MAR

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03 agosto, 2021

𝑶 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝒅𝒐 𝑫𝒆𝒔𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐, de Ondjaki

 


Autor: Ondjaki
Título: O Livro do Deslembramento
N.º de páginas: 229
Editora: Caminho
Edição: Julho 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3236)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Ondjaki é um contador de estórias cativante. Gosto de o ouvir falar. Gosto de o ler. Gosto de o ler em voz alta para melhor captar a harmonia e a poesia das suas palavras.
Neste último romance auto ficcional, ele dá voz a uma criança angolana, que vive em Luanda. Numa Luanda ainda assolada pela guerra, onde ainda impera o medo “a cidade andava cheia de silêncios” (p.228). Porém, a narrativa centra-se em grande parte numa época de paz e só no final assistimos ao reacender da guerra civil.

É então pelas lembranças e pelo olhar de Ndalu (Ndalinho) que vamos conhecendo as suas estórias e a dos camaradas adultos (família, amigos e vizinhos). São páginas de puro encanto, de sensibilidade e boa disposição. Nem tudo é verdade, mas parece que é de tão bom o registo que enleva o leitor. Mas isso não tem importância e o leitor foi informado, logo na página 16, que “em Luanda, cadavez uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória”

E as estórias verdadeiras ou inventadas são maravilhosas, e como "às vezes aqui quando te dizem uma coisa, é mais fácil só acreditar, duvidar dá muito trabalho e ainda traz discussões que não levam a lado nenhum” (p. 56), então deixemo-nos embalar pelas lembranças e pensamentos de Ndalinho e pelas palavras poéticas de Ondjaki.
“ gosto dessa hora de muito cedo, parece que a cabeça também fica mais limpa, com bom espaço para pensamentos
as coisas que chegam dos sonhos, os restos da noite, misturam-se com todas essas coisas frescas que penso de manhã, penso sozinho: penso de lembrar, penso de imaginar e penso ainda de misturar com todos os barulhos e as coisas que tenho de imaginar que estão a acontecer nas outras casas, nos outros quintais, depois, se a pessoa deixar os olhos fecharem, quase que recomeça a sonhar…” (p. 104)

e ainda

“ eu a olhar o olhar da tia Tó toda orgulhosa, como ela dizia, da minha língua portuguesa, ás vezes ela perguntava-me onde é que eu ia buscar tantas ideias, se eram de verdade ou inventadas, eu tinha de lhe explicar outra e outra vez que em Angola não era preciso inventar nada, ou a cidade te dava as estórias, ou a rua, ou a escola ou então havia sempre uma caixa cheia de estórias em cada família” (p.226)

É verdade, Ondjaki tem uma enorme caixa cheia de belas estórias que tão bem sabe partilhar com os seus leitores.
Recomendo muito este livro, ou qualquer um do autor. Este foi publicado em 2020 para assinalar os 20 anos de carreira literária.



01 agosto, 2021

𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓𝒆𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒍ê𝒆𝒎 𝒔ã𝒐 𝒑𝒆𝒓𝒊𝒈𝒐𝒔𝒂𝒔, de Stefan Bollmann

 


Autor: Stefan Bollmann
Título: Mulheres que lêem são perigosas
N.º de páginas: 150
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Abril 2007
Classificação: Arte
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Quando descobri este livro na biblioteca da minha escola, decidi imediatamente que teria de o ler. Quem gosta de livros e de ler não fica indiferente ao título.

É sobretudo um livro de arte, belíssimo, que revela várias obras de pintura, fotografia e desenho. Todas reproduzem mulheres a ler. Todas são acompanhadas de uma breve explicação sobre o artista, a época e sobre a mulher que lê.
Elke Heidnreich refere isso mesmo no seu prefácio: “ Nas imagens deste livro faltam os homens. Trata-se apenas de mulheres que lêem. São mulheres mais velhas e mulheres mais jovens, estão sentadas ou deitadas, vestidas ou desnudas, vemos os seus braços, o seu cabelo, a cabeça inclinada, só raramente vemos os seus olhos, só quando acabaram de ler ou olham em frente depois de interromper a leitura por alguns momentos.” (p.17)

Elke Heidnreich faz uma contextualização apaixonada da leitura, da relação da mulher com a leitura, numa intertextualidade com a arte e a literatura.

Stefan Bollmann, introduz este livro com uma breve história da leitura desde o século XIII ao XXI.
“ A leitura dá-nos prazer e consegue transportar-nos para outros mundos – ninguém que já perdeu a noção do tempo e do lugar quando estava embrenhado num livro irá refutá-lo. Mas a ideia de que a leitura deve dar-nos prazer, de que esse é o seu principal objectivo, é relativamente nova: foi mais ou menos definida no século XVII e ganhou raízes mais fortes no século XVIII.” (p. 23)
No final da introdução, o autor explica o porquê da apresentação das imagens de artistas famosos. “A galeria de imagens de mulheres a ler que se segue funciona como um museu virtual. Folheando o livro para trás e para diante, o leitor pode deambular nele, captar olhares e fazer associações. Os comentários curtos destinam-se a apoiar este circuito: Até as imagens de leitura precisam de ser lidas.” (p. 37)

Em seis capítulos, como se visitássemos salas de um museu, dedicados às leitoras abençoadas, fascinadas, autoconfiantes, sentimentais, apaixonadas e solitárias, encontramos sempre imagens fortes de mulheres leitoras, livres, confiantes, curiosas, sonhadoras, enigmáticas, apaixonadas, …

Foi um verdadeiro prazer ler este livro, esta obra de arte. Não podemos olvidar que, no início a leitura era apenas uma actividade de homens, já foi muito reprimida, já foi considerada como uma heresia, já foi causadora de distúrbios familiares, políticos, …

Sendo assim, só posso concordar com Elke Heidnreich quando ela refere: “Da leitura resulta a autoconfiança, da autoconfiança resulta a coragem de ter ideias próprias.” (p.17)

Leiam e sejam perigosas!

29 julho, 2021

𝑩𝒍𝒂𝒄𝒌𝒑𝒐𝒕, de Dennis McShade

 


Autor: Dennis McShade
Título: Blackpot
N.º de páginas: 58
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Outubro 2009
Classificação: Policial
N.º de Registo: (3296)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Blackpot é uma novela policial de 58 páginas, escrita por Dennis McShade, alter-ego de Dinis Machado. Faz parte da série Peter Maynard (4.º livro). Contudo Maynard, o assassino profissional dos livros anteriores, não integra esta narrativa curta e de leitura rápida (cerca de 30 minutos). Sem protagonista evidente, poder-se-á afirmar que talvez seja a morte, já que se trata de uma sucessão de assassínios.
Através de conversas curtíssimas, cinematográficas, desenrola-se sob os nossos olhos toda uma “reorganização” de uma sociedade. Entre jogos de xadrez, telefonemas curtos, encontros, os vários homens “de lá de baixo” e os “de lá de cima”, apenas identificados pelos nomes de código, vão-se abatendo com precisão, silenciosamente. Não nos são apresentados os motivos, apenas poderemos subentendê-los a partir desta frase: “Pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão. “ (p.50)

No final, no último capítulo, o leitor retém a seguinte frase: “Victor foi com a mão, maquinalmente, à estante e retirou de lá La Chute, de Camus. Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava: «Quando todos formos culpados então será a democracia». Atirou o livro para a lareira acesa e ficou a vê-lo arder durante cinco minuto.” (p.58)
Qual é então a intenção de Dinis Machado ao escrever esta novela? É que ele não nos dá muita informação, apenas acção e mortífera. Sabemos que os homens chamados para matar estão doentes, velhos, decadentes…. Será que combatendo o medo, a solidão, a injustiça nos conduz à libertação, a uma nova vida?
Durante a leitura não há tempo para reflectir, o leitor é levado pela rapidíssima acção. Só no final, e provavelmente, após uma releitura imediata, se vislumbram algumas, possíveis, interpretações, como aquela que já sugeri. Haverá, no entanto, outras possibilidades, sobretudo se nos detivermos na análise simbólica dos nomes das personagens, do jogo de xadrez.




