11 outubro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 


Quinta-feira, dia 8 de Outubro, ainda imbuídos do entusiasmo da Onda Literária, na cafetaria do Centro de Artes, decorreu mais um encontro do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
O encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos alguns dos 7 textos escritos e discutimos alguns pormenores que suscitaram dúvidas.

Para o Clube de leitura, apresentámos algumas das nossas leituras no âmbito da Onda Literária, entre outras. As leituras dos 11 participantes foram ricas, diversificadas e proporcionaram outras tantas descobertas e fizeram crescer a maioria das nossas listas de livros a ler.
Como também já é habitual, e como o refiro sempre, lemos, ouvimos, sorrimos e maravilhámo-nos.
A literatura tem esse poder! A partilha de bons livros encanta-nos!
Para o próximo encontro, no dia 5 de Novembro, vamos ler a nossa Lídia Jorge.

Eis os livros apresentados na sessão e que vos convido a descobrirem:

. Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho;
. Compêndio para desenterrar nuvens, de Mia Couto;
. Uma longa viagem com José Saramago, de João Céu e Silva;
. O Sangue da Buganvília, de Ana Paula Tavares;
. O Avô tem uma borracha na cabeça, de Rui Zink;
. Anibaleitor, de Rui Zink;
. Um Tempo a Fingir, de João Pinto Coelho;
. O Mundo às Avessas, de João Céu e Silva;
. Natália Correia, entre o riso e a paixão, de Maria João Martins;
. A Mulher por detrás da parede, de Filipa Fonseca Silva;
. Moral - a Invenção do Bem e do Mal, de Hanno Sauer;
. O Fim de um Romance, de Péter Nádas;
. Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane;
. Os nossos avós, de Andrew O'Hagan;
. A Parede, de Marlen Haushofer;



09 outubro, 2026

Onda Literária | 2, 3, 4 e 5 de Outubro 2026

 


       








                                  








A 4.ª Edição da Onda Literária promovida pelo Centro de Artes  e Biblioteca Municipal de Sines ofereceu-nos um excelente programa, superando largamente a edição anterior. Foram quatro dias intensos de iniciativas e de partilha de livros, leituras, poesia, conversas, passeios literários, fotografias, sorrisos, provas de vinho e abraços.
Descobri novos autores, confirmei valores certos da nossa literatura portuguesa e também angolana.
Este ano, tive o privilégio de moderar o encontro com João Pinto Coelho, um escritor que muito aprecio. Cada um dos  seus cinco livros merece ser lido. 

Fiquei muito mais rica com as aprendizagens adquiridas e feliz com os momentos vividos. 

O público compareceu, mas constatei, mais uma vez, que um excelente Festival Literário não enche recintos. 
Até pró ano!

08 outubro, 2026

Anne Carson Vence Prémio Nobel da Literatura 2026

 


Anne Carson, especialista em Literatura Clássica e Comparada, é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2026. A Academia Sueca destaca a “obra ousada e criativa que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.

A Academia acrescenta ainda que “ao longo de toda a sua carreira, Anne Carson conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades. Quase toda a sua produção literária se tem centrado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados. A própria autora identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra”.

Em Portugal estão publicadas algumas das suas obras:

Águalisa; Autobiografia do Vermelho; Eros, amargo e doce: um ensaio; Homens nas Horas Vagas; A Beleza do Marido e Vidro, Ironia e Deus.

A escritora de 76 anos é a segunda autora canadiana a ser laureada após Alice Munro, em 2013. Foi a primeira mulher a ganhar o TS Eliot Prize.


06 outubro, 2026

João Pinto Coelho | Onda Literária





João Pinto Coelho escreve a partir de uma ferida histórica que conhece bem.
 Em Perguntem a Sarah Gross (2015), Os Loucos da Rua Mazur (2017), Um Tempo a Fingir (2020), e Aguarela de Paris (2026), o seu olhar fixa-se na maldade humana, na crueldade que atravessa épocas, sustentado por investigação rigorosa que desenvolveu em  Auschwitz durante anos.
Mas  em 2022, desvia-se dessa temática e regressa a si com Mãe, Doce Mar. Aqui, abandona a sombra da História para entrar na luz íntima da memória pessoal. É um livro autobiográfico, libertador, detentor, também ele, de uma escrita bela e emotiva.

