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06 setembro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 3 de setembro marcou a nossa rentrée!!
Na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, e com um calor sufocante, que inviabilizou a presença de algumas leitoras, decorreu mais um encontro do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. O grupo fez um balanço do ano anterior e conversou sobre processos de escrita, dificuldades sentidas, erros a evitar, motivações... Lemos apontamentos de escritores sobre o acto de escrever, a rasura, a procura do melhor vocábulo…
Penso que foi uma hora produtiva e enriquecedora. Estamos em crescimento (em número de participantes e em qualidade na escrita).

Para o Clube de leitura, apresentámos algumas das nossas leituras de férias. Não havendo tema definido, as leituras dos 9 participantes foram ricas, diversificadas e proporcionaram outras tantas descobertas.
Como também já é habitual, e como o refiro sempre nas minhas publicações, lemos, ouvimos, sorrimos e maravilhámo-nos.
A literatura tem esse poder! A partilha de bons livros encanta-nos!
Para o próximo encontro, vamos ler livros dos autores presentes na Onda Literária.
Eis os livros apresentados na sessão e que vos convido a descobrirem:

- O Imperador Vermelho, de Michael Sheridan;
- As Filhas do Terramoto, de Domingos Amaral;
- A profecia de Istambul, de Alberto S. Santos;
- Circe, de Madeline Miller;
- Os meus amigos, de Hisham Matar;
- Tudo na Natureza, de Yiyun Li;
- O Cais das Merendas, de Lídia Jorge;
- Querida Tia, de Valérie Perrin;
- O Círculo dos Dias, de Ken Follet;
- Ano Zero, de João Céu e Silva;
- A Filha da Caytana, de Carmen Posadas;
- Partida, de Julian Barnes;
- A Mais Bela Maldição, de Rui Couceiro;
- Aguarela de Paris, de João Pinto Coelho;
- Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy
- A Boneca Despida, de Paulo M. Morais
- Encontro, de Natasha Brown


18 agosto, 2026

𝑨𝒈𝒖𝒂𝒓𝒆𝒍𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒊𝒔, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Aguarela de Paris
N.º de páginas: 423
Editora: D. Quixote
Edição: Junho 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3813)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Terminei Aguarela de Paris e confesso que o livro ainda ecoa com imensa força em mim. João Pinto Coelho tem uma escrita poderosa e imersiva, capaz de nos fazer sentir lá dentro, a viver tudo na pele. As acções retratadas no Bloco 10 de Auschwitz são de uma dureza extrema e exigiram-me várias pausas na leitura. Não são fáceis de digerir. É um romance audaz, doloroso e profundamente necessário que superou todas as minhas expectativas.

Eram elevadas as expectativas em relação a este livro. Tão elevadas que o coloquei imediatamente na pilha dos prioritários, como faço sempre que João Pinto Coelho publica um novo livro. O autor já nos habituou a uma escrita cuidada, minuciosa e a um enorme talento na construção da narrativa, assente numa pesquisa rigorosa.

Neste livro, a acção transporta-nos para uma Europa prestes a ruir, dividindo-se de forma avassaladora em dois mundos opostos. Num primeiro, acompanhamos o crescimento e a formação das gémeas, Franca e Giullietta, a partir de Inverness, em 1927, sob a protecção dos muros aristocráticos do castelo da família, na Escócia. É a partir dali que dão o seu grito de emancipação, desaguando na luminosa Paris, nos vibrantes cafés de Montparnasse, onde a boémia artística, a exaltação do belo e a rebeldia juvenil ganham vida na companhia de grandes pintores. É o momento da luz e do fulgor criativo.

Depois, a narrativa sofre uma reviravolta profunda, mergulhando-nos na mais absoluta sombra. O encanto da arte e da liberdade quebra-se para dar lugar à crueldade desumana da guerra, arrastando as irmãs para um abismo de submissão, decadência moral e silêncios sufocantes. Pelo caminho, a passagem por Cascais ganha um peso devastador na trama, revelando uma oportunidade perdida que a rebeldia indomável de uma das gémeas acabou por ditar.

Trata-se de uma história cheia de emoções, construída sobre esse contraste violento entre a liberdade e a opressão. Ao longo da acção, e nos diferentes lugares, vamos encontrando um grande leque de personagens secundárias: muitas fascinantes (por várias razões); algumas muito cruéis, que deixarão marcas profundas na memória dos leitores. João Pinto Coelho sabe construir histórias, sabe surpreender pelas reviravoltas que vai impondo à narrativa, sabe confrontar-nos com o peso da culpa e com os esquecimentos da História. O leitor, seduzido pela escrita poética, pela beleza das descrições e pela trama emotiva, deixa-se conduzir completamente embrenhado, confrontando o horror e a humanidade. Em Aguarela de Paris, a ficção serve a verdade histórica de forma avassaladora.

No fecho do romance, percebemos que aquilo que não é dito pesa tanto quanto o que se revela. A dor das irmãs, a culpa que atravessa a narrativa e a memória que resiste encontram hoje uma inquietante ressonância nas vidas civis suspensas em Gaza e na Ucrânia.

A frase final da Nota do Autor “Alex morreu em Gaza. E eu escrevi este livro”, devolve-nos ao presente com uma clareza devastadora. A ficção, quando nasce deste exercício de rigor, torna-se uma forma de cuidar da memória e de encarar o mundo com preocupação.


25 julho, 2026

𝑳𝒖𝒕𝒐 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒔 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒖𝒈𝒖𝒆𝒔𝒆𝒔, de Rui Zink

 

Autor: Rui Zink
Título: Luto pela Felicidade dos Portugueses
N.º de páginas: 154
Editora: Quasi
Edição: Maio 2007
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2311)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Será que o português sabe ser feliz ou prefere a melancolia de se queixar, esse hábito antigo que lhe serve de companhia? Em Luto pela Felicidade dos Portugueses, Rui Zink responde a esta e a muitas, muitas outras perguntas através de uma lente crítica que é tanto desconcertante quanto hilariante.

