09 outubro, 2026

Onda Literária | 2, 3, 4 e 5 de Outubro 2026

 


       








                                  








A 4.ª Edição da Onda Literária promovida pelo Centro de Artes  e Biblioteca Municipal de Sines ofereceu-nos um excelente programa, superando largamente a edição anterior. Foram quatro dias intensos de iniciativas e de partilha de livros, leituras, poesia, conversas, passeios literários, fotografias, sorrisos, provas de vinho e abraços.
Descobri novos autores, confirmei valores certos da nossa literatura portuguesa e também angolana.
Este ano, tive o privilégio de moderar o encontro com João Pinto Coelho, um escritor que muito aprecio. Cada um dos  seus cinco livros merece ser lido. 

Fiquei muito mais rica com as aprendizagens adquiridas e feliz com os momentos vividos. 

O público compareceu, mas constatei, mais uma vez, que um excelente Festival Literário não enche recintos. 
Até pró ano!

08 outubro, 2026

Anne Carson Vence Prémio Nobel da Literatura 2026

 


Anne Carson, especialista em Literatura Clássica e Comparada, é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2026. A Academia Sueca destaca a “obra ousada e criativa que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.

A Academia acrescenta ainda que “ao longo de toda a sua carreira, Anne Carson conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades. Quase toda a sua produção literária se tem centrado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados. A própria autora identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra”.

Em Portugal estão publicadas algumas das suas obras:

Águalisa; Autobiografia do Vermelho; Eros, amargo e doce: um ensaio; Homens nas Horas Vagas; A Beleza do Marido e Vidro, Ironia e Deus.

A escritora de 76 anos é a segunda autora canadiana a ser laureada após Alice Munro, em 2013. Foi a primeira mulher a ganhar o TS Eliot Prize.


29 setembro, 2026

𝑼𝒎𝒂 𝒍𝒐𝒏𝒈𝒂 𝒗𝒊𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒄𝒐𝒎 𝑱𝒐𝒔é 𝑺𝒂𝒓𝒂𝒎𝒂𝒈𝒐, de João Céu e Silva


Autor: João Céu e Silva
Título: Uma longa viagem com José Saramago
N.º de páginas: 416
Editora: Porto Editora
Edição: Março 2009
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (2529)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


26 setembro, 2026

Sunset de Leitura

 








Duas horas perfeitas.
A primeira de leitura silenciosa; a segunda de convívio.
A junção de livros, vinho, música, conversa, amigos funciona como terapia, como evasão.
Esta edição do Sunset de leitura, dinamizado pela Biblioteca Municipal Manuel José ‘do Tojal’ soube a pouco. Haverá, certamente, mais encontros. 




24 setembro, 2026

Literatura Impura






É na Literatura Impura, aquela que sangra, corrói e nos deixa a meditar que o prazer de ler se torna aquela Felicidade Clandestina - um vício sublime que nos despe a alma a cada página, primeiro adiada, depois devorada.

(Clin d’œil a Clarice Lispector) 

Nota: Participação no passatempo/oferta da t'shirt  promovido por @literatura_impura. 

23 setembro, 2026

Santo António - O Casamenteiro de Lisboa, de Ruben Alves

 


119 min. |M/12 |  Comédia | 2026 |  POR
Realização: Ruben Alves
Elenco: Rita Blanco, Joaquim Monchique, Isabel Abreu, Maria Rueff,Maria João Bastos, Rui Mendes, Lídia Franco, João Catarré, Albano Jerónimo, Joaquim de Almeida, Ana Bola, Miguel Amorim, Pedro Nercessian, Paco León, Inês Aires Pereira,


Com um elenco de luxo, a nova comédia de Ruben Alves centra-se nos Casamentos de Santo António, uma tradição profundamente lisboeta. Rita Blanco e Joaquim Monchique interpretam Carmo e Valentim, dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa responsáveis pela organização do evento. Perante a pressão de uma multinacional francesa interessada em assumir a sua gestão, os dois resistem à ideia de entregar a outros aquilo que sentem pertencer à cidade. Para o conseguirem, terão de se superar e encontrar uma forma de modernizar a tradição sem lhe retirar a identidade.

