25 março, 2026

𝑷𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒐-𝒂𝒍𝒎𝒐ç𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒎𝒑𝒆õ𝒆𝒔, de Kurt Vonnegut

 


Autor: Kurt Vonnegut
Título: Pequeno-Almoço de Campeões
Tradutor: Miguel Cardoso
N.º de páginas: 337
Editora: Alfaguara
Edição: Outubro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3776)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐ 



Kurt Vonnegut escreve sobre as suas obsessões como quem desmonta o mundo para revelar o que nele há de mais absurdo. Em Pequeno-almoço de Campeões, essa desmontagem transforma-se numa sátira feroz à sociedade norte-americana, ao consumo, à guerra, ao sexo, ao racismo, à política, à loucura, à própria ideia de liberdade, à literatura. “E por aí fora.” Tudo dito com um humor tão simples que chega a ser cruel.

O momento mais desconcertante e, talvez, o mais luminoso surge quando o autor entra no livro e se assume como o Criador absoluto das suas personagens. Vonnegut fala com Kilgore Trout, o protagonista e autor de ficção científica, manipula-lhe o destino e oferece-lhe aquilo que nenhuma personagem espera receber do seu autor: a liberdade. Um gesto tão absurdo quanto comovente, que transforma a sátira numa reflexão sobre responsabilidade, criação e culpa.

Ao longo do romance, o racismo é exposto sem filtros, como uma engrenagem estrutural da sociedade norte-americana, tão banalizada que só o olhar mordaz de Vonnegut consegue torná-la visível, quiçá risível. Ele mostra o ridículo e o horror lado a lado, com uma subtileza impiedosa que delicia e irrita o leitor. Os desenhos que pontuam o livro, simples, quase infantis, reforçam esse absurdo. Muitos são tão óbvios que se tornam desarmantes, como se Vonnegut quisesse lembrar-nos, a cada página, que a sátira também pode ser desenhada com a inocência de um rabisco.

Terminei a leitura com a sensação de ter atravessado um território desconcertante, onde cada página me puxava o tapete com humor, ferocidade e uma certa vontade de me perguntar por que raio continuo a ler estas coisas. Ainda estou a tentar perceber se compreendi tudo ou se é precisamente essa dúvida que o livro quer deixar. Talvez seja essa a sua maior força, obrigar-nos a continuar a pensar nele, a desmontá-lo, a desconfiar das respostas fáceis. “E por aí fora”.


Pedro | Crónica de António Lobo Antunes

 

                                                                   (c) Susa Monteiro


A criança mais fácil de educar que conheci na vida foi o meu irmão Pedro, porque dizia sempre que sim.

– Pedro isto não é hotel
– Sim mãe
– Não voltas a chegar tarde
– Sim mãe
– O jantar é às oito e um quarto
– Sim mãe
– E estás à mesa a essa hora
– Sim mãe
e depois, claro, não aparecia. Telefonava às dez da noite.
– Onde é que tu estás Pedro?
– Do outro lado da linha
– E vais voltar imediatamente para casa.
– Sim mãe

e chegava, claro, às horas que lhe apetecia, tranquilo, suave, educadíssimo.

– Pedro tu tiras a paciência a um santo
– Sim mãe
– Pedro amanhã não sais de castigo
– Sim mãe

e claro que saía. A nossa mãe

– Pedro lembras-te do que eu te disse ontem?
– Sim mãe
– Que ficavas em casa de castigo
– Sim mãe
– E mesmo assim saíste
– Sim mãe
– Não achas que eu devia bater-te?
– Sim mãe
– Fecha-te depressa no quarto antes que eu perca a cabeça
– Sim mãe

mas como a porta do quarto e a porta da rua se confundiam, aliás para o Pedro todas as portas eram portas da rua, descia as escadas outra vez, sereníssimo, sem pressa, e a nossa mãe, exausta, acabava por desistir pronunciando a frase do costume

– E uma luta constante para tudo
que significava um acto de rendição por absoluto cansaço. O Pedro foi toda a vida assim porque era irresistível e o seu sorriso, lindo, desarmava o mundo. Não me lembro de me zangar uma única vez com ele, de qualquer dos meus irmãos se zangar uma única vez com ele. Não conseguíamos. E depois até fisicamente era diferente de nós, o único moreno, de cabelo preto, silencioso, para lá do
– Sim mãe

quase não falava, nem o pai, de exaltação fácil, era capaz de lhe dar um berro. Toda a vida só fez o que quis. As pessoas tentavam uma censura tímida, ele concordava
– É verdade

e o que se podia acrescentar depois de tanta compreensão da sua parte? Entrou para o seminário, com imenso desgosto do pai, a casa a encher-se de padres que o tentavam convencer da bondade da decisão do Pedro, e quando, resignado, o pai declarou à mãe
– Pelo menos vamos ter quem nos feche os olhos

O Pedro saiu do seminário e ofereceu-se para a guerra em África para despachar o assunto. Novo drama.

– A guerra é perigosa
– Sim pai
– Arriscas-te a morrer lá
– Sim pai

só veio a Portugal uma vez dado que parece que aplicou uns estalos num polícia que lhe bateu num dos soldados, penso que esteve em Cabinda e depois, bastante tempo acho eu, internado no Hospital Militar de Luanda e pouco mais conhecemos porque ele não falava. Voltou, matriculou-se em Arquitectura, teve cinco filhos de cinco mulheres diferentes, fez parte de um movimento qualquer contra a ditadura, mas nós praticamente nunca soubemos de nada. Dois dos seus filhos morreram bebés. Nunca mencionou isso. Andou pela reforma Agrária. Cantava canções revolucionárias e algumas delas tornaram-se conhecidas. Finalmente, e após vários séculos, lá acabou o curso e começou a trabalhar como arquitecto. A única obra sua de que me falou foi um urinol que fez em Torres Novas. Fiquei cheio de curiosidade de entrar num urinol concebido pelo Pedro mas nunca me mostrou a sua catedral de chichis ribatejanos. Na minha opinião deve ser um mimo, uma espécie de Mosteiro de Alcobaça para bexigas aflitas. Também concebeu um museu para um pintor qualquer, que nem quero imaginar como seria. E continuava lindíssimo, calado e parecia feliz. As mulheres caíam de amor por aquele moreno tão secreto que decerto levantou bem alto, em todos os sentidos, a fama máscula da família. Eu adorava-o. Era impossível não o adorar. Quando estive muito doente veio a minha casa, agarrou-me nos ombros e gritou-me com força enquanto me abanava
– Não me morras, não me morras
foi a única vez que disse palavras diferentes de
– Sim mãe

enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara. Não tornei a vê-lo chorar, nunca vi um homem tão cheio de amor. Uns tempos depois, sem idade para morrer, morreu. Estávamos em casa dos pais para o almoço de Natal, o telemóvel do João tocou, o João respondeu sentado, depois continuou a falar baixinho, de pé, depois guardou o telemóvel no bolso, disse num cochicho, para a mãe não ouvir
– O Pedro morreu

atamancámos o resto do almoço, distribuímos meia dúzia de presentes pelas crianças, arranjámos uma desculpa qualquer para a mãe e fomos, os cinco, para o Hospital da Cuf. O Pedro lá estava, quieto, numa cama. Saí do quarto porque o Nuno me levou, a dizer-me
– Anda meu bebé, anda meu bebé

que era uma palavra que eu nunca tinha ouvido chamarem-me. Obrigado, mano. Estávamos todos na merda por causa daquele idiota com a mania de ser original. O Hospital da Cuf tem um pátio cá fora e ficámos para ali, imóveis. No dia seguinte fomos dizer à mãe. Ela, de olhos secos
– Deus tenha misericórdia de mim
a seguir
– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto

e morreu pouco depois, de desgosto. Dantes jantávamos em casa dos meus pais às quintas-feiras e, ao irmo-nos embora, o Pedro e eu, lado a lado no escuro, fazíamos chichi contra a cascata. Agora não tenho mais quem mije ao meu lado.

António Lobo Antunes

in Visão, 03/11/2016 

21 março, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Na quinta-feira, dia 19 de março, na cafetaria do Centro de Artes, num cenário inspirador, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

E, como já vai sendo habitual, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita, na qual foram lidos seis poemas maravilhosos escritos por alguns dos "mareantes".

Este mês, e para celebrarmos o Dia Mundial da Poesia, as nossas leituras incidiram, naturalmente, nos nossos poetas preferidos, nos que marcaram a nossa infância, ou noutros, sem razão aparente, só porque nos apeteceu...

A conversa orientada por Alina Oliveira foi, assim, muito rica e poética. Descobrimos pequenas pérolas de livros, de autores, de projectos... recordámos poemas marcantes, lemos, sorrimos e maravilhámo-nos.

A poesia tem esse poder!

Para o próximo encontro, a proposta de leituras recai na literatura infantil. Escolha livre de livro(s) e autor/a.


Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:
- Ágora, de Ana Luisa Amaral;
- Ramonera, de Elvis Guerra;
- Intervalo, (in Poesia Completa), de Maria Alberta Menéres;
- Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (antologia)
- Obra Completa, de Florbela Espanca;
- O livro da Tila, Maria Rosa Araújo;
- Se a Sofia... , de Anne Marie Chapouton;
- Poemas, de Manuel Bandeira;
- Assim, são as Algas, de Albano Martins;
- À noite as estrelas descem do céu, de João Pedro Mésseder


19 março, 2026

Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson (PTA)

 

  

 161 min |  M/16 | Acção, Drama, Suspense | 2025 | EUA
Realização: Paul Thomas Anderson
Elenco:  Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benicio Del Toro, Regina Hall

Batalha Atrás de Batalha, adaptação do romance Vineland, de Thomas Pynchon, é um grande filme. É, por isso, aceitável que o filme de Paul Thomas Anderson (PTA) tenha conquistado vários Óscares este ano, incluindo o de Melhor Filme. Porém, para mim, não é o melhor.

A sua força dramática reside, em grande parte, na figura da companheira de Bob Ferguson. A sua ligação ao comando americano introduz uma camada de traição profunda, que não é apenas política, mas existencial. Ao abandonar a família em nome de uma revolução que ela própria já tinha comprometido, a personagem carrega o peso de uma dúvida corrosiva: a suspeita de que a filha possa ser fruto dessa traição.

Este vazio deixado pela figura materna, aliado à sombra que paira sobre a origem da criança, acaba por acelerar o ciclo de autodestruição de Bob. Perdido no nevoeiro do álcool e das drogas, Bob falha nos momentos cruciais, tornando-se o espelho de um movimento que implode pelas suas próprias fragilidades humanas. A narrativa não esconde as cicatrizes deste percurso; as falhas são reais e o preço pago pela jovem Willa, no meio deste fogo cruzado entre o idealismo e o vício, é imenso.

Contudo, apesar de toda a herança de trauma e da revelação tardia e dramática de que a rapariga é, de facto, filha do militar americano, Paul Thomas Anderson permite que o filme respire no seu final. Contra todas as probabilidades, pai e filha acabam em bem. É uma conclusão poderosa que demonstra que, embora a revolução política possa ter causado traumas e o vínculo de sangue pertença ao inimigo, a paternidade de Bob, construída no cuidado e na presença, foi a única força real que sobreviveu.

No final, o afecto prevalece sobre a genética, provando que a relação que os une superou a maior de todas as batalhas: a mentira e a dúvida que a viram nascer.

17 março, 2026

Pecadores, de Ryan Coogler

 

 

137 min | M/16 | Histórico, Terror | 2025 | USA
Realização: Ryan Coogler
Música: Ludwig Göranssonsim
Cinematografia: Autumn Durald Arkapaw
Elenco: Jack O'Connell, Wunmi Mosaku, Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld


Pecadores abre com uma força impressionante. Temos um drama histórico sólido, uma tensão racial bem construída e, acima de tudo, uma banda sonora arrebatadora, justamente premiada com o Óscar. A fotografia também vencedora de uma estatueta, acompanha essa intensidade, criando um ambiente denso e hipnótico.

A primeira metade promete um grande filme. Depois, a viragem para o terror quebra o encanto. O sobrenatural entra de forma brusca e desvia o foco da dimensão humana e histórica.
A ambição de Coogler de cruzar géneros é evidente, mas o resultado é uma mistura que fascina e frusta em igual medida.

Ficam a música, poderosa e memorável e a fotografia deslumbrante, mas também a sensação de que havia ali um filme muito melhor do que o que acabou por chegar ao fim.

