24 maio, 2026

Laureados do Festival de Cinema de Cannes 2026

 



A 79.ª edição do maior festival de cinema do mundo chegou, hoje, ao fim na Croisette. E os grandes vencedores de Cannes 2026 já foram revelados!

O prestigiado júri liderado pelo realizador sul-coreano Park Chan-wook  anunciou as suas decisões e entre  aplausos e algumas surpresas, a cobiçada Palma de Ouro foi atribuída ao filme Fjord, do realizador romeno Cristian Mungiu.




Lista Oficial de Vencedores:

Palma de Ouro: Fjord, de Cristian Mungiu.

Grande Prémio: Minotaure (Minotaur), de Andreï Zviaguintsev.

Prémio do Júri: Das Geträumte Abenteuer (The Dreamed Adventure), de Valeska Grisebach.

Melhor Realização (empate): Pawel Pawlikowski, por Fatherland.
Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra.

Melhor Argumento: Emmanuel Marre, por Notre Salut.

Melhor Actriz: Virginie Efira e Tao Okamoto, em Soudain, de Hamaguchi Ryusuke.

Melhor Actor: Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, em Coward, de Lukas Dhont.

Palma de Ouro de Curtas-Metragens: Los Contricantes, de Federico Luis.

Caméra d'Or (Melhor Filme de Estreante): Ben'imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo

Un Certain Regard:

Prémio Un Certain Regard: Everytime, de Sandra Wollner

Prémio do Júri: Les éléphants dans la Brume, de Abinash Bikram Shah

Prémio Especial do Júri: Le Corset, de Louis Clichy

Melhor actor: Bradley Fiomona Dembeasset, em Congo Boy, de Rafiki Fariala

Melhores actrizes: Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro, Mariangel Villegas, em Siempre Soy tu Animal Materno, de Valentina Maurel


Curiosidade da edição: O júri decidiu premiar o trabalho de equipa e a química no ecrã. Isto resultou em empates duplos históricos nas categorias de representação, onde as duplas de protagonistas dos filmes de Hamaguchi Ryusuke (Soudain) e Lukas Dhont (Coward) partilharam os grandes prémios da noite!



23 maio, 2026

Lua

 

                                                          Copilot_20260515_191430 




Lua

Como uma actriz vaidosa
que só revela o rosto quando lhe convém,
a Lua cresce, mingua, desaparece, regressa.
O telescópio procura-a, paciente,
mas ela esconde-se atrás de véus de sombra,
ora meia, ora inteira, ora quase nada,
mostrando apenas o brilho que quer.
O vento, cúmplice eterno,
ajeita-lhe o vestido de luz
para que o seu reflexo tremule no mar
onde ensaia em silêncio
um bailado secreto

 


22 maio, 2026

𝑪𝒊𝒏𝒛𝒂𝒔, de Grazia Deledda

 


Autor: Grazia Deledda
Título: Cinzas
Tradutora: Graziella Saviotti
N.º de páginas: 252
Editora: Sibila Publicações
Edição: Setembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3768)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Festival de Cannes 2026

 

                                                        (c) Festival de Cinema de Cannes 

O cartaz oficial da edição de 2026  presta homenagem a Thelma & Louise, aventura feminista na estrada de Ridley Scott, estreada em Cannes há 35 anos.


A 79.ª edição do Festival de Cinema de Cannes decorre entre 12 e 23 de maio e reúne alguns dos maiores realizadores e actores do cinema internacional. Dezenas de filmes serão exibidos pela primeira vez e muitos deles surgirão como candidatos a outros prémios de cinema. 

São 22 filmes candidatos à Palma de Ouro.

Portugal também se faz representar por Tiago Guedes com Aquí na secção Cannes Première, mas fora da competição principal; Daniel Soares compete na categoria de curtas-metragens com Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio; Clara Vieira participa na La Cinef, dedicada a filmes de escolas de cinema, com Onde Nascem os Pirilampos.

Cannes tornou-se igualmente conhecido pelo glamour, pelos vestidos, pelas jóias e pelas poses de estrelas internacionais na famosa passadeira vermelha da Croisette.


