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13 abril, 2024

Dia do Beijo - Horas Rubras

                                                        
                                                 Man Ray | o Beijo | 1922




Horas Rubras 

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade


06 setembro, 2023

Leio o amor

 

                                       ©  Man Ray - Primacy of Matter over Thought (1929)





Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice



13 abril, 2023

Dia do Beijo


O beijo 

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, In Antologia Poética




        Henri Cartier Bresson                              Man Ray                                    Robert Doisneau


27 setembro, 2022

Silêncios!

 

   
                                                            @Man Ray – An Other Body

(...)

sabes por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado o teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
(...)


Al Berto, O Medo - Carta da Flor do Sol (a meu amigo)


07 janeiro, 2010

Longe do Olhar dos Outros


Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio. Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte. Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu. Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecemo-nos. Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem. Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade. Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.

Al Berto, in O Anjo Mudo

29 abril, 2008

Man Ray

La femme endormie

Le Violon D´Ingres - 1924,


Man Ray EUA, Filadélfia, 1890 - França, Paris, 1976

"A natureza não cria obras de arte. Somos nós, com a peculiar capacidade de interpretação do cérebro humano, que vemos arte". Man Ray

Man Ray - pseudónimo de Emmanuel Rudnitzky, formado por duas pequenas sílabas, que significam homem (man), e raio (ray) de luz ou de sol.

Antes de se estabelecer em Paris, onde desembarcou em 14 de Julho de 1921, Man Ray já era uma figura de primeiro plano do Dadaísmo, em Nova Iorque. Toda a sua obra tem profundas ligações com o movimento Dada e com o Surrealismo, tendo participado nas mais importantes exposições destes movimentos artísticos da 1ª metade do século XX. Foi um dos fotógrafos mais importantes do século XX, mas também pintor e realizador cinematográfico.

Nas suas fotografias podem-se destacar várias linhas de força, como o jogo de luz-sombra, visível em quase toda a sua obra.

Fotografou também com especial interesse, quer a natureza quer o meio urbano, com destaque para a sua cidade adoptiva, Paris, e o mundo da moda. Além de ter sido um artista com notáveis capacidades de observação e composição, Man Ray desenvolveu um grande trabalho de laboratório, aprofundando e desenvolvendo técnicas fotográficas.

Artista multifacetado e vanguardista procurou ultrapassar as fronteiras disciplinares, e as tendências puristas da época.

A mulher que dá corpo à fotomontagem do violino é KiKi de Montparnasse (nome artístico, musa na Paris Vanguardista, pousou para vários pintores: Picasso, Modigliani, Kisling, Matisse, entre outros.