27 julho, 2021

Um poema de Manuel da Fonseca





ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
Tu que choras uma angústia qualquer
E falas de coisas mansas como o luar
E paradas
Como as águas de um lago adormecido,
Acorda!
Deixa de vez
As margens do regato solitário onde miras
Como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
Desse país inventado
Onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
Do barco ao deus-dará
E esse ar de renúncia
Às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
Liberta-te dessa paz podre de milagre
Que existe
Apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
Abre os braços e luta!
Amigo,
Antes de a morte vir
Nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca – Poemas Completos




26 julho, 2021

𝑼𝒎 𝑨𝒏𝒋𝒐 𝒏𝒐 𝑻𝒓𝒂𝒑é𝒛𝒊𝒐, de Manuel da Fonseca

 



Autor: Manuel da Fonseca
Título: Um Anjo no Trapézio
N.º de páginas: 125
Editora: Caminho
Edição: Outubro 1990
Classificação: Contos
N.º de Registo: (445)



OPINIÃO ⭐⭐⭐1/2


Um Anjo no Trapézio inclui sete contos em que o espaço narrativo se situa em Lisboa e não no seu Alentejo litoral (Santiago do Cacém). Já não temos a gente humilde e trabalhadora do campo que se reúne nas praças, nas feiras, nos montes, da rua e passamos a descobrir gente infeliz, desamparada que vive com dificuldades e na incerteza, na miséria, no álcool, na doença, na violência doméstica, na solidão, na corda bamba…

Como habitualmente, Manuel da Fonseca revela uma escrita interventiva mais social que política (neste livro), retratando o povo, a sua vida. Ele exalta o ser humano, descreve-o física e psicologicamente de forma sublime, emotiva. É muito a partir destas descrições que depreendemos a vida da personagem. E nunca nos indica o final, cabe ao leitor, se assim o entender, imaginar o fado da personagem.
Não é o melhor livro do autor, na minha opinião, gostei mais dos anteriores, talvez porque se focam mais no campo, nos alentejanos. Este é todo citadino e por isso as problemáticas são diferentes, mas como já referi, a preocupação do autor em denunciar as questões sociais, mantêm-se.

Vale a pena ler Manuel da Fonseca!



𝑷𝒆𝒓𝒆𝒈𝒓𝒊𝒏𝒂çã𝒐, de Olivier Rolin

 


Autor: Olivier Rolin
Título: Peregrinação
N.º de páginas: 261
Editora: Sextante Editora
Edição: Agosto 2019
Classificação: Romance /Viagens
N.º de Registo: (3210)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Peregrinação, foi escrito, em parte, em Cascais onde o autor permaneceu durante uns meses numa residência literária. Este título é uma homenagem ao nosso país que o autor admira e à nossa literatura.
“Os Açores, esse arquipélago perdido no meio do Atlântico, entre Europa, Áfica e Américas, foi lá que iniciei a minha peregrinação, por acaso, como se me tivesse atirado à água…” (p. 261)
Olivier Rolin, no seu prefácio, informa-nos que sempre viajou muito por questões profissionais, “por vezes era enviado por um jornal, noutras era para me documentar para um livro, noutras ainda era por ocasião de uma tradução ou para participar numa palestra, nunca como turista.”
Refere ainda que durante trinta anos encheu cerca de sessenta cadernos e que foi neles que se inspirou para escrever este livro.
“ Há dois anos, comecei a relê-los. Das palavras (…) emergiram recordações que me deram vontade de esboçar com elas uma espécie de retrato, subjetivo e fragmentário, do mundo que é o meu e se confunde, em grande parte com a minha vida. (…) Não está organizado por nenhuma cronologia, por nenhuma data, por nenhuma coerência geográfica, apenas pelo fio fortuito da memória. Quis criar um efeito de cintilação e quase de vertigem, porque é assim o mundo: cintilante e vertiginoso.”
Efectivamente, é o que o livro nos oferece, uma belíssima viagem vertiginosa, cintilante confortável e enriquecedora. Os seus destinos fogem aos roteiros habituais do turismo.
Para além das digressões políticas, religiosas, sociais, ambientais, e literárias (há imensas referências aos seus escritores de eleição), entre outras, o autor relata-nos episódios da sua vida, alguns divertidos outros mais solitários :“Jantares solitários, em lugares onde ninguém estava à minha espera, a minha vida tem muitos.” (p. 60)

Das múltiplas incursões, “devaneios, obsessões, encontros, acasos” (p.75), imagens que representam o seu mundo, destaco uma que exemplifica o tom bem-disposto e irónico com que nos presenteou ao longo da sua “peregrinação”. Trata-se de uma belíssima “galeria de retratos, crónica de ocasiões falhadas”.
“ E isto, esta ideia de que a vida é também feita de tudo o que lhe escapou, do que a sensibilizou como a luz sensibiliza (sensibilizava) o papel fotográfico sem permanecer nele, incita-me a compor as seguintes saudações a algumas beldades com quem me cruzei, com quem apenas me cruzei, mas que contam mais na minha vida do que tantas pessoas cuja conversa me aborreceu (ou que a minha conversa aborreceu), de quem perdi a memória ao passo que me lembro destas, que foram para mim baudelairianas transeuntes que eu teria amado (mas elas não sabiam: (…).“ (p. 206)

Outro aspecto que apreciei é o constante diálogo que o autor mantém com o leitor. Estas interpelações directas criam uma simbiose muito interessante:“Podem não acreditar (azar o vosso), mas este livro está a escrever-se diante dos vossos olhos, à medida que o leem (…)” (p.34) e provocam-nos a ilusão de estarmos também em viagem. “ No meu barco de papel, em bússola, à aventura, divaguei por tempos e lugares (…).Vimos países, pessoas, ouvimos línguas a rumorejar, percorremos milhares e milhares de quilómetros (sem contar com aqueles que andei, dando voltas em frente da minha secretária… ). “ (p. 261).

Recomendo, mas acredito que este tipo de relato possa não ser do agrado de alguns leitores.
Nada como experimentar! Além do mais, podemos sempre viajar confortavelmente instalados num sofá ou deitados no areal de uma praia deste mundo!

24 julho, 2021

𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒔 𝑵𝒐𝒓𝒎𝒂𝒊𝒔, de Sally Rooney

 



Autor: Sally Rooney
Título: Pessoas Normais
N.º de páginas: 248
Editora: Relógio d'Água
Edição: Agosto 2018
Classificação: YA
N.º de Registo: (Emp)

OPINIÃO ⭐⭐⭐


Pessoas Normais narra a história de dois jovens, Marianne e Connel, colegas de liceu e mais tarde da mesma Universidade, em Dublin. A acção situa-se num curto espaço de tempo (4 anos) e foca-se muito, por vezes em demasia, na minha opinião, no relacionamento entre jovens, incidindo sobretudo na relação “anormal” (ou será que é normal?) entre Marianne e Connell.

No início da leitura, tive dúvidas sobre a relevância da história e questionei-me se valeria a pena lê-lo até ao fim. Como gosto de dar uma segunda oportunidade ao livro (ou ao autor), decidi ir até ao fim. Foquei-me sobretudo no não dito, ou dito de forma muito leve e acabei por entender a mensagem patente nos temas abordados, muito recorrentes nos nossos jovens: ser ou não ser aceite num grupo; a angústia do que os outros pensam de nós; os problemas familiares; o bullying; a amizade; o amor; a sexualidade; as relações abusivas; o álcool, a depressão; o suicídio.
Apesar dos temas complicados, a construção da narrativa torna-os mais suaves, menos complexos, na medida em que são abordados naturalmente pelos jovens. Construída essencialmente a partir de diálogos, torna-se assim, mais clara a mensagem que a autora pretendeu passar, isto é, a construção de uma identidade possa ela parecer normal ou anormal aos olhos dos outros e dos próprios leitores. Os protagonistas vão crescendo e aprendendo. Normalmente, vão se transformando e aceitando as relações, a vida.
Posso concluir que o livro apresenta assuntos muitíssimo actuais. As reflexões dos protagonistas, em determinados momentos, perturbam o leitor e a história que parecia banal e entediante, acaba por se tornar importante.


