MAR

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11 janeiro, 2019

Um poema de Al Berto (dia de aniversário)


Los amantes Ingreed Martinez 


sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam
guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou infinitivamente só




Al Berto in O Medo Três cartas da memória das Índias 




O Retorno de Dulce Maria Cardoso






SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para alunos do Ensino Secundário, como sugestão de leitura. Também recomendado para a Formação de Adultos, como sugestão de leitura.

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.


OPINIÃO

É o primeiro contacto que tenho com a escrita de Dulce Maria Cardoso e posso afirmar que me surpreendeu pela positiva. Num estilo muito próprio e tão expressivo que pode criar no leitor menos atento, a ideia de repetição. 
Também gostei de ter colocado a narração na voz de um adolescente, o que lhe deu total liberdade para dizer as coisas cruamente, pelo seu nome, sem receios. O livro apresenta uma temática complexa e pouco abordada na nossa literatura, o que o torna ainda mais interessante. 
O Retorno foca-se no regresso súbito dos colonos a Portugal, nas dificuldades vividas num país que os descriminou, tratando-os por “retornados”. Rui, o adolescente, descreve-nos os últimos dias passados em Angola de onde foram forçados a fugir e o período vivido no hotel onde foram instalados em Lisboa. Ele, a sua família e os milhares de “retornados” viveram dias de instabilidade política e social.



04 janeiro, 2019

O Conde d'Abranhos de Eça de Queiroz

            
                                     


SINOPSE

«Alípio Severo Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal.» Assim se iniciam as notas biográficas assinadas pelo seu fiel secretário, Z. Zagalo, que, pretendendo fazer um sentido elogio a este «português histórico», descreve o seu percurso de afirmação política alicerçado em bajulações calculadas, discursos ocos e um sem-fim de incompetências. Nesta história de um político do século XIX, Eça de Queiroz traça de forma caricatural o perfil dos políticos de todos os tempos e constrói uma notável obra de sátira e crítica social de grande atualidade. Redigido em 1879, O Conde d’Abranhos foi publicado apenas postumamente, em 1925, desde logo acompanhado pelo conto de intenção patriótica A Catástrofe


OPINIÃO 

Fabuloso, mordaz, sarcástico e imperdível. Eça de Queirós, o grande romancista português continua actualíssimo porque muito do que é narrado neste livro assenta perfeitamente nos nossos dias. Portugal continua na mesma: corrupção, oportunismo, lobbies, amizades dúbias e mentalidades pobres. Um país sem alma. 

“ O que não tínhamos era almas … Era isso que estava morto, apagado, adormecido, desnacionalizado, inerte… E quando num Estado as almas estão envilecidas e gastas – o que resta pouco vale…”.

Este livro é uma sátira à sociedade portuguesa do século XIX. Escrito em 1878, pela voz de Zagalo, jornalista e secretário particular de Alípio Abranhos, vamos conhecendo as características do protagonista e de todos os que com ele convivem. Pretendendo elogiar Alípio, acaba por revelar a sua verdadeira condição social, a vergonha dos pais pobres que o leva a abandonar a família e mais tarde a negar ajuda, a sua incompetência, a sua bajulação, o seu egoísmo e sobretudo o seu oportunismo. Afinal, o excelente Conde é uma personagem execrável a todos os níveis. 
A estratégia de Eça é inteligente, como sempre, porque através desta biografia que pretende”glorificar a memória deste varão eminente”, critica a sociedade portuguesa da época. Exagera e ironiza a caracterização das figuras ilustres que frequentam as soirées, desanda na educação, na imprensa, no clero, na cultura e na política exercida por homens oportunistas e pouco inteligentes. 

É um deleite ler Eça de Queirós.



29 dezembro, 2018

Livros lidos em 2018: Balanço dos vários Desafios de Leitura

Em 2018 comprometi-me com vários Desafios de Leitura: 


- Goodreads: ler 50 livros - 

- Efeito dos Livros (facebook):  ler, no mínimo, um livro de cada uma das  24 categorias. apresentadas.