O livro reúne crónicas escritas originalmente entre 2000 e 2005 para a revista SOS Saúde, mas desengane-se quem procurar nestas páginas conselhos médicos tradicionais ou receitas de bem-estar. Zink oferece consciência, ironia e uma espécie de ternura que só existe quando se conhece bem o paciente. Ao incluir-se no diagnóstico e nas receitas, retira qualquer superioridade moral e mostra que os vícios que aponta são também os seus. Essa auto‑ironia atribui às crónicas uma autoridade e uma empatia que conquistam o leitor.

A genialidade da obra começa no título, onde “luto” carrega um duplo sentido que retrata a nossa identidade. Por um lado, evoca o verbo lutar, remetendo para a ideia de quem batalha pela dignidade e pela felicidade do seu povo. Por outro, surge como o substantivo, representando a tristeza e o pessimismo de um país. Ao juntar o luto à felicidade, Zink fixa o tom paradoxal da obra numa sátira que morde e, ao mesmo tempo, revela um carinho e um conhecimento profundo pelo país que critica.

Para lá da sua aparente leveza, a estrutura do livro funciona como uma paródia inteligente aos velhos fantasmas da identidade nacional, reorganizando Deus, Pátria e Família (três partes) em “laboratórios” onde o autor desmonta as suas/nossas obsessões.

Ao lermos estas crónicas hoje, mais de duas décadas depois, a sensação de déjà-vu é inevitável e quase cómica. Mudaram os palcos, do café para o Instagram ou outra rede social, mas os actores seguem o mesmo guião. Portugal continua a dar-se mal com a vida. Continua a não saber se o sexo dá felicidade? Se a felicidade dá dinheiro? E se o dinheiro dá saúde?

No fim de contas, Rui Zink deixa-nos com uma dúvida desconfortável - e se o nosso maior trauma não for a falta de felicidade, mas sim a perspectiva de um dia virmos a ser genuinamente felizes? Sem partilhar uma pequena maleita, sem amaldiçoar o(a) companheiro(a) infiel, sem sentir inveja/cobiça ou sem a meteorologia para justificar o humor, quem seríamos nós?

E hoje, ainda somos o povo neurótico, stressado e obcecado com as aparências que Rui Zink retratou entre 2000 e 2005? Ou será que o Instagram e as novas modas do bem-estar apenas maquilharam o velho fado que teima em permanecer? Querem responder?


12 junho, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 11 de Junho, pelas 16h00, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Para a sessão de Maré d'Escrita, este mês, tivemos de dar resposta a duas tarefas. A principal exigia que descrevêssemos, em poucos parágrafos e com alguma criatividade, o que vemos da nossa janela; a extraordinária, mais poética exigia que definíssemos uma das várias palavras que integravam uma lista criada por todos.
Os textos apresentados (nove e dez, respectivamente) já denotam cuidado na escrita e criatividade, muitos evidenciam claramente uma escrita poética. Mas penso que o maior ganho desta atividade, para além da melhoria da escrita, é o prazer evidente na partilha e leitura em voz alta dos textos. 

(ver aqui os textos: 𝙂𝙧𝙪𝙥𝙤 𝙙𝙚 𝙇𝙚𝙞𝙩𝙤𝙧𝙚𝙨 | 𝑴𝒂𝒓é 𝒅' 𝒆𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂)

Ao Clube de leitura compareceram onze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores hispano-americanos com direito a dois intrusos.
Foram leituras ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
Para o próximo encontro, que ocorrerá em Setembro, vamos ler o que nos apetecer. Não há tema nem sugestões.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- Malinche, de Laura Esquível;
- O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
- Patagonia Express, de Luís Sepúlveda
- O Evangelho Segundo Marcos (conto) in O relatório de Brodie, de Pablo Neruda;
- O Carteiro de Pablo Neruda, de António Skármeta;
- Não matem o coronel, de Gabriel García Márquez;
- A Filha Única, de Guadalupe Nettel;
- O Corpo em que Nasci, de Guadalupe Nettel;
- O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez;
- Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda;
- O Meu Nome é Emília, de Isabel Allende;
- Dedico-lhe o meu silêncio, de Mario Vargas Llosa
- Miragem de Amor com Banda de Música, de Hernán Rivera Letelier;
- Querido Primeiro Amor, de Zoé Valdés;
- O Jogo do Mundo, de Júlio Cortázar;
- Os Nomes de Feliza, de Juan Gabriel Vásquez;
- História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, de Luís Sepúlveda;
- O Diário da Guerra dos Porcos, de Adolfo Bioy Casares
- Está tudo f*dido, de Mark Manson
- Anjos e Guias Espirituais, de Sónia Choquette


14 maio, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 


Quinta-feira, dia 14 de maio, pelas 17h00, na cafetaria do Centro de Artes, com uma clara e belíssima vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
O encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos oito textos que responderam à pergunta pertinente "Quem sou eu?". Pretendia-se uma introdução apelativa e criativa à nossa futura (quem sabe?) (auto)biografia. Ficámos a conhecermo-nos um pouco melhor e até houve abracinhos.


Ao Clube de leitura compareceram doze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores Espanhóis com direito a dois intrusos.
Foram partilhas ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
E hoje, tivemos direito a miminhos doces. Alguns bem provocadores como poderão constatar numa das fotografias.

A literatura tem a força de unir pessoas e leva-nos ao "abismo da dúvida." (faz sentido?)
Para o próximo encontro, vamos ler autores sul-americanos de expressão castelhana. Escolha livre de livro(s) e autor/a.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes
Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez
Caruncho, de Layla Martinez
Berta Isla, de Javier Marías
O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
Cães maus não dançam, de Arturo Pérez-Reverte
Nada, de Carmen Laforet
O Infinito num Junco, de Irene Vallejo
Alguém falou sobre nós, de Irene Vallejo
O tempo entre costuras, de Maria Dueñas
As vinhas de la Templenza, de Maria Dueñas
A Louca da Casa, de Rosa Montero
O peso do Coração, de Rosa Montero
Instruções para salvar o mundo, de Rosa Montero
Nada de Outro Mundo, de Antonio Muñoz Molina
A catedral do Mar, de Ildefonso Falcones
Os Herdeiros da Terra, de ldefonso Falcones
A Colmeia, de Camilo José Cela
Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester
A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón
Patagónia Express, de Luís Sepúlveda
O Anjo Mudo, de Al Berto

