30 agosto, 2026

Ainda vamos escrever sobre isto!

 

Copilot 03_08_2026 _ 19H



Tudo começou com a partilha de um vídeo no nosso grupo de leitores, no WhatsApp. Um daqueles pequenos fragmentos que subitamente acendem a imaginação colectiva. Mal o vídeo apareceu, alguém declarou: “Que iniciativa gira! Muito bom!”.
O vídeo ainda nem tinha terminado e já se sentia movimento no ar porque outra voz, movida pela mesma energia, escreveu: “Adorava participar”.
O entusiasmo espalhou-se pela porta já escancarada: “Que bela iniciativa e fácil de concretizar!”.

A primeira exigência caiu logo ali, como se o vídeo tivesse convocado a bicharada e não os leitores: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar”. A galinha, ofendida e assustada, pensando que ia parar à grelha, bateu as asas para fora do ecrã.

Cada vez mais entusiasmado, o grupo decidiu recriar o evento dando-lhe um toque particular: “Eheheh. Fazemos um piquenique literário”.
E alguém, muito atento, lembrou: “Olha os animais!”. Não fôssemos fugir à ideia original que tanto animou o grupo. Já imaginaram termos um rato de biblioteca a ler… este meu brilhante pensamento foi cortado por uma alma bem mais prudente que tentou organizar o caos que se antevia: “Mas nós prescindimos dos animais. Quem tiver cão ou gato, pode levar. Só esses.”. Ora bolas!!! Esta proposta vem retirar todo o encanto ao nosso evento! Mas há mais derrotistas porque, discretamente, alguém lançou: “Só falta a relva ...”.

A imaginação levantou voo: “Temos de descobrir um campo”. E a necessidade repetiu-se, insistente, como se o vídeo tivesse ficado preso num loop: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar!”.

Uma das intervenientes, sempre pronta a puxar a conversa para o digital, comentou: “Original…mas a IA também pode andar por ali”. Outra, cansada de tanto bicho e de projectos loucos, respondeu: “Concordo... são coelhos a mais”. Até que alguém, mais lúcido, alertou para um possível perigo: “Ainda nos comem os livros”. Mas uma voz tranquilizou: “Não Graciosa ... Eles vão é pedir emprestados ...”. Contudo, o receio instalou-se e o alerta repetiu-se: “Eles são devoradores. E roedores”.
Como sempre, há alguém que se aproveita das ocasiões e como quem não quer nada lança: “Ainda vamos escrever sobre isto”… mas o eco insistiu: “Eles são devoradores”. E uma leitora marota, conhecedora dos hábitos desta gente, piscou o olho e sussurrou: “Algumas de nós também 'devoram'”.

O título provisório nasceu logo ali: “piquenique literário com coelhos”. A leitora marota, feliz com a sua observação repetiu-se: “Algumas de nós também ‘devoram’” e só se calou quando um grito breve assentiu: “Ya!!”. E, aí, o refrão regressou: “Olha os animais!”.

A certa altura, até a fauna local entrou em cena: “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”. Alguém antecipou o caos: “Vai ser um festim”. E uma voz acrescentou mais um ponto à história: “Na Ribeira de Moinhos, sim. Por vezes vou às pinhas ou aos espargos, quando é tempo, e vejo a devastação no pinhal! E outro dia vi um coelho! Mas ele assustou-se mais do que eu”.

Outra lamentou: “Vegetação envolvente, aqui, não temos muita”. E alguém animou: “Pois, aí é diferente. Mas as galinhas e os coelhos já animam. E ainda chamam a comadre”. À insistência de “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”, a resposta veio certeira: “Ainda não! Temos gaivotas”.

Quando se pensava que a criatividade tinha acalmado, surgiu outra voz bem-humorada: “Vocês são muito criativas. Nada que não pudesse vir a acontecer. Mas para termos essa bicharada toda à nossa volta era mais fácil as vacas criarem asas.” E alguém acrescentou, de imediato: “Mas se as vacas criarem asas, vão afugentar as gaivotas.” Com esta possibilidade teríamos um caos aéreo ou a solução para o fim das gaivotas? Um caso de estudo a propor à CMS.

Mas logo um pedido desesperado surgiu: “Por favor, por favor, não deixem as vacas criar asas...isto com as gaivotas, já é mau demais!”. E alguém sensato lembrou: “Sim, tem razão. Já temos uma pandemia suficiente”. Ao que outra voz ainda acrescentou: “Muito bem. Se já tenho a varanda suja, imaginem as descargas vacarinas”.
- “Tal e qual!”- Rematou outrem.

O caos cresceu: “Que animação... Ausentei-me um bocadinho e já temos vacas voadoras ... Não tarda nada até entra um porquinho a andar de bicicleta...”. E outra voz, enigmática, sugeriu: “Quem sabe!?”.

A gaivota infantil, que não constava no vídeo inicial, entrou em cena por alguém desesperado: “Eu tenho uma gaivota em idade de infantário…no meu quintal” que acrescentou ainda : “E os progenitores a tomarem conta dela e de mim. Ando de varapau em punho para me defender, se necessário.”

É caso para afirmar que Fiado por fiado, o fio puxa o novelo porque outra história nasceu: “Aqui perto da minha casa há duas, que caíram do telhado onde nasceram, e ali estão no quintal com os pais sempre a ‘falar’ para elas, aflitos porque não as conseguem pôr a voar...”

Como para um bom leitor há sempre uma solução, seja ela fantasiosa ou absurda, esta apareceu, naturalmente: “Temos de chamar o gato do Sepúlveda, que ele trata do assunto”. E uma voz diplomática confessou: “Gosto de animais, mas se fossem passear para outro lado…fecharia o portão!!!”

A memória literária iluminou a atmosfera: “ (História da gaivota e do gato que a ensinou a voar, para mim é das mais bonitas que li)”, referiu alguém e eu magiquei logo que também poderíamos convocar a Alice no País das Maravilhas ou mesmo O Principezinho, ou ….
“E não me ponham estendida na relva porque depois não conseguem levantar-me!!!!” ecoou, de repente, uma Carolinice!


