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01 março, 2021

𝙊 𝘿𝙚𝙡𝙛𝙞𝙢, de José Cardoso Pires


Autor: José Cardoso Pires
Título:O Delfim
N.º de páginas: 363
Editora: Moraes
Edição: 1.ª- Maio 1968 - 7..ª  - Janeiro 1978
Classificação: Romance
N.º de Registo:184


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de O Delfim, considerada a melhor obra do escritor, foi um autêntico deleite linguístico. Muito bem escrito, num tom bem-humorado e repleto de ironia, transporta-nos para uma pequena localidade, Gafeira, onde nada de importante acontece a não ser a caçada anual.
“Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço, pelas nádegas.” (p.39)

É nesta magnífica encenação que o leitor vai tomar conhecimento, pela voz do escritor-caçador, de uma história de crime e mistério que ocorreu na lagoa da aldeia.
“Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.” (p.9) e acrescento eu, O Delfim.

Gafeira, terra de uma família tradicional e privilegiada, dona de uma lagoa mítica, é então o palco do passado, das lendas, dos rumores, das sombras, das superstições, onde a sua população vive uma existência rural, alheia ao progresso, apesar das marcas de modernidade que vão surgindo, e confinada em si mesma, onde misticismo e realidade muitas vezes se confundem.

Este livro, publicado em 1968, é uma verdadeira caricatura do Estado Novo e simboliza, por excelência, o tempo da decadência, o fim de um regime, muito bem plasmado em Palma Bravo, O Delfim, que sem poder ter filhos, representa o fim de uma linhagem, em Maria das Mercês, sua mulher, que morre afogada na lagoa, na própria lagoa que adquire características fantasmagóricas e no narrador que insone no seu quarto desfila em pensamento o passado e o presente, as conversas que teve com os habitantes da aldeia e os acontecimentos que ocorreram, sem todavia desvendar o mistério das mortes.

Se ainda não vos convenci a ler este livro, deixo mais dois excertos que considero magníficos:
Falta uma vírgula na paisagem:
E a tarde escorre sem estremecer. Nem um golpe de ar, nem um pássaro, um ruído ao menos a descer dos montes pela estrada. Isto, no fundo, é morte. Podia-se pôr uma cegonha na torre da igreja – seria a vírgula. Um pescoço longo e curvo. Espalmado no ar sobre o largo.” (pp.136 e 137)
e
“«Mulher inabitável…» Gosto, é frase altiva, a prumo – de título para alegoria:
A MULHER INABITÁVEL
Na brancura de uma folha de papel (que é indiscutivelmente um território de sedução, um corpo a explorar), no centro e bem ao alto, planta-se a frase. Ela apenas, o título, como um diadema de dezassete letras.” (p. 139)




26 fevereiro, 2021

22.ª Edição de Correntes d'Escritas

 



Nos dias 26 e 27 de fevereiro, o Correntes d'Escritas marca encontro com o seu público para a 22ª edição, a realizar-se em formato online. O grande festival literário irá ser vivido de forma exclusivamente virtual, mas com a mesma paixão e garantia de acesso livre para todos, sem inscrição prévia, através da transmissão em direto via internet, no portal da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim e das redes sociais, nomeadamente no facebook do município e do Correntes.

Conheça o programa completo aqui


23 fevereiro, 2021

𝙊𝙡𝙞𝙫𝙚 𝙆𝙞𝙩𝙩𝙚𝙧𝙞𝙙𝙜𝙚, de Elizabeth Strout



Autor: Elizabeth Strout
Título: Olive Kitteridge
N.º de páginas: 347
Editora: Alfaguara
Edição: 1ª edição - Julho 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo:3266


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Trata-se de um romance composto por 13 pequenas histórias que ocorrem na pequena localidade de Crosby, no Maine. O fio condutor entre estas histórias é, precisamente, Olive Kitteridge, uma professora de matemática aposentada, bastante pragmática, severa e pouco amada pela vizinhança. Está casada com Henry, o farmacêutico gentil, e é mãe de um rapaz Christopher.
Apesar desta carapaça dura, Olive vai conquistando o leitor que de história em história, lentamente, vai registando as mudanças da vila e com elas, as da própria personagem.
Todas estas histórias, centradas numa personagem, se desenrolam à volta de um drama, de mexericos, de relacionamentos familiares, profissionais, sociais. Tudo isto faz parte da vida desta comunidade, e do mundo em geral. Temas como o envelhecimento, a doença, a separação, a solidão, o abandono são subtil e brilhantemente apresentados através da descrição de situações e personagens que facilmente o leitor aceita como sendo reais.
Para mim, a beleza deste romance está na forma como as histórias se vão entrelaçando e sobretudo na ligação de Olive a todas elas. Em muitas, aparece como personagem que relata a sua vida e que assim vai tomando conhecimento de si própria, que se adapta e se transforma, noutras é apenas citada por uma ou outra razão.
Aparentemente simples, esta obra carrega inúmeras situações, impostas pelas vicissitudes da vida, que provocam no leitor reflexões sobre a condição humana, sobre a sua própria vida.
O leitor não sai incólume desta leitura, fica incomodado e isso é bom. É literatura.


13 fevereiro, 2021

𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒓𝒏𝒆𝒄𝒂 𝒂𝒐 𝑬𝒏𝒕𝒂𝒓𝒅𝒆𝒄𝒆𝒓, de Florbela Espanca

 



Autor: Florbela Espanca 
Título: A Charneca ao Entardecer (contos escolhidos)
Selecção, organização e introdução: Jose Luís Peixoto
N.º de páginas: 88
Editora: Edições Quasi
Edição: 3.ª edição - Fevereiro 2007
Classificação: Contos
N.º de Registo: 2978


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

É a primeira incursão que faço na prosa ficcional de Florbela Espanca. A Charneca ao Entardecer é uma pequena antologia de sete contos selecionados e organizados por José Luís Peixoto que nos diz na sua introdução que “os contos foram escolhidos de acordo com o meu gosto”.
Assim, parti desde logo do princípio de que também eu iria gostar. Não fiquei nada desiludida, mas, mesmo assim, confesso que prefiro a sua poesia.