17 julho, 2021

𝑶 𝒎𝒆𝒖 𝒏𝒐𝒎𝒆 é 𝑳𝒖𝒄𝒚 𝑩𝒂𝒓𝒕𝒐𝒏, de Elizabeth Strout

 


Autor: Elizabeth Strout
Título: O meu nome é Lucy Barton
N.º de páginas: 173
Editora: Alfaguara
Edição: Setembro 2016
Classificação: autobiografia
N.º de Registo: (Emp)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


“Toda a vida me fascina” é a última frase deste pequeno e apaixonante livro. Esta frase, só por si, levar-nos-ia a pensar que a protagonista, Lucy Barton, teve uma vida fácil. Não é verdade, bem pelo contrário.
Este livro fascinante transporta-nos para o mundo das relações familiares. É numa cama de hospital, onde permanece várias semanas, que Lucy nos faz o balanço da sua vida. Saltitando entre o passado e o presente, vamos descobrindo a sua vida miserável enquanto criança e adolescente, a falta de amor dos pais, mas sobretudo da mãe, a sua saída de casa, o seu casamento, as suas duas filhas, a sua paixão pela escrita, …
Numa escrita muito sentida e subtil, a narrativa sugere, silencia, não escancara a violência, a solidão, o abandono, a falta de amor e de assunto entre mãe e filha, a conquista da cumplicidade.

Ninguém fica indiferente a esta história que coloca em foco as relações entre mães e filhas. A chegada inesperada da mãe de Lucy ao hospital vai reacender as feridas do passado, mas também vai servir de redenção. “Não tenho qualquer recordação de a minha mãe algum dia me ter beijado. Talvez me tenha beijado, contudo; posso estar enganada.” (p. 120)
A visível falta de amor, de atenção e de carinho entre mãe e filha torna estas duas mulheres melancólicas. Há uma latente urgência em compensar estas falhas, mas falta coragem para o dizer, as escassas conversas convergem para a banalidade, contudo, fica-nos a impressão de um perdão, de uma conquista, de uma aproximação.
“Talvez fosse a escuridão, apenas com a fresta de luz pálida que entrava pela porta e a constelação do magnífico Edifício Chrysler mesmo ao nosso lado aquilo que nos permitia falar de um modo como nunca antes havíamos falado. (…) Senti-me tão feliz. Oh, a felicidade de falar assim com a minha mãe!” (p. 36)

Lucy que viveu uma grande parte da sua vida numa família disfuncional, carente de tudo: de comida, de conforto, de higiene, … vai mais tarde refugiar-se nos livros e na escrita e vai escrever a “história de uma mãe que ama a sua filha. De modo imperfeito. Porque todos nós amamos de forma imperfeita. (p. 94)

Gostei de conhecer Lucy Barton e o seu “modo imperfeito” de amar a mãe e as suas duas filhas.
Recomendo!


16 julho, 2021

𝑳'𝑨𝒎𝒐𝒖𝒓 𝑨𝒑𝒓è𝒔, Marceline Loridan-Ivens

 

Autor: Marceline Loridan-Ivens
Título: L'Amour Après
N.º de páginas: 149
Editora: Grasset (Livre de Poche)
Edição: 2018
Classificação: autobiografia
N.º de Registo: (3304)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Adorei este livro de Marceline Loridan-Ivens. Escrito em colaboração com Judith Perrignon, nele evoca a sua deportação, aos 15 anos, para campos de concentração (1944) e narra a sua vida como sobrevivente. Foi-lhe muito difícil aceitar que era uma das que tinha ficado para contar a sua história.
Marceline é uma mulher de garra, forte, atenta ao seu tempo, lega-nos um testemunho intenso quer na escrita quer no cinema como realizadora, primeiro ao lado do seu segundo marido, o realizador Joris Ivens, depois em nome pessoal (La petite Prairie aux Bouleaux, 2003).
Neste pequeno livro, a autora com oitenta e nove anos, através de cartas de amor, bilhetes, apontamentos, recordações que vai tirando de uma mala que manteve fechada durante 50 anos, conta-nos a sua vida, apresenta-nos os seus amigos, os seus amantes, fala-nos dos filmes que realizou e produziu, dos livros que leu, … mas o que é verdadeiramente marcante é a forma como nos descreve a sua lenta reconstrução, a difícil aceitação do seu corpo seco, murcho (“je suis asséchée”) e afectado pela violência e pela nudez vividas e presenciadas nos campos, mas também a descoberta do amor e do verdadeiro prazer.
Gosto do seu estilo frontal, sem pudor, livre, irónico. Só uma mulher de espírito aberto que integrou e marcou uma geração, em Paris, ousaria viver como ela o fez. Namorou muitos, muitos mesmo, (e nunca o escondeu), mas não foi feliz até um certo dia. Viveu sem medo, numa interrogação constante, sem se preocupar com a opinião dos outros. Para ela o amor, era não fazer o outro sofrer, era viver o dia-a-dia, aproveitar as ocasiões.
Quando uma amiga, também sobrevivente, lhe telefona e pergunta o que está a fazer? Marceline responde: trabalho sobre o amor (“je travaille sur l’amour”) (p. 144), o amor após [campos de concentração].
É um livro emocionante e perturbador. Que recomendo! Falta-me ler o anterior, Et tu n’es pas revenu, dedicado ao pai que não regressou.


10 julho, 2021

𝑶 𝑸𝒖𝒂𝒓𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑮𝒊𝒐𝒗𝒂𝒏𝒏𝒊, de James Baldwin



Autor: James Baldwin
Título: O Quarto de Giovanni
N.º de páginas: 190
Editora: Alfaguara
Edição: Abril 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3258)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este é o segundo livro que leio de James Baldwin e confirmo a boa opinião que tive da primeira leitura (Se esta rua falasse). A sua escrita agarra o leitor e as temáticas abordadas quer num quer no outro, deixam marcas e levam-no a refletir.
O enredo deste livro acontece em Paris, anos 50, e centra-se em David, um jovem nova-iorquino que fugiu do seu país, do domínio paterno e dos seus fantasmas em busca da sua identidade.
Narrado na primeira pessoa, intercalando passado e presente, o jovem David descreve a sua vida boémia, nos bares parisienses frequentados por homens ricos em busca de álcool, de jovens e de sexo, enquanto Hella, a sua namorada, viaja por Espanha. Num desses bares, conhece um jovem com quem vai partilhar o quarto, pequeno e “debaixo de água”.
"Na realidade, não fiquei lá muito tempo (conhecemo-nos na Primavera e eu sai no Verão), mas ainda assim sinto que passei lá uma eternidade. A vida naquele quarto parecia decorrer debaixo de água, como disse, e estou certo de ter atravessado um oceano de mudanças, lá.” (p.99)

Assim, a relação entre David e Giovanni, o sedutor barman italiano, é o ponto fulcral deste livro.
É uma relação intensa e perturbadora que vai pôr em evidência os preconceitos, o medo de assumir a sua sexualidade e por consequência a mentira, a vergonha e a negação do amor.