E então, como se o grupo piscasse o olho ao próprio delírio, surgiu a nota que fecha tudo com graça: “Carolina e o seu (bom) humor…

Assim termina esta divagação que nasceu de um vídeo partilhado no grupo e cresceu com a espontaneidade das falas que o seguiram. A bicharada entrou sem pedir licença, o absurdo tomou conta da relva inexistente e a imaginação manteve tudo unido. Carolina fechou o círculo com o seu (bom) humor, lembrando-nos que, no fim, o que importa é a alegria de inventar juntos.

 11.07.2026

GR 




29 agosto, 2026

Quando um livro relincha




 


Sempre que termino a leitura de um livro, cumpro um pequeno ritual. Caminho até às estantes da minha biblioteca, aproximo-me da secção dos livros por ler e pego num, depois noutro, deixo-me seduzir por aquele que, mais atrevido, me pisca o olho. Nem sempre é assim, mas quase sempre a escolha se faz num jogo silencioso entre mim e os livros.

Num destes dias, enquanto hesitava entre futuras leituras, pareceu-me ouvir um relinchar leve, quase um sopro vindo de dentro das páginas. Fiquei imóvel. Olhei em volta. "Estou a enlouquecer", pensei. E então vi um livro de capa verde pousado na secretária, a olhar para mim com descaramento. Na capa, um burrico novinho, de olhar tão terno, parecia chamar-me pelo nome.

- Hum… afinal queres que te leia - murmurei-lhe. E tens razão em insistir. Foste-me emprestado pela nossa amiga Carolina e já pedes regresso.

Folheei-o devagar. Detive-me nos desenhos de Bernardo Marques. Depois instalei-me na cadeira da varanda, onde a luz da tarde  se impunha, e iniciei a leitura.
O texto corria com suavidade, capítulos breves, poucas páginas… podia lê-lo numa tarde, pensei. Mas não. O livro não me deixou. Agarrou-me. Prendeu-me pelo colarinho da alma.

Dei por mim a saboreá-lo, a parar, a voltar atrás, a reler… Como a criança do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, eu também “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
Sim, estava extasiada com a beleza da escrita, com aquelas histórias simples e luminosas vividas por Platero e pelo narrador. E, ainda como a criança do conto, também eu me balançava “com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Sempre gostei deste conto e tantas vezes o recomendei para promover a leitura, mas agora, depois de ler Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, compreendo, enfim, a verdadeira profundidade da metáfora de Clarice Lispector. Há livros que não se lêem, acontecem-nos.

Quando terminei o livro, voltei ao início. Queria viver a simplicidade que emanava de cada episódio, como se eu também fosse personagem. Uma criança a brincar meigamente com Platero.
Só tenho um lamento. Como o livro não é meu, não pude sublinhar todas as frases que me encantaram. Fiquei com a sensação de ter deixado para trás pequenas pepitas de ouro que queria guardar comigo.

Já li muitos livros. Muitos, muito bons, maravilhosos, marcantes. Mas de vez em quando, encontro uma pérola assim, como esta, que me faz acreditar em Borges quando referiu: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca.” 
E talvez por isso, por esta felicidade que o livro deixou em mim, tenha decidido preparar uma pequena surpresa para quem lê comigo. Uma proposta de escrita. Um desafio suave. Nada de complicado, apenas o suficiente para que, como eu, alguém sinta o passo leve de Platero, tão discreto, a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.

18.06.2026
GR

21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


07 agosto, 2026

Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita | O Setubalense



Al Berto: Da pintura à escrita, fez da vida poesia infinita

Por O Setubalense  |    Agosto 7, 2026



A noite ainda mora em Sines. O vento arrasta o cheiro a maresia pelas ruas vazias. Mais adiante, é possível ver uma varanda voltada para o mar, onde as malvas crescem desordenadas. Ali, onde a areia encontra o silêncio, continua a viver o poeta que escreveu contra o medo. Al Berto pertence à noite. Escrevia nela, respirava-a e deixava que o escuro lhe acendesse as palavras. Dizia que a poesia era um lugar de sombra e de iluminação, onde o inútil se separa do essencial. Talvez por isso escrevesse: para descobrir o que ainda faltava compreender. Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra, no dia 11 de janeiro de 1948.

Com apenas um ano, muda-se para Sines, onde cresce numa família com raízes inglesas. Desde pequeno, viveu rodeado de livros; “Entraram na minha vida como passei da papa para o bife”, recordava, com humor. O pai e a mãe leram durante toda a vida, e cedo aprendeu que ler era outra forma de sentir prazer; lia sempre deitado na cama, e um livro que não o conquistasse nas primeiras páginas não merecia lugar na estante. Foi assim que redescobriu Cesário Verde, o “poeta-fotógrafo”, Fernando Pessoa — sobretudo Álvaro de Campos — e Eugénio de Andrade, a quem chamou descoberta. “A minha aprendizagem faz-se por uma espécie de amor e paixão por outros autores”, confessou. A sua primeira paixão nasce entre a escultura e a pintura. Em casa, moldava bonecos de argila, lembrança que os amigos de infância ainda guardam, muito antes de chegar à Escola António Arroio e à Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.

Saiu de Portugal aos dezoito anos e partiu em direção a Bruxelas. Era uma decisão precisa. Queria estudar pintura, ser artista, seguir o rasto de Picasso. Longe da língua portuguesa, levou consigo apenas um livro — “Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac— que foi apreendido pela PIDE dois dias depois de sair.

Com o passar do tempo, trocou o barro pelas palavras. Pintar já não bastava, era preciso tocar o invisível, dar forma ao que o perturbava. “A escrita vem de uma perturbação”. Para Al Berto, o momento da criação é terrível. Afirma que ninguém escreve porque respira, nem porque anda, e que o que surge no papel é apenas um vestígio daquilo que alguma vez sentira. A poesia, para ele, nasce do corpo, da experiência de viver. “Se eu não viver, não há escrita”, dizia. Al Berto assumia pertencer “a uma linhagem de poetas onde a escrita passa pelo corpo”, sem arrogância nem falsa modéstia. Estava tão bem, tão dentro de si e do seu corpo, que escrevia para lá da gramática, para lá da linguagem: “Por que não construir de outra maneira, rebentar com a gramática, com a sintaxe, tudo?”. Quando regressa, em 1974, reencontra-se com a língua e com o país que deixara para trás. Escreve o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”, e descobre na poesia o espaço onde tudo cabe: o amor e a perda, o corpo e o medo.

