14 maio, 2022

𝑨 𝒉𝒆𝒓𝒂𝒏ç𝒂 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒛𝒕𝒆𝒓, de Sándor Márai

 



Autor: Sándor Márai
Título: A herança de Eszter
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 150
Editora: D. quixote
Edição 6.ª: Fevereiro 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em A herança de Eszter, a narrativa desenvolve-se numa analepse, isto é, a protagonista, narradora omnisciente, conta a “história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou.” (p. 7). Por isso ela conhece bem os factos, as intrigas e o carácter de Lajos, o único homem que amou em toda a sua vida.
Como um círculo que se fecha, também Eszter sentiu necessidade de rever e de narrar a sua vida de enganos, de submissão, de abandono. Fê-lo porque sentiu que, aproximando-se da morte, só assim resgataria a paz. É o ponto final de uma história de mais de vinte anos, de uma história de mentiras, de desilusões, de roubos e, contudo, de esperança e de sonho.

Vamos assistindo incrédulos a tudo o que Eszter nos narra sobre Lajos e não entendemos tanta submissão, tanta inércia, tanta cedência.
Sándor Márai é exímio na descrição psicológica das suas personagens. Numa escrita simples, profunda e sensível conta-nos a história desta mulher solteira que viveu sem brilho um amor doentio por um canalha sedutor e sem escrúpulos.
É brilhante como o carácter das personagens é desvendado e como vamos assimilando a noção de dever (“cumprir o meu dever”) da protagonista, como a sua fragilidade emocional vai num crescendo, tornando-se facilmente manipulável, permanecendo, contudo, lúcida.

Fica assim bem claro o antagonismo de carácter das duas personagens, tornando incompreensível, para o leitor, a atitude de Eszter.

Livro que se lê num dia, mas que deixa marcas porque é uma história verosímil de grande densidade psicológica.
 Recomendo.


13 maio, 2022

 


Autor: Vera Duarte
Título: Amanhã Amadrugada
N.º de páginas: 104
Editora: Vega
Edição: 1993
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em Amanhã Amadrugada, Vera Duarte revela-se uma lutadora pelos direitos humanos. Para tal, convoca o amor, a paixão , a justiça, a igualdade, ou pelos menos, um maior equilíbrio de género, a liberdade.

A sua escrita revela-se de forma antagónica, dividida e sempre indagadora e consciente do muito que ainda há para fazer numa sociedade onde a mulher permanece “prisioneira de estereótipos interiorizados e recusados” (p. 10).
Vera Duarte divide o seu livro em quatro partes (“Cadernos”) e neles descreve o que viveu, o que sentiu, o que observou de forma “confessional, emotiva e crítica”.

Temos textos sobre o amor, a paixão, o Eu/Tu, a mulher, o mar, o arquipélago, a morte, a revolução, o sonho, a ânsia da liberdade.

"Carência

Amar-te loucamente
abrir sobre ti as janelas do meu ser
ser campo aberto e florido
e viver assim
em estranhas madrugadas
à luz dos candeeiros
envolta em luas e neblinas?

antes
êxtase e paixão
mãos vazias
corpo carente"

Percebemos, à medida que avançamos na leitura dos textos e dos poemas, o seu amor incondicional a Cabo Verde, a África, e o desejo de uma pátria livre.
Penso que ao interligar prosa (poética) e poemas, fica claro que a ausência de fronteiras na literatura se deveria aplicar ao mundo. A sua liberdade ficcional, representa o seu desejo de liberdade como mulher e como povo.

“(…)
Homens mulheres crianças
Na pátria livre libertada
Plantando mil milharais
Serão a chuva caindo
Na nossa terra explorada”

10 maio, 2022

𝑶 𝑫𝒆𝒔𝒆𝒓𝒕𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝑻á𝒓𝒕𝒂𝒓𝒐𝒔, Dino Buzzati

 

Autor: Dino Buzzati
Título: O Deserto dos Tártaros
Tradutora: Margarida Periquito
N.º de páginas: 231
Editora: Cavalo de Ferro
Edição 4.ª: Maio 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3359)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Feliz a hora em que me recomendaram a leitura deste livro, no clube de leitura do PNL. Foi assim que descobri o autor e esta belíssima e surpreendente narrativa. Provavelmente ter-me-ia escapado, como me escapou até à data, e, agora, depois de o ler, confesso que seria uma lacuna literária imperdoável.

O Deserto dos Tártaros foi publicado pela primeira vez em 1940, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. É considerada a obra mais importante de Buzzati e integra a extensa lista dos clássicos da literatura mundial.
Narra a história de Giovanni Drogo promovido a oficial. O jovem tenente é destacado para a Fortaleza Bastiani localizada na fronteira com um deserto. Lugar isolado e inóspito, sem acção, sem guerra, que apenas promove uma vida entediante, rotineira, porém ditada pela burocracia e por protocolos completamente anacrónicos.

Drogo de início pensou desistir e abandonar a Fortaleza, mas algo de inexplicável aconteceu assim que avistou o edifício e a paisagem envolvente e acabou por ficar…
“Todavia, como na tarde anterior do fundo do desfiladeiro, Drogo olhava-a [a fortaleza] hipnotizado, e uma inexplicável agitação penetrava-lhe no coração.” (p. 22)
Não vou revelar mais nada sobre a vida do protagonista na fortaleza, pois tiraria todo o encanto da descoberta da leitura. Posso, contudo, acrescentar que “ justamente naquela noite principiava para ele a irremediável fuga do tempo (…) Sentira o pulsar do tempo a marcar avidamente o compasso da vida.” (pp. 52-53)

Todo o oficial que é enviado para este lugar tem o sonho, o desejo, de alcançar a glória numa batalha, a “esperança de coisas nobres e grandiosas”, mas o narrador omnisciente vai fornecendo indícios, presságios ao longo da narrativa e cedo percebemos que tal poderá não acontecer. Mas a dúvida persiste no leitor e este jogo é magnificamente conduzido ao longo do texto.

Acompanhamos o tédio, o torpor, a apatia, a inércia perante uma tomada de decisão, a infelicidade, mas também a vaidade militar, o “prazer das regras de serviço”, o prazer da solidão, o hábito de uma vida acomodada e rotineira e as emoções sentidas perante a beleza das “negras voragens do vale”, das montanhas cobertas de neve, dos ecos das cornetas, das luzes do crepúsculo, …

Tal como no mito de Sísifo onde “o homem vive sua existência em busca de sua essência, do seu sentido, e encontra um mundo desconexo, ininteligível”, aqui, na narrativa os homens preparam-se diariamente para uma batalha que nunca acontecerá, para a glória que nunca conhecerão. “A glória é a moeda mais inútil, vã e falsa em uso entre nós.“ (Montaigne)

É o absurdo! E assim, o tempo passa, e passa e “a vida da Fortaleza devorava os dias, um após outro, todos semelhantes, a uma velocidade vertiginosa.” (p. 75)
É um livro sobre a fugacidade do tempo, sobre decisões, sobre oportunidades perdidas e sobretudo sobre o conformismo, e, apesar de tudo, também sobre a esperança.
É um livro que levanta muitas questões, que nos faz reflectir sobre o sentido da vida, sobre as decisões que tomamos, ou não, ao longo da nossa existência.