E Sines conhece bem este percurso criativo. O João Pinto Coelho esteve em Sines pela primeira vez no dia 08 de abril de 2016, na livraria A Das Artes quando trouxe consigo essa forma tão própria de ler o passado e de conversar com o presente, apresentando-nos o surpreendente Perguntem a Sarah Gross; regressou à livraria em 2017 para nos falar de Os loucos da Rua Mazur; à Escola Sec Poeta Al Berto, em 2023 e agora aqui. Na 4.ª edição da Onda Literária.

Nesta  quarta presença, traz-nos Aguarela de Paris, onde a escrita se afina, ainda mais poética, como uma claridade, ou melhor, uma luminosidade própria da arte, porém  assombrada pela dor e pelo sofrimento que atravessam Auschwitz. Um romance denso, de contrastes, sedutor e exigente, que começa na Escócia e atravessa outras geografias e percorre os anos mais hediondos do século passado. Um livro que nos prova, mais uma vez, que a sua escrita é  capaz de pintar a luz e a sombra da alma humana com a mesma mestria.


02 outubro, 2026

Um Verão com Platero

 

                                                          IA - Copilot - 16.09.2026



Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: " Platero", e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal ...

Eu conhecia bem aquele trote alegre, mas, naquele dia, ele foi música de boas-vindas para a família que recebíamos no alojamento rural.
Nascidos e criados entre o betão cinzento da grande cidade, os pequenos irmãos nunca tinham visto um burro de perto. Para eles, o mundo media-se pela altura dos prédios e o único reino animal que conheciam, resumia-se aos pombos do parque e ao cão do vizinho. Nunca tinham visto um burro de perto. Para eles, os animais do campo eram figuras estáticas nas páginas dos livros.

Lembro-me de como recuaram, fascinados e temerosos, quando Platero se aproximou. Mas a doçura daquele olhar de azeviche desfez qualquer receio. Vi a mais nova estender a mão pequenina, tocando no pêlo macio e ouvi a gargalhada do irmão ao sentir o sopro morno do focinho na sua palma.

Platero, habituado aos meus silêncios e à calmaria do campo, rendeu-se imediatamente àquela energia nova. Descobri que ele adorava aqueles mimos ruidosos dos nossos hóspedes. Com uma paciência infinita, o meu velho amigo deixava que as crianças lhe fizessem tudo o que a imaginação ditava; aceitava com bonomia as coroas de papoilas que lhe penduravam nas orelhas; caminhava devagar para acompanhar os passos deles e deitava-se na erva, servindo de almofada viva para as brincadeiras da tarde. Havia uma cumplicidade dócil entre eles e Platero respondia a cada risada e a cada gritinho com um abanar de cauda e um pequeno relincho que fazia, ainda mais, gargalhar as crianças. Pela primeira vez, os ecrãs dos telemóveis e os jogos de vídeo foram substituídos pelo cheiro a terra molhada e pela amizade pura de um animal que os entendia sem palavras.

Mas o tempo não pára. O vento de fim de Verão começou a soprar mais fresco ao entardecer e a bagagem foi novamente arrumada na mala do carro, desta vez com algumas pedrinhas do riacho e flores secas guardadas como tesouros.

Na manhã da partida, assisti à despedida silenciosa. A menina abraçou-se ao pescoço do burro, chorando baixinho, enquanto o irmão lhe oferecia a última maçã com os olhos marejados. Platero, sentindo a tristeza no ar, permaneceu imóvel, encostando o focinho húmido nas mãos deles, soltando um sopro demorado. Ficámos os dois na vedação a vê-los partir, com as orelhas caídas, vendo o carro desaparecer.

De volta à rotina da cidade, os miúdos passaram os últimos dias em casa imersos numa súbita saudade, estranhando o silêncio do apartamento e sentindo a ausência daquele burrito que lhes roubara o coração, enquanto aqui, o prado também se recolhia na mesma nostalgia.

Passaram as férias, e, com as primeiras folhas amarelas, as crianças regressaram ao colégio. Solidão. O sol da casa parece vazio. Na imaginação soam gritos longínquos e risos de outrora...

17.09.2026

GR

Nota: Trata-se de um exercício de escrita criativa. O início e o final, em itálico, foram retirados da obra Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez 

29 setembro, 2026

26 setembro, 2026

Sunset de Leitura

 








Duas horas perfeitas.
A primeira de leitura silenciosa; a segunda de convívio.
A junção de livros, vinho, música, conversa, amigos funciona como terapia, como evasão.
Esta edição do Sunset de leitura, dinamizado pela Biblioteca Municipal Manuel José ‘do Tojal’ soube a pouco. Haverá, certamente, mais encontros. 




