grande paixão por Nova Iorque o “lugar mais fascinante do mundo”. É um livro de viagens diferente do habitual. O autor foca-se não tanto nos lugares, mas sim nas pessoas com quem se cruza e convive e nos muitos bares que frequenta. 
Sabemos por Vila-Matas, no prefácio, que o livro foi ditado pelo autor “espectacularmente bêbado". Este facto explica a narrativa, por vezes caótica, que saltita de assunto para assunto, tal como um ébrio que vai titubeando. Mas penso que é esta particularidade que cativa o leitor. Estamos perante uma deambulação mental por bares e saloons, com muitas histórias e conversas com famosos e imigrantes irlandeses. Nessa deambulação, há também memórias do seu país natal, da sua família e algumas incursões a Londres e Paris.




18 maio, 2020

O Fio das Missangas, de Mia Couto




OPINIÃO

29 contos (29 “missangas”) integram este livro. Uma temática diversificada que capta o interesse do leitor e o deixa a matutar no final de cada estória. 

“A missanga todos a vêem. 
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. 
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."

Mia Couto dá relevância ao universo feminino, aqui, quase sempre a mulher é submissa, esquecida, maltratada, pelo homem (marido, pai, tio, irmão…) tal como o fio que une as missangas e que não se vê. A mulher é colocada perante situações de violência, de suicídio, de separação, de traição, de incesto, de morte e de loucura. 
Poderíamos pensar que se trata de um livro duro, cruel devido às temáticas abordadas, mas a escrita poética e os finais mais sugeridos do que explícitos suavizam a realidade e sensibilizam o leitor. Outra característica muito própria do autor e que engrandece a escrita é a criação de neologismos que tão bem interpretam o sentimento, o estado de alma das suas personagens.
“Mas eis: uma súbita vez, passou por ali um formoso jovem. E foi como se a terra tivesse batido à porta de suas vidas. Tremeu a agulha de Evelina, queimou-se o guisado de Flornela, desrimou-se o coração de Gilda.
No tecido, no texto, na panela, as irmãs não mais encontraram espelho. Sucedeu foi um salto na casa, um assalto no peito. As jovens banharam-se, pentearam-se, aromaram-se. Água, pente, perfume: vingança contra tudo o que não viveram: Gilda rimou “vida” com “nudez”, Flornela condimentou afrodisiacamente, Evelina transparentou o vestido. Ardores querem-se aplacados, amores querem-se deitados. E preparava-se o desfecho do adiado destino.” (p. 14) 

No conto que deu o título ao livro, um homem “devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia: - A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas." (p. 68). Bela metáfora que expressa a posição da mulher perante esta sociedade machista, em terras africanas, mas que poderia acontecer em qualquer outro lugar. 



15 maio, 2020

A Montanha da Água Lilás, de Pepetela


OPINIÃO

Pepetela, nesta fábula para todas as idades como o subtítulo indica, oferece-nos uma deliciosa alegoria social.
A narrativa é-nos apresentada sob a forma de um conto. Um conto que “O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou.” Ora, numa linguagem simples e poética, complementada por belas ilustrações vamos conhecendo os lupis: cambutas, lupões e jacalupis, animais que “pensavam, falavam e trabalhavam”. Pepetela na sua narrativa recorre ao linguajar angolano e cria neologismos interessantes como lupilar (fala dos lupis) e jacarejar (a fala dos jacalupis), facto que a torna muito viva e atractiva. 
O autor com este conto retrata a diferenciação de classes, a instituição de um poder abusivo e opressivo, o ódio e a cobiça, a ganância e o consumismo. Um grupo que vivia em harmonia, no “sítio mais calmo e perfumado da montanha e dali se podia ver melhor o luar da Lua cheia; por isso era o Morro da Poesia”, até à descoberta da água lilás (água com características próprias), foi-se transformando porque se deixou entusiasmar pelo lucro fácil, pela conversa dos oportunistas, e pelo mau uso da ciência, rejeitando os conselhos dos mais sensatos como o lupi-pensador e o lupi-poeta. 