Recomendo vivamente!

 

01 maio, 2022

Dia da MÃE!



“Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.”

Poema de António Ramos Rosa


30 abril, 2022

𝒒𝒖𝒆𝒓𝒊𝒅𝒂 𝒊𝒋𝒆𝒂𝒘𝒆𝒍𝒆, de Chimamanda Ngozi Adichie

 


Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Título: querida ijeawele
Tradutora: Ana Saldanha
N.º de páginas: 94
Editora: D. Quixote
Edição 3.ª: Março 2021
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3355)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em 𝒒𝒖𝒆𝒓𝒊𝒅𝒂 𝒊𝒋𝒆𝒂𝒘𝒆𝒍𝒆 estamos perante a carta que a autora endereçou como resposta a uma amiga de infância quando esta lhe perguntou: Como educar a minha filha para o feminismo?

Numa linguagem simples, franca, emotiva e assertiva a autora apresenta quinze sugestões que abordam temas que reflectem os princípios fundamentais de uma educação para a igualdade de direitos para mulheres e homens, para a criação de um mundo mais justo e sobretudo para a importância de reflectirmos e decidirmos sobre o que verdadeiramente queremos ser.

“Toda a gente vai ter opiniões sobre o que deverias fazer, mas o que importa é o que tu queres para a tua vida e não o que os outros querem que tu queiras.” (p. 17)

Ela recorre a exemplos claros do dia-a-dia, cita acções e palavras de pessoas conhecidas/famosas, partilha vivências pessoais, define objectivos e expectativas, rejeita actos de permissão, de obediência, de condicionamento da mulher “ «Porque és menina» nunca é razão para nada. Nunca.” (p. 24)

Educar para o feminismo é ser uma pessoa inteira, completa; é partilhar os cuidados do bebé igualmente; é “questionar a ideia do casamento como um prémio para as mulheres”; é escolher brinquedos por tipo e não por género; é anular a “ideia da igualdade condicional das mulheres”; é promover a leitura, o prazer dos livros; é questionar a linguagem e ensinar o que se deve valorizar; é encarar o casamento como uma relação de igualdade, de felicidade; é ter consciência da humanidade, ser honesta e corajosa, rejeitar o desejo de agradar e de ser “boazinha” para com as pessoas más; é criar um sentido de identidade cultural; é desenvolver hábitos de atividades saudáveis; é aceitar a sua feminilidade e não relacionar a aparência com a moralidade (“Nunca lhe digas que uma saia curta é imoral” (p. 67)) mas sim uma questão de gosto e de atractividade; é reconhecer a importância da biologia como matéria, mas nunca como “justificação para qualquer norma social”; é falar abertamente de sexualidade e é saber dizer “não” e é sobretudo não associar a vergonha à sexualidade; é saber receber e dar amor; é não atribuir valor à diferença, é preparar para “sobreviver num mundo de diversidade”; é ser humilde e não “universalizar os seus padrões e experiências”; é finalmente ser feliz e saudável.

Após a leitura deste manifesto, pode-se concluir que a forma mais evidente de caminharmos para uma sociedade igualitária assenta na possibilidade de nos questionarmos sobre o papel da mulher e do homem na sociedade, sobre a aceitação do outro e de si próprio (ser uma pessoa inteira, completa). Compreender que ser feminista não é excluir o homem, é aceitar as diferenças de cada um, é aceitar a igualdade de direitos para todos, é tentar criar um mundo mais justo.

“Para mim, o feminismo é sempre contextual. (…) A nossa premissa feminista deveria ser: Eu tenho importância. Eu tenho igual importância. Não «se ao menos». Não «desde que». Tenho igual importância. Ponto final.” (p. 12)



29 abril, 2022

𝑺𝒊𝒏𝒐𝒑𝒔𝒆 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Afonso Cruz

 

Autor: Afonso Cruz
Título: Sinopse de Amor e Guerra
N.º de páginas: 175
Editora: Companhia das Letras
Edição: Dezembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sinopse de Amor e Guerra é o segundo livro da colecção Geografias, cuja acção se desenrola em Berlim, depois da II Guerra Mundial, mais concretamente nos anos anteriores e pouco depois à construção do muro, parede que viria a dividir uma cidade e a separar vidas, amores, destinos, “Uma parede que era a prefiguração da morte” (p. 109)

Através de uma escrita simples, fluída e poética, muito poética, vamos acompanhando a história de Theobald Thomas e Bluma Janek, dois amigos que se conhecem desde a infância, que parecem feitos um para o outro e que, mais tarde, através do poder dos livros e da poesia acabam por se apaixonar. “ A vida de ambos pacificara-se e convergira. Encostavam olhares, encostavam as mãos ao arrumar os livros, citavam poetas, por vezes em uníssono. Era uma boa explicação do amor, essa coincidência dos versos que diziam.
Descreviam-se um ao outro pela forma como as palavras saíam das suas bocas, simultâneas e idênticas. Esculpiam-se mutuamente, tendo por ferramenta a poesia.” (p.89):

Este livro é inspirado numa história real, focado no binómio amor e guerra, com realce para a ausência, para a perda e para reencontros, para a banalidade do mal como forma de sobrevivência. Contudo, nos dias sombrios que vivemos, quero acreditar que, tal como na narrativa, há um raio de sol que brilha e que permite ter esperança num mundo melhor, num mundo mais unido, mais pacífico, sem medo, sem separação, sem barbárie.


Para além da história de Theobald e Bluma, o autor deu uma piscadela de olho ao poder dos livros, à beleza das palavras, da poesia. É notória a sua força na transformação das frases em algo de sensível, de belo e, simultaneamente, educativo “ Telefonar sem qualquer motivo é sinal de amor” (p. 76), é apenas um dos muitos exemplos.