- Manta de Histórias (facebook): ler, no mínimo, um livro de cada uma das  32 categorias apresentadas. 

- Biblioteca Escolar ESPAB: decorre ao longo do ano lectivo, apresento apenas um balanço intermédio

Neste blogue e em Goodreads foram publicadas breves opiniões/reviews das 51 leituras efectuadas ao longo do ano. 

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Goodreads:


Para aceder aos livros lidos clicar aqui


Efeito dos Livros:  



Manta de Histórias:



Biblioteca ESPAB: 



Chamavam-lhe Grace de Margaret Atwood




Chamavam-lhe Grace é um romance histórico baseado em factos verídicos, concretamente sobre o polémico caso de Grace Marks, uma famosa canadiana da década de 1840, condenada por duplo homicídio aos dezasseis anos de idade. 

Esta história retrata a vida de Grace, uma jovem irlandesa que emigra para o Canadá com a sua família e que muito jovem começa a servir em casas particulares. 
Só que nem tudo corre bem e o futuro idealizado acaba por se tornar em tragédia. 

Ao longo de quase quinhentas páginas, o leitor vai descobrindo a verdade contada por Grace. Entre desabafos e silêncios, ela vai relatar toda a sua vida a Simon Jordan, um psicólogo, que decidiu estudar o seu caso pois confia nele e acredita que ele a pretende ajudar. 

É através do relato de Grace e das notícias publicadas pela imprensa sensacionalista da época que o psicólogo vai tentar descortinar o que realmente se passou no dia fatídico. 

O livro torna-se assim interessante, na medida em que para além da história de um crime está patente sobretudo o retrato de uma sociedade que favorece os “bem-nascidos”. 

Com uma escrita apaixonante, e um enredo cativante apesar de intrigante, a autora mantém, ao longo do enredo, a dúvida em relação à inocência ou culpa da protagonista que foi condenada a prisão perpétua, dando, assim, muita liberdade à imaginação do leitor uma vez que muita coisa permanece em aberto.


19 dezembro, 2018

Poema de Natal



Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas' 


18 dezembro, 2018

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças de Afonso Cruz



O autor parte de uma história de família, a dos seus avós, para criar a história de Jozef Sors, pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX e que um dia veio para a Portugal. 

Mais uma vez nos deixamos embalar pela escrita metafórica e imagética de Afonso Cruz. Este pequeno livro contém inúmeras reflexões sobre o ser humano. Há sonhos e desilusões, lutas e conquistas, redescobertas e perdas, luz e sombras, muitas mensagens fortes que por vezes nos perturbam porque inesperadas.·

“Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos.” 

"A última página de um livro é a primeira do próximo".



12 dezembro, 2018

Verdade ao Amanhecer de Ernest Hemingway




Romance póstumo de Ernest Hemingway, publicado pelo filho após alguns cortes ao original, mas sem uma apurada revisão da escrita. Por essa razão, verificam-se algumas imperfeições que certamente o autor teria corrigido ou melhorado. Ficam, no entanto, as deslumbrantes descrições da natureza, da caça aos animais selvagens, dos conflitos entre as diferentes tribos/ etnias africanas, dos costumes e tradições e do relacionamento entre africanos e europeus. 

Numa mescla de realidade e ficção, Hemingway relata o período vivido com a sua mulher Mary no Quénia, durante o qual desempenhou as funções de guarda-florestal e desenvolveu uma relação de lealdade e de afecto com os colaboradores africanos. É também um tempo de liberdade, de enamoramento pela paisagem africana, de leitura, de reflexão e de escrita.



02 dezembro, 2018

Contos de Anne Frank





Durante a ocupação da Holanda pelos nazis, Anne Frank e a sua família foram obrigados a esconder-se num “anexo secreto”. Aí, Anne escreveu o seu famoso Diário e alguns textos que incluem esta obra. 

