MAR

MAR

15 julho, 2018

Debaixo da Pele de David Machado




Livro perturbador, doloroso. Está dividido em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, havendo, no entanto, pontos de contacto entre elas. Estamos perante, várias personagens traumatizadas por um passado de violências físicas ou emocionais que se instalam “debaixo da pele” e que provocam medo, pesadelos, dor e sofrimento. Pensam que isolando-se do mundo conseguirão ultrapassar a mágoa e a culpa que carregam. Mas a solidão forçada só adensa o desencanto das suas vidas e, simultaneamente, das pessoas mais próximas. No entanto, na terceira parte, pela voz de uma criança, fica a esperança de uma vida melhor, a esperança da superação do trauma e a possibilidade de amar. 

A escrita de David Machado provoca no leitor uma forte curiosidade, obrigando-o a ler continuadamente. O suspense criado à volta das personagens está muito bem construído, revelando ou sugerindo, por vezes, apenas o essencial, facto que não impede o leitor de entrar emocionalmente na pele das personagens. Pelo contrário.




08 julho, 2018

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado de Gonçalo M. Tavares





Neste livro, o primeiro de Mitologias, Gonçalo M. Tavares resgata alguns mitos (a primeira história decorre num labirinto) e apresenta-nos várias personagens fantásticas e por vezes absurdas que não são identificadas por nomes, mas por características muito próprias (Ber-lim; A mulher-ruiva; O Filho-mais-velho, entre outros). É desta forma peculiar e surreal que o autor vai descrevendo a natureza humana, por vezes cruel e perversa. 
A escrita linear e a narração rápida da ação (sem longas explicações) parecem facilitar a leitura. Mas trata-se de uma falsa aparência, isto é, a primeira leitura não satisfaz o leitor, obriga-o a recuar, a reler, a questionar-se se entendeu a mensagem, se não há possibilidades de outras leituras, de outras interpretações. E é este exercício que muito me agrada nos livros deste autor.


01 julho, 2018

Contos Vagabundos de Mário de Carvalho



17 contos vagabundos seguidos de 11 deambulações de Cat’ e Gat’, todos publicados, anteriormente, em revistas ou antologias como nos explica o próprio autor. Alguns são cómicos, outros absurdos, outros ainda fantásticos. Todos carregados de ironia, facto que os leitores de Mário de Carvalho não estranharão. Mais uma vez estamos perante a crítica demolidora da sociedade portuguesa. Gostei muito, e em especial do primeiro que funciona como introdução aos restantes textos.



13 junho, 2018

Bartleby, o Escrivão de Herman Melville



Excelente conto de Herman Melville. O narrador, advogado de sucesso de Wall Street, contrata um homem, Bartleby, para desempenhar as funções de copista. Nos primeiros dias tudo corre bem, mas a partir de um dado momento, sem razões aparentes, Bartleby responde ao seu chefe com um desconcertante “Preferia não o fazer”. Esta constante recusa a todas as solicitações do seu chefe vai interferir na vida das personagens envolvidas, sobretudo na do narrador que tudo faz para entender o comportamento do seu empregado. 

É um livro marcante que nos faz reflectir apesar da sua história simples, mas incompreensível se aplicada aos nossos dias. Quem se atreve, hoje, a responder ao seu superior com um simples “preferia não o fazer” ? 

Livro de leitura obrigatória.



Um poema de Al Berto

                                                                                 Foto retirada da web



hoje é dia de coisas simples

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje


Al Berto

12 junho, 2018

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury



Fahrenheit 451de Ray Bradbury é um clássico da ficção-científica e da distopia, na linha do 1984 de George Orwell e do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O título remete para a temperatura a que os livros ardem, na escala Fahrenheit. Estamos perante uma forte crítica à sociedade norte-americana da época (a primeira edição do livro é datada de 1953). Neste mundo, todos têm a ilusão de ser felizes porque são formatados com o mesmo tipo de programação que visualizam na televisão, estão proibidos de ler e de ter livros e pensar é considerado uma coisa inútil. Na história, Guy Montag desempenha o papel de bombeiro, porém a sua função não é a de apagar incêndios, mas sim de queimar livros e casas sempre que alguém denuncia a existência de livros numa casa. Mais tarde, Montag conhece uma pessoa que vai alterar o rumo da sua vida. 
Fahrenheit 451 é um livro interessante que levanta questões sobre a nossa sociedade, a dependência dos media e, hoje, sobretudo das redes sociais, sobre a nossa capacidade de pensar, de questionar e de criticar.

