24 maio, 2026

Laureados do Festival de Cinema de Cannes 2026

 



A 79.ª edição do maior festival de cinema do mundo chegou, hoje, ao fim na Croisette. E os grandes vencedores de Cannes 2026 já foram revelados!

O prestigiado júri liderado pelo realizador sul-coreano Park Chan-wook  anunciou as suas decisões e entre  aplausos e algumas surpresas, a cobiçada Palma de Ouro foi atribuída ao filme Fjord, do realizador romeno Cristian Mungiu.




Lista Oficial de Vencedores:

Palma de Ouro: Fjord, de Cristian Mungiu.

Grande Prémio: Minotaure (Minotaur), de Andreï Zviaguintsev.

Prémio do Júri: Das Geträumte Abenteuer (The Dreamed Adventure), de Valeska Grisebach.

Melhor Realização (empate): Pawel Pawlikowski, por Fatherland.
Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra.

Melhor Argumento: Emmanuel Marre, por Notre Salut.

Melhor Actriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, em Soudain, de Hamaguchi Ryusuke.

Melhor Actor: Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, em Coward, de Lukas Dhont.

Palma de Ouro de Curtas-Metragens: Los Contricantes, de Federico Luis.

Caméra d'Or (Melhor Filme de Estreante): Ben'imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo

Un Certain Regard:

Prémio Un Certain Regard: Everytime, de Sandra Wollner

Prémio do Júri: Les éléphants dans la Brume, de Abinash Bikram Shah

Prémio Especial do Júri: Le Corset, de Louis Clichy

Melhor actor: Bradley Fiomona Dembeasset, em Congo Boy, de Rafiki Fariala

Melhores actrizes: Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro, Mariangel Villegas, em Siempre Soy tu Animal Materno, de Valentina Maurel


Curiosidade da edição: O júri decidiu premiar o trabalho de equipa e a química no ecrã. Isto resultou em empates duplos históricos nas categorias de representação, onde as duplas de protagonistas dos filmes de Hamaguchi Ryusuke (Soudain) e Lukas Dhont (Coward) partilharam os grandes prémios da noite!



23 maio, 2026

Lua

 

                                                          Copilot_20260515_191430 




Lua

Como uma actriz vaidosa
que só revela o rosto quando lhe convém,
a Lua cresce, mingua, desaparece, regressa.
O telescópio procura-a, paciente,
mas ela esconde-se atrás de véus de sombra,
ora meia, ora inteira, ora quase nada,
mostrando apenas o brilho que quer.
O vento, cúmplice eterno,
ajeita-lhe o vestido de luz
para que o seu reflexo tremule no mar
onde ensaia em silêncio
um bailado secreto

 


22 maio, 2026

𝑪𝒊𝒏𝒛𝒂𝒔, de Grazia Deledda

 


Autor: Grazia Deledda
Título: Cinzas
Tradutora: Graziella Saviotti
N.º de páginas: 252
Editora: Sibila Publicações
Edição: Setembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3768)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Festival de Cannes 2026

 

                                                        (c) Festival de Cinema de Cannes 

O cartaz oficial da edição de 2026  presta homenagem a Thelma & Louise, aventura feminista na estrada de Ridley Scott, estreada em Cannes há 35 anos.


A 79.ª edição do Festival de Cinema de Cannes decorre entre 12 e 23 de maio e reúne alguns dos maiores realizadores e actores do cinema internacional. Dezenas de filmes serão exibidos pela primeira vez e muitos deles surgirão como candidatos a outros prémios de cinema. 

São 22 filmes candidatos à Palma de Ouro.

Portugal também se faz representar por Tiago Guedes com Aquí na secção Cannes Première, mas fora da competição principal; Daniel Soares compete na categoria de curtas-metragens com Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio; Clara Vieira participa na La Cinef, dedicada a filmes de escolas de cinema, com Onde Nascem os Pirilampos.

Cannes tornou-se igualmente conhecido pelo glamour, pelos vestidos, pelas jóias e pelas poses de estrelas internacionais na famosa passadeira vermelha da Croisette.


17 maio, 2026

𝑨𝒔 𝑰𝒍𝒉𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔 - 𝑵𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝒑𝒂𝒊𝒔𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Raul Brandão

 


Autor: Raul Brandão
Título: As Ilhas Desconhecidas 
N.º de páginas: 204
Editora: Quetzal
Edição: Março 2011
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (3467)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, de Raul Brandão, é um livro de viagens que se lê como se percorresse uma galeria de quadros vivos. O autor não descreve apenas as ilhas, pinta-as, atribui-lhes um encanto particular e muito próprio. Cada página é uma tela onde a luz, o vento, o mar e as pessoas surgem em pinceladas largas, ora luminosas, ora sombrias, mas sempre intensas.
“Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com o sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima.” (p. 146)

Como acabei de referir, Brandão encontra nos Açores uma beleza agreste, feita de contrastes. As ilhas que visita revelam-lhe a alma do arquipélago e oferecem-lhe uma paleta inesperada, o dourado dos campos, o roxo profundo das hidrângeas/hortênsias, os verdes múltiplos das encostas, o alaranjado do sol, o negro do pico, o branco e cinzento das nuvens e o azul imenso do mar. Ele próprio se deslumbra com as “manchas roxas” das hidrângeas que bordam as estradas, e escreve, com gratidão poética, que o homem que teve essa ideia merecia uma estátua.
Mas para além da beleza, Brandão vê a dureza da vida. No Corvo, sobretudo, encontra uma comunidade pequena e resistente, moldada pelo isolamento, pelo clima severo e pela força do mar. A vida ali é um combate diário, mas também um exemplo de união. Todos se conhecem, todos se ajudam, todos dependem uns dos outros, todos são parentes. É uma humanidade sólida e silenciosa, que o impressiona tanto quanto a paisagem.

