Mostrar mensagens com a etiqueta GR. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta GR. Mostrar todas as mensagens

24 setembro, 2026

Literatura Impura






É na Literatura Impura, aquela que sangra, corrói e nos deixa a meditar que o prazer de ler se torna aquela Felicidade Clandestina - um vício sublime que nos despe a alma a cada página, primeiro adiada, depois devorada.

(Clin d’œil a Clarice Lispector) 

Nota: Participação no passatempo/oferta da t'shirt  promovido por @literatura_impura. 

29 agosto, 2026

Ainda vamos escrever sobre isto!

 

Copilot 03_08_2026 _ 19H


Tudo começou com a partilha de um vídeo no nosso grupo de leitores, no WhatsApp. Um daqueles pequenos fragmentos que subitamente acendem a imaginação colectiva. Mal o vídeo apareceu, alguém declarou: “Que iniciativa gira! Muito bom!”.
O vídeo ainda nem tinha terminado e já se sentia movimento no ar porque outra voz, movida pela mesma energia, escreveu: “Adorava participar”.
O entusiasmo espalhou-se pela porta já escancarada: “Que bela iniciativa e fácil de concretizar!”.

A primeira exigência caiu logo ali, como se o vídeo tivesse convocado a bicharada e não os leitores: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar”. A galinha, ofendida e assustada, pensando que ia parar à grelha, bateu as asas para fora do ecrã.

Cada vez mais entusiasmado, o grupo decidiu recriar o evento dando-lhe um toque particular: “Eheheh. Fazemos um piquenique literário”.
E alguém, muito atento, lembrou: “Olha os animais!”. Não fôssemos fugir à ideia original que tanto animou o grupo. Já imaginaram termos um rato de biblioteca a ler… este meu brilhante pensamento foi cortado por uma alma bem mais prudente que tentou organizar o caos que se antevia: “Mas nós prescindimos dos animais. Quem tiver cão ou gato, pode levar. Só esses.”. Ora bolas!!! Esta proposta vem retirar todo o encanto ao nosso evento! Mas há mais derrotistas porque, discretamente, alguém lançou: “Só falta a relva ...”.

A imaginação levantou voo: “Temos de descobrir um campo”. E a necessidade repetiu-se, insistente, como se o vídeo tivesse ficado preso num loop: “E precisamos de coelho, ovelha…porque uma galinha, eu posso arranjar!”.

Uma das intervenientes, sempre pronta a puxar a conversa para o digital, comentou: “Original…mas a IA também pode andar por ali”. Outra, cansada de tanto bicho e de projectos loucos, respondeu: “Concordo... são coelhos a mais”. Até que alguém, mais lúcido, alertou para um possível perigo: “Ainda nos comem os livros”. Mas uma voz tranquilizou: “Não Graciosa ... Eles vão é pedir emprestados ...”. Contudo, o receio instalou-se e o alerta repetiu-se: “Eles são devoradores. E roedores”.
Como sempre, há quem se aproveita das ocasiões e desafia: “Ainda vamos escrever sobre isto”… mas o eco insistiu: “Eles são devoradores”. E uma leitora marota, conhecedora dos hábitos desta gente, piscou o olho e sussurrou: “Algumas de nós também 'devoram'”.

O título provisório nasceu logo ali: “piquenique literário com coelhos”. A leitora marota, feliz com a sua observação, repetiu-se: “Algumas de nós também ‘devoram’” e só se calou quando um grito breve anuiu: “Ya!!”. E, aí, o refrão regressou: “Olha os animais!”.

A certa altura, até a fauna local entrou em cena: “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”. Alguém antecipou o caos: “Vai ser um festim”. Como Quem conta um conto, acrescenta um ponto, a história cresceu: “Na Ribeira de Moinhos, sim. Por vezes vou às pinhas ou aos espargos, quando é tempo, e vejo a devastação no pinhal! E outro dia vi um coelho! Mas ele assustou-se mais do que eu”.

Ao lamento “Vegetação envolvente, aqui, não temos muita”, alguém respondeu: “Pois, aí é diferente. Mas as galinhas e os coelhos já animam. E ainda chamam a comadre”, e à insistência de “Sempre temos os javalis que se passeiam por Santiago e Santo André... Em Sines não se atrevem?”, a resposta veio certeira: “Ainda não! Temos gaivotas”.

Quando se pensava que o entusiamo tinha acalmado, surgiu outra voz bem-humorada: “Vocês são muito criativas. Nada que não pudesse vir a acontecer. Mas para termos essa bicharada toda à nossa volta era mais fácil as vacas criarem asas.” E alguém acrescentou, de imediato: “Mas se as vacas criarem asas, vão afugentar as gaivotas.” Com esta possibilidade teríamos um caos aéreo ou a solução para o fim das gaivotas? Um caso de estudo a propor à CMS.