“Não quero discutir nada, só quero fazer as minhas experiências, a sabedoria resolve tudo. A sabedoria até pode resolver, mas depois os outros utilizam o resultado da sabedoria ao contrário e a coisa vira prejudicial, é o que tem acontecido com os lupis.” (p. 143). 
Em conclusão, o progresso, as descobertas da ciência, são positivos se forem bem utilizados, caso contrário provocam o caos, a guerra, a discórdia, a desarmonia. Esta é para mim, a grande lição desta fábula encantadora.


13 maio, 2020

Na Patagónia, de Bruce Chatwin


OPINIÃO


Este relato de viagens de Bruce Chatwin surpreende pela positiva já que, para além de descrições maravilhosas dos lugares visitados, lega-nos uma colecção de histórias intrigantes dos habitantes da região. Durante os seis meses que Chatwin passou na Patagónia, a sua viagem incidiu na busca de pessoas e de lugares com história. A cada recomendação, ele avança e descobre e vive a Patagónia, e é esta, a sua Patagónia que tão bem nos descreve, mágica e intensa. 

“Anselmo a aconselhou-me a visitar o poeta, o Maestro, como lhe chamava. O poeta vivia sozinho numa cabana de duas divisões à beira-rio, num lugar isolado coberto de damasqueiros. (…) Os seus dedos apertaram-me o braço e fixou-me com um olhar intenso e luminoso. 
- Patagónia! – exclamou. – É uma amante possessiva. Enfeitiça. Uma autêntica sedutora. Envolve-nos nos seus braços e nunca mais nos deixa partir.
A chuva tamborilava no telhado de lata. Durante as duas horas que se seguiram, ele foi a minha Patagónia. “ (p. 63)

“Archie Tuffnell adorava a Patagónia e chamava-lhe «Velha Pat». Gostava da solidão, dos pássaros, do espaço e do saudável clima seco. Tinha administrado uma fazenda de criação de carneiros durante quarenta anos por conta de uma grande companhia inglesa. Quando chegou a altura da reforma, não pôde suportar a ideia de se encafuar na Inglaterra e tinha comprado a sua própria terra, trazendo com ele dois mil e quinhentos carneiros e «o meu homem Gómez» . Archie doara a casa à família Gómez e vivia sozinho numa casinha prefabricada. A sua organização doméstica era um tratado de ascetismo: um chuveiro, uma cama estreita, uma secretária e dois bancos, mas nenhuma cadeira. “ (p.184) 

De Norte a Sul, entre a costa e o interior, o autor vai deambulando em busca de personagens e de lugares marcantes (históricos, lendários, míticos) na construção da Patagónia. “ O estreito de Magalhães é mais um caso em que a natureza imitou a arte” (p.218). Ele cruza histórias de imigrantes, de índios, de colonizadores, de navegadores (Fernão de Magalhães) com os lugares que vai visitando. Assim, a sua narrativa é construída de histórias contadas pelas figuras invulgares que habitam a região: contadores de histórias, exilados, bandidos, fugitivos, marinheiros, donos de bares, criadores de gado, gaúchos, mineiros, camionistas (que lhe davam boleia), sindicalistas, entre muitas outras …  
Se a Patagónia já me fascinava (e nunca lá estive) então, agora, ainda mais!



04 maio, 2020

As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís





OPINIÃO

A escrita de Agustina é profunda, complexa e requer uma leitura atenta com vários recuos e idas ao dicionário. No prefácio, António Barreto informa o leitor que “ este [romance] também não tem enredo. Quase não tem enredo. (…) os locais de Agustina são as memórias, os sentimentos, ou as consequências do real. E as alusões (…) a cronologia de Agustina é sempre incerta, ou antes, nunca é certa, pois é feita de memória e sem sequência”. Assim, ficamos logo a saber que não vai ser fácil, mas que é fascinante e compensador, isso é. 