O reconhecimento literário veio em 1987, com o Prémio P.E.N [prémio literário instituído pelo P.E.N. Clube Português], que disse ter tido um sabor especial. A vida de Al Berto foi uma tensão constante entre o que se sente e o que se consegue transpor para o papel.

Hoje, a noite em Sines guarda a sua presença. A varanda voltada para o mar mantém o rasto do seu olhar, e as malvas crescem como testemunhas de uma vida que ousou ir além do esperado. Permanece a sensação de um poeta que desafiou regras e abriu caminhos que poucos ousaram percorrer. Al Berto pertence, para sempre, à noite.


Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS


03 agosto, 2026

𝑨 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂 𝑴𝒂𝒍𝒅𝒊çã𝒐, de Rui Couceiro

 

Autor: Rui Couceiro
Título: A mais Bela Maldição
N.º de páginas: 201
Editora: Porto editora
Edição (2.ª): Maio 2026
Classificação: Não-Ficção
N.º de Registo: (3814)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Em A Mais Bela Maldição, Rui Couceiro constrói um tributo à literatura através de dez narrativas distintas. O subtítulo, Histórias de gente apaixonada por livros, define, desde logo, o mote principal. Para estas pessoas, a leitura vai muito para além de um mero passatempo ou de uma ocupação. Ela funciona como um refúgio e uma forma de sobrevivência emocional.

O grande trunfo do autor reside na forma como escuta e restitui estas vidas. Deslocou-se ao encontro de cada uma delas, viajando pelos diferentes cantos do mundo para ouvir os seus testemunhos, pelo que descreve minuciosamente o meio envolvente que as molda. Seja através da caracterização geográfica das paisagens, do peso das dinâmicas familiares ou das pressões do contexto social. Cada atmosfera é desenhada com precisão e mostra que o amor aos livros nasce, resiste e floresce em cenários quotidianos muito concretos.

Em cada história, o autor demonstra que a leitura e o ambiente social coexistem e se influenciam mutuamente. Para uns, os livros são o ponto de ligação com um passado familiar esquecido; para outros, representam a única janela de liberdade contra um meio social sufocante. Ao cruzar a envolvência geográfica e social com o ato de ler, o autor humaniza profundamente estas pessoas e revela a diversidade de formas que a paixão literária pode assumir.

Como coleccionadora de livros e leitora ávida, este livro tocou-me de forma muito especial. Reconheci a essência de cada história, pois conheço bem o prazer de acumular histórias nas estantes e de me perder nas suas páginas. Num tempo em que quase tudo se vive através de ecrãs e ligações instantâneas, estas histórias lembram‑nos que a leitura continua a ser a mais bela maldição que nos afasta da ignorância e nos devolve a liberdade de pensar com autonomia.
A Mais Bela Maldição é, para mim, a validação perfeita de que a nossa paixão partilhada pela literatura e pela leitura é, sem dúvida, a mais bela e necessária das obsessões humanas.


30 julho, 2026

Entre páginas e mar

 



Entre páginas e mar

Sentada na esplanada,
acolho o calor que sobra da tarde.
Abro o livro, as palavras avançam,
tocam-me subtilmente.

Entre goles de sumo fresco,
a marginal move-se
crianças, adultos,
corpos ainda salgados do mar.

Afasto o olhar das páginas
e deixo que a vida dos outros
se misture à minha.

Memórias felizes emergem,
o presente aproxima-se delas,
e uma história nova começa.

Mais crianças surgem
uma bola que escapa,
um grito que se eleva,
um instante de alegria.

Gaivotas atravessam o ar,
umas exibem-se, outras desaparecem
no azul esverdeado.

Eis a espuma dos meus dias
serenidade que se instala,
melancolia que me acompanha.

Fico ainda na esplanada.
A tarde abranda,
o sol inclina-se num gesto lento.

O cheiro do mar aproxima-se,
traz consigo uma memória antiga
que não sei nomear.

As conversas ao redor dissolvem-se,
ficam apenas fragmentos,
uma gargalhada,
um pedido ao empregado,
um silêncio partilhado entre dois.

Viro mais uma página
As palavras avançam,
abrem espaço dentro de mim.

Uma brisa leve
atravessa a mesa,
move a folha,
traz o grito das gaivotas.

A marginal continua a passar
passos apressados,
passos vagarosos,
vidas que não conheço.

E eu permaneço
entre páginas,
entre memórias,
entre o que chega e o que fica.

Na marginal, os passos abrandam.
Há quem pare,
há quem observe,
há quem siga sem olhar.

E então a luz transforma-se.
O sol aproxima-se da linha do mar,
desce num gesto lento.

O horizonte acende-se em tons suaves,
o dia despede-se
com a mesma serenidade.

Fico a ver essa descida,
espuma dos meus dias,
onde a melancolia repousa
e a luz se recolhe.

25 julho, 2026

𝑳𝒖𝒕𝒐 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒔 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒖𝒈𝒖𝒆𝒔𝒆𝒔, de Rui Zink

 

Autor: Rui Zink
Título: Luto pela Felicidade dos Portugueses
N.º de páginas: 154
Editora: Quasi
Edição: Maio 2007
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2311)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Será que o português sabe ser feliz ou prefere a melancolia de se queixar, esse hábito antigo que lhe serve de companhia? Em Luto pela Felicidade dos Portugueses, Rui Zink responde a esta e a muitas, muitas outras perguntas através de uma lente crítica que é tanto desconcertante quanto hilariante.

O livro reúne crónicas escritas originalmente entre 2000 e 2005 para a revista SOS Saúde, mas desengane-se quem procurar nestas páginas conselhos médicos tradicionais ou receitas de bem-estar. Zink oferece consciência, ironia e uma espécie de ternura que só existe quando se conhece bem o paciente. Ao incluir-se no diagnóstico e nas receitas, retira qualquer superioridade moral e mostra que os vícios que aponta são também os seus. Essa auto‑ironia atribui às crónicas uma autoridade e uma empatia que conquistam o leitor.

A genialidade da obra começa no título, onde “luto” carrega um duplo sentido que retrata a nossa identidade. Por um lado, evoca o verbo lutar, remetendo para a ideia de quem batalha pela dignidade e pela felicidade do seu povo. Por outro, surge como o substantivo, representando a tristeza e o pessimismo de um país. Ao juntar o luto à felicidade, Zink fixa o tom paradoxal da obra numa sátira que morde e, ao mesmo tempo, revela um carinho e um conhecimento profundo pelo país que critica.