Soube a pouco, gostaria que houvesse mais desenvolvimento, mais detalhes para uma maior compreensão e aceitação das personagens, das suas motivações, das suas decisões. Gostaria de obter mais respostas sobre os limites do amor e da guerra, sobre as questões afloradas.
Será que neste mundo em que vivemos, vale tudo?
Apesar de tudo, não me considero defraudada porque o título é claro, trata-se de uma sinopse…


25 abril, 2022

𝑨𝒃𝒓𝒂ç𝒐, de José Luís Peixoto

 



Autor: José Luís Peixoto
Título: Abraço
N.º de páginas: 655
Editora: Quetzal
Edição: Outubro 2011
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2857)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Abraço é uma colectânea de cento e sessenta e duas crónicas escritas ao longo de dez anos e que marcam três fases distintas: os seis, os catorze e os trinta e seis anos da vida do autor. A sequência das crónicas que integram este livro foi sublimemente organizada. Tudo faz sentido. Assumimos o livro como um todo e não como uma colectânea de textos que foram publicados de forma avulsa em jornais e revistas.

Os textos apresentam uma escrita intimista, corajosa e aparentemente simples, já que o autor parte do banal, do quotidiano, por vezes, de uma palavra, de uma ideia, de uma emoção para olhar para dentro de si, para expor os seus segredos, as suas vivências pessoais e familiares, sobretudo com os filhos, os pais e a irmã, as suas viagens, o seu processo de criação, as suas leituras, os seus pensamentos, as suas vitórias. Falam da sua infância e adolescência no Alentejo; falam de livros, livrarias, escritores, de filmes e cinema, de objectos banais; falam de amor, da vida, da sua vida de forma desassombrada, intimista, sem filtros, e cativante.

À conta de tudo isto, há todo um processamento da memória, mas há também o registo presente, simultâneo, do vivido e do escrito e há ainda a interpelação directa ao leitor que, em muitos textos, participa quase espontaneamente como se ele próprio abraçasse a escrita. Interessante como a narração, a descrição de um facto banal se transforma em literatura, em prosa poética e o leitor fica suspenso nas palavras, nas frases, na beleza da história.

Este livro é um compêndio de abraços à vida, às palavras lidas e escritas, aos leitores, aos lugares.
“Pureza, aceita esta palavra nos teus gestos, em cada uma das tuas palavras, e, aos poucos, chegará ou regressará aos teus pensamentos. (…) Não deixes que te armadilhem os cálculos e labirintos. São demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. (…) Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.
Agora, vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.” (pp. 653 a 655)




16 abril, 2022

𝑨𝒔 𝑷𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒂𝒔 𝑽𝒊𝒓𝒕𝒖𝒅𝒆𝒔, de Natalia Ginzburg

 


Autora: Natalia Ginzburg
Título: As Pequenas Virtudes
Tradutor: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 143
Editora: Relógio D'Água
Edição: Junho 2021
Classificação: Ensaios
N.º de Registo: (3356)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐




Livro fabuloso. A beleza e a leveza da escrita, a clareza das palavras elevam-nos e encantam-nos e o que é dito obriga-nos a reflectir, a mergulhar no nosso imo. Nenhum leitor permanecerá indiferente e certamente que jamais será o mesmo, após a leitura destes breves textos.
Este é um livro que não pode ficar arrumado na estante dos livros comuns. É um livro que deve juntar-se aos grandes escritores, na estante da boa literatura, à qual podemos sempre voltar.

Em As Pequenas Virtudes, livro de 11 breves ensaios escritos entre 1944 e 1966, em momentos diferentes e de forma independente, a autora aborda vários temas, muito autobiográficos numa perfeita mescla de memórias, de vivido, de sentido e de observado. Com extrema sensibilidade e sinceridade, mas também com tristeza e nostalgia, ela detém-se nos detalhes do quotidiano, na sua vida, nas relações humanas, no seu relacionamento com os próximos, no seu “ofício” e de forma direta, clara, crua, por vezes, ela entremeia a memória, a reflexão, a fantasia e oferece-nos estes ensaios de uma grande lucidez e sobriedade.

O livro está dividido em duas partes, na primeira, temos, sob um olhar próprio e subtil, textos sobre lugares de desterro (Itália) e exílio (Inglaterra), sobre pessoas que conheceu nesses momentos de sofrimento e sobre figuras importantes na sua vida, os dois maridos e o poeta Cesare Pavese. A segunda parte debruça-se sobre temas mais gerais que permitem uma autoanálise profunda e reflexões sobre a sua formação, a sua escrita, sobre valores, vocações e afectos, amizades e sobre a educação. O último texto, que dá título ao livro, é sublime.
"No que se refere à educação dos filhos, penso que lhes devem ensinadas não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença pelo dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desprezo do perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor da verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de conhecer." (p. 129)

Poderia continuar a opinar e a citar sobre cada um dos ensaios de tão belos e cativantes que são. Não vou fazê-lo. Prefiro que o leiam, lentamente, e que, tal como eu, o descubram e desfrutem da sua beleza e intensidade. Porém, termino com uma citação de um dos textos que mais me arrebatou.

“Há um perigo na dor, do mesmo modo que há um perigo na felicidade, no que se refere às coisas que escrevemos. Porque a beleza poética é um conjunto de crueldade, de soberba, de ironia, de afecto carnal, de fantasia e de memória, de claridade e de obscuridade, e, se não conseguirmos alcançar todo esse conjunto, o nosso resultado será pobre, precário e pouco vital. (…) Há o perigo de sermos astuciosos e de fazermos batota. È um ofício bastante difícil, como se pode ver, mas o mais belo ofício do mundo.” (pp. 95 e 97)

14 abril, 2022

Um poema




Química

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

 José Saramago, in Os Poemas Possíveis


13 abril, 2022

𝑵𝒊𝒌𝒆𝒕𝒄𝒉𝒆: 𝑼𝒎𝒂 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒐𝒍𝒊𝒈𝒂𝒎𝒊𝒂, de Paulina Chiziane

 


Autora: Paulina Chiziane
Título: Niketche; Uma História de Poligamia
N.º de páginas: 334
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1582)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


História muito bem conseguida. Narrada na primeira pessoa, pela voz de Rami, a protagonista é uma mulher do sul (Maputo), bonita, casada com Tony, comandante da polícia, mãe de cinco filhos e primeira-dama de um casamento polígamo.