24 setembro, 2026

Literatura Impura






É na Literatura Impura, aquela que sangra, corrói e nos deixa a meditar que o prazer de ler se torna aquela Felicidade Clandestina - um vício sublime que nos despe a alma a cada página, primeiro adiada, depois devorada.

(Clin d’œil a Clarice Lispector) 

Nota: Participação no passatempo/oferta da t'shirt  promovido por @literatura_impura. 

23 setembro, 2026

Santo António - O Casamenteiro de Lisboa, de Ruben Alves

 


119 min. |M/12 |  Comédia | 2026 |  POR
Realização: Ruben Alves
Elenco: Rita Blanco, Joaquim Monchique, Isabel Abreu, Maria Rueff,Maria João Bastos, Rui Mendes, Lídia Franco, João Catarré, Albano Jerónimo, Joaquim de Almeida, Ana Bola, Miguel Amorim, Pedro Nercessian, Paco León, Inês Aires Pereira,


Com um elenco de luxo, a nova comédia de Ruben Alves centra-se nos Casamentos de Santo António, uma tradição profundamente lisboeta. Rita Blanco e Joaquim Monchique interpretam Carmo e Valentim, dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa responsáveis pela organização do evento. Perante a pressão de uma multinacional francesa interessada em assumir a sua gestão, os dois resistem à ideia de entregar a outros aquilo que sentem pertencer à cidade. Para o conseguirem, terão de se superar e encontrar uma forma de modernizar a tradição sem lhe retirar a identidade.

Por detrás da leveza e do humor, porém, o filme deixa uma crítica implícita: a perda gradual da identidade de uma cidade. As tradições modernizam-se, os pequenos cafés e as lojas antigas desaparecem, deixamos de conhecer os vizinhos e a cidade transforma-se para agradar a quem chega, esquecendo por vezes quem nela vive.

Mas há também um olhar cúmplice sobre os que resistem. Os que continuam a abrir a porta do pequeno café, a conhecer os vizinhos pelo nome, a guardar os rituais e as memórias de uma cidade que ainda reconhecem como sua. 




22 setembro, 2026

Jorge Palma (1950 - 21.09.2026)

 

    


A Gente Vai Continuar

Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

_______


Frágil

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil

Faz-me um sinal qualquer
Se me vires falar de mais
Eu às vezes embarco
Em conversas banais
Frágil
Eu sinto-me frágil

Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil

Está a saber-me mal
Este whisky de malte
Adorava estar in
Mas estou-me a sentir out
Frágil
Eu sinto-me frágil

Acompanha-me a casa
Já não aguento mais
Deposita na cama
Os meus restos mortais
Frágil
Eu sinto-me frágil

Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil

_________


Deixa-me Rir

Deixa-me rir
Essa história não e tua
Falas da festa, do sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não e teu o que queres vender

Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso

Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a mascara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

_______

Na Terra dos Sonhos 

Andava eu sem ter onde cair vivo
Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor Doutor
Ai de mim não era nada daquilo que eu queria
Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ia de mal a pior

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Ai! Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão voltou, não me largou a mão um minuto sequer

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos,escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Se queres ver o mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar p´ra fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar
E se ás duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance e tens de o encontrar

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és,ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos,escuta bem o coração se é que queres ir para lá morar

20 setembro, 2026

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB)





O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB) foi instituído, em 1982, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e destina-se a distinguir anualmente uma obra de ficção (romance ou novela) de um autor português publicada no ano anterior.

O Prémio tem o valor de 15.000 euros e conta actualmente com o patrocínio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Câmara Municipal de Grândola, Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Camões.


