17 abril, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 

  


          

Ontem, quinta-feira, dia 16, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos sete textos que nos emocionaram e recuperaram memórias de histórias de vida, tendo como protagonistas avós, pais, alunos, mulheres corajosas, colegas, alguns de nós…
 
Para o Clube de leitura, lemos e apresentámos livros infanto-juvenis. Participaram 14 leitores. Foram partilhas ricas, diversificadas, de excelentes descobertas. Foram momentos de aprendizagem e de verdadeiro prazer em descobrir e folhear verdadeiros tesourinhos. 

Não posso deixar de referir uma edição caseira, adaptação do livro Ainda NADA, de Christian Goltz. Um trabalho maravilhoso que reproduz a história, mas com texturas para que invisuais possam desfrutar da história. Foi construído pela nossa Luísa, em contexto de formação. Adorámos comparar as duas obras. 

Como também já é habitual, lemos, sorrimos e maravilhámo-nos. E terminámos convictos que “A açorda é o miolo da nossa alma de coentros” ideia expressa no livro Suão de Vítor Encarnação, com ilustração de Joaquim Rosa.

A literatura tem esse poder!

Para o próximo encontro, vamos ler autores de nacionalidade espanhola. Escolha livre de livro(s) e autor/a.



Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- A Menina dos Fósforos; de Hans Christian Andersen;
- A Caixinha de Música, de José Jorge Letria;
- O Ouriço-cacheiro espreitou 3 vezes, de Maria Alberta Menéres e António Modesto;
- O Menino que Gritou para Dentro, de Ana Ventura e Alberto Faria;
- O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto e Danuta Wojciechowska ;
- A História Interminável, de Michael Ende;
- A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen
- Os Olhos Grandes da Menina Pequenina, de Ondjaki e Carla Dias;
- A Flecha Negra, de Robert Louis Stevenson;
- Harry Potter, de J. K. Rowling ;
- Pedro Alecrim, de António Mota;
- Na floresta da preguiça, de Sophie Strady, Anouck Boisrobert e Louis Rigaud;
- A Morte Melancólica do Rapaz e Outras Estórias, Tim Burton;
- O Segredo do Sol e da Lua, de Manuela Micaelo e Graça Breia;
- O macaco e o crocodilo e A história da carochinha (edição especial);
- Flicts, de Ziraldo;
- Os Ovos Misteriosos, de Luisa Ducla Soares e Manuela Bacelar;
- Ainda Nada, de Christian Voltz;
- Oliver Twist, de Charles Dickens;
- A Alma Perdida, de OlgaTokarczuk e Joanna Concejo;
- A Guerra, de José Jorge Letria e André Letria;
- Coração de pássaro, de Mar Benegas e Rachel Caiano;
- As casas das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Pequeno livro das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Coisas que gostam de coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Suão, de Vítor Encarnação e Joaquim Rosa


16 abril, 2026

A história que Abril abriu

 

(c) GR  Sines, 24 Abril 2024 - Espectáculo Teatro do Mar


A proposta de Maré d’Escrita, deste mês, consiste em escrever uma história que nos tivesse sido narrada. E, porque Abril regressa sempre com a sua luz inquieta, sobretudo nestes tempos sombrios, fui buscar um episódio que me habita há muito.

A história que me contaram começa num sofá em França, no dia 25 de Abril de 1974.

Eu era jovem, guardo ainda uma memória esbatida do instante, lembro o silêncio dos meus pais diante da televisão como se tivessem medo de respirar e desfazer a notícia. Absorviam as palavras do jornalista, as imagens que mostravam tanques, soldados, cravos nos canos das espingardas… Lisboa acordara em liberdade, e os cravos tinham vencido, sem sangue.
Quando a notícia terminou, o meu pai falou, ou melhor, sussurrou, como quem abre finalmente uma ferida antiga:
- Minha filha, esperávamos tanto por isto. Vivemos anos duros, em Portugal. Tínhamos trabalho nas fábricas, sim, mas mal pago. Nunca passámos fome porque sabíamos esticar o nosso dinheirito e a horta e a quinta do avô Agostinho davam-nos o resto. Mas o trabalho consumia-nos. O barulho dos teares deixava-me à beira da loucura, e a tua mãe passava horas dobrada sobre um corte de tecido.
Mas o pior era o medo. Havia olhos e ouvidos por todo o lado. Bufos escondidos em cada esquina. Um amigo nosso foi chamado ao posto da Guarda e voltou espancado, sem saber porquê. Foi aí que percebemos que já não podíamos ficar.

