30 julho, 2026

Entre páginas e mar

 



Entre páginas e mar

Sentada na esplanada,
acolho o calor que sobra da tarde.
Abro o livro, as palavras avançam,
tocam-me subtilmente.

Entre goles de sumo fresco,
a marginal move-se
crianças, adultos,
corpos ainda salgados do mar.

Afasto o olhar das páginas
e deixo que a vida dos outros
se misture à minha.

Memórias felizes emergem,
o presente aproxima-se delas,
e uma história nova começa.

Mais crianças surgem
uma bola que escapa,
um grito que se eleva,
um instante de alegria.

Gaivotas atravessam o ar,
umas exibem-se, outras desaparecem
no azul esverdeado.

Eis a espuma dos meus dias
serenidade que se instala,
melancolia que me acompanha.

Fico ainda na esplanada.
A tarde abranda,
o sol inclina-se num gesto lento.

O cheiro do mar aproxima-se,
traz consigo uma memória antiga
que não sei nomear.

As conversas ao redor dissolvem-se,
ficam apenas fragmentos,
uma gargalhada,
um pedido ao empregado,
um silêncio partilhado entre dois.

Viro mais uma página
As palavras avançam,
abrem espaço dentro de mim.

Uma brisa leve
atravessa a mesa,
move a folha,
traz o grito das gaivotas.

A marginal continua a passar
passos apressados,
passos vagarosos,
vidas que não conheço.

E eu permaneço
entre páginas,
entre memórias,
entre o que chega e o que fica.

Na marginal, os passos abrandam.
Há quem pare,
há quem observe,
há quem siga sem olhar.

E então a luz transforma-se.
O sol aproxima-se da linha do mar,
desce num gesto lento.

O horizonte acende-se em tons suaves,
o dia despede-se
com a mesma serenidade.

Fico a ver essa descida,
espuma dos meus dias,
onde a melancolia repousa
e a luz se recolhe.

25 julho, 2026

𝑳𝒖𝒕𝒐 𝒑𝒆𝒍𝒂 𝑭𝒆𝒍𝒊𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒔 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒖𝒈𝒖𝒆𝒔𝒆𝒔, de Rui Zink

 

Autor: Rui Zink
Título: Luto pela Felicidade dos Portugueses
N.º de páginas: 154
Editora: Quasi
Edição: Maio 2007
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2311)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Será que o português sabe ser feliz ou prefere a melancolia de se queixar, esse hábito antigo que lhe serve de companhia? Em Luto pela Felicidade dos Portugueses, Rui Zink responde a esta e a muitas, muitas outras perguntas através de uma lente crítica que é tanto desconcertante quanto hilariante.

O livro reúne crónicas escritas originalmente entre 2000 e 2005 para a revista SOS Saúde, mas desengane-se quem procurar nestas páginas conselhos médicos tradicionais ou receitas de bem-estar. Zink oferece consciência, ironia e uma espécie de ternura que só existe quando se conhece bem o paciente. Ao incluir-se no diagnóstico e nas receitas, retira qualquer superioridade moral e mostra que os vícios que aponta são também os seus. Essa auto‑ironia atribui às crónicas uma autoridade e uma empatia que conquistam o leitor.

A genialidade da obra começa no título, onde “luto” carrega um duplo sentido que retrata a nossa identidade. Por um lado, evoca o verbo lutar, remetendo para a ideia de quem batalha pela dignidade e pela felicidade do seu povo. Por outro, surge como o substantivo, representando a tristeza e o pessimismo de um país. Ao juntar o luto à felicidade, Zink fixa o tom paradoxal da obra numa sátira que morde e, ao mesmo tempo, revela um carinho e um conhecimento profundo pelo país que critica.

Para lá da sua aparente leveza, a estrutura do livro funciona como uma paródia inteligente aos velhos fantasmas da identidade nacional, reorganizando Deus, Pátria e Família (três partes) em “laboratórios” onde o autor desmonta as suas/nossas obsessões.

Ao lermos estas crónicas hoje, mais de duas décadas depois, a sensação de déjà-vu é inevitável e quase cómica. Mudaram os palcos, do café para o Instagram ou outra rede social, mas os actores seguem o mesmo guião. Portugal continua a dar-se mal com a vida. Continua a não saber se o sexo dá felicidade? Se a felicidade dá dinheiro? E se o dinheiro dá saúde?