03 maio, 2026

𝑵𝒂𝒅𝒂, de Carmen Laforet

 

Autora: Carmen Laforet
Título: Nada
Tradutores: Sofia Castro Rodrigues;
Virgílio Tenreiro Viseu
N.º de páginas: 275
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3720)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Li Nada, de Carmen Laforet, e fiquei com tudo. A escrita é maravilhosa, precisa, sensorial, cheia de uma força silenciosa. As descrições dos ambientes funcionam como verdadeiras cenas cinematográficas, expondo com nitidez os contrastes entre o belo e a liberdade das escapadelas da protagonista e o sombrio, obsessivo e quase sufocante da casa da rua Aribau. Acompanhamos Andrea, recém‑chegada a Barcelona para estudar, carregando aquela esperança frágil que só os dezoito anos conseguem suportar. Mas o que encontra na casa da rua Aribau não é acolhimento, mas um labirinto de adultos partidos, tensões antigas, gritos, violência. Andrea move‑se como quem tenta decifrar um enigma emocional, observando tudo com uma lucidez que a protege e a fere ao mesmo tempo.

A força do romance está muito na forma como Carmen Laforet constrói esta protagonista. Andrea não é heroína nem vítima. É uma jovem que tenta sobreviver ao caos com dignidade, inteligência e uma espécie de inocência resistente. A sua voz é contida e vulnerável, moldada pelo medo e pela lucidez; uma força que não se impõe, mas resiste.

À medida que avançamos, percebemos que a casa é quase uma personagem; um organismo cansado, cheio de quartos sujos, sombrios, desgastados onde a vida se desfez. A violência doméstica, tanto física como psicológica, instala‑se, moldando gestos, medos e relações; a fome impõe-se; a pobreza infiltra‑se nos objectos, nos silêncios, nos corpos e os sonhos perdidos pairam sobre cada figura como poeira antiga.

E, embora Laforet nunca o diga explicitamente, a devastação do regime franquista está em todas as entrelinhas. Está na miséria que se normalizou, na agressividade que se tornou linguagem, na claustrofobia moral, na sensação de que o futuro foi amputado. O romance não precisa mencionar Franco para que o sintamos. Ele está no ar pesado, na cidade cinzenta, na casa que parece sobreviver a um cerco invisível. É o pós‑guerra como estado psicológico. Uma ferida que não se vê, mas que molda tudo.

É aqui que o prefácio de Vargas Llosa funciona como farol. Ele ilumina o que o romance deixa nas sombras, a coragem literária de Laforet, a sua capacidade de captar a verdade emocional de uma época inteira sem recorrer ao discurso político. Vargas Llosa mostra como Nada é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico, pessoal e colectivo e como Andrea encarna uma geração que tenta respirar depois da devastação.

No final, Andrea desce as escadas “com viva emoção”, recordando a esperança com que as subira e percebendo que da casa da rua Aribau “não levava nada consigo”. Lá fora, o ar fresco da manhã e os primeiros raios de sol anunciam a possibilidade de um recomeço.

Para contrariar o Nada que a acompanhou, permaneço na claridade que finalmente se abre e na esperança que ela deixa entrever.





17 abril, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 

  


          

Ontem, quinta-feira, dia 16, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos sete textos que nos emocionaram e recuperaram memórias de histórias de vida, tendo como protagonistas avós, pais, alunos, mulheres corajosas, colegas, alguns de nós…
 
Para o Clube de leitura, lemos e apresentámos livros infanto-juvenis. Participaram 14 leitores. Foram partilhas ricas, diversificadas, de excelentes descobertas. Foram momentos de aprendizagem e de verdadeiro prazer em descobrir e folhear verdadeiros tesourinhos. 

Não posso deixar de referir uma edição caseira, adaptação do livro Ainda NADA, de Christian Goltz. Um trabalho maravilhoso que reproduz a história, mas com texturas para que invisuais possam desfrutar da história. Foi construído pela nossa Luísa, em contexto de formação. Adorámos comparar as duas obras. 

Como também já é habitual, lemos, sorrimos e maravilhámo-nos. E terminámos convictos que “A açorda é o miolo da nossa alma de coentros” ideia expressa no livro Suão de Vítor Encarnação, com ilustração de Joaquim Rosa.

A literatura tem esse poder!

Para o próximo encontro, vamos ler autores de nacionalidade espanhola. Escolha livre de livro(s) e autor/a.



Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- A Menina dos Fósforos; de Hans Christian Andersen;
- A Caixinha de Música, de José Jorge Letria;
- O Ouriço-cacheiro espreitou 3 vezes, de Maria Alberta Menéres e António Modesto;
- O Menino que Gritou para Dentro, de Ana Ventura e Alberto Faria;
- O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto e Danuta Wojciechowska ;
- A História Interminável, de Michael Ende;
- A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen
- Os Olhos Grandes da Menina Pequenina, de Ondjaki e Carla Dias;
- A Flecha Negra, de Robert Louis Stevenson;
- Harry Potter, de J. K. Rowling ;
- Pedro Alecrim, de António Mota;
- Na floresta da preguiça, de Sophie Strady, Anouck Boisrobert e Louis Rigaud;
- A Morte Melancólica do Rapaz e Outras Estórias, Tim Burton;
- O Segredo do Sol e da Lua, de Manuela Micaelo e Graça Breia;
- O macaco e o crocodilo e A história da carochinha (edição especial);
- Flicts, de Ziraldo;
- Os Ovos Misteriosos, de Luisa Ducla Soares e Manuela Bacelar;
- Ainda Nada, de Christian Voltz;
- Oliver Twist, de Charles Dickens;
- A Alma Perdida, de OlgaTokarczuk e Joanna Concejo;
- A Guerra, de José Jorge Letria e André Letria;
- Coração de pássaro, de Mar Benegas e Rachel Caiano;
- As casas das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Pequeno livro das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Coisas que gostam de coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Suão, de Vítor Encarnação e Joaquim Rosa


02 abril, 2026

𝑨 𝑨𝒍𝒎𝒂 𝑷𝒆𝒓𝒅𝒊𝒅𝒂, de Olga Tokarczuk e Joanna Concejo

 


Autora: Olga Tokarczuk
Título: A Alma Perdida
Ilustradora: Joanna Concejo
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
N.º de páginas: 48
Editora: Fábula
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3765)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O texto conciso de Olga Tokarczuk, laureada com o Prémio Nobel da Literatura (2019), alia-se às ilustrações maravilhosas de Joanna Concejo para tornar A Alma Perdida num livro maravilhoso, com uma história apaixonante e silenciosa. Em Portugal, o livro está classificado como literatura infanto-juvenil, mas eu diria que é para todas as idades e tenho dúvidas que os mais jovens captem a verdadeira essência da obra.

Na epígrafe, destaca-se esta passagem: “Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas...”, uma mensagem que nos acompanha ao longo da leitura, como uma sombra.

O texto é muito curto, pelo que são as ilustrações que expandem a narrativa e lhe transmitem profundidade; acrescentam sentido e convidam à reflexão.

São fragmentos de uma espera, de uma alma que precisa de tempo para reencontrar o corpo. Cada página é uma pausa, uma respiração, uma janela entreaberta para o tempo interior, para as memórias.

É um livro que nos obriga a reflectir sobre a forma agitada como vivemos. Sobre o que deixamos para trás quando corremos sem pausa. A Alma Perdida não nos pede pressa, pede presença, contemplação. E ao folheá-lo, percebemos que há uma parte de nós que ficou sentada numa cadeira, tal como Jan, à espera que a outra parte volte com tempo e disposição para desfrutar as coisas simples da vida.



21 março, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Na quinta-feira, dia 19 de março, na cafetaria do Centro de Artes, num cenário inspirador, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

E, como já vai sendo habitual, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita, na qual foram lidos seis poemas maravilhosos escritos por alguns dos "mareantes".

Este mês, e para celebrarmos o Dia Mundial da Poesia, as nossas leituras incidiram, naturalmente, nos nossos poetas preferidos, nos que marcaram a nossa infância, ou noutros, sem razão aparente, só porque nos apeteceu...

A conversa orientada por Alina Oliveira foi, assim, muito rica e poética. Descobrimos pequenas pérolas de livros, de autores, de projectos... recordámos poemas marcantes, lemos, sorrimos e maravilhámo-nos.

A poesia tem esse poder!

Para o próximo encontro, a proposta de leituras recai na literatura infantil. Escolha livre de livro(s) e autor/a.


Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:
- Ágora, de Ana Luisa Amaral;
- Ramonera, de Elvis Guerra;
- Intervalo, (in Poesia Completa), de Maria Alberta Menéres;
- Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (antologia)
- Obra Completa, de Florbela Espanca;
- O livro da Tila, Maria Rosa Araújo;
- Se a Sofia... , de Anne Marie Chapouton;
- Poemas, de Manuel Bandeira;
- Assim, são as Algas, de Albano Martins;
- À noite as estrelas descem do céu, de João Pedro Mésseder


15 março, 2026

𝑰𝒏𝒕𝒆𝒓𝒗𝒂𝒍𝒐 (in Poesia Completa), de Maria Alberta Menéres

 


Autora: Maria Alberta Menéres
Título: Intervalo (in Poesia Completa)
N.º de páginas: 65
Editora: Porto Editora
Edição: 1952 (2020)
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3687)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Intervalo, publicado em 1952, é a obra de estreia de Maria Alberta Menéres. Embora a autora seja amplamente reconhecida pela sua literatura infanto‑juvenil, este livro pertence ao seu percurso na poesia para adultos. Nele, revela uma voz poética muito própria; sensível, intuitiva e já marcada por uma interioridade que viria a afirmar‑se na poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Ao longo destas páginas, a autora explora a espiritualidade, a simplicidade dos elementos naturais, a memória, o tempo, o silêncio…

Em Intervalo, temos uma poesia introspectiva, centrada na descoberta da própria voz feminina, do “eu”.
O título não é casual. Aqui,  “intervalo” é o espaço entre o pensamento e a palavra; uma pausa onde se geram reflexões, sonhos e hesitações; um território onde a autora procura definir‑se também através do que não é dito.

"Prólogo", com apenas quatro versos, refere isso mesmo e funciona como um perfeito cartão‑de‑visita:
“Ninguém pode saber o que sofremos
quando apenas calamos.
Somos o livro que nós próprios lemos,
e desfolhamos...”

É um poema que diz muito com o mínimo, quase um silêncio em si mesmo e estabelece o tema central: a distância entre o que sentimos e o que os outros conseguem perceber através do nosso silêncio ou do nosso olhar. Ao afirmar que somos o livro que nós próprios lemos, Menéres sublinha a solidão do autoconhecimento, já que o “outro” nunca terá acesso à edição completa da nossa alma. O verbo “desfolhar” sugere, simultaneamente, descoberta (folhear) e perda (as páginas ou as pétalas que caem com o tempo), criando uma imagem de fragilidade e de passagem.

No livro e, apenas em dois poemas, há também a presença do mar (tema que aprecio). Aqui, o mar pode também ser lido como metáfora interior, uma extensão desse silêncio e dessa simplicidade essencial (“O silêncio dorme, estendido na areia.”). Surge como espelho e, talvez, como livro; um espaço onde a autora se revê e se lê, tal como no prólogo, cheio de significados para quem sabe escutar a solidão. O mar é, assim, movimento, inquietação e desejo (também para mim); é o intervalo em fluxo, onde a palavra hesita e a alma se reconhece e se questiona (sempre).

É fascinante notar como, aos 22 anos, Maria Alberta Menéres escolhe iniciar a sua vida literária com uma reflexão sobre a impossibilidade de sermos totalmente conhecidos, talvez porque ela própria se encontrava ainda num processo de autodescoberta.

Se avançarmos para o poema seguinte (o II, o próprio “Intervalo”), percebemos que essa toada de procura se mantém. Na verdade, é ela o fio condutor do livro.

Incluído na Obra Completa editada pela Porto Editora, Intervalo permanece como o testemunho inaugural de uma voz que fez do silêncio e da procura a sua morada poética. Manter-se-á nos restantes livros da sua obra poética? Ainda não sei responder, mas fica o compromisso de o descobrir.



27 fevereiro, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita



Ontem, na Biblioteca Municipal de Sines , decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros.

E, como já vai sendo habitual, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita, na qual foram lidos os  cinco textos escritos por elementos do grupo.

Os textos podem ser lidos neste Padlet:     https://padlet.com/graciosa_reis/padlet-6130g90cpoou


    


Para conversar dos livros lidos durante o mês, no âmbito do tema Segunda Guerra Mundial / Holocausto, compareceram catorze pessoas.
A conversa orientada por Alina Oliveira foi rica e emotiva, já que o tema sensível provoca sempre alguma perturbação nos leitores.
A diversidade de leituras enriquece a partilha de opiniões e alarga o conhecimento de obras e autores.

Para o próximo encontro, a proposta de leituras incide em poesia. Escolha livre de livro e autor/a.


Eis alguns dos livros apresentados:

- Se isto é um homem, Primo Levi;
- A Trégua, Primo Levi;
- Sem Destino, Imre Kertész;
- Cartas a Um Amigo Alemão, Albert Camus;
- O Barracão das Mulheres, Fermina Cañaveras;
- O Rouxinol, Kristin Hannah;
- Em Busca de Sentido, Viktor Frankl;
- O Clube de Xadrez, John Donoghue;
- A Violonista de Auschwitz, Alma Rosé;
- 70072 a menina que não sabia odiar, Lidia Maksymowicz;
- O Homem mais Feliz do Mundo, Eddie Jaku;
- Nós tivemos Sorte, Giorgia Hunter;
- Um Tempo a Fingir, João Pinto Coelho;
- Auschwitz, Laurence Rees


25 fevereiro, 2026

𝑺𝒆𝒎 𝑫𝒆𝒔𝒕𝒊𝒏𝒐, de Imre Kertész



Autor: Imre Kertész
Título: Sem Destino
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 199
Editora: Presença
Edição (5.ª): Julho 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3701)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Sem Destino, de Imre Kertész, é um daqueles livros que nos devolvem ao ponto zero da compreensão. Que nos entra devagar e depois não nos larga. Acompanhamos György Köves, quinze anos, arrancado ao quotidiano e lançado num mundo que ele não sabe nomear. Não porque lhe falte clareza, mas porque, ainda, não possui o conhecimento que nós, leitores, já teremos. Ele não sabe o que é Auschwitz, não sabe o que é Buchenwald, não sabe que está a entrar num sistema construído para o aniquilar. E é essa ausência de saber que torna o romance tão perturbador. Ao longo de toda a narrativa, acompanhamos um olhar sagaz que tenta compreender o mundo com um “juízo próprio”; que tenta ocupar o tempo, criar referências, enquanto nós reconhecemos, por trás de cada detalhe, a maquinaria da morte.

É desconcertante a forma como György descreve tudo isto, detalhadamente, como se cada gesto, cada rosto, cada mudança de luz, de som, de grito, fosse uma tentativa de compreender o que lhe está a acontecer. Através dessa observação, quase obstinada, ele vai tomando conhecimento de que ser judeu é ser diferente, vai aprendendo pequenas manhas, percebendo quem seguir, quando calar, como poupar forças. Porque a sobrevivência, aqui, nasce de detalhes.

Não há condenação explícita, não há revolta, não há discurso moral. Há observação, adaptação, compreensão, reflexão, aceitação. Ele aceita cada passo porque cada passo é imposto. E essa aceitação, longe de ser submissão, é a única forma de continuar vivo.

O episódio do saco de cimento que se rompe é devastador. Um gesto mínimo desencadeia um espancamento selvagem. Aqui, a violência não precisa de motivo, apenas de ocasião. E, no entanto, é essa mesma violência que o leva, mais tarde, à enfermaria e depois ao hospital de Buchenwald, onde encontra a única fresta possível de sobrevivência. Porque a vida, neste universo, depende de acasos mínimos.

Quando regressa a Budapeste, já não é o rapaz que partiu. Às pessoas com quem se cruza, e que o questionam, György nunca “fala mal” do campo. Descreve-o como uma sequência de passos que aceitou porque não tinha alternativa, porque sobreviver exigia adaptação e silêncio interior. Não é resignação. Não é perdão. É a lucidez amarga de quem percebe que a sua vida foi organizada por outros, e que a palavra “destino” não tem nada de transcendente, apenas, a soma das imposições que o conduziram até ali.

Sem Destino é um romance excepcional. Duro, lúcido e profundamente humano que nos obriga a abandonar leituras simplificadoras e a enfrentar a estranheza de uma experiência atroz que parece dar sentido à barbárie e ver beleza no horror. Não oferece catarse, nem moral, nem consolo. E é por isso que permanece em nós.

07 fevereiro, 2026

𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒂 𝑼𝒎 𝑨𝒎𝒊𝒈𝒐 𝑨𝒍𝒆𝒎ã𝒐, de Albert Camus

 


Autor: Albert Camus
Título: Cartas a Um Amigo Alemão
Tradutor: José Carlos González
N.º de páginas: 55
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2021
Classificação: Cartas
N.º de Registo: (3699)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


  
Terminei Cartas a Um Amigo Alemão com a sensação de ter atravessado um território onde a ética e a coragem caminham lado a lado.
Logo no prefácio, Camus esclarece que quando escreve “nós” e “vós”, não se refere simplesmente a franceses e alemães, mas a “europeus livres” e a “nazis”. A sua oposição nunca é dirigida a um povo, mas aos carrascos, aos que escolheram a violência totalitária. Esta distinção dá ao livro uma clareza moral que atravessa todas as páginas.

Escritas em plena ocupação nazi, quando Camus participava activamente na Resistência francesa, estas quatro cartas carregam uma força moral muito própria. Cada frase nasce do risco, da urgência e da fidelidade a valores que não podiam ser traídos.

O que mais me tocou foi a ideia de que resistir é, antes de tudo, um gesto de amor. Amor pela pátria, enquanto espaço de liberdade, justiça e dignidade. Camus recusa o ódio e a violência como métodos. E afirma, com serenidade e convicção que a vitória pertence àqueles que permanecem fiéis ao humano.
“Pertenço a uma nação admirável e perseverante que, para além do seu fardo de erros e de fraquezas, não permitiu que se perdesse a ideia que constitui toda a sua grandeza (…) Este país merece que eu o ame com este meu amor difícil e exigente. E creio que ele merece bem, neste momento, que lutemos por ele.” (pp. 22 e 23)

É, também por isso, que denuncia a apropriação violenta da palavra “pátria”. “As palavras tomam sempre a cor dos atos ou dos sacrifícios que suscitam. E a palavra ‘Pátria’ tem para vós fulgores de uma cegueira sangrenta.”(p. 39)

Outro ponto que ecoa profundamente é a defesa da inteligência ao serviço de boas causas, nunca do poder pelo poder. A lucidez, para Camus, é a capacidade de ver claro sem ceder ao cinismo. Quando a inteligência se submete à força, torna‑se instrumento de dominação; quando se submete ao humano, torna‑se resistência. É nesse contraste que afirma: “É nisso que nos afastamos de vós; nós temos exigências. A vós basta‑vos servir o poderio da vossa nação, ao passo que nós sonhamos dar à nossa a sua verdade. (…) Concebíamos o nosso país como algo em pé de igualdade com outras grandezas: a amizade, o homem, a felicidade, a nossa ânsia de justiça.” (pp. 28 e 29)

Há, ainda, uma tensão belíssima entre heroísmo e felicidade. Para Camus, o heroísmo não é um ideal permanente, mas uma excepção necessária quando a felicidade é impedida. “Durante cinco anos não pudemos mais apreciar o canto das aves. Obrigaram-nos a desesperar” (p.52). Luta‑se para que um dia já não seja preciso ser herói. Luta‑se para recuperar “um sentido” que o totalitarismo tenta apagar.
Pelo que, o gesto mais íntegro destas cartas, é na minha opinião a lucidez de afastar uma amizade. “Agora já posso dizer-lhe adeus.” (p. 55)
Camus escreve a um “amigo alemão” que já não pode ser seu amigo, não por ressentimento, mas porque a amizade não pode sobreviver quando um dos lados abdica da justiça. A ruptura é um acto de fidelidade à liberdade, e também à própria ideia de amizade. “Eu, pelo contrário, escolhi a justiça a fim de permanecer fiel à Terra.”(p. 51)

No fim, o que fica é uma ética da dignidade e da coragem. Camus escreve para iluminar um caminho com uma luz discreta, mas resistente. E lemos hoje estas cartas com a consciência do horror do Holocausto, a prova extrema de até onde pode ir o poder quando se liberta de qualquer limite moral. Por isso, estas páginas continuam a ser um aviso e uma bússola. Num tempo em que os discursos de ódio voltam a ganhar espaço e a violência se normaliza, não convém esquecer. A lucidez de Camus continua a ser necessária.


24 dezembro, 2025

Manta de RetalhEcos

 




Eu passava horas a mover as figuras do presépio. Até que um dia, como se fosse a manipuladora de um teatro secreto, escolhi fazer diferente. O burro precisava de férias, coloquei-o em cima da televisão. O pastor sorridente juntou-se à vaca desconfiada, enquanto a ovelha indagava o céu de papel azul. O anjo, cansado de vigiar, mudava de lugar todas as noites, e os reis magos descansavam no sofá como se fosse paragem de viagem.

Entre risos e invenções, o camelo reclamava da falta de almofada, o cão refugiava-se na fruteira, as bagas vermelhas de azevinho brilhavam como pontos de fogo e o musgo guardava o cheiro da floresta molhada. Mas ao fundo, na cozinha, já se adivinhava o perfume doce das filhoses e dos sonhos, misturado com o lume da lenha e vozes familiares.

Foi então que Maria, curiosa e atenta, se afastou e caminhou até à biblioteca. Entre prateleiras silenciosas, escolheu livros para ler ao menino Jesus, como se cada página fosse um gesto de carinho, uma história guardada para embalar o tempo.

Havia também a expectativa silenciosa de surpresas embrulhadas em mistério, como se a noite trouxesse tesouros escondidos. E eu, sentada no chão, ria baixinho das novas posições das figuras, ao mesmo tempo que sentia que aquele cenário era uma parte de mim.

Não era apenas arrumar peças — era bordar segredos invisíveis, inventar diálogos, e guardar no coração lembranças que voltavam sempre, como se a mesa fosse palco de mundos eternos, feitos de doçuras e alegria.

Hoje, estas histórias fazem parte da minha manta de retalhecos, feita de ecos e ternura, como se cada gesto devolvesse lembranças guardadas — aquelas que voltam a acender-se sempre que o presépio ganha voz.



16 novembro, 2025

𝑽𝒊𝒈í𝒍𝒊𝒂𝒔, de Al Berto

 


Autor: Al Berto
Título: Vigílias (antologia)
Selecção: José agostinho Baptista
N.º de páginas: 207
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Maio 2004
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (1729)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Vigílias — Al Berto lido por José Agostinho Baptista

Vigílias é uma antologia de poemas de Al Berto, escolhida e apresentada por José Agostinho Baptista, que lhe dedica um prólogo intenso e sensível. Publicada em 2004, na colecção Grãos de Pólen (Assírio & Alvim), procura condensar a força da obra de Al Berto numa selecção que privilegia o gesto poético como vigília — estado de atenção e combustão.

Nesta colecção, cada volume é uma antologia escolhida por outro poeta, criando diálogo entre gerações. Aqui, Baptista lê Al Berto como alguém que “ardia nas chamas da alta combustão do poema”, sugerindo que cada verso é vigília contra o esquecimento.

O título Vigílias evoca permanência: estar acordado diante da vida e da morte, da memória e da paisagem. Dentro de Uma existência de papel, há uma secção intitulada “Vigílias” com seis poemas, todos incluídos na antologia. Foi desse núcleo que Baptista retirou o título, transformando-o em chave simbólica de leitura. O fecho dessa secção condensa a essência da obra:
“então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e desgasto”

É desta vigília que nasce a antologia: escrita como iluminação e desgaste, combustão que atravessa corpo, território e memória.