Numa narrativa repleta de humor e de autenticidade, acompanhamos a vida de Rami que financeiramente estável, é atormentada pela constante ausência do marido. Numa sociedade onde predomina uma cultura fortemente machista e patriarca, a culpa recai nela porque não sabe manter o casamento e agarrar o marido. Apesar de saber que o marido é a causa do seu sofrimento e da sua tristeza, Rami, vira-se para o espelho e questiona: “Diz-me, espelho meu; serei eu feia? Serei eu mais azeda qua a laranja-lima? Por que é que o meu marido procura outras e me deixa aqui? O que é que as outras têm que eu não tenho? (… ) Oh, espelho meu, o que achas de mim? Devo renovar-me?
- Renova-te, sim. Mas antes, procura uma vassoura e varre o lixo que tens dentro do peito. Varre as loucuras que tens dentro da mente. Varre, varre tudo. Liberta-te. Só assim viverá a felicidade que mereces.” (p. 34)

Ao descobrir os motivos da ausência do Tony e como uma fera ferida de traição vai cobrar satisfações à sua rival e acaba por saber que afinal não tem só uma, mas quatro (Julieta, Lu, Saly e Mauá). Decidida a vingar-se, vai atrás de cada uma delas e marca uma reunião secreta em sua casa e expõe o marido perante a situação e obriga-o a assumir a poligamia conforme a tradição do país.
“Somos éguas perdidas galopando a vida, recebendo migalhas, suportando intempéries, guerreando-nos umas às outras. O tempo passa, e um dia todas seremos esquecidas. Cada uma de nós é um ramo solto, uma folha morta, ao sabor do vento – explico. Somos cinco. Unamo-nos num feixe e formemos uma mão. Cada uma de nós será um dedo, e as grandes linhas da mão a vida, o coração, a sorte, o destino e o amor. Não estaremos tão desprotegidas e poderemos segurar o leme da vida e traçar o destino.” (p. 107)
Rami vai assim, inconformada mas decidida, tomar conta desta situação e vamos acompanhando o seu crescimento interior, as suas angústias, as suas dúvidas, …

Paulina Chiziane numa escrita poética, irónica e subtil ilustra o percurso de Rami, a submissão da mulher ao regime patriarcal, a violência opressiva imposta pelas tradições, a união e a transformação da mulher, a reivindicação do seu papel de mulher e de mãe numa sociedade que encara a mulher como ser inferior, destinada a servir o homem e a sofrer em silêncio.
“Quero ser tudo: vento, peixe, gota de água, nuvem branca, qualquer coisa menos mulher. (…) Quero ser um grão de areia ao vento e dançar o meu niketche ao som das flautas de todas as brisas.” (p. 304)

Recomendo muito a leitura. Rami é uma mulher fantástica que expõe as suas fraquezas, mas também a sua força e a sua nobreza. Toda a narrativa é construída na base da sua consciência que nos faz refletir sobre a condição da mulher negra na sociedade moçambicana. É uma crítica de costumes que traduz a luta pela igualdade de género.
Com um estilo leve, sarcástico e divertido, a autora gere a narrativa a seu belo prazer e que ora encanta e diverte ora comove o leitor com as peripécias de ciúmes, de luta, de vingança, de infidelidade, mas também de amor e partilha.

10 abril, 2022

𝑴𝒖𝒓𝒓𝒐 𝒏𝒐 𝑬𝒔𝒕ô𝒎𝒂𝒈𝒐, de Paulo Jorge Pereira

 


Autor: Paulo Jorge Pereira
Título: Murro no Estômago
N.º de páginas: 205
Editora: 20|20 Editora (Influência)
Edição: Outubro 202o
Classificação: Testemunhos
N.º de Registo: (3353)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste livro, Paulo Jorge Pereira reúne sete histórias de vítimas de violência doméstica e oito testemunhos de profissionais que acompanham de muito perto estes casos e que lutam por combater este flagelo cada vez mais crescente.

Alice, Beatriz, Carla, Deolinda, Patrícia, Sónia e Telma legam-nos, na primeira pessoa, as suas histórias duras, sofridas e emotivas na esperança de “que mais ninguém sofra” e como exemplo para “que mais ninguém tenha medo de contar a sua” história.

O autor intercalou cada uma destas histórias com o testemunho de vários profissionais: da APAV (assessor técnico da direção), da Polícia de Segurança Pública, Polícia Judiciária (diretor), do Serviço Social (casa de abrigo), do Ministério Público, Polícia Judiciária (psicóloga forense), Comunicação Social (SIC), da APAV (psicóloga clínica). Para quem lê, a inclusão destes textos é importante, primeiro porque alivia a tensão e a dor sentidas na leitura de cada história, mas sobretudo porque são complementares e esclarecedores de todo o processo desenvolvido no apoio, na assistência e na defesa destas mulheres (e crianças) vítimas de violência.

Recomendo a leitura deste livro porque é importante que se leiam estas histórias reais. É importante denunciar quem sofre. É importante acusar quem agride física e psicologicamente. É importante acabar com este flagelo que matou “ mais de 500 mulheres nos últimos 15 anos” e como refere Daniel Contrim no prefácio "A violência doméstica é democrática. Atinge todos os sexos, todas as idades, todas as cores. De todo o lado. Em todo o lado" pelo que não podemos ignorar.

Se queremos que as nossas crianças vivam num mundo melhor, é urgente alterar esta forma de encarar a violência porque “a violência aprende-se” facilmente em casa, na escola, no recreio, na rua… “ A violência doméstica é responsabilidade de cada um de nós. Qualquer que seja o nosso papel na sociedade. A liberdade é natural. O amor é natural.” (p. 17, prefácio)




03 abril, 2022

𝑨çú𝒄𝒂𝒓 𝑸𝒖𝒆𝒊𝒎𝒂𝒅𝒐, de Avni Doshi

 

Autora: Avni Doshi
Título: Açúcar Queimado
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 286
Editora: D. Quixote
Edição: Agosto 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3321)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


“Mentiria se dissesse que a infelicidade da minha mãe nunca me deu prazer.
Sofri às mãos dela em criança e qualquer dor que, ulteriormente, ela sentisse me parecia um espécie de redenção, um reequilibrar do universo…"

Assim inicia o livro de Avni Doshi. Avni, filha de imigrantes indianos, nasceu nos Estados Unidos, em 1982. Hoje, vive no Dubai e oferece-nos uma história sobre a memória e sobre a relação complicada e instável entre uma filha e sua mãe.

É Antara, a narradora, que o profere e que, de imediato, dá o tom à narrativa. Percebemos que a relação não será pacífica e que talvez haja um acerto de contas entre mãe (Tara) e filha (Antara).