No fim de contas, Rui Zink deixa-nos com uma dúvida desconfortável - e se o nosso maior trauma não for a falta de felicidade, mas sim a perspectiva de um dia virmos a ser genuinamente felizes? Sem partilhar uma pequena maleita, sem amaldiçoar o(a) companheiro(a) infiel, sem sentir inveja/cobiça ou sem a meteorologia para justificar o humor, quem seríamos nós?

E hoje, ainda somos o povo neurótico, stressado e obcecado com as aparências que Rui Zink retratou entre 2000 e 2005? Ou será que o Instagram e as novas modas do bem-estar apenas maquilharam o velho fado que teima em permanecer? Querem responder?


22 julho, 2026

𝑨 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒄𝒂𝒔𝒂 é 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒆𝒔𝒕á 𝒐 𝒄𝒐𝒓𝒂çã𝒐, de Toni Morrison

 

Autora: Toni Morrison
Título: A nossa casa é onde está o coração
Tradutora: Manuela Madureira
N.º de páginas: 140
Editora: Presença
Edição (3.ª): Agosto 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3810)



OPINIÃO ⭐⭐⭐


Em A nossa casa é onde está o coração, Toni Morrison entrega-nos uma narrativa minimalista na extensão, mas monumental no seu impacto emocional e social. A autora transporta-nos para a América da década de 1950. Uma época profundamente marcada pelas cicatrizes do racismo estrutural e pelos traumas da Guerra da Coreia.

A trama acompanha Frank Money, um jovem veterano negro que regressa do combate com um caso severo de depressão. Frank está desancorado, a derivar num país que exigiu o seu sacrifício na frente de batalha, mas que lhe nega a dignidade mais básica nas ruas. A narrativa torna-se mais viva quando ele recebe a notícia de que a sua irmã mais nova, Cee, corre perigo de vida após ser alvo de experiências médicas abusivas. A travessia geográfica que Frank empreende para a salvar transforma-se, progressivamente, numa viagem de resgate da sua própria identidade e sanidade.

Para estes dois irmãos, a sua terra natal em Lotus, na Geórgia, sempre foi um lugar detestado e associado à opressão. No entanto, é precisamente nesse espaço rural e comunitário que ambos encontram a redenção.

A escrita de Toni Morrison é poética e cirúrgica. Nenhuma palavra é desperdiçada. E a estrutura torna-se, na minha opinião, num dos aspetos mais fascinantes da obra. A narrativa, na terceira pessoa, é periodicamente interrompida pela voz do próprio Frank, na primeira pessoa. Nestas passagens, o protagonista questiona e desafia o próprio narrador, um processo genial que espelha a mente fragmentada de um soldado a tentar reconstruir a sua própria verdade.

A nossa casa é onde está o coração retrata a violência histórica e a segregação, mas recusa-se a ser uma história de desespero. É, acima de tudo, uma celebração poderosa dos laços fraternos e da conquista do nosso destino.

Recomendo vivamente a leitura deste livro a quem procura uma história intensa, fluída, e marcante. Sendo esta a minha segunda experiência com Toni Morrison, depois de ter ficado deslumbrada com Beloved, posso afirmar que estas duas obras se complementam de forma magnífica. Enquanto Beloved nos esmaga com o peso histórico da escravatura e do trauma materno, A nossa casa é onde está o coração oferece uma perspectiva mais focada na cura e na reconstrução da identidade no pós-guerra. 
São dois livros que justificam a atribuição do Prémio Nobel (1993) e provam por que razão Morrison  se tornou uma  voz relevante da literatura mundial.

"Fiquei ali um longo momento a contemplar aquela árvore.
Tinha um aspeto tão forte,
Tão belo.
Ferida ao meio de cima a baixo
Mas viva e de saúde.
A Cee tocou-me no ombro
Ao de leve.
Frank?
Sim?
Anda, irmão. Vamos para casa."



20 julho, 2026

A Odisseia (The Odyssey), de Christopher Nolan


173 min. | M/14 | Aventura, Ação, História | 2026 | Reino Unido, USA
Realização: Christopher Nolan |
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway Robert Pattison, Lupita Nyong´O, Zendaya, Charlize Theron, John Leguizamo


A adaptação cinematográfica do poema épico de Homero,  A Odisseia, por Christopher Nolan, é uma obra monumental de quase três horas que passam sem se dar por elas. Nolan consegue prender o espectador do início ao fim com um ritmo que desafia o tempo. Contudo, e na minha simples opinião, o realizador peca, por vezes, pelo excesso, com cenas de acção exageradas ou sequências visuais que se estendem mais do que o necessário. Ainda assim, a força das personagens principais resgata a alma da narrativa.