Mas logo um pedido desesperado irrompeu: “Por favor, por favor, não deixem as vacas criar asas...isto com as gaivotas, já é mau demais!”. E alguém sensato assentiu: “Sim, tem razão. Já temos uma pandemia suficiente”. Ao que outra voz ainda acrescentou: “Muito bem. Se já tenho a varanda suja, imaginem as descargas vacarinas”.
- “Tal e qual!”- Rematou outrem.

O caos cresceu: “Que animação... Ausentei-me um bocadinho e já temos vacas voadoras ... Não tarda nada até entra um porquinho a andar de bicicleta...”. E outra voz, enigmática, lançou: “Quem sabe!?”.

A gaivota infantil, que não constava no vídeo inicial, entrou em cena por alguém desesperado: “Eu tenho uma gaivota em idade de infantário…no meu quintal” que acrescentou ainda : “E os progenitores a tomarem conta dela e de mim. Ando de varapau em punho para me defender, se necessário.”

É caso para afirmar que Fiado por fiado, o fio puxa o novelo porque outra história nasceu: “Aqui perto da minha casa há duas, que caíram do telhado onde nasceram, e ali estão no quintal com os pais sempre a ‘falar’ para elas, aflitos porque não as conseguem pôr a voar...”

Como para um bom leitor há sempre uma solução, seja ela fantasiosa ou absurda, esta apareceu, naturalmente: “Temos de chamar o gato do Sepúlveda, que ele trata do assunto”. E uma voz diplomática confessou: “Gosto de animais, mas se fossem passear para outro lado…fecharia o portão!!!”

A memória literária iluminou a atmosfera: “ (História da gaivota e do gato que a ensinou a voar, para mim é das mais bonitas que li)”, e eu magiquei logo que também poderíamos convocar a Alice no País das Maravilhas, ou mesmo O Principezinho, ou ….
“E não me ponham estendida na relva porque depois não conseguem levantar-me!!!!” ecoou, de repente, uma Carolinice!


E então, como se o grupo piscasse o olho ao próprio delírio, surgiu a nota que fecha tudo com graça: “Carolina e o seu (bom) humor…”

Assim, termina esta divagação que nasceu de um vídeo partilhado no grupo e cresceu com a espontaneidade das falas que o seguiram. A bicharada entrou sem pedir licença, o absurdo tomou conta da relva inexistente e a imaginação manteve tudo unido. Carolina fechou o círculo com o seu (bom) humor, lembrando-nos que, no fim, o que importa é a alegria de inventar juntos.

 11.07.2026

GR 




28 agosto, 2026

Quando um livro relincha




 


Sempre que termino a leitura de um livro, cumpro um pequeno ritual. Caminho até às estantes da minha biblioteca, aproximo-me da secção dos livros por ler e pego num, depois noutro, deixo-me seduzir por aquele que, mais atrevido, me pisca o olho. Nem sempre é assim, mas quase sempre a escolha se faz num jogo silencioso entre mim e os livros.

Num destes dias, enquanto hesitava entre futuras leituras, pareceu-me ouvir um relinchar leve, quase um sopro vindo de dentro das páginas. Fiquei imóvel. Olhei em volta. "Estou a enlouquecer", pensei. E então vi um livro de capa verde pousado na secretária, a olhar para mim com descaramento. Na capa, um burrico novinho, de olhar tão terno, parecia chamar-me pelo nome.

- Hum… afinal queres que te leia - murmurei-lhe. E tens razão em insistir. Foste-me emprestado pela nossa amiga Carolina e já pedes regresso.

Folheei-o devagar. Detive-me nos desenhos de Bernardo Marques. Depois instalei-me na cadeira da varanda, onde a luz da tarde  se impunha, e iniciei a leitura.
O texto corria com suavidade, capítulos breves, poucas páginas… podia lê-lo numa tarde, pensei. Mas não. O livro não me deixou. Agarrou-me. Prendeu-me pelo colarinho da alma.

Dei por mim a saboreá-lo, a parar, a voltar atrás, a reler… Como a criança do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, eu também “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
Sim, estava extasiada com a beleza da escrita, com aquelas histórias simples e luminosas vividas por Platero e pelo narrador. E, ainda como a criança do conto, também eu me balançava “com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Sempre gostei deste conto e tantas vezes o recomendei para promover a leitura, mas agora, depois de ler Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, compreendo, enfim, a verdadeira profundidade da metáfora de Clarice Lispector. Há livros que não se lêem, acontecem-nos.