A sua charneca alentejana está muito presente nos primeiros contos. Nestes, aprecio a sua escrita sensorial muito poética sobretudo quando descreve a paisagem.
“Em volta, o silêncio era tão profundo, tão religiosa e extática a paz dos campos, que os olhos do lavrador incrédulo se ergueram da terra numa instintiva acção de graças. (…) É que os sombrios olhos alentejanos precisam encher-se de infinito, precisam das amplas extensões onde o ar corre liberto, e o Sol, pelas tardinhas solitárias, adormece cansado, imperador aborrecido do seu trágico gozo de incendiar.” (pp.29 e 30).

É lindo! Só quem vive no Alentejo pode sentir e entender estas palavras, estas imagens, este enlevo, esta sensação de plenitude.

A outra temática abordada é a morte. Temos alguns contos dedicados ao seu irmão que perdeu a vida de forma prematura. Esta perda absurda vai deixar marcas físicas e psicológicas na autora. Em “Dedicatória”, o conto é dirigido ao seu “querido irmão Morto”, estamos então perante uma escrita intensa e profunda, carregada de melancolia, de sofrimento e de culpa.
“Aquele que traz no rosto as linhas do teu rosto, nos olhos a água clara dos teus olhos, o teu Amigo, o teu Irmão, será em breve apenas uma sombra na tua sombra, uma onda a mais no meio doutras ondas, menos que um punhado de cinzas no côncavo das tua mãos?!...” (p.47)

Gostei bastante desta selecção, mas preciso de ler mais contos para validar a minha opinião sobre a vertente contista da autora.

12 fevereiro, 2021

𝑶𝒔 𝑨𝒏𝒐𝒔, de Annie Ernaux

 


Autor: Annie Ernaux
Título: Os Anos
N.º de páginas: 196
Editora: Livros do Brasil /Porto Editora
Edição: 1.ª edição - Fevereiro 2020
Classificação: Autobiografia
N.º de Registo: 3265


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Os Anos. Os Anos, de Annie Ernaux são um autêntico mergulho no tempo e nas múltiplas gavetas da sua memória. Refiro "gavetas" com intenção porque tratando-se de um texto contínuo (sem capítulos), porém fragmentado como se a autora abrisse uma gaveta e dela retirasse uma fotografia, um filme, uma música, parece-me que a palavra espelha bem a estrutura e o conteúdo do livro.
Esta narrativa clara, objetiva e sem preconceitos desliza “num imperfeito contínuo, devorando o presente progressivamente até à última imagem de uma vida.” (p.194) Ao ritmo dessas memórias visuais, mentais e sentimentais, a autora relata a sua vida pessoal, familiar, profissional e social estabelecendo relações com a evolução de uma sociedade, a francesa em particular, desde 1941 até 2006. Partindo de uma retrospectiva imagética “Numa fotografia a preto e branco” (p.43), quase cronológica, como se de uma "Existência de papel" (título de um livro de Al Berto) se tratasse, a autora rememora o "eu/ela" inserido na história de um país, e de certa forma do mundo.
É este entrelaçamento entre o “eu” da enunciação, o “ela” da escrita e o “alguém” ou “nós” (p.194) de uma sociedade que tornam este livro fascinante.
“Gostaria de reunir múltiplas imagens dela própria, separadas, sem relação entre si, ligadas por um fio narrativo, o da sua existência, (…) como representar simultaneamente a passagem do tempo histórico, a transformação das coisas, das ideias, dos hábitos e o carácter íntimo dessa mulher. (…) A sua principal atenção incide na escolha entre “eu” e “ela”. Existe demasiada continuidade no “eu”, algo de limitado e sufocante, e no “ela” demasiada exterioridade e distanciamento.” (p.144)

Estamos perante um extraordinário manancial de referências sociais, políticas e culturais que marcaram toda uma geração.
Para mim, que vivi a minha adolescência neste ambiente (ou pelo menos uma parte), a leitura deste livro está a causar-me sensações contraditórias porque me traz à memória momentos muito bons e outros menos bons. Mas que é redentor, é! A anos de distância, sinto a melancolia, a adrenalina e a desilusão vividas na época e que a autora tão bem retrata.


04 fevereiro, 2021

𝘼 𝙄𝙣𝙫𝙚𝙣çã𝙤 𝙙𝙚 𝙈𝙤𝙧𝙚𝙡, de Adolfo Bioy Casares


Autor: Adolfo Bioy Casares
Título: A Invenção de Morel
N.º de páginas: 152
Editora: Antígona
Edição: 3.ª edição - Março 2020
Classificação: Romance/Diário
N.º de Registo: 3223


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Se Jorge Luís Borges, no prefácio, refere “não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo como perfeito,” que poderei eu, simples leitora, acrescentar? Nada! Está absolutamente perfeito!

Estamos perante uma narrativa, em forma de diário, de um foragido da lei que se refugiou numa ilha deserta. “ Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre. (…) Escrevo estas linhas para deixar testemunho do milagre adverso.” (p.15). O leitor é, desde logo, informado das razões deste diário.
A ilha, considerada amaldiçoada e inóspita tem, no entanto, três construções (um museu, uma capela e uma piscina). Aquando da sua expedição ao interior dos edifícios, descobre uma máquina, que saberá mais tarde, que foi inventada por Morel. Uma das várias personagens que aparecem na ilha.
“Estou na posse de um dado que pode servir aos leitores deste relato para conhecerem a data da segunda aparição dos intrusos…” (p.75)

O relato é vincadamente marcado pela luta de sobrevivência e pelo medo de ser descoberto por estes intrusos. Ele observa-os à distância, ouve as suas conversas e apaixona-se por uma das mulheres, Faustine.
“ A mulher do lenço tornou-se-me agora imprescindível. Talvez toda a minha higiene de nada esperar seja um pouco ridícula. Nada esperar da vida, para nada arriscar; dar-me por morto para não morrer. (…) Voltei duas tardes mais: a mulher lá estava; comecei a achar que esse era o único milagre…” (pp. 37 e 38)
Mas será esta uma realidade? É que para sobreviver à fome, o nosso fugitivo ingere plantas e raízes que provocam delírios, alucinações, pesadelos.

