12 junho, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 11 de Junho, pelas 16h00, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Para a sessão de Maré d'Escrita, este mês, tivemos de dar resposta a duas tarefas. A principal exigia que descrevêssemos, em poucos parágrafos e com alguma criatividade, o que vemos da nossa janela; a extraordinária, mais poética exigia que definíssemos uma das várias palavras que integravam uma lista criada por todos.
Os textos apresentados (nove e dez, respectivamente) já denotam cuidado na escrita e criatividade, muitos evidenciam claramente uma escrita poética. Mas penso que o maior ganho desta atividade, para além da melhoria da escrita, é o prazer evidente na partilha e leitura em voz alta dos textos. 

(ver aqui os textos: 𝙂𝙧𝙪𝙥𝙤 𝙙𝙚 𝙇𝙚𝙞𝙩𝙤𝙧𝙚𝙨 | 𝑴𝒂𝒓é 𝒅' 𝒆𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂)

Ao Clube de leitura compareceram onze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores hispano-americanos com direito a dois intrusos.
Foram leituras ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
Para o próximo encontro, que ocorrerá em Setembro, vamos ler o que nos apetecer. Não há tema nem sugestões.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- Malinche, de Laura Esquível;
- O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
- Patagonia Express, de Luís Sepúlveda
- O Evangelho Segundo Marcos (conto) in O relatório de Brodie, de Pablo Neruda;
- O Carteiro de Pablo Neruda, de António Skármeta;
- Não matem o coronel, de Gabriel García Márquez;
- A Filha Única, de Guadalupe Nettel;
- O Corpo em que Nasci, de Guadalupe Nettel;
- O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez;
- Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda;
- O Meu Nome é Emília, de Isabel Allende;
- Dedico-lhe o meu silêncio, de Mario Vargas Llosa
- Miragem de Amor com Banda de Música, de Hernán Rivera Letelier;
- Querido Primeiro Amor, de Zoé Valdés;
- O Jogo do Mundo, de Júlio Cortázar;
- Os Nomes de Feliza, de Juan Gabriel Vásquez;
- História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, de Luís Sepúlveda;
- O Diário da Guerra dos Porcos, de Adolfo Bioy Casares
- Está tudo f*dido, de Mark Manson
- Anjos e Guias Espirituais, de Sónia Choquette


11 junho, 2026

Da minha janela vivo o mar

 

                                                                        @ GR



Da minha janela avisto uma imensidão de telhas alaranjadas, onduladas como um campo de barro, mescladas de paredes brancas onde a luz se demora. Vejo, ainda, a casa do Gama - grande, forte, vigilante - como se guardasse histórias secretas, como se respirasse devagar para não perturbar o silêncio da rua. Mais abaixo, o porto estende-se devagar, e as gruas levantam os seus braços metálicos, desenhando no ar gestos lentos, quase coreografados, enquanto os barcos repousam dos ventos. E, por vezes, quando as nuvens se abrem ou o nevoeiro se distrai, adivinha-se ao fundo a silhueta de uma pequena montanha, como um segredo que o horizonte revela apenas a quem vigia.

Da minha janela vejo, ainda, o bailado das gaivotas como um volteio caprichoso que ora parece coreografia, ora pura insolência, acompanhado pelo seu tagarelar azucrinante, tão persistente que às vezes me pergunto se não o fazem de propósito só para testar a minha paciência.

Mas esta visão, tão nítida e tão arrumada, não é a que me prende. O que me leva diariamente à minha janela é outra imensidão, que não cabe no enquadramento da moldura nem se deixa domesticar pelas linhas das casas, nem pela agitação das gruas, nem tampouco pela agitação das aves.

É o azul. Um azul que muda de humor ao longo do dia: ora prateado e tímido, ora feroz e brilhante, ora espesso como tinta derramada. É o brilho que ilumina mesmo quando o céu se fecha.

Da minha janela, não observo apenas o mar, vivo-o. Ele entra comigo, espalha-se pela sala, mistura-se com o cheiro do café, com o som dos passos, com a respiração das manhãs. Há dias em que parece chamar-me pelo nome; outros em que apenas me olha, paciente, como quem sabe que voltarei sempre.

Da minha janela, o mar é mais do que paisagem. É a presença apaziguadora que me alimenta e inspira.