A essa dureza junta-se a pesca da baleia, uma das tarefas mais árduas e perigosas que ele testemunha. Brandão descreve os botes frágeis lançados ao mar, a coragem dos homens que enfrentam o animal colossal, o trabalho exaustivo que se segue para extrair o óleo e o cheiro intenso que impregna roupas, mãos, ar, chão. A peca à baleia surge como uma epopeia quotidiana feita de risco numa relação íntima com o mar.

O Pico, visto à distância, torna-se quase personagem. De São Jorge ou do Faial, a montanha surge como uma aparição que muda de forma conforme a luz e o nevoeiro.
“ISTO QUE DE LONGE era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno.” (p. 93)

E depois há a Madeira, que completa o arco da viagem. Após a rudeza atlântica dos Açores, surge como um jardim suspenso, mais luminoso e “muito inglês”, demasiado inglês para o autor. Aqui, a natureza parece dialogar com o homem de forma mais suave. A cor também é outra, mais tropical, mas o olhar crítico de Brandão mantém-se atento, impressionista, capaz de transformar cada detalhe em pintura.

A escrita de Raul Brandão é de uma enorme sensibilidade. Não se limita ao olhar, oferece o sabor do leite, do vinho, das frutas; convoca o cheiro da terra, o aroma dos ananases, o perfume do chá nas encostas, e até a doçura das bananas madeirenses. Cada frase abre uma porta para dentro da paisagem, como se o leitor respirasse o mesmo ar que ele. É uma prosa que vê, que cheira, que toca e que, por isso mesmo, pede ritmos próprios, pausas, desvios (pesquisa de imagens), reflexões e até sorrisos. Alguns desses ritmos pertencem, apenas, à beleza da frase. Os travessões, por exemplo, o autor usa‑os com naturalidade e insistentemente. Para os espíritos apressados que hoje vêem travessões e logo suspeitam de máquinas, vale a pena lembrar que Raul Brandão — esse pintor de palavras — usava e abusava deles muito antes de existir qualquer IA. O estilo não é um algoritmo, é uma voz. E a dele continua viva, luminosa e cheia de travessões.

No conjunto, As Ilhas Desconhecidas é um livro que revela lugares e modos de estar no mundo. A força das paisagens, a dignidade das gentes, a vibração das cores, a dureza da baleação, a instabilidade do tempo e a escrita que parece pintura fazem desta obra uma das mais belas viagens literárias da nossa literatura.



15 maio, 2026

Doação do Espólio de Al Berto à BNP

           


" Foi assinado, na Sala do Conselho da BNP, o Termo de Doação do Espólio de Al Berto, por vontade de sua irmã, Maria Cristina Raposo Pidwell Tavares, e de sua sobrinha, Joana Amaral Tavares, em cerimónia que se realizou dia 12 de Julho de 2006, constituindo mais um significativo contributo para o enriquecimento do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (ACPC) desta Instituição.

Tendo adoptado o nome poético de Al Berto, Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em 1948, em Coimbra, e faleceu em Lisboa, em 1997. Exilado em Bruxelas a partir de 1967, onde continuou estudos anteriores no domínio das artes plásticas, antes de se dedicar à literatura, publicou o seu primeiro livro de poemas, À Procura do Vento no Jardim de Agosto, em 1977. Cultivando uma poesia que «irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras», numa senda próxima do surrealismo que articula o real com o imaginário, o pendor confessional da sua criação lírica labora num universo de imagens que alguns títulos dos seus livros evidenciam, como Uma Existência de Papel, de 1985, ou A Secreta Vida das Imagens, de 1991. À reunião da sua poesia, em 1988, sob o título O Medo, que nesse ano lhe valeu a atribuição do Prémio Pen Club, seguiu-se a única prosa, Lunário, de 1988, e O Anjo Mudo, de 1993, quando estava já consagrado como um dos mais importantes expoentes da sua geração.

O espólio do escritor inclui sobretudo manuscritos poéticos, incluindo as traduções de que vários dos títulos de Al Berto foram objecto, para além de correspondência - cuja consulta ficará reservada durante duas décadas - e apontamentos pessoais e biográficos."


Publicação da BNP : aqui


14 maio, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 


Quinta-feira, dia 14 de maio, pelas 17h00, na cafetaria do Centro de Artes, com uma clara e belíssima vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
O encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos oito textos que responderam à pergunta pertinente "Quem sou eu?". Pretendia-se uma introdução apelativa e criativa à nossa futura (quem sabe?) (auto)biografia. Ficámos a conhecermo-nos um pouco melhor e até houve abracinhos.


Ao Clube de leitura compareceram doze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores Espanhóis com direito a dois intrusos.
Foram partilhas ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
E hoje, tivemos direito a miminhos doces. Alguns bem provocadores como poderão constatar numa das fotografias.

A literatura tem a força de unir pessoas e leva-nos ao "abismo da dúvida." (faz sentido?)
Para o próximo encontro, vamos ler autores sul-americanos de expressão castelhana. Escolha livre de livro(s) e autor/a.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes
Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez
Caruncho, de Layla Martinez
Berta Isla, de Javier Marías
O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
Cães maus não dançam, de Arturo Pérez-Reverte
Nada, de Carmen Laforet
O Infinito num Junco, de Irene Vallejo
Alguém falou sobre nós, de Irene Vallejo
O tempo entre costuras, de Maria Dueñas
As vinhas de la Templenza, de Maria Dueñas
A Louca da Casa, de Rosa Montero
O peso do Coração, de Rosa Montero
Instruções para salvar o mundo, de Rosa Montero
Nada de Outro Mundo, de Antonio Muñoz Molina
A catedral do Mar, de Ildefonso Falcones
Os Herdeiros da Terra, de ldefonso Falcones
A Colmeia, de Camilo José Cela
Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester
A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón
Patagónia Express, de Luís Sepúlveda
O Anjo Mudo, de Al Berto

13 maio, 2026

O Armário ou O Quarto Poema do Português Errante | Manuel Alegre

  


RTP Arquivos | 18 - 05 - 2005 | Poema lido pelo ator José Pedro Gomes.