Quando terminei o livro, voltei ao início. Queria viver a simplicidade que emanava de cada episódio, como se eu também fosse personagem. Uma criança a brincar meigamente com Platero.
Só tenho um lamento. Como o livro não é meu, não pude sublinhar todas as frases que me encantaram. Fiquei com a sensação de ter deixado para trás pequenas pepitas de ouro que queria guardar comigo.

Já li muitos livros. Muitos, muito bons, maravilhosos, marcantes. Mas de vez em quando, encontro uma pérola assim, como esta, que me faz acreditar em Borges quando referiu: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca.” 
E talvez por isso, por esta felicidade que o livro deixou em mim, tenha decidido preparar uma pequena surpresa para quem lê comigo. Uma proposta de escrita. Um desafio suave. Nada de complicado, apenas o suficiente para que, como eu, alguém sinta o passo leve de Platero, tão discreto, a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.

18.06.2026
GR

30 julho, 2026

Entre páginas e mar

 



Entre páginas e mar

Sentada na esplanada,
acolho o calor que sobra da tarde.
Abro o livro, as palavras avançam,
tocam-me subtilmente.

Entre goles de sumo fresco,
a marginal move-se
crianças, adultos,
corpos ainda salgados do mar.

Afasto o olhar das páginas
e deixo que a vida dos outros
se misture à minha.

Memórias felizes emergem,
o presente aproxima-se delas,
e uma história nova começa.

Mais crianças surgem
uma bola que escapa,
um grito que se eleva,
um instante de alegria.

Gaivotas atravessam o ar,
umas exibem-se, outras desaparecem
no azul esverdeado.

Eis a espuma dos meus dias
serenidade que se instala,
melancolia que me acompanha.

Fico ainda na esplanada.
A tarde abranda,
o sol inclina-se num gesto lento.

O cheiro do mar aproxima-se,
traz consigo uma memória antiga
que não sei nomear.

As conversas ao redor dissolvem-se,
ficam apenas fragmentos,
uma gargalhada,
um pedido ao empregado,
um silêncio partilhado entre dois.

Viro mais uma página
As palavras avançam,
abrem espaço dentro de mim.

Uma brisa leve
atravessa a mesa,
move a folha,
traz o grito das gaivotas.

A marginal continua a passar
passos apressados,
passos vagarosos,
vidas que não conheço.

E eu permaneço
entre páginas,
entre memórias,
entre o que chega e o que fica.

Na marginal, os passos abrandam.
Há quem pare,
há quem observe,
há quem siga sem olhar.

E então a luz transforma-se.
O sol aproxima-se da linha do mar,
desce num gesto lento.

O horizonte acende-se em tons suaves,
o dia despede-se
com a mesma serenidade.

Fico a ver essa descida,
espuma dos meus dias,
onde a melancolia repousa
e a luz se recolhe.

07 julho, 2026

Submissão


(c) Federação Portuguesa de Futebol (FPF)




Portugal ardeu em campo,
jogadores a rasgar o tempo
com o país nas veias.
Força.
Entrega.

No banco, o medo sentou-se,
um treinador preso a um nome,
incapaz de tocar no intocável.
Submissão silenciosa.
Um gesto que travou o jogo.

E o “melhor” tornou-se peso de passado,
num presente que clamava mudança.

Quem não ousa, não lidera,
num país que joga com o coração inflamado.

No horizonte, ergue-se um amanhã
emergente
promitente.



11 junho, 2026

Da minha janela vivo o mar

 

                                                                        @ GR



Da minha janela avisto uma imensidão de telhas alaranjadas, onduladas como um campo de barro, mescladas de paredes brancas onde a luz se demora. Vejo, ainda, a casa do Gama - grande, forte, vigilante - como se guardasse histórias secretas, como se respirasse devagar para não perturbar o silêncio da rua. Mais abaixo, o porto estende-se devagar, e as gruas levantam os seus braços metálicos, desenhando no ar gestos lentos, quase coreografados, enquanto os barcos repousam dos ventos. E, por vezes, quando as nuvens se abrem ou o nevoeiro se distrai, adivinha-se ao fundo a silhueta de uma pequena montanha, como um segredo que o horizonte revela apenas a quem vigia.

Da minha janela vejo, ainda, o bailado das gaivotas como um volteio caprichoso que ora parece coreografia, ora pura insolência, acompanhado pelo seu tagarelar azucrinante, tão persistente que às vezes me pergunto se não o fazem de propósito só para testar a minha paciência.