Mas como agir quando tudo se desmorona, quando se perde a capacidade de viver o presente, de recordar o passado, de prever o futuro? É neste desconcerto que Antara nos vai relatando a sua vida, na companhia intermitente da mãe.
Intercalando passado e presente, Antara descreve a sua relação com a mãe. Foca-se nas diferenças, no antagonismo existente entre ambas e na ilusão de se entenderem e de se amarem. Antara é a antítese de Tara.
“A minha mãe tem um nome lindo. Tara. Significa «estrela»… Ela chamou-me Antara «intimidade», não por adorar o nome, mas por se odiar a si própria. Queria que a vida da filha fosse o mais diferente possível da sua. Antara era, na realidade, an-Tara: Antara seria a negação da mãe.” (p. 263)

Numa escrita inteligente e directa com laivos de humor, ironia e sagacidade, vamos acompanhando a vida desta mulher (a vida que ela escolhe viver) feita de altos e baixos, de (des)entendimentos, de rejeição, de desespero, de rancor, mas também de superação, de procura de uma solução, e sobretudo de amor.

Para além da relação de amor e ódio entre mãe e filha que domina toda a narrativa, destaco ainda outros aspectos interessantes como, a problemática da doença, o respeito à identidade, a ambiguidade da maternidade e a diversidade cultural.
“ Nunca estive tão perto de a odiar como nesses anos de adolescência. Desejava muitas vezes que ela nunca tivesse nascido, sabendo que isso me aniquilaria também; percebia que estávamos profundamente ligadas uma à outra e que a destruição dela acarretaria irrevogavelmente a minha.” (p. 214)

No final da leitura, dilacerante, retenho o desespero de uma filha que tenta resgatar a memória de sua mãe como meio de afastar a proximidade da morte, ao ponto de colocar em risco o seu próprio casamento e a sua sanidade mental.
“Nunca me libertarei dela. Está-me entranhada na medula e nunca lhe serei imune.
(p. 285)


28 março, 2022

𝑨 𝑬𝒗𝒐𝒍𝒖çã𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒍𝒑𝒖𝒓𝒏𝒊𝒂 𝑻𝒂𝒕𝒆, de Jacqueline Kelly


A Evolução de Calpurnia Tate


Autora: Jacqueline Kelly
Título: A Evolução de Calpurnia Tate
Tradutora: Irene Guimarães
N.º de páginas: 246
Editora: Contraponto
Edição: Junho 2011
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (3352)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Calpurnia Tate, também apelidada por Callie Vee, é uma garota encantadora. Tem onze-anos-quase-doze e é a “única rapariga de sete irmãos”, factor relevante para a sua formação.
A história decorre no Texas, no ano de 1899, na viragem do século, numa época em que a mulher ainda se dedicava à aprendizagem das lides domésticas, aos bordados, à costura e às lições de música, de piano mais concretamente. Ora a nossa protagonista detesta estas tarefas convencionalmente femininas e prefere dedicar-se à leitura (é fascinada por Darwin, Dickens, e outros) e à investigação de animais e de plantas.
“CONTRA A MINHA VONTADE, chegara àquela idade em que uma jovenzinha deve adquirir as competências necessárias para governar o lar depois do casamento.” (p. 155)

Filha de uma família abastada que mantém a tradição de educar os filhos com determinados valores e de preparar as raparigas para a gestão do lar e da criação de uma família, Calpurnia foge habilmente a estas obrigações e refugia-se no laboratório com o avô. Curiosa e inteligente vai saber conquistar este homem, que detesta crianças e confunde os netos, e que vive num mundo onde tudo se questiona, se pensa e se regista num caderninho de apontamentos; num mundo repleto de experiências, de pesquisas, de observação, de catalogação e de análise quer de animais, de plantas, de um céu estrelado.

É neste mundo de aprendizagem, de mistério e de descoberta que Calpurnia se sente feliz ao ponto de desejar ir para a universidade (impensável para as raparigas da época que deviam casar e procriar) e tornar-se cientista. Sempre incentivada pelo avô com quem estabelece uma amizade sincera e cúmplice, Calpurnia vai evoluindo e desenvolvendo o seu espírito crítico.
“Saí pelas portas das traseiras e dirigi-me ao laboratório. Porquê perder tempo a «brincar», como me tinham ordenado, quando podia passar um tempo precioso com o avô? Ele não me considerava perigosa, quando me punha a pensar sobre alguma coisa. Na verdade, ele até me encorajava a isso.” (p. 212)

Narrado na primeira pessoa, Calpurnia seduz o leitor que se deixa facilmente envolver nas suas peripécias e na sua busca constante quer do autoconhecimento quer do conhecimento científico/naturalista.

Há razões suficientes para recomendar a leitura, sobretudo aos jovens curiosos.


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21 março, 2022

Um poema de Gastão Cruz (20/07/1941 - 20/03/2022)

 


foto minha


Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

Gastão Cruz


20 março, 2022

𝑬𝒖, 𝑴𝒂𝒍𝒂𝒍𝒂, de Malala Yousafzai com Christina Lamb

 


Autora: Malala Yousafzai com Christina Lamb
Tradutores: Maria de Almeida, Carlos Andrade e Cristina Carvalho
Título: Eu, Malala (A minha luta pela Liberdade e pelo Direito à Educação)
N.º de páginas: 351
Editora: Editorial Presença
Edição 6.ª: Outubro 2014
Classificação: Biografia
        N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Eu, Malala é um livro que documenta a vida de uma jovem paquistanesa que desde muito cedo lutou pela liberdade e pelo direito à educação para todas as crianças. Malala teve o privilégio de nascer numa família progressista que sempre a incentivou a estudar, a emitir a sua opinião, a falar publicamente e a lutar pelos seus sonhos.
O pai, homem instruído e defensor de uma educação para todos, abriu escolas para que meninos e meninas a pudessem frequentar e assim diminuir a taxa de analfabetismo no seu país.
Malala e as suas amigas adoravam ir à escola e tornaram-se excelentes alunas, mas as ameaças começaram a surgir, sobretudo sob o regime talibã e muitas meninas abandonaram a escola. Incentivada pelo pai, ativista social reconhecido por muitos e odiado por outros, percebeu que devia lutar pelo direito à educação das raparigas e tornou-se, também ela, uma ativista desafiadora do regime autoritário e opressor da liberdade das mulheres e da educação das crianças.

Narrada na primeira pessoa, a história de Malala expõe a violência, os massacres, as perseguições, o bombardeamento de escolas, a destruição de lojas, de casas… Mas expõe também a hospitalidade e a solidariedade de um povo dilacerado pelo terrorismo e a esperança de um mundo mais justo e mais livre onde as crianças possam sorrir e ser felizes.
Malala nos Agradecimentos referiu “Tive muita sorte em ter nascido de um pai que respeitou desde sempre a minha liberdade de pensamento e de expressão e que me fez parte da sua caravana da paz e de ter nascido de uma mãe que não só me encorajou, como encorajou também o meu pai, na nossa campanha a favor da paz e da educação.” (p. 346)

Esta sorte, Malala soube muito bem aproveitá-la e apesar das ameaças, de ter sido baleada e ter estado à beira da morte, esta jovem inteligente e corajosa sempre acreditou no poder das palavras, no poder da educação e é com elas que luta para que todas as crianças do mundo beneficiem de uma educação gratuita
“ – Peguemos nos nossos livros e nas nossas canetas. São as nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.” (p. 333)

Ao ler este livro, não posso deixar de ter um pensamento pelo povo ucraniano, também a sofrer sob o jugo de um ditador ganancioso e cruel que mata, bombardeia, destrói e separa famílias. Tudo pela ânsia de um império maior.