17 maio, 2026

𝑨𝒔 𝑰𝒍𝒉𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔 - 𝑵𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝒑𝒂𝒊𝒔𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Raul Brandão

 


Autor: Raul Brandão
Título: As Ilhas Desconhecidas 
N.º de páginas: 204
Editora: Quetzal
Edição: Março 2011
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (3467)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, de Raul Brandão, é um livro de viagens que se lê como se percorresse uma galeria de quadros vivos. O autor não descreve apenas as ilhas, pinta-as, atribui-lhes um encanto particular e muito próprio. Cada página é uma tela onde a luz, o vento, o mar e as pessoas surgem em pinceladas largas, ora luminosas, ora sombrias, mas sempre intensas.
“Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com o sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima.” (p. 146)

Como acabei de referir, Brandão encontra nos Açores uma beleza agreste, feita de contrastes. As ilhas que visita revelam-lhe a alma do arquipélago e oferecem-lhe uma paleta inesperada, o dourado dos campos, o roxo profundo das hidrângeas/hortênsias, os verdes múltiplos das encostas, o alaranjado do sol, o negro do pico, o branco e cinzento das nuvens e o azul imenso do mar. Ele próprio se deslumbra com as “manchas roxas” das hidrângeas que bordam as estradas, e escreve, com gratidão poética, que o homem que teve essa ideia merecia uma estátua.
Mas para além da beleza, Brandão vê a dureza da vida. No Corvo, sobretudo, encontra uma comunidade pequena e resistente, moldada pelo isolamento, pelo clima severo e pela força do mar. A vida ali é um combate diário, mas também um exemplo de união. Todos se conhecem, todos se ajudam, todos dependem uns dos outros, todos são parentes. É uma humanidade sólida e silenciosa, que o impressiona tanto quanto a paisagem.

A essa dureza junta-se a pesca da baleia, uma das tarefas mais árduas e perigosas que ele testemunha. Brandão descreve os botes frágeis lançados ao mar, a coragem dos homens que enfrentam o animal colossal, o trabalho exaustivo que se segue para extrair o óleo e o cheiro intenso que impregna roupas, mãos, ar, chão. A peca à baleia surge como uma epopeia quotidiana feita de risco numa relação íntima com o mar.

O Pico, visto à distância, torna-se quase personagem. De São Jorge ou do Faial, a montanha surge como uma aparição que muda de forma conforme a luz e o nevoeiro.
“ISTO QUE DE LONGE era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno.” (p. 93)

E depois há a Madeira, que completa o arco da viagem. Após a rudeza atlântica dos Açores, surge como um jardim suspenso, mais luminoso e “muito inglês”, demasiado inglês para o autor. Aqui, a natureza parece dialogar com o homem de forma mais suave. A cor também é outra, mais tropical, mas o olhar crítico de Brandão mantém-se atento, impressionista, capaz de transformar cada detalhe em pintura.

A escrita de Raul Brandão é de uma enorme sensibilidade. Não se limita ao olhar, oferece o sabor do leite, do vinho, das frutas; convoca o cheiro da terra, o aroma dos ananases, o perfume do chá nas encostas, e até a doçura das bananas madeirenses. Cada frase abre uma porta para dentro da paisagem, como se o leitor respirasse o mesmo ar que ele. É uma prosa que vê, que cheira, que toca e que, por isso mesmo, pede ritmos próprios, pausas, desvios (pesquisa de imagens), reflexões e até sorrisos. Alguns desses ritmos pertencem, apenas, à beleza da frase. Os travessões, por exemplo, o autor usa‑os com naturalidade e insistentemente. Para os espíritos apressados que hoje vêem travessões e logo suspeitam de máquinas, vale a pena lembrar que Raul Brandão — esse pintor de palavras — usava e abusava deles muito antes de existir qualquer IA. O estilo não é um algoritmo, é uma voz. E a dele continua viva, luminosa e cheia de travessões.

No conjunto, As Ilhas Desconhecidas é um livro que revela lugares e modos de estar no mundo. A força das paisagens, a dignidade das gentes, a vibração das cores, a dureza da baleação, a instabilidade do tempo e a escrita que parece pintura fazem desta obra uma das mais belas viagens literárias da nossa literatura.



15 maio, 2026

Doação do Espólio de Al Berto à BNP

           


" Foi assinado, na Sala do Conselho da BNP, o Termo de Doação do Espólio de Al Berto, por vontade de sua irmã, Maria Cristina Raposo Pidwell Tavares, e de sua sobrinha, Joana Amaral Tavares, em cerimónia que se realizou dia 12 de Julho de 2006, constituindo mais um significativo contributo para o enriquecimento do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (ACPC) desta Instituição.