Mas esta visão, tão nítida e tão arrumada, não é a que me prende. O que me leva diariamente à minha janela é outra imensidão, que não cabe no enquadramento da moldura nem se deixa domesticar pelas linhas das casas, nem pela agitação das gruas, nem tampouco pela agitação das aves.

É o azul. Um azul que muda de humor ao longo do dia: ora prateado e tímido, ora feroz e brilhante, ora espesso como tinta derramada. É o brilho que ilumina mesmo quando o céu se fecha.

Da minha janela, não observo apenas o mar, vivo-o. Ele entra comigo, espalha-se pela sala, mistura-se com o cheiro do café, com o som dos passos, com a respiração das manhãs. Há dias em que parece chamar-me pelo nome; outros em que apenas me olha, paciente, como quem sabe que voltarei sempre.

Da minha janela, o mar é mais do que paisagem. É a presença apaziguadora que me alimenta e inspira.


23 maio, 2026

Lua

 

                                                          Copilot_20260515_191430 




Lua

Como uma actriz vaidosa
que só revela o rosto quando lhe convém,
a Lua cresce, mingua, desaparece, regressa.
O telescópio procura-a, paciente,
mas ela esconde-se atrás de véus de sombra,
ora meia, ora inteira, ora quase nada,
mostrando apenas o brilho que quer.
O vento, cúmplice eterno,
ajeita-lhe o vestido de luz
para que o seu reflexo tremule no mar
onde ensaia em silêncio
um bailado secreto

 


12 maio, 2026

Samica, Alguém!

 



Quero que esta introdução agarre quem a lê, do primeiro rabisco ao último arrepio literário. Ora, convencer um leitor (entenda-se por leitor aquela pessoa que gosta mesmo de ler) não me parece tarefa difícil. Afinal, conto com o apoio dos meus poetas fantasmas, sempre prontos a soprar frases ao meu ouvido, e com as minhas canetas permanentes, que escrevem sozinhas quando eu me distraio.

Difícil, difícil, é motivar a geração polegar, essa gente que nunca pegou num livro (bom, evitemos radicalismos: quase nunca). Pois bem, é para ela que vou orientar este texto. Se não a convencer, ao menos que lhe faça cócegas literárias.

“Je est un autre.” A célebre frase de Rimbaud parece-me um bom princípio para introduzir a minha biografia, porque me revejo nela e porque os meus poetas fantasmas insistiram que a usasse, sob pena de me riscarem o rascunho com as tais canetas permanentes.
E se Rimbaud dizia que o eu é um outro, eu acrescento que às vezes esse outro tem vários nomes.

Eu, Graciosa Reis, e heterónimos me confesso. Não no sentido pessoano, não inventei biografias paralelas, nem datas de nascimento, nem estilos literários autónomos. Os meus “heterónimos” nasceram de outra fonte, do erro humano, essa força criativa que transforma Graciosa em tudo menos Graciosa. Já fui Generosa, Graciete e até Preciosa (ainda hoje não sei se era carinho, lapso ou provocação). E Grace… ah, mas esse é especial. Foi-me oferecido por um grupo de alunos e, como tudo o que nasce da imaginação estudantil, pegou que nem fogo. Os amigos adoptaram-no, e no meu blogue assino mesmo por Grace. É o único heterónimo que escolhi manter, talvez porque me dá um certo ar internacional, ou porque me lembra que, às vezes, os outros vêem em nós coisas que nós próprias ainda não vimos.

Um dia, porém, fartei-me dos equívocos. Peguei num rectângulo de cartolina, escrevi: PUM! PUM! PUM! Basta de Preciosa! Eu sou a Graciosa e preguei-o na lapela. (Os meus poetas fantasmas aplaudiram. As canetas permanentes sublinharam. Acharam que era performance artística.)

E agora? Agora chega a parte difícil: falar de mim. Mas vamos lá tentar agarrar os “polegarzinhos” antes que deslizem para outra aplicação.

Fui menina e moça; rabina e roliça; tagarela e curiosa; quiseram que fosse mulher do lar, mas preferi ser mulher da escola e dos livros; e assim permaneço! Mulher livre e com tendência para fugir das gavetas onde me tentam arrumar. E os livros… Esses foram sempre a minha verdadeira pátria. Ensinaram-me a pensar, a duvidar, a rir, a resistir, a ser mais do que esperavam de mim. Se hoje rabisco uns textos, pequenos esquisses, como os do meu velho caderno onde desabafo sem pedir licença, é porque antes li, e continuo a ler como quem respira.

Tive uma filha, plantei árvores e semeei palavras aqui e ali, como quem espalha migalhas literárias, pelo que posso afirmar que quase cumpri a máxima do poeta cubano José Martí.