06 junho, 2018

O Livreiro de Mark Pryor



Comprei este livro atraída pela sinopse pois revela uma temática muito do meu agrado: livros, livros raros/antigos, bouquinistes, Paris e ainda o Holocausto. 

Felizmente, não fiquei desiludida. O autor desenvolve a trama (um rapto e várias mortes) de forma leve e atribui um certo sentido de humor à personagem principal, Hugo, e ao seu amigo Tom, o que facilita a leitura sobretudo nos momentos mais tensos. 

Lê-se bem e foge um pouco ao estereótipo dos romances policiais já que cedo se desconfia quem é o vilão da história.



29 maio, 2018

O Livro das Lendas de Selma Lagerlöf



Nove pequenos contos maravilhosos escritos de forma simples, repletos de personagens e lugares misteriosos, mágicos. As lendas e o quotidiano rural, a crença religiosa e a crença popular mesclam-se de forma natural. E valores como a honra, a honestidade, a humildade e a felicidade prevalecem sobre alguns vícios. 
Foi o primeiro livro da autora que li e prometo voltar.



28 maio, 2018

E ao anoitecer


Image result for e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão  deixas viver sobre a pele uma criança de lume  e na fria lava da noite ensinas ao corpo  a paciência o amor o abandono das palavras  o silêncio  e a difícil arte da melancolia
                                                                  foto retirada da web


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




24 maio, 2018

Um Crime no Expresso do Oriente de Agatha Christie




Há muito que não lia um livro policial. Em tempos, li alguns desta autora, mas não me recordo de ter lido este. Claro que facilmente o leitor se apaixona pela escrita e pela forma como Agatha Christie escreve o enredo. Hércule Poirot é o detective que conduz magistralmente a investigação e que sabiamente engana o leitor facultando-lhe dados e pistas que revelam muita coisa, não revelando nada. Perspicaz e inteligente e com um forte poder de dedução, Poirot desvenda mais um caso e surpreende o leitor.



21 maio, 2018

Com o mar por meio. Uma amizade em cartas de Jorge Amado e José Saramago



Trata-se da troca de correspondência (entre 1992 e 1998) de dois grandes escritores de língua portuguesa, Jorge Amado e José Saramago. O facto de terem “o mar por meio”, não foi impedimento para que uma cumplicidade e sobretudo uma forte amizade se estabelecessem entre os dois e as suas respectivas companheiras, Zélia Gattai e Pilar del Rio. 

A leitura deste pequeno livro, permite ao leitor conhecer um pouco melhor a dimensão humana destes dois grandes vultos da nossa língua. Gostei muito.




18 maio, 2018

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai






É a segunda vez que leio este livro magnífico. Trata-se de uma história sobre a amizade mas também sobre o amor, a traição, a vingança (?), a solidão e o confronto em busca da verdade. 
A escrita simples mas profunda leva o leitor a refletir sobre a vida e o relacionamento de dois amigos que cresceram juntos mas que por uma circunstância, que não vou revelar, se separaram durante 41 anos. É no reencontro que o tal confronto em busca da verdade se fará.

22 abril, 2018

Vamos aquecer o Sol de José Mauro Vasconcelos



Este livro é a continuação de O Meu Pé de Laranja Lima. Também ele autobiográfico tem como protagonista Zezé, o mesmo menino traquinas e ternurento. Agora mais velho, com 10 anos (vamos acompanhá-lo até aos 15) e a viver com o padrinho que decidiu criá-lo até à conclusão dos estudos e assim lhe proporcionar, no futuro, uma vida melhor. Mas, apesar de viver no conforto, Zezé continua a sentir falta de carinho e compreensão. Para colmatar estas carências, Zezé imagina duas personagens que vão desempenhar um papel fundamental e o vão ajudar a crescer e a ultrapassar algumas das dificuldades que resultam das suas travessuras. Outra personagem fulcral no seu crescimento é o professor e amigo Fayolle, um irmão do colégio que ele frequenta.
Assim, numa mistura de realidade e imaginação, o menino inteligente, com um coração do tamanho do mundo, narra-nos as suas tropelias cada vez mais diabólicas e perigosas. 
É um livro que nos faz sorrir. Recomendo vivamente.



