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14 julho, 2026

𝑳𝒂𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒂, de Ana Cláudia Santos

 

Autora: Ana Cláudia Santos 
Título: Lavores de Ana
N.º de páginas: 122
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐



A novela Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, prende o leitor pela forma como retrata a aventura de mudar de país. Acompanhar a protagonista em Nápoles, a lidar com um dialecto difícil e com os choques do quotidiano, é um processo muito autêntico. A cena inicial com ela trancada na varanda dita um tom divertido e humano que anuncia um enredo dinâmico.

O ponto mais original da obra é a forma como a profissão da protagonista molda o seu modo de pensar. Sendo tradutora, não traduz apenas livros; passa o tempo a tentar “traduzir” as pessoas, os gestos e as manias dos outros. E traduz também as suas paixões humanas, reveladas nas relações amorosas com Enzo e Marco. Cada encontro funciona como um exercício de interpretação, uma tentativa de decifrar intenções, silêncios e impulsos com a mesma minúcia que aplica a um texto.

A divisão invulgar dos capítulos — OUVIDO, LÍNGUA, MÃO, SOPRO e VOZ — reforça esta leitura. Estão profundamente ligados à forma como ela vive a juventude em liberdade, em rebeldia, em experimentação. E são também instrumentos da tradução. Ouvir o mundo novo, arriscar a fala, escrever noutra língua, respirar fora do lugar de origem, encontrar uma voz própria. A protagonista organiza a vida por estes eixos, como se cada um fosse uma forma de se situar e de transformar o que vive.
Sendo a minha primeira experiência com a autora, a escrita deixou-me uma boa impressão. É limpa e directa, o que torna a leitura fluída. Ainda assim, o livro deixa um sabor agridoce. Na minha opinião, falta-lhe uma faísca emocional. Convence, mas não chega a apaixonar.

Recomendo a leitura pela leveza e pela escrita cuidada, embora não seja um livro para leitores muito exigentes. Quem procura algo que ultrapasse a narração de uma estada em Nápoles, o choque cultural e a juventude fértil em paixões poderá sentir alguma frustração. Anos mais tarde, já casada, a protagonista regressa à cidade, trazendo consigo uma experiência íntima que marca silenciosamente a vida adulta. Esse retorno ilumina a distância entre a leveza da juventude e a vida adulta que entretanto se consolidou. A cidade torna-se memória, e essa consciência dá ao final uma melancolia mais acentuada.



25 março, 2026

𝑷𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒐-𝒂𝒍𝒎𝒐ç𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒎𝒑𝒆õ𝒆𝒔, de Kurt Vonnegut

 


Autor: Kurt Vonnegut
Título: Pequeno-Almoço de Campeões
Tradutor: Miguel Cardoso
N.º de páginas: 337
Editora: Alfaguara
Edição: Outubro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3776)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐ 



Kurt Vonnegut escreve sobre as suas obsessões como quem desmonta o mundo para revelar o que nele há de mais absurdo. Em Pequeno-almoço de Campeões, essa desmontagem transforma-se numa sátira feroz à sociedade norte-americana, ao consumo, à guerra, ao sexo, ao racismo, à política, à loucura, à própria ideia de liberdade, à literatura. “E por aí fora.” Tudo dito com um humor tão simples que chega a ser cruel.

O momento mais desconcertante e, talvez, o mais luminoso surge quando o autor entra no livro e se assume como o Criador absoluto das suas personagens. Vonnegut fala com Kilgore Trout, o protagonista e autor de ficção científica, manipula-lhe o destino e oferece-lhe aquilo que nenhuma personagem espera receber do seu autor: a liberdade. Um gesto tão absurdo quanto comovente, que transforma a sátira numa reflexão sobre responsabilidade, criação e culpa.

Ao longo do romance, o racismo é exposto sem filtros, como uma engrenagem estrutural da sociedade norte-americana, tão banalizada que só o olhar mordaz de Vonnegut consegue torná-la visível, quiçá risível. Ele mostra o ridículo e o horror lado a lado, com uma subtileza impiedosa que delicia e irrita o leitor. Os desenhos que pontuam o livro, simples, quase infantis, reforçam esse absurdo. Muitos são tão óbvios que se tornam desarmantes, como se Vonnegut quisesse lembrar-nos, a cada página, que a sátira também pode ser desenhada com a inocência de um rabisco.