Lista cronológica completa de todos os vencedores

.2025 - Patrícia Portela, Manual para Andar Espantada por Existir
.2024 - Teolinda Gersão, Autobiografia Não Escrita de Martha Freud
.2023 - Djaimilia Pereira de Almeida,  Toda a Ferida é uma Beleza
.2022 - Lídia Jorge,  Misericórdia
.2021 - Julieta Monginho, Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio
.2020 - Valter Hugo Mãe, Contra Mim
.2019 - Mário Cláudio, Tríptico da Salvação
.2018 - Hélia Correia, Um Bailarino na Batalha
.2017 - H. G. Cancela, As Pessoas do Drama
.2016 - Ana Margarida de Carvalho, Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato
.2015 - Paulo Varela Gomes, Era Uma Vez em Goa
.2014 - Mário Cláudio, Retrato de Rapaz
.2013 - Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar
.2012 - Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda
.2011 - Ana Teresa Pereira, O Lago
.2010 - Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
.2009 - Rui Cardoso Martins, Deixem Passar o Homem Invisível
.2008 - Julieta Monginho, A Terceira Mãe
.2007 - Filomena Marona Beja, A Sopa de Jericó
.2006 - Maria Velho da Costa, Myra
.2005 - Francisco José Viegas, Longe de Manaus
.2004 - Vasco Graça Moura, Por Detrás dos Magnólios
.2003 - Mafalda Ivo Cruz, O Vermelho do Azul
.2002 - Lídia Jorge, O Vento Assobiando nas Gruas
.2001 - Abdulai Sila, A Última Tragédia
.2000 - Maria Gabriela Llansol, Amigo e Amiga
.1999 - António Lobo Antunes, Exortação aos Crocodilos
.1998 - Raduan Nassar, Um Copo de Cólera
.1997 - José Saramago, Todos os Nomes
.1996 - Augusto Abelaira, Outrora Agora
.1995 - Teolinda Gersão A Casa da Cabeça de Cavalo
.1994 - Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde
.1993 - Vergílio Ferreira, Na Tua Face
.1992 - Helena Marques, O Último Cais
.1991 - José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo
.1990 - Maria Gabriela Llansol, Um Beijo Dado Mais Tarde
.1989 - Paulo Castilho, Fora de Horas
.1988 - João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas
.1987 - Vergílio Ferreira, Até ao Fim
.1986 - David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz
.1985 - António Lobo Antunes, Auto dos Danados
.1984 - Mário Cláudio, Amadeo
.1983 - Agustina Bessa-Luís, Os Meninos de Ouro
.1982 - José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães



19 setembro, 2026

Patrícia Portela vence Grande Prémio da APE 2025

 


Na 44.ª edição do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE/DGLAB) foi anunciada como vencedora a Autora Patrícia Portela, com a obra Manual para Andar Espantada por Existir, editada em 2025, pela Editorial Caminho.

O júri, coordenado por José Manuel de Vasconcelos e constituído por Ana Paula Arnaut, Cândido Oliveira Martins, Helena Carvalhão Buescu, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Teles de Menezes, considerou a obra "uma homenagem a Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira e um notável exercício de imaginação e escrita."



16 setembro, 2026

𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂, de Ana Paula Tavares



Autora: Ana Paula Tavares
Título: O Sangue da Buganvília
N.º de páginas: 247
Editora: Caminho
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3812)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Sangue da Buganvília, de Ana Paula Tavares, é um livro que exige vagar. Cada crónica nasce da terra e devolve ao leitor a memória de um país marcado por perdas profundas. A escrita da autora angolana é depurada, sensorial e feita de silêncios que revelam muito mais do que qualquer discurso directo. Aqui, a crítica social e histórica surge nos detalhes, nos objectos e nas vozes que atravessam o quotidiano.

A buganvília, bela metáfora, é o fio condutor deste livro. Esta árvore que cresce junto às casas e resiste ao calor e ao tempo, funciona como uma memória viva; guarda histórias, revela palavras e sonhos, protege rituais ancestrais e acompanha a vida das mulheres que sustentam o mundo através de um trabalho silencioso. Em cada crónica, há como um ramo que se estende para o passado e outro que procura o futuro. A árvore torna-se, assim, símbolo de continuidade, de força discreta, de permanência.

Grande parte das crónicas regressa a uma Angola ferida pela destruição, pela guerra, pela colonização e por políticas que teimam em não conseguir erguer o que foi destruído. As imagens criadas pela autora são simples, mas carregam uma verdade profunda. A dor aparece como uma sombra constante, a esperança surge num gesto e a memória funciona como a raiz que insiste em não morrer.

No centro desta resistência estão as vozes femininas, que atravessam o livro com uma firmeza impressionante. Estas mulheres são as verdadeiras guardiãs de saberes antigos e de práticas que mantêm a comunidade unida. Ana Paula Tavares escreve sobre elas com precisão e delicadeza, oferecendo-nos imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. A sua crítica surge de forma subtil, uma marca deixada por quem viveu demasiado para acreditar em soluções fáceis.

Ler O Sangue da Buganvília é entrar num território onde as recordações se entranham na própria terra. As crónicas avançam como ramos que procuram a luz, e penetram “na linguagem secreta das coisas da alma” como escreve a autora e destacou, também, Tania Macêdo no prefácio. O “sangue” do título evoca inevitavelmente o sangue derramado na história de Angola, um traço profundo que atravessa gerações e permanece vivo na identidade do seu povo.