O livro está dividido em três partes e contém contos, fábulas, recordações, memórias e pequenos ensaios. Tratam-se sobretudo de histórias fictícias, mas também de factos reais (há textos que falam da guerra). Nos seus textos Anne Frank revela muita sensibilidade, rebeldia, inteligência e um amor absoluto pela natureza e pela vida. 

“O sol pôs-se e Krista está deitada na relva, com as mãos cruzadas debaixo da cabeça a olhar para o céu. Este é o seu quarto de hora mais querido e ninguém precisa de pensar que a pequena florista trabalhadora está descontente. Nunca está e nunca estará desde que a deixem ter, todos os dias, este pequeno descanso maravilhoso. 
No campo, no meio das flores, sob o céu cada vez mais escuro, Krista está satisfeita. O cansaço, o mercado e as pessoas, tudo isso desapareceu. A rapariguinha sonha e pensa apenas na delícia de ter, cada dia, a sós com Deus e a natureza.” (pp. 45 e 46) 

Agradeço ao aluno que me falou neste livro e que gentilmente mo emprestou. 

Recomendo muito este pequeno livro pleno de ternura e de bondade.


01 dezembro, 2018

Patagónia Express de Luís Sepúlveda



Mais um livro belíssimo de Luís Sepúlveda. Bem escrito, com sentido de humor, personagens pitorescas, histórias fabulosas e magníficas paisagens da Patagónia. Nestas crónicas de viagem, o autor descreve algumas das suas viagens e vivências. Porém, o que ele pretende, penso eu, é sobretudo manter viva a memória do passado do seu país (Chile) e simultaneamente a do seu avô que muito influenciou a sua vida com os seus ensinamentos.


25 novembro, 2018

A Biblioteca Magica de Bibbi Bokken de Jostein Gaarder,




A Biblioteca Mágica narra a história de dois primos adolescentes, Nils e Berit, que vivem na Noruega. Como moram em cidades distantes, decidem comprar um diário para manterem o contacto e nele escreverem tudo o que lhes acontece de importante. Esta troca de correspondência torna-se assim bastante original. Acontece que logo no acto de compra do diário surge algo de particular e imprevisível (ou não!). Nils na primeira carta que escreve à prima, conta o episódio. 

Mal a aventura começou e já o leitor se encontra envolvido num grande mistério. Muitas questões se vão levantando e os dois primos prometem desvendar todo este mistério que parece envolver uma biblioteca mágica. 

Em A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, livro juvenil, de leitura fácil e cativante, o grande herói é o livro e a sua história, numa trama cheia de suspense e aventura que leva os leitores a empreender uma fascinante viagem pelo mundo dos livros.



Eça de Queirós e Os Maias na FCG





Escritor português, José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim e morreu a 16 de Agosto de 1900, em Paris. 

É considerado um dos maiores romancistas realista da literatura portuguesa. Foi jornalista e diplomata. É no estrangeiro que escreve a maioria das suas obras. Em 1888, publica Os Maias. 


Os Maias, de Eça de Queirós - Grandes Livros




A Fundação Calouste Gulbenkian monta uma exposição para "que se possa ver tudo o que Eça trazia no saco". Comemora-se os 130 anos da publicação de Os Maias. Esta mostra incide nesta obra, mas haverá também referência às restantes obras bem como a muitos objectos do seu espólio da Casa de Tormes.

A exposição encontra-se patente de 30 de novembro a 18 de fevereiro 2019.






21 novembro, 2018

Princípio de Karenina



Mais um livro fabuloso de Afonso Cruz. Numa escrita poética, metafórica com descrições cinematográficas, o autor narra a história de uma personagem que conta a sua vida à filha que nunca conheceu. 
Diria que este livro apresenta dois grandes eixos de ideias: rotina, escuridão, medo, infelicidade e novidade, claridade e felicidade. O primeiro imposto pelo pai e seguido pelo filho, o segundo provocado pela chegada da estrangeira. 