Para ouvir clicar na imagem ou aceder pelo link: 
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/o-armario-ou-o-quarto-poema-do-portugues-errante/




O armário 


Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.

Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.

E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.

Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.

Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.

Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.

Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.


Manuel Alegre
in Livro do Português Errante

12 maio, 2026

Samica, Alguém!

 



Quero que esta introdução agarre quem a lê, do primeiro rabisco ao último arrepio literário. Ora, convencer um leitor (entenda-se por leitor aquela pessoa que gosta mesmo de ler) não me parece tarefa difícil. Afinal, conto com o apoio dos meus poetas fantasmas, sempre prontos a soprar frases ao meu ouvido, e com as minhas canetas permanentes, que escrevem sozinhas quando eu me distraio.

Difícil, difícil, é motivar a geração polegar, essa gente que nunca pegou num livro (bom, evitemos radicalismos: quase nunca). Pois bem, é para ela que vou orientar este texto. Se não a convencer, ao menos que lhe faça cócegas literárias.

“Je est un autre.” A célebre frase de Rimbaud parece-me um bom princípio para introduzir a minha biografia, porque me revejo nela e porque os meus poetas fantasmas insistiram que a usasse, sob pena de me riscarem o rascunho com as tais canetas permanentes.
E se Rimbaud dizia que o eu é um outro, eu acrescento que às vezes esse outro tem vários nomes.

Eu, Graciosa Reis, e heterónimos me confesso. Não no sentido pessoano, não inventei biografias paralelas, nem datas de nascimento, nem estilos literários autónomos. Os meus “heterónimos” nasceram de outra fonte, do erro humano, essa força criativa que transforma Graciosa em tudo menos Graciosa. Já fui Generosa, Graciete e até Preciosa (ainda hoje não sei se era carinho, lapso ou provocação). E Grace… ah, mas esse é especial. Foi-me oferecido por um grupo de alunos e, como tudo o que nasce da imaginação estudantil, pegou que nem fogo. Os amigos adoptaram-no, e no meu blogue assino mesmo por Grace. É o único heterónimo que escolhi manter, talvez porque me dá um certo ar internacional, ou porque me lembra que, às vezes, os outros vêem em nós coisas que nós próprias ainda não vimos.

Um dia, porém, fartei-me dos equívocos. Peguei num rectângulo de cartolina, escrevi: PUM! PUM! PUM! Basta de Preciosa! Eu sou a Graciosa e preguei-o na lapela. (Os meus poetas fantasmas aplaudiram. As canetas permanentes sublinharam. Acharam que era performance artística.)

E agora? Agora chega a parte difícil: falar de mim. Mas vamos lá tentar agarrar os “polegarzinhos” antes que deslizem para outra aplicação.

Fui menina e moça; rabina e roliça; tagarela e curiosa; quiseram que fosse mulher do lar, mas preferi ser mulher da escola e dos livros; e assim permaneço! Mulher livre e com tendência para fugir das gavetas onde me tentam arrumar. E os livros… Esses foram sempre a minha verdadeira pátria. Ensinaram-me a pensar, a duvidar, a rir, a resistir, a ser mais do que esperavam de mim. Se hoje rabisco uns textos, pequenos esquisses, como os do meu velho caderno onde desabafo sem pedir licença, é porque antes li, e continuo a ler como quem respira.

Tive uma filha, plantei árvores e semeei palavras aqui e ali, como quem espalha migalhas literárias, pelo que posso afirmar que quase cumpri a máxima do poeta cubano José Martí.

Falo francês, mas não toco piano. Ufa! Escapei por pouco à catalogação de “jovem de família burguesa”. (Aqui, os meus poetas fantasmas franziram o sobrolho, mas aceitaram.)

Então, afinal, quem sou eu? A minha filha, em 2004, para um trabalho escolar, escreveu: “Conheci-a pessoalmente quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas; talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verdes acastanhados, ou o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser…”

“Chega!”, decretaram os meus poetas fantasmas, esses editores do além que me riscam frases quando estou a revelar demais. E, já agora, lembraram-me que a palavra “chega” é muito apreciada pelos polegarzinhos, como se isso fosse argumento literário. Eu, que tenho alergia à palavra (e não só à palavra…), respirei fundo e deixei-a ficar, para lhes dar esse pequeno triunfo.

Portanto, se querem saber mais… avancem umas páginas e os polegarzinhos que façam um esforço, vá.

Bom, mas respondendo à pergunta “quem sou eu?”. A minha resposta evidente é: “Samica, alguém!”, a famosa réplica de Joane, o Parvo, no Auto da Barca do Inferno. É esta a descrição que me acompanha nas redes sociais. E, verdade seja dita, nunca me senti tão bem representada.

Portanto, queridos polegarzinhos, façamos um trato simples, pousam o telemóvel por cinco minutos e eu deixo-vos entrar na minha biografia. Prometo que, ao contrário das vossas aplicações, não vos peço atualizações, só atenção. E, quem sabe, talvez descubram que virar páginas pode ser bem mais excitante do que deslizar o dedo no ecrã.



05 maio, 2026

O Diabo Veste Prada 2, de David Frankel

 


120 min | M/12 | Comédia Dramática | 2026 | EUA
Realização: David Frankel
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway , Emily Blunt, Stanley Tucci, Kenneth Branagh , Simone Ashley, Justin Theroux , Lucy Liu , Lady Gaga, ...


O Diabo Veste Prada 2 regressa ao grande ecrã.
Vinte anos depois, o elenco original volta a reunir‑se para aceitar o desafio de David Frankel, agora com argumento de Aline Brosh McKenna, numa sequela divertida e cheia de estilo que revisita o universo da moda em Nova Iorque - com uma irresistível passagem por Milão - e, claro, pela revista Runway.