19 abril, 2018

O Rapaz do Pijama às Riscas de John Boyne



A história é-nos apresentada sob a perspectiva de um rapaz de nove anos (Bruno), que vive num ambiente favorecido em Berlim, mais tarde em Auschwitz, e que desconhece totalmente a crueldade existente no mundo, à sua volta e mesmo no seio familiar. 

A história é narrada de forma superficial, é o leitor através das indicações fornecidas por Bruno que vai descortinando a profissão do pai, o sítio para onde se mudaram, as pessoas que vivem num espaço, que ele avista da janela, e que estão vestidas todas de igual com “um pijama às riscas”. Bruno completamente inocente não tem a mínima ideia do que se passa naquele campo e desconhece a profissão do pai. 

Quando, para combater o aborrecimento de estar sempre em casa, decide explorar os arredores, acaba por descobrir um menino da sua idade (Shmuel) que se encontra do outro lado da vedação. Sem qualquer preconceito Bruno questiona-o e tornam-se amigos. Estes encontros duram ao longo de um ano e é este aspecto que me leva a considerar esta história inverosímil. É impossível que durante tanto tempo ninguém os avistasse. Auschwitz era um campo muito vigiado, ninguém conseguia isolar-se e muito menos obter roupa sem levantar suspeitas. 

Porém, retenho a inocência das duas crianças e a amizade que se estabeleceu entre elas. São valores importantes que devem ser transmitidos aos jovens leitores e talvez tenha sido esta a intenção do autor.



18 abril, 2018

Um Gentleman em Moscovo de Amor Towles



Livro encantador. Pleno de humor e ironia, o protagonista, o conde Aleksandr Ilitch Rostov, é um verdadeiro cavalheiro que, de imediato, seduz o leitor. 

Condenado a prisão domiciliária, o conde fica impedido de sair do luxuoso Hotel Metropol. Aceita sem reclamar a condenação dos bolcheviques porque, naquela época, na Rússia, o destino dos condenados era outro bem diferente. 

Ao simpático, culto e influente conde apenas lhe foi retirada a suite onde vivia há quatro anos, depois do seu regresso de Paris, e foi-lhe atribuído um pequeno quarto no último piso. Se no início foi penosa a adaptação, com o passar do tempo foi descobrindo outros (ou os mesmos) prazeres e criando novas amizades. 

De 1922 a 1954, vamos conhecendo a nova vida do conde no Hotel e vamos, simultaneamente, acompanhando a evolução de uma nova Rússia.




07 abril, 2018

A Avó e a Neve Russa de João Reis




O protagonista desta história é uma criança de dez anos que nos narra a história da sua avó Babushka, doente com cancro nos pulmões contraído em Chernobyl. Como sobrevivente, emigra para o Canadá onde vive com os seus netos, Andrei e o narrador (não chagamos a saber o seu nome). 

A história em si é cativante uma vez que a criança vai tentar de tudo para salvar a sua avó. Há momentos ternurentos e momentos divertidos. A criança, que se considera o homenzinho da casa, é muito curiosa e muito instruída, porém, e apesar de ter já um “rico vocabulário”, confunde certas palavras (xenofilia e xenofobia; ornitologia e oncologia, macroscópio e microscópio,… ). Estes equívocos fazem-nos sorrir um pouco e revelam a inocência própria das crianças. 

Porém (é a palavra preferida do narrador, e, tal como ele, também eu a repito), há certos momentos, sobretudo quando a criança nos revela os seus pensamentos sobre os mais diversos temas (políticos, religiosos, sociais, ou outros) que me causam uma certa perplexidade, na medida em que me questiono se o narrador já tem maturidade para tais considerações. 

Apesar deste aspecto, recomendo a leitura do livro porque o mais relevante é o carinho que uma criança de dez anos revela pela sua avó idosa e doente e a esperança de lhe curar os pulmões destruídos pelos “ares venenosos de Chernobyl”.




01 abril, 2018

A Espada e a Azagaia de Mia Couto



Trata-se do segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador”, narrado a três vozes, de forma alternada, descreve os últimos dias do chamado Estado de Gaza, império africano governado por Ngungunhane (Gungunhana) e a paixão entre a jovem Imani Nsambe, de etnia Vatxopi, e Germano de Melo, um jovem sargento português que se conheceram em Nkokolani, para onde o sargento foi enviado de serviço. 