É nesta multiplicação de imagens que a escrita de Casares se torna mágica, ou citando Borges, perfeita. A realidade e a fantasia misturam-se, o presente e o futuro são constantemente indagados e este questionamento e consequente reflexão levam-nos, a nós leitores, a pensar sobre a fragilidade da vida e as fronteiras do real.

Narrativa muito actual, já que a explicação do funcionamento da invenção de Morel, bem como o desfecho da narrativa, nos remetem, inequivocamente par o mundo em que vivemos numa mescla de real e virtual.



31 janeiro, 2021

𝑨 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒂 𝒇𝒂𝒄𝒆 𝒅𝒐 𝒓𝒊𝒔𝒐 , Isabel Gouveia

 



Autor: Isabel Gouveia
Título: A Outra Face do Riso
N.º de páginas: 147
Editora: Universitária Editora
Edição: 1.ª edição Jul. 2003
Classificação: Contos
N.º de Registo: 1587


OPINIÃO ⭐⭐⭐

A Outra Face do Riso é um livro que provoca sorrisos mais pelo carácter dramático de algumas histórias do que propriamente pelo cómico. São 23 contos interessantes que me fizeram regressar à minha infância, também beirã. Ao longo do livro, revi algumas personagens-tipo muito bem caracterizadas, espaços e eventos descritos na perfeição, vícios e costumes típicos dos habitantes da província. Os vários estratos sociais foram retratados sem o menor pudor. Ninguém foi poupado. Poder-se-á afirmar que a autora, como advogada, conhecia bem os meandros da sociedade da época.

A escrita é muito cuidada, demasiado por vezes. Houve a preocupação de bem escolher as palavras, de não sair de uma certa linha de escrita. Foi pena, alguns contos seriam bem mais interessantes se a linguagem usada fosse mais popular e até com recurso a alguma brejeirice. A ironia e a malícia estão presentes, mas aplicadas num outro tom teria sido bem mais agradável e evidente.

Foi uma leitura agradável.


29 janeiro, 2021

𝑨𝒑𝒏𝒆𝒊𝒂, de Tânia Ganho

 

Autor: Tânia Ganho
Título: Apneia
N.º de páginas: 692
Editora: Casa das Letras
Edição: 1.ª edição Jul. 2020 / 2.ª edição Jul. 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Apneia: “Ausência ou interrupção momentânea da respiração” foi neste estado que permaneci ao longo da leitura deste livro. Tive de retrair o impulso de o ler de seguida, senti que se o fizesse também eu ficaria perturbada, insone. Foi necessário dosear a leitura para acompanhar a violência psicológica, o medo, a náusea vividos por Adriana e Edoardo, o seu filho.
Este livro é um autêntico murro no estômago. Não é novidade para ninguém o quão doloroso é um processo de guarda partilhada de um filho, sobretudo quando um dos progenitores semeia ódio e manipula a criança para atingir o outro cônjuge. São 692 páginas de demonstração de ódio, de manipulação, de mentiras, de submissão, de terror, de idas a tribunais, ao psicólogo, ao psiquiatra, a advogados, e finalmente de descobertas… descobertas terríveis que sufocam o leitor, que o mantêm em apneia, que o deixam indignado com a lentidão e a inoperância da justiça e de todos os que deviam defender os direitos e o bem-estar de uma criança. É inadmissível a cegueira da justiça que nesta história, como em tantas da vida real, falha na sua missão de proteger a criança, de proteger a mulher violentada…
“Estava em guerra contra o sistema que, podendo prevenir, optava por remediar. «A justiça não é preventiva», explicara-lhe uma das muitas autoridades que contactara. «A justiça é punitiva.»” (p. 577)

Gostei muito da escrita sensível e comprometida de Tânia Ganho. Gostei da intertextualidade com a poesia de Anne Sexton. “Que arca/poderei eu encher para ti quando o mundo se tornar selvagem?” (p.49)
Gostei da estrutura que, de início, atrapalha o leitor porque anacrónica, mas que pretende representar o estado mental caótico de Adriana, (um reflexo da sua fragmentação” p. 348) a mãe que tudo fez para manter a saúde mental do seu filho nesta guerra parental à custa de tanta dor, de tanta mágoa, de tanta injustiça, mas também de tanta perseverança e amor.


28 janeiro, 2021

𝗨𝗺𝗮 𝗩𝗶𝗮𝗴𝗲𝗺 à Í𝗻𝗱𝗶𝗮, de Gonçalo M. Tavares


Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma Viagem à Índia
N.º de páginas: 456
Editora: Caminho
Edição: 1.ª edição 2010 / 2.ª edição 2011
Classificação: Epopeia
N.º de Registo: 2701

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

É admirável a escrita e a versatilidade do autor. Neste livro, estamos perante uma epopeia, a narrativa de um herói, dividida em 10 cantos, e escrita em verso (1102 estrofes). É, por isso, inevitável a comparação com a nossa obra maior Os Lusíadas, de Luís de Camões ao nível da estrutura, do destino da viagem, dos elementos da natureza, do divino e de outras referências ao longo da narrativa. Claro que há diferenças, tais como a ausência de rima, a irregularidade do número de versos de cada estrofe, o herói individual e não colectivo, entre outros aspectos.

Temos ainda, uma proposição, é-nos anunciado, logo no início, qual o propósito do livro: “Falaremos de uma viagem à Índia. /E do seu herói, Bloom” (p. 32) e uma invocação:
“Mas agora quem quer falar é quem escreve.
Que as ninfas e as musas, e ainda a minha
cabeça, me ajudem na escrita, pois escrever
assim – epopeias – é exigência de minúcia
em animal de grande porte e exigência de grandeza
em animais ferozes mas minúsculos.” (p. 320)

Quem conhecer bem a epopeia camoniana não deixará de perceber o paralelismo estabelecido nesta Melancolia Contemporânea (subtítulo).