Para lá da sua aparente leveza, a estrutura do livro funciona como uma paródia inteligente aos velhos fantasmas da identidade nacional, reorganizando Deus, Pátria e Família (três partes) em “laboratórios” onde o autor desmonta as suas/nossas obsessões.

Ao lermos estas crónicas hoje, mais de duas décadas depois, a sensação de déjà-vu é inevitável e quase cómica. Mudaram os palcos, do café para o Instagram ou outra rede social, mas os actores seguem o mesmo guião. Portugal continua a dar-se mal com a vida. Continua a não saber se o sexo dá felicidade? Se a felicidade dá dinheiro? E se o dinheiro dá saúde?

No fim de contas, Rui Zink deixa-nos com uma dúvida desconfortável - e se o nosso maior trauma não for a falta de felicidade, mas sim a perspectiva de um dia virmos a ser genuinamente felizes? Sem partilhar uma pequena maleita, sem amaldiçoar o(a) companheiro(a) infiel, sem sentir inveja/cobiça ou sem a meteorologia para justificar o humor, quem seríamos nós?

E hoje, ainda somos o povo neurótico, stressado e obcecado com as aparências que Rui Zink retratou entre 2000 e 2005? Ou será que o Instagram e as novas modas do bem-estar apenas maquilharam o velho fado que teima em permanecer? Querem responder?


22 julho, 2026

𝑨 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒄𝒂𝒔𝒂 é 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒆𝒔𝒕á 𝒐 𝒄𝒐𝒓𝒂çã𝒐, de Toni Morrison

 

Autora: Toni Morrison
Título: A nossa casa é onde está o coração
Tradutora: Manuela Madureira
N.º de páginas: 140
Editora: Presença
Edição (3.ª): Agosto 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3810)



OPINIÃO ⭐⭐⭐


Em A nossa casa é onde está o coração, Toni Morrison entrega-nos uma narrativa minimalista na extensão, mas monumental no seu impacto emocional e social. A autora transporta-nos para a América da década de 1950. Uma época profundamente marcada pelas cicatrizes do racismo estrutural e pelos traumas da Guerra da Coreia.

A trama acompanha Frank Money, um jovem veterano negro que regressa do combate com um caso severo de depressão. Frank está desancorado, a derivar num país que exigiu o seu sacrifício na frente de batalha, mas que lhe nega a dignidade mais básica nas ruas. A narrativa torna-se mais viva quando ele recebe a notícia de que a sua irmã mais nova, Cee, corre perigo de vida após ser alvo de experiências médicas abusivas. A travessia geográfica que Frank empreende para a salvar transforma-se, progressivamente, numa viagem de resgate da sua própria identidade e sanidade.

Para estes dois irmãos, a sua terra natal em Lotus, na Geórgia, sempre foi um lugar detestado e associado à opressão. No entanto, é precisamente nesse espaço rural e comunitário que ambos encontram a redenção.

A escrita de Toni Morrison é poética e cirúrgica. Nenhuma palavra é desperdiçada. E a estrutura torna-se, na minha opinião, num dos aspetos mais fascinantes da obra. A narrativa, na terceira pessoa, é periodicamente interrompida pela voz do próprio Frank, na primeira pessoa. Nestas passagens, o protagonista questiona e desafia o próprio narrador, um processo genial que espelha a mente fragmentada de um soldado a tentar reconstruir a sua própria verdade.

A nossa casa é onde está o coração retrata a violência histórica e a segregação, mas recusa-se a ser uma história de desespero. É, acima de tudo, uma celebração poderosa dos laços fraternos e da conquista do nosso destino.

Recomendo vivamente a leitura deste livro a quem procura uma história intensa, fluída, e marcante. Sendo esta a minha segunda experiência com Toni Morrison, depois de ter ficado deslumbrada com Beloved, posso afirmar que estas duas obras se complementam de forma magnífica. Enquanto Beloved nos esmaga com o peso histórico da escravatura e do trauma materno, A nossa casa é onde está o coração oferece uma perspectiva mais focada na cura e na reconstrução da identidade no pós-guerra. 
São dois livros que justificam a atribuição do Prémio Nobel (1993) e provam por que razão Morrison  se tornou uma  voz relevante da literatura mundial.

"Fiquei ali um longo momento a contemplar aquela árvore.
Tinha um aspeto tão forte,
Tão belo.
Ferida ao meio de cima a baixo
Mas viva e de saúde.
A Cee tocou-me no ombro
Ao de leve.
Frank?
Sim?
Anda, irmão. Vamos para casa."



20 julho, 2026

A Odisseia (The Odyssey), de Christopher Nolan


173 min. | M/14 | Aventura, Ação, História | 2026 | Reino Unido, USA
Realização: Christopher Nolan |
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway Robert Pattison, Lupita Nyong´O, Zendaya, Charlize Theron, John Leguizamo


A adaptação cinematográfica do poema épico de Homero,  A Odisseia, por Christopher Nolan, é uma obra monumental de quase três horas que passam sem se dar por elas. Nolan consegue prender o espectador do início ao fim com um ritmo que desafia o tempo. Contudo, e na minha simples opinião, o realizador peca, por vezes, pelo excesso, com cenas de acção exageradas ou sequências visuais que se estendem mais do que o necessário. Ainda assim, a força das personagens principais resgata a alma da narrativa.

O grande trunfo do filme reside na densidade psicológica de Ulisses (Matt Damon). Ele surge como um herói cansado da guerra, marcado pelo trauma e pela obsessão de regressar a Ítaca. É o que o impede de se dissolver no caos das ilhas, das criaturas mitológicas, das divindades, das seduções, dos perigos do mar e sobretudo das relações humanas.
A narrativa eleva acima de tudo o valor sagrado da honra, da palavra dada e da promessa mantida. Esta integridade contrasta fortemente com o oportunismo moral dos pretendentes que invadem o seu lar, transformando o filme numa lição actual sobre a importância do carácter contra a ganância do poder.