“Passados tantos anos, ainda sinto um sabor estranho na boca quando pronuncio a palavra que a tua mãe disse na sala, no dia em que a conhecemos, a palavra que começou o derradeiro ataque contra o edifício que eu construíra com os blocos de pedra da educação paterna.” (p. 101)


20 novembro, 2018

Um poema de Al Berto


                        Obras anos 70 - foto de J.M. Cavalinhos (http://cabodesines.blogspot.com)


MAR-DE-LEVA
(sete textos dedicados à vila de Sines)
1976

7

a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro,
reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada das palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento


Al Berto
in O Medo
Assírio & Alvim





18 novembro, 2018

Na Memória dos Rouxinóis de Filipa Martins


É o primeiro romance que leio dos quatro que Filipa Martins já publicou. É uma viagem surpreendente à memória de várias personagens de diferentes gerações da família Rousinol, à magia da matemática da criptografia e dos números primos. 

No entanto, não é só de memória e de recordação que se trata, é bem mais do que isso, há o inevitável esquecimento (tão necessário para evoluir), o amor e a desilusão nas relações, o envelhecimento e a confissão no final da vida. 

Filipa Martins consegue muito bem encadear as diferentes narrativas através de uma escrita poética, ritmada por vezes provocadora. Não sendo, no entanto, uma leitura linear, requer alguma concentração para nos situarmos no tempo e no espaço. É um livro que leva o leitor a reflectir sobre a sua própria vida, sobre as decisões que toma no dia-a-dia.



08 novembro, 2018

Lavoura Arcaica de Raduan Nassar




É o primeiro livro que leio deste autor. Leitura difícil, perturbadora mas fascinante. Revela uma escrita laboriosa, de excessos, repleta de metáforas e de parábolas. Pura prosa poética! 
No entanto, é este excesso que transporta para o leitor o carácter perturbado e também excessivo, impulsivo e delirante do protagonista, André, desejoso de independência. 

Voltarei a pegar nele, sem dúvida nenhuma.



02 novembro, 2018

Se esta rua falasse de James Baldwin




James Baldwin é considerado um dos escritores incontornáveis da literatura americana do século XX e no entanto, em Portugal, este é o seu único livro publicado. Trata-se de uma voz influente sobre questões raciais e direitos civis. 

Concretamente, este livro aborda o amor de um jovem casal, apaixonadíssimo, que vai ficar separado injustamente durante um tempo. Será uma travessia difícil, onde a injustiça impera, todavia a esperança e o amor vencerão. 

É Tish, a rapariga negra, que vai relatar-nos a sua história, o seu amor por Fonny e o apoio incondicional da sua família. Este apoio familiar será o pilar da vida da protagonista que lhe permitirá vencer todas as injustiças que ela e Fonny carregam. 

Livro maravilhoso. Linda história de amor plena de sentimentos contraditórios: amor e raiva, dor e alegria, mágoa e esperança. Relato cruel de um racismo sempre presente.




27 outubro, 2018

Os irmãos Karamazov de Dostoievsi




O último livro escrito por Dostoiévski, Os irmãos Karamazov, é grandioso e complexo. Este romance extenso é um verdadeiro tratado de análise social, de ética e de psicologia que lega ao leitor as visões do próprio autor sobre a sociedade. 

À medida que avançamos na narrativa, vamos conhecendo o carácter das personagens inseridas numa pequena cidade russa onde todos se conhecem. Há dramas terríveis, paixões arrebatadoras, opiniões extremas e contraditórias que levantam grandes questões como a existência de Deus, o bem e o mal, a honra, a traição, o poder da justiça, a vida e a morte, a imortalidade.


17 outubro, 2018

Itamar Vieira Junior vence Prémio Leya 2018



O romance Torto Arado do brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o Prémio Leya.  Segundo o júri desta  10.ª edição, o Prémio Leya foi concedido por unanimidade. O júri referiu  que se trata de "Um romance que parte de uma realidade concreta, em que situações de opressão quer social quer do homem em relação à mulher, a narrativa encontra um plano alegórico, sem entrar num estilo barroco, que ganha contornos universais", e acrescenta que o livro premiado "destaca-se pela qualidade literária de uma escrita em que se reconhece plenamente o autor". 

Além de autor, é geógrafo de formação e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos. Nasceu em 1979 e é natural de São Salvador da Bahia.

 348 originais provenientes de 13 paises apresentaram-se a concurso, dos quais foram selecionados sete obras para a decisão final. 

Antes deste autor já venceram o Prémio Leya o escritor brasileiro Murilo Carvalho, o moçambicano João Paulo Borges Coelho, e os portugueses João Ricardo Pedro Portugal, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade Portugal, Afonso Reis Cabral, António Tavares Portugal e João Pinto Coelho.

O Prémio Leya, que tem como objetivo distinguir um romance inédito escrito em português. A primeira edição realizou-se em 2008.  O prémio só não foi atribuído por duas vezes, em 2010 e 2016, devido ao júri considerar que as obras a concurso não tinham o nível que o galardão exige.


03 outubro, 2018

Espero por ti na próxima tempestade de Yves Robert







Rafael, personagem central do romance, acredita nas explicações sobrenaturais desde muito jovem. Aos onze anos, um acontecimento vai alterar o rumo da sua vida. É esta a história que nos é narrada pelo próprio, na primeira pessoa, e por outras duas outras personagens fulcrais na vida de Rafael. Trata-se de uma narrativa fragmentada, mas acessível e fascinante pois mantém o interesse do leitor até ao final da história. 
Gostei deste primeiro romance de Yves Robert. 



30 setembro, 2018

Todos os dias são meus de Ana Saragoça


Este pequeno livro com cerca de 100 páginas lê-se num fôlego. Não por ser pequeno, mas porque a autora nos surpreende com uma escrita magistral plena de sensibilidade e muita ironia. Também me surpreendeu a forma como este policial, porque se trata de um policial, vai resolvendo o crime e apresentando as personagens. Aconselho muito a sua leitura.



26 setembro, 2018

Conversa n' A Catedral de Mario Vargas Llosa





Cinco estrelas. Complexo mas genial.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Este foi o meu sentimento ao ler este romance. Escrita truncada, diálogos entrelaçados, histórias cruzadas, múltiplas personagens, uso indiscriminado dos discursos direto, indireto e indireto livre que confundem completamente o leitor. Porém, à medida que se avança na narrativa, vamos compreendendo as personagens e o enredo e vamos ficando, cada vez mais, conquistados pela mestria do autor. 

A conversa que acontece no café Catedral marca o reencontro de Santiago (Zavalita) e Ambrósio e serve de fio condutor ao longo de toda a narrativa. Ficamos assim a conhecer a vida destas personagens e dos seus familiares, amigos, colegas de trabalho, entre muitas outras, bem como um pouco da história do Peru dos anos cinquenta, época de divisão política, de corrupção e de repressão.


05 setembro, 2018

A Trança de Inês de Rosa Lobato de Faria



Ler este livro é reviver a lenda de “Pedro e Inês”, história de um amor impossível condenado à tragédia, aqui narrado em três tempos: passado (século XIV), presente (século XX) e futuro (século XXI) que se entrelaçam e que por vezes dificilmente se distinguem. Este aspecto, na minha opinião foi muito bem conseguido, pois a autora transita habilmente de uma época para a outra. 

Nas três histórias, temos sempre o protagonista Pedro (Pedro o Cru; Pedro Santa Clara e Pedro Rey), o sujeito amado a bela Inês de tranças “de ouro fino”, a esposa Constança e o oponente Afonso, o pai. É Pedro que louco e internado numa clínica e sob o efeito da medicação vai narrando as histórias através de recordações e da construção de uma distopia (parte que muito me agradou pela criatividade). “Este doente Pedro Santa Clara tem uma mente verdadeiramente perturbada, viaja para épocas que não existem, passa-se tudo na imaginação dele que é delirante, doentia, mórbida” (p.180) 

Três tempos, três histórias, três destinos, uma paixão louca. Uma escrita simples, poética e criativa. Vale a pena ler. 
“Que eternidade será a minha se continuar a transportar esta mistura aleatória de três vidas, quem sabe se depois de morto recordarei mais trinta, quem sabe se viverei mais três e assim sucessivamente pelos séculos dos séculos” (p.157).


