A adaptação cinematográfica do poema épico de Homero, A Odisseia, por Christopher Nolan, é uma obra monumental de quase três horas que passam sem se dar por elas. Nolan consegue prender o espectador do início ao fim com um ritmo que desafia o tempo. Contudo, e na minha simples opinião, o realizador peca, por vezes, pelo excesso, com cenas de acção exageradas ou sequências visuais que se estendem mais do que o necessário. Ainda assim, a força das personagens principais resgata a alma da narrativa.
O filme trabalha com precisão a sua metáfora central: um ouvido absoluto que se torna mão leve. Niki White, afinador de pianos com hiperacusia, transforma a sensibilidade extrema numa arma capaz de abrir cofres. Daniel Roher filma o som com delicadeza musical. É a linguagem unificadora desta história. Cada silêncio entre Niki e Ruthie, cada nota de piano, cada ruído que o fere ou o salva constrói uma intimidade que nenhum diálogo alcançaria.
A hiperacusia faz do mundo um território agressivo, mas também molda a forma como Niki o habita. A sua vulnerabilidade transforma cada gesto numa batalha íntima. Por isso, o relacionamento com Ruthie torna-se o verdadeiro eixo do filme. Quando ela fala, quando o silêncio se instala, quando o piano surge como refúgio, oferece‑lhe uma frequência emocional onde o mundo deixa de o ferir.
Dusty Hoffman, numa interpretação luminosa, funciona como contraponto moral e afectivo. Como mentor, percebe que o talento de Niki é também uma ferida. A sua presença bem‑disposta e ternurenta abranda a acção, dá‑lhe humanidade; afina-a. O desempenho é irresistível.
O desfecho de Tuner é apoteótico. Quando Niki se senta ao piano, regressa a si próprio. O gesto é quase sagrado; as mãos avançam antes do ouvido, como se o corpo guardasse uma memória que o trauma não conseguiu apagar. Há um contraste arrebatador entre o silêncio pesado que o envolve, a música que começa a emergir, e o rosto de Ruthie, que o observa com aquele sorriso suave, emocionado, quase incrédulo, mas esperançoso. Ele não voltou a ouvir o mundo; voltou a ouvir o que importa, porque “o Mi bemol está desafinado”.





















