30 junho, 2026

𝑶 𝑨𝒓𝒄𝒐-Í𝒓𝒊𝒔, de Yasunari Kawabata

 

Autor: Yasunari Kawabata
Título: O Arco-Íris
Tradutor: Francisco Agarez
N.º de páginas: 207
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3651)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐





24 junho, 2026

𝑨 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒖𝒎𝒂 𝑭𝒂𝒄𝒂, de Annie Ernaux

 

Autora: Annie Ernaux
Título: A Escrita como uma Faca
Tradutora: Maria Etelvina Santos
N.º de páginas: 144
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2025
Classificação: Não -ficção/Entrevista
N.º de Registo: (3742)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



A Escrita como uma Faca é um autêntico mergulho no processo mental de uma escritora que recusa a ficção como máscara e transforma a própria vida em matéria literária. Para quem já leu vários dos seus livros, este funciona como um espelho que reflecte escolhas, métodos, obsessões e torna mais nítido tudo o que foi lido antes e tudo o que virá depois.

Annie Ernaux distingue‑se pela coragem rara de não se esconder. Onde muitos escritores se protegem atrás da ficção, ela expõe‑se para chegar ao ponto mais cru da experiência humana. Como referiu Frédéric-Yves Jeannet (F.-Y.J.) na introdução, ela usa um método rigoroso, “uma trajetória exigente e arriscada, a sua escrita que não mente, dissecada até ao osso, pondo a nu a dor, a alegria, a complexidade de existir.” (p.10). A sua vida funciona como campo de observação social, onde o íntimo e o coletivo se entrelaçam. Ao narrar‑se, narra também a mulher da sua época, a classe social de onde veio, a memória que partilha com os seus leitores.

Mas há um elemento fundamental que torna este livro único, a inteligência da condução da entrevista por F.-Y.J. As perguntas são instrumentos de precisão. O entrevistador sabe, “com tenacidade e subtileza”, quando insistir, quando recuar, quando abrir espaço para que Ernaux aprofunde uma ideia ou revele uma hesitação. Há uma escuta activa, quase invisível, que permite que a autora pense em voz alta sem perder rigor. O formato por correio electrónico, ao longo de um ano, amplifica essa qualidade, cada pergunta chega como uma provocação meditativa e cada resposta nasce de um tempo de reflexão que raramente existe na oralidade.

O leitor acompanha esse pensamento quase em tempo real. É como assistir ao trabalho de uma cirurgiã literária que abre a própria escrita para mostrar o mecanismo por dentro e, também, ao trabalho de um entrevistador que sabe exactamente onde colocar a lâmina.

Percebemos que a recusa da ficção é para a autora um gesto ético. Inventar seria uma forma de suavizar ou desviar o olhar. Na sua opinião, a realidade, tal como é vivida, já contém toda a violência e toda a beleza necessárias, pelo que usa a sua linguagem é seca e precisa, sem “metáforas, sem efeitos”, sem sentimentalismos. Limita-se a revelar.
Por isso este livro, tão fundamental, mostra a liberdade de pensamento que sustenta toda a sua obra. Uma liberdade conquistada, lúcida, sem pruridos. Uma autora que não teme dizer “eu”, porque sabe que esse “eu” é atravessado pela história, pela classe, pelo género, pela memória colectiva.

Ler A Escrita como uma Faca é acompanhar Ernaux no momento em que ela afia a própria lâmina e acompanhar também quem lhe passa a pedra de afiar. Depois disso, todos os seus livros se tornam mais vivos e inevitáveis.
“Tudo o que sei é que esse livro [Um Lugar ao Sol] inaugurou, como disse, uma postura descrita que mantenho, exploração de uma realidade exterior ou interior, do íntimo e do social num mesmo movimento, fora da ficção. E a escrita “clínica” como lhe chama, que utilizo, é parte integrante da investigação. Sinto-a como uma faca, quase uma arma, de que necessito.” (p. 34)