Todos os poemas reunidos integram O Medo, a colectânea completa. Ao reunir esta selecção, Baptista oferece ao leitor uma entrada mais acessível na obra de Al Berto. A poesia, densa e fragmentada, não é de leitura imediata; Vigílias funciona como chave de iniciação, abrindo caminho para a combustão integral de O Medo.

No prólogo, Baptista afirma: “Nada, quase nada, há que dizer sobre os poetas. Eles que digam tudo, quase tudo, eles que nos cerquem, que nos toquem.” O prólogo é, assim, uma declaração de afinidade poética, sublinhando a energia vital e inquieta que atravessa os versos.

Na antologia, o corpo surge como pele-papel, lugar de inscrição e de memória. Em livros como Outros Corpos, Sete dos Ofícios, Trabalhos do Olhar e Uma Existência de Papel, o corpo é atravessado por desejo e fragilidade, cada poema funcionando como cicatriz ou tatuagem de fogo. A escrita não é apenas representação, é ferida que se abre e cicatriz que permanece, transformando o corpo em suporte vivo da poesia.

A antologia segue uma ordem cronológica e dá relevo ao território. Sines aparece em mar-de-leva, mas também em poemas que evocam lugares concretos como a “Quinta de Santa Catarina”, a “Rua do Forte”, São Torpes ou Milfontes. O mar, o porto e as ruínas tornam-se páginas vivas, papel marítimo onde o poema se inscreve. Aqui, a vigília é comunitária: o poeta vigia a cidade, e a cidade vigia o poeta.

Em O Livro dos Regressos, a pele guarda o passado como chama que ainda arde. Infância, lugares perdidos e pertença inscrevem-se como memória viva. O regresso é inscrição na pele do tempo, papel onde o passado se grava e se prolonga.

Mas Vigílias é também melancolia: a vida que se abate sobre a folha de papel, o corpo que se ilumina e se desgasta, a cidade que se inscreve em ruína e saudade. A antologia abre caminho ao leitor, mas mantém essa sombra, como vigília silenciosa que acompanha cada poema.

Já escrevi sobre vários livros de Al Berto e o título que dei a um trabalho mais longo — Al Berto in lugares: o deambular da melancolia lunar do corpo — nasce de dentro da própria obra e também da antologia. Tal como Baptista escolheu Vigílias como chave de leitura, também eu inscrevi a minha leitura crítica num verso que condensa corpo, território e melancolia. A crítica torna-se continuação da poesia: vigília, errância, melancolia e combustão.

Em suma, para quem não conhece a obra de Al Berto, Vigílias é uma porta de entrada: oferece uma selecção que privilegia intensidade e ressonância, convocando o leitor para estar atento à vigília silenciosa dos poemas.


28 setembro, 2025

𝑨𝒔 𝑹𝒆𝒗𝒐𝒍𝒖𝒄𝒊𝒐𝒏á𝒓𝒊𝒂𝒔 - 𝑫𝒐𝒛𝒆 𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓𝒆𝒔 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒖𝒈𝒖𝒆𝒔𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒐𝒃𝒆𝒅𝒊𝒆𝒏𝒕𝒆𝒔, de Maria João Lopo de Carvalho

 


Autora: Maria João Lopo de Carvalho
Título: As Revolucionárias - Doze Mulheres Portuguesas Desobedientes
N.º de páginas: 342
Editora: Sibila Publicações
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Biografias
N.º de Registo: (3717)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


As Revolucionárias não é apenas um livro sobre mulheres que fizeram história — é um testemunho da coragem que desafiou as estruturas rígidas de uma sociedade que queria as mulheres em casa, confinadas ao silêncio e à invisibilidade. Estas doze portuguesas (Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Angelina Vidal, Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Ana de Castro Osório, Virgínia de Castro e Almeida, Carolina Beatriz Ângelo, Virgínia Quaresma, Irene Lisboa, Regina Quintanilha e Maria Lamas), que ousaram dizer não ao silêncio, à exclusão, à norma, foram as pioneiras na recusa de papéis impostos, desobedecendo aos estereótipos do “feminino” e abrindo caminhos limitados e bem pedregosos.

Cada uma delas, à sua maneira, com a sua linguagem em construção, foi uma desobediente contra o sistema que negava às mulheres o direito ao saber, ao trabalho, à voz pública, à autonomia e à liberdade. Temos médicas que desafiaram a exclusão das faculdades, advogadas que lutaram por direitos legais, jornalistas que deram visibilidade às causas femininas, professoras que abriram portam nas universidades, cineastas que captaram realidades silenciadas, intelectuais que questionaram o estabelecido.

A desobediência destas mulheres, a quem muito devemos, não foi um acto isolado, mas um movimento colectivo de resistência que atravessou o século XIX e o início do XX, da Monarquia, à República, ao Estado Novo. Todas enfrentaram censuras, preconceitos, exclusões sociais e políticas, mas mantiveram-se firmes na luta pelo reconhecimento do lugar da mulher na sociedade.
Entre as doze mulheres que Maria João Lopo de Carvalho convoca, duas representam, para mim, exemplos de uma travessia: Carolina Michaëlis, filóloga e professora universitária, e Maria Lamas, jornalista e ativista política.

Carolina, estrangeira por nascimento e íntima da língua portuguesa por vocação, ensinou-nos que o rigor pode ser gesto de amor. Foi a primeira mulher a lecionar numa universidade portuguesa, e fê-lo com uma delicadeza que desafiava o masculino institucional. A sua desobediência foi silenciosa, mas fundadora.
Maria Lamas, por outro lado, fez da palavra uma arma. Escreveu, traduziu, dirigiu revistas, enfrentou censuras e prisões políticas. Em As Mulheres do Meu País, percorreu Portugal com o corpo e com a escuta, fotografando vidas invisíveis. A sua desobediência foi pública, ruidosa, política — e profundamente poética.
Estas duas mulheres são as minhas preferidas. Não apenas pelo que fizeram, mas pelo modo como encarnam duas formas distintas e complementares de desobediência: a do silêncio que funda e a do grito que transforma. Mas todas, as doze, foram desbravadoras e construíram um legado de ousadia, solidariedade e transformação.