Terminei a leitura com a sensação de ter atravessado um território desconcertante, onde cada página me puxava o tapete com humor, ferocidade e uma certa vontade de me perguntar por que raio continuo a ler estas coisas. Ainda estou a tentar perceber se compreendi tudo ou se é precisamente essa dúvida que o livro quer deixar. Talvez seja essa a sua maior força, obrigar-nos a continuar a pensar nele, a desmontá-lo, a desconfiar das respostas fáceis. “E por aí fora”.


06 fevereiro, 2026

𝑨𝒔𝒔𝒊𝒎 𝑳𝒉𝒆𝒔 𝑭𝒂𝒛𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒂 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Joseph Andras

 


Autor: Joseph Andras 
Título: Assim Lhes Fazemos a Guerra
Tradutor: Luís Leitão
N.º de páginas: 108
Editora: Antígona
Edição: Abril 2022
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3772)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Joseph Andras é um caso singular na literatura contemporânea. Segundo a breve pesquisa que registei, recusa prémios (Prix Goncourt 2016 e Prix Maya 2022), recusa fotografias, recusa a maquinaria da consagração. Escreve na sombra, com pseudónimo, quase clandestino, e talvez por isso a sua voz seja tão livre. Pouco conhecido do grande público, tornou‑se, no entanto, uma das consciências éticas mais intensas da literatura francesa.

Andras funde rigor documental e sensibilidade pelo que a sua escrita é de uma precisão admirável e de uma prosa poética, feita de frases tensas e contidas, que afasta o sentimentalismo e o espectáculo da dor. Há nela uma ética do olhar, firme, lúcida, sem adornos e uma economia verbal que questiona o conceito de progresso científico, da exploração animal e das minorias e que aproxima o leitor dos factos com uma lucidez quase física.

Em Assim Lhes Fazemos a Guerra, Andras constrói um tríptico a partir de três acontecimentos reais, separados por mais de um século e por três geografias distintas (Londres, Califórnia, Charleville). Cada painel acompanha um animal colocado no centro de práticas humanas que raramente são questionadas, mas que aqui surgem expostas na sua dimensão ética. Sem revelar o que sucede em cada caso, basta dizer que o autor convoca episódios documentados que atravessam laboratórios, instituições e sistemas de produção, e que os inscreve na história dos movimentos de libertação animal, que há mais de um século denunciam esta violência normalizada.

E há um detalhe que retive no terceiro painel. Andras convoca Rimbaud, porque a acção decorre em Charleville, a cidade natal do poeta, e evoca a forma como ele morreu, como se essa memória iluminasse o que está em jogo no episódio.
A metáfora é de Andras, mas ressoou em mim, porque também Rimbaud sentiu a urgência da fuga, a recusa do destino imposto. Há nessa coincidência uma pequena rebelião poética, um lampejo de liberdade no meio da violência banalizada.


30 dezembro, 2025

𝑨 𝑰𝒏𝒔𝒖𝒔𝒕𝒆𝒏𝒕á𝒗𝒆𝒍 𝑳𝒆𝒗𝒆𝒛𝒂 𝒅𝒐 𝑺𝒆𝒓, de Milan Kundera

 

Autor: Milan Kundera
Título: A Insustentável Leveza do Ser
Tradutora: Joana Varela
N.º de páginas: 364
Editora: D. Quixote
Edição: 1985
Classificação: Romance
N.º de Registo: (341)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Da primeira leitura de A Insustentável Leveza do Ser, no final dos anos 80, resta-me sobretudo uma impressão difusa - a sensação de um país oprimido, a sombra da ocupação soviética, a fragilidade das vidas atravessadas pelo medo. Talvez porque Portugal ainda guardava, então, a memória fresca do Estado Novo, reconheci naquele romance um eco íntimo, quase familiar. Da história das personagens, recordo apenas lampejos — a infidelidade, a inquietação, a procura de sentido. Hoje, ao regressar ao livro, descubro não a leitura antiga, mas a distância que me separa dela. E é a partir desse novo lugar que volto a entrar no universo de Kundera.

O primeiro plano que se revela é o ficcional - a teia de vidas que Kundera constrói com aparente leveza, mas onde cada gesto tem um peso inesperado. Tomas e Tereza encontram‑se graças a uma cadeia de seis acasos improváveis — seis pequenas coincidências que, somadas, alteram o rumo das suas existências. O acaso, aqui, não é mero artifício narrativo, é uma força fundadora. Se um único desses momentos tivesse falhado, nada teria acontecido. Tomas, que sempre procurou a leveza, vê‑se arrastado para o peso de uma relação que não planeou. Tereza, frágil e luminosa, torna‑se o centro de gravidade da sua vida. O amor nasce dessa improbabilidade radical e, talvez, por isso, brilhe com uma beleza tão vulnerável.

Sabina e Franz completam este quadrilátero existencial. Sabina encarna a leveza absoluta, aquela que se recusa a ser fixada. A traição é o seu princípio vital. Trair a família, a pátria, os códigos da arte, os amantes, as expectativas. Esse gesto de ruptura é o motor que a faz viver e vibrar. Por isso, quando Franz decide divorciar‑se e viver com ela, Sabina parte. O gesto dele, pensado como prova de amor, transforma‑se para ela numa ameaça: a cristalização. Sem a possibilidade de trair, Sabina sufoca. A fuga torna‑se inevitável — não por falta de afecto, mas porque a fidelidade a aprisionaria numa trama que ela recusa.

Franz, por contraste, precisa de causas para existir. Procura sentido em missões maiores do que ele, em gestos que o liguem a uma ideia de mundo mais justa. A sua relação com Sabina é um desencontro perfeito. Ele procura compromisso, ela procura fuga; ele quer transformar o mundo, ela quer escapar às suas armadilhas. O seu destino trágico revela como o peso pode ser tão destrutivo quanto a leveza.

Sob este plano íntimo, ergue‑se a dimensão política, que neste meu regresso ao romance se impõe com uma nitidez mais dura. A Primavera de Praga, a invasão soviética, os interrogatórios, a vigilância — tudo isto deixa de ser cenário e torna‑se força que molda vidas. A política infiltra‑se no quotidiano, condiciona escolhas, destrói carreiras, humilha corpos. E surge a ideia do exílio — não apenas o exílio físico, mas o exílio interior, o exílio da própria vida. Tomas e Tereza experimentam essa deslocação forçada, essa sensação de serem expulsos do seu lugar natural, tal como tantos portugueses viveram durante o Estado Novo: o exílio político, o exílio económico, o exílio moral de quem não podia dizer, escrever ou viver plenamente. A Checoslováquia de Kundera e o Portugal da ditadura partilham essa ferida: a de obrigar os seus cidadãos a viverem longe de si mesmos.

Mas é na dimensão filosófica que o romance se abre de forma mais surpreendente. Kundera não se limita a narrar, pensa, comenta, interrompe, interpela. A reflexão sobre o peso e a leveza, inspirada em Nietzsche, atravessa toda a obra e transforma‑se numa espécie de bússola existencial. O autor questiona o acaso, a necessidade, o eterno retorno, a responsabilidade, o corpo, a alma, … e fá‑lo sempre em diálogo com o leitor. Esta voz que se aproxima e se afasta, que observa e interroga, revela a verdadeira arquitectura do romance. Não é apenas uma história, mas uma meditação sobre o que significa existir num mundo onde cada gesto é irrepetível.

As três dimensões — ficcional, política e filosófica — não se sobrepõem, entrelaçam‑se. A ficção dá corpo às ideias; a política dá destino às personagens; a filosofia dá sentido ao movimento. Tomas e Sabina movem‑se na leveza, mas descobrem que ela também pesa. Tereza e Franz procuram o peso, mas descobrem que ele também oprime. É neste jogo de tensões que o romance respira, e é nele que a leitura encontra a sua profundidade.

Ao revisitar estas camadas, percebo que a releitura não substitui a leitura antiga, dialoga com ela. A memória esbatida de 1987/88 torna‑se parte da experiência actual, como uma sombra que acompanha o texto. E talvez seja essa a verdadeira leveza do romance, ou seja, a capacidade de se transformar connosco, de revelar novas camadas à medida que a vida nos acrescenta peso e nos devolve, paradoxalmente, outra forma de leveza.

E talvez seja também por isso que este romance continua tão actual. A história que Kundera narra — a de um país invadido, de vidas esmagadas por forças externas, de uma soberania violada — não pertence apenas ao passado. Hoje, voltamos a assistir à ocupação ilegal de territórios, ao desrespeito pela auto determinação dos povos, à repetição inquietante de gestos que julgávamos confinados aos livros de história. A leitura deste romance torna‑se, assim, um espelho perturbador porque nos lembra que a história não avança em linha recta e que a liberdade, quando não é devidamente defendida, pode ser novamente perdida.

No fim, resta‑me apenas acompanhar Kundera nesse gesto de interrogação. Ele oferece respostas possíveis, mas nunca definitivas. Assim, deixo ao futuro leitor algumas perguntas que o romance levanta e que cada um terá de responder a partir da sua própria vida:

· O acaso que nos conduz é apenas um desvio fortuito ou a forma mais subtil de destino?

· A leveza é uma forma de liberdade ou apenas outra maneira de fugir ao peso inevitável das escolhas?

· A fidelidade é um valor ou uma prisão — e a traição, será ruptura ou uma forma de verdade íntima?


30 outubro, 2025

𝑵ã𝒐 𝒇𝒐𝒔𝒔𝒆𝒎 𝒂𝒔 𝒔í𝒍𝒂𝒃𝒂𝒔 𝒅𝒐 𝒔á𝒃𝒂𝒅𝒐, de Mariana Salomão Carrara

 


Autora: Mariana Salomão Carrara
Título: Não fossem as sílabas do sábado
N.º de páginas: 171
Editora: Companhia das Letras
Edição (2.ª): Janeiro 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3746)



OPINIÃO ⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam com delicadeza, sem exigir entusiasmo imediato. Não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, é um desses gestos literários que se oferecem mais como escuta do que como deslumbramento. A narrativa, marcada pelo luto e pela maternidade em estado de suspensão, convoca o silêncio como matéria poética — mas fá-lo com contenção, e por vezes com uma opacidade que mantém o leitor em observação mais do que em envolvimento.

A protagonista, Ana, vive aprisionada numa meia hora que dura nove anos (p. 11). A tragédia que a atravessa não é apenas um acontecimento, é uma distorção do tempo, uma ferida que se prolonga em cada gesto quotidiano. A filha, nascida órfã, torna-se o centro de uma maternidade vivida entre o cuidado e a apatia. A maternidade, aqui, é sobretudo resistência, mas também cansaço.

Outro eixo que merece atenção é a amizade entre Ana e Madalena — uma relação marcada por uma certa anormalidade, ou talvez por uma necessidade extrema de companhia. Madalena surge como figura de apoio, mas também como espelho de um desamparo que não se resolve. Há momentos em que a presença de Madalena parece quase invasiva, como se ocupasse espaços que Ana não consegue delimitar. A amizade entre ambas não se constrói sobre afinidade, mas sobre ausência e solidão — e isso torna o vínculo inquietante. No entanto, essa convivência, inicialmente estranha, acaba por se impor. No final, percebemos que Ana e Madalena partilharam doze anos de vida — uma amizade que resiste, mesmo sem ternura evidente, como gesto de sobrevivência mútua.

A escrita de Carrara é lapidada com precisão. É delicada. Há frases que brilham como sílabas soltas no escuro, “A barriga imensa que eu temia que estivesse absorvendo toda aquela tristeza e minha filha nasceria feito um saco de melancolia, o que eu acho que talvez tenha de fato acontecido porque a Catarina tem os olhos cheios de tragédia.” (p. 44). No entanto, a fragmentação inerente ao fluxo das memórias desordenadas pode dificultar a imersão.
A leitura convida à escuta silenciosa, mais do que à entrega emocional. Há beleza, mas também distância.

Em diálogo com obras como O ano do pensamento mágico, de Joan Didion, percebe-se que Carrara opta por aceitar o desamparo sem querer decifrá-lo, enquanto Didion tenta compreendê-lo com precisão racional. Se Didion escreve para controlar o incontrolável, Carrara escreve para permanecer suspensa no tempo, no desamparo.

Esta apreciação nasce de uma leitura contida, mas significativa. Um gesto que reconhece o valor da contenção, da linguagem como abrigo, e da escuta como forma de estar com o texto. Não fossem as sílabas do sábado é um livro que se aproxima devagar, exige respeito e atenção.




04 agosto, 2025

𝑨 𝑷𝒆𝒅𝒊𝒂𝒕𝒓𝒂, de Andréa Del Fuego

 


Título: A Pediatra
N.º de páginas: 203
Editora: Companhia das Letras
Edição (3.ª): Abril 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3716)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐





A Pediatra é um romance que se destaca pela abordagem provocadora e intensa que desafia o convencional sobre a maternidade e o papel da mulher na medicina e no casamento.

Ao construir uma protagonista segura e desconcertante que rejeita os papéis tradicionais atribuídos às mulheres, sobretudo o da maternidade, a autora tece uma crítica às estruturas sociais que ditam os padrões aceitáveis de uma sociedade ainda patriarcal.

Cecília, sem problemas financeiros e habituada a um conforto aburguesado, acaba com um casamento sem afecto, vive uma sexualidade plena e evita compromissos emocionais; como pediatra neonatalogista mantém um consultório com sucesso, faz parcerias com uma colega obstetra no hospital, apesar de afirmar que “detesta crianças”.

Cecília revela-se competente e pragmática, mas afasta qualquer vínculo afectivo sendo julgada, pelos seus pares, como uma pessoa fria e cínica. “O afeto é uma doença contagiosa. Prefiro manter distância.”
O romance centra-se em duas visões da prática médica: a de Cecília, racional e distante, e a de um novo pediatra adepto de práticas alternativas e acolhedoras.
A chegada deste causa-lhe alguma instabilidade profissional, na medida em que perde pacientes, mas não altera em nada a sua postura e as suas convicções.

Na minha opinião, Cecília usa a rejeição à maternidade como uma armadura. Ela constrói uma vida onde a racionalidade e o auto-domínio são os seus pontos fortes. A frieza com que trata os pacientes, mães e crianças, e a distância emocional que mantém com os seus próximos, parecem esconder algo mais vulnerável. Isto fica claro quando ela se envolve com Bruninho, o filho do amante. A sua relação com a criança escapa ao seu controle e surge uma empatia inesperada, mas não resolvida. Ela não sabe reagir com os sentimentos que a invadem e que escapam à sua lógica fria e insensível. Pelo que a sua aversão é uma defesa, mas não uma essência.

Cecília, provavelmente, não odeia as crianças — talvez ela odeie os papéis que lhe são impostos como mulher. A maternidade é encarada por Cecília como uma vontade pessoal, sem imposição. Nem toda a mulher quer ser mãe.

A narrativa feita na primeira pessoa, com um ritmo acelerado e cínico, pretende, da mesma forma, afastar o leitor emocionalmente, o que reforça a ideia de que há algo reprimido. Ao longo do romance, vamos detectando camadas complexas que causam algum desconforto:
Cecília é uma mulher, médica, bem-sucedida, mas sem qualquer traço de empatia ou de afecto; ela desmonta o arquétipo da mulher cuidadora, recusando o papel de mãe, de esposa, de profissional; ela promove uma sexualidade livre, crua e sem culpa, o que contraria a moral tradicional e a sua atitude final é completamente desconcertante.

Será que é Cecília que está errada ou é a sociedade com as suas imposições?
Convido-vos a descobrir esta personagem tão segura quanto frágil, tão detestável quanto sedutora.