Falo francês, mas não toco piano. Ufa! Escapei por pouco à catalogação de “jovem de família burguesa”. (Aqui, os meus poetas fantasmas franziram o sobrolho, mas aceitaram.)

Então, afinal, quem sou eu? A minha filha, em 2004, para um trabalho escolar, escreveu: “Conheci-a pessoalmente quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas; talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verdes acastanhados, ou o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser…”

“Chega!”, decretaram os meus poetas fantasmas, esses editores do além que me riscam frases quando estou a revelar demais. E, já agora, lembraram-me que a palavra “chega” é muito apreciada pelos polegarzinhos, como se isso fosse argumento literário. Eu, que tenho alergia à palavra (e não só à palavra…), respirei fundo e deixei-a ficar, para lhes dar esse pequeno triunfo.

Portanto, se querem saber mais… avancem umas páginas e os polegarzinhos que façam um esforço, vá.

Bom, mas respondendo à pergunta “quem sou eu?”. A minha resposta evidente é: “Samica, alguém!”, a famosa réplica de Joane, o Parvo, no Auto da Barca do Inferno. É esta a descrição que me acompanha nas redes sociais. E, verdade seja dita, nunca me senti tão bem representada.

Portanto, queridos polegarzinhos, façamos um trato simples, pousam o telemóvel por cinco minutos e eu deixo-vos entrar na minha biografia. Prometo que, ao contrário das vossas aplicações, não vos peço atualizações, só atenção. E, quem sabe, talvez descubram que virar páginas pode ser bem mais excitante do que deslizar o dedo no ecrã.



16 abril, 2026

A história que Abril abriu

 

(c) GR  Sines, 24 Abril 2024 - Espectáculo Teatro do Mar


A proposta de Maré d’Escrita, deste mês, consiste em escrever uma história que nos tivesse sido narrada. E, porque Abril regressa sempre com a sua luz inquieta, sobretudo nestes tempos sombrios, fui buscar um episódio que me habita há muito.

A história que me contaram começa num sofá em França, no dia 25 de Abril de 1974.

Eu era jovem, guardo ainda uma memória esbatida do instante, lembro o silêncio dos meus pais diante da televisão como se tivessem medo de respirar e desfazer a notícia. Absorviam as palavras do jornalista, as imagens que mostravam tanques, soldados, cravos nos canos das espingardas… Lisboa acordara em liberdade, e os cravos tinham vencido, sem sangue.
Quando a notícia terminou, o meu pai falou, ou melhor, sussurrou, como quem abre finalmente uma ferida antiga:
- Minha filha, esperávamos tanto por isto. Vivemos anos duros, em Portugal. Tínhamos trabalho nas fábricas, sim, mas mal pago. Nunca passámos fome porque sabíamos esticar o nosso dinheirito e a horta e a quinta do avô Agostinho davam-nos o resto. Mas o trabalho consumia-nos. O barulho dos teares deixava-me à beira da loucura, e a tua mãe passava horas dobrada sobre um corte de tecido.
Mas o pior era o medo. Havia olhos e ouvidos por todo o lado. Bufos escondidos em cada esquina. Um amigo nosso foi chamado ao posto da Guarda e voltou espancado, sem saber porquê. Foi aí que percebemos que já não podíamos ficar.

O tio João, que vivia em França, insistira tantas vezes para irmos com ele, mas recusámos sempre, não tínhamos passaporte e não queríamos pô-lo em risco.
Nesse ano, finalmente, cedemos. Depois da violência sobre o nosso amigo, começámos a ponderar. Eu e a tua mãe pensámos em tudo o que o nosso entendimento simples alcançava. Eras pequena e nunca falámos à tua frente, com medo de que, sem querer, deixasses escapar uma palavra.

Em Agosto de 1969, partimos no carro do tio. Foi uma aventura perigosa; atravessámos as fronteiras (Vilar Formoso e Irun/Hendaye) a pé e por caminhos de mato, orientados por um homem que não conhecíamos. Não éramos os únicos…
Quando, de novo no carro, quer em Espanha quer em França, sempre que víamos uma brigada, o coração apertava com receio que nos mandassem parar. Mas chegámos. Chegámos bem. E, mesmo sem sabermos a língua, começámos uma nova vida: escola, trabalho, uma casa. Devemos muito ao tio João e à sua família.

Por isso, esta notícia já não nos toca directamente, mas estou feliz. Muito feliz. Só espero que tudo acabe em bem, no nosso país…

Depois calou-se. Ficou ali, suspenso, com o olhar preso a um lugar que só ele via. Quando, finalmente, se virou para a minha mãe, os dois tinham lágrimas a correr devagar. Abraçámo-nos. Rimos. Chorámos. Como se a liberdade também fosse nossa.