04 julho, 2021

𝑬𝒎𝒃𝒂𝒍𝒂𝒏𝒅𝒐 𝒂 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝑩𝒊𝒃𝒍𝒊𝒐𝒕𝒆𝒄𝒂 – 𝑼𝒎𝒂 𝑬𝒍𝒆𝒈𝒊𝒂 𝒆 𝒅𝒆𝒛 𝑫𝒊𝒗𝒂𝒈𝒂çõ𝒆𝒔, de Alberto Manguel

 



Autor: Alberto Manguel
Título: Embalando a minha Biblioteca
N.º de páginas: 143
Editora: Tinta da China
Edição: Fevereiro 2018
Classificação:Não ficção
N.º de Registo: (3258)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

É o terceiro livro que leio do autor sobre livros. Gosto de ler livros escritos por quem também gosta de livros e Alberto Manguel é um grande leitor e um apaixonado por livros. Na sua biblioteca organizada “segundo os seus próprios critérios e valores”, continha cerca de trinta e cinco mil livros. Foi, no entanto, obrigado a desfazê-la e a embalar todos os seus livros. Foi uma tarefa árdua que só concretizou com a ajuda de amigos e difícil, já que o autor considera que embalar uma biblioteca “é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final.” (p. 36) e olhar para o espaço vazio é sentir “o peso da ausência num grau quase insuportável.” (p.37)
Ao embalar a sua biblioteca, o autor vai reflectindo e divagando sobre variadíssimos temas sempre ligados às suas leituras, aos livros, às bibliotecas, aos seus autores de eleição como Borges, Cervantes, Carroll, Dante, Kafka, Shakespeare, …. “Se os livros são os nossos registos da experiência e as bibliotecas os nossos repositórios de memória, um dicionário é o nosso talismã contra o esquecimento:” (p. 111)


Para ele, as suas bibliotecas “são, todas elas, uma espécie de autobiografia com várias camadas (…) a minha memória interessa-se mais pelos livros do que por mim” (p. 20)
A biblioteca privada de Manguel é um espaço de divagação, é a sua vida “sei que a minha verdadeira história, toda ela, está lá, algures nas prateleiras, e tudo o que preciso é de tempo e de sorte para a encontrar. Nunca acontece. A minha história continua a escapar-me, porque nunca é uma história definitiva.
Em parte, é assim porque sou incapaz de pensar em linha recta. Divago.” (p.16)

Como o subtítulo indica, o livro apresenta uma elegia e dez divagações. Cada uma destas divagações termina com um texto em itálico, mais pessoal, onde o autor nos expõe algumas das suas vivências e experiências e, sobretudo, o processo de esvaziamento e empacotamento da sua biblioteca. A última divagação é sobre as bibliotecas nacionais, tema que me é muito caro, já que retiro ensinamentos que posso aplicar numa biblioteca escolar, local onde diariamente dialogo e divago com os livros. De entre muitas ideias retiradas, partilho esta com a qual concordo profundamente: “O único método que leva comprovadamente ao nascimento de um leitor, não foi, tanto quanto sei, ainda descoberto. A experiência diz-me que o que resulta, ocasionalmente, embora nem sempre, é o exemplo de um leitor apaixonado. Por vezes, a experiência de um amigo, um pai, um professor, um bibliotecário claramente comovido pela leitura de uma certa página, pode inspirar, se não imitação imediata, pelo menos curiosidade. Parece-me um bom ponto de partida.” (pp. 136, 137)

Este livro é o testemunho fantástico e sincero do homem que teve de “sepultar” a sua biblioteca, e que reconhece o seu comportamento obsessivo perante os livros.
É um autêntico manifesto de amor aos livros, às bibliotecas e à literatura. Recomendo a todos os apaixonados pelos livros, pela leitura.


02 julho, 2021

𝑪𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂 𝑴𝒊𝒎, de Valter Hugo Mãe

 



Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Contra mim
N.º de páginas: 281
Editora: Porto Editora
Edição: Outubro 2020
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (3252)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Contra mim
é um livro muito pessoal e intimista. Partindo de textos e apontamentos dispersos guardados durante anos e revisitando as suas memórias, o autor foca-se essencialmente na sua infância e parte da adolescência vividas em Angola, onde nasceu, e depois em Paços de Ferreira e Caxinas.

“Regressado com dois anos e meio de idade, eu esquecera quanto vira em Angola. Esquecera as pessoas, a cor das pessoas, esquecera as casas, os campos, o calor, os odores.
Durante um longo tempo, entusiasmado com ser criança, a minha consciência parecia fazer com que Paços de Ferreira fosse um lugar absoluto, um mundo absoluto, extenso e suficiente, incrível e até demasiado.” (p. 36)

De forma simples, directa, sincera e fascinante, o autor comove o leitor: primeiro, porque o remete para a sua própria infância/adolescência; segundo, porque vive as alegrias, as vitórias, as tristezas e as desilusões do protagonista e terceiro, porque acompanha o seu sonho, a sua criatividade, o seu interesse pelas palavras, pela poesia. Desde muito pequeno que juntava palavras num caderno para lhes dar o seu sentido e através delas crescer e criar o seu mundo.

“Sem saber ainda escrever, eu listava as minhas palavras no pensamento e pedia à minha mãe que me repetisse as que esquecia, não entendia ou queria ouvir como se as pudesse colher de novo, frutos da bela árvore que era a minha mãe. Frutos ou brinquedos. Meus melhores, fiéis e incorruptíveis brinquedos.” (p. 48)
e
“As palavras eram joias. Ouvir as minhas tias à conversa era apanhar dinheiro que lhes caía boca fora.” (p.49)

Valter, a criança imaginativa, o “miúdo carente, espantado, pacóvia e medricas” (p.83) relembra e partilha com o leitor a sua rotina em casa com a família, na escola, e com os (poucos) amigos; as suas descobertas de criança; a descoberta do seu corpo e da” rotunda pequenina entre as pernas das meninas”; os seus primeiros e tristes amores; o seu relacionamento com o “irmão horizontal” que morreu prematuramente; a sua crença particular em Deus.

“Eu acreditava em Deus porque estava grato e necessitava ter alguma figura a quem corresponder nesse sentimento arrebatado que vinha da oportunidade de existir. Que, por muitos anos, na minha timidez, se resumia a assistir. Talvez não existisse. Talvez apenas assistisse. Era, contudo, o bastante para uma gratidão sem reservas.” (p. 78)

É um livro lindo, com descrições ternurentas, aparentemente inocentes, com ideias claras, desconstruídas e muito interessantes.



19 junho, 2021

𝑨 𝑳𝒖𝒂 𝒆 𝒂𝒔 𝑭𝒐𝒈𝒖𝒆𝒊𝒓𝒂𝒔, de Cesare Pavese

Autor: Cesare Pavese
Título: A Lua e as Fogueiras
N.º de páginas:159
Editora: Colecção Mil Folhas
Edição: Outubro 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1390)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em A Lua e as Fogueiras, provavelmente um romance de carácter autobiográfico, Cesare Pavese confronta-nos com o mundo interior e exterior do protagonista.
Trata-se de um romance intimista, que retrata a vida solitária de um homem em busca de uma identidade que nunca encontrará mesmo quando regressa à sua terra natal e que, simultaneamente, relata a vida de uma comunidade rural.
“Não sabia que crescer queria dizer partir, envelhecer, ver morrer, encontrar Mora como estava agora. (p.72)

A narrativa foca-se no regresso do protagonista, de 40 anos, que volta à sua aldeia natal, às suas raízes, após uma longa ausência de 20 anos, nos Estados-Unidos, para onde partira em busca de uma melhor vida, mas sobretudo com o intuito de apagar o nome de “bastardo” que todos lhe atribuíam e de inverter o seu destino votado à pobreza.
Assim, temos uma narrativa sobre a passagem do tempo regida pelas estações do ano, a angústia existencial de um homem que vive só, mas também a descoberta e a revelação de factos que compõem a sua memória e o seu passado. Na descrição do vale revisitado, estão vivos os sabores, os odores, os sons, as cores, a crença na lua e nas fogueiras que povoaram a sua infância.
“Que significa este vale para uma família que venha do mar, que nada saiba da Lua e das fogueiras? É indispensável tê-lo sentido com os ossos do corpo, tê-lo nos ossos como o vinho e a polenta. Então é possível conhecê-lo sem ser preciso falar dele, e quando andou dentro de nós muitos anos sem o sabermos, desperta agora ao chocalho de uma carroça, ao sacudir do rabo de um boi, ao sabor de uma sopa, a uma voz que se escuta na praça, à noite." (p. 51)

Nesta narrativa está ainda patente a critica a uma sociedade fragmentada que vive sob o espectro da guerra, e estratificada socialmente, determinada pela riqueza e pelo poder. É nas conversas que mantém com Nuto, seu amigo de infância e que reencontra na terra, que a crítica é mais evidente:
“- Lembras-te das conversas que tínhamos com o teu pai na loja? Ele já nessa altura dizia que os ignorantes nunca abandonariam a sua condição, visto que a força está na mão de quem tem interesse em que as pessoas não compreendam, nas mãos do governo, dos exploradores, dos capitalistas,…Então reinavam os fascistas e era preciso calar estas coisas…” (p.129).