Tendo adoptado o nome poético de Al Berto, Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em 1948, em Coimbra, e faleceu em Lisboa, em 1997. Exilado em Bruxelas a partir de 1967, onde continuou estudos anteriores no domínio das artes plásticas, antes de se dedicar à literatura, publicou o seu primeiro livro de poemas, À Procura do Vento no Jardim de Agosto, em 1977. Cultivando uma poesia que «irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras», numa senda próxima do surrealismo que articula o real com o imaginário, o pendor confessional da sua criação lírica labora num universo de imagens que alguns títulos dos seus livros evidenciam, como Uma Existência de Papel, de 1985, ou A Secreta Vida das Imagens, de 1991. À reunião da sua poesia, em 1988, sob o título O Medo, que nesse ano lhe valeu a atribuição do Prémio Pen Club, seguiu-se a única prosa, Lunário, de 1988, e O Anjo Mudo, de 1993, quando estava já consagrado como um dos mais importantes expoentes da sua geração.

O espólio do escritor inclui sobretudo manuscritos poéticos, incluindo as traduções de que vários dos títulos de Al Berto foram objecto, para além de correspondência - cuja consulta ficará reservada durante duas décadas - e apontamentos pessoais e biográficos."


Publicação da BNP : aqui


14 maio, 2026

Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros | Maré d'Escrita

 


Quinta-feira, dia 14 de maio, pelas 17h00, na cafetaria do Centro de Artes, com uma clara e belíssima vista para o mar, decorreu mais um encontro de leitores do Clube de Leitura - Uma Casa sem Livros, dinamizado pela Biblioteca Municipal de Sines.
O encontro foi precedido da sessão Maré d'Escrita. Lemos oito textos que responderam à pergunta pertinente "Quem sou eu?". Pretendia-se uma introdução apelativa e criativa à nossa futura (quem sabe?) (auto)biografia. Ficámos a conhecermo-nos um pouco melhor e até houve abracinhos.


Ao Clube de leitura compareceram doze leitores. Lemos excertos e apresentámos livros de autores Espanhóis com direito a dois intrusos.
Foram partilhas ricas, diversificadas, e como sempre de excelentes descobertas e muitas sugestões que aumentam a lista individual de cada um.
E hoje, tivemos direito a miminhos doces. Alguns bem provocadores como poderão constatar numa das fotografias.

A literatura tem a força de unir pessoas e leva-nos ao "abismo da dúvida." (faz sentido?)
Para o próximo encontro, vamos ler autores sul-americanos de expressão castelhana. Escolha livre de livro(s) e autor/a.

Eis alguns dos livros que nos maravilharam, na sessão:

D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes
Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez
Caruncho, de Layla Martinez
Berta Isla, de Javier Marías
O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
Cães maus não dançam, de Arturo Pérez-Reverte
Nada, de Carmen Laforet
O Infinito num Junco, de Irene Vallejo
Alguém falou sobre nós, de Irene Vallejo
O tempo entre costuras, de Maria Dueñas
As vinhas de la Templenza, de Maria Dueñas
A Louca da Casa, de Rosa Montero
O peso do Coração, de Rosa Montero
Instruções para salvar o mundo, de Rosa Montero
Nada de Outro Mundo, de Antonio Muñoz Molina
A catedral do Mar, de Ildefonso Falcones
Os Herdeiros da Terra, de ldefonso Falcones
A Colmeia, de Camilo José Cela
Crónica do Rei Pasmado, de Gonzalo Torrente Ballester
A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón
O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón
Patagónia Express, de Luís Sepúlveda
O Anjo Mudo, de Al Berto

13 maio, 2026

O Armário ou O Quarto Poema do Português Errante | Manuel Alegre

  


RTP Arquivos | 18 - 05 - 2005 | Poema lido pelo ator José Pedro Gomes.

Para ouvir clicar na imagem ou aceder pelo link: 
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/o-armario-ou-o-quarto-poema-do-portugues-errante/




O armário 


Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.

Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.

E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.

Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as cartas escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.

Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.

Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel de barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.

Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.


Manuel Alegre
in Livro do Português Errante

12 maio, 2026

Samica, Alguém!

 



Quero que esta introdução agarre quem a lê, do primeiro rabisco ao último arrepio literário. Ora, convencer um leitor (entenda-se por leitor aquela pessoa que gosta mesmo de ler) não me parece tarefa difícil. Afinal, conto com o apoio dos meus poetas fantasmas, sempre prontos a soprar frases ao meu ouvido, e com as minhas canetas permanentes, que escrevem sozinhas quando eu me distraio.