08 julho, 2025

𝑶 𝑬𝒙é𝒓𝒄𝒊𝒕𝒐 𝑰𝒍𝒖𝒎𝒊𝒏𝒂𝒅𝒐, de David Toscana

 

Autor: David Toscana
Título: O Exército Iluminado
Tradutora: Helena Pitta
N.º de páginas: 180
Editora: Parsifal
Edição: Outubro 2014
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3718)





OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em O Exército Iluminado, David Toscana, pelo viés de uma visão quixotesca, tece uma metáfora do patriotismo, do nacionalismo ferido.
É uma narrativa ousada e provocadora plena de ironia e emoção que transforma os fracassos em heroísmo e o absurdo em beleza.

Ignacio Matus, protagonista e motor da narrativa, é um professor ressentido e obcecado por perdas importantes: do território do Texas para os Estados Unidos e pela medalha de bronze de maratonista que alega ter-lhe sido roubada por um atleta norte-americano, Clarence DeMar, nas Olimpíadas de Paris, em 1924.
Matus é expulso da escola onde lecciona, por insistir, junto dos seus alunos, naquilo que ele considera a “vergonha nacional”. Inconformado, decide formar um exército – o Exército Iluminado - de crianças com deficiência para recuperar o território perdido no século XIX.

Toscana cria uma utopia, e como tal, recorre a uma trama inusitada, absurda, misturando delírio com idealismo, trágico com cómico e humor negro e brinda-nos com uma narrativa magnífica recheada de personagens carismáticas. Tomemos, por exemplo, “o gordo Comodoro”, que apesar da sua condição física e das suas evidentes limitações, é retratado com afeto e humor.

Assim, Toscana transforma personagens marginalizadas, com limitações graves, em heróis, em símbolos de resistência. É a celebração dos fragilizados que se tornam iluminados.

O Exército Iluminado é, por isso, um livro fabuloso pela sua imprevisibilidade e ao mesmo tempo pela total falta de senso do protagonista que acredita ganhar uma guerra com estas cinco crianças. A missão de recuperar o Texas é absurda, mas é através desta metáfora que o autor estabelece uma relação directa com os delírios de D. Quixote.
Toscana constrói uma trama carregada de ironia para nos falar de uma realidade que marcou um país, da história mexicana. Cria uma narrativa original e sensível. De forma comovente, mas não lamecha, mescla a dimensão histórica com a efabulação para explorar a complexidade do ser humano. Ao estruturar a narrativa de forma fragmentada, como se revisitasse memórias soltas, permite que passado, presente e futuro coabitem naturalmente com as vivências das suas personagens, estabelecendo uma relação entre a vida e a história; o presente e o passado, ou melhor, a fragilidade da vida retratada nestes anti-heróis e a força da memória de um homem patriota.

Toscana conduz o leitor para um universo de realismo mágico, bem nos trilhos de um Gabriel Garcia Márquez ou de um Juan Rulfo. O leitor, facilmente, seduzido deixa-se comover pela escrita poética e crua com que narra os acontecimentos insólitos vividos pelas crianças e deixa-se, sobretudo, invadir ora pela tristeza ora pela esperança e determinação. Tudo isto é um convite à reflexão. David Toscana eleva a sua narrativa a um patamar tão quixotesco que nos impele a questionar o sentido da vida e a natureza da violência num mundo tão caótico.

Foi uma bela descoberta. Mais um autor a acrescentar à já longa lista de autores sul-americanos.


30 maio, 2025

𝑨 𝑳𝒆𝒃𝒓𝒆 𝒅𝒆 𝑽𝒂𝒕𝒂𝒏𝒆𝒏, de Arto Paasilinna

 



Autor: Arto Paasilinna
Título: A Lebre de Vatanen
Tradutor: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
N.º de páginas: 143
Editora: Relógio d'Água
Edição: Setembro 2009
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3696)





OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de A Lebre de Vatanen foi-me proposta pelo clube de leitura – Era uma Voz, de Afonso Cruz. Não conhecia o autor, mas criei grandes espectativas porque, nas várias livrarias (sempre esgotado) a que me dirigi para o adquirir, só me falaram muito bem do autor e dos seus livros.

Parti, assim, à descoberta de Paasilinna com imensa curiosidade. Confesso que fui, de imediato, conquistada. Primeiro, pela escrita e, depois, pela história de Vatanen, o jornalista protagonista que vive em Helsínquia.

Não vou esmiuçar os motivos que o levam a mudar radicalmente de vida. Aconselho que desfrutem da leitura do livro e o descubram por iniciativa própria. Apenas, posso indicar que a partir de certo dia, ele e uma lebre iniciam uma “viagem” por terras finlandesas e com uma incursão na União Soviética, país fronteiriço. São múltiplas as peripécias que ambos vivem, na floresta, nos lugarejos, nas montanhas. São múltiplas as tarefas temporárias que Vatanen vai ter de desempenhar para poder sobreviver. É riquíssima a transformação, sobretudo interior, da personagem. Nem tudo é fácil.

A narrativa contém umas pinceladas de realidade. Por exemplo, Kekkonen foi presidente da Finlândia, durante 26 anos consecutivos, de 1956 a 1982; as localidades citadas; o nome do protagonista “Vatanen” é o nome de um famosíssimo piloto de rali. Poder-se-á intuir que a atribuição deste nome ao  foi intencional, se tivermos em conta algumas aventuras (risco e audácia) descritas e, de certa forma, como uma homenagem ao piloto. (especulação minha)

Na escrita simples e fluída transparecem a beleza da natureza e o rigor do clima nórdicos, mas também a integridade e a audácia de Vatanen. A sintonia entre escrita, natureza e protagonista resulta numa narrativa brilhante e encantadora. Ao longo das páginas e das aventuras somos convidados a questionar-nos sobre as nossas opções de vida; nomeadamente, o respeito pelo outro, pela liberdade individual, mas também, o sentido de responsabilidade para com a natureza, os animais; a solidariedade e a empatia.

Paasilinna, recorrendo, a histórias curtas, umas divertidas, outras mais absurdas, faz uma sátira à vida moderna, à monotonia da rotina das cidades, ao cumprimento de horários, às responsabilidades de um emprego e de uma família, em suma, a tudo aquilo que o acorrenta e sufoca. Em contrapartida, e com sentido de humor, apresenta-nos o renascimento de um homem que, na companhia de uma lebre, descobre um país de contrastes cultural e ambiental, descobre a mesquinhez humana, o desapego do homem para com a natureza, mas também a amizade, a empatia, a solidariedade. As aventuras de Vatanen transformam-se numa viagem de auto-conhecimento, de conquista de liberdade, de amadurecimento.

É um livro que nos faz reflectir sobre o sentido da vida. O que importa realmente. No epílogo, o autor refere-se a Vatanen da seguinte forma: “ a história pessoal de Vatanen e a sua maneira de agir revelam-no como um revolucionário, um ser autenticamente subversivo, e é aí que reside o segredo da sua grandeza.” (p. 142.
Recomendo.



12 abril, 2025

𝑻𝒓𝒊𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂 𝒅𝒂 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒆 𝑲., de Agota Kristof

 


Autora: Agota Kristof
Título: Trilogia da Cidade de K. 
O Caderno Grande | A Prova | A Terceira Mentira
Tradutor: António Gonçalves
N.º de páginas: 393
Editora: Relógio D'Água
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3283)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Agota Kristof escreveu O Caderno Grande, A Prova e A Terceira Mentira, entre 1986 e 1991. Em Portugal, estes três livros foram publicados num só volume intitulado Trilogia da cidade de K..
Kristof revela-nos uma história intensa e perturbadora. Há marcas de uma guerra que ocorre num país nunca nomeado, possivelmente na Hungria. No primeiro livro, também não temos indicação do nome das personagens, apenas sabemos que são dois meninos gémeos de nove anos. Com o desenvolvimento da narrativa, os gémeos vão entrando na adolescência e na vida adulta.