É um livro interessante que nos faz reflectir. Sabendo que o autor se suicidou poucos meses depois da saída deste livro, não podemos dissociar a vida do protagonista da narrativa e a própria vida do autor.



18 junho, 2021

Valter Hugo Mãe vence Grande Prémio de Romance e Novela da APE 2020


                                        Imagem: Antena Minho /antenaminho.pt


Valter Hugo Mãe é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/DGLAB), pela obra Contra mim. 

O júri fundamentou a sua escolha com estes argumentos: “…Contra mim, de Valter Hugo Mãe, merecedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2020 pela qualidade de construção narrativa, na cuidada arquitectura do texto, e pela expressividade poética da linguagem, na poderosa evocação de tempos e de lugares da infância. Esta escrita recria, sensível e ironicamente, o olhar comovido da criança, na descoberta do mundo e das palavras, e nesse gesto de resgate podemos ler a projecção de um autor a desenhar-se perante os seus leitores. ”




13 junho, 2021

𝑶 𝑱𝒂𝒑ã𝒐 é 𝒖𝒎 𝒍𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒆𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐, de Peter Carey



Autor: Peter Carey
Título: O Japão é um lugar estranho
N.º de páginas:174
Editora: Tinta da China
Edição: 1.ª Setembro 2010
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (2649)


OPINIÃO ⭐⭐⭐


O Japão é um lugar estranho é a história da viagem do autor com o filho, de 12 anos, a Tóquio, em busca do mundo dos autores de anime (filmes animados) e da manga (banda desenhada). Peter Carey deixa-se atrair pela nova cultura japonesa. É o filho, Charley, que completamente apaixonado por estes temas o motiva para empreenderem esta viagem. Mas não será uma viagem convencional, o filho só aceita ir se não forem visitar o “Verdadeiro Japão, não – disse Charley. – Tens de me prometer. Nada de templos. Nada de museus.”
 (p. 27.)

Como Carlos Vaz Marques referiu no prefácio, no início deste século XXI, há uma nova vaga de adolescentes ocidentais vidrados na cultura popular japonesa. “Há já quem se refira a um fenómeno de m.a.s.s. culture: manga, anime, sushi e sashimi. A viagem que este livro nos propõe é uma tentativa de descoberta da fonte desse fascínio.” (p.16)
Confesso que para uma leiga, como eu, desta vertente cultural japonesa, o livro tornou-se um pouco estranho, mas ao mesmo tempo interessante porque me permitiu conhecer um pouco mais deste país estranho. Já para os aficionados de manga e anime aceito que seja deveras cativante.
Outro aspecto importante e que mais me agradou foi perceber o choque cultural, o confronto de duas civilizações tão díspares. O estrangeiro que chega ao Japão com ideias pré-concebidas e arrogantes que causam mal-entendidos, rapidamente conclui que nada entende deste país, desta sociedade regida por regras próprias e rigorosas. “É melhor não saber nada do que saber apenas um pouco” (p. 76)

Neste confronto cultural, vamos viajando com o pai e filho e descobrindo a gastronomia, a forma de vestir, de cumprimentar, o desenvolvimento informático e as particularidades dos quartos dos hotéis (dimensão do quarto, da casa de banho, das sanitas) entre outros aspectos históricos como o trauma, ainda presente, causado pelos bombardeamentos e bem representado em vários anime; os samurais também eles personagens de manga.

Tratando-se de um livro de viagens, de caracter informativo, considero que é interessante pela abordagem cultural, pela visão ocidental ignorante e errada deste país estranho. Contudo, e apesar, deste povo evidenciar uma mentalidade forte e cumpridora, também não escapa à ocidentalização.
“Charley entregou o presente [à avó de Takashi] e a seguir fez uma vénia à senhora.
Ela retribuiu a vénia e subitamente, inesperadamente, inclinou-se para a frente e deu-lhe um beijo na cara. (…)
- Surpreendeu-me que ela te tivesse beijado. - disse eu – Não pensei que eles fizessem isso.
- Deve ser o Verdadeiro Japão. – disse ele [Charley]” (pp. 167e168)





11 junho, 2021

𝑨𝒍𝒎𝒐ç𝒐 𝒅𝒆 𝑫𝒐𝒎𝒊𝒏𝒈𝒐, de José Luís Peixoto

 


Autor: José Luís Peixoto
Título: Almoço de Domingo
N.º de páginas: 257
Editora: Quetzal
Edição: 1.ª Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3274)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Este romance biográfico revela-nos uma narrativa que decorre no futuro. Os três capítulos que o compõem marcam três dias importantes da vida de um alentejano de Campo Maior, império dos cafés Delta.

26, 27 e 28 de março. Os dois primeiros dias antecedem uma data muito importante, o dia do aniversário do Sr. Rui. São 90 anos. 90 anos de uma vida cheia de acontecimentos memoráveis. 90 anos de memórias e de recordações que de forma magistral e com muita sensibilidade nos vão sendo narradas.
Nestes três dias, e numa estrutura muito bem arquitectada, vamos descobrindo, no presente, a rotina pessoal e profissional do biografado, pela visão do narrador, e o passado que flui através da memória do mesmo protagonista. A acção que acontece no presente traz à memória uma acção idêntica, mas com anos de distância. E assim, numa intersecção de presente e passado, ao sabor da memória do Sr. Rui (ou será que é ao sabor da escrita do autor?) vamos conhecendo a sua família, as suas casas, os seus amigos, os seus empregados, os seus afectos, os seus sonhos, a sua resistência à pobreza, a sua luta no contrabando, a sua generosidade, o seu sucesso. Fica claro que para este homem a sua família desempenhou e continua a desempenhar um papel fulcral. Através da sua memória ele mantém essa ligação. Nos seus pensamentos convivem os pais, os irmãos, o tio, a sempre presente e doce Alice, a sua esposa, os filhos, as noras, os netos e bisnetos.

Este romance transpira humildade e generosidade quer do autor quer do biografado. É um hino ao Alentejo, à sensibilidade, à beleza e à resistência da gente alentejana. É uma homenagem ao homem, ao patriarca de uma família, ao patrão de toda uma povoação. É uma ode ao amor, ao amor sincero de toda uma família, a do passado e a do presente, que se reúne num almoço de domingo para celebrar os 90 anos do homem que tão bem soube conduzir a sua vida e a dos outros.

“Há silêncio bom, a companhia e a importância uns dos outros. Incentivado pelo domingo, começo a dizer alguma coisa, talvez alguma história da escola, não importa o assunto, desta vez não importa o assunto, conta muito mais que, neste instante, estamos juntos, tenho a atenção do meu pai, da minha mãe, das minhas irmãs e do meu irmão, Olham-me e escutam-me, estão fixos em cada palavra que digo. Estamos juntos. Sem parar de falar, satisfeito e criança, baixo o olhar sobre as minhas mãos de dez anos.
Quando o senhor Rui levantou o olhar das mãos de noventa anos, a pele engelhada e as veias nas costas das mãos, tinha todos à sua frente: os filhos, os netos, as noras, os bisnetos.” (p. 238)

“Com noventa anos o senhor Rui estava rodeado pela sua vida.” (p.249)


03 junho, 2021

𝑪ã𝒆𝒔 𝑴𝒂𝒖𝒔 𝒏ã𝒐 𝑫𝒂𝒏ç𝒂𝒎 , de Artur Pérez-Reverte

 