21 junho, 2026

O Dia da Revelação (Disclosure Day), de Steven Spielberg

 

      

145 min | M/12 | Thriller, Ficção Científica, Drama | 2026 | EUA
Realização: Steven Spielberg
Elenco: Emily Blunt, Josh O'Connor, Wyatt Russell, Colin Firth,  Colman Domingo, Eve Hewson



Quando saí do cinema após ver "O Dia da Revelação", confesso que estava dividida. A minha cabeça não parava de pensar na lógica da história. Afinal, como é que um grupo tão poderoso, que mandava em tudo e escondeu este segredo durante tantos anos, é derrotado assim tão facilmente no final?
Na era dos deepfakes, da inteligência artificial e da desinformação instantânea, a escolha de Steven Spielberg em basear a maior revelação da história da humanidade numa transmissão televisiva linear pareceu-me, ao início, antiquada e logicamente frágil. Tem de haver uma razão.

O cinema tem esta capacidade mágica de nos fazer mudar de perspectiva. E foi quando mudei a "lente" através da qual olhava para o filme que tudo ganhou outro valor.
Percebi (ou quis perceber) que Steven Spielberg não queria fazer um filme focado na tecnologia ou na política do mundo de hoje. Ele quis entregar-nos uma metáfora sobre a paz e a esperança.

Sob esta nova perspectiva, a cena em que o vilão Noah Scanlon desiste de disparar e deixa a transmissão continuar ganha um novo entendimento. Ele não falha por incompetência; ele é desarmado pela própria magnitude da verdade. E assim, há algo transformador na mensagem de que a verdade liberta todos, incluindo os próprios opressores que passaram a vida a escondê-la.
Mas só cheguei a este entendimento, após longa reflexão sobre o final. Intrigou-me o corte abrupto para os créditos logo a seguir à palavra "Ouçam" dita por Emily Blunt. Esse era o foco, tinha de ter um significado. E só podia ser um apelo. Spielberg está a dizer-nos que, perante a imensidão do universo, as nossas guerras, discussões e divisões perdem todo o sentido. Temos de parar e ouvir o que realmente importa.

"O Dia da Revelação" pode não ser perfeito na lógica, ou melhor, pode causar estranheza, mas mexe connosco. Lembra-nos da nossa humanidade e mostra que a esperança na paz continua a ser um caminho válido.
E, verdade seja dita, isso faz-nos muita falta hoje em dia.

20 junho, 2026

A Primavera

 

                                                                      (C) GR


No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então, ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de ce cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.


In, Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, pág. 16 

19 junho, 2026

𝑷𝒍𝒂𝒕𝒆𝒓𝒐 𝒆 𝑬𝒖, de Juan Ramón Jiménez

 

    
                          
Autor: Juan Ramón Jiménez
Título: Platero e Eu
Ilustrador: Bernardo Marques
Tradutor: José bento
N.º de páginas: 140
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/Data
Classificação: Prosa poética
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam devagar, como quem pede licença para entrar na nossa vida. Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, não se impõe; insinua-se, devagarinho, com delicadeza. E quando damos por isso, já estamos sentados ao lado de Platero, a sentir o seu passo leve atravessar as páginas.

Jiménez constrói um livro que é, ao mesmo tempo, memória, poesia e infância reencontrada. A estrutura fragmentada (pequenos episódios) cria uma cadência simples, como se cada capítulo fosse um relincho breve, cheio de vida. A simplicidade é apenas aparente, por detrás dela pulsa uma sensibilidade profunda, uma atenção ao quotidiano, ao gesto, ao instante.

A relação entre o narrador e Platero é o centro afectivo da obra. A amizade entre um homem e o seu burrico devolve ao leitor a possibilidade de olhar o mundo com ternura. Platero, com a sua doçura, torna-se espelho e companhia; presença constante que transforma o banal em revelação. É impossível não sentir que caminhamos com eles pelas ruas de Moguer, onde cada detalhe - uma flor, uma criança, uma andorinha, um coice, um entardecer,… se transforma em matéria poética.