Hoje, passados cinquenta e poucos anos, recordo essa conversa, talvez com falhas, com acrescentos, e sinto que a sombra regressa. Há ruído que confunde, há inocentes que morrem. A ganância volta a vestir-se de autoridade. A mentira volta a parecer verdade.
Estamos a perder a clareza. Estamos a perder a liberdade.

Por tudo isso, é urgente ler - e dar a ler - Saramago, Levi, Anne Frank, Vercors, Wiesel, Kertész, Arendt e tantos outros que nos legaram o seu testemunho. Para que a memória não se apague. Para que a escuridão não avance sem resistência.
Não podemos cair na indiferença.


29 março, 2026

08 março, 2026

Poemar é Amar!

 

                                                            (c) GR | S. Torpes 01.03.2020



Poemar é amar

Alinho as canetas - as de tinta permanente -
como quem encosta o ouvido ao mar
para escutar o que ainda não sabe dizer.
Alinho-as de novo,
devagar,
como quem prepara um pequeno ritual.

É Março e a maré impõe-se.
Mulher e Poesia
tocam-se como duas ondas que se reconhecem.

Há uma maresia a soprar pelas páginas,
um rumor de vozes que não se calam,
mesmo quando o vento tenta apagar-lhes o nome.

Há um sopro de Lorca a atravessar a mente:
“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

O mar entra pelas palavras
e as mulheres entram pelo mar.
Mareamos juntas: eu, a poesia, a maresia,
as vozes antigas, benevolentes.

Os poetas-fantasmas pairam sobre a página,
trazem versos húmidos,
uma espuma invisível que permanece.

E penso nas mulheres
que escreveram contra a corrente,
que guardaram a luz,
que desbravaram a onda para que eu
pudesse chegar aqui.

Poemar é amar.
E amar é deixar que o mar me atravesse
como quem sussurra: continua.

GR 

16 fevereiro, 2026

Valha-me Deus ! (e os outros também)

 



Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia. Sentas‑te e debruças‑te para o caderno de capa preta. Abres na primeira página em branco. Lês, relês e voltas a ler as premissas para a redacção do texto que se supõe ser criativo e sentido. O peso dos poetas‑fantasmas bloqueia‑te a inspiração.

Pensas longamente. Pegas na caneta de tinta azul, insinuas o primeiro gesto de escrita. As palavras permanecem mudas. Amaldiçoas quem propôs este exercício.

- Valha‑me Deus! - Exclamas.

Segue‑se um silêncio tão espesso que até os teus pensamentos parecem andar descalços para não o perturbar. Pressentes um sorriso sarcástico dos deuses Al Berto, Eugénio, Sophia e Fernando, reunidos no Olimpo como quem assiste a uma peça experimental. E Baco, claro, está com eles! Não por devoção, mas porque nunca perde uma oportunidade de servir um bom néctar.

- Valha‑me Deus! - Repetes, angustiada, enquanto ecoa uma gargalhada e um “Ah, ah, ah! Débrouille‑toi, ma chère!”. Só pode ser Al Berto. Se fosse o Fernando, tê-lo-ia dito em inglês, com aquele ar de quem sabe sempre mais do que tu.

- Valha‑me Deus ou valham‑me os deuses! - Insistes, já sem saber a quem te diriges.

Esboças a palavra AMOR sem convicção, riscas, suspiras. Não se pode começar assim, pensas. O desespero instala‑se e, no fundo, sabes que não é só o exercício que te pesa. Há dias em que escrever parece um acto de resistência, e hoje é um deles.

Mas então, uma voz doce sussurra‑te ao ouvido: - Pensa no tempo presente. Aproxima‑se um dia de decisões importantes. O dia 8 de Fevereiro. Relaciona‑o com a data que hoje se assinala: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

- És tu, Calíope? Minerva? - Perguntas, aturdida.

- Não importa quem sou. Debruça‑te para a página que ainda tens em branco e verás que um poema surgirá.

E assim, retomas a caneta de tinta azul. A página continua branca, mas já não te intimida tanto. Talvez fosse do sussurro, talvez fosse da presença silenciosa dos poetas que, apesar das gargalhadas, sempre te empurram para a palavra certa. Ou talvez fosse apenas a consciência de que, mesmo quando tudo parece vacilar, há sempre uma frase que nos salva.