Quanto ao protagonista que ganhou o Óscar de Melhor Actor, reconheço o mérito, mas, para mim, não representa a interpretação mais marcante do ano. E, curiosamente, Pecadores tinha realmente tudo para ser um grande filme, música, fotografia, atmosfera, intenção, não fosse tropeçar na inverosimilhança do terror e do sobrenatural.



16 março, 2026

Marty Supreme, de Josh Safdie

 

      


150 min | M/14 | Drama | 2026 | FIN, EUA
Realização: Josh Safdie
Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A'zion, 
Tyler, the Creator, Kevin O'Leary


Timothée Chalamet dá corpo a Marty Mauser, um prodígio do pingue‑pongue que depressa percebemos ser também um virtuoso da manipulação. A história mergulha na sua determinação feroz, no talento quase instintivo e na obsessão que o empurra para a glória e para o abismo.

Nos anos 50, entre os becos e ruídos dos bairros pobres de Nova Iorque, Marty transforma o pingue‑pongue no seu passaporte para escapar à marginalidade. Entre esquemas engenhosos, treinos exaustivos e competições intensas, o filme expõe a sua ambição sem freio, a centelha de génio que o ilumina e a espiral de autodestruição que o ameaça, até que a possibilidade de redenção se insinua. 

Não arrecadou Óscares e, para ser honesta, para mim também não os merecia, mas talvez isso seja apenas coerente com Marty: sempre brilhante, sempre à margem, sempre impossível de domesticar.


Vencedores dos Óscares 2026

 





A 98.ª edição dos Óscares aconteceu neste domingo, 15 de março, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Uma Batalha Após a Outra foi o grande vencedor da noite, com seis estatuetas: Filme, Realizador, Actor Secundário, Argumento Adaptado, Montagem e Casting.
Pecadores arrecadou quatro: Actor Principal, Argumento Original, Banda Sonora e Fotografia.
Frankenstein granjeou três: Direcção Artística, Caracterização, e Guarda-Roupa.
As Guerreiras da K-Pop levou dois: Filme de Animação e Canção Original

Com uma estatueta ficam Hamnet, A Noite do Desaparecimento, Valor Sentimental, F1 e Avatar: Fogo e Cinzas. 

Premiados:

Melhor Filme - Uma Batalha Após a Outra

Melhor Realização - Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Actor - Michael B. Jordan (Pecadores)

Melhor Actriz - Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)

Melhor Actriz Secundária - Amy Madigan (A Hora do Mal)

Melhor Actor Secundário - Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Argumento Adaptado - Uma Batalha Após a Outra

Melhor Argumento Original - Pecadores

Melhor Filme Internacional - Valor Sentimental (Noruega)

Melhor Filme de Animação - Guerreiras do K-Pop 

Melhor Casting  - Uma Batalha Após a Outra 

Melhor Montagem - Uma Batalha Após a Outra 

Melhor Fotografia - Pecadores 

Melhor Direcção Artística - Frankenstein 

Melhor Caracterização - Frankenstein

Melhor Guarda-Roupa - Frankenstein

Melhor Banda Sonora - Pecadores 

Melhor Canção Original - Guerreiras do K-Pop, Tema Golden

Melhor Som - F1 

Melhor Efeitos Visuais - Avatar: Fire and Ash 

Melhor Documentário - Mr Nobody Against Putin 

Melhor  Documentário em Curta-Metragem - All the Empty Rooms

Melhor Curta-Metragem de Imagem Real  (empate) - The Singers e
Two People Exchanging Saliva 

Melhor Curta-Metragem de Animação - The Girl Who Cried Pearls 

                                            @
oscars_awards_2026





15 março, 2026

𝑰𝒏𝒕𝒆𝒓𝒗𝒂𝒍𝒐 (in Poesia Completa), de Maria Alberta Menéres

 


Autora: Maria Alberta Menéres
Título: Intervalo (in Poesia Completa)
N.º de páginas: 65
Editora: Porto Editora
Edição: 1952 (2020)
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3687)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Intervalo, publicado em 1952, é a obra de estreia de Maria Alberta Menéres. Embora a autora seja amplamente reconhecida pela sua literatura infanto‑juvenil, este livro pertence ao seu percurso na poesia para adultos. Nele, revela uma voz poética muito própria; sensível, intuitiva e já marcada por uma interioridade que viria a afirmar‑se na poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Ao longo destas páginas, a autora explora a espiritualidade, a simplicidade dos elementos naturais, a memória, o tempo, o silêncio…

Em Intervalo, temos uma poesia introspectiva, centrada na descoberta da própria voz feminina, do “eu”.
O título não é casual. Aqui,  “intervalo” é o espaço entre o pensamento e a palavra; uma pausa onde se geram reflexões, sonhos e hesitações; um território onde a autora procura definir‑se também através do que não é dito.

"Prólogo", com apenas quatro versos, refere isso mesmo e funciona como um perfeito cartão‑de‑visita:
“Ninguém pode saber o que sofremos
quando apenas calamos.
Somos o livro que nós próprios lemos,
e desfolhamos...”

É um poema que diz muito com o mínimo, quase um silêncio em si mesmo e estabelece o tema central: a distância entre o que sentimos e o que os outros conseguem perceber através do nosso silêncio ou do nosso olhar. Ao afirmar que somos o livro que nós próprios lemos, Menéres sublinha a solidão do autoconhecimento, já que o “outro” nunca terá acesso à edição completa da nossa alma. O verbo “desfolhar” sugere, simultaneamente, descoberta (folhear) e perda (as páginas ou as pétalas que caem com o tempo), criando uma imagem de fragilidade e de passagem.

No livro e, apenas em dois poemas, há também a presença do mar (tema que aprecio). Aqui, o mar pode também ser lido como metáfora interior, uma extensão desse silêncio e dessa simplicidade essencial (“O silêncio dorme, estendido na areia.”). Surge como espelho e, talvez, como livro; um espaço onde a autora se revê e se lê, tal como no prólogo, cheio de significados para quem sabe escutar a solidão. O mar é, assim, movimento, inquietação e desejo (também para mim); é o intervalo em fluxo, onde a palavra hesita e a alma se reconhece e se questiona (sempre).

É fascinante notar como, aos 22 anos, Maria Alberta Menéres escolhe iniciar a sua vida literária com uma reflexão sobre a impossibilidade de sermos totalmente conhecidos, talvez porque ela própria se encontrava ainda num processo de autodescoberta.