No núcleo familiar e afectivo de Ulisses, a estabilidade de Ítaca é sustentada por três figuras fundamentais que resistem ao caos. Penélope (Anne Hathaway) personifica a lealdade inabalável e a resistência psicológica, usando a astúcia como arma para manter viva a promessa feita ao marido. Ao seu lado, o jovem Telémaco (Tom Holland) carrega o peso do legado de um pai que mal conheceu, amadurecendo sob a pressão de proteger a honra da sua linhagem. A ligação emotiva a Ítaca ganha uma dimensão ainda mais profunda e simbólica através de Eumeu (John Leguizamo), personagem quase cega, que funde a figura do fiel amigo e do próprio Homero, cujo olhar interior e cantos preservam a memória mítica de Ulisses, mantendo viva a chama da esperança mesmo no período de maior escuridão.

O desfecho do filme sela o triunfo da justiça, onde o reencontro final em Ítaca prova que a honra e a palavra dada superam qualquer obstáculo ou oportunismo.

 

14 julho, 2026

𝑳𝒂𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒂, de Ana Cláudia Santos

 

Autora: Ana Cláudia Santos 
Título: Lavores de Ana
N.º de páginas: 122
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐



A novela Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, prende o leitor pela forma como retrata a aventura de mudar de país. Acompanhar a protagonista em Nápoles, a lidar com um dialecto difícil e com os choques do quotidiano, é um processo muito autêntico. A cena inicial com ela trancada na varanda dita um tom divertido e humano que anuncia um enredo dinâmico.

O ponto mais original da obra é a forma como a profissão da protagonista molda o seu modo de pensar. Sendo tradutora, não traduz apenas livros; passa o tempo a tentar “traduzir” as pessoas, os gestos e as manias dos outros. E traduz também as suas paixões humanas, reveladas nas relações amorosas com Enzo e Marco. Cada encontro funciona como um exercício de interpretação, uma tentativa de decifrar intenções, silêncios e impulsos com a mesma minúcia que aplica a um texto.

A divisão invulgar dos capítulos — OUVIDO, LÍNGUA, MÃO, SOPRO e VOZ — reforça esta leitura. Estão profundamente ligados à forma como ela vive a juventude em liberdade, em rebeldia, em experimentação. E são também instrumentos da tradução. Ouvir o mundo novo, arriscar a fala, escrever noutra língua, respirar fora do lugar de origem, encontrar uma voz própria. A protagonista organiza a vida por estes eixos, como se cada um fosse uma forma de se situar e de transformar o que vive.
Sendo a minha primeira experiência com a autora, a escrita deixou-me uma boa impressão. É limpa e directa, o que torna a leitura fluída. Ainda assim, o livro deixa um sabor agridoce. Na minha opinião, falta-lhe uma faísca emocional. Convence, mas não chega a apaixonar.

Recomendo a leitura pela leveza e pela escrita cuidada, embora não seja um livro para leitores muito exigentes. Quem procura algo que ultrapasse a narração de uma estada em Nápoles, o choque cultural e a juventude fértil em paixões poderá sentir alguma frustração. Anos mais tarde, já casada, a protagonista regressa à cidade, trazendo consigo uma experiência íntima que marca silenciosamente a vida adulta. Esse retorno ilumina a distância entre a leveza da juventude e a vida adulta que entretanto se consolidou. A cidade torna-se memória, e essa consciência dá ao final uma melancolia mais acentuada.



09 julho, 2026

𝑷𝒂𝒓𝒕𝒊𝒅𝒂, de Julian Barnes

 

Autor: Julian Barnes
Título: Partida
Tradutor: Salvato Teles de Menezes
N.º de páginas: 185
Editora: Quetzal Editores
Edição: Janeiro 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3778)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Partida, de Julian Barnes, surge como o seu testamento criativo definitivo, uma obra-prima onde o autor se despe de artifícios para estabelecer uma conversa com o leitor. Barnes escreve como se estivesse sentado ao nosso lado, numa esplanada de café, com um humor refinado e a consciência tranquila de quem sabe que esta é a sua última oportunidade de dialogar antes do silêncio definitivo.

O fio narrativo que sustenta esta reflexão é a história de Stephen e Jean, dois amigos de faculdade que namoraram na juventude e que foram apresentados pelo próprio narrador. Quarenta anos depois, após caminhos totalmente separados, os dois reencontram-se, de novo, com a cumplicidade do narrador, para tentar o que chamam de “a última possibilidade de ser feliz”. O contraste entre o amor idealizado da juventude e o afecto pragmático e adaptado à velhice serve de cenário perfeito para Barnes analisar o impacto avassalador do tempo nos afectos e nas relações.

É precisamente através deste reencontro que ganha uma importância fulcral a Memória Autobiográfica Involuntária (MAI). Enquanto a memória voluntária falha, esquece ou edita o passado, a MAI surge como uma força incontrolável. Através de gatilhos  inesperados como um vislumbre, um odor, um gesto, uma palavra… o passado assalta as personagens com uma verdade emocional e involuntária. Para Barnes, este mecanismo prova que os nossos "pequenos eus" da juventude continuam intactos e vivos dentro de nós, ligando o passado ao presente à revelia da nossa própria vontade, mesmo quando o corpo físico começa a falhar.

Essa falha do corpo é, aliás, o outro grande pilar do livro. Diagnosticado com um cancro no sangue, que espelha a própria realidade de Barnes, o narrador encara a doença que o acompanhará até ao fim com uma neutralidade desarmante. A velhice e a degradação física são tratadas como meros factos da biologia humana. Ele aborda a própria mortalidade através do filtro da ironia (muito britânica), como uma comédia ligeira que caminha inevitavelmente para um desfecho melancólico.

Pensei concluir, articulando esta despedida com O Sentido do Fim, uma vez que ambas as obras partilham a mesma estrutura de olhar para trás, após um hiato de quatro décadas. Escrito também na primeira pessoa, e com recurso a uma analepse de mais de 40 anos, a narrativa de O Sentido do Fim prende e inquieta o leitor desde o início. Nele, a escrita sensível e profunda patenteia o estado de espírito do protagonista, Tony Webster, impondo-se a um leitor que a lê avidamente, numa ânsia pela descoberta do final para libertar a personagem da agitação e da dúvida que a consomem. É aí que Barnes nos dá uma lição brutal sobre a importância do tempo que tece falhas na memória à medida que o homem envelhece, desenvolvendo o tema da morte focado nas circunstâncias e no que ficou na lembrança do protagonista, levando-nos a concluir que a “vida não é só adição e subtração. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso e remorso”.

