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20 junho, 2026

A Primavera

 

                                                                      (C) GR


No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então, ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de ce cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.


In, Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, pág. 16 

12 maio, 2026

Samica, Alguém!

 



Quero que esta introdução agarre quem a lê, do primeiro rabisco ao último arrepio literário. Ora, convencer um leitor (entenda-se por leitor aquela pessoa que gosta mesmo de ler) não me parece tarefa difícil. Afinal, conto com o apoio dos meus poetas fantasmas, sempre prontos a soprar frases ao meu ouvido, e com as minhas canetas permanentes, que escrevem sozinhas quando eu me distraio.

Difícil, difícil, é motivar a geração polegar, essa gente que nunca pegou num livro (bom, evitemos radicalismos: quase nunca). Pois bem, é para ela que vou orientar este texto. Se não a convencer, ao menos que lhe faça cócegas literárias.

“Je est un autre.” A célebre frase de Rimbaud parece-me um bom princípio para introduzir a minha biografia, porque me revejo nela e porque os meus poetas fantasmas insistiram que a usasse, sob pena de me riscarem o rascunho com as tais canetas permanentes.
E se Rimbaud dizia que o eu é um outro, eu acrescento que às vezes esse outro tem vários nomes.

Eu, Graciosa Reis, e heterónimos me confesso. Não no sentido pessoano, não inventei biografias paralelas, nem datas de nascimento, nem estilos literários autónomos. Os meus “heterónimos” nasceram de outra fonte, do erro humano, essa força criativa que transforma Graciosa em tudo menos Graciosa. Já fui Generosa, Graciete e até Preciosa (ainda hoje não sei se era carinho, lapso ou provocação). E Grace… ah, mas esse é especial. Foi-me oferecido por um grupo de alunos e, como tudo o que nasce da imaginação estudantil, pegou que nem fogo. Os amigos adoptaram-no, e no meu blogue assino mesmo por Grace. É o único heterónimo que escolhi manter, talvez porque me dá um certo ar internacional, ou porque me lembra que, às vezes, os outros vêem em nós coisas que nós próprias ainda não vimos.

Um dia, porém, fartei-me dos equívocos. Peguei num rectângulo de cartolina, escrevi: PUM! PUM! PUM! Basta de Preciosa! Eu sou a Graciosa e preguei-o na lapela. (Os meus poetas fantasmas aplaudiram. As canetas permanentes sublinharam. Acharam que era performance artística.)

E agora? Agora chega a parte difícil: falar de mim. Mas vamos lá tentar agarrar os “polegarzinhos” antes que deslizem para outra aplicação.

Fui menina e moça; rabina e roliça; tagarela e curiosa; quiseram que fosse mulher do lar, mas preferi ser mulher da escola e dos livros; e assim permaneço! Mulher livre e com tendência para fugir das gavetas onde me tentam arrumar. E os livros… Esses foram sempre a minha verdadeira pátria. Ensinaram-me a pensar, a duvidar, a rir, a resistir, a ser mais do que esperavam de mim. Se hoje rabisco uns textos, pequenos esquisses, como os do meu velho caderno onde desabafo sem pedir licença, é porque antes li, e continuo a ler como quem respira.

Tive uma filha, plantei árvores e semeei palavras aqui e ali, como quem espalha migalhas literárias, pelo que posso afirmar que quase cumpri a máxima do poeta cubano José Martí.

Falo francês, mas não toco piano. Ufa! Escapei por pouco à catalogação de “jovem de família burguesa”. (Aqui, os meus poetas fantasmas franziram o sobrolho, mas aceitaram.)

Então, afinal, quem sou eu? A minha filha, em 2004, para um trabalho escolar, escreveu: “Conheci-a pessoalmente quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas; talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verdes acastanhados, ou o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser…”

“Chega!”, decretaram os meus poetas fantasmas, esses editores do além que me riscam frases quando estou a revelar demais. E, já agora, lembraram-me que a palavra “chega” é muito apreciada pelos polegarzinhos, como se isso fosse argumento literário. Eu, que tenho alergia à palavra (e não só à palavra…), respirei fundo e deixei-a ficar, para lhes dar esse pequeno triunfo.