10 setembro, 2026

Couture, de Alice Winocour


       

104 min. | M/14 | Drama | 2025 | França, USA
Realização e Argumento: Alice Winocour
Elenco: Angelina Jolie, Ella Rumpf, Anyier Anei, Finnegan Oldfield, Garance Marillier, Guillaume Marbeck, Louis Garrel, Sean Gullette, Vincent Lindon, Mona Tougaard, Mika Schneider, Suzy Menkes, Finnegan Oldfield , Aurore Clément


No centro de Couture emergem três mulheres que carregam mundos distintos: Maxine confrontada com a fragilidade do corpo no meio da criação de um filme; Ada, jovem sudanesa que aceita o trabalho de modelo para sustentar a família que ficou longe; e Angèle, que entre maquilhagens, tenta escrever um livro e encontrar uma voz própria. Cada uma vive num ritmo diferente, com urgências e sonhos distintos; cada uma tenta costurar a própria vida, com linhas que às vezes se rompem.
Couture transforma estas três trajectórias num gesto de resiliência, de amizade e de união.

E no final, quando a tempestade irrompe em pleno desfile, o cenário transforma-se e funciona como catarse. Varre o supérfluo, limpa o brilho artificial, revela o essencial. Ali, permanece, apenas, a força silenciosa de três vidas como se o mundo finalmente coincidisse com a sua verdade interior.




07 setembro, 2026

𝑨𝒕𝒐𝒔 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒐𝒔, de Han Kang


Autora: Han Kang
Título: Atos Humanos
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 227
Editora: D. Quixote
Edição(2.ª): Outubro 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3669)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Fechei o livro e fiquei a olhar para ele. O silêncio do meu quarto pareceu-me pesado, quase sufocante. Há leituras que nos deixam a cogitar no escuro. Como é possível que a crueldade encontre sempre novas formas de se repetir? Como é que a humanidade alberga, ao mesmo tempo, uma violência infinita e uma resiliência tão silenciosa?

O livro confronta-nos directamente com o Massacre de Gwangju, de 1980, na Coreia do Sul. Ao expor a brutalidade extrema do regime militar, que trata os corpos como objectos descartáveis, revela também gestos de resistência humana como contar os mortos, recolher os corpos, acender as velas, fazer o luto.

Impressionou‑me a forma como Han Kang trabalha o tempo, com saltos constantes entre passado e presente. Em vez de reconstruir os factos históricos de forma directa, ela aproxima‑nos da verdade através das experiências dos narradores (incluindo a alma de um rapaz morto), uma sobrevivente torturada, um prisioneiro e outros. Cada perspectiva revela que o trauma não ficou preso a 1980, enraizou‑se nos sobreviventes e continuou a destruir relações, casamentos e a própria sanidade ao longo de trinta anos.

A escrita de Han Kang é poética e sensível. Não suaviza a violência; fixa-se na dor íntima e silenciosa, tornando o sofrimento quase palpável. É uma escrita que magoa precisamente por ser tão bonita.

Atos Humanos deixa-nos uma cicatriz que não desaparece. Não é uma leitura feliz, mas é uma leitura necessária num mundo que insiste em esquecer o valor da empatia. A dor que persiste não é apenas a dos que viveram Gwangju; é também a de quem lê.
Saí desta leitura devastada, sim, mas mais desperta para o que ainda precisa de ser lembrado.
E concordo com a tradutora, que encerra a sua introdução lembrando que este romance é também uma resposta pessoal e política aos recentes desenvolvimentos, e um alerta para os actos humanos de que todos somos capazes – “atos brutais e atos generosos, atos básicos e atos sublimes”.



06 setembro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 3 de setembro marcou a nossa rentrée!!
Na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, e com um calor sufocante, que inviabilizou a presença de algumas leitoras, decorreu mais um encontro do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. O grupo fez um balanço do ano anterior e conversou sobre processos de escrita, dificuldades sentidas, erros a evitar, motivações... Lemos apontamentos de escritores sobre o acto de escrever, a rasura, a procura do melhor vocábulo…
Penso que foi uma hora produtiva e enriquecedora. Estamos em crescimento (em número de participantes e em qualidade na escrita).