Em Partida, Barnes dá o passo definitivo que pacifica essa inquietação. Se no livro anterior o leitor e Tony Webster ficavam sufocados pelo peso dessa acumulação de falhas, de perdas e remorsos, neste, o autor desiste do controlo racional e entrega a verdade à imprevisibilidade da MAI. Diante do diagnóstico, já não há a agitação ou a dúvida que consumiam o protagonista de O Sentido do Fim; há um despojamento pacífico. Julian Barnes já não procura decifrar ou julgar os erros do tempo; ele aceitou a finitude. Sendo este o último livro escrito pelo autor (assim, o afirma), a sua jornada criativa encerra-se aqui de forma intencional e lúcida. Contudo, para mim, enquanto leitora, Partida não será o ponto final absoluto. Se para ele este é o livro do adeus, para quem o lê a sua voz permanece viva, até porque ainda me restam descobrir e ler outras obras do seu passado. Enquanto a vida tem um final certo para o homem de carne e osso, a literatura garante que, para os seus leitores, os escritores, e neste caso, Julian Barnes, nunca deixarão de escrever.

 

08 julho, 2026

Tuner - Ouvido Absoluto, Mão Leve, de Daniel Roher


     


108 min. | M/12 | Thriller, Drama, Suspense | 2025 | Canadá, EUA
Realização: Daniel Roher
Elenco: Leo Woodall, Dustin Hoffman, Havana Rose Liu, Lior Raz, Tovah Feldshuh, Jean Reno



Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve” combina com simplicidade elegante romance, drama e tensão.

O filme trabalha com precisão a sua metáfora central: um ouvido absoluto que se torna mão leve. Niki White, afinador de pianos com hiperacusia, transforma a sensibilidade extrema numa arma capaz de abrir cofres. Daniel Roher filma o som com delicadeza musical. É a linguagem unificadora desta história. Cada silêncio entre Niki e Ruthie, cada nota de piano, cada ruído que o fere ou o salva constrói uma intimidade que nenhum diálogo alcançaria.

A hiperacusia faz do mundo um território agressivo, mas também molda a forma como Niki o habita. A sua vulnerabilidade transforma cada gesto numa batalha íntima. Por isso, o relacionamento com Ruthie torna-se o verdadeiro eixo do filme. Quando ela fala, quando o silêncio se instala, quando o piano surge como refúgio, oferece‑lhe uma frequência emocional onde o mundo deixa de o ferir.

Dusty Hoffman, numa interpretação luminosa, funciona como contraponto moral e afectivo. Como mentor, percebe que o talento de Niki é também uma ferida. A sua presença bem‑disposta e ternurenta abranda a acção, dá‑lhe humanidade; afina-a. O desempenho é irresistível.

O desfecho de Tuner é apoteótico. Quando Niki se senta ao piano, regressa a si próprio. O gesto é quase sagrado; as mãos avançam antes do ouvido, como se o corpo guardasse uma memória que o trauma não conseguiu apagar. Há um contraste arrebatador entre o silêncio pesado que o envolve, a música que começa a emergir, e o rosto de Ruthie, que o observa com aquele sorriso suave, emocionado, quase incrédulo, mas esperançoso. Ele não voltou a ouvir o mundo; voltou a ouvir o que importa, porque “o Mi bemol está desafinado”.



07 julho, 2026

Submissão


(c) Federação Portuguesa de Futebol (FPF)




Portugal ardeu em campo,
jogadores a rasgar o tempo
com o país nas veias.
Força.
Entrega.

No banco, o medo sentou-se,
um treinador preso a um nome,
incapaz de tocar no intocável.
Submissão silenciosa.
Um gesto que travou o jogo.

E o “melhor” tornou-se peso de passado,
num presente que clamava mudança.

Quem não ousa, não lidera,
num país que joga com o coração inflamado.

No horizonte, ergue-se um amanhã
emergente
promitente.



02 julho, 2026

Lídia Jorge vence a 38.ª Edição do Prémio Camões


(c) GR | Out. Santiago do Cacém



O Camões é de Lídia Jorge.

Aos 80 anos, a autora de Misericórdia é a décima mulher distinguida com o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Recebe-o pela “análise profunda da história recente de seu país”, referiu o Público.

https://www.publico.pt/2026/07/02/culturaipsilon/noticia/premio-camoes-2026-escritora-portuguesa-lidia-jorge-2180242

A distinção de Lídia Jorge  consagra uma escrita marcante que explora a identidade, a memória colectiva e a condição humana. Este reconhecimento celebra uma voz indispensável da literatura portuguesa. 

Como leitora atenta e apaixonada da sua obra, sinto esta distinção não apenas como um acto de justiça literária, mas como uma celebração da nossa própria identidade.
Ler Lídia Jorge sempre foi, para mim, um exercício de desassossego e beleza. Ao longo dos anos, folhear os seus livros tem sido uma viagem profunda à memória colectiva, às feridas da história e à força invisível das mulheres.

Quem já se perdeu nas páginas de O Dia dos Prodígios, sentiu o peso do silêncio em A Costa dos Murmúrios, se deixou envolver pelas vozes e ambições de A Noite das Mulheres Cantoras, revisitou os mitos e desilusões da nossa Revolução em Os Memoráveis, ou se comoveu com a sensibilidade de Misericórdia, sabe perfeitamente do que falo. Ela esculpe a condição humana com uma prosa poética que nos ecoa na alma muito depois de fecharmos o livro.

Este prémio celebra uma carreira extraordinária e celebra, também, o presente de uma autora que continua viva, sagaz e indispensável. 


30 junho, 2026

𝑶 𝑨𝒓𝒄𝒐-Í𝒓𝒊𝒔, de Yasunari Kawabata

 

Autor: Yasunari Kawabata
Título: O Arco-Íris
Tradutor: Francisco Agarez
N.º de páginas: 207
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3651)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



O Arco‑Íris é um romance de grande delicadeza formal e espiritual onde cada gesto, cada cor, cada silêncio se tornam matéria emocional. A escrita é depurada, sensível, luminosa. A natureza é linguagem. A dor é tratada com respeito. E a beleza surge como promessa de continuidade.

