15 fevereiro, 2026

Devagar | Afonso Cruz

 




     Os livros são animais lentos. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo. São feras vagarosas que exigem que as acariciemos na cabeça, nas costas, na barriga. Os livros não se apreendem em segundos. Requerem tempo, obrigam a uma espécie própria de contemplação a que chamamos leitura, e por vezes são tão demorados que vivem milénios. Vão ficando. 
     Que luz é essa que um livro aberto produz?
     Olhe-se para a capa de um livro como para as pálpebras de uns olhos fechados.


Afonso Cruz, in O vício dos livros II.  p. 156



14 fevereiro, 2026

Al Berto / carta da flor do sol


Mário Cesariny, "Naniôra"- Uma e duas, 1960
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
                                                          



3


(a meu amigo)




Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.


Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS




vou partir
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido de uma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz apareceu a uma esquina e reconhecia-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado deslocando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçados bolor da memória
da memória da memória da memória

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

lembro-me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa-de-cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro
a escuridão não era só exterior
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzámos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia a mão nas algibeiras
onde tacteava tudo o que guardara e possuía
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas
sentia-me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos
e apaixonados

escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me

correr a cidade com o corpo sedento
noite esgravatando a pele
bebendo nas veias as poucas forças que me restam
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo
o veneno agindo dos pés à cabeça
as mãos encharcadas de chuva tacteando um sexo qualquer
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados
visões de sonhos ainda não sonhados
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar
mas a escrever-te
e ouço-a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador gasta pelo uso: a tua vida
será feita de embarcações e de solidão
beberás a secura dos cabos distantes
conhecerás ilhas de saliva profunda
olhar-te-ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói
a tua infância a tua adolescência e o medo
de não conseguires sobreviver ao estrume deste país

avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva dum bicho estelar
e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar

navegarás pela cidade que adere aos dedos
como sarna mais antiga navegarás
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda
onde cintila a faca acorda
acorda o mar
está próximo o mar acorda
o mar acorda o mar acorda o mar
o mar

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias
reparo como amareleceram suavemente os rostos
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos
exala-se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram-se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis
noutras sorris olhas-me nos olhos
mas aquele sorriso não é o que ainda ontem te vi esboçar
o sorriso que tens na fotografia morreu
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel
acabei por destruir as fotografias queimei-as
para que ninguém possa supor através delas
histórias a nosso respeito
e também para que minha mulher as não encontre

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada
atada a um cordão em couro deste-ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio
íamos ver o sol morrer nas águas
caminhávamos sem destino pela cidade
o crepúsculo atingia-nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem
no fundo nada a justifica
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo
de vaga em vaga de ressaca em ressaca
fui arrastando o meu próprio naufrágio
mas ser-me-ia difícil falar-te destas catástrofes
prefiro calar-me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas
enquanto te escrevo esta última carta
é também a última vez que penso em ti
sempre habitei este país de água por engano
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
vou migrando de corpo para corpo
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu
escrevo-te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite
quem poderá afirmar que daqui a instantes
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite?
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz
no écran da cidade amanhecendo em mim
esqueço como me chamo
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos
mesmo no caso de eu permanecer aqui
neste país de água por engano
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só
estou preparado para o grande isolamento da noite
para o eterno anonimato da morte
mas perdi o medo
a loucura assola-me
preparo a última viagem às Índias imaginadas
disseram-me que só ali se pode descansar da vida
e da morte
perscruto a razão profunda desta viagem
ou talvez seja já a torna-viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta
sem o saber
hesito em deixar-te escrito mais do que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti-lo-ei
esse gesto aliviar-me-á de todas as dores
a manhã aproxima-se cortante
ouço barcos largarem do cais
preparo a lâmina
estendo velas em agonia uma lâmina de vidro
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais
destruo imagens que me chamam e me querem reter aqui
releio estas poucas palavras para ti: child of the moon
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu
em tuas mãos de pétalas lunares
movem-se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite
e tecerem claridades
mas já não tínhamos mais noite a desvendar
lembro-me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação
caminhamos em direcções opostas
ou melhor
eu caminho enquanto tu não existes
a noite aproxima-se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim
quando as feras despertam nos olhos abandono-me
à lama colorida dos terrenos vagos
dói-me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam
conchas abertas ao sonho
onde terei abandonado a nossa paixão?

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades
compridos cabelos de jade espalham-se sobre o rosto
indecifráveis vegetações
o sonho torna-se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios
neles pouso a cabeça deixo-a flutuar
uma mulher anda aos ziguezagues pelos corredores da casa
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão
a mulher grita
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos
abre o frigorífico
atira com os legumes congelados ao chão espezinha-os
esborracha-os contra a parede chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga-a em mil tiras
recomeça a correr
entra na casa de banho e abre todas as torneiras
abre as janelas e ri
e lambe as vidraças sujas
derrama açúcar dentro do telefone
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar
noutro corpo

viro-me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido
dos caminhos alquímicos desvendo
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas
do vento bebo o amargor da vida errante
onde uma mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita
o telefone toca obsessivamente toca
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo

revela-se-me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide-me sobre a boca fechada
procuro-me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro
dificilmente ouço zumbidos de flipper
o quarto povoa-se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar
desfazem-se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade
aqui esta sempre a chover
o frasco de barbitúricos conta-me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei
a luz percorre-te o corpo nu
é noite há muito tempo
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama
escrevo-te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz
de roubar a minha morte
porque eu moro neste país líquido por engano
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo
se quiseres vem dormir perto de mim vem
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores
vem
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura

quase amanhece
lá fora as avenidas mantêm-se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock'nd roll
vicious you are so vicious
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit
fuck fuck
fuck em diferido
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas
têm sede
sede de nudez
mas vou partir deixar-te aí
como se fosses tu que me abandonasses
viajar antes da alba partir
para longe deste inúteis dias
eu
pobre de mim
navegador da noite próxima da morte
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha
eu
arquipélago de cinzas oceano do nada
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena
mas vou
preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor
queres vir comigo?
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos
bocas aflitas e tua boca mordendo
o cordame avariado pelo sal
ah meu amigo
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas

vou abandonar-te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo
vou partir
com estas manchas de frutos sorvados no coração
para sempre vagamundo
no corredor de espelhos sem tempo deixo-te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome
nenhuma voz de silente treva
nenhum paixão

abandono-te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo
longe
muito longe desta inocente memória das Índias



Al Berto, três cartas da memória das índias in O Medo
Assírio & Alvim - 1997

09 fevereiro, 2026

Ontem foi um bom dia

 


Ontem foi um dia bom.
O tempo, por um instante, abriu-se como quem concede uma trégua. A chuva recolheu-se, o vento sossegou, e o sol, tímido mas insistente, procurou caminho entre as nuvens.
Em democracia, em liberdade, o povo saiu a votar e eu fui com ele, com a serenidade de quem participa no desenho do dia.
Depois procurei o mar. Sempre o mar, essa vastidão que me recompõe. Caminhei devagar, deixei que a luz se refletisse na água e fosse dissolvendo a angústia vivida pelas tempestades, como se o horizonte a acolhesse e a desfizesse em silêncio.
Sentei-me numa esplanada, bebi café, li umas páginas de Llosa, como quem conversa baixinho com o mundo.
À tarde, regressou uma chuva mansa, contínua, quase um murmúrio. Deixei-a cair sem pressa.
Na penumbra de uma sala, entreguei-me a Hamnet, de Chloé Zhao, e senti aquele poder raro da arte: iluminar por dentro, transformar, abrir frestas, oferecer catarse, mesmo quando lá fora o céu se fecha.
À noite, duas vitórias somaram-se ao dia: a segura do meu candidato, a sofrida do meu Benfica. E percebi que, entre o voto, o mar, o café, a leitura e o cinema, tinha regressado às coisas simples, aquelas que sustentam o que somos.
Ontem foi, verdadeiramente, um dia bom.


GR

08 fevereiro, 2026

Hamnet, de Chloé Zhao

 


125 min | 2h 05min | Drama | 2026 EUA, GB
Realização: Chloé Zhao
Guião: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell
Elenco: Paul Mescal, Jessie Buckley, Joe Alwyn, Emily Watson, Jacobi Jupe, Olivia Lynes , Bodhi Rae Breathnach



Hamnet é um filme de uma força silenciosa, capaz de nos transportar para a Inglaterra de 1580. A história segue o jovem William Shakespeare, Agnes e os seus três filhos - Susanna, Hamnet e Judith - num retrato luminoso de amor familiar, subitamente ferido por uma tragédia que altera para sempre o ritmo da casa.

A dor instala-se de forma distinta em cada um. Agnes recolhe-se à natureza e ao seu mundo interior; Shakespeare, já em Londres, encontra no teatro a única forma de transformar a perda. É dessa ferida que nascerá Hamlet, talvez a mais íntima das suas criações.

Chloé Zhao adapta o romance homónimo de Maggie O’Farrell com uma sensibilidade rara. O filme revela o luto, a espiritualidade, o poder da natureza e a fragilidade humana com uma beleza sublime e devastadora. É cinema que emociona. É arte que ilumina, transforma, abre frestas e oferece catarse.


07 fevereiro, 2026

𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒂 𝑼𝒎 𝑨𝒎𝒊𝒈𝒐 𝑨𝒍𝒆𝒎ã𝒐, de Albert Camus

 


Autor: Albert Camus
Título: Cartas a Um Amigo Alemão
Tradutor: José Carlos González
N.º de páginas: 55
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2021
Classificação: Cartas
N.º de Registo: (3699)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


  
Terminei Cartas a Um Amigo Alemão com a sensação de ter atravessado um território onde a ética e a coragem caminham lado a lado.
Logo no prefácio, Camus esclarece que quando escreve “nós” e “vós”, não se refere simplesmente a franceses e alemães, mas a “europeus livres” e a “nazis”. A sua oposição nunca é dirigida a um povo, mas aos carrascos, aos que escolheram a violência totalitária. Esta distinção dá ao livro uma clareza moral que atravessa todas as páginas.

Escritas em plena ocupação nazi, quando Camus participava activamente na Resistência francesa, estas quatro cartas carregam uma força moral muito própria. Cada frase nasce do risco, da urgência e da fidelidade a valores que não podiam ser traídos.

O que mais me tocou foi a ideia de que resistir é, antes de tudo, um gesto de amor. Amor pela pátria, enquanto espaço de liberdade, justiça e dignidade. Camus recusa o ódio e a violência como métodos. E afirma, com serenidade e convicção que a vitória pertence àqueles que permanecem fiéis ao humano.
“Pertenço a uma nação admirável e perseverante que, para além do seu fardo de erros e de fraquezas, não permitiu que se perdesse a ideia que constitui toda a sua grandeza (…) Este país merece que eu o ame com este meu amor difícil e exigente. E creio que ele merece bem, neste momento, que lutemos por ele.” (pp. 22 e 23)

É, também por isso, que denuncia a apropriação violenta da palavra “pátria”. “As palavras tomam sempre a cor dos atos ou dos sacrifícios que suscitam. E a palavra ‘Pátria’ tem para vós fulgores de uma cegueira sangrenta.”(p. 39)

Outro ponto que ecoa profundamente é a defesa da inteligência ao serviço de boas causas, nunca do poder pelo poder. A lucidez, para Camus, é a capacidade de ver claro sem ceder ao cinismo. Quando a inteligência se submete à força, torna‑se instrumento de dominação; quando se submete ao humano, torna‑se resistência. É nesse contraste que afirma: “É nisso que nos afastamos de vós; nós temos exigências. A vós basta‑vos servir o poderio da vossa nação, ao passo que nós sonhamos dar à nossa a sua verdade. (…) Concebíamos o nosso país como algo em pé de igualdade com outras grandezas: a amizade, o homem, a felicidade, a nossa ânsia de justiça.” (pp. 28 e 29)

Há, ainda, uma tensão belíssima entre heroísmo e felicidade. Para Camus, o heroísmo não é um ideal permanente, mas uma excepção necessária quando a felicidade é impedida. “Durante cinco anos não pudemos mais apreciar o canto das aves. Obrigaram-nos a desesperar” (p.52). Luta‑se para que um dia já não seja preciso ser herói. Luta‑se para recuperar “um sentido” que o totalitarismo tenta apagar.
Pelo que, o gesto mais íntegro destas cartas, é na minha opinião a lucidez de afastar uma amizade. “Agora já posso dizer-lhe adeus.” (p. 55)
Camus escreve a um “amigo alemão” que já não pode ser seu amigo, não por ressentimento, mas porque a amizade não pode sobreviver quando um dos lados abdica da justiça. A ruptura é um acto de fidelidade à liberdade, e também à própria ideia de amizade. “Eu, pelo contrário, escolhi a justiça a fim de permanecer fiel à Terra.”(p. 51)

No fim, o que fica é uma ética da dignidade e da coragem. Camus escreve para iluminar um caminho com uma luz discreta, mas resistente. E lemos hoje estas cartas com a consciência do horror do Holocausto, a prova extrema de até onde pode ir o poder quando se liberta de qualquer limite moral. Por isso, estas páginas continuam a ser um aviso e uma bússola. Num tempo em que os discursos de ódio voltam a ganhar espaço e a violência se normaliza, não convém esquecer. A lucidez de Camus continua a ser necessária.


06 fevereiro, 2026

𝑨𝒔𝒔𝒊𝒎 𝑳𝒉𝒆𝒔 𝑭𝒂𝒛𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒂 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Joseph Andras

 


Autor: Joseph Andras 
Título: Assim Lhes Fazemos a Guerra
Tradutor: Luís Leitão
N.º de páginas: 108
Editora: Antígona
Edição: Abril 2022
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3772)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Joseph Andras é um caso singular na literatura contemporânea. Segundo a breve pesquisa que registei, recusa prémios (Prix Goncourt 2016 e Prix Maya 2022), recusa fotografias, recusa a maquinaria da consagração. Escreve na sombra, com pseudónimo, quase clandestino, e talvez por isso a sua voz seja tão livre. Pouco conhecido do grande público, tornou‑se, no entanto, uma das consciências éticas mais intensas da literatura francesa.

Andras funde rigor documental e sensibilidade pelo que a sua escrita é de uma precisão admirável e de uma prosa poética, feita de frases tensas e contidas, que afasta o sentimentalismo e o espectáculo da dor. Há nela uma ética do olhar, firme, lúcida, sem adornos e uma economia verbal que questiona o conceito de progresso científico, da exploração animal e das minorias e que aproxima o leitor dos factos com uma lucidez quase física.

Em Assim Lhes Fazemos a Guerra, Andras constrói um tríptico a partir de três acontecimentos reais, separados por mais de um século e por três geografias distintas (Londres, Califórnia, Charleville). Cada painel acompanha um animal colocado no centro de práticas humanas que raramente são questionadas, mas que aqui surgem expostas na sua dimensão ética. Sem revelar o que sucede em cada caso, basta dizer que o autor convoca episódios documentados que atravessam laboratórios, instituições e sistemas de produção, e que os inscreve na história dos movimentos de libertação animal, que há mais de um século denunciam esta violência normalizada.

E há um detalhe que retive no terceiro painel. Andras convoca Rimbaud, porque a acção decorre em Charleville, a cidade natal do poeta, e evoca a forma como ele morreu, como se essa memória iluminasse o que está em jogo no episódio.
A metáfora é de Andras, mas ressoou em mim, porque também Rimbaud sentiu a urgência da fuga, a recusa do destino imposto. Há nessa coincidência uma pequena rebelião poética, um lampejo de liberdade no meio da violência banalizada.


03 fevereiro, 2026

𝑺𝒆𝒓𝒗𝒊𝒅ã𝒐 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒂, de Somerset Maugham

 

Autor: Somerset Maugham
Título: Servidão Humana
Tradutora: Ana Maria Chaves
N.º de páginas: 703
Editora: Asa
Edição (7.ª): Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3312)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Servidão Humana constrói uma das figuras mais complexas e humanamente contraditórias da literatura do século XX. Philip Carey, protagonista e espelho íntimo de Maugham, nasce marcado por uma vulnerabilidade que o mundo não suaviza.
Esta vulnerabilidade não é apenas física ou social; é íntima. A orfandade gera-lhe uma fome de pertença que o acompanha como sombra. O corpo marcado ensina-lhe cedo a vergonha e a autoconsciência. A rigidez religiosa do tio sufoca-lhe a espontaneidade e instala nele uma obediência desconfiada. Tudo isto converge para criar um jovem que hesita, que duvida, que se aproxima dos outros com uma mistura de desejo e receio.

Uma das grandes forças do romance reside, precisamente, no antagonismo interno de Philip. Ele é intelectualmente brilhante, sensível, observador, mas emocionalmente perturbado quando se vê preso à obsessão por Mildred. A humilhação que aceita, quase até ao limite da autodestruição, não nasce de um masoquismo consciente, mas de uma incapacidade profunda de se afastar daquilo que o fere. Philip sabe que está a ser diminuído, mas não consegue libertar-se. Maugham retrata esta espiral com uma honestidade desconfortável.

Ao longo da narrativa, Philip atravessa períodos de grande instabilidade material e emocional. Maugham retrata essas fases não como melodrama, mas como momentos de clarificação interior. A privação, em várias formas, obriga-o a repensar ambições, a confrontar ilusões e a descobrir o que realmente sustenta a sua vida. Sem revelar acontecimentos concretos, é possível afirmar que estas experiências extremas não o quebram; depuram-no. Revelam-lhe limites, mas também possibilidades.

É nesse processo que emerge, na minha opinião, uma das dimensões mais belas do romance: o despertar para o simples, para o belo. A arte, a paisagem, o quotidiano. Não se trata de uma revelação súbita, mas de um retorno ao que sempre esteve no íntimo dele: uma sensibilidade para o detalhe, para a luz, para a beleza discreta das coisas comuns. Quando o tumulto interior se dissipa, o que fica é uma serenidade que não é triunfo, mas reconciliação.

Este percurso de formação ética, emocional e intelectual ganha ainda mais densidade quando se reconhece o pendor autobiográfico do romance. Tal como Philip, Maugham perdeu os pais muito cedo, cresceu sob a tutela de um tio clérigo, viveu com uma marca física que o expunha ao ridículo e estudou medicina antes de se dedicar à escrita. Servidão Humana não é autobiografia literal, mas uma transfiguração literária da experiência pessoal. Essa proximidade confere ao texto uma autenticidade rara: a dor é escrita com conhecimento de causa, e a maturidade com lucidez conquistada.

No plano temático, o romance explora a busca de sentido, a dependência afectiva, a formação do eu, a tensão entre liberdade e destino. A arte surge como promessa e desilusão; o trabalho, como lugar de sentido; o quotidiano, como espaço de plenitude. Maugham escreve com clareza e contenção emocional. A sua prosa, sóbria e precisa, observa as personagens com uma compaixão discreta, sem sentimentalismo.

A estrutura narrativa, ampla e paciente, acompanha Philip desde a infância até à maturidade, permitindo ao leitor crescer com ele, errar com ele, respirar com ele. É um arco que lembra os grandes romances de formação do século XIX, mas com uma sensibilidade moderna, mais psicológica, mais íntima.