13 março, 2022

𝑴𝒂𝒅𝒂𝒍𝒆𝒏𝒂, de Isabel Rio Novo

 

Autora: Isabel Rio Novo
Título: Madalena
N.º de páginas: 199
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3346)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Nunca saio defraudada das leituras que faço dos livros de Isabel Rio Novo. Neste momento, considero-a uma das melhores escritoras portuguesas na nossa produção literária contemporânea.
O livro baseia-se em duas histórias, a da narradora e a da sua bisavó Madalena, assente em tempos distintos: o presente, o passado (1920) e o sonhado, mas que acabam por se interligar e dar sentido à narrativa.
Nesta narrativa há registos autobiográficos soberbamente mesclados à escrita ficcionada. A professora de história doente oncológica vai ocupar o seu tempo, “Tempo para esperar. E até lá, até esse desfecho qualquer, tempo para cumprir.” (p. 55) a ler as cartas dos seus antepassados e a descobrir a “viagem que com elas começava.” (p. 27).
Logo no início, somos informados da doença que afecta a protagonista, receamos pelo teor da narrativa, mas rapidamente percebemos que a urgência da protagonista não é a das “decisões expeditas”, mas sim a de descobrir “novas dimensões do tempo” e por isso opta pela arrumação de coisas velhas herdadas, partindo à descoberta de cartas, livros, fotografias…
Será então o tempo, a passagem do tempo, o fio condutor desta belíssima narrativa. É de vida e de morte, de bons e maus momentos, de sonhos, de memórias, de experiências vividas, de vivências sofridas, de novas dimensões do tempo, de “recorte de momentos, uma coleção de retalhos cheia de emendas e intervalos.” (p. 25)
É na intersecção dos vários tempos que considero que a autora brilhou. A narrativa balança harmoniosamente entre a história da narradora e a da Madalena Brízida, a bisavó, conduzindo o leitor nos meandros da doença e da crise matrimonial, do amor e do desamor, dos amores recalcados. A narrativa é construída no paralelismo destas duas personagens femininas e no final tudo faz sentido.
Gostaria ainda de focar dois aspectos que considerei interessantes. O primeiro é a referência, no enredo, de dois títulos de obras da autora e a segunda é a excelente selecção da obra “Les feuilles mortes”, da pintora surrealista Remédios Varo para a capa. Pormenores que evidenciam a preocupação com os detalhes e com a concepção de uma obra de arte que afinal o livro também é.



06 março, 2022

Cantata de Paz, Sophia de Mello Breyner Andreson

 

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Cantata de paz


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


"Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar" é o refrão do poema escrito para uma vigília na Capela do Rato, em Lisboa, contra a guerra colonial e a favor da liberdade. Um poema que dá voz à revolta e que Francisco Fanhais musicou e cantou em 1970. 

Hoje, que a Ucrânia está a ser invadida e arrasada, é urgente revisitá-lo. 


04 março, 2022

𝑶 𝑷𝒊𝒓𝒂𝒕𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑭𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔, de Tiago Salazar



Autor: Tiago Salazar
Título: O Pirata das Flores
N.º de páginas: 180
Editora: Oficina do Livro
Edição: Novembro 2021
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3350)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A possibilidade de “parir um escrito”, este escrito, como refere o autor no prólogo chegou-lhe por email “Assunto: pirata. Conteúdo: açoriano, das Flores, Lages. Nome: António de Freitas. «Tens aqui o teu próximo livro», escreveu em apenso. Doravante era comigo.” (p. 11) e assim surgiu um romance histórico e de aventura que relata a viagem de António e do seu amigo Fernão que descontentes com a “vida beata” que levavam no Seminário de Angra e almejando ambos um futuro melhor, decidiram fugir e partir em busca de riqueza.
“Duas almas imberbes entregues a um rebanho de padres excitados pela castidade, obrigados a actos de contrição e a limpar as culpas com penitências (…) veio a nascer este ímpeto de escaparmos ao purgatório da ilha.” (p. 19)
Fernão que gosta de ler e de escrever vai ter a função de narrar todas as peripécias de pirataria, de crime, de corrupção, de libertinagem …
Gosto da escrita cuidada do autor e do rigor como enquadrou o enredo no tempo e no espaço históricos e culturais. Estruturado em duas partes – Uma Longa Jornada e A Oriente – o romance descreve, na primeira, as aventuras extraordinárias, por vezes cruéis, da viagem nos mares e na segunda, a vida “pecaminosa” levada em Macau rodeados de prazeres, mas também de malvadezas, de negócios ilícitos mantidos durante anos (tráfico de ópio, casas de prazer e de jogo). Tudo em prol de um enriquecimento louco, ávido e sem escrúpulos.
“Assistíamos e cometíamos estas vis malvadezas com confessa alegria, nem que fosse pelo sucesso de arrecadarmos os espólios, sem nos vermos na triste condição dos espoliados, “ (p. 74)
e
“O ingénuo aspirante a seminarista dera lugar ao astuto bandido, nada lhe molestando a consciência.” (p. 145)
O carácter dos dois piratas açorianos retratado no romance, transporta-nos para o tempo dos descobrimentos, em que os portugueses foram arrojados, inovadores e aventureiros.

27 fevereiro, 2022

Slava Ukraini

 


@carolinabranco


Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.