Por detrás da leveza e do humor, porém, o filme deixa uma crítica implícita: a perda gradual da identidade de uma cidade. As tradições modernizam-se, os pequenos cafés e as lojas antigas desaparecem, deixamos de conhecer os vizinhos e a cidade transforma-se para agradar a quem chega, esquecendo por vezes quem nela vive.

Mas há também um olhar cúmplice sobre os que resistem. Os que continuam a abrir a porta do pequeno café, a conhecer os vizinhos pelo nome, a guardar os rituais e as memórias de uma cidade que ainda reconhecem como sua. 




22 setembro, 2026

Jorge Palma (1950 - 21.09.2026)

 

    


A Gente Vai Continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

_______


Frágil

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil

Faz-me um sinal qualquer
Se me vires falar de mais
Eu às vezes embarco
Em conversas banais
Frágil
Eu sinto-me frágil

Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil

Está a saber-me mal
Este whisky de malte
Adorava estar in
Mas estou-me a sentir out
Frágil
Eu sinto-me frágil

Acompanha-me a casa
Já não aguento mais
Deposita na cama
Os meus restos mortais
Frágil
Eu sinto-me frágil

Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil

_________


Deixa-me Rir

Deixa-me rir
Essa história não e tua
Falas da festa, do sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não e teu o que queres vender

Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso

Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a mascara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

_______

Na Terra dos Sonhos 

Andava eu sem ter onde cair vivo
Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor Doutor
Ai de mim não era nada daquilo que eu queria
Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ia de mal a pior

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Ai! Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão voltou, não me largou a mão um minuto sequer

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos,escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Se queres ver o mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar p´ra fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar
E se ás duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance e tens de o encontrar

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos,escuta bem o coração se é que queres ir para lá morar

20 setembro, 2026

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB)





O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB) foi instituído, em 1982, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e destina-se a distinguir anualmente uma obra de ficção (romance ou novela) de um autor português publicada no ano anterior.

O Prémio tem o valor de 15.000 euros e conta actualmente com o patrocínio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Câmara Municipal de Grândola, Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Camões.


Lista cronológica completa de todos os vencedores

.2025 - Patrícia Portela, Manual para Andar Espantada por Existir
.2024 - Teolinda Gersão, Autobiografia Não Escrita de Martha Freud
.2023 - Djaimilia Pereira de Almeida,  Toda a Ferida é uma Beleza
.2022 - Lídia Jorge,  Misericórdia
.2021 - Julieta Monginho, Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio
.2020 - Valter Hugo Mãe, Contra Mim
.2019 - Mário Cláudio, Tríptico da Salvação
.2018 - Hélia Correia, Um Bailarino na Batalha
.2017 - H. G. Cancela, As Pessoas do Drama
.2016 - Ana Margarida de Carvalho, Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato
.2015 - Paulo Varela Gomes, Era Uma Vez em Goa
.2014 - Mário Cláudio, Retrato de Rapaz
.2013 - Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar
.2012 - Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda
.2011 - Ana Teresa Pereira, O Lago
.2010 - Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
.2009 - Rui Cardoso Martins, Deixem Passar o Homem Invisível
.2008 - Julieta Monginho, A Terceira Mãe
.2007 - Filomena Marona Beja, A Sopa de Jericó
.2006 - Maria Velho da Costa, Myra
.2005 - Francisco José Viegas, Longe de Manaus
.2004 - Vasco Graça Moura, Por Detrás dos Magnólios
.2003 - Mafalda Ivo Cruz, O Vermelho do Azul
.2002 - Lídia Jorge, O Vento Assobiando nas Gruas
.2001 - Abdulai Sila, A Última Tragédia
.2000 - Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga
.1999 - António Lobo Antunes, Exortação aos Crocodilos
.1998 - Raduan Nassar, Um Copo de Cólera
.1997 - José Saramago, Todos os Nomes
.1996 - Augusto Abelaira, Outrora Agora
.1995 - Teolinda Gersão A Casa da Cabeça de Cavalo
.1994 - Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde
.1993 - Vergílio Ferreira, Na Tua Face
.1992 - Helena Marques, O Último Cais
.1991 - José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo
.1990 - Maria Gabriela Llansol, Um Beijo Dado Mais Tarde
.1989 - Paulo Castilho, Fora de Horas
.1988 - João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas
.1987 - Vergílio Ferreira, Até ao Fim
.1986 - David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz
.1985 - António Lobo Antunes, Auto dos Danados
.1984 - Mário Cláudio, Amadeo
.1983 - Agustina Bessa-Luís, Os Meninos de Ouro
.1982 - José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães



19 setembro, 2026

Patrícia Portela vence Grande Prémio da APE 2025

 


Na 44.ª edição do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB) foi anunciada como vencedora a Autora Patrícia Portela, com a obra Manual para Andar Espantada por Existir, editada em 2025, pela Editorial Caminho.