Se avançarmos para o poema seguinte (o II, o próprio “Intervalo”), percebemos que essa toada de procura se mantém. Na verdade, é ela o fio condutor do livro.

Incluído na Obra Completa editada pela Porto Editora, Intervalo permanece como o testemunho inaugural de uma voz que fez do silêncio e da procura a sua morada poética. Manter-se-á nos restantes livros da sua obra poética? Ainda não sei responder, mas fica o compromisso de o descobrir.



14 março, 2026

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho

 


158 min | M/14 | Crime, Policial, Drama, Thriller | 2025 | França, Brasil
Realização e argumento : Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, 
Udo Kier, Isabél Zuaa

Kleber Mendonça Filho apresenta um filme que revisita o regime militar brasileiro através de uma lente onde a ironia, o absurdo e a memória se entrelaçam. O Agente Secreto aborda temas como corrupção, autoritarismo e resistência, procurando retratar com fidelidade o clima opressivo da época. Há momentos em que o humor expõe com precisão o ridículo estrutural do poder, mas também há exageros que quebram a verosimilhança e afastam o espectador da densidade histórica que o filme convoca.

Nesse território de fricção, entre a crónica política e a caricatura, destaca‑se o excelente desempenho de Wagner Moura, que oferece ao filme uma âncora emocional e uma inteligência subtil. A sua presença equilibra o tom e devolve humanidade a um enredo que, por vezes, se aproxima do absurdo.

No conjunto, O Agente Secreto é uma obra irregular mas inquieta, que ilumina o passado recente com humor, desconforto e uma certa melancolia.


12 março, 2026

Valor Sentimental, de Joachim Trier

 

         

        133 min | M/12 | Drama | 2026 | Noruega
Realização: Joachim Trier
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning


Programa do dia! O filme é muito bom. Recomendo ! O teatro é daqui a pouco…

Valor Sentimental é um filme monumental. Joachim Trier trabalhou  a memória e o poder reconciliador da arte.

Há no filme várias camadas que nos levam a construir o puzzle de uma família fracturada devido ao afastamento do pai, às ausências de diálogo, de abraços, de afectos. 

Em Valor Sentimental  a arte é trabalhada como um território reconciliador, onde o passado doloroso pode finalmente ser tocado sem receios. Joachim Trier encara a criação artística não como fuga, mas como ferramenta de revelação. Na representação no palco, na leitura do guião, no registo da câmara, na repetição de gestos e falas, as personagens começam a reconhecer aquilo que durante anos permaneceram incapazes de nomear.
É nesse movimento que o filme encontra a sua força maior: a criação como arqueologia emocional, a escavação lenta das camadas emocionais das personagens.
Trier oferece-nos um enredo carregado de emoções e fá-lo magistralmente através de planos fixos de rostos, de olhares que se desviam, de pausas que carregam mais do que qualquer diálogo, de silêncios. São esses momentos que revelam o trauma que atravessa gerações.

No fim, o filme não fecha feridas, ensina, apenas, a olhá-las com mais ternura.  Oferece a possibilidade de reconhecer que a dor herdada não é destino, mas matéria de trabalho. A família não se reconcilia plenamente, mas aprende a olhar-se com mais honestidade. A arte torna-se, assim, a via capaz de traduzir o que a família, pai e filhas, não conseguiu dizer.





10 março, 2026

Al Berto in Lovesong

 



Fotografia de Al Berto (Porto, 9 de Abril de 1992) impressa no livro Lovesong, de Álvaro Rosendo.

"O universo visual é o da música e o título remete para a urgência das canções de amor. Mas o que encontramos nas fotografias de Lovesong é uma constelação de afectos que faziam vibrar a Lisboa das décadas de 80 e 90." 

Lê-se no a
rtigo de Sérgio B. Gomes, in Ípsilon, Público de 6.03.2026 


Lovesong, editado pela Tinta-da-china é o primeiro livro de Álvaro Rosendo  um "dos primeiros cronistas  da movida lisboeta". O fotojornalista documenta uma era de modernidade do meio artístico português.




09 março, 2026

Prémio Nobel da Literatura | Mulheres

 

𝑴𝒂𝒓𝒈𝒖𝒆𝒓𝒊𝒕𝒆 𝒀𝒐𝒖𝒓𝒄𝒆𝒏𝒂𝒓 - 𝑳𝒊𝒃𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒆 𝑷𝒂𝒊𝒙ã𝒐, de Cristina Carvalho



Autora: Cristina Carvalho
Título: Marguerite Yourcenar - Liberdade e Paixão
N.º de páginas: 150
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2025
Classificação: Romance biográfico
N.º de Registo: (3755)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


No Dia Internacional da Mulher, poucas leituras dialogam tão profundamente com a liberdade feminina como Marguerite Yourcenar – Liberdade e Paixão, de Cristina Carvalho. Não é uma biografia convencional, nem um estudo literário, mas, sim, um romance biográfico onde duas mulheres de pensamento livre se encontram: a biografada, Marguerite Yourcenar, e a autora, que lhe empresta a voz e, por vezes, deixa entrever a sua própria respiração.

Cristina Carvalho escreve na primeira pessoa, assumindo a voz de Yourcenar. E, ao fazê-lo, aproxima-se da mulher por detrás da escritora; do seu olhar atento; do seu caminhar; dos gestos quotidianos que revelam mais do que qualquer análise académica. A biógrafa, repetidamente, informa que não pretende “escarafunchar” a obra publicada; prefere partilhar pormenores do dia-a-dia, a infância, a juventude, as paixões que a moldaram e que a tornaram uma figura singular no panorama literário do século XX. Yourcenar conquista um lugar histórico ao tornar-se a primeira mulher a entrar para a Academia Francesa de Letras, em 1980. Um feito extraordinário, mas longe de ser simples. A sua homossexualidade e o facto de ter adquirido a nacionalidade americana alimentaram resistências entre os membros mais conservadores da instituição. Ainda assim, como Cristina Carvalho sugere, mesmo entre os conservadores há espíritos inteligentes que reconheceram, acima de tudo, a grandeza da obra de Yourcenar.