O filme mantém o espírito do clássico de 2006: humor afiado, intrigas saborosas, drama na medida certa e aquela paixão que sempre definiu o seu charme.

Nos papéis principais brilham Meryl Streep como a inconfundível e maravilhosa Miranda Priestly, Anne Hathaway como a determinada Andy Sachs, Emily Blunt como a feroz Emily Charlton,  rival saída directamente da Dior e Stanley Tucci como o sempre perspicaz e reservado Nigel.

Foram duas horas bem passadas e divertidas, com o ritmo certo para quem gosta de mergulhar, sem culpas, no brilho exagerado do mundo da moda. E, no meio de tanta correria e intriga, ainda tive o prazer de revisitar Milão, os seus lugares mais marcantes, incluindo o mural da Última Ceia, que me voltou a prender pela luz, pela quietude e por aquela sensação de estar diante de algo que respira há séculos.



03 maio, 2026

𝑵𝒂𝒅𝒂, de Carmen Laforet

 

Autora: Carmen Laforet
Título: Nada
Tradutores: Sofia Castro Rodrigues;
Virgílio Tenreiro Viseu
N.º de páginas: 275
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3720)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Li Nada, de Carmen Laforet, e fiquei com tudo. A escrita é maravilhosa, precisa, sensorial, cheia de uma força silenciosa. As descrições dos ambientes funcionam como verdadeiras cenas cinematográficas, expondo com nitidez os contrastes entre o belo e a liberdade das escapadelas da protagonista e o sombrio, obsessivo e quase sufocante da casa da rua Aribau. Acompanhamos Andrea, recém‑chegada a Barcelona para estudar, carregando aquela esperança frágil que só os dezoito anos conseguem suportar. Mas o que encontra na casa da rua Aribau não é acolhimento, mas um labirinto de adultos partidos, tensões antigas, gritos, violência. Andrea move‑se como quem tenta decifrar um enigma emocional, observando tudo com uma lucidez que a protege e a fere ao mesmo tempo.

A força do romance está muito na forma como Carmen Laforet constrói esta protagonista. Andrea não é heroína nem vítima. É uma jovem que tenta sobreviver ao caos com dignidade, inteligência e uma espécie de inocência resistente. A sua voz é contida e vulnerável, moldada pelo medo e pela lucidez; uma força que não se impõe, mas resiste.

À medida que avançamos, percebemos que a casa é quase uma personagem; um organismo cansado, cheio de quartos sujos, sombrios, desgastados onde a vida se desfez. A violência doméstica, tanto física como psicológica, instala‑se, moldando gestos, medos e relações; a fome impõe-se; a pobreza infiltra‑se nos objectos, nos silêncios, nos corpos e os sonhos perdidos pairam sobre cada figura como poeira antiga.

E, embora Laforet nunca o diga explicitamente, a devastação do regime franquista está em todas as entrelinhas. Está na miséria que se normalizou, na agressividade que se tornou linguagem, na claustrofobia moral, na sensação de que o futuro foi amputado. O romance não precisa mencionar Franco para que o sintamos. Ele está no ar pesado, na cidade cinzenta, na casa que parece sobreviver a um cerco invisível. É o pós‑guerra como estado psicológico. Uma ferida que não se vê, mas que molda tudo.

É aqui que o prefácio de Vargas Llosa funciona como farol. Ele ilumina o que o romance deixa nas sombras, a coragem literária de Laforet, a sua capacidade de captar a verdade emocional de uma época inteira sem recorrer ao discurso político. Vargas Llosa mostra como Nada é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico, pessoal e colectivo e como Andrea encarna uma geração que tenta respirar depois da devastação.

No final, Andrea desce as escadas “com viva emoção”, recordando a esperança com que as subira e percebendo que da casa da rua Aribau “não levava nada consigo”. Lá fora, o ar fresco da manhã e os primeiros raios de sol anunciam a possibilidade de um recomeço.

Para contrariar o Nada que a acompanhou, permaneço na claridade que finalmente se abre e na esperança que ela deixa entrever.





29 abril, 2026

𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓 𝒆 𝑨𝒓𝒎𝒂 𝒄𝒐𝒎 𝑮𝒖𝒊𝒕𝒂𝒓𝒓𝒂 𝑬𝒔𝒑𝒂𝒏𝒉𝒐𝒍𝒂, de Dennis McShade

 


Autor: Dennis McShade (Dinis Machado)
Título: Mulher e Arma com Guitarra Espanhola
N.º de páginas: 159
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Abril 2009
Classificação: Policial 
N.º de Registo: (3297)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Depois de ler Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, reencontrei um Maynard vivo, irónico, culto; um assassino profissional que subverte o estereótipo do criminoso implacável e bem pago.

Maynard move-se como quem conhece o mundo de cor e salteado, mas nunca abdica da sua biblioteca interior. É um assassino profissional implacável que cita, que ouve música, que lê. Um homem que pensa com referências, que observa com ironia, que age com precisão mas nunca sem consciência. Essa erudição improvável, tão pouco vulgar no género, é talvez o que mais me fascina.

E depois há o bar. Aquele bar onde as personagens se apresentam como Zola, Confúcio, Baudelaire, Jane Austen e outros. Um cenário que parece saído de um sonho literário atravessado por cor, fumo, whisky e suspeita. Um jogo de máscaras que transforma o submundo num salão de escritores mortos, como se a literatura estivesse sempre à espreita, mesmo nos lugares onde menos se espera. É um toque de humor finíssimo, quase cúmplice, que revela tanto de McShade como de Maynard. Ambos sabem que a vida é mais suportável quando se olha para ela com livros na cabeça.

A narrativa avança com ritmo, com inteligência, com aquele equilíbrio raro entre acção, subtileza e humor. Maynard não é apenas eficaz; é um homem, como já referi, que pensa, que lê o mundo, que o interpreta. E isso torna-o mais perigoso e temido.

E talvez seja isso que torna o universo Maynard tão singular na literatura portuguesa. Um espaço onde o policial noir se cruza com a cultura, onde a violência convive com a ironia, onde um assassino profissional pode citar música e literatura com a mesma naturalidade com que carrega uma pistola.

Ler Dennis McShade (alter-ego de Dinis Machado) é escolher algo com nervo, humor negro, estranheza boa. É uma leitura fluida e dialógica que te muda o ritmo interno; que te dá aquele prazer de entrar num universo de acção, investigação, mas também de paródia, que tornam o livro mais do que um policial.



26 abril, 2026

𝑹𝒆𝒗𝒐𝒍𝒖çã𝒐, de Hugo Gonçalves

 



Autor: Hugo Gonçalves
Título: Revolução
N.º de páginas: 495
Editora: Companhia das Letras
Edição (4.ª): Maio 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3730)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Revolução é um romance que percorre o antes, o dia e o depois do 25 de Abril, mostrando como a História atravessa vidas concretas e como a liberdade, quando chega, não resolve tudo, apenas muda as perguntas.

No centro do livro está a família Storm, um microcosmo perfeito de Portugal. Três irmãos, três caminhos, três formas de sobreviver ao colapso de um mundo e ao nascimento de outro. Maria Luísa, a resistente clandestina, carrega no corpo e na memória a violência da ditadura. Pureza, a conservadora, vê o seu ideal doméstico ruir com a Revolução. Frederico, o mais novo, procura um lugar num país que muda depressa demais e encontra a fuga na boémia, no álcool e nas drogas, tornando-se talvez a figura mais trágica do romance. É o retrato de uma juventude que, após décadas de repressão, se viu atirada para uma liberdade sem mapa.

Quanto aos pais, depois da Revolução, quando o país se transforma num território de disputas e ocupações, o hotel e a casa onde viviam são tomados, e são obrigados a fugir para o Brasil. Não partem por escolha, mas porque ficaram literalmente sem lugar no país. Esta perda abrupta aprofunda ainda mais as fissuras familiares e ajuda a explicar os caminhos tão distintos que os filhos tomam.

Hugo Gonçalves articula estes destinos individuais com uma escrita directa, fluida e profundamente humana. Há um ritmo quase cinematográfico nas cenas; a linguagem adapta-se às personagens, respira com elas, ilumina-as sem as julgar; é precisa, visual, sensorial, e alterna registos conforme a voz que acompanha, o que dá ao romance uma textura rica e polifónica.

Outro ponto notável é o trabalho de pesquisa. Rigoroso, mas não académico. A ditadura, o 25 de Abril e o PREC entrelaçam-se na vida quotidiana, como se a História fosse uma corrente que atravessa tudo. O leitor sente o medo, a esperança, a vertigem e a desorientação de um país que, de um dia para o outro, passa do silêncio à cacofonia política.

Revolução é um romance que devolve humanidade à História. Mostra que a liberdade é necessária, mas não é simples; que a política atravessa famílias; que nem todos reagem da mesma forma ao fim de um regime (uns lutam, outros resistem, outros fogem e alguns perdem-se); e que, por vezes, a maior revolução é a que acontece dentro de cada um.

Ler Revolução foi, para mim, um duplo prazer, o da narrativa - viva, humana, inquieta - e o da aprendizagem. Cada página recorda-nos que a História não é um capítulo distante, mas algo que continua a pulsar dentro das famílias, das escolhas e das feridas que atravessam gerações. Livros como este ajudam-nos a compreender melhor o país que fomos e o país que ainda estamos a aprender a ser. E é por isso que vale a pena lê-los, porque iluminam, questionam e, sobretudo, aproximam-nos daquilo que realmente importa: a memória, a liberdade e a responsabilidade de as manter vivas.



17 abril, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 

  


          

Ontem, quinta-feira, dia 16, na cafetaria do Centro de Artes, com vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.

Como habitualmente, o encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos sete textos que nos emocionaram e recuperaram memórias de histórias de vida, tendo como protagonistas avós, pais, alunos, mulheres corajosas, colegas, alguns de nós…
 
Para o Clube de leitura, lemos e apresentámos livros infanto-juvenis. Participaram 14 leitores. Foram partilhas ricas, diversificadas, de excelentes descobertas. Foram momentos de aprendizagem e de verdadeiro prazer em descobrir e folhear verdadeiros tesourinhos. 

Não posso deixar de referir uma edição caseira, adaptação do livro Ainda NADA, de Christian Goltz. Um trabalho maravilhoso que reproduz a história, mas com texturas para que invisuais possam desfrutar da história. Foi construído pela nossa Luísa, em contexto de formação. Adorámos comparar as duas obras. 

Como também já é habitual, lemos, sorrimos e maravilhámo-nos. E terminámos convictos que “A açorda é o miolo da nossa alma de coentros” ideia expressa no livro Suão de Vítor Encarnação, com ilustração de Joaquim Rosa.

A literatura tem esse poder!

Para o próximo encontro, vamos ler autores de nacionalidade espanhola. Escolha livre de livro(s) e autor/a.



Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

- A Menina dos Fósforos; de Hans Christian Andersen;
- A Caixinha de Música, de José Jorge Letria;
- O Ouriço-cacheiro espreitou 3 vezes, de Maria Alberta Menéres e António Modesto;
- O Menino que Gritou para Dentro, de Ana Ventura e Alberto Faria;
- O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto e Danuta Wojciechowska ;
- A História Interminável, de Michael Ende;
- A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen
- Os Olhos Grandes da Menina Pequenina, de Ondjaki e Carla Dias;
- A Flecha Negra, de Robert Louis Stevenson;
- Harry Potter, de J. K. Rowling ;
- Pedro Alecrim, de António Mota;
- Na floresta da preguiça, de Sophie Strady, Anouck Boisrobert e Louis Rigaud;
- A Morte Melancólica do Rapaz e Outras Estórias, Tim Burton;
- O Segredo do Sol e da Lua, de Manuela Micaelo e Graça Breia;
- O macaco e o crocodilo e A história da carochinha (edição especial);
- Flicts, de Ziraldo;
- Os Ovos Misteriosos, de Luisa Ducla Soares e Manuela Bacelar;
- Ainda Nada, de Christian Voltz;
- Oliver Twist, de Charles Dickens;
- A Alma Perdida, de OlgaTokarczuk e Joanna Concejo;
- A Guerra, de José Jorge Letria e André Letria;
- Coração de pássaro, de Mar Benegas e Rachel Caiano;
- As casas das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Pequeno livro das coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Coisas que gostam de coisas, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano;
- Suão, de Vítor Encarnação e Joaquim Rosa


16 abril, 2026

A história que Abril abriu

 

(c) GR  Sines, 24 Abril 2024 - Espectáculo Teatro do Mar


A proposta de Maré d’Escrita, deste mês, consiste em escrever uma história que nos tivesse sido narrada. E, porque Abril regressa sempre com a sua luz inquieta, sobretudo nestes tempos sombrios, fui buscar um episódio que me habita há muito.

A história que me contaram começa num sofá em França, no dia 25 de Abril de 1974.

Eu era jovem, guardo ainda uma memória esbatida do instante, lembro o silêncio dos meus pais diante da televisão como se tivessem medo de respirar e desfazer a notícia. Absorviam as palavras do jornalista, as imagens que mostravam tanques, soldados, cravos nos canos das espingardas… Lisboa acordara em liberdade, e os cravos tinham vencido, sem sangue.
Quando a notícia terminou, o meu pai falou, ou melhor, sussurrou, como quem abre finalmente uma ferida antiga:
- Minha filha, esperávamos tanto por isto. Vivemos anos duros, em Portugal. Tínhamos trabalho nas fábricas, sim, mas mal pago. Nunca passámos fome porque sabíamos esticar o nosso dinheirito e a horta e a quinta do avô Agostinho davam-nos o resto. Mas o trabalho consumia-nos. O barulho dos teares deixava-me à beira da loucura, e a tua mãe passava horas dobrada sobre um corte de tecido.
Mas o pior era o medo. Havia olhos e ouvidos por todo o lado. Bufos escondidos em cada esquina. Um amigo nosso foi chamado ao posto da Guarda e voltou espancado, sem saber porquê. Foi aí que percebemos que já não podíamos ficar.

O tio João, que vivia em França, insistira tantas vezes para irmos com ele, mas recusámos sempre, não tínhamos passaporte e não queríamos pô-lo em risco.
Nesse ano, finalmente, cedemos. Depois da violência sobre o nosso amigo, começámos a ponderar. Eu e a tua mãe pensámos em tudo o que o nosso entendimento simples alcançava. Eras pequena e nunca falámos à tua frente, com medo de que, sem querer, deixasses escapar uma palavra.

Em Agosto de 1969, partimos no carro do tio. Foi uma aventura perigosa; atravessámos as fronteiras (Vilar Formoso e Irun/Hendaye) a pé e por caminhos de mato, orientados por um homem que não conhecíamos. Não éramos os únicos…
Quando, de novo no carro, quer em Espanha quer em França, sempre que víamos uma brigada, o coração apertava com receio que nos mandassem parar. Mas chegámos. Chegámos bem. E, mesmo sem sabermos a língua, começámos uma nova vida: escola, trabalho, uma casa. Devemos muito ao tio João e à sua família.

Por isso, esta notícia já não nos toca directamente, mas estou feliz. Muito feliz. Só espero que tudo acabe em bem, no nosso país…

Depois calou-se. Ficou ali, suspenso, com o olhar preso a um lugar que só ele via. Quando, finalmente, se virou para a minha mãe, os dois tinham lágrimas a correr devagar. Abraçámo-nos. Rimos. Chorámos. Como se a liberdade também fosse nossa.

Hoje, passados cinquenta e poucos anos, recordo essa conversa, talvez com falhas, com acrescentos, e sinto que a sombra regressa. Há ruído que confunde, há inocentes que morrem. A ganância volta a vestir-se de autoridade. A mentira volta a parecer verdade.
Estamos a perder a clareza. Estamos a perder a liberdade.

Por tudo isso, é urgente ler - e dar a ler - Saramago, Levi, Anne Frank, Vercors, Wiesel, Kertész, Arendt e tantos outros que nos legaram o seu testemunho. Para que a memória não se apague. Para que a escuridão não avance sem resistência.
Não podemos cair na indiferença.


09 abril, 2026

𝑶 𝑷𝒐𝒅𝒆𝒓 𝒅𝒂 𝑳𝒊𝒕𝒆𝒓𝒂𝒕𝒖𝒓𝒂, de Maria do Carmo Vieira

 


Autora: Maria do Carmo Vieira
Título: O Poder da Literatura
N.º de páginas: 125
Editora: FFMS
Edição: Abril 2025
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3694)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




O Poder da Literatura revela, desde as primeiras páginas, a força que a leitura pode ter quando encontra leitores dispostos a agir. Um dos aspectos mais fascinantes do livro é o relato do trabalho desenvolvido em torno do Café Martinho da Arcada.
A partir da leitura de Fernando Pessoa, um grupo de alunos da Escola Secundária Marquês de Pombal, nos anos 80, descobre naquele café não apenas um cenário biográfico, mas um lugar de memória a exigir cuidado. O livro acompanha o modo como esses jovens, inicialmente distantes da poesia, se envolvem numa verdadeira cruzada cívica: organizam um abaixo-assinado, criam a APAMA – Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, promovem um concurso internacional de arquitectura e mobilizam esforços para impedir a descaracterização do espaço.
Este percurso mostra como a literatura pode sair do livro, atravessar a sala de aula e inscrever-se na cidade, convertendo um gesto de leitura numa forma de cuidado cívico.