Como tens em ti ainda alguns sonhos do mundo, respiras fundo, voltas a alinhar as canetas, como se esse gesto tivesse algum poder mágico e deixas que as palavras surjam. As primeiras chegam tímidas, mas vêm cheias de memórias. Outras trazem urgência. E então, quase sem dares por isso, o poema começa a escrever‑se a si próprio:

Porque vivemos tempos difíceis,
as palavras secretas vêm cheias de memórias.

Porque a democracia parece vacilar,
é urgente destruir certas palavras.

Porque os outros se calam mas tu não,
é urgente reacender a voz que permanece.

Não podemos ficar na indecisão,
nem suportar a gritaria que nos rouba o silêncio.

Porque não podemos ignorar o passado,
aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade.

E assim, no exacto lugar onde o medo treme,
o gesto de escrever torna-se resistência.

É urgente o amor, é urgente permanecer.

 

27.Jan.2026

GR

Nota: os versos a negrito são de escritores e foram indicados como premissas no exercício de escrita criativa

09 fevereiro, 2026

Ontem foi um bom dia

 


Ontem foi um dia bom.
O tempo, por um instante, abriu-se como quem concede uma trégua. A chuva recolheu-se, o vento sossegou, e o sol, tímido mas insistente, procurou caminho entre as nuvens.
Em democracia, em liberdade, o povo saiu a votar e eu fui com ele, com a serenidade de quem participa no desenho do dia.
Depois procurei o mar. Sempre o mar, essa vastidão que me recompõe. Caminhei devagar, deixei que a luz se refletisse na água e fosse dissolvendo a angústia vivida pelas tempestades, como se o horizonte a acolhesse e a desfizesse em silêncio.
Sentei-me numa esplanada, bebi café, li umas páginas de Llosa, como quem conversa baixinho com o mundo.
À tarde, regressou uma chuva mansa, contínua, quase um murmúrio. Deixei-a cair sem pressa.
Na penumbra de uma sala, entreguei-me a Hamnet, de Chloé Zhao, e senti aquele poder raro da arte: iluminar por dentro, transformar, abrir frestas, oferecer catarse, mesmo quando lá fora o céu se fecha.
À noite, duas vitórias somaram-se ao dia: a segura do meu candidato, a sofrida do meu Benfica. E percebi que, entre o voto, o mar, o café, a leitura e o cinema, tinha regressado às coisas simples, aquelas que sustentam o que somos.
Ontem foi, verdadeiramente, um dia bom.


GR

21 janeiro, 2026

Incidência

 




Incidência


Vejo‑te de tantos sítios,
silhueta calma.
Mas é daqui,
onde o horizonte respira,
que melhor te desenho.

Daqui,
a tua forma arredonda‑se
num seio firme,
cedendo ao vai‑e‑vem
das águas claras que te embalam.

Caminho a linha que nos separa.

Estás morena!
O sol pousa em ti
como quem te reclama.

E brilhas!

Sinto uma brisa leve,
cúmplice,
que te acaricia.

Como desejaria tocar‑te,
colher o pêssego secreto
que dissimulas.

O mar impede o gesto,
aquieto-me na incidência do teu brilho.


GR

10 janeiro, 2026

Sublimidade

 

                                       
  (c) GR


Sublimidade 


Rasgos ardentes
tingem o horizonte

Abraçam o ar gélido 

A esfera de um amarelo intenso
Inicia a descida 
calma
segura 

Aproxima-se 

Beija o oceano
entra nele
uma parte
inteira

Diluem-se
num só brilho

Ilusoriamente


GR



24 dezembro, 2025

Manta de RetalhEcos

 




Eu passava horas a mover as figuras do presépio. Até que um dia, como se fosse a manipuladora de um teatro secreto, escolhi fazer diferente. O burro precisava de férias, coloquei-o em cima da televisão. O pastor sorridente juntou-se à vaca desconfiada, enquanto a ovelha indagava o céu de papel azul. O anjo, cansado de vigiar, mudava de lugar todas as noites, e os reis magos descansavam no sofá como se fosse paragem de viagem.

Entre risos e invenções, o camelo reclamava da falta de almofada, o cão refugiava-se na fruteira, as bagas vermelhas de azevinho brilhavam como pontos de fogo e o musgo guardava o cheiro da floresta molhada. Mas ao fundo, na cozinha, já se adivinhava o perfume doce das filhoses e dos sonhos, misturado com o lume da lenha e vozes familiares.

Foi então que Maria, curiosa e atenta, se afastou e caminhou até à biblioteca. Entre prateleiras silenciosas, escolheu livros para ler ao menino Jesus, como se cada página fosse um gesto de carinho, uma história guardada para embalar o tempo.