Entre as paixões que a moldaram, destaca-se a relação fundadora com o pai, Michel René, homem inteligente, culto, compreensivo, sonhador, pecador… Foi o seu primeiro mestre, o primeiro companheiro de viagem, aquele que lhe transmitiu o amor pelos livros, pelas línguas, pela cultura e pelo mundo.
A infância feliz, em Mont Noir, na Flandres, com a sua paisagem densa e formadora, surge como um território mítico onde se adivinha já a escritora que virá a ser. Mais tarde, em Mount Desert Island, no Maine, a ilha torna-se o cenário perfeito para a maturidade de Marguerite; um lugar onde a sua liberdade encontra finalmente morada.

Também as relações amorosas surgem tratadas com respeito e humanidade. Grace Frick, companheira de décadas, presença sólida e cúmplice; Jerry Wilson, paixão tardia e frágil. Cristina Carvalho não dramatiza, não julga; observa. E nessa observação há uma ética profunda.

A natureza, os animais, a paisagem são elementos centrais na vida de Yourcenar. São presenças vivas, quase espirituais. E é precisamente nesses momentos que sentimos a voz de Cristina Carvalho emergir, discreta mas firme, revelando afinidades que atravessam o tempo: o pensamento livre, a paixão pelo mundo natural, a recusa de viver segundo expectativas alheias.

O resultado é um livro que respira. Respira liberdade, paixão, silêncio, rigor. E mostra como duas mulheres, separadas por décadas, podem encontrar-se num mesmo modo viver, de estar no mundo. Atento, indomável, profundamente humano.

É uma leitura que permite clarificar a compreensão da obra de Marguerite Yourcenar, sobretudo para quem a admira e deseja aproximar-se da mulher por detrás dos livros. Cristina Carvalho oferece-nos essa possibilidade como um murmúrio, uma lembrança de que a liberdade se constrói todos os dias, nos gestos pequenos e nas escolhas silenciosas. E talvez seja essa a maior homenagem deste romance biográfico, já que nos permite caminhar ao lado de Marguerite Yourcenar, mulher livre, feliz, apaixonada e culta.


 

08 março, 2026

Poemar é Amar!

 

                                                            (c) GR | S. Torpes 01.03.2020



Poemar é amar

Alinho as canetas - as de tinta permanente -
como quem encosta o ouvido ao mar
para escutar o que ainda não sabe dizer.
Alinho-as de novo,
devagar,
como quem prepara um pequeno ritual.

É Março e a maré impõe-se.
Mulher e Poesia
tocam-se como duas ondas que se reconhecem.

Há uma maresia a soprar pelas páginas,
um rumor de vozes que não se calam,
mesmo quando o vento tenta apagar-lhes o nome.

Há um sopro de Lorca a atravessar a mente:
“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

O mar entra pelas palavras
e as mulheres entram pelo mar.
Mareamos juntas: eu, a poesia, a maresia,
as vozes antigas, benevolentes.

Os poetas-fantasmas pairam sobre a página,
trazem versos húmidos,
uma espuma invisível que permanece.

E penso nas mulheres
que escreveram contra a corrente,
que guardaram a luz,
que desbravaram a onda para que eu
pudesse chegar aqui.

Poemar é amar.
E amar é deixar que o mar me atravesse
como quem sussurra: continua.

GR 

05 março, 2026

António Lobo Antunes

 


Ilustração @andré_carrilho



"A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos."

António Lobo Antunes



António Lobo Antunes | 1.09.1942 - 05.03.2026



                                                                      (c) Visão.pt



Morreu esta quinta-feira, 5 de março, António Lobo Antunes, um dos maiores escritores portugueses. Tinha 83 anos.

Nasceu em Lisboa, a 1 de setembro de 1942. Licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa, em 1969, com especialização em Psiquiatria, tendo exercido no Hospital Miguel Bombarda.

Em 1985, optou por se dedicar à  escrita a tempo inteiro. Publicou Memória de Elefante, o seu primeiro livro, em 1979.
No mesmo ano, editou Os Cus de Judas. Seguiram-se outras obras marcadas pela experiência que teve na guerra colonial.  

Em 2004, a República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada.

Em 2007, foi galardoado com o Prémio Camões, o prémio de maior prestígio da literatura portuguesa.
Em 2008, Recebeu de França o grau de “Commandeur” da Ordem das Artes e das Letras,
Em 2018, a Bibliothèque de la Pléiade anunciou a publicação da sua obra, sendo o segundo escritor português, depois de Fernando Pessoa, e um dos raros escritores vivos a integrar a coleção.
Em 2019, foi distinguido com a Ordem da Liberdade.


Tem uma biblioteca com o seu nome em Nelas, terra onde a sua família tem uma casa construída nos anos 1940 com projecto de João Alfredo Lobo Antunes.


O seu último livro publicado foi O Tamanho do Mundo. 
partilho a apreciação que escrevi quando o li. 
leituras...trilhos...evasões...: 𝑶 𝑻𝒂𝒎𝒂𝒏𝒉𝒐 𝒅𝒐 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐, de António Lobo Antunes


António Lobo Antunes tem uma vasta obra publicada: 

Memória de Elefante, (1979)
Os Cus de Judas, (1979)
Conhecimento do Inferno, (1980)
Explicação dos Pássaros, (1981)
Fado Alexandrino, (1983)
Auto dos Danados, (1985)
As Naus, (1988)
Tratado das Paixões da Alma, (1990)
A Ordem Natural das Coisas, (1992)
A Morte de Carlos Gardel, (1994)
A História do Hidroavião (com ilustrações de Vitorino), (1994)
Manual dos Inquisidores, (1996)
O Esplendor de Portugal, (1997)
Livro de Crónicas, (1998)
Exortação aos Crocodilos, (1999)
Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, (2000)
Que farei quando tudo arde?, (2001)
Segundo Livro de Crónicas, (2002)
Letrinhas das Cantigas (edição limitada), (2002)
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, (2003)
Eu Hei-de Amar Uma Pedra, (2004)
D'este viver aqui neste papel descripto: cartas da guerra ("Cartas da Guerra"), (2005)
Terceiro Livro de Crónicas, (2006)
Ontem Não Te Vi Em Babilónia, (2006)
O Meu Nome é Legião, (2007)
O Arquipélago da Insónia, (2008)
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, (2009)
Sôbolos Rios Que Vão, (2010)
Quarto Livro de Crónicas, (2011)
Comissão das Lágrimas, (2011)
Não É Meia Noite Quem Quer, (2012)
Quinto Livro de Crónicas, (2013)
Caminho Como Uma Casa Em Chamas, (2014)
Da Natureza dos Deuses, (2015)
Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera, (2016)
Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água, (2017)
A Última Porta Antes da Noite, (2018)
A Outra Margem do Mar, (2019)
Dicionário da Linguagem das Flores, (2020)
O Tamanho do Mundo (2022)
As Outras Crónicas (2024)