Difícil, difícil, é motivar a geração polegar, essa gente que nunca pegou num livro (bom, evitemos radicalismos: quase nunca). Pois bem, é para ela que vou orientar este texto. Se não a convencer, ao menos que lhe faça cócegas literárias.

“Je est un autre.” A célebre frase de Rimbaud parece-me um bom princípio para introduzir a minha biografia, porque me revejo nela e porque os meus poetas fantasmas insistiram que a usasse, sob pena de me riscarem o rascunho com as tais canetas permanentes.
E se Rimbaud dizia que o eu é um outro, eu acrescento que às vezes esse outro tem vários nomes.

Eu, Graciosa Reis, e heterónimos me confesso. Não no sentido pessoano, não inventei biografias paralelas, nem datas de nascimento, nem estilos literários autónomos. Os meus “heterónimos” nasceram de outra fonte, do erro humano, essa força criativa que transforma Graciosa em tudo menos Graciosa. Já fui Generosa, Graciete e até Preciosa (ainda hoje não sei se era carinho, lapso ou provocação). E Grace… ah, mas esse é especial. Foi-me oferecido por um grupo de alunos e, como tudo o que nasce da imaginação estudantil, pegou que nem fogo. Os amigos adoptaram-no, e no meu blogue assino mesmo por Grace. É o único heterónimo que escolhi manter, talvez porque me dá um certo ar internacional, ou porque me lembra que, às vezes, os outros vêem em nós coisas que nós próprias ainda não vimos.

Um dia, porém, fartei-me dos equívocos. Peguei num rectângulo de cartolina, escrevi: PUM! PUM! PUM! Basta de Preciosa! Eu sou a Graciosa e preguei-o na lapela. (Os meus poetas fantasmas aplaudiram. As canetas permanentes sublinharam. Acharam que era performance artística.)

E agora? Agora chega a parte difícil: falar de mim. Mas vamos lá tentar agarrar os “polegarzinhos” antes que deslizem para outra aplicação.

Fui menina e moça; rabina e roliça; tagarela e curiosa; quiseram que fosse mulher do lar, mas preferi ser mulher da escola e dos livros; e assim permaneço! Mulher livre e com tendência para fugir das gavetas onde me tentam arrumar. E os livros… Esses foram sempre a minha verdadeira pátria. Ensinaram-me a pensar, a duvidar, a rir, a resistir, a ser mais do que esperavam de mim. Se hoje rabisco uns textos, pequenos esquisses, como os do meu velho caderno onde desabafo sem pedir licença, é porque antes li, e continuo a ler como quem respira.

Tive uma filha, plantei árvores e semeei palavras aqui e ali, como quem espalha migalhas literárias, pelo que posso afirmar que quase cumpri a máxima do poeta cubano José Martí.

Falo francês, mas não toco piano. Ufa! Escapei por pouco à catalogação de “jovem de família burguesa”. (Aqui, os meus poetas fantasmas franziram o sobrolho, mas aceitaram.)

Então, afinal, quem sou eu? A minha filha, em 2004, para um trabalho escolar, escreveu: “Conheci-a pessoalmente quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas; talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verdes acastanhados, ou o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser…”

“Chega!”, decretaram os meus poetas fantasmas, esses editores do além que me riscam frases quando estou a revelar demais. E, já agora, lembraram-me que a palavra “chega” é muito apreciada pelos polegarzinhos, como se isso fosse argumento literário. Eu, que tenho alergia à palavra (e não só à palavra…), respirei fundo e deixei-a ficar, para lhes dar esse pequeno triunfo.

Portanto, se querem saber mais… avancem umas páginas e os polegarzinhos que façam um esforço, vá.

Bom, mas respondendo à pergunta “quem sou eu?”. A minha resposta evidente é: “Samica, alguém!”, a famosa réplica de Joane, o Parvo, no Auto da Barca do Inferno. É esta a descrição que me acompanha nas redes sociais. E, verdade seja dita, nunca me senti tão bem representada.

Portanto, queridos polegarzinhos, façamos um trato simples, pousam o telemóvel por cinco minutos e eu deixo-vos entrar na minha biografia. Prometo que, ao contrário das vossas aplicações, não vos peço atualizações, só atenção. E, quem sabe, talvez descubram que virar páginas pode ser bem mais excitante do que deslizar o dedo no ecrã.



05 maio, 2026

O Diabo Veste Prada 2, de David Frankel

 


120 min | M/12 | Comédia Dramática | 2026 | EUA
Realização: David Frankel
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway , Emily Blunt, Stanley Tucci, Kenneth Branagh , Simone Ashley, Justin Theroux , Lucy Liu , Lady Gaga, ...