O júri, coordenado por José Manuel de Vasconcelos e constituído por Ana Paula Arnaut, Cândido Oliveira Martins, Helena Carvalhão Buescu, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Teles de Menezes, considerou a obra "uma homenagem a Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira e um notável exercício de imaginação e escrita."



16 setembro, 2026

𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂, de Ana Paula Tavares



Autora: Ana Paula Tavares
Título: O Sangue da Buganvília
N.º de páginas: 247
Editora: Caminho
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3812)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Sangue da Buganvília, de Ana Paula Tavares, é um livro que exige vagar. Cada crónica nasce da terra e devolve ao leitor a memória de um país marcado por perdas profundas. A escrita da autora angolana é depurada, sensorial e feita de silêncios que revelam muito mais do que qualquer discurso directo. Aqui, a crítica social e histórica surge nos detalhes, nos objectos e nas vozes que atravessam o quotidiano.

A buganvília, bela metáfora, é o fio condutor deste livro. Esta árvore que cresce junto às casas e resiste ao calor e ao tempo, funciona como uma memória viva; guarda histórias, revela palavras e sonhos, protege rituais ancestrais e acompanha a vida das mulheres que sustentam o mundo através de um trabalho silencioso. Em cada crónica, há como um ramo que se estende para o passado e outro que procura o futuro. A árvore torna-se, assim, símbolo de continuidade, de força discreta, de permanência.

Grande parte das crónicas regressa a uma Angola ferida pela destruição, pela guerra, pela colonização e por políticas que teimam em não conseguir erguer o que foi destruído. As imagens criadas pela autora são simples, mas carregam uma verdade profunda. A dor aparece como uma sombra constante, a esperança surge num gesto e a memória funciona como a raiz que insiste em não morrer.

No centro desta resistência estão as vozes femininas, que atravessam o livro com uma firmeza impressionante. Estas mulheres são as verdadeiras guardiãs de saberes antigos e de práticas que mantêm a comunidade unida. Ana Paula Tavares escreve sobre elas com precisão e delicadeza, oferecendo-nos imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. A sua crítica surge de forma subtil, uma marca deixada por quem viveu demasiado para acreditar em soluções fáceis.

Ler O Sangue da Buganvília é entrar num território onde as recordações se entranham na própria terra. As crónicas avançam como ramos que procuram a luz, e penetram “na linguagem secreta das coisas da alma” como escreve a autora e destacou, também, Tania Macêdo no prefácio. O “sangue” do título evoca inevitavelmente o sangue derramado na história de Angola, um traço profundo que atravessa gerações e permanece vivo na identidade do seu povo.


10 setembro, 2026

Couture, de Alice Winocour


       

104 min. | M/14 | Drama | 2025 | França, USA
Realização e Argumento: Alice Winocour
Elenco: Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei, Finnegan Oldfield, Garance Marillier, Guillaume Marbeck, Louis Garrel, Sean Gullette, Vincent Lindon, Mona Tougaard, Mika Schneider, Suzy Menkes, Finnegan Oldfield , Aurore Clément


No centro de Couture emergem três mulheres que carregam mundos distintos: Maxine confrontada com a fragilidade do corpo no meio da criação de um filme; Ada, jovem sudanesa que aceita o trabalho de modelo para sustentar a família que ficou longe; e Angèle, que entre maquilhagens, tenta escrever um livro e encontrar uma voz própria. Cada uma vive num ritmo diferente, com urgências e sonhos distintos; cada uma tenta costurar a própria vida, com linhas que às vezes se rompem.
Couture transforma estas três trajectórias num gesto de resiliência, de amizade e de união.

E no final, quando a tempestade irrompe em pleno desfile, o cenário transforma-se e funciona como catarse. Varre o supérfluo, limpa o brilho artificial, revela o essencial. Ali, permanece, apenas, a força silenciosa de três vidas como se o mundo finalmente coincidisse com a sua verdade interior.




07 setembro, 2026

𝑨𝒕𝒐𝒔 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒐𝒔, de Han Kang


Autora: Han Kang
Título: Atos Humanos
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 227
Editora: D. Quixote
Edição(2.ª): Outubro 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3669)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Fechei o livro e fiquei a olhar para ele. O silêncio do meu quarto pareceu-me pesado, quase sufocante. Há leituras que nos deixam a cogitar no escuro. Como é possível que a crueldade encontre sempre novas formas de se repetir? Como é que a humanidade alberga, ao mesmo tempo, uma violência infinita e uma resiliência tão silenciosa?

O livro confronta-nos directamente com o Massacre de Gwangju, de 1980, na Coreia do Sul. Ao expor a brutalidade extrema do regime militar, que trata os corpos como objectos descartáveis, revela também gestos de resistência humana como contar os mortos, recolher os corpos, acender as velas, fazer o luto.

Impressionou‑me a forma como Han Kang trabalha o tempo, com saltos constantes entre passado e presente. Em vez de reconstruir os factos históricos de forma directa, ela aproxima‑nos da verdade através das experiências dos narradores (incluindo a alma de um rapaz morto), uma sobrevivente torturada, um prisioneiro e outros. Cada perspectiva revela que o trauma não ficou preso a 1980, enraizou‑se nos sobreviventes e continuou a destruir relações, casamentos e a própria sanidade ao longo de trinta anos.

A escrita de Han Kang é poética e sensível. Não suaviza a violência; fixa-se na dor íntima e silenciosa, tornando o sofrimento quase palpável. É uma escrita que magoa precisamente por ser tão bonita.

Atos Humanos deixa-nos uma cicatriz que não desaparece. Não é uma leitura feliz, mas é uma leitura necessária num mundo que insiste em esquecer o valor da empatia. A dor que persiste não é apenas a dos que viveram Gwangju; é também a de quem lê.
Saí desta leitura devastada, sim, mas mais desperta para o que ainda precisa de ser lembrado.
E concordo com a tradutora, que encerra a sua introdução lembrando que este romance é também uma resposta pessoal e política aos recentes desenvolvimentos, e um alerta para os actos humanos de que todos somos capazes – “atos brutais e atos generosos, atos básicos e atos sublimes”.



06 setembro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 3 de setembro marcou a nossa rentrée!!
Na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, e com um calor sufocante, que inviabilizou a presença de algumas leitoras, decorreu mais um encontro do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. O grupo fez um balanço do ano anterior e conversou sobre processos de escrita, dificuldades sentidas, erros a evitar, motivações... Lemos apontamentos de escritores sobre o acto de escrever, a rasura, a procura do melhor vocábulo…
Penso que foi uma hora produtiva e enriquecedora. Estamos em crescimento (em número de participantes e em qualidade na escrita).

Para o Clube de leitura, apresentámos algumas das nossas leituras de férias. Não havendo tema definido, as leituras dos 9 participantes foram ricas, diversificadas e proporcionaram outras tantas descobertas.
Como também já é habitual, e como o refiro sempre nas minhas publicações, lemos, ouvimos, sorrimos e maravilhámo-nos.
A literatura tem esse poder! A partilha de bons livros encanta-nos!
Para o próximo encontro, vamos ler livros dos autores presentes na Onda Literária.
Eis os livros apresentados na sessão e que vos convido a descobrirem:

- O Imperador Vermelho, de Michael Sheridan;
- As Filhas do Terramoto, de Domingos Amaral;
- A profecia de Istambul, de Alberto S. Santos;
- Circe, de Madeline Miller;
- Os meus amigos, de Hisham Matar;
- Tudo na Natureza, de Yiyun Li;
- O Cais das Merendas, de Lídia Jorge;
- Querida Tia, de Valérie Perrin;
- O Círculo dos Dias, de Ken Follet;
- Ano Zero, de João Céu e Silva;
- A Filha da Caytana, de Carmen Posadas;
- Partida, de Julian Barnes;
- A Mais Bela Maldição, de Rui Couceiro;
- Aguarela de Paris, de João Pinto Coelho;
- Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy
- A Boneca Despida, de Paulo M. Morais
- Encontro, de Natasha Brown