Bloom, o nosso herói, foge de Lisboa, do passado e vai procurar a sabedoria à Índia, porém, aí, encontra decadência e hostilidade e constata que no Ocidente e no Oriente os homens são idênticos. O herói, regressa da Índia sem conquistar um novo mundo, o passado mantém-se vivo, o presente afigura-se-lhe melancólico e o futuro entediante.
“ Ele aproxima-se da mulher e o mundo prossegue,
mas nada que aconteça poderá impedir o definitivo tédio de
Bloom, o nosso herói.” (p.456)

Em conclusão, penso que, apesar do título, não estamos perante um livro de literatura de viagens, mas sim de uma viagem interior “a viagem interior de Bloom”, de aprendizagem, de auto-conhecimento, de reflexão.
Apesar de se tratar de uma leitura complexa porque navega sobre muitos assuntos, vale a pena ler, com tempo, para subtrair o essencial e reflectir.


15 janeiro, 2021

𝑪𝒐𝒏𝒇𝒖𝒔ã𝒐 𝒏𝒐 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆𝒅𝒐𝒓 𝒅𝒐𝒔 𝑬𝒏𝒍𝒂𝒕𝒂𝒅𝒐𝒔, de José Luís Peixoto

 

Autor: José Luís Peixoto
Ilustrador: Catarina Bakker
Título: Confusão no Corredor dos Enlatados
N.º de páginas: 38
Editora: Zero Desperdício
Edição:  s/data
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (ebook)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

São quatro os livros que integram esta coleção editada com o objectivo de “educar para uma alimentação saudável”, este, em particular, foca-se no desperdício alimentar. 
Destinado aos mais pequenos (1.º ciclo), mas que pode e deve ser lido por qualquer um. Com uma escrita simples, uma linguagem muito acessível e ilustrações maravilhosas, a história encerra uma mensagem muito interessante e actual, excelente para desenvolver na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Foi no âmbito desta disciplina que lemos, de forma expressiva, este conto aos alunos do 7.º ano. No final, houve troca de ideias e de boas práticas. 
Divertimo-nos imenso! E os pequenos adoraram! 
Recomendo a leitura! Vão adorar conhecer a Mimimi (Maria Isabel Mónica Ivone Matilde Inês Silva da Silva) e seguir os seus conselhos!

11 janeiro, 2021

Celebrar Al Berto !

 



As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo
e o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto, in O Medo

(11 de Janeiro de 1948 -13 de Junho de 1997)

10 janeiro, 2021

𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, de João Tordo

                                                     

Autor: João Tordo
Título: Felicidade
N.º de páginas: 390
Editora: Companhia das Letras
1.ª Edição: Outubro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3253


OPINIÃO: ⭐⭐⭐⭐

É o nono livro que leio de João Tordo e a minha admiração pela sua escrita, pelo seu poder criativo quer ao nível da construção quer do enredo, tem vindo a crescer de livro para livro. 

Felicidade apresenta características de uma tragédia grega, não sendo uma peça de teatro, há contudo aspectos que para aí remetem, como por exemplo, a estrutura do romance, a divisão em três actos; o culto à mitologia grega; o tema da morte e a história trágica e dramática derivada da paixão humana; a tensão permanente em que vive a personagem e o final infeliz e trágico. 

Ao longo da narrativa, acompanhamos um jovem (não lhe foi atribuído um nome) desde os tempos em que frequentava o liceu até à vida adulta, ao desenlace trágico. Conhecemos a sua família, alguns amigos e as trigémeas: Felicidade, Esperança e Angélica. 
Trata-se de uma história intensa, marcada por muito sofrimento, solidão e loucura, ao contrário do que os nomes atribuídos às figuras femininas poderiam indiciar: uma história de amor, de felicidade e de tranquilidade. O leitor nem terá tempo de alimentar essa ilusão porque logo nas duas primeiras páginas, o narrador revela o estado final das irmãs e ao apresentá-las, cria um certo suspense que provoca no leitor uma vontade enorme de descobrir o mistério que envolveu a vida deste jovem. 

“A primeira das trigémeas foi o meu grande amor, a segunda a minha mulher e a terceira participante involuntária da minha ruína. Juntas, elas destruíram a minha vida de maneira lenta e insidiosa, como uma matilha de cadelas que rodeia, dia após dia, um passarinho esfomeado, até este jazer morto no chão da sua gaiola. Finalmente, encontram-se saciadas”. 

Para além do enredo trágico há uma excelente contextualização da História e da Cultura da época em Portugal (anos 70 e 80), bem como uma importante referência à mitologia grega que muito enriquecem a história. Gostei muito desta contextualização porque reavivou a minha memória. Quem viveu estes tempos sabe quão importantes foram. 

Recomendo a sua leitura. É um romance enigmático, trágico com pinceladas de humor e algumas passagens surpreendentes. 

03 janeiro, 2021

Pedro Páramo, de Juan Rulfo

 


Autor: Juan Rulfo
Título: Pedro Páramo
N.º de páginas: 169
Editora: Cavalo de Ferro
3.ª Edição: Junho 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Empréstimo BE)


OPINIÃO: ⭐⭐⭐⭐⭐

Há muito que andava para ler este livro considerado, por muitos, como um dos melhores clássicos da literatura. Penso que se Gabriel García Márquez afirma que “o escrutínio a fundo da obra de Juan Rulfo me deu, por fim, o caminho que procurava para continuar os meus livros”, então está tudo dito. Estamos efectivamente perante um livro notável, singular, místico onde o murmúrio e o silêncio predominam e indiciam a morte.

“Agora estava aqui, nesta aldeia sem ruídos. (…) E embora não houvesse crianças a brincar, nem pombas, nem telhados azuis, senti que a aldeia estava viva. E que, se eu ouvia apenas o silêncio, era porque não estava ainda habituado ao silêncio; talvez porque a minha cabeça vinha cheia de ruídos e vozes.” (p. 24
Memórias e realidade entrecruzam-se a várias vozes. Tal como em Cem Anos de Solidão (romance em que se nota a influência de Rulfo sobre García Márquez), o realismo mágico é a característica dominante. 
Estamos perante um romance que revela muitos personagens, vivos e mortos (mais mortos do que vivos). São almas, fantasmas que vagueiam de noite, que murmuram, que falam entre si, que vão narrando a Juan Preciado, filho de Pedro Páramo, a história de seu pai que do nada foi “crescendo como uma erva daninha”, a sua paixão por Susana San Juan, a sua morte e com ela, a de Comala. 

“ – Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Uma gargalhadas já muito velhas como se estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso. Ouves tudo isso.” (p.59) 

Poder-se-á afirmar que Rulfo ao comparar Comala ao Inferno é uma alegoria ao continente sul-americano e mais concretamente ao México, já que na obra há referências à história e à política mexicanas. 

“- Sim, e isto [o calor] não é nada – respondeu-me. - Espere. Vai senti-lo ainda mais quando chegarmos a Comala. Aquilo está sobre as brasas da Terra, na própria boca do Inferno. Basta dizer-lhe que muitos dos que lá morrem, quando chegam ao Inferno, regressam em busca do seu agasalho. “ (p.22)



01 janeiro, 2021

Iniciar 2021 em poesia...


                                  



Tinha nevado. Lembro-me
de música saindo de uma janela aberta.

Vem a mim, dizia o mundo.
Não significa
que o fizesse com frases
mas era assim que eu intuía a beleza.
Aurora. Uma película de humidade
sobre cada ser vivo. Poças de luz fria
formavam-se nas sarjetas.

Eu esperava
na soleira,
por mais ridículo que pareça agora.

O que outros encontravam na arte,
encontrava eu na natureza. O que outros encontravam
no amor humano, encontrava eu na natureza.
Muito simples. Mas não havia nenhuma voz ali.

Louise Glück, Averno



30 dezembro, 2020

Balanço Final




Para preencher na totalidade os desafios, #desfiodeleituramantadehistorias20 #lêportuguês #escapadelaliterária e #lercomelas, propostos pelo Clube de Leitura Manta de Histórias, li 70 livros. 
Como o meu objectivo é não repetir livros nos vários desafios (apenas repeti um, mas li outro “pelo prazer de ler…” para compensar), só consegui ler 1 para o #hohohobooks. Ainda seleccionei outro, mas as novidades dos últimos dias, desviaram-me para outras tarefas, também muito interessantes…

Assim no total li 71 livros (tanta conversa para dizer isto):
- 32 de autores portugueses (16 Homens, 16 Mulheres);
- 6 de autores lusófonos (5 H, 1 M)
- 33 de autores estrangeiros (22 H, 11 M) este ano abusei de autores estrangeiros… 
destes autores, li 3 em língua francesa (é pouco)

Tentei diversificar os géneros literários, e para além dos específicos dos desafios, li poesia (vários), teatro e crónicas. Não li cartas/correspondência nem diários (talvez inclua no desfio de 2021)

Para além destes desafios, participo em tertúlias da minha escola e no Clube de Leitura do PNL, no GoodReads (estas duas atividades condicionam as leituras, já que indicam concretamente o livro a ler. Estas leituras integram também os desafios do CLMH. 
Finalmente, resta-me dizer que superei o número estabelecido de leituras no GoodReads. 
Agradeço o contributo de todos os que sugeriram livros e foram partilhando opiniões. 

Consultar a etiqueta Desafio de Leitura 2020 para aceder às opiniões dos livros lidos, carregar na imagem ou  aqui para aceder à página do Goodreads.



𝘈𝘴 𝘌𝘴𝘵𝘢çõ𝘦𝘴 𝘥𝘢 𝘝𝘪𝘥𝘢, de Agustina Bessa-Luís



OPINIÃO

Pequeno livro, pouco divulgado, penso eu, porém uma autêntica pérola dos usos e costumes da gente do norte. Estas Estações da Vida, são nada mais do que um elencar de “memórias de viagens de pequeno curso que, desde a infância, me transportam de um lugar ao outro.” (p.17). A autora na sua viagem “de comboio” à beira do Douro, transporta-nos para “antigas carruagens”; faz-nos descobrir pessoas, costumes e terriolas; desvenda-nos histórias narradas nos painéis de azulejos. 
Apesar de pequeno, a narrativa contém informação vasta sobre a época, Agustina narra com subtileza e uma ponta de ironia certos episódios que viveu ou observou da sua aldeia. “Desde a aldeia de Ariz, podíamos ver quem entrava no comboio, se usássemos um binóculo. Quem se tinha por ilustrado e ocioso elegante tinha um binóculo em casa.” (p.29)

Adoro este excerto que mostra a perspicácia e o sentido crítico de Agustina:

“(…)Ninguém levava farnel nas carruagens de primeira classe. (…) era tudo muito discreto, muito digno, não se tirava o chapéu nem as luvas nem se abanava o rosto com um papel pregueado. 
(…) Nas carruagens de segunda classe era tudo mais falado. Faziam-se amizades, trocavam-se merendas, conselhos, as mães diziam coisas dos filhos e como os criavam. (…) A alma sensata viajava em segunda classe, era opiniosa e moderada; escandalizava-se facilmente. (…) Enquanto na terceira classe era a festa, diziam-se larachas, derramava-se vinho, ouvia-se o piar dos frangos nas cestas de vime vermelho. (pp.21 a 23)

28 dezembro, 2020

𝓑𝓪𝓲𝓵𝓪𝓻𝓲𝓷𝓪𝓼 𝓭𝓮 𝓒𝓸𝓻𝓭𝓪, de Lília Tavares

 


OPINIÃO


“Que tumulto é este, que inquietude salta/ dos corações das mulheres que agitam as palavras?” (p.50). 
Assim, começa um dos poemas deste livro que enaltece e homenageia as mulheres. Todas as mulheres. A mulher-menina, a jovem mulher, mulher amada, mãe, esposa, marinheira, bordadeira, professora, abandonada, feliz, sonhadora, saudosa, perdida, conformada… 
“(…) abdicam de ser felizes/ ao largarem flores nos lugares onde choraram.” (p.31)

Todas bailarinas porque descritas com delicadeza, harmonia, elegância, mesmo quando “forçadas” a agir pela força da “corda”. 

“Há mulheres que diariamente são flores.
Frescas, portadoras de gotas de orvalho matinal.
Perfumam quem as rodeia como se fossem óleo aromático
em lamparinas que teimam em manter a claridade
na negrura da indiferença das noites longas.
Cantam.
São água que na madrugada sacia a avidez de colo
e de ternura.”