Autor: Arturo Pérez-Reverte
Título: Cães Maus Não Dançam
N.º de páginas: 157
Editora: Asa
Edição: 1.ª Fevereiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3270)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Cães Maus Não Dançam é uma parábola arrepiante, mas fabulosa! É pela perspectiva de um cão, Negro, que o autor nos leva a refletir sobre os valores da vida, sobre o politicamente correcto. Numa narrativa sublime, o autor cativa-nos e conta-nos uma história de sobrevivência, de amizade e de lealdade. Estes valores acabam por se sobrepor à extrema violência e, no final, salvam-se os bons e os maus são castigados.
À medida que acompanhamos a história de Negro, vamos também descobrindo o carácter do homem. O cão mata apenas por instinto de defesa, para sobreviver, mas quando tem um dono, é-lhe leal, segue-o até ao fim, ao contrário do homem que é capaz de o abandonar na beira de uma estrada porque já não lhe serve ou vai de férias…

“Há momentos na vida de um canídeo em que este arrisca tudo, como dizem os humanos, numa só cartada. E nessa cartada têm muito peso a nossa reputação e as nossas maneiras. As nossas atitudes. Entre os humanos há de tudo: seres dignos que nos dão educação, amor e felicidade, e seres miseráveis cujas virtudes não estão à altura das de um bom rafeiro: gente vil que nos dá cabo da vida e nos leva à tristeza, ao abandono, à solidão, ao horror e à loucura. Entre estes últimos, os maus, há também tipos muito diversos, do animal estúpido cuja bestialidade grosseira supera a nossa, até ao que tem dois dedos de testa e consegue raciocinar com inteligência.” (p. 128)

Adorei conhecer Negro, o “cão rafeiro, cruzamento de mastim espanhol e cão-de-fila brasileiro (…) olhos de velho, alma cheia de cicatrizes e olhar resignado, feito de séculos de sangue e fatalidade.” (p. 11), adestrado para assassino pelo homem, “corajoso e impiedoso” e sobretudo leal para com os seus amigos.

31 maio, 2021

𝒎𝒂𝒏𝒉ã 𝒆 𝒏𝒐𝒊𝒕𝒆, de Jon Fosse



Autor: Jon Fosse
Título: manhã e noite
N.º de páginas: 111
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: 1.ª Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3268)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


O título “manhã e noite” exprime metaforicamente o acto de nascer e de morrer. As duas partes abordam, assim, o nascimento e a morte de Johannes, protagonista deste romance.
Na primeira parte, o autor coloca, Olai, o pai de Johannes num monólogo reflexivo a ansiar pelo nascimento do filho, sem contudo, perder consciência de que quem nasce, ao nada voltará. Na segunda, a longa “reflexão encantatória” é feita pelo próprio Johannes.
“e agora ele virá, enquanto Marta, a mãe grita de dor, (…) e mais tarde, quanto tudo terminar , quando a hora dele chegar, desvanecer-se-á e tornará a ser nada e regressará ao lugar de onde veio, do nada para o nada, é esse o trajecto da vida, “ (p.14)

Jon Fosse de uma forma intensa, simples e despojada apresenta-nos uma belíssima reflexão sobre a efemeridade da vida. Neste texto, o nascimento está associado à dor, à angústia, à ansiedade da espera, enquanto a morte, pelo contrário, é leve e serena, sem medo e sem sofrimento.
Gostei muito da maneira como o protagonista foi conduzido por um amigo, Peter, também ele já morto, ao barco da travessia, indicando-lhe o bom caminho e levando-o para junto das pessoas que amou em vida. É uma clara alegoria a Caronte, o barqueiro que conduzia as almas dos recém-mortos à margem do Bem ou do Mal.
“E porque eu era o teu melhor amigo, cabe-me a mim ajudar-te a atravessar.” (p-107)

Neste pequeno livro, o autor pensa e questiona-se sobre a vida, sobre a existência de Deus. Segundo as suas reflexões, por vezes provocadoras, a vida e a morte, a manhã e a noite, devem ser encaradas com simplicidade, e dignidade. Aceitar o que Deus “porque ele existe” (p.15) rege para a vida de cada um, mas aceitar, de igual forma, o que Satanás também vai providenciando.

Na minha opinião, estamos perante uma reflexão filosófica escrita de forma simples e poética. Gostei muito, principalmente, da segunda parte.


29 maio, 2021

𝑴𝒂𝒓𝒊𝒂 𝑴𝒐𝒊𝒔é𝒔, de Camilo Castelo Branco

 


Autor: Camilo Castelo Branco
Título: Maria Moisés
N.º de páginas: 110
Editora: Porto Editora
Edição: 1.ª Maio 2014
Classificação: Novela
N.º de Registo: (Empréstimo BE)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Maria Moisés integra a obra Novelas do Minho. É a sexta das oito novelas que foram publicadas entre 1875 e 1877. Como o título da obra indica, trata-se de um retrato do Minho. Porém, e apesar da acção se situar naquela região específica, CCB retrata de forma satírica a realidade de todo um país marcado pela crise política provocada pela Revolução francesa e pelas invasões napoleónicas, mas também pelas lutas liberais.

Esta novela, dividida em duas partes, de pendor romântico apresenta já alguns traços realistas. A primeira parte narra a história de Josefa Lage que vive um amor proibido porque contrariado pelo pai do jovem António e que acaba num final trágico (tipicamente camiliano).

“ – Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade – pode V.ª S.ª dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispus. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca.”
(…) Ao outro dia, um mandado da regência ao intendente-geral da Policia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro" (pp. 36 e 37)

A segunda parte, revela-nos Maria Moisés, a menina enjeitada, salva do rio e criada pelos fidalgos da quinta de Santa Eulália. Como reconhecimento pela vida que teve decide, muito jovem, dedicar-se “aos meninos enjeitados”, acolhendo-os em sua casa.

CCB apresenta-nos, mais uma vez uma história sentimental com uma técnica narrativa muito bem estruturada, sobretudo na primeira parte: o leitor, no início da narrativa, é confrontado com uma morte, e só depois, ao longo da leitura, e através da fala das personagens, vai conhecendo a história de Josefa e a causa da sua morte.
Em suma, temos duas histórias, uma passional, de amor proibido e outra de solidariedade, de reencontro, ocorridas numa região aprazível, mas com gente agreste e conservadora.



𝑳á, 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒄𝒉𝒐𝒓𝒂, de Delia Owens

 


Autor: Delia Owens
Título: Lá, Onde o Vento Chora
N.º de páginas: 390
Editora: Porto Editora
Edição especial: Julho 2019
Classificação: Romance; YA
N.º de Registo: (Empréstimo BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Esta é a história de Kya, a miúda do pantanal. Um miúda que cresce sozinha depois de ter sido abandonada por todos os elementos da sua família. Kya, aos seis anos de idade, vai ter de aprender a sobreviver.

Apesar das dificuldades sentidas inicialmente, da dor provocada pelo abandono da família, principalmente, o da mãe, pela rejeição e intolerância a que é votada pelos habitantes da povoação, pela solidão de anos e anos, poder-se-ia pensar que a narrativa iria resvalar para a tristeza e o sofrimento, pelo contrário, é um hino à liberdade, ao amor e à beleza da natureza. Há descrições belíssimas da paisagem e de algumas espécies típicas do pantanal.

“E finalmente, num momento inesperado, a dor que sentia no coração desapareceu como água na areia. Continuava presente, mas a grande profundidade. Kya poisou a mão sobre a terra viva e morne, e o pantanal passou a ser a sua mãe.” (p. 43)

Trata-se de uma narrativa de formação onde a aprendizagem da vida, a descoberta de si e do corpo, estão fortemente ligadas à natureza. Kya rege a sua vida pelos ciclos do pantanal, descobre o seu corpo e os comportamentos humanos através da observação atenta dos animais. Kya selvagem e solitária faz do pantanal a sua casa e dos animais os seus amigos.
“Grande parte do que sabia aprendera-o com a vida selvagem. A natureza ensinara-a, nutrira-a e protegera-a, quando mais ninguém o fizera.” (p.385)

Extremamente inteligente e sensível rapidamente aprende a defender-se de tudo e de todos, a lutar contra o preconceito e a injustiça, mas também a descobrir o amor e a desilusão. Profundamente conhecedora e defensora da vida selvagem, a miúda do pantanal não entende o comportamento do ser humano e rejeita conviver e integrar-se na sociedade. “A natureza parecia ser a única pedra firme no caminho.” (p.225)

𝑳á, 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒄𝒉𝒐𝒓𝒂 é, simultaneamente, uma história deliciosa e pungente. Ninguém fica indiferente à vida de Kya e à sua relação com a natureza.