O enredo situa-se no Porto no final do Estado Novo. Estamos perante uma burguesia muito tradicionalista e conservadora que circula entre a cidade e o meio rural. 
“O lugar era o Porto. Cidade com um preconceito a respeito do trabalho, como outras têm a respeito do prazer, ela era sobretudo uma terra onde a curiosidade é o vandalismo da inteligência e uma espécie de antologia do vazio. O gume da curiosidade actua nos mais insólitos campos, até no olhar que mede a miséria do pobre, esse pobre que vive na via pública e menos da caridade do que da curiosidade burguesa. “ (p. 63)

Nel, a personagem principal, é incapaz de ser feliz apesar da sua riqueza interior, “ O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. “ (p. 118). Ela é a ameaça da estabilidade familiar. Ela vive rodeada de gente frívola e medíocre que deve manter as aparências: “Carranca tinha um ideal, a bem dizer ao nível duma preocupação: conservar a fortuna, a honra e os amigos, o que é demais para um mundo em mutação onde a mediocridade ainda faz triunfar um homem, mas onde os seus talentos não servem para lhe assegurar o triunfo. “ (p.62)
Nel , desde muito jovem, era aconselhada a não pensar. “Pensar é um ofício para os pobres. Goze a vida, conheça gente bela, cultive alcachofras, coisas pouco substanciais. “ (p. 60). Era indesejada porque temida. 

No livro, Nel personifica a beleza e a riqueza de uma região que pretende mudar, modernizar-se, contudo rejeitada por uma sociedade conservadora e acomodada a valores ultrapassados que teme a novidade, a incerteza. 

Recomendo. Como todos os livros de Agustina que já li, também este nos enche a alma pois obriga à reflexão. Também apreciei a constante presença de Anna Karénina, de Tolstoi pela voz de Nel.



03 maio, 2020

Retrato da Mãe




     Conheci-a, pessoalmente, quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas, talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verde acastanhados, ou então, o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser a voz ou a maneira de rir (gargalhadas repentinas); confundem-nos sempre ao telefone, mas também há quem diga que são as mãos, muito finas e compridas, um problema para encontrar anéis!
    A pele, ao contrário da minha, é mais morena, mas não deixa de ser branca. Assim como o cabelo, que é bem diferente do meu, ao nível do pescoço, ondulado com tendência a formar caracóis bem pretos, mas com madeixas brancas próprias da idade. Ela tem ainda a boca pequena e fina e o nariz, também pequeno, mas pontiagudo, típico de alguém "sem papas na língua" e curiosa.
   E esta é a minha mãe, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, caracterizada pela inteligência e perspicácia não deixando de ser, no entanto, divertida e amiga.

PR 
28-03-2004

Nota: redescobri este texto em dia de arrumações. 

Dia da mãe




MÃE

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.


 António Ramos Rosa, em “Antologia poética”.


29 abril, 2020

Um Poema de Al Berto





6

embebedavas-te
na travessia daquele verão bebias muito vinho
na vertigem de fogosos corpos pouco sabias
acerca do ciúme e da traição

confiavas demasiado em ti eras alto e magro
nunca traficaras armas em Harrar
tinhas o peito cansado o andar lento
e jamais pernoitaras sob o céu de Alexandria

escuta
a partir de hoje abandono-te para sempre
ao silêncio de quem escreve versos
em Portugal
tens trinta e sete anos como Rimbaud
talvez seja tempo de começares a morrer