PRIMO LEVI, Se isto é um homem (1947)

19 fevereiro, 2022

𝑯𝒆𝒊-𝒅𝒆 𝒂𝒎𝒂𝒓-𝒕𝒆 𝒎𝒂𝒊𝒔, de Tiago Salazar

 



Autor: Tiago Salazar
Título: Hei-de amar-te mais
N.º de páginas: 131
Editora: Oficina do Livro
Edição: Maio 2013
Classificação: Diário
N.º de Registo: (3066)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Hei-de amar-te mais é um diário íntimo, onde o autor revela a sua paixão pela mulher, Cristina, pelos filhos, pela vida. É um belíssimo livro que partilha com o leitor os registos de um viajante ao longo de seis anos, sobre momentos importantes da sua vida, sobre a partida e o desejo de regresso, sobre a ausência e essencialmente sobre o seu relacionamento com a mulher, os filhos e os seus escritores maiores, como Clarice Lispector, Pablo Neruda, Henry Miller, Céline, entre outros.
É um livro de reflexões, de poemas, de fragmentos, de memórias. É uma autêntica declaração de amor. Uma ode ao amor.
É nas cartas endereçadas à mulher pelo autor que o leitor se deixa inebriar e se perde em divagações porque o amor descrito é belo, sincero, verdadeiro. Numa escrita sensível e apaixonada o autor revela um amor renovado diariamente, mesmo que à distância, alimentado por palavras e actos, celebrado como forma de vida intensa
“ Tento parar o olhar na maior beleza da praia, a luz do entardecer, mas o olhar nunca se detém como a luz dispersa nas sombras das enseadas. A beleza maior não está aqui derramada. A beleza, o amor, é o que somos quando a maré se aquieta e todos os fundos e meandros se revelam. Quando dois amantes afastados no acaso do mundo pensam amorosamente e infinitamente um no outro. Beijam-se e amam-se de memória no preciso instante em que a onda lânguida recolhe do mar como um longo abraço.” (p. 33)



15 fevereiro, 2022

𝑬𝒎 𝑸𝒖𝒂𝒓𝒆𝒏𝒕𝒆𝒏𝒂 – 𝒖𝒎𝒂 𝒉𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝒂𝒎𝒐𝒓, de José Gardeazabal



Autor: José Gardeazabal
Título: Quarentena - Uma História de Amor
N.º de páginas: 205
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3337)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Livro desafiador porque nem tudo está escrito. É preciso ler nas entrelinhas para captar toda a mensagem. Num tempo de confinamento obrigatório, a mente entra em ebulição. Tudo é revisto, tudo é analisado ao pormenor, tudo é questionado, tudo… mesmo o amor, sobretudo o fim de um amor.

Em Quarentena – uma história de amor, um casal que decidiu separar-se é obrigado a ficar em casa confinado. Ora, ficar em quarentena exige proximidade, partilha de espaços, vida em comum…
“Tínhamos decidido que um de nós faria a mala e abandonaria o apartamento. (…) Penduraram-nos um selo do lado de fora da porta.
Um Casal
0 Filhos
(…)
A nossa relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo – e agora isto: dão-nos mais tempo, os dois trancados no mesmo espaço.” (pp. 15 e 16)
A partir daqui, ao longo de 40 dias, temos o narrador que nos relata diariamente a partilha do espaço fechado com Mariana, a (ex)companheira, os seus pensamentos, os seus desejos, algumas boas memórias vividas a dois, a sua incompreensão do fim do relacionamento, a sua visão da política, da pandemia, da contradição dos números, o vazio das ruas, o sofrimento dos outros, a morte de muitos…

Há ainda registo dos diálogos, muito breves. Das dúvidas que se vão colocando sobre a situação actual, sobre o passado e sobre o futuro. A sós? Juntos? Afinal “Mariana é bonita”; “Mariana tem os olhos bonitos”, a boca também, mas está escondida pela máscara.

Ao longo dos dias, o narrador reaprendeu a olhar Mariana, quem sabe a amá-la… “Muita gente esquece o amor e esquece a história por detrás do amor, mas decidi não esquecer.” (p. 107)

Nesta quarentena (e certamente em todas as outras) há sempre uma televisão ligada, mas há sobretudo tempo para recordações, e das gavetas da memória surgem imensas referências literárias, artísticas, cinematográficas, musicais, única forma de se manter lúcido perante tanta incompreensão.

Numa escrita singular porque muito própria, o autor coloca o narrador numa posição de observador o que lhe permite interligar a realidade (distanciamento, factos, números), a introspecção (sentimentos, desejos) e as memórias (vivências conjugais).

Sendo este o primeiro livro que leio deste autor, fica a promessa e o interesse de o descobrir noutras leituras.



14 fevereiro, 2022

Dia de S. Valentim



                                   Pormenor da escultura Cupido e Psique, Museu do Louvre




"Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

Al Berto, in Lunário




13 fevereiro, 2022

𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑫𝒊𝒂, 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆, de Olga Tokarczuk

 



Autora: Olga Tokarczuk
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Título: Casa de Dia, Casa de Noite
N.º de páginas: 347
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: Junho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Para quem já conhece um pouco a obra da autora, não estranha a estrutura deste livro. Como se de um puzzle se tratasse, a narrativa desfila em histórias que se vão alternando, cruzando, completando. Fica a ideia que tal como para as fotografias tiradas por R. será necessário “compor com todas elas um só céu”, (p. 347) as suas histórias também só farão sentido depois de todas lidas.

É um livro que levanta sobretudo questões e que raras vezes dá respostas, que propõe reflexões, que inquieta e obriga a interiorizar certas vivências e que abre novas perspectivas sobre temáticas como a relação do ser humano com o seu próximo, com os animais, com a natureza e sobre a inevitável passagem do tempo, a imortalidade, a contemplação, o silêncio, …

A narradora vai descrevendo os poucos habitantes de Nowa Ruda, “Cidade do vale, das encostas e dos cumes. (…) Cidade onde o anoitecer chega subitamente vindo das montanhas e desaba sobre as casas como uma monstruosa rede de borboletas. (…) Cidade silesiana, prussiana, checa, austro-húngara e polaca. Cidade de periferias. (…) Cidade onde o tempo anda à deriva, as notícias chegam com atraso e os nomes confundem.” (pp. 338 e 339).

A sua descrição incide na singularidade de certas personagens e nas suas histórias fabulosas; nos vários enredos anedócticos e por vezes incompletos; nos relatos oníricos e transcendentes; na explanação de várias matérias históricas, sociais, cosmológicas e ambientais.

Toda a sua escrita revela um estilo e um olhar muito próprio do mundo, uma sensibilidade por outras formas de vida, por outras formas de encarar a existência. É uma escrita que apresenta as coisas de uma forma inabitual, que faz pensar e que provoca imensas dúvidas.
“ - o nosso mundo é povoado de pessoas adormecidas que morreram e sonham que estão vivas.” (p. 166)

Há histórias de uma beleza estonteante das quais sublinhei e retirei imensas passagens.