Kawabata constrói uma narrativa que avança por subtilezas, recusando o excesso e confiando na sensibilidade do leitor. A natureza faz parte integrante da história, revelando o estado interior das personagens com uma precisão quase táctil.

No centro do romance, o pai, arquitecto, e as três meias‑irmãs movem‑se num território de memórias assimétricas. As duas mais velhas crescem na ausência das mães e procuram a irmã mais nova, que vive com a sua mãe. Essa diferença funda uma distância que acentua a fragilidade familiar. A busca da irmã atribui ao enredo um desejo de aproximação afectiva numa tentativa de recompor o que ficou disperso.

Com as histórias das três meias-irmãs, Kawabata resgata a fragilidade da existência humana ao explorar temas universais como o luto, a culpa, a sexualidade, o amor e a identidade.

O arco‑íris de inverno, imagem inaugural, funciona como metáfora e estabelece o tom luminoso que insiste em aparecer mesmo num mundo devastado. O autor procura essa luz discreta e faz dela o centro da sua escrita.

A dor do pós‑guerra surge sem dramatização, insinuada nos detalhes da paisagem, nas casas improvisadas, nos templos feridos, nas famílias deslocadas e nos gestos das personagens. Essa contenção dá ao livro uma força única e perpassa uma emoção subtil e permanente, vibrando em cada página.

Ler um livro seu é como observar uma pintura, uma experiência que pede ao leitor que abrande, que escute, que se deixe tocar pela luz discreta das coisas. Este é o terceiro livro que leio de Kawabata e reconheço, cada vez mais, a delicadeza da sua escrita, onde a natureza tem um papel primordial.



24 junho, 2026

𝑨 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒖𝒎𝒂 𝑭𝒂𝒄𝒂, de Annie Ernaux

 

Autora: Annie Ernaux
Título: A Escrita como uma Faca
Tradutora: Maria Etelvina Santos
N.º de páginas: 144
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2025
Classificação: Não -ficção/Entrevista
N.º de Registo: (3742)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



A Escrita como uma Faca é um autêntico mergulho no processo mental de uma escritora que recusa a ficção como máscara e transforma a própria vida em matéria literária. Para quem já leu vários dos seus livros, este funciona como um espelho que reflecte escolhas, métodos, obsessões e torna mais nítido tudo o que foi lido antes e tudo o que virá depois.

Annie Ernaux distingue‑se pela coragem rara de não se esconder. Onde muitos escritores se protegem atrás da ficção, ela expõe‑se para chegar ao ponto mais cru da experiência humana. Como referiu Frédéric-Yves Jeannet (F.-Y.J.) na introdução, ela usa um método rigoroso, “uma trajetória exigente e arriscada, a sua escrita que não mente, dissecada até ao osso, pondo a nu a dor, a alegria, a complexidade de existir.” (p.10). A sua vida funciona como campo de observação social, onde o íntimo e o coletivo se entrelaçam. Ao narrar‑se, narra também a mulher da sua época, a classe social de onde veio, a memória que partilha com os seus leitores.

Mas há um elemento fundamental que torna este livro único, a inteligência da condução da entrevista por F.-Y.J. As perguntas são instrumentos de precisão. O entrevistador sabe, “com tenacidade e subtileza”, quando insistir, quando recuar, quando abrir espaço para que Ernaux aprofunde uma ideia ou revele uma hesitação. Há uma escuta activa, quase invisível, que permite que a autora pense em voz alta sem perder rigor. O formato por correio electrónico, ao longo de um ano, amplifica essa qualidade, cada pergunta chega como uma provocação meditativa e cada resposta nasce de um tempo de reflexão que raramente existe na oralidade.

O leitor acompanha esse pensamento quase em tempo real. É como assistir ao trabalho de uma cirurgiã literária que abre a própria escrita para mostrar o mecanismo por dentro e, também, ao trabalho de um entrevistador que sabe exactamente onde colocar a lâmina.

Percebemos que a recusa da ficção é para a autora um gesto ético. Inventar seria uma forma de suavizar ou desviar o olhar. Na sua opinião, a realidade, tal como é vivida, já contém toda a violência e toda a beleza necessárias, pelo que usa a sua linguagem é seca e precisa, sem “metáforas, sem efeitos”, sem sentimentalismos. Limita-se a revelar.
Por isso este livro, tão fundamental, mostra a liberdade de pensamento que sustenta toda a sua obra. Uma liberdade conquistada, lúcida, sem pruridos. Uma autora que não teme dizer “eu”, porque sabe que esse “eu” é atravessado pela história, pela classe, pelo género, pela memória colectiva.

Ler A Escrita como uma Faca é acompanhar Ernaux no momento em que ela afia a própria lâmina e acompanhar também quem lhe passa a pedra de afiar. Depois disso, todos os seus livros se tornam mais vivos e inevitáveis.
“Tudo o que sei é que esse livro [Um Lugar ao Sol] inaugurou, como disse, uma postura descrita que mantenho, exploração de uma realidade exterior ou interior, do íntimo e do social num mesmo movimento, fora da ficção. E a escrita “clínica” como lhe chama, que utilizo, é parte integrante da investigação. Sinto-a como uma faca, quase uma arma, de que necessito.” (p. 34)



21 junho, 2026

O Dia da Revelação (Disclosure Day), de Steven Spielberg

 

      

145 min | M/12 | Thriller, Ficção Científica, Drama | 2026 | EUA
Realização: Steven Spielberg
Elenco: Emily Blunt, Josh O'Connor, Wyatt Russell, Colin Firth,  Colman Domingo, Eve Hewson



Quando saí do cinema após ver "O Dia da Revelação", confesso que estava dividida. A minha cabeça não parava de pensar na lógica da história. Afinal, como é que um grupo tão poderoso, que mandava em tudo e escondeu este segredo durante tantos anos, é derrotado assim tão facilmente no final?
Na era dos deepfakes, da inteligência artificial e da desinformação instantânea, a escolha de Steven Spielberg em basear a maior revelação da história da humanidade numa transmissão televisiva linear pareceu-me, ao início, antiquada e logicamente frágil. Tem de haver uma razão.