O tio João, que vivia em França, insistira tantas vezes para irmos com ele, mas recusámos sempre, não tínhamos passaporte e não queríamos pô-lo em risco.
Nesse ano, finalmente, cedemos. Depois da violência sobre o nosso amigo, começámos a ponderar. Eu e a tua mãe pensámos em tudo o que o nosso entendimento simples alcançava. Eras pequena e nunca falámos à tua frente, com medo de que, sem querer, deixasses escapar uma palavra.

Em Agosto de 1969, partimos no carro do tio. Foi uma aventura perigosa; atravessámos as fronteiras (Vilar Formoso e Irun/Hendaye) a pé e por caminhos de mato, orientados por um homem que não conhecíamos. Não éramos os únicos…
Quando, de novo no carro, quer em Espanha quer em França, sempre que víamos uma brigada, o coração apertava com receio que nos mandassem parar. Mas chegámos. Chegámos bem. E, mesmo sem sabermos a língua, começámos uma nova vida: escola, trabalho, uma casa. Devemos muito ao tio João e à sua família.

Por isso, esta notícia já não nos toca directamente, mas estou feliz. Muito feliz. Só espero que tudo acabe em bem, no nosso país…

Depois calou-se. Ficou ali, suspenso, com o olhar preso a um lugar que só ele via. Quando, finalmente, se virou para a minha mãe, os dois tinham lágrimas a correr devagar. Abraçámo-nos. Rimos. Chorámos. Como se a liberdade também fosse nossa.

Hoje, passados cinquenta e poucos anos, recordo essa conversa, talvez com falhas, com acrescentos, e sinto que a sombra regressa. Há ruído que confunde, há inocentes que morrem. A ganância volta a vestir-se de autoridade. A mentira volta a parecer verdade.
Estamos a perder a clareza. Estamos a perder a liberdade.

Por tudo isso, é urgente ler - e dar a ler - Saramago, Levi, Anne Frank, Vercors, Wiesel, Kertész, Arendt e tantos outros que nos legaram o seu testemunho. Para que a memória não se apague. Para que a escuridão não avance sem resistência.
Não podemos cair na indiferença.


09 abril, 2026

𝑶 𝑷𝒐𝒅𝒆𝒓 𝒅𝒂 𝑳𝒊𝒕𝒆𝒓𝒂𝒕𝒖𝒓𝒂, de Maria do Carmo Vieira

 


Autora: Maria do Carmo Vieira
Título: O Poder da Literatura
N.º de páginas: 125
Editora: FFMS
Edição: Abril 2025
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3694)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




O Poder da Literatura revela, desde as primeiras páginas, a força que a leitura pode ter quando encontra leitores dispostos a agir. Um dos aspectos mais fascinantes do livro é o relato do trabalho desenvolvido em torno do Café Martinho da Arcada.
A partir da leitura de Fernando Pessoa, um grupo de alunos da Escola Secundária Marquês de Pombal, nos anos 80, descobre naquele café não apenas um cenário biográfico, mas um lugar de memória a exigir cuidado. O livro acompanha o modo como esses jovens, inicialmente distantes da poesia, se envolvem numa verdadeira cruzada cívica: organizam um abaixo-assinado, criam a APAMA – Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, promovem um concurso internacional de arquitectura e mobilizam esforços para impedir a descaracterização do espaço.
Este percurso mostra como a literatura pode sair do livro, atravessar a sala de aula e inscrever-se na cidade, convertendo um gesto de leitura numa forma de cuidado cívico.

O Martinho da Arcada surge, assim, não apenas como cenário pessoano, mas como um lugar onde memória, identidade e pertença se entrelaçam. Ao acompanhar o empenho dos alunos na defesa daquele espaço, Maria do Carmo Vieira mostra como a literatura pode despertar um sentido de responsabilidade cultural que vai muito além do cumprimento do programa. A mobilização que estes jovens conseguiram é, aliás, notável: figuras da política, do meio artístico, do universo educativo e muitas pessoas anónimas juntaram-se à causa, reconhecendo no café um símbolo que merecia ser preservado. O Martinho torna-se, deste modo, um território simbólico, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a voz de Pessoa e a voz dos jovens que o redescobrem. E a intervenção dos alunos revela que a leitura, quando verdadeiramente vivida, é capaz de gerar cuidado, mobilização e continuidade.