Na escrita de Jiménez há uma musicalidade que se aproxima da prosa poética, mas sem excessos, sem ornamentos desnecessários. O autor sabe que a emoção verdadeira nasce do essencial.

Ler Platero e Eu é entrar num estado de delicadeza. É permitir-se abrandar. É aceitar que a beleza pode surgir num gesto simples, num olhar terno, num relincho. Talvez por isso, tantos leitores, ao terminarem o livro, sintam vontade de voltar ao início para permanecer mais um pouco naquele lugar onde a poesia se confunde com a vida.

Há livros que acontecem. Este é um deles. E quando acontece, deixa uma marca suave, como o toque de Platero a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.


17 junho, 2026

𝑴𝒊𝒓𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒄𝒐𝒎 𝑩𝒂𝒏𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑴ú𝒔𝒊𝒄𝒂, de Hernán Rivera Letelier



Autor: Hernán Rivera Letelier
Título: Miragem de Amor com Banda de Música
Tradutor: Carlos Vieira da Silva
N.º de páginas: 273
Editora: Quetzal Editores
Edição: Fevereiro 2000
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1117)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

A leitura de Miragem de Amor com Banda de Música marcou o meu primeiro contacto com o universo literário de Hernán Rivera Letelier, revelando-se uma excelente e surpreendente descoberta. Neste romance, o autor chileno transporta-nos com mestria para o ambiente árido da pampa salitreira do Atacama, no início do século XX. Através do cruzamento de vidas marcadas pela ilusão, a obra constrói um retrato humano profundo sobre a efemeridade da vida e do amor, as condições de trabalho e a resistência à opressão.

O motor emocional da narrativa assenta no contraste absoluto entre as duas figuras principais, Bello Sandalio, o trompetista boémio, mulherengo e destemido, e Golondrina del Rosario, a pianista idealista e de educação rígida. A ligação entre ambos surge através da música, que funciona como uma linguagem universal e um refúgio de sensibilidade num quotidiano duríssimo.

Esta paixão improvável desenvolve-se sob o peso de uma forte crítica social e política. O autor expõe sem rodeios as condições desumanas de trabalho nas explorações de salitre, onde a ambição do "ouro branco" esmaga a dignidade dos mineiros. Esta opressão culmina no idealismo revolucionário do barbeiro Sixto Pastor Alzamora, pai de Golondrina, cuja tentativa de tiranicídio espelha a revolta sufocada daquela população.

Toda esta envolvência é moldada pelo simbolismo do deserto do Atacama e da própria miragem. Tanto o amor impossível como a utopia política revelam-se meras ilusões, condenadas a desaparecer sob a areia e o esquecimento, tal como a própria povoação de Pampa Unión.

Miragem de Amor com Banda de Música revelou-se uma leitura profundamente marcante. O aspecto mais fascinante da obra reside no cruzamento magistral entre a crueza da vida salitreira, a complexa condição sociopolítica do Chile daquela época e a vida devassa que consumia aquela povoação no fim do mundo, onde os fins-de-semana dos salitreiros eram marcados pelo excesso e pelo álcool. Hernán Rivera Letelier consegue a proeza de transformar a miséria e o isolamento numa narrativa cheia de cor, música e humanidade. Foi, sem dúvida, uma excelente porta de entrada na literatura do autor. Diverti-me imenso com as peripécias amorosas e rocambolescas protagonizadas por certas personagens. 


13 junho, 2026

Al Berto | 13.06.1997 (29 anos)

 



Notas para o Diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poemas,
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, 
ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...                         
e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


AL BERTO, Horto de Incêndio


12 junho, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 



Quinta-feira, dia 11 de Junho, pelas 16h00, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Para a sessão de Maré d'Escrita, este mês, tivemos de dar resposta a duas tarefas. A principal exigia que descrevêssemos, em poucos parágrafos e com alguma criatividade, o que vemos da nossa janela; a extraordinária, mais poética exigia que definíssemos uma das várias palavras que integravam uma lista criada por todos.
Os textos apresentados (nove e dez, respectivamente) já denotam cuidado na escrita e criatividade, muitos evidenciam claramente uma escrita poética. Mas penso que o maior ganho desta atividade, para além da melhoria da escrita, é o prazer evidente na partilha e leitura em voz alta dos textos. 