O livro, rico na descrição de costumes, rituais, crenças, amores e desamores, lutas e mortes, termina com a vitória das tropas portuguesas, comandadas por Mouzinho de Albuquerque e a prisão de Gungunhana. Esta mesma guerra é a causa da separação do jovem sargento e da jovem nativa. 

É no cruzamento da vivência de Imani e das cartas trocadas entre o sargento e o seu superior, o tenente Ayres de Ornellas, que a história de vencedores e vencidos nos é contada. A magia da escrita de Mia Couto leva-nos a reflectir sobre a problemática da guerra, mas sobretudo sobre a desumanização e o poder.



22 março, 2018

Stoner de John Williams




Este livro narra a vida de Stoner, desde a infância até à morte. Filho de humildes trabalhadores do campo tem poucas expectativas quanto ao seu futuro. No entanto, como é bom aluno acaba por ingressar na universidade, num curso da Escola Agrária, mas depressa percebe que aquela área não lhe interessa e ao apaixonar-se por Literatura inglesa, alterou o seu plano de estudos. Com grande sucesso, chega a professor universitário e é como professor que se sentirá completamente realizado porque a dedicação ao trabalho, ao estudo e aos seus alunos vai servir-lhe de escape, de refúgio perante as adversidades da vida. 

A escrita simples, clara e emocionante de John Williams surpreende-nos e arrasta-nos nesta viagem interior da personagem. Stoner, em certos momentos, irrita-nos porque não toma as decisões mais acertadas, permanece passivo, triste e isola-se do mundo. Mas a sua simplicidade, honestidade e perseverança vingam e tornam-no num homem feliz porque o que prevalece é a sua paixão pelos livros e pelo ensino. E é esta a faceta que acaba por contagiar o leitor. 

Gostei muito.




21 março, 2018

Poema da árvore





Poema da árvore


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.


António Gedeão





20 março, 2018

Quando vier a primavera de Alberto Caeiro, dito por Pedro Lamares








'Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.'



18 março, 2018

Bartleby & Companhia de Enrique Vila-Matas




Este livro é um interessante e invulgar diário, apresentado pelo narrador como notas de rodapé sem texto, sobre a arte da negativa, isto é, sobre escritores Bartleby (inspirado no escrivão Bartleby, do conto de Melville) que por diversas razões nunca o foram ou que deixaram de escrever. São escritores da literatura do Não. 

O narrador elenca todo o resultado da sua pesquisa e apresenta as razões pelas quais abandonaram a escrita. Temos nomes como Rimbaud, María Lima Mendes, Robert Walser, Salinger, Marcel Duchamp, Hölderling , Borges, Cervantes e até Fernando Pessoa e Saramago (após a atribuição do Nobel), entre muitos outros. 

 A epígrafe seleccionada pelo autor é esclarecedora quanto à temática do livro: “ A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever.” (Jean de la Bruyère). O de outros ainda é de escrever pouco, acrescento eu. 

O livro torna-se muito interessante na medida em que o autor nos revela, com uma certa dose de ironia, uma excelente listagem de autores e de obras fundamental para quem é amante de literatura.



12 março, 2018

Que Farei com Este Livro? de José Saramago




Bem ao estilo de Saramago, este livro é uma sátira à sociedade, aos vícios do reino no tempo das descobertas. 

Tendo a figura de Luís de Camões e a publicação do seu livro maior Os Lusíadas, após o regresso da Índia, como ponto fulcral deste texto dramático, Saramago põe em evidência a miséria mental da corte e dos poderosos que a integram, o oportunismo, as influências, e o poder da Inquisição. 

Luís de Camões obteve finalmente, e porque estava bem recomendado, o parecer positivo para requerer a licença de impressão do seu livro. Este foi-lhe lido pelo próprio Frei de Bartolomeu Ferreira (censor do Santo Ofício) que, de entre outros aspetos, nele refere: “ … e o Autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.”. 

Se neste tempo, a arte e a genialidade não eram reconhecidas, ou apenas por uma minoria, o mesmo se passa nos nossos dias. E é esta a intenção principal de Saramago ao escrever este livro, ora vejamos: “ Não, minha mãe, não estou conformado. Vivo em Portugal. Sei o que a experiência me ensinou. Que assim como se diz que não há dinheiro que pague o talento e o engenho, também se deveria dizer que por isso mesmo ninguém os quer pagar. Enfim, não percamos nós o ânimo. Quando o meu livro estiver publicado, talvez que el-rei mande dar-me uma tença.”