Em suma, este livro não é uma biografia colectiva. É um manancial de memórias. Em cada capítulo (breve biografia) encontramos não apenas factos, mas feridas, dúvidas, receios, gestos de coragem e cumplicidades entre mulheres. Este livro é, assim, um convite para escutar essas vozes que recusaram o silêncio, para reconhecer a luta que continua, e para celebrar a desobediência como força vital que faz avançar o mundo. Lê-lo é um acto de resistência e de possibilidade de futuro.

Recomendo a sua leitura. Gostaria que houvesse uma continuação porque houve mais mulheres corajosas e desobedientes no nosso país.


15 setembro, 2025

A Espuma das Dúvidas

 

                                                        

Texto breve inspirado em Ítalo Calvino, com um toque de humor e inspiração política.

Num tempo em que até o mar parece hesitar, este exercício criativo acompanha o senhor Palomar — personagem de olhar minucioso e pensamento inquieto — enquanto observa o vai e vem das ondas. Mas há alguém que o observa também: uma narradora cúmplice, sentada na areia, que vê no seu gesto uma metáfora para o país à beira das eleições.
Entre a espuma e o silêncio, entre o olhar e o voto, nasce este texto de hesitação universal e muito pessoal.

“O mar está levemente encrespado e pequenas ondas vêm bater na costa arenosa. O senhor Palomar encontra-se na praia, de pé, e observa uma onda” com a solenidade de quem está a tentar decifrar um programa eleitoral redigido na gramática da espuma.

Eu, sentada a uns metros, observo Palomar. Ele observa o mar. O mar, por sua vez, parece ocupado demais, a repetir-se, para reparar em nós. A cena tem algo de coreográfico: a onda avança, recua, avança, recua, ora discreta ora vigorosa — como um candidato em campanha, cheio de promessas e pouco consistente.

Palomar não pisca. Mantém o olhar na onda. Eu já pisquei vinte vezes, e até já limpei os óculos. Ele permanece imóvel, como se o seu corpo fosse apenas um suporte para o olhar. A onda aproxima-se com mais vigor. Molha-lhe os pés. Ele não reage. Eu reajo por ele, num reflexo solidário. Mas ele continua firme, como quem acredita que o mar só revela os seus segredos a quem não se deixa influenciar por sondagens.

A próxima onda hesita. Palomar também. A espuma suspende-se por um instante.
Ele murmura:
— Esta onda... está indecisa.

Eu sorrio. Claro que está. Aproximam-se as autárquicas. Até o mar parece dividido entre manter o rumo ou votar na mudança. A espuma recua, como quem não quer comprometer-se. Palomar franze o sobrolho, talvez a tentar perceber se a ondulação é mais virada para o centro ou para a esquerda.

O vai e vem das ondas torna-se hipnótico. Há uma cadência, uma espécie de respiração do mundo. Palomar parece tentar sincronizar-se com ela. Eu tento sincronizar-me com Palomar, mas ele está num fuso horário diferente. Talvez esteja a contar as ondas como votos. Ou a tentar perceber se alguma delas é populista.

No fim, quando o sol começa a mergulhar no horizonte e a praia se pinta de dourado, Palomar dá um passo atrás. Olha para os pés molhados. Olha para mim. E diz, com a serenidade de quem passou o dia inteiro a conversar com o infinito:

— Acho que esta última... estava quase a decidir-se.

Eu sorrio. Talvez estivesse. Ou talvez fosse só mais uma onda. Mas mesmo entre espumas e incertezas, há sempre um momento em que é preciso escolher.

GR


26 julho, 2025

𝐏𝐚𝐥𝐨𝐦𝐚𝐫, de Italo Calvino




Autor: Italo Calvino
Título: Palomar
Tradutor: João Reis
N.º de páginas: 130
Editora: Planeta D'Agostini
Edição: 2001
Classificação: Contos 
N.º de Registo: (1223)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Palomar está dividido em três partes "As Férias de Palomar", "Palomar na Cidade" e "Os Silêncios de Palomar". Cada parte está subdividida em três capítulos que por sua vez apresentam 3 contos cada, reunindo, assim, 27 pequenos contos independentes que apenas têm em comum a personagem - o senhor Palomar.

Em todos os textos, o autor explora a relação entre o indivíduo e a natureza através da observação minuciosa e das reflexões do senhor Palomar.
Calvino aborda temas existenciais a partir de situações do dia-a-dia, com recurso à ironia transforma banalidades em momentos de profunda contemplação. Palomar, pela sua capacidade original de olhar para as coisas (uma onda, uma folha, um planeta, um seio, um insecto…), descobre significados pouco comuns, divaga sobre aspectos que o preocupam e tece reflexões sobre a vida, sobre as relações humanas e que acabam por conquistar o leitor.

“ O senhor Palomar decidiu que a sua principal actividade será sempre observar as coisas do lado de fora. (…) põe-se a observá-las quase sem dar por isso e o seu olhar começa a percorrer todos os detalhes e não consegue mais afastar-se delas. O senhor Palomar (…) redobrará as suas atenções: em primeiro lugar, para não deixar fugir os apelos que lhe chegam das coisas; em segundo lugar, para atribuir à operação de observar a importância que ela merece.” (p. 117)

Palomar exige do leitor uma efectiva atenção, não nos iludamos pelos textos curtos. Para captarmos a verdadeira essência da sua escrita, é importante entrar em estado de contemplação, como se fôssemos a personagem principal e usássemos um telescópio (para olhar as estrelas, por exemplo) ou uma lupa. É, igualmente, importante apreender o sentido do texto, retirar de cada observação o verdadeiro (auto) conhecimento, saber equilibrar racionalidade e sensibilidade. Isto só será possível se realizarmos uma leitura lenta e cuidada, se desfrutarmos das descrições detalhadas, se soubermos descortinar a ironia, as metáforas, os paradoxos, se estabelecermos comparações com o nosso mundo, se reflectirmos sobre as coisas observadas.
“Mas como se faz para observar alguma coisa deixando de lado o eu? De quem são os olhos que olham? (…) Para se olhar a si próprio o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhor Palomar” (p. 118)
É um pequeno livro muito interessante. Que nos faz reflectir a sorrir.