Num ambiente de guerra, há naturalmente privações, separações, exílio, sofrimento, mortes. E é pelo olhar inocente e cruel dos gémeos que vamos acompanhar muitas peripécias de luta pela sobrevivência que vão travar com a avó, conhecida na povoação pela “bruxa”, que os maltrata física e psicologicamente e os priva da escola e do conforto de um lar. Inteligentes, aprendem, com persistência, estratégias de enfrentar todas as crueldades a que são sujeitos. Acabam por criar situações absurdas e chocantes, não muito próprias para crianças.

A narração no primeiro livro, Caderno Grande, é feita integralmente na primeira pessoa do plural “nós”. Como se de uma única pessoa se tratasse, ou como se os dois funcionassem em uníssimo, em franca harmonia. Nesse caderno decidem escrever, apenas, as descrições dos objectos, dos seres humanos e deles próprios e evitar a utilização de palavras que definem sentimentos, palavras subjectivas.

No segundo livro, A Prova, há uma separação voluntária dos gémeos, Klaus e Lukas (aqui já nomeados), ou Lucas e Claus. Klaus, agora com 15 anos, decide separar-se do irmão e atravessar a fronteira para o país vizinho. Lukas, num período de pós-guerra, ainda com insurreições, narra-nos as suas vivências, os seus relacionamentos. Há momentos e relações ambíguos, surgem novas personagens, novas histórias encaixadas.

No terceiro livro, A Terceira Mentira, passados trinta anos, reaparece Klaus com uma história construída com fragilidades e contradições, o que levanta muitas dúvidas ao leitor sobre a veracidade das histórias. As duas partes que o compõem são narradas por cada um dos gémeos e tudo muda, de novo. Afinal, é tudo mentira? A metáfora do jogo de espelhos encaixa na perfeição, a história vai alterando ao sabor do narrador.

À medida que avançamos na leitura dos três livros, intuímos que a autora baralha as informações. Tal como os nomes se confundem, (anagramas), as memórias de cada um também se revelam desfocadas e contraditórias. A ambiguidade vai num crescendo e duvidamos da existência de um dos gémeos. Ao intitular o último livro com A Terceira Mentira, a autora confirma, ou não, a realidade da história. Se, neste livro, estamos perante uma terceira mentira, significa que os dois anteriores também o são? Afinal, há dois gémeos? Há só um? E qual deles? Quem é o narrador? As personagens do primeiro livro existiram de facto como foi narrado ou desempenharam outros papéis? Podemos confiar num narrador infantil que viveu traumas de abandono? Estamos perante delírios de um idoso ou meros exercícios de escrita? Tantas dúvidas que nos assolam! Estas e outras tantas!

Penso que com esta questão, a autora pretende reflectir sobre a perda de identidade, a manipulação da verdade veiculada por regimes autoritários, a perda de memória marcada por circunstâncias de guerra, de sofrimento, de destruição, em suma na fragilidade da verdade.

Esta trilogia escrita numa linguagem simples, directa, seca e dura, com diálogos curtos, por vezes pincelados de humor negro, e muito objectivos, no início, vão ganhando subjectividade e emotividade, compõe uma obra fabulosa que muito deve à sua originalidade na criação de um imbróglio que baralha por completo o leitor. Esta abordagem, de frieza calculada, torna a narrativa ainda mais impactante. A eliminação de qualquer excesso emocional, transfere para o leitor a interpretação dos factos.
Realidade e Ficção mesclam-se na perfeição. A relação dos irmãos é um reflexo da dualidade (o tal jogo de espelhos) presente em toda a obra: realidade versus ficção, verdade versus mentira, identidade versus anonimato.
Agota Kristof que nasceu na Hungria tendo deixado o país na sequência da repressão soviética que se seguiu à Revolução Húngara de 1956, acaba por expor a sua própria experiência e constrói essa dinâmica de forma magistral, deixando o leitor imerso num universo de incertezas e emoções intensas.

Uma última questão que me surge enquanto finalizo este texto. No título Trilogia da Cidade de K., mantém-se a ambiguidade que já referi. Que pode significar K. ? São várias as possibilidades: Kristof?, Klaus?, Köszeg? a cidade onde a autora se encontra sepultada na Hungria? Outra possibilidade?

Convido-vos a embrenharem-se na leitura desta obra magnífica.