Para o Clube de leitura, apresentámos algumas das nossas leituras de férias. Não havendo tema definido, as leituras dos 9 participantes foram ricas, diversificadas e proporcionaram outras tantas descobertas.
Como também já é habitual, e como o refiro sempre nas minhas publicações, lemos, ouvimos, sorrimos e maravilhámo-nos.
A literatura tem esse poder! A partilha de bons livros encanta-nos!
Para o próximo encontro, vamos ler livros dos autores presentes na Onda Literária.
Eis os livros apresentados na sessão e que vos convido a descobrirem:

- O Imperador Vermelho, de Michael Sheridan;
- As Filhas do Terramoto, de Domingos Amaral;
- A profecia de Istambul, de Alberto S. Santos;
- Circe, de Madeline Miller;
- Os meus amigos, de Hisham Matar;
- Tudo na Natureza, de Yiyun Li;
- O Cais das Merendas, de Lídia Jorge;
- Querida Tia, de Valérie Perrin;
- O Círculo dos Dias, de Ken Follet;
- Ano Zero, de João Céu e Silva;
- A Filha da Caytana, de Carmen Posadas;
- Partida, de Julian Barnes;
- A Mais Bela Maldição, de Rui Couceiro;
- Aguarela de Paris, de João Pinto Coelho;
- Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy
- A Boneca Despida, de Paulo M. Morais
- Encontro, de Natasha Brown


30 agosto, 2026

𝑼𝒎 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐𝒔, de Nadine Gordimer



Autora: Nadine Gordimer
Título: UmMundo de Estranhos
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas: 288
Editora: Bibliotex Editor/ DN
Edição: 2003
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (1487)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ler Nadine Gordimer é um convite ao desconforto. Em Um Mundo de Estranhos, a Nobel da Literatura sul‑africana (1991) transporta-nos para a Joanesburgo dos anos 50, em pleno auge do apartheid. Acompanhamos Toby Hood, um jovem inglês que chega à África do Sul determinado a manter-se neutro, querendo apenas viver a sua vida privada e profissional, longe das amarras da política. No entanto, a genialidade da obra reside precisamente em mostrar como, num regime opressivo, a neutralidade é uma escolha impossível.

O que torna este livro uma leitura magnética é a forma como a autora contrasta a opulência oca da elite branca com a vitalidade pulsante dos bairros negros. Esse contraste ganha corpo na própria vida de Toby, que divide a sua existência em dois cenários opostos. Por um lado, frequenta as festas da alta burguesia, palcos de vaidade, preconceito e jogos de interesse e validação social. É um ambiente artificial e asfixiante. Por outro lado, é nos subúrbios segregados que descobre a verdadeira liberdade, num espaço onde a música funciona como antídoto à rigidez do mundo branco. Ali, o jazz devolve dignidade a quem vive sob vigilância. Ali, a música é liberdade pura, sem cálculo, atraindo irresistivelmente um Toby cansado da hipocrisia do seu próprio mundo.

Entre estes dois mundos, Gordimer introduz ainda uma zona intermédia, o espaço híbrido onde vive Anna Louw. Ali, convivem pessoas que escapam parcialmente às fronteiras rígidas do apartheid, brancos progressistas, indianos, mestiços, activistas que circulam num território de mistura vigiada. É um lugar de transição, onde a segregação não desaparece, mas se torna mais porosa. A presença de Anna nesse limiar representa uma possibilidade de cruzamento, mas também os limites dessa possibilidade.

A imersão de Toby no mundo subjacente de Joanesburgo deve-se a Steven Sitole. Mais do que amigo, Steven é o guia que abre as portas dessa realidade proibida. Com o seu magnetismo e a recusa em ser reduzido a vítima, mostra que a dignidade e a alegria podem ser formas poderosas de resistência.

Mas é nas relações amorosas que a contradição de Toby se expõe. Ele apaixona-se por Cecil, uma branca alienada, e envolve-se com Anna Louw, que habita essa zona intermédia, mas nunca atravessa a fronteira da intimidade com uma mulher negra. Toby consome a cultura negra, mas não se mistura com ela. A sua incursão é escolha, privilégio revogável

Criar uma personagem que desafia convenções sociais mas permanece presa às suas próprias barreiras invisíveis foi uma audácia tremenda em 1958. A reacção do regime do apartheid não se fez esperar e o livro foi banido durante doze anos.

Ao fechar o livro, a lição que ecoa é brutal. Numa sociedade estruturada pela opressão, a neutralidade é uma ilusão e as bolhas de liberdade individual serão sempre esmagadas se não houver uma libertação colectiva. Uma obra desconfortável que desafiou a censura para dar a conhecer a verdade que o apartheid tentava silenciar.