Al Berto

Poème d' Arthur Rimbaud






Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s’ouvraient tous les coeurs, où tous les vins coulaient.
Un soir, j’ai assis la Beauté sur mes genoux. - Et je l’ai trouvée amère. - Et je l’ai injuriée.
Je me suis armé contre la justice.
Je me suis enfui. Ô sorcières, ô misère, ô haine, c’est à vous que mon trésor a été confié !
Je parvins à faire s’évanouir dans mon esprit toute l’espérance humaine. Sur toute joie pour l’étrangler j’ai fait le bond sourd de la bête féroce.
J’ai appelé les bourreaux pour, en périssant, mordre la crosse de leurs fusils. J’ai appelé les fléaux, pour m’étouffer avec le sable, le sang. Le malheur a été mon dieu. Je me suis allongé dans la boue. Je me suis séché à l’air du crime. Et j’ai joué de bons tours à la folie.
Et le printemps m’a apporté l’affreux rire de l’idiot.
Or, tout dernièrement m’étant trouvé sur le point de faire le dernier couac ! j’ai songé à rechercher la clef du festin ancien, où je reprendrais peut-être appétit.
La charité est cette clef. — Cette inspiration prouve que j’ai rêvé !
« Tu resteras hyène, etc…, » se récrie le démon qui me couronna de si aimables pavots. « Gagne la mort avec tous tes appétits, et ton égoïsme et tous les péchés capitaux. »
Ah ! j’en ai trop pris : — Mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins irritée ! et en attendant les quelques petites lâchetés en retard, vous qui aimez dans l’écrivain l’absence des facultés descriptives ou instructives, je vous détache ces quelques hideux feuillets de mon carnet de damné.

Une saison en Enfer


28 abril, 2020

Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno, de Ana Cristina Silva


OPINIÃO


Trata-se de um romance biográfico sobre um dos grandes poetas franceses do séc. XIX e um dos meus preferidos. Arthur Rimbaud influenciou a literatura moderna, apesar de em vida ter sido ostracizado pelos seus pares. 
“ Escrevia e era como se pudessem dizer de mim: «Ele é as próprias palavras. Não há dúvida de que é um sensualista. Sente a poesia como um corpo, cujas sensações só geram felicidade» ”. O poeta proferiu este desejo aquando da escrita do seu poema O barco bêbado /Le bateau ivre.

“As palavras sempre revolveram a cabeça de Arthur como bichos inquietos“. É assim que a autora inicia este seu livro. Cada capítulo é iniciado, em jeito de introdução, pelo narrador logo seguido do testemunho, na primeira pessoa, de algumas figuras que mais influenciaram a vida do poeta. Esta estrutura confere um certo dinamismo à narrativa, já que cada um, incluindo Rimbaud, apresenta o seu relato sobre os factos. A primeira voz é a da mãe, figura severa, fria, sempre aos gritos com o marido e os filhos. Entre ela e o filho vai estabelecer-se uma relação de ódio-amor constante. 

“Os gritos de Madame Rimbaud ocupavam toda a casa e eram sempre excessivos. Os ruídos da infância de Arthur foram os da gritaria da mãe”.

O carácter irascível, insolente e inconstante do poeta é muito influenciado pelo comportamento da mãe. Para se libertar dela e da vida burguesa que têm, o poeta transforma-se num viajante em constante busca de reconhecimento e de fortuna. As fugas constantes de casa para ficar “mais longe de sua mãe” proporcionaram-lhe muitos conhecimentos, adquiridos nos vários países para onde viajava, mas também o levaram ao inferno. A mãe em constante angústia refere que “Gostaria de arranjar maneira de quebrar o encanto das viagens que parecem despertar nele paixões nunca aplacadas”. Rimbaud não suportava o tédio e quando se cansava de um lugar ou de uma pessoa, partia. “Percorria o mundo com a mesma sofreguidão com que um homem sequioso bebe água”. Passou fome, viveu ao relento, adoeceu, palmilhou quilómetros, foi sustentado por amigos, pelo amante, o poeta Paul Verlaine, e quando estes lhe faltavam, recorria à mãe numa tentativa de sobrevivência.

Ana Cristina Silva agarra bem o leitor. A sua escrita poética transmite a dor, a inquietação e o desequilíbrio vividos pelo prodigioso poeta que bem cedo renunciou à escrita. “ A minha reputação era a de uma criatura maldita. Decidi e foi uma decisão definitiva. Passaria a habitar no silêncio e excluiria a poesia da minha alma”.