O Martinho da Arcada surge, assim, não apenas como cenário pessoano, mas como um lugar onde memória, identidade e pertença se entrelaçam. Ao acompanhar o empenho dos alunos na defesa daquele espaço, Maria do Carmo Vieira mostra como a literatura pode despertar um sentido de responsabilidade cultural que vai muito além do cumprimento do programa. A mobilização que estes jovens conseguiram é, aliás, notável: figuras da política, do meio artístico, do universo educativo e muitas pessoas anónimas juntaram-se à causa, reconhecendo no café um símbolo que merecia ser preservado. O Martinho torna-se, deste modo, um território simbólico, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a voz de Pessoa e a voz dos jovens que o redescobrem. E a intervenção dos alunos revela que a leitura, quando verdadeiramente vivida, é capaz de gerar cuidado, mobilização e continuidade.

No centro de O Poder da Literatura está também a figura de Maria do Carmo Vieira, uma professora cuja presença pedagógica ultrapassa largamente o espaço da sala de aula. O livro revela uma docente que alia conhecimento profundo, entusiasmo contagiante e uma empatia firme, capaz de transformar alunos que, à partida, não gostavam de Português, de poesia ou de Fernando Pessoa. A sua prática pedagógica assenta na convicção de que a literatura pode despertar, orientar e mobilizar. E é essa confiança no poder formativo dos textos que permite que os alunos se aproximem da leitura não como obrigação escolar, mas como descoberta pessoal e caminho de pertença.
A força do seu ensino reside numa combinação rara de rigor e afecto. Maria do Carmo Vieira não simplifica os textos para os tornar “acessíveis”; convida os alunos a subir até eles, confiando na sua capacidade de sentir e pensar. Essa exigência, temperada por uma atenção genuína às fragilidades e potencialidades de cada um, cria um ambiente onde a leitura deixa de ser um exercício escolar e ganha espessura interior. A professora não impõe entusiasmo: contagia-o. E é nesse gesto, simultaneamente intelectual e humano, que se percebe como conseguiu transformar alunos inicialmente distantes da literatura em leitores atentos, curiosos e capazes de reconhecer na palavra poética uma forma de se aproximarem do mundo.

Há, contudo, no livro, uma afirmação que merece ser interrogada: a ideia de que “todo o professor de Português gosta de ler”. Maria do Carmo Vieira formula-a a partir da sua própria ética profissional, onde a leitura é um gesto vital e quotidiano. Mas a minha leitura levou-me a suspender essa generalização. A experiência escolar mostra que nem todos os docentes cultivam uma relação viva com os livros, e que o gosto pela leitura não é um atributo automático da profissão, mas uma prática que exige dedicação, curiosidade e disponibilidade interior. É precisamente por isso que o exemplo da autora se destaca. porque. O ponto de interrogação que deixei nas margens do livro não diminui a força da sua afirmação; antes sublinha a singularidade da sua presença pedagógica.

O Poder da Literatura é, no fundo, a demonstração concreta de que a leitura pode transformar pessoas e lugares quando encontra mediadores verdadeiros. A luta pelo Martinho da Arcada, a mobilização inesperada de alunos e de toda uma comunidade, e a presença luminosa de Maria do Carmo Vieira revelam como a literatura, quando ensinada com autenticidade, ultrapassa o espaço escolar e inscreve-se na vida. Ao apresentar a ideia de que todos os professores de Português gostam de ler, o livro convida também a pensar sobre o que significa ensinar literatura hoje. Não basta transmitir conteúdos e “formatar” para os exames, é necessário criar condições para que a palavra literária se torne experiência, descoberta e responsabilidade.
A força deste livro reside em mostrar que a literatura continua a ser um lugar onde o mundo se pode reencontrar. E que mundo maravilhoso!


06 abril, 2026

𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: O Que A Chama iluminou
N.º de páginas: 136
Editora: Companhia das Letras
Edição: Dezembro 2024
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3664)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é um livro que nasce de uma experiência-limite vivida por Afonso Cruz no Chile aquando dos protestos de 2019. Durante uma perseguição em Santiago, o autor escreve: “É desse lugar, em que a morte nos espreitava através do vidro escuro de um blindado, que quero escrever este livro. Dali, onde estava com R., suspenso entre a vida e a morte (…). Este livro nasce de um beco.” (p. 28). É a partir desse quase fim que o livro se abre para uma reflexão mais vasta sobre todos os fins que atravessam a existência.

A experiência pessoal funciona como detonador, mas Cruz não se encerra nela. Pelo contrário: amplia-a, desdobra-a, coloca-a em diálogo com outras formas de desaparecimento. O livro convoca o fim do amor, quando se perde o amado, o marido, o filho; o fim das palavras, quando a linguagem se gasta e já não nomeia; o fim dos povos indígenas, cuja cultura se esbate como poeira ao vento; o fim dos filhos e dos maridos desaparecidos, que as mulheres de Calama procuram com uma persistência que é, ao mesmo tempo, luto e resistência. Cada uma destas formas de fim é iluminada pela mesma chama: a consciência de que tudo é transitório, mas nada se perde totalmente. Até porque como o autor lembra “o fim pode também ser um princípio ou um recomeço (…). (p. 44)

Afonso Cruz cita vários autores que alimentam a ideia de que o fim de algo está na origem da beleza, da poesia, da arte em geral. Segundo Vicente Verdú “ O vazio é o principal luxo da arte (…) A negação, a dor, o mal, o vazio são eminentes criadores. Altamente ativos.” Estas referências surgem como parte de uma reflexão que se quer ampla e dialogante.

Em vários textos, Cruz recupera a ideia primordial de que somos feitos de pó e ao pó regressaremos, não como ruína, mas como continuidade. É aquilo que permanece quando a forma desaparece. O pó revela que o fim não é interrupção, mas transformação. Esta visão, profundamente serena, afasta o livro de qualquer sombra de medo. A morte não surge como ameaça, mas como claridade.
Outro elemento decisivo e que muito me agradou é a erudição do autor, que se manifesta nas citações, nos exemplos convocados, nas vozes que entram no texto como companheiras de pensamento. As referências funcionam como velas que iluminam diferentes ângulos da mesma questão seja ela filosófica, histórica, científica, poética e ampliam a experiência vivida.