Havia também a expectativa silenciosa de surpresas embrulhadas em mistério, como se a noite trouxesse tesouros escondidos. E eu, sentada no chão, ria baixinho das novas posições das figuras, ao mesmo tempo que sentia que aquele cenário era uma parte de mim.

Não era apenas arrumar peças — era bordar segredos invisíveis, inventar diálogos, e guardar no coração lembranças que voltavam sempre, como se a mesa fosse palco de mundos eternos, feitos de doçuras e alegria.

Hoje, estas histórias fazem parte da minha manta de retalhecos, feita de ecos e ternura, como se cada gesto devolvesse lembranças guardadas — aquelas que voltam a acender-se sempre que o presépio ganha voz.



21 novembro, 2025

𝑨 𝑴𝒂𝒏𝒕𝒂, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono

 



Pequeno livro maravilhoso que nos transporta para histórias da nossa infância.

Cada retalho de tecido guarda uma surpresa. Pode ser lembrança, pode ser brincadeira, pode até transformar-se em roupa nova para uma boneca. Quem sabe quantas histórias ainda estão escondidas nas gavetas, à espera de serem descobertas? 


Retalhos travessos

Este texto nasceu inspirado no livro A manta – uma história aos quadradinhos (de tecido), escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Yara Kono. Tal como nessa história, também aqui um retalho de tecido guarda memórias, brincadeiras e segredos. Entre linhas e costuras, o tecido transforma-se em personagem e testemunha de aventuras, trazendo à superfície lembranças da infância e da imaginação.

Quando eu era pequena, adorava brincar na rua com os meus amigos. Corríamos, ríamos e inventávamos jogos sem fim. Mas este retalho de tecido não vinha da rua.

A minha irmã era a costureira da família. Fazia vestidos para mim, mas eu detestava prová-los. Ficava de pé, muito direita, enquanto ela espetava alfinetes para ajustar. “Ai, que já me picaste!”, gritava eu, e ela respondia: “Não te mexas, senão nunca mais acabo!”

Na casa havia metros e metros de tecidos lindíssimos. Pareciam rios coloridos a escorrer das prateleiras. Eu olhava para eles e pensava: “Se eu fosse costureira, faria roupas para a minha boneca, que só tem uma muda de roupa, coitadinha.”

Um dia, não resisti. Peguei na tesoura como quem pega num segredo e cortei um pedaço de tecido. “Vai ser uma saia plissada, igual às da moda!”, pensei. Às escondidas, cosi e cosi, com muito cuidado. Quando terminei, fiquei orgulhosa: a minha boneca parecia uma verdadeira princesa!

Mas… a minha irmã descobriu. Olhou para o tecido cortado e disse: “Quem fez isto?” Eu tentei esconder-me atrás da boneca, mas não resultou. Levei um grande raspanete e fiquei uma semana sem brincar na rua.

Mesmo assim, quando olhava para a boneca de saia nova, eu sorria. Porque às vezes, uma travessura também pode ser uma aventura.

GR



10 novembro, 2025

Vigília em desassossego



A partir de dois versos de Al Berto escrever um texto

ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem


                                     in Uma existência de papel - Poema 5 "Eremitério"

Premissas:
- iniciar o texto com os dois versos indicados;
- usar, no corpo do texto, as seguintes palavras: luz, alga(s), mulheres, nocturno, obsessão, mar.

_____________ 

Como já tinha escrito uma carta com este início, também para um exercício de escrita criativa, retomei o texto e, em ressonância com a obra Vigílias nasce este novo texto que prolonga a vigília em desassossego.


Ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem...


Como te esperei — ansioso, desolado.
Deambulando pelas ruas, procurava-te no rosto fechado das mulheres sentadas à soleira das portas, espiando o crepúsculo da vida.
Nada. Absolutamente nada.

Sentado na areia, desejava que as algas te arrastassem até mim.
Na mesma posição, ocupado em memórias fugazes, apenas perturbado pelo silêncio sibilante das ondas, vivi dias lentíssimos… sem ti.

A saudade, feroz, atormentava-me o coração e ofuscava a luz radiante do sol que se espelhava no mar — único confidente do meu desassossego.
A espera tornou-se obsessão, a inquietude dos dias invadiu-me e tornei-me, como tu, um rosto louco, nocturno, em continuada vigília.

Agora que regressaste, afasto a melancolia e recupero o ensejo de preencher a folha de papel que há muito aguardava a tinta capaz de lhe dar sentido.
“ESCREVO-TE A SENTIR tudo isto
e num instante de maior lucidez
”

Promete que não voltas a partir...
Preciso de ti — aqui, continuamente.
Só contigo saberei justificar esta existência de papel.


GR