O livro será adaptado ao cinema e estará nos cinemas a 18 de Outubro.
http://www.pedroeinesofilme.pt Filme de António Ferreira a partir do romance "A Trança de Inês" de Rosa Lobato de Faria com Diogo Amaral, Joana de Verona, Vera Kolodzig, Cristóvão Campos, Custódia Gallego, João Lagarto, Miguel Borges e Miguel Monteiro.

https://www.youtube.com/watch?v=AYdUMDf8RuQ


01 setembro, 2018

Antes de Sermos Vossos de Linda Wingate




O enredo deste livro baseia-se em factos verídicos ocorridos nos Estados Unidos, entre 1920 e 1950, isto é, a liderança e o desempenho de Georgia Tann numa instituição dita de acolhimento e adopção de crianças ( Sociedade de Acolhimento de Crianças de Tennessee) .

A história principal aborda este assunto e numa estrutura em que alterna capítulos que se situam no presente, tendo como personagem principal Avery Stafford, advogada, filha de um senador americano, e no passado (1939) com Rill Foss, a mais velha de cinco crianças de uma família pobre, mas feliz, que vivia num barco-casa à beira do rio. Duas personagens complexas com personalidade forte. 
A temática é dura pois narra a separação de uma família. As crianças raptadas e colocadas na instituição de acolhimento são vítimas de abusos e maus tratos antes de serem (ou não) vendidas a outras famílias.
Neste romance histórico e actual, apesar dos factos terem ocorrido há bastante tempo, o leitor é impelido a avançar rapidamente com o intuito de descobrir o destino das personagens envolvidas.



24 agosto, 2018

O Ministério da Felicidade Suprema de Arundhati Roy


Este segundo romance de Arundhati Roy, escrito 20 anos depois de O Deus das Pequenas Coisas é um livro político que narra o conflito existente entre a Índia e o Paquistão em relação a Caxemira e a repressão exercida pelo governo indiano sobre a população muçulmana. Trata-se por isso de um livro intenso e duro. Temos personagens fortíssimas que nos revelam as suas histórias, os seus sonhos, as alegrias, o sofrimento e sobretudo a perda quer de bens materiais quer de entes queridos ou próximos. É no meio de uma crueldade banalizada e de uma morte quase certa que estas personagens moldam as suas vidas.




09 agosto, 2018

O Olhar e a Alma - Romance de Modigliani de Cristina Carvalho




Breve biografia de uma vida também curta. Primeiro em Itália, depois em Paris. 35 anos de genialidade, talento, criatividade, originalidade e paixão pelas mulheres, suas musas, e pela arte (pintura e escultura), mas também de doenças, miséria, fome, álcool e drogas; de dependência da família (sobretudo da mãe), de amigos e de algumas mulheres; da falta de aceitação dos seus pares (artistas de vária ordem) com quem conviveu, mas nunca imitou ou adoptou as tendências, e da falta de reconhecimento do público e sobretudo dos críticos. 

Cristina Carvalho descreve magistralmente o olhar intenso, perturbador e apaixonado de Modi e sobretudo a sua alma simples e elevada, mas também inconstante. A busca do belo e da perfeição são uma constante na sua curta e intensa vida apesar do desprezo a que era votado. 

Já li muitos (quase todos) livros de Cristina Carvalho e considero este como sendo um dos melhores. A sua escrita consegue integrar-nos emocionalmente na narrativa: vivemos as doenças, os vícios, as dificuldades e as paixões arrebatadoras de Modigliani. Quando isso acontece, estamos perante um grande livro.



07 agosto, 2018

O Leitor do Comboio de Jean-Paul Didierlaurent




Livro delicioso que, com uma escrita simples, levanta algumas questões interessantes como a importância da leitura em voz alta e o destino dos livros que não são vendidos pelas editoras. 