24 maio, 2021

Carlos Fiolhais escreve sobre o último livro de Afonso Cruz





No seu mais recente título, uma coletânea de pequenos textos, histórias e divagações à volta de livros, diz-nos que estes tanto podem matar como salvar-nos.



Tenho o vício dos livros. Não resisto nunca a entrar numa livraria ou alfarrabista. Leio pelo menos um livro por semana para fazer as recensões para este jornal e, por vezes, são mesmo dois ou três. Já me aconteceu regressar de uma livraria todo contente com um livro novo na mão, para verificar na minha biblioteca que afinal já tinha esse título, não passando de uma nova edição: não fico desconsolado, pois, se o tenho em duplicado, posso sempre oferecê-lo. E, de facto, duas edições diferentes são dois livros diferentes.

Se houvesse uma comunidade de “bibliófilos anónimos” não hesitaria em entrar, procurando apoio para “alcançar e manter a sobriedade através da abstinência total” de compra de livros. Encontraria lá gente muito interessante, como, por exemplo, Afonso Cruz, que acaba de publicar O Vício dos Livros, com a chancela da Companhia das Letras (do grupo Penguin Random House). É uma bela edição de capas duras, com ilustrações do próprio autor, que foi lançada no Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, 23 de Abril.

Tive a oportunidade de entrevistar Afonso Cruz em 23 de Novembro de 2018, no 10.º aniversário do Rómulo, Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, o centro que fundei à volta de uma biblioteca que homenageia Rómulo de Carvalho (nome real do poeta António Gedeão). Por essa biblioteca têm passado escritores como João Lobo Antunes, José Tolentino de Mendonça e Onésimo Teotónio Almeida. Tenho oferecido muitos livros a essa biblioteca, juntando-os a livros oferecidos, entre outros, por Guilherme Valente, o editor da Gradiva, e pela família de António Manuel Baptista, o grande divulgador da ciência. Também lá estão alguns livros de Afonso Cruz, que ele assinou na altura.

Afonso Cruz dispensa apresentações para além daquela que ele, com concisão, faz de si próprio nas badanas dos seus livros: “Escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Safed Lam. Em Julho de 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido, e haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, as Belas-Artes de Lisboa, o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de meia centena de países. Assina, desde Fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias sob o título “Paralaxe”. Recebeu vários prémios e distinções nas diversas áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.”

Fui, depois da entrevista no Rómulo, jantar com ele, tendo confirmado que gosta de cerveja, bebida que, segundo me explicou, era na Terra Santa mais comum do que o vinho no tempo de Jesus Cristo. Daí o curioso título de um dos seus romances, Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012). Os seus títulos primam, aliás, pela originalidade. O primeiro, com um título também de ressonâncias religiosas, A Carne de Deus (Bertrand, 2008), é uma história de aventuras tendo a maçonaria como pano de fundo. Entre esses dois livros saíram A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010; reedição: Companhia das Letras, 2018) e O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho, 2011). Seguiram-se, com uma regularidade impressionante, outros romances: O Livro do Ano (Alfaguara, 2013), O Cultivo de Flores de Plástico (idem, 2013), Para Onde Vão os Guarda-Chuvas (Companhia das Letras, 2013), Flores (idem, 2015), Nem Todas As Baleias Voam (idem, 2016), Jalan Jalan: Uma leitura do mundo (idem, 2017; “jalan” significa, em indonésio, “passear”), O Princípio de Karenina (idem, 2018), e Paz Traz Paz (Companhia das Letras, 2019). O estilo literário é, como os títulos, bastante original. Alguns destes livros foram premiados: por exemplo, Jalan Jalan ganhou em 2017 o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga da Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Braga.

Gosto particularmente da colecção de sete livros de Afonso Cruz, intitulada Enciclopédia da Estória Universal, quase todos da Alfaguara, saídos entre 2009 e 2018. São conjuntos de histórias apócrifas e aforismos de autores fictícios. De início estranhei, mas depois entranhei.

Afonso Cruz escreveu também vários livros infanto-juvenis, sendo o primeiro Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho, 2010) e o mais recente Como Cozinhar uma Criança (Alfaguara, 2019). Mais uma vez títulos extraordinários. Um outro livro recente dele é o ensaio O Macaco Bêbedo Foi à Ópera (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019), uma breve história cultural do álcool, com histórias sobre cerveja e vinho.

O Vício dos Livros é uma colectânea de pequenos textos, histórias ou divagações à volta de livros, que, na sua maior parte, viram a luz do dia no Jornal de Letras. O primeiro, “A primeira vez que conheci um esquifobético (A neve desaparece mas o original não desoriginaliza)”, conta os rabiscos que um brasileiro maluco fez intempestivamente no livro A Brincadeira de Milan Kundera que Cruz estava a ler, uma algaravia que o “esquifobético” - um termo não dicionarizado - traduziu para dar a frase do parêntesis. O último, “A voz dos livros”, conta a oferta que um avô lhe fez do livro Eles Vieram de Madrugada, de Manuela Câncio Reis, a mulher do escritor Soeiro Pereira Gomes, que foi preso político durante longos anos. A dedicatória do avô, também preso político, dizia: “Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que passei”. Escreve Cruz: “Este livro deixou então de ser de Manuela Câncio Reis para passar a ser o livro que o meu avô me escreveu. E a voz que ouvi enquanto lia o livro era a sua”.

Revelo um pouco deste estimulante livro sobre livros. Aprendi que os livros podem matar. O texto “Porém, a poesia pode matar amigos” conta a história de dois amigos que discutiram qual era o género literário mais significativo, a poesia ou a prosa. O amante de poesia acabou por matar o antagonista à facada. No texto “O poeta que foi assassinado pelos seus próprios livros”, Afonso Cruz, depois de descrever casos reais em que a queda de uma biblioteca matou o seu proprietário, escreve: “Qualquer bom leitor, quanto maior for a sua biblioteca, mais sente o peso esmagador do que leu e, principalmente, do que não leu […] e nunca poderá ler, ainda que, felizmente, o faça de forma menos literal do que os exemplos antes referidos.” A literatura, se por vezes mata, noutras vezes pode salvar. Em “A morte, perante os livros, fica sem poder” o autor cita um estudo da Universidade de Yale que expõe os benefícios da leitura: “Ler 30 minutos por dia fará viver, em média, mais dois anos. Se não for pelo prazer de ler, talvez devamos ler pela nossa saúde.”

Um dos textos que mais gostei está relacionado com a física. Intitulado “Principio de Anti-Fermat”, parte da experiência do autor, adolescente, a ler num autocarro a caminho da escola: “O princípio de Fermat diz-nos que a luz não percorre a distância mais curta, mas sim o tempo menor entre dois pontos. Um leitor, muitas vezes, tenta encontrar o caminho mais lento entre dois pontos. Era isso o que eu fazia. Ia para a escola pelo caminho com mais palavras.”

Sobre a liberdade que a leitura confere, Afonso Cruz conta a história de uma mulher do Kuwait que abandonou as vestes e os hábitos tradicionais: “Comecei a ler e libertei-me”. Há outras citações. Por exemplo, de uma inscrição egípcia: “Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: Casa para terapia da alma”. E do escritor francês Jules Renard: “Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz.” São citados outros escritores como Plutarco, Lewis Carroll, Edith Wharton, Stefan Zweig, Franz Kafka, Aldous Huxley, Rainer Maria Rilke, Elias Canetti, George Steiner e Rosa Montero.