28 fevereiro, 2026

Leituras | 02

 

𝑺𝒊𝒈𝒖𝒓𝒅 𝒆 𝒐𝒔 𝑺𝒆𝒖𝒔 𝑩𝒓𝒂𝒗𝒐𝒔 𝑪𝒐𝒎𝒑𝒂𝒏𝒉𝒆𝒊𝒓𝒐𝒔, de Sigrid Undset




Autora: Sigrid Undset
Título: Sigurd e os seus Bravos Companheiros
Tradutor: Carlos Grifo Babo
N.º de páginas: 201
Editora: E-Primatur
Edição: Setembro 2025
Classificação: Romance juvenil
N.º de Registo: (3773)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sigurd e os seus Bravos Companheiros é um romance de aventuras juvenil, escrito por Sigrid Undset durante o seu exílio nos Estados Unidos, e inspirado directamente nas sagas nórdicas.

Com uma escrita surpreendentemente visual, a autora conjuga aventura, amizade e descoberta num cenário de fiordes, montanhas e caminhos agrestes que parecem ganhar vida diante dos olhos do leitor.

As três crianças protagonistas, Sigurd, Ivar e Helge, movem-se entre coragem e curiosidade, e é numa das suas aventuras mais perigosa, a ajuda a um desconhecido moribundo, que a narrativa encontra o seu eixo moral.
No fim, fica a sensação de que Undset escreve com o olhar de quem vê o mundo em camadas. A atenção à paisagem, à ética, ao peso das escolhas, ao modo como a comunidade molda o indivíduo desperta no leitor a convicção de ter acompanhado três crianças que, pelo viés das suas aventuras, aprendem a ser responsáveis, fiéis, e atentas ao outro. Fica também a certeza de que o bem, quando nasce puro, encontra sempre o seu regresso.

É uma leitura breve, mas cheia de atmosfera e encanto e, embora pensada para leitores jovens, guarda a beleza intemporal das histórias de cavalaria medieval, podendo ser apreciada por qualquer leitor que ainda escute o eco das velhas lendas e não considere “aborrecidas as lições de história”.


27 fevereiro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita



Ontem, na Biblioteca Municipal de Sines , decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros.

E, como já vai sendo habitual, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita, na qual foram lidos os  cinco textos escritos por elementos do grupo.

Os textos podem ser lidos neste Padlet:     https://padlet.com/graciosa_reis/padlet-6130g90cpoou


    


Para conversar dos livros lidos durante o mês, no âmbito do tema Segunda Guerra Mundial / Holocausto, compareceram catorze pessoas.
A conversa orientada por Alina Oliveira foi rica e emotiva, já que o tema sensível provoca sempre alguma perturbação nos leitores.
A diversidade de leituras enriquece a partilha de opiniões e alarga o conhecimento de obras e autores.

Para o próximo encontro, a proposta de leituras incide em poesia. Escolha livre de livro e autor/a.


Eis alguns dos livros apresentados:

- Se isto é um homem, Primo Levi;
- A Trégua, Primo Levi;
- Sem Destino, Imre Kertész;
- Cartas a Um Amigo Alemão, Albert Camus;
- O Barracão das Mulheres, Fermina Cañaveras;
- O Rouxinol, Kristin Hannah;
- Em Busca de Sentido, Viktor Frankl;
- O Clube de Xadrez, John Donoghue;
- A Violonista de Auschwitz, Alma Rosé;
- 70072 a menina que não sabia odiar, Lidia Maksymowicz;
- O Homem mais Feliz do Mundo, Eddie Jaku;
- Nós tivemos Sorte, Giorgia Hunter;
- Um Tempo a Fingir, João Pinto Coelho;
- Auschwitz, Laurence Rees


25 fevereiro, 2026

𝑺𝒆𝒎 𝑫𝒆𝒔𝒕𝒊𝒏𝒐, de Imre Kertész



Autor: Imre Kertész
Título: Sem Destino
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 199
Editora: Presença
Edição (5.ª): Julho 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3701)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Sem Destino, de Imre Kertész, é um daqueles livros que nos devolvem ao ponto zero da compreensão. Que nos entra devagar e depois não nos larga. Acompanhamos György Köves, quinze anos, arrancado ao quotidiano e lançado num mundo que ele não sabe nomear. Não porque lhe falte clareza, mas porque, ainda, não possui o conhecimento que nós, leitores, já teremos. Ele não sabe o que é Auschwitz, não sabe o que é Buchenwald, não sabe que está a entrar num sistema construído para o aniquilar. E é essa ausência de saber que torna o romance tão perturbador. Ao longo de toda a narrativa, acompanhamos um olhar sagaz que tenta compreender o mundo com um “juízo próprio”; que tenta ocupar o tempo, criar referências, enquanto nós reconhecemos, por trás de cada detalhe, a maquinaria da morte.

É desconcertante a forma como György descreve tudo isto, detalhadamente, como se cada gesto, cada rosto, cada mudança de luz, de som, de grito, fosse uma tentativa de compreender o que lhe está a acontecer. Através dessa observação, quase obstinada, ele vai tomando conhecimento de que ser judeu é ser diferente, vai aprendendo pequenas manhas, percebendo quem seguir, quando calar, como poupar forças. Porque a sobrevivência, aqui, nasce de detalhes.

Não há condenação explícita, não há revolta, não há discurso moral. Há observação, adaptação, compreensão, reflexão, aceitação. Ele aceita cada passo porque cada passo é imposto. E essa aceitação, longe de ser submissão, é a única forma de continuar vivo.

O episódio do saco de cimento que se rompe é devastador. Um gesto mínimo desencadeia um espancamento selvagem. Aqui, a violência não precisa de motivo, apenas de ocasião. E, no entanto, é essa mesma violência que o leva, mais tarde, à enfermaria e depois ao hospital de Buchenwald, onde encontra a única fresta possível de sobrevivência. Porque a vida, neste universo, depende de acasos mínimos.

Quando regressa a Budapeste, já não é o rapaz que partiu. Às pessoas com quem se cruza, e que o questionam, György nunca “fala mal” do campo. Descreve-o como uma sequência de passos que aceitou porque não tinha alternativa, porque sobreviver exigia adaptação e silêncio interior. Não é resignação. Não é perdão. É a lucidez amarga de quem percebe que a sua vida foi organizada por outros, e que a palavra “destino” não tem nada de transcendente, apenas, a soma das imposições que o conduziram até ali.

Sem Destino é um romance excepcional. Duro, lúcido e profundamente humano que nos obriga a abandonar leituras simplificadoras e a enfrentar a estranheza de uma experiência atroz que parece dar sentido à barbárie e ver beleza no horror. Não oferece catarse, nem moral, nem consolo. E é por isso que permanece em nós.

21 fevereiro, 2026

O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell

 

  

                             132 m | M14 | Romance | 2026 | Reino Unido, USA
                                 Realização: Emerald Fennell

Elenco: 
Margot Robbie - Catherine Earnshaw
Charlotte Mellington - Catherine Earnshaw (jovem)
Jacob Elordi - Heathcliff
Owen Cooper - Heathcliff (jovem)
Shazad Latif  - Edgar Linton
Hong Chau - Nelly
Alison Oliver - Isabella Linton



Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais), realizado e produzido por Emerald Fennell (2026), assume-se como uma adaptação livre do romance de Emily Brontë, mais interessada na vibração emocional do que na fidelidade literal.

Fennell trabalha a narrativa com um olhar contemporâneo. Atribui alguma futilidade ao enredo e acentua a intensidade das relações e a dimensão febril dos encontros. As imagens, de um gótico luminoso, e as cores saturadas criam um território visual onde o agreste e o belo convivem, eco fiel da atmosfera literária daquela que muitos chamam “a maior história de amor de todos os tempos”.

No fim, permanece a sensação de que Fennell não procura substituir Brontë, mas dialogar com ela, deixando que a carga emocional continue a vibrar através dos tempos e fá-lo a partir da sua interpretação juvenil do romance (ela própria o referiu), transformando essa primeira leitura na bússola íntima desta adaptação.





18 fevereiro, 2026

𝑫𝒆𝒅𝒊𝒄𝒐-𝒍𝒉𝒆 𝒐 𝑴𝒆𝒖 𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐, de Mario Vargas Llosa

 

Autor: Mario Vargas Llosa
Título: Dedico-lhe o Meu Silêncio
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 252
Editora: Quetzal
Edição: Julho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3656)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 



Dedico‑lhe o Meu Silêncio é um romance breve e surpreendentemente luminoso, onde Mario Vargas Llosa regressa ao Peru pela via mais íntima, a da música crioula.
A narrativa organiza‑se em alternância: um capítulo acompanha Toño Azpilcueta e a sua obsessão sobre a valsa peruana e o desejo de escrever o livro sobre a vida fugaz de Lalo Molfino, o génio da guitarra; o capítulo seguinte abre‑se para a história cultural do Peru, explorando a música popular como veículo da identidade do país. Este movimento contínuo entre o percurso individual e a memória colectiva dá ao romance uma pulsação própria e profundamente envolvente. Entre essas duas linhas narrativas, a figura de Lalo Molfino destaca‑se como o coração musical do romance. É através dele que o livro encontra a sua vibração mais funda: “Não, não era simplesmente a destreza com que os dedos do chiclayano arrancavam notas que pareciam novas. Era algo mais. Era sabedoria, concentração, mestria extrema, milagre.” (p. 29)

A música crioula surge como território afectivo e como espelho do Peru: mestiça, popular, contraditória, capaz de atravessar classes sociais e de abalar preconceitos. Toño acredita, com uma fé quase utópica, que a valsa peruana tem a força de unir o país, de reconciliar diferenças, de recordar a todos uma origem comum. Essa crença, ingénua e grandiosa, dá ao romance uma vibração emocional rara, como se Llosa escrevesse para salvar uma música que, sendo do povo, “inspira a sociabilidade”.

Um outro elemento forte do romance é a metáfora das ratazanas, que atormentam Toño sempre que algo lhe corre mal. Para ele, esses animais representam “a corrupção, a doença e a debilidade” que ameaçam o espírito colectivo da música crioula. São a sombra do país e a sombra do próprio protagonista: forças que corroem, que dividem, que minam a utopia de união que a valsa crioula promete. Sempre que falha, Toño “sente” as ratazanas a treparem‑lhe pelo corpo, como se o seu medo tivesse forma e movimento. Esta imagem, tão física e tão perturbadora, contrasta com a leveza da música e reforça a tensão entre o sonho e a ruína que atravessa o romance.

É aqui que Lalo Molfino se torna essencial. Ele encarna o génio popular e, simultaneamente, a ruína; o músico que não precisa de teoria nem de tratados para compreender a alma da valsa peruana, não sabe conviver com os pares. A sua guitarra é memória, improviso, dor e festa. Através dele, Llosa mostra que a música crioula não é apenas um género, mas uma forma de estar no mundo, uma respiração colectiva. “(…) serviu para aproximar as pessoas e combater os preconceitos e o racismo.” (p. 91)

O arco das três edições do livro dentro do livro funciona como uma parábola sobre o acto de criar. A primeira edição nasce após múltiplas revisões; a segunda confirma o sucesso; a terceira, inflada por mais cem páginas, revela o perigo do excesso. A ruína editorial que se segue é também simbólica. Llosa sugere que há um momento em que a obra deixa de pertencer ao autor e passa a pertencer ao mundo.

No fundo, este romance é uma homenagem ao poder e à beleza da música que vive na voz e nos sons dos seus autores e que incarna uma identidade que se reinventa a cada momento. Llosa celebra a utopia de acreditar que uma música pode unir um povo, mesmo sabendo que essa utopia é, talvez, o mais belo dos fracassos.



17 fevereiro, 2026

Teodoro e o nome das ruas


                                                                Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)


Opinião de
Filipe Samuel Nunes
Sapo.pt
17 Fevereiro 2026 00:00


Um homem escreve livros, morre, e transforma-se em placa aparafusada na parede. A cidade segue indiferente e barulhenta, mas de vez em quando um táxi antigo anuncia o nome — e por um segundo a literatura volta a respirar.

O Professor Teodoro Ramalho lembra-se do tempo em que os táxis ainda falavam. Havia no interior do carro um murmúrio contínuo de destinos debitados por uma operadora central. A cidade chegava-lhe aos ouvidos antes de chegar aos olhos. “Um táxi à Penha de França”, dizia a voz neutra, e imediatamente o mundo ganhava coordenadas afetivas. A Rua da Penha de França, nº 128 – 1º esq. – morada da Vó Guida, a bondosa avó de Teodoro.

Teodoro recorda uma crónica de Eduardo Prado Coelho, no espaço Fio do Horizonte (circa 2001) onde o autor descreve o choque ao ouvir pelo sistema de rádio dum táxi, o nome do pai transformado em topografia: “veículo à Rua Prof. Jacinto do Prado Coelho”. O pai convertera-se em passeio, semáforo, asfalto, fachada, piso alcatroado. De pai passara a infraestrutura. Uma metamorfose inquietante! “Era uma pessoa, hoje é um lugar. Espero que seja um lugar feliz” – escrevia Eduardo Prado Coelho.

(...) 

Teodoro leva este exercício físico-mental mais longe e traz à liça outros personagens. Por exemplo: Al Berto. Como se sentirá o poeta ali nas Olaias? – indaga o Professor. Será que ele está bem naquela rua onde os gatos dormem pelos cantos e as crianças brincam nas ruas? Teodoro aposta que na Rua Al Berto é sempre noite para que o poeta possa acender as cidades que inventou. Seria um erro urbanístico iluminá-la em excesso. Com franqueza musculada Teodoro pensa em Fernando Namora. A sua rua soa-lhe sempre clínica, como quem ausculta a cidade. Teodoro desconfia que o autor escrevia de ouvido colado ao peito das aldeias, registando febres, silêncios e aquela teimosa dignidade de quem vive longe do mapa, mas perto da condição humana. Porém, quase contra natura, a Rua Fernando Namora fica no movimentado bairro de Telheiras, em Lisboa.

(...)

O Professor analisa o charuto e sacode a cinza com cuidado académico. A única conclusão possível é que o nome das ruas é uma versão modesta da eternidade. Um homem escreve livros, morre, e transforma-se em placa aparafusada na parede. A cidade segue indiferente e barulhenta, mas de vez em quando um táxi antigo anuncia o nome duma rua/escritor pela rádio — e por um segundo a literatura volta a respirar.

Depois o sinal muda, o trânsito arranca, e o nome da rua regressa à sua função administrativa. A eternidade dura exatamente o tempo de uma luz verde. O resto é urbanismo desatinado: falta vírgula ao mundo — assevera o Professor Teodoro Ramalho.

Ler artigo completo: 






16 fevereiro, 2026

Valha-me Deus ! (e os outros também)

 



Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia. Sentas‑te e debruças‑te para o caderno de capa preta. Abres na primeira página em branco. Lês, relês e voltas a ler as premissas para a redacção do texto que se supõe ser criativo e sentido. O peso dos poetas‑fantasmas bloqueia‑te a inspiração.

Pensas longamente. Pegas na caneta de tinta azul, insinuas o primeiro gesto de escrita. As palavras permanecem mudas. Amaldiçoas quem propôs este exercício.

- Valha‑me Deus! - Exclamas.

Segue‑se um silêncio tão espesso que até os teus pensamentos parecem andar descalços para não o perturbar. Pressentes um sorriso sarcástico dos deuses Al Berto, Eugénio, Sophia e Fernando, reunidos no Olimpo como quem assiste a uma peça experimental. E Baco, claro, está com eles! Não por devoção, mas porque nunca perde uma oportunidade de servir um bom néctar.

- Valha‑me Deus! - Repetes, angustiada, enquanto ecoa uma gargalhada e um “Ah, ah, ah! Débrouille‑toi, ma chère!”. Só pode ser Al Berto. Se fosse o Fernando, tê-lo-ia dito em inglês, com aquele ar de quem sabe sempre mais do que tu.

- Valha‑me Deus ou valham‑me os deuses! - Insistes, já sem saber a quem te diriges.

Esboças a palavra AMOR sem convicção, riscas, suspiras. Não se pode começar assim, pensas. O desespero instala‑se e, no fundo, sabes que não é só o exercício que te pesa. Há dias em que escrever parece um acto de resistência, e hoje é um deles.

Mas então, uma voz doce sussurra‑te ao ouvido: - Pensa no tempo presente. Aproxima‑se um dia de decisões importantes. O dia 8 de Fevereiro. Relaciona‑o com a data que hoje se assinala: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

- És tu, Calíope? Minerva? - Perguntas, aturdida.

- Não importa quem sou. Debruça‑te para a página que ainda tens em branco e verás que um poema surgirá.

E assim, retomas a caneta de tinta azul. A página continua branca, mas já não te intimida tanto. Talvez fosse do sussurro, talvez fosse da presença silenciosa dos poetas que, apesar das gargalhadas, sempre te empurram para a palavra certa. Ou talvez fosse apenas a consciência de que, mesmo quando tudo parece vacilar, há sempre uma frase que nos salva.

Como tens em ti ainda alguns sonhos do mundo, respiras fundo, voltas a alinhar as canetas, como se esse gesto tivesse algum poder mágico e deixas que as palavras surjam. As primeiras chegam tímidas, mas vêm cheias de memórias. Outras trazem urgência. E então, quase sem dares por isso, o poema começa a escrever‑se a si próprio:

Porque vivemos tempos difíceis,
as palavras secretas vêm cheias de memórias.

Porque a democracia parece vacilar,
é urgente destruir certas palavras.

Porque os outros se calam mas tu não,
é urgente reacender a voz que permanece.

Não podemos ficar na indecisão,
nem suportar a gritaria que nos rouba o silêncio.

Porque não podemos ignorar o passado,
aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade.

E assim, no exacto lugar onde o medo treme,
o gesto de escrever torna-se resistência.

É urgente o amor, é urgente permanecer.

 

27.Jan.2026

GR

Nota: os versos a negrito são de escritores e foram indicados como premissas no exercício de escrita criativa