O Diabo Veste Prada 2 regressa ao grande ecrã.
Vinte anos depois, o elenco original volta a reunir‑se para aceitar o desafio de David Frankel, agora com argumento de Aline Brosh McKenna, numa sequela divertida e cheia de estilo que revisita o universo da moda em Nova Iorque - com uma irresistível passagem por Milão - e, claro, pela revista Runway.

O filme mantém o espírito do clássico de 2006: humor afiado, intrigas saborosas, drama na medida certa e aquela paixão que sempre definiu o seu charme.

Nos papéis principais brilham Meryl Streep como a inconfundível e maravilhosa Miranda Priestly, Anne Hathaway como a determinada Andy Sachs, Emily Blunt como a feroz Emily Charlton,  rival saída directamente da Dior e Stanley Tucci como o sempre perspicaz e reservado Nigel.

Foram duas horas bem passadas e divertidas, com o ritmo certo para quem gosta de mergulhar, sem culpas, no brilho exagerado do mundo da moda. E, no meio de tanta correria e intriga, ainda tive o prazer de revisitar Milão, os seus lugares mais marcantes, incluindo o mural da Última Ceia, que me voltou a prender pela luz, pela quietude e por aquela sensação de estar diante de algo que respira há séculos.



03 maio, 2026

𝑵𝒂𝒅𝒂, de Carmen Laforet

 

Autora: Carmen Laforet
Título: Nada
Tradutores: Sofia Castro Rodrigues;
Virgílio Tenreiro Viseu
N.º de páginas: 275
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (3.ª): Junho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3720)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Li Nada, de Carmen Laforet, e fiquei com tudo. A escrita é maravilhosa, precisa, sensorial, cheia de uma força silenciosa. As descrições dos ambientes funcionam como verdadeiras cenas cinematográficas, expondo com nitidez os contrastes entre o belo e a liberdade das escapadelas da protagonista e o sombrio, obsessivo e quase sufocante da casa da rua Aribau. Acompanhamos Andrea, recém‑chegada a Barcelona para estudar, carregando aquela esperança frágil que só os dezoito anos conseguem suportar. Mas o que encontra na casa da rua Aribau não é acolhimento, mas um labirinto de adultos partidos, tensões antigas, gritos, violência. Andrea move‑se como quem tenta decifrar um enigma emocional, observando tudo com uma lucidez que a protege e a fere ao mesmo tempo.

A força do romance está muito na forma como Carmen Laforet constrói esta protagonista. Andrea não é heroína nem vítima. É uma jovem que tenta sobreviver ao caos com dignidade, inteligência e uma espécie de inocência resistente. A sua voz é contida e vulnerável, moldada pelo medo e pela lucidez; uma força que não se impõe, mas resiste.

À medida que avançamos, percebemos que a casa é quase uma personagem; um organismo cansado, cheio de quartos sujos, sombrios, desgastados onde a vida se desfez. A violência doméstica, tanto física como psicológica, instala‑se, moldando gestos, medos e relações; a fome impõe-se; a pobreza infiltra‑se nos objectos, nos silêncios, nos corpos e os sonhos perdidos pairam sobre cada figura como poeira antiga.

E, embora Laforet nunca o diga explicitamente, a devastação do regime franquista está em todas as entrelinhas. Está na miséria que se normalizou, na agressividade que se tornou linguagem, na claustrofobia moral, na sensação de que o futuro foi amputado. O romance não precisa mencionar Franco para que o sintamos. Ele está no ar pesado, na cidade cinzenta, na casa que parece sobreviver a um cerco invisível. É o pós‑guerra como estado psicológico. Uma ferida que não se vê, mas que molda tudo.

É aqui que o prefácio de Vargas Llosa funciona como farol. Ele ilumina o que o romance deixa nas sombras, a coragem literária de Laforet, a sua capacidade de captar a verdade emocional de uma época inteira sem recorrer ao discurso político. Vargas Llosa mostra como Nada é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico, pessoal e colectivo e como Andrea encarna uma geração que tenta respirar depois da devastação.

No final, Andrea desce as escadas “com viva emoção”, recordando a esperança com que as subira e percebendo que da casa da rua Aribau “não levava nada consigo”. Lá fora, o ar fresco da manhã e os primeiros raios de sol anunciam a possibilidade de um recomeço.

Para contrariar o Nada que a acompanhou, permaneço na claridade que finalmente se abre e na esperança que ela deixa entrever.