Servidão Humana permanece actual porque toca no que é essencial: a fragilidade humana, a fome de pertença, a luta entre lucidez e cegueira, a procura de um lugar no mundo. Philip Carey é uma das personagens mais complexas da literatura moderna precisamente porque carrega em si as contradições que reconhecemos em nós. Maugham transforma a sua própria experiência em ficção com uma honestidade luminosa, oferecendo-nos um romance que não consola, mas acompanha e que, no fim, devolve ao leitor a possibilidade de encontrar beleza no simples, liberdade no quotidiano e dignidade na própria imperfeição.




29 janeiro, 2026

𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝑰𝑰, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: O vício dos livros II
N.º de páginas: 166
Editora: Companhia das Letras
Edição: Maio 2025
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3710)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

“Não sei bem o que é pior, se queimar livros ou não os ler.” (p. 28) Afonso Cruz escolhe esta frase de Brodsky para abrir um dos seus textos, mas ela poderia muito bem abrir o livro inteiro. É uma citação que funciona como alerta e como diagnóstico. A violência explícita do “queimar livros” é fácil de reconhecer; a violência silenciosa de ”não os ler” é mais subtil, mais contemporânea e, talvez, mais perigosa. É neste intervalo entre o visível e o invisível que O vício dos livros II se instala.

O livro é composto por pequenos textos que nascem quase sempre de uma citação. Mas Cruz não usa essas referências como ornamento ou demonstração de erudição. Usa-as como detonadores de pensamento. Cada frase alheia abre uma porta para uma reflexão que é simultaneamente íntima, filosófica e profundamente literária. Borges, Bobin, Levi, Tchékhov, Lewis, Green, Eco e tantos outros entram no livro como companheiros de conversa, não como intelectuais distantes.

Uma das questões que atravessa o livro e que o torna tão actual, é a pergunta “Como se formam leitores?” (p. 11). Afonso Cruz desmonta a ideia de que a leitura se ensina como se ensina uma técnica. Para ele, formar leitores não é impor, é contagiar. Não é prescrever, é despertar. Não é transformar a leitura numa obrigação, mas criar condições para que ela se torne um gesto de liberdade. A leitura nasce do exemplo, do espanto, da curiosidade, nunca da imposição.

Outro eixo fundamental do livro é o prazer da leitura de bons livros. Cruz escreve com a convicção de que a literatura amplia o mundo, afina o olhar, desarruma certezas. Ler é uma forma de alegria, uma alegria íntima, silenciosa, que transforma quem a pratica. E essa alegria não se mede em números de páginas, mas na intensidade do encontro. “Um texto costuma ganhar muito quando sabe respeitar o silêncio do leitor.” (p. 117)

Daí nasce também uma das ideias mais deliciosas do livro: ter mais livros do que aqueles que se podem ler (tsundoku). Longe de ser um problema, é para o autor um sinal de esperança. Uma biblioteca que nos ultrapassa é uma biblioteca viva, um horizonte, uma promessa. Os livros que ainda não lemos são futuros possíveis. Não são tarefas pendentes; são mundos à espera.

E é precisamente no penúltimo texto que ele formula uma das imagens mais belas do livro: “Os livros são animais lentos. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo...” (p. 156). Esta frase ilumina toda a sua e, também minha, visão da leitura: os livros têm um tempo próprio, pedem cuidado, pedem demora. Não se deixam domesticar pela pressa. São organismos vivos que exigem presença.

Mas o livro não se limita a celebrar. Ele também alerta. Afonso Cruz critica a leitura superficial, literal, apressada, que passa pela superfície das palavras sem tocar o seu subtexto, sem captar a ironia. Num tempo de velocidade e fragmentação, a leitura profunda torna-se um acto de resistência. Ler com atenção, com demora, com disponibilidade para o que está nas entrelinhas é, hoje, quase um gesto contracorrente. E é aqui que a frase de Brodsky volta a ecoar: não ler é apagar; ler sem profundidade é não ver.

No conjunto, O vício dos livros II é um livro que pensa a leitura, a escrita, os livros como relação, como liberdade, como prazer e como responsabilidade. Um livro que nos lembra que os livros não são apenas objectos, mas criaturas que nos acompanham, nos moldam e nos devolvem a nós mesmos. Um livro que, sem levantar a voz, defende a importância de ler bem, ler devagar, ler com espanto. 


27 janeiro, 2026

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto


27 Janeiro | Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

LER para Não ESQUCER | Sugestões de alguns livros 







26 janeiro, 2026

Biblioteca acima das possibilidades de leitura | Afonso Cruz

 


Esta é uma parte da minha biblioteca. Já li alguns... Como refere o Afonso Cruz no texto que partilho, trata-se de  uma biblioteca acima das possibilidades de leitura. 


"Uma biblioteca cheia de livros que não foram lidos - sabendo que muitos deles nunca o serão - é uma biblioteca enorme, porque contém em si a semente da possibilidade. É imensa porque inclui desejo. Quem a criou tinha um desejo acima das suas possibilidades, e isso define o leitor : a sua ambição. Nunca concretizaremos plenamente os nossos desejos, mas o tamanho da biblioteca pode evidenciar o tamanho da ambição e, por reflexo, o tamanho do leitor. 
Um leitor tímido terá um ou dois livros por ler, um leitor ambicioso terá logicamente mais. Em japonês, existe uma palavra para a pilha de livros por ler: tsundoku.
Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros por ler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta."

Afonso Cruz, in O vício dos livros II , pp. 96 e 97



21 janeiro, 2026

Incidência

 




Incidência


Vejo‑te de tantos sítios,
silhueta calma.
Mas é daqui,
onde o horizonte respira,
que melhor te desenho.

Daqui,
a tua forma arredonda‑se
num seio firme,
cedendo ao vai‑e‑vem
das águas claras que te embalam.

Caminho a linha que nos separa.

Estás morena!
O sol pousa em ti
como quem te reclama.

E brilhas!

Sinto uma brisa leve,
cúmplice,
que te acaricia.

Como desejaria tocar‑te,
colher o pêssego secreto
que dissimulas.

O mar impede o gesto,
aquieto-me na incidência do teu brilho.


GR

19 janeiro, 2026

Eugénio de Andrade | Dia de Aniversário (19.Jan. 1923)


 



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade


18 janeiro, 2026

Song Sung Blue | Craig Brewer

 

                     


                        133 min | M/12 | 2026 | Drama, Biografia | EUA
Realizador: Craig Brewer
      
Elenco principal:

Hugh Jackman — Mike / Lightning
Kate Hudson — Claire / Thunder
Ella Anderson — Rachel (filha de Claire)
Hudson Hensley - Dayna Cartwright (filho de Claire)
King Princess - Angelina Sardina (filha de Mike)

Michael Imperioli - Mark Shurilla
Fisher Stevens - Dr. Dave Watson
Jim Belushi - Tom D'Amato
Mustafa Shakir - Sex Machine
John Beckwith - Eddie Vedder


Song Sung Blue é um filme americano de drama musical biográfico de 2025, escrito, coproduzido e dirigido por Craig Brewer. É baseado no documentário de mesmo nome de 2008, dirigido por Greg Kohs.

É um filme emotivo e caloroso, que mistura fragilidade e luz com enorme humanidade. A música de Neil Diamond, como pulsação emocional, dá alma ao filme e as interpretações principais têm uma força inesperada.
Há vitórias que não são feitas de glória, mas de resistência — e o filme entende isso com uma precisão rara. Aquele final não é triunfal no sentido clássico; é uma vitória íntima, conquistada no limite do corpo e da vida, e por isso mesmo tão poderosa.



17 janeiro, 2026

𝑪𝒉𝒊𝒆𝒏 𝑩𝒍𝒂𝒏𝒄, de Romain Gary

 


Autor: Romain Gary
Título: Chien Blanc
N.º de páginas: 220
Editora: Folio - Gallimard
Edição: Mars 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3749)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Há livros que nos devolvem perguntas urgentes sobre o presente. Chien blanc, de Romain Gary, foi para mim uma dessas leituras: lúcida, inquieta, impossível de afastar. Num tempo em que a violência simbólica volta a ganhar terreno, este livro escrito há mais de meio século ressoa com uma actualidade desconfortável. Deixo aqui a minha reflexão sobre essa travessia.

Há livros que não se limitam a narrar acontecimentos. Interrogam uma época, desmontam certezas e obrigam-nos a olhar de frente para aquilo que preferiríamos manter na penumbra. Chien blanc é um desses livros. Publicado em 1970, nasce da experiência directa do autor e da actriz Jean Seberg nos Estados Unidos em plena luta pelos direitos civis. Mas o que poderia ser apenas um testemunho transforma-se, nas mãos de Gary, num exercício literário de rara lucidez moral.

A premissa é simples e brutal, um cão treinado para atacar pessoas negras entra na vida do casal. A partir desse gesto inicial, Gary transforma o animal num espelho das tensões raciais que atravessam o país — e, inevitavelmente, a própria intimidade doméstica. O cão é personagem, símbolo e ferida aberta; é também o ponto de partida para uma reflexão sobre violência, condicionamento, culpa e responsabilidade.

A escrita de Gary é de uma ironia cortante, mas nunca cínica. Ele observa, expõe as próprias contradições, recusa a posição confortável do europeu que julga compreender a América. Jean Seberg surge como presença luminosa e inquieta, politicamente comprometida, em contraste com a perplexidade do narrador. A relação entre ambos, atravessada pela urgência histórica, dá ao livro uma vibração íntima que o torna ainda mais complexo.

Há ainda um desvio inesperado na terceira parte do livro. Exausto da crispação política americana, Gary parte para Paris para se envolver nos acontecimentos de Maio de 68. Esta mudança de cenário não funciona como fuga, mas como contraponto. Entre a luta racial nos Estados Unidos e a revolta estudantil europeia, o autor desenha um espelho imperfeito onde duas formas de contestação se iluminam e se contradizem. A deslocação permite-lhe observar, com ironia e desencanto, a distância entre ideais e práticas, entre discursos inflamados e realidades que resistem a mudar. É também um momento em que a sua própria posição — de escritor, de diplomata, de homem dividido entre mundos — se torna mais nítida.

Sem nunca perder o ritmo narrativo, Gary conduz-nos até um ponto de tensão extrema — um instante em que a metáfora deixa de ser apenas metáfora e se torna gesto, consequência, corpo. Não é necessário revelar o que acontece, basta dizer que esse momento altera irremediavelmente a leitura do livro e a forma como pensamos a violência que herdamos e reproduzimos.

Ler Chien blanc hoje é confrontar a persistência de mecanismos que julgávamos ultrapassados. A violência que Gary observa — estrutural, ensinada, interiorizada — não pertence apenas ao passado. Reaparece sob novas formas, mais subtis ou mais ruidosas, mas sempre pronta a dividir, a simplificar, a transformar o outro em alvo. O livro lembra-nos que a violência não se desfaz por decreto, nem se reeduca apenas com boas intenções; exige vigilância ética, coragem cívica e uma atenção constante às feridas que a história deixa abertas.

Num tempo em que discursos de ódio se normalizam, em que a polarização se instala como reflexo automático e em que a desinformação alimenta medos antigos, Chien blanc funciona como aviso e como espelho. Mostra-nos que a violência, quando não é enfrentada, acaba por regressar — às vezes disfarçada, às vezes mais feroz — e que ninguém está imune às suas consequências. A literatura de Gary, com a sua ironia ferida e a sua lucidez moral, recorda-nos a urgência de resistir à facilidade do ódio e de cultivar, mesmo nas horas mais sombrias, a responsabilidade de olhar o outro com humanidade.



13 janeiro, 2026

Al Berto | Partilha da Biblioteca Nacional de Portugal


Texto e fotografias publicadas no Facebook (13.01.2026) pela BNP


Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares) nasceu em Coimbra, a 11 de janeiro de 1948. Passou a juventude em Sines. Frequentou diversos cursos de Artes Plásticas, quer em Portugal quer em Bruxelas, onde se exilou em 1967. Foi lá que fundou, em 1969, a Associação Internacional Monfaucon Research Center, um coletivo cujo propósito era questionar as normas sociopolíticas da época e fomentar mudanças através da produção cultural. Em 1971 abandona a pintura e dedica-se exclusivamente à literatura, estreando-se com À Procura do Vento num Jardim d’Agosto (1977), a que se segue Lunário (1988), O Anjo Mudo (1993) e Horto de Incêndio (1997). Em 1988 foi distinguido com o Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo (1987), que reúne a obra poética publicada até à data da sua primeira edição.
O espólio de Al Berto (BNP Esp. E49, 45 caixas) inclui manuscritos, correspondência, documentos biográficos e alguns exemplares da obra impressa em diferentes línguas. Entre os manuscritos, encontramos um caderno com a primeira versão de Lunário (E49/Cx.28). São 187 folhas paginadas e carimbadas com o nome do autor. A primeira folha apresenta o título e as datas de produção (1986/1987), bem como uma epígrafe retirada da obra de Marguerite Yourcenar O tempo, esse grande escultor («Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. […] Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos»), posteriormente substituída por uma citação de Hector Bianciotti (L’amour n’est pas aimé).
Lunário, obra devedora das deambulações europeias do autor, acompanha Beno (que partilha o aniversário com Al Berto), a sua vida boémia e as suas paixões efémeras: «O café só começaria a encher por volta das dez da noite. A essa hora iniciar-se-ia o habitual desfile de rostos maquilhados, de poses inesperadas, de gritos e de gargalhadas, de gestos e de cumplicidades que só se cumprem durante a noite. Uma outra cidade se levantava assim que o dia recolhia. Cidade de excessos e de abismos, de sangue e de música, de drogas e de sexo, de banalidades e de beleza. E de ternura e de paixão»."




       
         
  

 



12 janeiro, 2026

𝑶 𝑻𝒆𝒔𝒐𝒖𝒓𝒐, de Selma Lagerlöf

 


Autora: Selma Lagerlöf
Título: O Tesouro
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 92
Editora: Cavalo de Ferro
Edição(4.ª): Junho 2023
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3771)

OPINIÃO ⭐⭐⭐/⭐



O Tesouro, de Selma Lagerlöf, parte de um crime brutal no presbitério de Marstrand para construir uma narrativa onde a violência inicial se transforma em ferida moral duradoura. 
Elsalill, única sobrevivente, cresce entre a necessidade de afecto e a memória traumática que a habita. A ambiguidade das suas reflexões nasce dessa tensão. A jovem deseja confiar e amar, mas carrega dentro de si a sombra do passado, que regressa sob a forma do fantasma da irmã. Esta aparição não é mero artifício sobrenatural, funciona como consciência ética, lembrança viva da injustiça e força que impede Elsalill de se entregar ao esquecimento. A sua interioridade oscila entre o impulso de ter uma vida melhor e o dever de recordar, e é dessa oscilação que o conto retira a sua força trágica.

A natureza desempenha um papel decisivo e quase mítico. O mar gelado, que impede os barcos de navegar, funciona como barreira física e moral. Enquanto o crime permanece impune, a própria paisagem se fecha, como se recusasse permitir a fuga ou a continuação da vida normal. Só quando os ladrões e assassinos são finalmente identificados e presos é que uma tempestade súbita provoca o degelo, abrindo novamente as rotas marítimas. Este momento, situado entre o natural e o sobrenatural, sugere que a natureza participa na restauração da justiça, alinhando‑se com a verdade que insiste em emergir. O mar, o vento e a noite não são cenário, mas agentes silenciosos que vigiam o destino das personagens e protegem o tesouro manchado de sangue.

Publicado cinco anos antes de Selma Lagerlöf receber o Prémio Nobel da Literatura — distinção que a tornou na primeira mulher laureada — este conto já revela o poder singular da sua escrita. A autora une imaginação e ética, realismo e lenda, numa prosa clara e encantatória que transforma uma história breve numa meditação sobre culpa, responsabilidade e destino. O Tesouro mostra, em miniatura, a amplitude da obra de Lagerlöf e antecipa a razão pela qual a sua voz se tornou uma das mais marcantes da literatura europeia.

A leitura deste conto ganha ainda mais profundidade quando colocada ao lado de outras obras da autora que já percorri, como A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia e O Livro das Lendas. Esses livros revelam a amplitude da sua imaginação, a delicadeza com que trabalha o maravilhoso e a forma como entrelaça ética, natureza e mito. Reconheço, em O Tesouro, a mesma força narrativa que atravessa toda a sua obra. A capacidade de transformar histórias simples em meditações luminosas sobre a condição humana. 
Ler este conto depois dessas obras é reencontrar Selma Lagerlöf na sua essência — uma voz pioneira, clara e encantatória, que continua a ressoar muito para além do seu tempo.



11 janeiro, 2026

Al Berto | Dia de aniversário (11. Jan. 1948)




Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

10 janeiro, 2026

Sublimidade

 

                                       
  (c) GR


Sublimidade 


Rasgos ardentes
tingem o horizonte

Abraçam o ar gélido 

A esfera de um amarelo intenso
Inicia a descida 
calma
segura 

Aproxima-se 

Beija o oceano
entra nele
uma parte
inteira

Diluem-se
num só brilho

Ilusoriamente


GR



09 janeiro, 2026

𝑫𝒊á𝒍𝒐𝒈𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒎 𝑳í𝒅𝒊𝒂 𝑱𝒐𝒓𝒈𝒆, de Carlos Reis

 


Autor: Carlos Reis
Título: Diálogos com Lídia Jorge 
N.º de páginas: 364
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2025
Classificação: Diálogos
N.º de Registo: (3719)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Diálogos com Lídia Jorge, de Carlos Reis, é uma obra de grande relevância, não apenas pela ampla informação que reúne sobre o percurso literário da autora, mas sobretudo pela natureza intimista e franca da conversa que aqui se estabelece. Conduzidos com rigor e perspicácia por Carlos Reis, estes diálogos cruzam reflexões sobre a sociedade portuguesa — do passado ao presente — e sobre a actualidade mundial, iluminando a forma como a literatura se inscreve no nosso tempo.

Na Introdução (p. 53), Carlos Reis observa que “uma obra literária (…) é uma entidade dinâmica, eventualmente sujeita a revisão; nela, o escritor inova, mas escuta os ecos do passado, apreende as grandes questões do seu tempo e incorpora‑as (…) num conjunto em busca da coerência.” Esta afirmação funciona como chave de leitura para o que se desenrola ao longo dos sete diálogos: uma troca autêntica, viva, profundamente humana.

Lídia Jorge, por vezes discordante mas sempre respeitosa, argumenta e contra‑argumenta com humor subtil e alguns risos. Partilha memórias, vivências, métodos de escrita e inquietações, mas também reflecte sobre o poder da literatura, a ética do gesto literário, o desconcerto do mundo, a era digital e as influências que a acompanharam. A sua visão do mundo nasce da narrativa enquanto testemunha de um tempo histórico, social e cultural.

O volume inclui ainda um apêndice com a carta de Lídia Jorge a Eduardo Lourenço, documento que acrescenta uma nota de cumplicidade intelectual e afectiva entre dois nomes maiores da nossa cultura, funcionando como um fecho simbólico e luminoso.

Em síntese, este livro é imprescindível para compreender a obra e o pensamento de Lídia Jorge. E subscrevo a afirmação inicial da autora: para a construção deste volume, “Carlos Reis emprestou o seu saber enquanto ensaísta, crítico e grande leitor que é. Trata‑se de um texto a dois, duas faces sem nenhuma das quais, de forma igual, não existiria a moeda.” (pp. 18‑19). Uma verdade evidente.