Ao longo dos 65 poemas, a mulher é descrita em união com a natureza, em harmonia com a beleza das flores, das aves, da água, do mar, mas também do vento, do sol, da noite.
“As mulheres têm a força de uma cascata /e a suavidade das violetas que respiram na janela.” (p.25)

Numa escrita poética, simples, emotiva e sincera, a mulher-poeta deixa transparecer a admiração, a gratidão, o carinho e o amor que sente por todas estas mulheres, sejam elas bailarinas porque felizes, fortes e amadas, ou bailarinas de corda porque conformadas e passivas, que preencheram ou ainda preenchem a sua vida. Há, assim, uma mulher que “agita as palavras” e as transforma em emoções.

“Tocam, cegas pelas palavras, labirintos de sonhos
e chegam ao seu lugar, um vasto areal de afectos que se
conjugam em todos os tempos, Ali quase todas as mulheres
ardem em incêndios efémeros e nos barcos dormem
ao som da ladainha verde das ondas. A praia no outono
é um leito frágil de silêncios e limos. São bailarinas
delicadas que se aconchegam nos braços amados, na
intermitência…
da luz. No abraço da noite, em mão amantes, os seus olhos
ousam uma certa forma de errância. Para elas
há muito as estrelas foram reticências. Contemplam
o firmamento na busca do significado para a claridade 
em andrómeda, órion e cassiopeia.



27 dezembro, 2020

𝘔𝘢𝘵𝘢𝘪-𝘷𝘰𝘴 𝘶𝘯𝘴 𝘢𝘰𝘴 𝘰𝘶𝘵𝘳𝘰𝘴, de Jorge Reis

 


OPINIÃO

Matai-vos uns aos outros é considerado um dos melhores romances do neo-realismo e “talvez o melhor romance policial português” (Óscar Lopes). Escrito em 1958 e publicado em 1962, foi proibido e retirado do mercado pela Censura, tendo circulado de forma clandestina. 
A narrativa decorre na localidade de Vila Velha, em 1948. O agente António Santiago tinha 36 anos e fora incumbido de desvendar a morte de Manuel dos Santos. 

“Caíra na Polícia Judiciária, não por temperamento ou vocação para esteio da ordem, mas por necessidade – e ainda a conselho e pelas cunhas do padrinho, chefe da brigada de costumes”. (p.17)

Muito bem escrito, com pinceladas de ironia, relata factos, episódios (alguns caricatos) e costumes de uma terra do interior. Na tentativa de descobrir o presumível assassino de entre dez suspeitos, Santiago, durante sete dias (de quarta a terça-feira) convive com a dita elite da terra, intercepta a hipocrisia, o oportunismo e a corrupção, assiste à violência da praça (guardas) e às manifestações de descontentamento e de pobreza do povo trabalhador e oprimido. 
Jorge Reis escolhe Vila Velha, mas é Portugal que pretende retratar. Narrando os factos e descrevendo aquelas personagens, o autor desvenda magistralmente os meandros da cumplicidade, da arrogância, da opressão e da violência das gentes do poder, da época.

“Triste época a nossa – ia dizendo D. Virgínia – Vivemos no reino dos cascas-grossas e dos brutos a arrotar a broa!... Antigamente, o homem era respeitado pelo seu valor pessoal!... Hoje!...” (p.76) 

“Enfim, um povo em estado de falência crónica”. (p.133) 

“(…) Pior: vivem no medo! Não o medo que, ante um perigo preciso, todo o homem cobra normalmente – senão esse pavor difuso, incerto, acabrunhador, medíocre que leva o vizinho a arrecear-se do vizinho, o irmão a denunciar o irmão! O medo filho da má consciência, do pão que sabe ao pó da mentira e dos caminhos do futuro vedados em todas as encruzilhadas!... “ (p. 149)


25 dezembro, 2020

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler

 



OPINIÃO

Este livro narra a história de John Zarco Stewart, filho de mãe judia e pai escocês, que nasceu no Porto em 1791. A acção vai decorrer sobretudo no início do século XIX (já John tem 9 anos) e relata vários episódios históricos como a perseguição aos judeus e cristãos-novos, as invasões francesas, a ascensão da Companhia das Vinhas, a escravatura no Estados-Unidos, sobretudo na Carolina do Sul. 


Para além destas referências históricas penso que é a história de John que verdadeiramente interessa. Sempre se revelou uma criança curiosa, afectuosa e traquinas. John foi crescendo rodeado de amor (pais e vizinhos e mais tarde a mulher e as filhas) e de amizade (Daniel e Violeta), mas também de traição. Contudo, é Meia-Noite, o curandeiro africano, trazido de África para o Porto pelo pai para o salvar, que lhe vai incutir valores e princípios que o sustentarão ao longo da sua vida, é ele que lhe forja uma personalidade forte e que lhe ensina a superar os seus próprios medos. 

Ao longo da narrativa vamos conhecendo as aventuras de John, os ensinamentos que vai adquirindo, as revelações do seu passado, as perdas e as conquistas, mas vamos sobretudo acompanhando o seu crescimento interior, a forma como (sobre)viveu à sombra do amor, mas também da culpa, da perda, da morte, causando-lhe ódios, revoltas, remorsos, dúvidas. 
Foram estas dúvidas que o levaram a uma busca incessante da verdade e a vencer a "hiena" que frequentemente o assaltava. 

É um romance fabuloso. É um romance que põe em evidência o carácter das pessoas, independentemente da sua cor de pele, de raça ou religião. É um romance sobre a perseguição, a opressão, a escravidão e a traição, mas também sobre o amor incondicional e sobre a fé e a crença e a esperança.


22 dezembro, 2020

Poema de Natal

Ilustração de Eva Montanari


Natal cada Natal

Quando na mais sublime dor,
A mulher dá à luz,
Há sempre um Anjo Anunciador
A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

Cada criança é o Céu que vem
Pra nos remir do pecado
E as palhas d’oiro de Belém
Espalham-se no berço, como um Sol espelhado

Por sobre o lar presepial , o brilho
Da estrela abre o convite dos portais:
— Vinde adorar a floração do filho
No alvoroço da raiz dos pais.

António Manuel Couto Viana, in Mínimos

13 dezembro, 2020

𝗢 𝗔𝘀𝘀𝗼𝗯𝗶𝗮𝗱𝗼𝗿, de Ondjaki

 


OPINIÃO


Trata-se de uma novela composta por cinco partes com episódios curtos e insólitos. A escrita, como habitualmente em Ondjaki, é poética e “encantadora”. A acção decorre numa aldeia, em Angola, apenas habitada por velhos e burros e um padre onde, um dia, em Outubro, chegam duas personagens. A primeira é o Assobiador, que tinha um “assobiar harmonioso e cativador”; a segunda, é um caixeiro-viajante, “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”. 
Foi, porém, o assobiador que veio perturbar a pacatez da aldeia. “A música, em assobio simples, recriava um novo universo dentro da paróquia e todos os corações da assistência – padre, pombos, andorinhas, o mundo!” (p.18). 
Ao longo da história, a música, a melodia do assobiador vai resgatar a alma e libertar o sonho dos habitantes, vai alterar o comportamento das pessoas e dos animais, vai despertar desejos e sentimentos, vai causar magia.

“A magia completou-se e todos agora, incluindo a árvore, podiam partilhar o momento assobiado. (…) Era evidente, para olhos e corações, que o mundo assim tão colorido destilava imagens brutalmente simples – de ternura.” (pp. 99 e 109).

09 dezembro, 2020

𝘒𝘢𝘭𝘭𝘰𝘤𝘢í𝘯𝘢, de karin Boye

 


OPINIÃO



Em Kallocaína, narrativa distópica, o indivíduo é completamente anulado e a sociedade é completamente controlada por um regime totalitarista. O Estado Mundial é o grande manipulador e opressor. 
Leo Kall, o protagonista, trabalha como químico, na Cidade Química número 4, e desenvolveu uma substância, Kallocaína, que depois de injectada nos indivíduos, os levará a revelar todos os segredos, medos, pensamentos, sentimentos, atitudes,… “– Uma coisa, pelo menos, é certa: o último resquício da nossa vida privada desaparecerá para sempre.” (p. 62)
Este método deverá ser aprovado pelo Estado Mundial e implementado como substituto de todos os demais métodos de investigação. 

Muito à semelhança de 1984, de George Orwell, tudo é vigiado, há olhos e ouvidos em todos os lares e a assistente doméstica “estava encarregadas de apresentar um relatório sobre a família no fim de semana.” (p.11). Nesta cidade não há lugar ao amor, à intimidade, ao convívio, ao sonho, à liberdade. Há sim, lugar ao medo, ao pesadelo, à denúncia, à desconfiança e à opressão.
 
Para quem goste de distopias, é um livro a ler



02 dezembro, 2020

Havia, de Joana Bértholo

  



OPINIÃO

Havia é um livro muito original com ilustrações de Daniel Melim que também escreveu o posfácio. 
O livro é composto por pequenos textos, sempre iniciados pela palavra Havia, (verbo impessoal). Cada texto é seguido de um outro pequeno texto, numa outra página, em jeito de conclusão, que serve para confirmar ou contrariar a tese do que foi lido antes. Os desenhos surgem logo depois, sempre dois iguais mas invertidos também em páginas diferentes e seguidas. 
Ora estamos perante um livro com histórias absurdas, desconcertantes, desconexas, divertidas, mas sempre com um propósito. Parece-me que através do nonsense, tal como As Aventures de Alice no País das Maravilhas (livro exemplar em relação à utilização do nonsense na literatura) e dos jogos de palavras e de ideias, a autora vai expondo o seu ponto de vista, quase sempre irónico, em relação a muitos aspetos do nosso quotidiano quer em termos sociais e ambientais quer em termos académicos. Aliás, a forma verbal “havia” tantas vezes atropelada na nossa língua, é, na minha opinião, esclarecedora da intenção da autora. Eis alguns exemplos: 

“Havia uma ilha rodeada de terra por todos os lados. Suponho que nem lagos existissem. (…) Mesmo assim, esta ilha sem água era um afamado destino turístico. As suas praias eram bastante concorridas. “ (p. 20) 

“Havia, uma, vírgula, com, uma, gritante, necessidade, de, protagonismo, Tal , não, era, a, sua, ânsia, de, aparecer, que, não, tolerava, qualquer, outro, tipo, de, pontuação, “ (p.36)

“Havia aquela via onde o homem que já não via fingia que via as miúdas passar. Na verdade não as via, mas deixem-no estar sossegado. É só um velho a lutar contra o Parkinson.” (p.111)

Concluindo, é um livro de leitura rápida e agradável que acaba, por vezes, por nos fazer reflectir e quase sempre sorrir. Havia e há muitas histórias estranhas, mas se ainda restassem dúvidas, na página 106, lê-se “Eu bem te avisei – este livro está cheio de histórias absurdas.”


01 dezembro, 2020

Eduardo Lourenço (23 de maio de 1923 - 1 de dezembro de 2020)

 


                                 
Com o livro "Pessoa Revisitado". © José Carlos Carvalho / Global Imagens


O ensaísta Eduardo Lourenço, de 97 anos, morreu hoje, dia 1 de dezembro, em Lisboa. Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço foi um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa.

Notícia completa em DN.pt 

30 novembro, 2020

Don Giovanni ou O dissoluto absolvido, de José Saramago

 


OPINIÃO


Saramago escreveu este texto a pedido do compositor Azio Corghi para ser adaptado à ópera. À medida que o autor ia escrevendo a peça teatral o compositor ia construindo o libreto. (O posfácio “Génese de um libreto”, esclarece como o projecto foi sendo construindo: troca de correspondência (email) com as diversas ideias e sugestões dos dois criadores.) 
Neste texto, Saramago altera o mito de Don Juan (já muito abordado por vários autores), isto é, em vez de o condenar aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, decide absolvê-lo e mostrar que ele é que foi seduzido. Estamos, evidentemente, perante uma paródia, tal como o original espanhol.
Ao longo das cinco cenas de um único acto, desfilam as personagens que vão mostrar o propósito do autor. Quem é o Don Giovanni de Saramago, um sedutor, ou um seduzido? Temos, então o próprio dissoluto Don Giovanni e o seu criado Leporello, a estátua do comendador, as mulheres que o tentam seduzir: a nobre Dona Ana, a burguesa Dona Elvira e a camponesa Zerlina e ainda os traídos Don Octávio e Masetto. Em poucas páginas, e à boa maneira saramaguiana, se satirizam os valores e comportamentos de uma sociedade hipócrita.

29 novembro, 2020

𝑼𝒎 𝑻𝒆𝒎𝒑𝒐 𝒂 𝑭𝒊𝒏𝒈𝒊𝒓, de João Pinto Coelho

 


OPINIÃO

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários. João Pinto Coelho já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa. 

A acção narrada a duas vozes decorre em Itália, sob o domínio de Mussolini, em Pitigliano, uma localidade da Toscana, com características próprias e bem ilustradas ao longo da narrativa. A primeira voz, a da protagonista, Annina Bemporad, relata a sua vida de maio de 1937 a outubro de 1943; a segunda, a de Ulisse, irmão de Annina, situa-se em 1952 e surge apenas para confirmar, negar ou esclarecer algum aspecto narrado pela sua sorellina

Trata-se de uma história cheia de emoções com muitas reviravoltas. Há personagens fascinantes e actos perturbadores que deixarão marcas na memória dos leitores. Annina, a rebelde, mas também a sonhadora, vai proporcionar-nos momentos de paixão, de ódio, de sofrimento e de vingança. 

João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas peripécias e reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe ludibriar, com subtileza, até ao final planeado e o leitor seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva da história, deixa-se conduzir completamente embrenhado, não distinguindo a realidade da ficção, do fingimento. Em Um Tempo a Fingir tudo é inesperado e verosímil. Tudo é fabuloso.


25 novembro, 2020

Salsugem, de Al Berto

 


OPINIÃO


Já perdi a conta ao número de leituras que já fiz deste livro. Leio sempre com um enorme prazer e confesso que a leitura nunca é idêntica. Desta vez, li para participar numa tertúlia literária. 

Salsugem é, para mim, um dos melhores livros do poeta, considero que há nele um aprofundamento na escrita no sentido em que representa o universo da sua temática: o mar, o deserto, a errância, o crepúsculo, a noite, a memória, a infância, a morte, o corpo, a escrita. 
“a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
(…)
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo”

Trata-se de uma escrita que problematiza questões actuais (“hoje é dia de coisas simples”), que evidencia o desespero, o desassossego da passagem do tempo, da precariedade da vida, a angústia das incertezas, a solidão, o desajustamento com o seu tempo, a melancolia. 

Na escrita de Al Berto “ deambula a melancolia lunar do corpo” 

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição


21 novembro, 2020

𝘜𝘮 𝘏𝘰𝘮𝘦𝘮: 𝘒𝘭𝘢𝘶𝘴 𝘒𝘭𝘶𝘮𝘱, de Gonçalo M. Tavares

 


OPINIÃO


Um Homem: Klaus Klump é o primeiro livro da série O Reino. A guerra é o tema deste livro. O espaço e o tempo não estão referenciados pelo que esta guerra pode muito bem acontecer num qualquer lugar do mundo. 
“Uma sirene toca. Uma sirene militar não é um instrumento pacífico que faça dançar as mulheres. Aquela sirene fazia chorar as mulheres.” (p.37)
A escrita simples, objectiva e fragmentada evidencia a crueldade do opressor, a submissão e o aniquilamento de uma cultura e de um povo oprimido.
O autor emprega frases curtas, descreve subtilmente algumas cenas, propaga silêncios, acciona memórias, provoca emoções, levanta questões. Tudo isto em pouquíssimas páginas. As personagens vão desfilando ao longo da narrativa e o leitor vai tomando conhecimento dos actos cruéis cometidos por um poder invasor e violento. 
“Na paisagem as máquinas substituíram os animais. As máquinas não deixam fezes nos passeios, Antigamente as mulheres enojavam-se com os excrementos que os cães deixavam nos passeios. Diziam que os donos não tinham educação. Hoje as mulheres enojam-se quando cinco soldados entram em casa e pegam nelas e as violam, um soldado e depois outro.” (p.42)

O leitor entra na guerra, convive com as personagens, assiste à violência, à desumanização, à revolta, à incompreensão e finalmente à resistência e à reconstrução.

É um livro marcante que explora os sentimentos e que levanta questões pertinentes sobre a condição humana.
“A brutalidade é de uma delicadeza exuberante face às pessoas ricas; nada de novo.” (p. 57)



18 novembro, 2020

As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

 


OPINIÃO

Numa formação sobre leituras, fui positivamente surpreendida pela abordagem do formador a esta obra. Decidi, por isso, relê-la já com um outro olhar. Conhecendo a história desde há muito, esta releitura revelou-se um verdadeiro prazer literário. Desfrutei das múltiplas metáforas presentes, das mensagens contidas nas entrelinhas, ("- Se todos cuidassem de suas vidas - vociferou a Duquesa, - o mundo giraria muito mais rápido."), da viagem fantástica ao mundo dos sonhos, do nonsense das conversas de Alice com as outras personagens, do caos das acções, dos disparates do rei no julgamento e da crueldade da rainha com a sua réplica “cortem-lhe a cabeça”. 

"- Poderia me dizer, por favor, que caminho eu devo seguir? 
- Depende muito aonde quer chegar - respondeu o Gato. 
- Não me importa muito para onde irei... - disse Alice. 
- Então, não importa em que direção vá... - atalhou o Gato." 

O autor, nesta obra composta de texto e imagem mistura a fantasia e o burlesco, a história é narrada na forma de um sonho o que justifica a aparente falta de coerência e unidade próprias de uma narrativa. 
É um belíssimo clássico, que inicialmente escrito para entreter acaba por conter uma mensagem de contentamento e de felicidade. Como referiu a Duquesa, na página 102, em conversa com Alice “- Ora, ora, pequena! Tudo tem uma moral, basta encontrá-la. (…) “Oh , é o amor, é o amor, que faz girar o mundo!” 

Mais tarde, darei continuidade às aventuras com Alice do Outro lado do Espelho.



Saramago esculpido por Vhils

 

Vhils (Alexandre Farto) esculpiu rosto de José Saramago num pontão, junto ao mar, na Lourinhã, no dia em que o escritor faria 98 anos.

A servir de legenda, está uma citação do romance de Saramago, A Jangada de Pedra:

Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões.