Tradutor: Miguel Cardoso
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Neste espaço pretende-se divulgar actividades culturais/educativas/lúdicas ou simplesmente participar, partilhar opiniões, leituras, viajar...
(c) Susa Monteiro
Kleber Mendonça Filho apresenta um filme que revisita o regime militar brasileiro através de uma lente onde a ironia, o absurdo e a memória se entrelaçam. O Agente Secreto aborda temas como corrupção, autoritarismo e resistência, procurando retratar com fidelidade o clima opressivo da época. Há momentos em que o humor expõe com precisão o ridículo estrutural do poder, mas também há exageros que quebram a verosimilhança e afastam o espectador da densidade histórica que o filme convoca.
Nesse território de fricção, entre a crónica política e a caricatura, destaca‑se o excelente desempenho de Wagner Moura, que oferece ao filme uma âncora emocional e uma inteligência subtil. A sua presença equilibra o tom e devolve humanidade a um enredo que, por vezes, se aproxima do absurdo.
No conjunto, O Agente Secreto é uma obra irregular mas inquieta, que ilumina o passado recente com humor, desconforto e uma certa melancolia.
No fim, o filme não fecha feridas, ensina, apenas, a olhá-las com mais ternura. Oferece a possibilidade de reconhecer que a dor herdada não é destino, mas matéria de trabalho. A família não se reconcilia plenamente, mas aprende a olhar-se com mais honestidade. A arte torna-se, assim, a via capaz de traduzir o que a família, pai e filhas, não conseguiu dizer.
Fotografia de Al Berto (Porto, 9 de Abril de 1992) impressa no livro Lovesong, de Álvaro Rosendo.
"O universo visual é o da música e o título remete para a urgência das canções de amor. Mas o que encontramos nas fotografias de Lovesong é uma constelação de afectos que faziam vibrar a Lisboa das décadas de 80 e 90."
Lê-se no artigo de Sérgio B. Gomes, in Ípsilon, Público de 6.03.2026
Lovesong, editado pela Tinta-da-china é o primeiro livro de Álvaro Rosendo um "dos primeiros cronistas da movida lisboeta". O fotojornalista documenta uma era de modernidade do meio artístico português.
(c) GR | S. Torpes 01.03.2020

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), realizado e produzido por Emerald Fennell (2026), assume-se como uma adaptação livre do romance de Emily Brontë, mais interessada na vibração emocional do que na fidelidade literal.
Fennell trabalha a narrativa com um olhar contemporâneo. Atribui alguma futilidade ao enredo e acentua a intensidade das relações e a dimensão febril dos encontros. As imagens, de um gótico luminoso, e as cores saturadas criam um território visual onde o agreste e o belo convivem, eco fiel da atmosfera literária daquela que muitos chamam “a maior história de amor de todos os tempos”.
No fim, permanece a sensação de que Fennell não procura substituir Brontë, mas dialogar com ela, deixando que a carga emocional continue a vibrar através dos tempos e fá-lo a partir da sua interpretação juvenil do romance (ela própria o referiu), transformando essa primeira leitura na bússola íntima desta adaptação.
Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta
negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia. Sentas‑te e debruças‑te para o caderno de
capa preta. Abres na primeira página em branco. Lês, relês e voltas a ler
as premissas para a redacção do texto que se supõe ser criativo e sentido. O
peso dos poetas‑fantasmas bloqueia‑te a inspiração.
Pensas
longamente. Pegas na caneta de tinta azul, insinuas o primeiro gesto de
escrita. As palavras permanecem mudas. Amaldiçoas quem propôs este exercício.
- Valha‑me
Deus! - Exclamas.
Segue‑se um
silêncio tão espesso que até os teus pensamentos parecem andar descalços para
não o perturbar. Pressentes um sorriso sarcástico dos deuses Al Berto, Eugénio,
Sophia e Fernando, reunidos no Olimpo como quem assiste a uma peça
experimental. E Baco, claro, está com eles! Não por devoção, mas porque nunca
perde uma oportunidade de servir um bom néctar.
- Valha‑me
Deus! - Repetes, angustiada, enquanto ecoa uma gargalhada e um “Ah, ah, ah!
Débrouille‑toi, ma chère!”. Só pode ser Al Berto. Se fosse o Fernando, tê-lo-ia
dito em inglês, com aquele ar de quem sabe sempre mais do que tu.
- Valha‑me
Deus ou valham‑me os deuses! - Insistes, já sem saber a quem te diriges.
Esboças a
palavra AMOR
sem convicção, riscas, suspiras. Não se pode começar assim, pensas. O desespero
instala‑se e, no fundo, sabes que não é só o exercício que te pesa. Há dias em
que escrever parece um acto de resistência, e hoje é um deles.
Mas então,
uma voz doce sussurra‑te ao ouvido: - Pensa no tempo presente. Aproxima‑se um
dia de decisões importantes. O dia 8 de Fevereiro. Relaciona‑o com a data que
hoje se assinala: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
- És tu,
Calíope? Minerva? - Perguntas, aturdida.
- Não importa
quem sou. Debruça‑te para a página que ainda tens em branco e verás que um
poema surgirá.
E assim,
retomas a caneta de tinta azul. A página continua branca, mas já não te
intimida tanto. Talvez fosse do sussurro, talvez fosse da presença silenciosa
dos poetas que, apesar das gargalhadas, sempre te empurram para a palavra
certa. Ou talvez fosse apenas a consciência de que, mesmo quando tudo parece
vacilar, há sempre uma frase que nos salva.
Como tens em
ti ainda alguns sonhos do mundo, respiras fundo, voltas a alinhar as canetas, como
se esse gesto tivesse algum poder mágico e deixas que as palavras surjam. As
primeiras chegam tímidas, mas vêm cheias de memórias. Outras trazem urgência. E
então, quase sem dares por isso, o poema começa a escrever‑se a si próprio:
É urgente o amor, é urgente permanecer.
27.Jan.2026
GR