O grande trunfo do filme reside na densidade psicológica de Ulisses (Matt Damon). Ele surge como um herói cansado da guerra, marcado pelo trauma e pela obsessão de regressar a Ítaca. É o que o impede de se dissolver no caos das ilhas, das criaturas mitológicas, das divindades, das seduções, dos perigos do mar e sobretudo das relações humanas.
A narrativa eleva acima de tudo o valor sagrado da honra, da palavra dada e da promessa mantida. Esta integridade contrasta fortemente com o oportunismo moral dos pretendentes que invadem o seu lar, transformando o filme numa lição actual sobre a importância do carácter contra a ganância do poder.

No núcleo familiar e afectivo de Ulisses, a estabilidade de Ítaca é sustentada por três figuras fundamentais que resistem ao caos. Penélope (Anne Hathaway) personifica a lealdade inabalável e a resistência psicológica, usando a astúcia como arma para manter viva a promessa feita ao marido. Ao seu lado, o jovem Telémaco (Tom Holland) carrega o peso do legado de um pai que mal conheceu, amadurecendo sob a pressão de proteger a honra da sua linhagem. A ligação emotiva a Ítaca ganha uma dimensão ainda mais profunda e simbólica através de Eumeu (John Leguizamo), personagem quase cega, que funde a figura do fiel amigo e do próprio Homero, cujo olhar interior e cantos preservam a memória mítica de Ulisses, mantendo viva a chama da esperança mesmo no período de maior escuridão.

O desfecho do filme sela o triunfo da justiça, onde o reencontro final em Ítaca prova que a honra e a palavra dada superam qualquer obstáculo ou oportunismo.

 

14 julho, 2026

𝑳𝒂𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒂, de Ana Cláudia Santos

 

Autora: Ana Cláudia Santos 
Título: Lavores de Ana
N.º de páginas: 122
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐



A novela Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, prende o leitor pela forma como retrata a aventura de mudar de país. Acompanhar a protagonista em Nápoles, a lidar com um dialecto difícil e com os choques do quotidiano, é um processo muito autêntico. A cena inicial com ela trancada na varanda dita um tom divertido e humano que anuncia um enredo dinâmico.

O ponto mais original da obra é a forma como a profissão da protagonista molda o seu modo de pensar. Sendo tradutora, não traduz apenas livros; passa o tempo a tentar “traduzir” as pessoas, os gestos e as manias dos outros. E traduz também as suas paixões humanas, reveladas nas relações amorosas com Enzo e Marco. Cada encontro funciona como um exercício de interpretação, uma tentativa de decifrar intenções, silêncios e impulsos com a mesma minúcia que aplica a um texto.

A divisão invulgar dos capítulos — OUVIDO, LÍNGUA, MÃO, SOPRO e VOZ — reforça esta leitura. Estão profundamente ligados à forma como ela vive a juventude em liberdade, em rebeldia, em experimentação. E são também instrumentos da tradução. Ouvir o mundo novo, arriscar a fala, escrever noutra língua, respirar fora do lugar de origem, encontrar uma voz própria. A protagonista organiza a vida por estes eixos, como se cada um fosse uma forma de se situar e de transformar o que vive.
Sendo a minha primeira experiência com a autora, a escrita deixou-me uma boa impressão. É limpa e directa, o que torna a leitura fluída. Ainda assim, o livro deixa um sabor agridoce. Na minha opinião, falta-lhe uma faísca emocional. Convence, mas não chega a apaixonar.

Recomendo a leitura pela leveza e pela escrita cuidada, embora não seja um livro para leitores muito exigentes. Quem procura algo que ultrapasse a narração de uma estada em Nápoles, o choque cultural e a juventude fértil em paixões poderá sentir alguma frustração. Anos mais tarde, já casada, a protagonista regressa à cidade, trazendo consigo uma experiência íntima que marca silenciosamente a vida adulta. Esse retorno ilumina a distância entre a leveza da juventude e a vida adulta que entretanto se consolidou. A cidade torna-se memória, e essa consciência dá ao final uma melancolia mais acentuada.



09 julho, 2026

𝑷𝒂𝒓𝒕𝒊𝒅𝒂, de Julian Barnes

 

Autor: Julian Barnes
Título: Partida
Tradutor: Salvato Teles de Menezes
N.º de páginas: 185
Editora: Quetzal Editores
Edição: Janeiro 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3778)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Partida, de Julian Barnes, surge como o seu testamento criativo definitivo, uma obra-prima onde o autor se despe de artifícios para estabelecer uma conversa com o leitor. Barnes escreve como se estivesse sentado ao nosso lado, numa esplanada de café, com um humor refinado e a consciência tranquila de quem sabe que esta é a sua última oportunidade de dialogar antes do silêncio definitivo.

O fio narrativo que sustenta esta reflexão é a história de Stephen e Jean, dois amigos de faculdade que namoraram na juventude e que foram apresentados pelo próprio narrador. Quarenta anos depois, após caminhos totalmente separados, os dois reencontram-se, de novo, com a cumplicidade do narrador, para tentar o que chamam de “a última possibilidade de ser feliz”. O contraste entre o amor idealizado da juventude e o afecto pragmático e adaptado à velhice serve de cenário perfeito para Barnes analisar o impacto avassalador do tempo nos afectos e nas relações.

É precisamente através deste reencontro que ganha uma importância fulcral a Memória Autobiográfica Involuntária (MAI). Enquanto a memória voluntária falha, esquece ou edita o passado, a MAI surge como uma força incontrolável. Através de gatilhos  inesperados como um vislumbre, um odor, um gesto, uma palavra… o passado assalta as personagens com uma verdade emocional e involuntária. Para Barnes, este mecanismo prova que os nossos "pequenos eus" da juventude continuam intactos e vivos dentro de nós, ligando o passado ao presente à revelia da nossa própria vontade, mesmo quando o corpo físico começa a falhar.

Essa falha do corpo é, aliás, o outro grande pilar do livro. Diagnosticado com um cancro no sangue, que espelha a própria realidade de Barnes, o narrador encara a doença que o acompanhará até ao fim com uma neutralidade desarmante. A velhice e a degradação física são tratadas como meros factos da biologia humana. Ele aborda a própria mortalidade através do filtro da ironia (muito britânica), como uma comédia ligeira que caminha inevitavelmente para um desfecho melancólico.

Pensei concluir, articulando esta despedida com O Sentido do Fim, uma vez que ambas as obras partilham a mesma estrutura de olhar para trás, após um hiato de quatro décadas. Escrito também na primeira pessoa, e com recurso a uma analepse de mais de 40 anos, a narrativa de O Sentido do Fim prende e inquieta o leitor desde o início. Nele, a escrita sensível e profunda patenteia o estado de espírito do protagonista, Tony Webster, impondo-se a um leitor que a lê avidamente, numa ânsia pela descoberta do final para libertar a personagem da agitação e da dúvida que a consomem. É aí que Barnes nos dá uma lição brutal sobre a importância do tempo que tece falhas na memória à medida que o homem envelhece, desenvolvendo o tema da morte focado nas circunstâncias e no que ficou na lembrança do protagonista, levando-nos a concluir que a “vida não é só adição e subtração. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso e remorso”.

Em Partida, Barnes dá o passo definitivo que pacifica essa inquietação. Se no livro anterior o leitor e Tony Webster ficavam sufocados pelo peso dessa acumulação de falhas, de perdas e remorsos, neste, o autor desiste do controlo racional e entrega a verdade à imprevisibilidade da MAI. Diante do diagnóstico, já não há a agitação ou a dúvida que consumiam o protagonista de O Sentido do Fim; há um despojamento pacífico. Julian Barnes já não procura decifrar ou julgar os erros do tempo; ele aceitou a finitude. Sendo este o último livro escrito pelo autor (assim, o afirma), a sua jornada criativa encerra-se aqui de forma intencional e lúcida. Contudo, para mim, enquanto leitora, Partida não será o ponto final absoluto. Se para ele este é o livro do adeus, para quem o lê a sua voz permanece viva, até porque ainda me restam descobrir e ler outras obras do seu passado. Enquanto a vida tem um final certo para o homem de carne e osso, a literatura garante que, para os seus leitores, os escritores, e neste caso, Julian Barnes, nunca deixarão de escrever.