O resultado é uma obra de não ficção que se lê avidamente. A escrita, depurada e aforística, agarra o leitor. Há silêncio entre as frases, entre os textos; há contenção; há uma serenidade que surpreende. Mesmo quando fala da morte, Cruz escreve com lucidez. A chama ilumina o fim, sim, mas ilumina também o que fica, o que continua: a memória, o gesto, o amor, a matéria que se transforma... “(…) todos morremos, mas de que lado da morte queremos estar?” (p. 130)

𝑶 𝑸𝒖𝒆 𝑨 𝑪𝒉𝒂𝒎𝒂 𝒊𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒐𝒖 é, por isso, um livro sobre o fim, mas também sobre a esperança. É um livro que nasce de um beco, mas abre-se para uma luz maior. Afonso Cruz oferece-nos uma reflexão íntima e universal, pessoal e ética, que transforma o susto em claridade e o desaparecimento em luz.


02 abril, 2026

𝑨 𝑨𝒍𝒎𝒂 𝑷𝒆𝒓𝒅𝒊𝒅𝒂, de Olga Tokarczuk e Joanna Concejo

 


Autora: Olga Tokarczuk
Título: A Alma Perdida
Ilustradora: Joanna Concejo
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
N.º de páginas: 48
Editora: Fábula
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3765)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O texto conciso de Olga Tokarczuk, laureada com o Prémio Nobel da Literatura (2019), alia-se às ilustrações maravilhosas de Joanna Concejo para tornar A Alma Perdida num livro maravilhoso, com uma história apaixonante e silenciosa. Em Portugal, o livro está classificado como literatura infanto-juvenil, mas eu diria que é para todas as idades e tenho dúvidas que os mais jovens captem a verdadeira essência da obra.

Na epígrafe, destaca-se esta passagem: “Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm, atrasadas, as suas almas perdidas...”, uma mensagem que nos acompanha ao longo da leitura, como uma sombra.

O texto é muito curto, pelo que são as ilustrações que expandem a narrativa e lhe transmitem profundidade; acrescentam sentido e convidam à reflexão.

São fragmentos de uma espera, de uma alma que precisa de tempo para reencontrar o corpo. Cada página é uma pausa, uma respiração, uma janela entreaberta para o tempo interior, para as memórias.

É um livro que nos obriga a reflectir sobre a forma agitada como vivemos. Sobre o que deixamos para trás quando corremos sem pausa. A Alma Perdida não nos pede pressa, pede presença, contemplação. E ao folheá-lo, percebemos que há uma parte de nós que ficou sentada numa cadeira, tal como Jan, à espera que a outra parte volte com tempo e disposição para desfrutar as coisas simples da vida.



31 março, 2026

𝑨 𝑽𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒔𝒕𝒍𝒆 𝑹𝒐𝒄𝒌, de Alice Munro

 

Autora: Alice Munro
Título:A Vista de Castle Rock
Tradutor: José Miguel Silva
N.º de páginas: 279
Editora: Relógio d'Água
Edição (3.ª): Outubro 2013
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3774)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Alice Munro, laureada com o Prémio Nobel da Literatura (2013), oferece neste livro uma travessia entre memória e ficção, onde o passado familiar se entrelaça com a paisagem emocional da sua própria vida. 𝑨 𝑽𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒔𝒕𝒍𝒆 𝑹𝒐𝒄𝒌, embora composto por contos, tem uma coerência interna que lhe confere a aparência de um romance fragmentado e autobiográfico. 

A escrita de Munro é profundamente descritiva, mas nunca decorativa. As paisagens, as casas, os gestos mínimos dos personagens, tudo é revelado com uma precisão que nos faz sentir o cheiro da madeira húmida, o silêncio das dificuldades, o peso das escolhas. A autora não explica. Confia no leitor e deixa entrever o que vive nas entrelinhas do texto.

A primeira parte do livro acompanha os antepassados escoceses da autora, numa travessia marcada pela pobreza, pela esperança e pela dureza da emigração. A segunda parte mergulha na vida da própria Munro, com episódios de infância, juventude e maturidade que se revelam com uma honestidade contida e uma ironia subtil. A fronteira entre o real e o ficcional dissolve-se, como se a memória fosse uma paisagem que se redesenha a cada leitura.

Munro escreve a partir da sua própria memória, mas também escuta os ecos deixados por outros. Para compor este livro, recorreu a textos, cartas e fragmentos escritos por parentes seus, como se a história familiar fosse uma tapeçaria em que cada fio, mesmo antigo, pudesse ser entretecido com a sua voz. O resultado é uma narrativa que respira com múltiplas vozes, onde o íntimo e o ancestral se encontram.

A tradução de José Miguel Silva oferece uma leitura fluida e luminosa, em sintonia com a delicadeza da escrita de Munro. Entre fragmentos da memória e a luz da descoberta, a autora desenha caminhos sobre o passado e convida-nos a entrar.

E quando saímos, levamos connosco a vontade de voltar. De abrir outro livro, outra janela, e deixar que a luz continue.

29 março, 2026

28 março, 2026

Flores de Cerejeira

 



Flores de Cerejeira

flores de cerejeira
cinco ou seis 𝒍𝒊 caminhei por dia
à vossa procura


flores de cerejeira no céu escuro
e entre elas a melancolia
quase a florir


usando o meu leque como taça
pretendo beber
debaixo das cerejeiras em flor



Matsuo Bashô [1644 - 1694]
𝑫𝒊á𝒓𝒊𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝑽𝒊𝒂𝒈𝒆𝒎
Versões e introdução de Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim, 2026

in Revista LER OUT/NOV | 2025/26