A leitura desta peça poderá servir como contextualização à abordagem da obra Os Lusíadas, nos diferentes níveis de ensino.



09 março, 2018

A Febre das Almas Sensíveis de Isabel Rio Novo




Neste romance Isabel Rio Novo conduz o leitor até meados do século XX, época marcada pela problemática da tuberculose. Em Portugal, esta doença era a principal causa de morte e como não havia ainda fármacos para a combater, foram construídos sanatórios instalados em zonas montanhosas. 

É neste contexto que a acção ocorre e nos é contada, na primeira pessoa, por um narrador cuja identidade será revelada numa fase já bem avançada do enredo. Através de uma escrita que nos agarra, como se de uma febre padecêssemos, a autora descreve-nos a degradação, a rejeição, o sofrimento e o isolamento dos tísicos sejam eles poetas, professores, médicos ou outros. Concretamente, vamos acompanhar a vida do jovem Armando, e da sua família, nesta caminhada que o levará à morte no sanatório do Caramulo para onde foi conduzido como infectado. 

Recomendo a leitura.


08 março, 2018

Dia da mulher




As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.



Daniel Faria
Homens que são como lugares mal situados

03 março, 2018

A mulher que prendeu a chuva de Teolinda Gersão




14 contos que nos facultam emoções diversas ao longo da leitura. Todos partem de uma situação bem real, do quotidiano e da qual há por vezes uma lição a tirar, no entanto outros acabam de forma fantasiosa e absurda até. 

Das várias histórias que me comoveram, destaco A ponte na Califórnia e O Verão das teorias (curiosamente em ambas existe um cão como elemento condutor da narrativa). 




25 fevereiro, 2018

A Escada de Istambul de Tiago Salazar



Tiago Salazar iniciou-se no romance histórico com esta bela narração da família Camondo, num longo período compreendido entre o séc. XVIII e a segunda guerra mundial. A narrativa divide-se em duas partes, a primeira acontece em Istambul e a segunda em Paris e é narrada pelo turco Mehte que encontrou um Tiago Salazar curioso que subia e descia uma escada que tinha descoberto durante as suas deambulações por Istambul. Mehte convidou-o para sua casa e aí lhe contou a vida destes judeus filantropos e amantes de negócios, do saber e da arte. 

De forma cativante o autor conduz o leitor até ao passado, e fá-lo viver no seio desta família, ao longo de várias gerações. Gostei muito.


O Beijo da Palavrinha de Mia Couto



É uma ternura. Seja para crianças e/ou adultos, a escrita de Mia Couto encanta-me.





16 fevereiro, 2018

as primeiras coisas de Bruno Vieira Amaral




as primeiras coisas narra o regresso de Bruno Eugénio à casa materna e ao Bairro Amélia, bairro onde nasceu. Num longo prólogo ficamos a saber que uma profunda depressão causada pelo divórcio e pela perda de emprego são as razões desse acontecimento.

Para combater a solidão e o desespero em que se encontra, Bruno com a ajuda de Virgílio, o fotógrafo do bairro, procura recolher toda a informação possível sobre várias figuras do bairro bem como de alguns espaços e eventos. É esta informação que nos é narrada, por ordem alfabética, no seu romance através de uma escrita simples, bem-humorada e crua, (própria deste tipo de bairros).

Fica claro que o comportamento destas personagens representa em grande parte o retrato de muitos outros bairros deste país cheio de personagens inativas, doentes, incultas e corruptas.





04 fevereiro, 2018

Se Isto é um Homem de Primo Levi




Livro autobiográfico e primeiro de uma trilogia. Primo Levi narra o período que passou num campo de concentração alemão, o Lager. De forma objectiva e rigorosa descreve os comportamentos do homem submetidos a condições de extrema violência, os modos de vida, as “actividades” praticadas como meio de sobrevivência, as doenças, a “selecção”, a gestão dos campos. Ao longo destas páginas, Primo Levi, magistralmente, revela-nos a maldade humana e o horror do extermínio, mas ressalva também a presença de alguma bondade humana. 
De leitura obrigatória, este livro levanta questões que hoje, estão de novo presentes na nossa sociedade. Afinal, qual é o valor do ser humano? Se isto é um Homem está, de novo, ou nunca deixou de estar, na ordem do dia.