30 agosto, 2026

𝑼𝒎 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐𝒔, de Nadine Gordimer



Autora: Nadine Gordimer
Título: UmMundo de Estranhos
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas: 288
Editora: Bibliotex Editor/ DN
Edição: 2003
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (1487)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler Nadine Gordimer é um convite ao desconforto. Em Um Mundo de Estranhos, a Nobel da Literatura sul‑africana (1991) transporta-nos para a Joanesburgo dos anos 50, em pleno auge do apartheid. Acompanhamos Toby Hood, um jovem inglês que chega à África do Sul determinado a manter-se neutro, querendo apenas viver a sua vida privada e profissional, longe das amarras da política. No entanto, a genialidade da obra reside precisamente em mostrar como, num regime opressivo, a neutralidade é uma escolha impossível.

O que torna este livro uma leitura magnética é a forma como a autora contrasta a opulência oca da elite branca com a vitalidade pulsante dos bairros negros. Esse contraste ganha corpo na própria vida de Toby, que divide a sua existência em dois cenários opostos. Por um lado, frequenta as festas da alta burguesia, palcos de vaidade, preconceito e jogos de interesse e validação social. É um ambiente artificial e asfixiante. Por outro lado, é nos subúrbios segregados que descobre a verdadeira liberdade, num espaço onde a música funciona como antídoto à rigidez do mundo branco. Ali, o jazz devolve dignidade a quem vive sob vigilância. Ali, a música é liberdade pura, sem cálculo, atraindo irresistivelmente um Toby cansado da hipocrisia do seu próprio mundo.

Entre estes dois mundos, Gordimer introduz ainda uma zona intermédia, o espaço híbrido onde vive Anna Louw. Ali, convivem pessoas que escapam parcialmente às fronteiras rígidas do apartheid, brancos progressistas, indianos, mestiços, activistas que circulam num território de mistura vigiada. É um lugar de transição, onde a segregação não desaparece, mas se torna mais porosa. A presença de Anna nesse limiar representa uma possibilidade de cruzamento, mas também os limites dessa possibilidade.

A imersão de Toby no mundo subjacente de Joanesburgo deve-se a Steven Sitole. Mais do que amigo, Steven é o guia que abre as portas dessa realidade proibida. Com o seu magnetismo e a recusa em ser reduzido a vítima, mostra que a dignidade e a alegria podem ser formas poderosas de resistência.

Mas é nas relações amorosas que a contradição de Toby se expõe. Ele apaixona-se por Cecil, uma branca alienada, e envolve-se com Anna Louw, que habita essa zona intermédia, mas nunca atravessa a fronteira da intimidade com uma mulher negra. Toby consome a cultura negra, mas não se mistura com ela. A sua incursão é escolha, privilégio revogável

Criar uma personagem que desafia convenções sociais mas permanece presa às suas próprias barreiras invisíveis foi uma audácia tremenda em 1958. A reacção do regime do apartheid não se fez esperar e o livro foi banido durante doze anos.

Ao fechar o livro, a lição que ecoa é brutal. Numa sociedade estruturada pela opressão, a neutralidade é uma ilusão e as bolhas de liberdade individual serão sempre esmagadas se não houver uma libertação colectiva. Uma obra desconfortável que desafiou a censura para dar a conhecer a verdade que o apartheid tentava silenciar.


29 agosto, 2026

Ainda vamos escrever sobre isto!

 

Copilot 03_08_2026 _ 19H


Tudo começou com a partilha de um vídeo no nosso grupo de leitores, no WhatsApp. Um daqueles pequenos fragmentos que subitamente acendem a imaginação colectiva. Mal o vídeo apareceu, alguém declarou: “Que iniciativa gira! Muito bom!”.
O vídeo ainda nem tinha terminado e já se sentia movimento no ar porque outra voz, movida pela mesma energia, escreveu: “Adorava participar”.
O entusiasmo espalhou-se pela porta já escancarada: “Que bela iniciativa e fácil de concretizar!”.

A primeira exigência caiu logo ali, como se o vídeo tivesse convocado a bicharada e não os leitores: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar”. A galinha, ofendida e assustada, pensando que ia parar à grelha, bateu as asas para fora do ecrã.

