Autor: Afonso Reis Cabral
Título: O Último Avô
N.º de páginas: 284
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3743)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Terminada a leitura de O Último Avô, fiquei com a sensação de ter lido o romance mais conseguido de Afonso Reis Cabral. Se os seus livros anteriores já evidenciavam a capacidade de observar as fragilidades humanas, é neste romance que essa maturidade se manifesta de forma mais plena. A estrutura revela-se especialmente eficaz, articulando diferentes planos temporais e emocionais, permitindo que a história avance ao ritmo da memória e das revelações.
Uma das grandes forças do romance reside nas suas múltiplas camadas de leitura. À superfície encontramos uma história familiar marcada pelos afectos, pelas ausências e pelos silêncios que atravessam gerações. O trauma da Guerra Colonial percorre o livro como uma presença persistente, enquanto facto histórico e sobretudo como uma herança invisível que continua a repercutir-se naqueles que a viveram e nos seus descendentes.
Ao mesmo tempo, Afonso Reis Cabral explora a complexidade dos laços familiares, mostrando que o amor raramente se exprime de forma linear. Os gestos, as ausências, as palavras não ditas e os ressentimentos acumulados compõem um mosaico afectivo de grande autenticidade.
O "último avô" do título ultrapassa a dimensão individual e transforma-se num símbolo daquilo que uma geração transmite à seguinte. O neto não herda só uma memória familiar, mas também a capacidade de escrever. Entre ambos estabelece-se uma verdadeira herança literária. Se o avô, escritor consagrado, transporta uma história que nunca conseguiu escrever, o neto recebe essa vocação, tornando-se depositário de uma memória que procura forma e sentido. A escrita surge então como possibilidade de dar voz ao que permaneceu em silêncio e de preservar aquilo que o tempo ameaça apagar.
Escrever torna-se, assim, um acto de resgate. Afonso Reis Cabral faz da literatura um lugar de encontro entre gerações, onde as histórias podem finalmente encontrar quem as conte.
É nesta conjugação entre história colectiva, intimidade familiar, meditação sobre a morte e consciência literária que reside a riqueza do romance. Afonso Reis Cabral constrói uma narrativa profundamente humana. A qualidade da escrita, a consistência da estrutura e a densidade das questões que levanta fazem de O Último Avô uma obra que permanece no leitor muito para além da última página.