O cinema tem esta capacidade mágica de nos fazer mudar de perspectiva. E foi quando mudei a "lente" através da qual olhava para o filme que tudo ganhou outro valor.
Percebi (ou quis perceber) que Steven Spielberg não queria fazer um filme focado na tecnologia ou na política do mundo de hoje. Ele quis entregar-nos uma metáfora sobre a paz e a esperança.

Sob esta nova perspectiva, a cena em que o vilão Noah Scanlon desiste de disparar e deixa a transmissão continuar ganha um novo entendimento. Ele não falha por incompetência; ele é desarmado pela própria magnitude da verdade. E assim, há algo transformador na mensagem de que a verdade liberta todos, incluindo os próprios opressores que passaram a vida a escondê-la.
Mas só cheguei a este entendimento, após longa reflexão sobre o final. Intrigou-me o corte abrupto para os créditos logo a seguir à palavra "Ouçam" dita por Emily Blunt. Esse era o foco, tinha de ter um significado. E só podia ser um apelo. Spielberg está a dizer-nos que, perante a imensidão do universo, as nossas guerras, discussões e divisões perdem todo o sentido. Temos de parar e ouvir o que realmente importa.

"O Dia da Revelação" pode não ser perfeito na lógica, ou melhor, pode causar estranheza, mas mexe connosco. Lembra-nos da nossa humanidade e mostra que a esperança na paz continua a ser um caminho válido.
E, verdade seja dita, isso faz-nos muita falta hoje em dia.

20 junho, 2026

A Primavera

 

                                                                      (C) GR


No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então, ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de ce cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.


In, Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, pág. 16 

19 junho, 2026

𝑷𝒍𝒂𝒕𝒆𝒓𝒐 𝒆 𝑬𝒖, de Juan Ramón Jiménez

 

    
                          
Autor: Juan Ramón Jiménez
Título: Platero e Eu
Ilustrador: Bernardo Marques
Tradutor: José bento
N.º de páginas: 140
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/Data
Classificação: Prosa poética
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam devagar, como quem pede licença para entrar na nossa vida. Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, não se impõe; insinua-se, devagarinho, com delicadeza. E quando damos por isso, já estamos sentados ao lado de Platero, a sentir o seu passo leve atravessar as páginas.

Jiménez constrói um livro que é, ao mesmo tempo, memória, poesia e infância reencontrada. A estrutura fragmentada (pequenos episódios) cria uma cadência simples, como se cada capítulo fosse um relincho breve, cheio de vida. A simplicidade é apenas aparente, por detrás dela pulsa uma sensibilidade profunda, uma atenção ao quotidiano, ao gesto, ao instante.

A relação entre o narrador e Platero é o centro afectivo da obra. A amizade entre um homem e o seu burrico devolve ao leitor a possibilidade de olhar o mundo com ternura. Platero, com a sua doçura, torna-se espelho e companhia; presença constante que transforma o banal em revelação. É impossível não sentir que caminhamos com eles pelas ruas de Moguer, onde cada detalhe - uma flor, uma criança, uma andorinha, um coice, um entardecer,… se transforma em matéria poética.

Na escrita de Jiménez há uma musicalidade que se aproxima da prosa poética, mas sem excessos, sem ornamentos desnecessários. O autor sabe que a emoção verdadeira nasce do essencial.

Ler Platero e Eu é entrar num estado de delicadeza. É permitir-se abrandar. É aceitar que a beleza pode surgir num gesto simples, num olhar terno, num relincho. Talvez por isso, tantos leitores, ao terminarem o livro, sintam vontade de voltar ao início para permanecer mais um pouco naquele lugar onde a poesia se confunde com a vida.

Há livros que acontecem. Este é um deles. E quando acontece, deixa uma marca suave, como o toque de Platero a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.


17 junho, 2026

𝑴𝒊𝒓𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝑩𝒂𝒏𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑴ú𝒔𝒊𝒄𝒂, de Hernán Rivera Letelier



Autor: Hernán Rivera Letelier
Título: Miragem de Amor com Banda de Música
Tradutor: Carlos Vieira da Silva
N.º de páginas: 273
Editora: Quetzal Editores
Edição: Fevereiro 2000
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1117)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

A leitura de Miragem de Amor com Banda de Música marcou o meu primeiro contacto com o universo literário de Hernán Rivera Letelier, revelando-se uma excelente e surpreendente descoberta. Neste romance, o autor chileno transporta-nos com mestria para o ambiente árido da pampa salitreira do Atacama, no início do século XX. Através do cruzamento de vidas marcadas pela ilusão, a obra constrói um retrato humano profundo sobre a efemeridade da vida e do amor, as condições de trabalho e a resistência à opressão.

O motor emocional da narrativa assenta no contraste absoluto entre as duas figuras principais, Bello Sandalio, o trompetista boémio, mulherengo e destemido, e Golondrina del Rosario, a pianista idealista e de educação rígida. A ligação entre ambos surge através da música, que funciona como uma linguagem universal e um refúgio de sensibilidade num quotidiano duríssimo.

Esta paixão improvável desenvolve-se sob o peso de uma forte crítica social e política. O autor expõe sem rodeios as condições desumanas de trabalho nas explorações de salitre, onde a ambição do "ouro branco" esmaga a dignidade dos mineiros. Esta opressão culmina no idealismo revolucionário do barbeiro Sixto Pastor Alzamora, pai de Golondrina, cuja tentativa de tiranicídio espelha a revolta sufocada daquela população.

Toda esta envolvência é moldada pelo simbolismo do deserto do Atacama e da própria miragem. Tanto o amor impossível como a utopia política revelam-se meras ilusões, condenadas a desaparecer sob a areia e o esquecimento, tal como a própria povoação de Pampa Unión.

Miragem de Amor com Banda de Música revelou-se uma leitura profundamente marcante. O aspecto mais fascinante da obra reside no cruzamento magistral entre a crueza da vida salitreira, a complexa condição sociopolítica do Chile daquela época e a vida devassa que consumia aquela povoação no fim do mundo, onde os fins-de-semana dos salitreiros eram marcados pelo excesso e pelo álcool. Hernán Rivera Letelier consegue a proeza de transformar a miséria e o isolamento numa narrativa cheia de cor, música e humanidade. Foi, sem dúvida, uma excelente porta de entrada na literatura do autor. Diverti-me imenso com as peripécias amorosas e rocambolescas protagonizadas por certas personagens.