O texto “O que se esconde debaixo de um poema” fez-me lembrar Jorge Luís Borges: “Um poeta, quando escreve um poema e levanta a folha onde o escreveu, descobre uma infindável pilha de poemas onde foi escrita toda a poesia que precedeu o seu poema, e ao pousar essa mesma folha verá que já contém o peso de incontáveis poemas escritos sobre aquele que acabou de escrever.” De facto, os livros têm sempre um passado e um futuro.

Vou colocar O Vício dos Livros na minha biblioteca perto de outros livros sobre livros. Acho que fica bem perto do livrinho de Montaigne Dos Livros (Teorema, 1999), que aliás Afonso Cruz cita, e onde o escritor francês comenta as suas leituras: “Não me apego aos livros novos porque os antigos me parecem mais ricos e mais sólidos”. E do de Proust O Prazer da Leitura (idem, 1997), onde se lê: “O que difere essencialmente entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menor sensatez, mas a maneira como se comunica com ele; a leitura, ao arrepio da conversa, consistindo para cada um de nós em receber comunicação de outro pensamento, mas permanecendo a sós.”

Na biblioteca do Rómulo, em Coimbra, os livros de Afonso Cruz estão na companhia dos de Carl Sagan, que, em Cosmos (Gradiva, 2020), escreveu: “Os livros permitem-nos viajar através do tempo, de beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarmos e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana.” O mais recente livro de Afonso Cruz entrará um dia no Rómulo. Tenho esperança de que ajude a fomentar o vício dos livros.


CARLOS FIOLHAIS 



19 maio, 2021

𝑨𝒓𝒔è𝒏𝒆 𝑳𝒖𝒑𝒊𝒏, 𝑳𝒂𝒅𝒓ã𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒔𝒂𝒄𝒂, de Maurice Leblanc



Autor: Maurice Leblanc
Título: Arsène Lupin, Ladrão de Casaca
N.º de páginas: 166
Editora: Leya
Edição especial: Fevereiro 2019
Classificação: Policial
N.º de Registo: (3282)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Conheci o Arsène Lupin, nos anos 70, através da televisão francesa. Era uma fã incondicional e agora com a nova edição dos seus livros, decidi reencontrá-lo.
Arsène Lupin, personagem criado por Maurice Leblanc, apareceu ao público, pela primeira vez, publicado na revista “Je Sais Tout”, corria o ano de 1905. Como teve um sucesso retumbante, o autor decidiu dar continuidade aos contos. Consta também, que este herói foi criado par dar resposta ao famoso detective inglês, Sherlock Holmes. Efectivamente, o último conto deste primeiro livro intitula-se “Sherlock Holmes chega demasiado tarde”. É um conto maravilhoso e, neste primeiro confronto entre o ladrão e o detective mais inteligentes da esfera ficcional, é, inevitavelmente, Arsène Lupin que sai vencedor, porém fica a promessa de novos encontros e quem sabe, talvez com desfechos diferentes.

“ E acredito que Arsène Lupin e Sherlock Holmes se encontrarão novamente algum dia. Sim, o mundo é muito pequeno. Iremos encontrar-nos, temos de encontrar-nos, e depois…” (p. 166).

O protagonista é um autêntico ladrão de casaca, muito cavalheiro e charmoso (le gentleman cambrioleur) que rouba para humilhar os ricos, a burguesia francesa.

Personagem muito carismática e sarcástica, age com regras bem definidas: não mata, não usa violência, anuncia-se, diverte-se e deixa sempre um cartão de visitas. Todos os seus actos são minuciosamente arquitectados. É mesmo encantador!


16 maio, 2021

𝑽𝒐𝒗ô 𝑻𝒔𝒐𝒏𝒈𝒐𝒏𝒉𝒂𝒏𝒂, de Augusto Carlos

 

Autor: Augusto Carlos
Título: Vovô Tsongonhana
N.º de páginas: 106
Editora: Nova vaga
Edição: 1.ª- 2005
Classificação: Conto
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐



Vovô Tsongonhana é o segundo livro de um conjunto de quatro volumes. O autor pretende mostrar, através da escrita, o caminho percorrido em busca da sua paz interior.
Neste volume, é narrada a história de um menino, Dudinho, que vive nas ruas de Maputo e é adoptado pelo “Vovô” com quem vai aprender a viver em liberdade e a respeitar a Natureza.
Numa escrita simples e fluida, o autor passa uma filosofia de vida ancorada no amor, no respeito pelo outro e pela Natureza.
Os ensinamentos que o vovô Moisés transmite a Dudinha são baseados no exemplo, no questionamento e na compreensão do mundo que o rodeia. Ensina-o a sobreviver, a buscar a “energia da Natureza” na colheita de frutos, na caça e na pesca. Ensina-o respeitar e a amar o próximo.
É um livro interessante que recomendo sobretudo aos mais jovens.


𝑶𝒔 𝑽𝒊𝒗𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de José Eduardo Agualusa

 



Autor: José Eduardo Agualusa
Título: Os Vivos e os Outros
N.º de páginas: 252
Editora: Quetzal
Edição: 1.ª- Abril 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3238)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em Os Vivos e os Outros, explora-se a literatura e o seu papel na vida dos escritores e dos leitores. Na Ilha de Moçambique, lugar paradisíaco, decorre, durante sete dias, um festival literário que reúne escritores africanos.

Nos sete capítulos, correspondentes aos sete dias do encontro, são narrados os vários acontecimentos relacionados com o festival, mas também com o isolamento provocado pela falta de comunicação (telefone e internet) consequência de uma violenta tempestade no continente. No final do primeiro dia/capítulo, o narrador informa que algo vai acontecer:
“É assim que tudo começa: a noite rasgando-se num enorme clarão, e a ilha separando-se do mundo. Um tempo terminando, um outro começando”. (p.31)

Assim, temos uma narrativa sobre pessoas confinadas num determinado tempo, num lugar maravilhoso onde vão acontecer coisas fabulosas relacionadas com as obras de alguns escritores e as suas personagens. O enredo vai desenvolver-se numa fusão da realidade com a ficção e com o maravilhoso, traço recorrente em vários livros do autor. “Somos nós quem constrói os mundos! – grita Moira – Somos nós! Os mundos germinam dentro da nossa cabeça, e crescem até não caberem mais, e então soltam-se e ganham raízes. A realidade é isso, é o que acontece à ficção quando acreditamos nela!” (p. 180)
É neste aspecto que se destaca a escrita de Agualusa, a sua mestria na fusão de um mundo imaginário com o real. Ao longo da narrativa construída à volta das percepções dos vários escritores e das conversas sobre literatura, escrita, história e cultura da ilha e sobre a identidade de um continente, surgem dúvidas, angústias, mas também reencontros, sonhos e momentos de criatividade.
Fica clara a crítica à sociedade, ao mundo literário. Há uma necessidade urgente de mudança, um desejo de uma sociedade melhor, do nascimento de um novo mundo.
Ao ler este livro não podemos deixar de assinalar a coincidência da ficção escrita por Agualusa e a realidade vivida no mundo actual. O próprio livro, antes de ser publicado, ficou confinado à espera da reabertura das livrarias. Surge como uma escrita visionária que representa o medo que se apoderou das pessoas, mas também a oportunidade de desfrutar das coisas simples.
“ Uli pede silêncio. Fala para todos, como se se dirigisse a cada um, com a mesma voz macia que usa , reza a lenda, para hipnotizar elefantes, explicando que aquela é uma situação extraordinária e que depressa se resolverá (...), aproveitem para ler e para escrever, ou apenas para conversar uns com os outros, como eu mesmo tenho feito, cercado de escritores que admiro há tantos anos e de amigos que vejo menos vezes do que gostaria. Acorrentados aos deveres do dia a dia, estamos sempre a queixar-nos de que nos falta tempo para as coisas simples da vida. Pois bem, agora temos tempo.” (p. 177)

Será que, tal como no livro, vamos sair deste confinamento com a ideia de que teremos um novo mundo, um mundo melhor? Ou não passa de uma utopia?