Portanto, se querem saber mais… avancem umas páginas e os polegarzinhos que façam um esforço, vá.

Bom, mas respondendo à pergunta “quem sou eu?”. A minha resposta evidente é: “Samica, alguém!”, a famosa réplica de Joane, o Parvo, no Auto da Barca do Inferno. É esta a descrição que me acompanha nas redes sociais. E, verdade seja dita, nunca me senti tão bem representada.

Portanto, queridos polegarzinhos, façamos um trato simples, pousam o telemóvel por cinco minutos e eu deixo-vos entrar na minha biografia. Prometo que, ao contrário das vossas aplicações, não vos peço atualizações, só atenção. E, quem sabe, talvez descubram que virar páginas pode ser bem mais excitante do que deslizar o dedo no ecrã.



10 março, 2026

Al Berto in Lovesong

 



Fotografia de Al Berto (Porto, 9 de Abril de 1992) impressa no livro Lovesong, de Álvaro Rosendo.

"O universo visual é o da música e o título remete para a urgência das canções de amor. Mas o que encontramos nas fotografias de Lovesong é uma constelação de afectos que faziam vibrar a Lisboa das décadas de 80 e 90." 

Lê-se no a
rtigo de Sérgio B. Gomes, in Ípsilon, Público de 6.03.2026 


Lovesong, editado pela Tinta-da-china é o primeiro livro de Álvaro Rosendo  um "dos primeiros cronistas  da movida lisboeta". O fotojornalista documenta uma era de modernidade do meio artístico português.




08 março, 2026

Poemar é Amar!

 

                                                            (c) GR | S. Torpes 01.03.2020



Poemar é amar

Alinho as canetas - as de tinta permanente -
como quem encosta o ouvido ao mar
para escutar o que ainda não sabe dizer.
Alinho-as de novo,
devagar,
como quem prepara um pequeno ritual.

É Março e a maré impõe-se.
Mulher e Poesia
tocam-se como duas ondas que se reconhecem.

Há uma maresia a soprar pelas páginas,
um rumor de vozes que não se calam,
mesmo quando o vento tenta apagar-lhes o nome.

Há um sopro de Lorca a atravessar a mente:
“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

O mar entra pelas palavras
e as mulheres entram pelo mar.
Mareamos juntas: eu, a poesia, a maresia,
as vozes antigas, benevolentes.

Os poetas-fantasmas pairam sobre a página,
trazem versos húmidos,
uma espuma invisível que permanece.

E penso nas mulheres
que escreveram contra a corrente,
que guardaram a luz,
que desbravaram a onda para que eu
pudesse chegar aqui.

Poemar é amar.
E amar é deixar que o mar me atravesse
como quem sussurra: continua.

GR 

21 janeiro, 2026

Incidência

 




Incidência


Vejo‑te de tantos sítios,
silhueta calma.
Mas é daqui,
onde o horizonte respira,
que melhor te desenho.

Daqui,
a tua forma arredonda‑se
num seio firme,
cedendo ao vai‑e‑vem
das águas claras que te embalam.

Caminho a linha que nos separa.

Estás morena!
O sol pousa em ti
como quem te reclama.

E brilhas!

Sinto uma brisa leve,
cúmplice,
que te acaricia.

Como desejaria tocar‑te,
colher o pêssego secreto
que dissimulas.

O mar impede o gesto,
aquieto-me na incidência do teu brilho.


GR

19 janeiro, 2026

Eugénio de Andrade | Dia de Aniversário (19.Jan. 1923)


 



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade


11 janeiro, 2026

Al Berto | Dia de aniversário (11. Jan. 1948)




Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

10 janeiro, 2026

Sublimidade

 

                                       
  (c) GR


Sublimidade 


Rasgos ardentes
tingem o horizonte

Abraçam o ar gélido 

A esfera de um amarelo intenso
Inicia a descida 
calma
segura 

Aproxima-se 

Beija o oceano
entra nele
uma parte
inteira

Diluem-se
num só brilho

Ilusoriamente


GR



23 março, 2025

O Meu Rumo!