 

08 julho, 2026

Tuner - Ouvido Absoluto, Mão Leve, de Daniel Roher


     


108 min. | M/12 | Thriller, Drama, Suspense | 2025 | Canadá, EUA
Realização: Daniel Roher
Elenco: Leo Woodall, Dustin Hoffman, Havana Rose Liu, Lior Raz, Tovah Feldshuh, Jean Reno



Tuner — Ouvido Absoluto, Mão Leve” combina com simplicidade elegante romance, drama e tensão.

O filme trabalha com precisão a sua metáfora central: um ouvido absoluto que se torna mão leve. Niki White, afinador de pianos com hiperacusia, transforma a sensibilidade extrema numa arma capaz de abrir cofres. Daniel Roher filma o som com delicadeza musical. É a linguagem unificadora desta história. Cada silêncio entre Niki e Ruthie, cada nota de piano, cada ruído que o fere ou o salva constrói uma intimidade que nenhum diálogo alcançaria.

A hiperacusia faz do mundo um território agressivo, mas também molda a forma como Niki o habita. A sua vulnerabilidade transforma cada gesto numa batalha íntima. Por isso, o relacionamento com Ruthie torna-se o verdadeiro eixo do filme. Quando ela fala, quando o silêncio se instala, quando o piano surge como refúgio, oferece‑lhe uma frequência emocional onde o mundo deixa de o ferir.

Dusty Hoffman, numa interpretação luminosa, funciona como contraponto moral e afectivo. Como mentor, percebe que o talento de Niki é também uma ferida. A sua presença bem‑disposta e ternurenta abranda a acção, dá‑lhe humanidade; afina-a. O desempenho é irresistível.

O desfecho de Tuner é apoteótico. Quando Niki se senta ao piano, regressa a si próprio. O gesto é quase sagrado; as mãos avançam antes do ouvido, como se o corpo guardasse uma memória que o trauma não conseguiu apagar. Há um contraste arrebatador entre o silêncio pesado que o envolve, a música que começa a emergir, e o rosto de Ruthie, que o observa com aquele sorriso suave, emocionado, quase incrédulo, mas esperançoso. Ele não voltou a ouvir o mundo; voltou a ouvir o que importa, porque “o Mi bemol está desafinado”.



07 julho, 2026

Submissão


(c) Federação Portuguesa de Futebol (FPF)




Portugal ardeu em campo,
jogadores a rasgar o tempo
com o país nas veias.
Força.
Entrega.

No banco, o medo sentou-se,
um treinador preso a um nome,
incapaz de tocar no intocável.
Submissão silenciosa.
Um gesto que travou o jogo.

E o “melhor” tornou-se peso de passado,
num presente que clamava mudança.

Quem não ousa, não lidera,
num país que joga com o coração inflamado.

No horizonte, ergue-se um amanhã
emergente
promitente.



02 julho, 2026

Lídia Jorge vence a 38.ª Edição do Prémio Camões


(c) GR | Out. Santiago do Cacém



O Camões é de Lídia Jorge.

Aos 80 anos, a autora de Misericórdia é a décima mulher distinguida com o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Recebe-o pela “análise profunda da história recente de seu país”, referiu o Público.

https://www.publico.pt/2026/07/02/culturaipsilon/noticia/premio-camoes-2026-escritora-portuguesa-lidia-jorge-2180242

A distinção de Lídia Jorge  consagra uma escrita marcante que explora a identidade, a memória colectiva e a condição humana. Este reconhecimento celebra uma voz indispensável da literatura portuguesa. 

Como leitora atenta e apaixonada da sua obra, sinto esta distinção não apenas como um acto de justiça literária, mas como uma celebração da nossa própria identidade.
Ler Lídia Jorge sempre foi, para mim, um exercício de desassossego e beleza. Ao longo dos anos, folhear os seus livros tem sido uma viagem profunda à memória colectiva, às feridas da história e à força invisível das mulheres.

Quem já se perdeu nas páginas de O Dia dos Prodígios, sentiu o peso do silêncio em A Costa dos Murmúrios, se deixou envolver pelas vozes e ambições de A Noite das Mulheres Cantoras, revisitou os mitos e desilusões da nossa Revolução em Os Memoráveis, ou se comoveu com a sensibilidade de Misericórdia, sabe perfeitamente do que falo. Ela esculpe a condição humana com uma prosa poética que nos ecoa na alma muito depois de fecharmos o livro.

Este prémio celebra uma carreira extraordinária e celebra, também, o presente de uma autora que continua viva, sagaz e indispensável.