Cada vez mais entusiasmado, o grupo decidiu recriar o evento dando-lhe um toque particular: “Eheheh. Fazemos um piquenique literário”.
E alguém, muito atento, lembrou: “Olha os animais!”. Não fôssemos fugir à ideia original que tanto animou o grupo. Já imaginaram termos um rato de biblioteca a ler… este meu brilhante pensamento foi cortado por uma alma bem mais prudente que tentou organizar o caos que se antevia: “Mas nós prescindimos dos animais. Quem tiver cão ou gato, pode levar. Só esses.”. Ora bolas!!! Esta proposta vem retirar todo o encanto ao nosso evento! Mas há mais derrotistas porque, discretamente, alguém lançou: “Só falta a relva ...”.

A imaginação levantou voo: “Temos de descobrir um campo”. E a necessidade repetiu-se, insistente, como se o vídeo tivesse ficado preso num loop: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar!”.

Uma das intervenientes, sempre pronta a puxar a conversa para o digital, comentou: “Original…mas a IA também pode andar por ali”. Outra, cansada de tanto bicho e de projectos loucos, respondeu: “Concordo... são coelhos a mais”. Até que alguém, mais lúcido, alertou para um possível perigo: “Ainda nos comem os livros”. Mas uma voz tranquilizou: “Não Graciosa ... Eles vão é pedir emprestados ...”. Contudo, o receio instalou-se e o alerta repetiu-se: “Eles são devoradores. E roedores”.
Como sempre, há quem se aproveita das ocasiões e desafia: “Ainda vamos escrever sobre isto”… mas o eco insistiu: “Eles são devoradores”. E uma leitora marota, conhecedora dos hábitos desta gente, piscou o olho e sussurrou: “Algumas de nós também 'devoram'”.

O título provisório nasceu logo ali: “piquenique literário com coelhos”. A leitora marota, feliz com a sua observação, repetiu-se: “Algumas de nós também ‘devoram’” e só se calou quando um grito breve anuiu: “Ya!!”. E, aí, o refrão regressou: “Olha os animais!”.

A certa altura, até a fauna local entrou em cena: “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”. Alguém antecipou o caos: “Vai ser um festim”. Como Quem conta um conto, acrescenta um ponto, a história cresceu: “Na Ribeira de Moinhos, sim. Por vezes vou às pinhas ou aos espargos, quando é tempo, e vejo a devastação no pinhal! E outro dia vi um coelho! Mas ele assustou-se mais do que eu”.

Ao lamento “Vegetação envolvente, aqui, não temos muita”, alguém respondeu: “Pois, aí é diferente. Mas as galinhas e os coelhos já animam. E ainda chamam a comadre”, e à insistência de “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”, a resposta veio certeira: “Ainda não! Temos gaivotas”.

Quando se pensava que o entusiamo tinha acalmado, surgiu outra voz bem-humorada: “Vocês são muito criativas. Nada que não pudesse vir a acontecer. Mas para termos essa bicharada toda à nossa volta era mais fácil as vacas criarem asas.” E alguém acrescentou, de imediato: “Mas se as vacas criarem asas, vão afugentar as gaivotas.” Com esta possibilidade teríamos um caos aéreo ou a solução para o fim das gaivotas? Um caso de estudo a propor à CMS.

Mas logo um pedido desesperado irrompeu: “Por favor, por favor, não deixem as vacas criar asas...isto com as gaivotas, já é mau demais!”. E alguém sensato assentiu: “Sim, tem razão. Já temos uma pandemia suficiente”. Ao que outra voz ainda acrescentou: “Muito bem. Se já tenho a varanda suja, imaginem as descargas vacarinas”.
- “Tal e qual!”- Rematou outrem.

O caos cresceu: “Que animação... Ausentei-me um bocadinho e já temos vacas voadoras ... Não tarda nada até entra um porquinho a andar de bicicleta...”. E outra voz, enigmática, lançou: “Quem sabe!?”.

A gaivota infantil, que não constava no vídeo inicial, entrou em cena por alguém desesperado: “Eu tenho uma gaivota em idade de infantário…no meu quintal” que acrescentou ainda : “E os progenitores a tomarem conta dela e de mim. Ando de varapau em punho para me defender, se necessário.”

É caso para afirmar que Fiado por fiado, o fio puxa o novelo porque outra história nasceu: “Aqui perto da minha casa há duas, que caíram do telhado onde nasceram, e ali estão no quintal com os pais sempre a ‘falar’ para elas, aflitos porque não as conseguem pôr a voar...”