No centro de O Poder da Literatura está também a figura de Maria do Carmo Vieira, uma professora cuja presença pedagógica ultrapassa largamente o espaço da sala de aula. O livro revela uma docente que alia conhecimento profundo, entusiasmo contagiante e uma empatia firme, capaz de transformar alunos que, à partida, não gostavam de Português, de poesia ou de Fernando Pessoa. A sua prática pedagógica assenta na convicção de que a literatura pode despertar, orientar e mobilizar. E é essa confiança no poder formativo dos textos que permite que os alunos se aproximem da leitura não como obrigação escolar, mas como descoberta pessoal e caminho de pertença.
A força do seu ensino reside numa combinação rara de rigor e afecto. Maria do Carmo Vieira não simplifica os textos para os tornar “acessíveis”; convida os alunos a subir até eles, confiando na sua capacidade de sentir e pensar. Essa exigência, temperada por uma atenção genuína às fragilidades e potencialidades de cada um, cria um ambiente onde a leitura deixa de ser um exercício escolar e ganha espessura interior. A professora não impõe entusiasmo: contagia-o. E é nesse gesto, simultaneamente intelectual e humano, que se percebe como conseguiu transformar alunos inicialmente distantes da literatura em leitores atentos, curiosos e capazes de reconhecer na palavra poética uma forma de se aproximarem do mundo.

Há, contudo, no livro, uma afirmação que merece ser interrogada: a ideia de que “todo o professor de Português gosta de ler”. Maria do Carmo Vieira formula-a a partir da sua própria ética profissional, onde a leitura é um gesto vital e quotidiano. Mas a minha leitura levou-me a suspender essa generalização. A experiência escolar mostra que nem todos os docentes cultivam uma relação viva com os livros, e que o gosto pela leitura não é um atributo automático da profissão, mas uma prática que exige dedicação, curiosidade e disponibilidade interior. É precisamente por isso que o exemplo da autora se destaca. porque. O ponto de interrogação que deixei nas margens do livro não diminui a força da sua afirmação; antes sublinha a singularidade da sua presença pedagógica.

O Poder da Literatura é, no fundo, a demonstração concreta de que a leitura pode transformar pessoas e lugares quando encontra mediadores verdadeiros. A luta pelo Martinho da Arcada, a mobilização inesperada de alunos e de toda uma comunidade, e a presença luminosa de Maria do Carmo Vieira revelam como a literatura, quando ensinada com autenticidade, ultrapassa o espaço escolar e inscreve-se na vida. Ao apresentar a ideia de que todos os professores de Português gostam de ler, o livro convida também a pensar sobre o que significa ensinar literatura hoje. Não basta transmitir conteúdos e “formatar” para os exames, é necessário criar condições para que a palavra literária se torne experiência, descoberta e responsabilidade.
A força deste livro reside em mostrar que a literatura continua a ser um lugar onde o mundo se pode reencontrar. E que mundo maravilhoso!


06 abril, 2026

𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: O Que A Chama iluminou
N.º de páginas: 136
Editora: Companhia das Letras
Edição: Dezembro 2024
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3664)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.

A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)

Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.

Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.

O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)

𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.


02 abril, 2026

𝑨 𝑨𝒍𝒎𝒂 𝑷𝒆𝒓𝒅𝒊𝒅𝒂, de Olga Tokarczuk e Joanna Concejo

 


Autora: Olga Tokarczuk
Título: A Alma Perdida
Ilustradora: Joanna Concejo
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
N.º de páginas: 48
Editora: Fábula
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3765)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O texto conciso de Olga Tokarczuk, laureada com o Prémio Nobel da Literatura (2019), alia-se às ilustrações maravilhosas de Joanna Concejo para tornar A Alma Perdida num livro maravilhoso, com uma história apaixonante e silenciosa. Em Portugal, o livro está classificado como literatura infanto-juvenil, mas eu diria que é para todas as idades e tenho dúvidas que os mais jovens captem a verdadeira essência da obra.

Na epígrafe, destaca-se esta passagem: “Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas...”, uma mensagem que nos acompanha ao longo da leitura, como uma sombra.

O texto é muito curto, pelo que são as ilustrações que expandem a narrativa e lhe transmitem profundidade; acrescentam sentido e convidam à reflexão.

São fragmentos de uma espera, de uma alma que precisa de tempo para reencontrar o corpo. Cada página é uma pausa, uma respiração, uma janela entreaberta para o tempo interior, para as memórias.

É um livro que nos obriga a reflectir sobre a forma agitada como vivemos. Sobre o que deixamos para trás quando corremos sem pausa. A Alma Perdida não nos pede pressa, pede presença, contemplação. E ao folheá-lo, percebemos que há uma parte de nós que ficou sentada numa cadeira, tal como Jan, à espera que a outra parte volte com tempo e disposição para desfrutar as coisas simples da vida.