Guylain Vignolles, personagem discreta e simples, trabalha, sob vigilância do seu patrão através de várias câmaras, numa fábrica que destrói livros. É ele o responsável pela manobra e manutenção da Zerstor 500 (A Coisa). O trabalho é aborrecido e Guylain não gosta do que faz. O único momento de satisfação, apesar do perigo que corre, é quando faz a limpeza da Coisa pois permite-lhe recuperar as páginas soltas que não são destruídas e guardá-las para si. Estas serão objecto de leitura nas viagens de comboio de casa para o emprego, em voz alta. 

Um dia, no lugar que habitualmente ocupa no comboio, encontra uma pen que contém vários documentos que relatam o dia-a-dia de uma empregada de limpeza. Este facto vai alterar o teor das suas leituras e o rumo da sua vida.


23 julho, 2018

O Farmacêutico de Auschwitz de Patrícia Posner




Mais um livro sobre Auschwitz, sobre o Holocausto, sobre o extermínio dos judeus, sobre a crueldade humana. É verdade. Porém , a frieza da narrativa de Patricia Posner ao revelar os factos ocorridos durante a ocupação e os testemunhos feitos nos julgamentos dos SS , torna este livro fascinante e muito perturbador. 
“… alguns dos SS empregados em Auschwitz e noutros campos de concentração eram sádicos patológicos que extraíam prazer da barbaridade” (p.87) 

Victor Capesius é o farmacêutico que deixa de ser empregado e representante da empresa Farben/Bayer para integrar, primeiro um hospital militar e mais tarde, administrar a farmácia do campo de concentração de Auschwitz. 
No desempenho deste cargo, Capesius teve um papel fundamental no extermínio dos judeus. Cínica e cruelmente, participou na rampa de selecção e enviou para a morte judeus que conhecia pessoalmente (amigos, vizinhos, clientes); geriu e armazenou o stock de medicamentos e do gás Zyklon-B que matou milhões de prisioneiros (esta gestão era primordial, pois o gás não podia faltar); seleccionou pessoalmente os bens dos judeus que eram enviados para a morte e cometeu outros actos macabros que não vou revelar. 

“Capesius mostrava-se indiferente ao tratar de questões como “neutralizar o cheiro” dos cadáveres em combustão. Tratava-se apenas de um desafio técnico. (…) [era] um homem para quem um prisioneiro não era mais do que um número, cujo único destino era a extinção.” (p. 64). 

“Quanta brutalidade emocional, que sadismo diabólico, que cinismo impiedoso será necessário para agir como este monstro agiu?” (p. 208) 

Mais tarde, durante os julgamentos realizados, numa primeira fase, pelos ingleses e americanos e depois pelos alemães, Capesius negou todos os seus actos . Manteve-se sempre em negação total, insensível e imperturbável perante os vários relatos da crueldade cometida sobre homens, mulheres e crianças inocentes. 

“ [Capesius] optou pelo caminho dos cobardes, preferindo viver e morrer em negação.” (p. 236)





15 julho, 2018

Debaixo da Pele de David Machado




Livro perturbador, doloroso. Está dividido em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, havendo, no entanto, pontos de contacto entre elas. Estamos perante, várias personagens traumatizadas por um passado de violências físicas ou emocionais que se instalam “debaixo da pele” e que provocam medo, pesadelos, dor e sofrimento. Pensam que isolando-se do mundo conseguirão ultrapassar a mágoa e a culpa que carregam. Mas a solidão forçada só adensa o desencanto das suas vidas e, simultaneamente, das pessoas mais próximas. No entanto, na terceira parte, pela voz de uma criança, fica a esperança de uma vida melhor, a esperança da superação do trauma e a possibilidade de amar. 

A escrita de David Machado provoca no leitor uma forte curiosidade, obrigando-o a ler continuadamente. O suspense criado à volta das personagens está muito bem construído, revelando ou sugerindo, por vezes, apenas o essencial, facto que não impede o leitor de entrar emocionalmente na pele das personagens. Pelo contrário.