(ver aqui os textos: 𝙂𝙧𝙪𝙥𝙤 𝙙𝙚 𝙇𝙚𝙞𝙩𝙤𝙧𝙚𝙨 | 𝑴𝒂𝒓é 𝒅' 𝒆𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂)

Ao Clube de leitura compareceram onze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores hispano-americanos com direito a dois intrusos.
Foram leituras ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
Para o próximo encontro, que ocorrerá em Setembro, vamos ler o que nos apetecer. Não há tema nem sugestões.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- Malinche, de Laura Esquível;
- O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
- Patagonia Express, de Luís Sepúlveda
- O Evangelho Segundo Marcos (conto) in O relatório de Brodie, de Pablo Neruda;
- O Carteiro de Pablo Neruda, de António Skármeta;
- Não matem o coronel, de Gabriel García Márquez;
- A Filha Única, de Guadalupe Nettel;
- O Corpo em que Nasci, de Guadalupe Nettel;
- O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez;
- Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda;
- O Meu Nome é Emília, de Isabel Allende;
- Dedico-lhe o meu silêncio, de Mario Vargas Llosa
- Miragem de Amor com Banda de Música, de Hernán Rivera Letelier;
- Querido Primeiro Amor, de Zoé Valdés;
- O Jogo do Mundo, de Júlio Cortázar;
- Os Nomes de Feliza, de Juan Gabriel Vásquez;
- História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, de Luís Sepúlveda;
- O Diário da Guerra dos Porcos, de Adolfo Bioy Casares
- Está tudo f*dido, de Mark Manson
- Anjos e Guias Espirituais, de Sónia Choquette


11 junho, 2026

Da minha janela vivo o mar

 

                                                                        @ GR



Da minha janela avisto uma imensidão de telhas alaranjadas, onduladas como um campo de barro, mescladas de paredes brancas onde a luz se demora. Vejo, ainda, a casa do Gama - grande, forte, vigilante - como se guardasse histórias secretas, como se respirasse devagar para não perturbar o silêncio da rua. Mais abaixo, o porto estende-se devagar, e as gruas levantam os seus braços metálicos, desenhando no ar gestos lentos, quase coreografados, enquanto os barcos repousam dos ventos. E, por vezes, quando as nuvens se abrem ou o nevoeiro se distrai, adivinha-se ao fundo a silhueta de uma pequena montanha, como um segredo que o horizonte revela apenas a quem vigia.

Da minha janela vejo, ainda, o bailado das gaivotas como um volteio caprichoso que ora parece coreografia, ora pura insolência, acompanhado pelo seu tagarelar azucrinante, tão persistente que às vezes me pergunto se não o fazem de propósito só para testar a minha paciência.

Mas esta visão, tão nítida e tão arrumada, não é a que me prende. O que me leva diariamente à minha janela é outra imensidão, que não cabe no enquadramento da moldura nem se deixa domesticar pelas linhas das casas, nem pela agitação das gruas, nem tampouco pela agitação das aves.

É o azul. Um azul que muda de humor ao longo do dia: ora prateado e tímido, ora feroz e brilhante, ora espesso como tinta derramada. É o brilho que ilumina mesmo quando o céu se fecha.

Da minha janela, não observo apenas o mar, vivo-o. Ele entra comigo, espalha-se pela sala, mistura-se com o cheiro do café, com o som dos passos, com a respiração das manhãs. Há dias em que parece chamar-me pelo nome; outros em que apenas me olha, paciente, como quem sabe que voltarei sempre.

Da minha janela, o mar é mais do que paisagem. É a presença apaziguadora que me alimenta e inspira.