05 fevereiro, 2022

𝑻𝒓ê𝒔 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Umberto Eco e Eugenio Carmi

 


Autor: Umberto Eco
Ilustrador: Eugenio Carmi
Título: Três Contos
N.º de páginas: 113
Editora: Gradiva
Edição: Junho 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Três contos é uma belíssima união entre as palavras de Eco e as ilustrações de Carmi. Os traços abstractos e a paleta de cores estão em simbiose com a fantasia e a ironia presentes nos textos.
Três histórias curtas e directas, com temas actuais, como a guerra e a paz; a competitividade e a tolerância; poluição, consumo e consciência ambiental, que nos fazem reflectir.
Sendo o texto muito curto, não posso nem quero desvendar o teor dos contos. Transcrevo a última frase da sinopse que penso traduzir muito bem o conteúdo do livro “ Do encontro extraordinário entre um narrador e um artista, três histórias sobre o respeito e a esperança, para quem ama ler com a imaginação.”



03 fevereiro, 2022

𝑨𝒖𝒔𝒄𝒉𝒘𝒊𝒕𝒛, 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝑻𝒓𝒂𝒏𝒒𝒖𝒊𝒍𝒂, de Primo Levi

 

Autor: Primo Levi
Tradutores: Diogo Madre Deus e Maria do Rosário Pedreira
Título: Auschwitz, Cidade Tranquila
N.º de páginas: 166
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Auschwitz, Cidade Tranquila integra dez contos e dois poemas. Mais uma obra de não-ficção que nos conta o que aconteceu com o rigor que Primo Levi já nos habituou e que deve ser lido para que a memória não se apague. A verdade dos factos aqui relatada foi vivida, sofrida e observada. O autor, após a libertação, para se redimir da dor que as memórias dos campos de concentração lhe causam, tenta escrever, tenta testemunhar tudo o que viveu, tudo o que observou. Foi um período difícil, as consequências da sobrevivência foram devastadoras.

Estes contos percorrem um tempo de cerca de 30 anos. Há contos que narram de forma inequívoca o que viveu em Auschwitz, outros mais ficcionados, dizem-no também, mas é nas entrelinhas que descortinamos os factos ocorridos no Lager.
“A trinta anos de distância torna-se difícil reconstituir a espécie de exemplar humano que correspondia, em novembro de 1944, ao meu nome ou melhor ao meu número174517.”      (p. 97, Cério)

O conto que dá o título à obra, é um paradoxo. Com tudo o que sabemos, e com tudo o que Levi viveu e presenciou, como justificar o epíteto de “cidade tranquila”? Levi ajuda-nos a compreender: se para uns foi o inferno, para outros, os que colaboraram, os que não quiseram ver foi efectivamente uma cidade tranquila.

A apresentação de Fabio Levi e Domenico Scarpa, responsáveis pela organização do livro, é clara quanto à intenção de Primo Levi ao escrever (e muito) sobre o Lager: “Vítima, espectador e testemunha, Levi também sente que as suas descrições, a sua narração e a sua pesquisa nunca chegam a ser suficientes: por mais transparentes, precisas e perspicazes que elas sejam, é sempre pouco face à demasiada dor, à dor excessiva daquele lugar. É por isso que ao longo dos anos experimentará tantos pontos de vista sobre Auschwitz: a fim de o restituir no modo mais absoluto possível.” (pp.15 e 16)


É por isso que o leio. É por isso que recomendo as suas obras.



30 janeiro, 2022

𝑽𝒂𝒎𝒐𝒔 𝑳𝒆𝒓! 𝑼𝒎 𝑪â𝒏𝒐𝒏𝒆 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒐 𝑳𝒆𝒊𝒕𝒐𝒓 𝑹𝒆𝒍𝒖𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆, de Eugénio Lisboa

 


Autor: Eugénio Lisboa
Título: Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante
N.º de páginas: 132
Editora: Guerra e Paz
Edição: Março 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3310)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este pequeno livro é um autêntico convite à leitura para leitores, leitores compulsivos e sobretudo leitores relutantes. Para estes últimos, a quem efectivamente se dirige o livro, apresenta uma lista de 50 livros, de 35 autores portugueses.
Eugénio Lisboa começa por apresentar a sua experiência pessoal como leitor, os seus gostos literários, o seu método de leitura e indica muitas dicas interessantes.
“ Já então, eu vivia dentro dos livros” (p. 34),
“O gosto da leitura é um dos mais valiosos presentes que a vida nos pode oferecer.” (p. 46)
e
“(…) desde muito novo, senti que a leitura, para ser proveitosa, não devia encontrar um leitor passivo e apático. O leitor deve reagir, deve focar um olhar dinâmico, enriquecedor e crítico naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê.” (p. 70)
De seguida, explica a razão da sua escolha e argumenta que para convencer quem ainda não gosta de ler, a “isca” tem de incluir livros mais acessíveis e termina com uma breve apresentação, um “vol d’oiseau”, sobre os autores da lista.
“As pessoas que nunca adquiriram o gosto de ler não fazem ideia do prazer incomensurável que desperdiçam.” (p. 46)

Cita vários escritores, não incluídos na lista, que podem também cativar leitores: Maupassant, Simenon, Somerset Maugham, Kipling, Edgar Poe, Mark Twain, Domingos Monteiro, Torga ou Rodrigues Migueis – “todos estes grandes escritores são perfeitas “iscas” para vencer o fastio do leitor mais renitente” (p. 55)
Ao longo da sua exposição, o autor indica os seus autores de eleição portugueses e estrangeiros, e não evita algumas farpas a Gabriela Llansol, a James Joyce e a Agustina Bessa Luís, sendo as desta última, excessivamente duras, na minha opinião.

Não sendo eu uma leitora “relutante” posso afirmar que este pequeno livro é uma pérola para leitores viciados. Da sua leitura retirei algumas boas sugestões, confirmei outras tantas possíveis leituras e sublinhei imensas frases interessantes!

“E, agora, VAMOS LER!” (p. 132) já que “A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica” (p. 42)



27 janeiro, 2022

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 


Holocaust Encyclopedia - United States Holocaust Memorial Museum
(La selección de judíos húngaros en el campo de exterminio de Auschwitz-Birkenau, mayo de 1944.)



Fila Escura

Será possível escolher-se um percurso mais absurdo?
No Corso San Martino há um formigueiro
A meio metro dos carris do elétrico,
E precisamente na cabeça do carril
Estende-se uma longa fila escura,
Toca-se uma com outra formiga,
Talvez a espiar a sua vida ou fortuna.
Enfim, estas estúpida irmãs 
Obstinadas lunáticas obreiras
Escavaram na nossa a sua cidade,
Traçaram sobre os nossos os seus carris,
E percorrem-nos sem receio
Apressadas atrás dos seus subtis afazeres
Sem se preocuparem com
        Não quero escrevê-lo,
Não quero escrever sobre esta fila,
Não quero escrever sobre nenhuma fila escura
                     
                                                                     13 de agosto de 1980

Primo Levi,  Auschwitz, Cidade Tranquila