Como para um bom leitor há sempre uma solução, seja ela fantasiosa ou absurda, esta apareceu, naturalmente: “Temos de chamar o gato do Sepúlveda, que ele trata do assunto”. E uma voz diplomática confessou: “Gosto de animais, mas se fossem passear para outro lado…fecharia o portão!!!”

A memória literária iluminou a atmosfera: “ (História da gaivota e do gato que a ensinou a voar, para mim é das mais bonitas que li)”, e eu magiquei logo que também poderíamos convocar a Alice no País das Maravilhas, ou mesmo O Principezinho, ou ….
“E não me ponham estendida na relva porque depois não conseguem levantar-me!!!!” ecoou, de repente, uma Carolinice!


E então, como se o grupo piscasse o olho ao próprio delírio, surgiu a nota que fecha tudo com graça: “Carolina e o seu (bom) humor…”

Assim, termina esta divagação que nasceu de um vídeo partilhado no grupo e cresceu com a espontaneidade das falas que o seguiram. A bicharada entrou sem pedir licença, o absurdo tomou conta da relva inexistente e a imaginação manteve tudo unido. Carolina fechou o círculo com o seu (bom) humor, lembrando-nos que, no fim, o que importa é a alegria de inventar juntos.

 11.07.2026

GR 




28 agosto, 2026

Quando um livro relincha




 


Sempre que termino a leitura de um livro, cumpro um pequeno ritual. Caminho até às estantes da minha biblioteca, aproximo-me da secção dos livros por ler e pego num, depois noutro, deixo-me seduzir por aquele que, mais atrevido, me pisca o olho. Nem sempre é assim, mas quase sempre a escolha se faz num jogo silencioso entre mim e os livros.

Num destes dias, enquanto hesitava entre futuras leituras, pareceu-me ouvir um relinchar leve, quase um sopro vindo de dentro das páginas. Fiquei imóvel. Olhei em volta. "Estou a enlouquecer", pensei. E então vi um livro de capa verde pousado na secretária, a olhar para mim com descaramento. Na capa, um burrico novinho, de olhar tão terno, parecia chamar-me pelo nome.

- Hum… afinal queres que te leia - murmurei-lhe. E tens razão em insistir. Foste-me emprestado pela nossa amiga Carolina e já pedes regresso.

Folheei-o devagar. Detive-me nos desenhos de Bernardo Marques. Depois instalei-me na cadeira da varanda, onde a luz da tarde  se impunha, e iniciei a leitura.
O texto corria com suavidade, capítulos breves, poucas páginas… podia lê-lo numa tarde, pensei. Mas não. O livro não me deixou. Agarrou-me. Prendeu-me pelo colarinho da alma.

Dei por mim a saboreá-lo, a parar, a voltar atrás, a reler… Como a criança do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, eu também “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
Sim, estava extasiada com a beleza da escrita, com aquelas histórias simples e luminosas vividas por Platero e pelo narrador. E, ainda como a criança do conto, também eu me balançava “com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Sempre gostei deste conto e tantas vezes o recomendei para promover a leitura, mas agora, depois de ler Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, compreendo, enfim, a verdadeira profundidade da metáfora de Clarice Lispector. Há livros que não se lêem, acontecem-nos.

Quando terminei o livro, voltei ao início. Queria viver a simplicidade que emanava de cada episódio, como se eu também fosse personagem. Uma criança a brincar meigamente com Platero.
Só tenho um lamento. Como o livro não é meu, não pude sublinhar todas as frases que me encantaram. Fiquei com a sensação de ter deixado para trás pequenas pepitas de ouro que queria guardar comigo.

Já li muitos livros. Muitos, muito bons, maravilhosos, marcantes. Mas de vez em quando, encontro uma pérola assim, como esta, que me faz acreditar em Borges quando referiu: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca.” 
E talvez por isso, por esta felicidade que o livro deixou em mim, tenha decidido preparar uma pequena surpresa para quem lê comigo. Uma proposta de escrita. Um desafio suave. Nada de complicado, apenas o suficiente para que, como eu, alguém sinta o passo leve de Platero, tão discreto, a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.

18.06.2026
GR

21 agosto, 2026

𝑨 𝑻𝒖𝒓𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑰𝒏𝒗𝒊𝒔í𝒗𝒆𝒍, de Ana Saragoça

 

Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.

O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.

A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.

Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.

Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.

Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.



18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.