23 abril, 2020

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda


OPINIÃO

E porque hoje se celebra o Dia Mundial do Livro, nada melhor do que reler um pequeno livro maravilhoso que encanta pequenos e mais crescidos. Com esta leitura homenageio também o autor que nos deixou há bem poucos dias.

A fábula do Gato grande, preto e gordo, Zorbas, e da linda e jovem Gaivota, Ditosa, contém uma bela lição de amizade e de solidariedade, para além de focar problemas ambientais provocados pela incúria humana. 
Com estes dois seres diferentes, juntos por uma promessa que o Gato teima em honrar, o leitor emociona-se e deixa-se conduzir pela simplicidade e beleza das palavras, mas que carregam uma fortíssima moral. 

“Tu és uma gaivota. Nisso o chimpanzé tem razão, mas só nisso. Todos nós gostamos de ti, Ditosa. E gostamos de ti porque és uma gaivota, uma linda gaivota. Não te contradissemos quando te ouvimos grasnar que és um gato, porque nos lisonjeia que queiras ser como nós; mas és diferente, e gostamos de sejas diferente. Não pudemos ajudar a tua mãe, mas a ti sim. Protegemos-te desde que saíste da casca. Demos-te todo o nosso carinho sem nunca pensarmos em fazer de ti um gato. Queremos-te gaivota. Sentimos que também gostas de nós, que somos teus amigos, a tua família, e é bom que saibas que contigo aprendemos uma coisa que nos enche de orgulho: aprendemos a apreciar, a respeitar e a gostar de um ser diferente. É muito fácil aceitar e gostar dos que são iguais a nós, mas fazê-lo com alguém diferente é muito difícil, e tu ajudaste-nos a consegui-lo. És uma gaivota e tens de seguir o teu destino de gaivota. Tens de voar. Quando o conseguires, Ditosa, garanto-te que serás feliz, e então os teus sentimentos para connosco e os nossos para contigo serão mais intensos e mais belos, porque será a amizade entre seres totalmente diferentes.
(…)
A jovem gaivota e o gato grande, preto e gordo começaram a andar. Ele lambia-lhe a cabeça com ternura e ela cobriu-lhe o dorso com uma das suas asas estendidas.” (pp. 92 e 93)

Recomendo! Leiam!

Os Transparentes, de Ondjaki


OPINIÃO


Começo por afirmar que adoro os livros de Ondjaki. É um maravilhoso contador de estórias. E neste, tudo é encantador e comovente: a escrita poética, os nomes das personagens, o vocabulário tão particular, a mensagem…
“- não te assustes - murmurou o VendedorDeConchas abraçando-a devagarinho -, eu sou o mar a chegar perto de uma concha…
- não me assustei – sorriu Amarelinha -, estou a olhar a lua”

Este livro, como muitos dos que já publicou, tem como cenário Luanda e apresenta uma panóplia de personagens-tipo fantásticas que abarcam todas as classes sociais. 
Ondjaki revela-nos uma Luanda actual, mas muito degradada, corrupta e sobretudo desumana. A sua visão crítica desta cidade em transformação é-nos revelada de forma precisa e irónica, claro, mas também humorística. Há descrições sublimes.
“- mas quem manda em tudo isto?
- gente muito superior
- superior… como deus?
- não. Superior mesmo! Aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus.”

É através dos modos de vida, dos dramas e sobretudo dos diálogos fabulosos das personagens que vivem no prédio, do LargoDaMaianga, que percebemos a agitação que assola o povo africano, a corrupção que reina na capital e por inerência no país, a miséria e a fome de muitos, mas também a dignidade de um povo que luta, a solidariedade dos vizinhos…

“- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer… nós somos transparentes porque somos pobres.” 

“era um prédio, talvez um mundo,
para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções, chovendo eternamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos. as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulante de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos. A esse mundo pode chamar-se”vida”.
nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata progride, desencanta, permanece. a humanidade está feia – de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permanece
porque tem bom fundo. 

É isto! Leiam!