 



A casa da Rosa dos Ventos mapeia oito pontas e nela nunca perdemos o rumo.
Seja qual for o trilho escolhido será sempre com sentido e tino.

_____________


A casa da Rosa dos ventos é o abraço da orientação, o guia das almas sonhadoras.
Com os seus oito braços estendidos, norteia destinos e sussurra segredos do vento, do sol e dos deuses.
Em perfeita harmonia sobre o azul intenso do mar, ela é a bússola do coração humano.
O meu rumo! 


Nota: escrita criativa a partir do livro as casas das coisas, de João Pedro Mésseder (texto) e Rachel Caiano (ilustração)

13 abril, 2024

Dia do Beijo - Horas Rubras

                                                        
                                                 Man Ray | o Beijo | 1922




Horas Rubras 

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade


10 janeiro, 2024

haiku - Escrita criativa

 





Haiku (haicai):
nome masculino

1. [Literatura] Forma poética muito breve, de origem japonesa, composta geralmente por três versos de cinco, sete e cinco sílabas.

"haicai", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/haicai.





31 dezembro, 2023

As escadas, Manuel António Pina



                                               George Brassaï - Les escaliers de Montmartre - 1938




As Escadas


Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.

Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.



Manuel António Pina



29 dezembro, 2023

REPENSAR


                                                                            Foto GR | Sines


Nestes últimos dias, visitou-me a melancolia. Dias longos, frios, tristes, saudosos.

Álibi perfeito para uma rememoração: reabrir gavetas  trancadas, intocáveis (pensava eu), repletas de saudade de pessoas, de instantes, de lugares...; abrir gavetas caóticas, atulhadas de desilusão, desencanto, ingratidão, inquietação, desassossego, alegria, sonhos, muitos sonhos...; separar o trigo do joio; arrumar o caos.

O que partiu? O que permanece? O que pode ser resgatado?

É urgente a reflexão, o separar das águas, o REPENSAR. 

Nesta contagem regressiva, melancolicamente revejo o passado - o distante e sobretudo o mais recente - retiro ilações, teço considerações, oblitero memórias nocivas, tomo decisões, defino metas, aponto objectivos...

Depender única e exclusivamente de MIM. Começar por pensar primeiro em MIM. Conquistar palavras belas, livres, quentes.  Recomeçar. 

Silêncio é o  sossego do meu RECOMEÇO.  

Leitura é, cada vez mais, a minha primeira morada do silêncio. 


14 outubro, 2023

Silêncio !


                                                          © Foto GR - Fundão Dez 2022


Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.


Eugénio de Andrade, in Matéria Solar

17 setembro, 2023

Chove

                                         

                                                 © Rui Palha - https://www.ruipalha.com/


Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...


Fernando Pessoa, in Poesias.




06 setembro, 2023

Leio o amor

 

                                       ©  Man Ray - Primacy of Matter over Thought (1929)





Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice



18 agosto, 2023

Il pleure dans mon coeur

 


                                      Henri Cartier-Bresson | Pluie | Paris



Il pleure dans mon cœur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon cœur?


Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un cœur qui s’ennuie,
Ô le chant de la pluie!


Il pleure sans raison
Dans ce cœur qui s’écœure.
Quoi ! nulle trahison?…
Ce deuil est sans raison.


C’est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon cœur a tant de peine!


Paul Verlaine



17 agosto, 2023

Abraços


                                                
                             Alfred Eisenstaedt | Couple ao bord de la Seine | Paris | 1963




Sei –
Que outros abraços te apertam
E outras bocas vão beijar
O teu saboroso corpo
Onde mora o meu destino;
Mas, não me zango nem fujo
Nunca mais de te falar –
Como se em ti desconhecesse
O vício de atraiçoar...

Nesta vida transitória,
Afinal, - o que sou eu?
- A força de um pensamento que diz aquilo que diz
E o resumo de uma história
Que ninguém compreendeu.


António Botto



13 abril, 2023

Dia do Beijo


O beijo 

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, In Antologia Poética




        Henri Cartier Bresson                              Man Ray                                    Robert Doisneau


30 dezembro, 2022

Votos para 2023

                                                                             Foto Filipe Miguel 


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis