MAR

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27 março, 2020

A Saga de Selma Lagerlöf, de Cristina Carvalho


OPINIÃO



Este livro, de Cristina Carvalho, é uma verdadeira homenagem à escritora e à mulher Selma Lagerlöf. Através de uma escrita simples e emotiva, a autora dá-nos a conhecer esta mulher extraordinária. “Selma Lagerlöf foi sufragista, feminista e defensora intransigente dos direitos das mulheres” (p. 9), mas também professora, escritora e amante da Natureza. Foi ainda a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura (1909) e “a primeira mulher a ocupar um lugar na Real Academia Sueca” (1914). 

É pois esta mulher que Cristina Carvalho nos apresenta neste livro. Uma mulher de forte personalidade, nem sempre aceite pelos seus pares que a acusavam de “escrever, bastante bem, umas historietas”. (p.145). Também na escrita ela foi inovadora, ela, “uma escritora provinciana”, escreveu sobre as suas raízes, as paisagens da sua terra com seus mistérios e personagens fantásticas… 
“ Na minha Literatura nunca aceitei, nem usei, nem compreendi o tal realismo e escrevi sempre o que imaginei com palavras fáceis e compreensíveis.” (p.145) 

É um livro mágico, repleto de emoções que deixa transparecer a paixão que a autora sentiu ao escrevê-lo e ao revisitar os lugares onde a biografada viveu. Este aspecto é ainda mais evidente na descrição pormenorizada da casa Mårbacka, a casa onde Selma Lagerlöf nasceu, cresceu, viveu (grande parte da sua vida) e morreu. A envolvência é tão forte que existe ao longo do texto um diálogo entre a escritora Cristina e a escritora Selma. “ Continua, então a descrever agora o interior da minha casa do modo mais terno e amável que conseguires. Imagina-me! Solta-me! Prende-me!” 

Recomendo muito a leitura! Para além de nos dar a conhecer a escritora sueca, este livro também é elucidativo quanto à escrita e à personalidade da escritora, Cristina Carvalho.


20 março, 2020

Quando vier a Primavera, de Alberto Caeiro



Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.


Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

Terra Sombria – A Mediadora, de Meg Cabot


OPINIÃO

Trata-se de uma história engraçada e deliciosa. A jovem Susannah, Suze como gosta de ser tratada, é uma jovem nova-iorquina de 16 anos que se muda para a Califórnia. Aparentemente é uma adolescente normal que frequenta a escola, tem amigos, e veste blusão de cabedal preto… 
Mas Suze tem uma característica particular que lhe tem causado alguns dissabores e muitas aventuras.
Recomendo a quem gosta de livros de fantasia, sobretudo aos jovens, e por que não aos menos jovens. Nesta época em que vivemos, eu que nem aprecio este género de leitura, acabou por me distrair e divertir um pouco. Algumas conversas dos jovens fizeram-me revisitar a minha adolescência. Relembrei algumas diabruras… 
Leiam! Divirtam-se!



19 março, 2020

Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk


OPINIÃO



Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos é um romance desconcertante, é uma mescla de géneros e de assuntos já que aborda crimes, política, intervenção ambiental, astrologia, e também literatura. 
Numa povoação rural na Polónia junto à fronteira checa, onde o inverno é longo e bastante rigoroso, a professora reformada, Janina Duszejko, vai narrando as suas actividades do dia-a-dia, os seus passeios pela floresta, as suas maleitas e a sua teoria sobre as mortes que vão ocorrendo. Na sua opinião, são os animais e a natureza que se vingam do comportamento humano. 
O enredo vai-se desenvolvendo e o leitor vai ficando cada vez mais preso a esta narrativa e à personagem que tem tanto de lúcida como de louca. Gosto sobretudo da sua loucura. 

“Não contes essa tua teoria a ninguém. É muito improvável e pode prejudicar-te. (…)
Fiquei a pensar que também ele me tomava por louca, como toda a gente, e isso magoou-me.”

A autora recorre à ironia para criticar alguns comportamentos, põe em causa a actuação do homem perante a natureza e os direitos dos animais. 
É uma abordagem diferente, interessante que nos faz reflectir.



09 março, 2020

Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa, de Judith Kerr



OPINIÃO

Este clássico da literatura juvenil é inspirado na vida da própria autora e narra a história de uma menina judia de nove anos, durante a Segunda Guerra Mundial, numa perspectiva diferente, mais leve e com algum humor.

A família de Anna decide abandonar a Alemanha quando Hitler ascende ao poder. A história centra-se sobretudo na problemática da vida de uma família de refugiados que vai de país em país (Suíça, França, Inglaterra) à procura de estabilidade e de melhores condições. Situação, infelizmente, também hoje muito atual. 
É pela visão inocente de Anna que vamos conhecendo o dia-a-dia da família e que dificilmente aceita que o pai, um famoso escritor, os force a sair do país, a abandonar o conforto do lar, os amigos, os brinquedos para irem viver com dificuldades económicas, num outro país de cultura e língua diferentes. 
A pouco e pouco, Anna vai-se adaptando à sua nova situação e compreende que o importante mesmo é ficarem juntos. 

“Eu só acho que deveríamos ficar juntos – disse ela. Onde ou como não me importa. Não me importa que as coisas sejam difíceis, que não haja dinheiro, … Desde que estejamos juntos.”

História comovente onde os afectos e a união familiar são os alicerces principais para vencer os obstáculos que surgem ao longo da vida. 



06 março, 2020

Xerazade – A Última Noite, de Manuela Gonzaga


OPINIÃO

De início, não é uma leitura fácil e requer muita atenção, mas à medida que se vai avançando, vamos entrando na pele da personagem e vamos acompanhando as histórias mágicas narradas pela personagem, Xerazade, ao seu “amor”. A autora recupera assim a história das Mil e Uma Noites, obra fabulosa de tradição oral.
“Agora, deixa-me contar-te uma história. Mais uma.” (p. 67)

Muitas das histórias narradas fazem parte do nosso imaginário na medida em que há inúmeras referências a mitos, a heróis clássicos, a deuses, a lendas, a contos de encantar. São contos maravilhosos, escritos numa prosa poética que nos cativam e nos surpreendem porque renovados de forma brilhante. A beleza das histórias narradas por Xerazade está precisamente na interligação das histórias do passado com a sua própria vida. Confesso que por vezes é difícil destrinçar esses dois tempos, mas é isso que torna este livro surpreendente e cativante.
“Voei, sim. Sem ti. E ainda tanto para contar. Ou será esta uma desculpa para não me ir embora? É estranho. Neste cruzar de histórias, acabei por recuar tempo de mais, amor.” (p.155)



05 março, 2020

André e a Esfera Mágica, de Manuela Gonzaga


OPINIÃO

Sonhar é maravilhoso! As aventuras de André são fantásticas!
Por motivos profissionais tive de ler este livro. Já li outros livros da autora, mas desconhecia a sua literatura juvenil. Adorei. Como é bom relembrar e reviver a minha infância através da sua escrita. Identifico-me com tantas peripécias, angústias e sonhos vividos pelo André e seus amigos. História encantadora que recomendo a todos os jovens. 





26 fevereiro, 2020

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott,



OPINIÃO

Mulherzinhas marcou a minha juventude. E precisava urgentemente de o reler porque já não me lembrava de certos (muitos) detalhes da história desta família fabulosa. Como quero muito ver o filme, aproveitei, então, a oportunidade de o reler para assim melhor ajuizar sobre a película. 

Não nos podemos esquecer que o livro foi publicado em 1868 e que retrata a vida das mulheres nessa época. Estas eram educadas para ficarem em casa e os homens dominavam o espaço público. No entanto, com este livro a autora marca uma nova etapa na vida das mulheres, tornando-as mais livres. A amizade das quatro raparigas com o amigo vizinho é uma evidência, o facto de Jo March querer ser escritora, é outra. 
A escrita é simples, destina-se a um público jovem e cada capítulo encerra uma moral. É através das peripécias de cada uma das quatro raparigas que vamos percebendo ensinamentos e valores como o amor, a partilha, a confiança, a humildade, a amizade, o altruísmo, entre outros. 

Lembro-me que a Jo era a minha personagem favorita, adorava as suas travessuras. Hoje, muitos anos depois, continuo a achar que é uma rapariga fantástica, desenvolta e com ideias brilhantes que nem sempre têm um desfecho muito convencional. 
É um livro encantador e é impossível ficarmos indiferentes ao modo de vida desta família tão unida. Tenho curiosidade em ler Boas Esposas (que nunca li) e conhecer o que o futuro reservou às irmãs March.




24 fevereiro, 2020

Carnaval




Carnaval

A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira…

A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa…

Cada momento é um carnaval imenso,
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisso maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso

De mais… Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça…

Automóveis, veículos,
As ruas cheias,
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.

Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade…

Uma pândega esta existência toda…
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda…

E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo…
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem

Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo…



Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

21 fevereiro, 2020

Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho


OPINIÃO


Este é o terceiro livro que a autora escreve sobre o Brasil, é um livro de viagens (cinco) e de memórias. A trilogia contempla Vai, Brasil (2013- crónicas sobre o país) e Deus-dará (2016- sobre o Rio de Janeiro). 
Caetano Veloso achou que nestes relatos anteriores “faltava Bahia”. Ele queria que Alexandra Lucas Coelho dedicasse um livro à sua terra natal, ao seu estado, à cidade de Salvador, o Recôncavo baiano, o “primeiro lugar entre Portugal e Brasil”, terra de Jorge Amado (dos Capitães da Areia), terra de novelas. 

“Foi o clique para este livro aparecer, com título, índice, pela ordem das viagens”. (p.16)

Ainda bem que ALC aceitou o desafio. 

Temos, assim, a descrição desta região sob o olhar e as emoções da autora. Registos obtidos em vários momentos (foram cinco as idas à Bahia) que relatam os seus encontros com baianos, amigos, artistas; as suas vivências em festas, festivais, rituais, passeios por Salvador, por Santo Amaro da Purificação, pelas praias… ; a religião, a gastronomia e sobretudo a música de Caetano. Estamos perante uma fusão de cores, de sabores, de sons, de ritmos, de emoções, de afectos. 

Concluo com um “Apetece Bahia!”. Fica mesmo a vontade de conhecer este estado tão rico em história e cultura. (Não vislumbrando uma visita in loco, fica a promessa de uma descoberta virtual).



11 fevereiro, 2020

A Vegetariana, de Han Kang


OPINIÃO


É um romance intenso, perturbador, que levanta inúmeras questões que nos fazem reflectir. O leitor deixa-se conduzir completamente inebriado e surpreendido pela beleza da escrita e pela surpreendente história desta jovem mulher sul-coreana.

A protagonista, Yeong-hye, após ter tido um sonho terrível, decide tornar-se vegetariana. Esta decisão vai afectar radicalmente a vida de todos os membros da família. A história tripartida, é narrada a três vozes, a do marido, a do cunhado e a da irmã. Estranhamente, ou não, o enredo vai centrar-se no corpo desta mulher: na sua magreza, na sua beleza/sensualidade, na sua letargia versus violência, na sua demência, mas também na sua vontade de o controlar, de se tornar literalmente vegetal, de se transformar em árvore.

“ Preciso de regar o meu corpo. Não é desta comida que preciso, irmã, mas de água.”
“Já não preciso de comer. Posso viver sem me alimentar. A única coisa de que preciso é sol. - Que estás para aí a dizer? Julgas mesmo que te transformaste numa árvore?”

Compreendemos assim que a sua decisão inicial vai bem mais além do facto de se tornar vegetariana e essa atitude, incompreensível e inaceitável para os seus próximos e para a sociedade machista, vai provocar-lhe danos irreparáveis no corpo e na mente. Foi esta a via que Yeong-hye escolheu para se libertar da dor e da violência, para ser feliz. E o leitor aceita-a com alívio, sem tristeza.



08 fevereiro, 2020

Doida Não e Não! de Manuela Gonzaga


OPINIÃO

Em Doida Não e Não! Manuela Gonzaga apresenta a biografia de Maria Adelaide Coelho da Cunha internada como louca num manicómio no Porto. Personagem da alta sociedade lisboeta, herdeira do fundador do Diário de Notícias, casada com um homem de letras, Alfredo da Cunha, Maria Adelaide decide aos 48 anos abandonar tudo (casa, fortuna e conforto) e todos (marido, filho, amigos, …) para fugir com o “chauffeur” da casa, um jovem de 26 anos.
Esta história verídica, que ocorreu em 1918, destaca a inteligência e a luta feroz que esta mulher manteve contra a sua família e a sociedade conservadora e corrupta da época. Maria Adelaide numa luta desigual bateu-se por amor, pela liberdade e pela verdade, revelando uma forte lucidez.
“ (…) afirmo-o convicta porque sendo certo que não estou, nem nunca estive doida, há-de provar-se. Leva cinco, dez, quinze anos? Leva-me o resto da vida? Leve o tempo que levar; há-de provar-se.”

Mesmo nos momentos de grande sofrimento, conseguiu manter vivo o seu espírito que lhe permitiu registar tudo a que foi sujeita durante o internamento e, mais tarde, travar por escrito, nos jornais, uma batalha violentíssima contra o seu “marido ferido violentamente nos sentimentos época e no orgulho, que congemina vingança (…) a comprar testemunhos e a pagar opiniões falsas e requintadamente más, a médicos que lhas facultam a troco de uns contos de réis”.

Recomendo vivamente a leitura desta biografia, autêntica história de amor que marcou a época e que fez correr muita tinta na imprensa, em livros publicados e até na realização de um filme (Solo de Violino, de Monique Rutler, 1992). Manuela Gonzaga desenvolveu um trabalho meticuloso e rigoroso, mantendo nas citações a escrita da época e fornecendo inúmeras fontes, prova de uma intensa pesquisa em documentos vários, cartas e testemunhos.


07 fevereiro, 2020

Um poema de Al Berto




se um dia a juventude voltasse 
na pele das serpentes atravessaria toda a memória 
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego 
da noite transformada em pássaro de lume cortante 
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida 

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu 
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza 
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras 
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou 
pode devassar a noite doutros corpos inocentes 
sem se ferir no esplendor breve do amor 

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio 
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos 
mas aconteça o que tem de acontecer 
não estou triste não tenho projectos nem ambições 
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos 
espalho a saliva das visões pela demorada noite 
onde deambula a melancolia lunar do corpo 

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim 
com suas raízes de escamas em forma de coração 
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido 
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu 
humilde e cansado piloto 
que só de te sonhar me morro de aflição 

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'


27 janeiro, 2020

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto




O DEVER DE LEMBRAR AUSCHWITZ


"Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.
Para Hoje e todos os outros dias!!"
(Encontrado na parede de 1 dormitório de crianças do campo de extermínio nazista de Auschwitz.)

26 janeiro, 2020

A Noite em que o Verão Acabou, de João Tordo



OPINIÃO


Não sou apreciadora de Thrillers. Decidi ler este porque é do João Tordo e porque fiquei curiosa de perceber o que o distinguiria dos seus outros livros. Para mim, é mais um romance. O autor gosta de matar as suas personagens e de criar suspense. Em vários livros seus isso acontece e este é mais um. 

O enredo é narrado em vários tempos e espaços (João Tordo gosta de fazer viajar as suas personagens para vários destinos e volta e meia “regressa” a Nova Iorque) e contém várias histórias que no final se conjugam e todas as peças encaixam na perfeição (e nisto o autor é fabuloso). Temos a história da família Walsh, da família Taborda e, ainda, a história de Pedro Taborda que pretende ser escritor. Esta é para mim, a parte fulcral do enredo, um jovem apaixonado e ambicioso que procura encontrar-se e construir-se como escritor ao ponto de se candidatar, a “um lugar nas aulas de Gary List”, o seu escritor preferido que leccionava uma cadeira na New York University. A paixão que tem por Laura Walsh e o seu envolvimento na tentativa de resolução dos homicídios são os ingredientes certos para o seu crescimento como escritor. 
“Aquele caso (o que acontecera naquela noite de catorze de Setembro) era, na verdade, uma história de amor. Ou mais de uma.
E o amor é, será sempre, uma coisa inexplicável. É o lugar onde todas as coisas nascem e onde todas as coisas perecem (…) que é impossível metê-lo nas páginas de um livro, sobretudo porque o amor é também caos e dispersão, é também miséria, ódio, traição, sexo, ambição e inveja.” (p. 655). 

Todos estes ingredientes integram este livro que apesar da sua extensão, 667 páginas, se lê muito bem. A escrita clara e fluída e o enredo surpreendente agarram muito bem o leitor.



20 janeiro, 2020

Os que Sucumbem e os que se Salvam, de Primo Levi



OPINIÃO

Com este livro concluí a leitura da trilogia de Auschwitz. Quarenta anos depois de ter escrito Se Isto é um homem, Primo Levi aborda de novo a problemática do Holocausto. Desta vez, tenta dar resposta às muitas questões que se lhe colocam constantemente sobre o extermínio causado pelos nazis. 

“Teremos sido capazes, nós sobreviventes, de compreender e de fazer compreender a nossa experiência?” (p.41)

Temos uma análise muito lúcida e dolorosa sobre os acontecimentos no Lager, sobre as atrocidades praticadas, sobre a desumanização, a humilhação e a “violência inútil” exercidas sobre os prisioneiros. No último capítulo “Cartas de alemães”, e no seguimento da tradução e publicação do seu livro Se Isto é um homem, na Alemanha (1959), Primo Levi, aborda também a questão da culpa em relação à opressão nazi. Nas várias cartas que recebeu e nas que transcreveu verifica-se que foi sentida e assumida por alguns, ignorada e negada por outros. 
Como o autor tem receio que estes factos caiam no esquecimento quer por parte dos sobreviventes como forma de atenuar a dor, quer por parte dos opressores para se distanciarem dos factos e assim aliviarem a culpa e a vergonha (se é que alguma vez as sentiram), então lega-nos o seu testemunho, nos dois primeiros livros, e as suas reflexões neste último para que a “memória colectiva” permaneça viva e passe de geração em geração. 

“À distância de quarenta anos, a minha tatuagem tornou-se parte do meu corpo. Não me vanglorio nem me envergonho dela, não a exibo nem a escondo. Mostro-a de má vontade a quem mo pede por simples curiosidade; prontamente e com ira a quem se declara incrédulo. Os jovens muitas vezes perguntam-me porque é que não a mando apagar, e isto espanta-me: porque havia de fazê-lo? Não somos muito no mundo a trazer este testemunho.” (p.138)



11 janeiro, 2020

Al Berto - dia de aniversário



NOITE DE LISBOA COM AUTO-RETRATO E SOMBRA DE IAN CURTIS



filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado


Al Berto 


10 janeiro, 2020

A criança em ruínas, de José Luís Peixoto



OPINIÃO


Por questões de trabalho, volto a ler este pequeno livro de poesia. Faço-o sempre com muito prazer, pois gosto da escrita do JLP. É um livro pleno de sensibilidade, com resquícios de tristeza e de saudade muito presentes no seu primeiro livro Morreste-me. 
O autor partilha com o leitor a solidão e a dor causadas pela desintegração/separação da família: a perda do pai, a saída de casa das irmãs, o alheamento da mãe.

“na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.” 

Para colmatar a saudade e a angústia dos lugares vazios, (“o teu sono anoiteceu mais que as mortes/que posso suportar e hei-de escrever-te/sempre e mais uma vez sozinho nesta noite”) o autor evoca a infância, relembra e (re)vive momentos de felicidade, de ternura e de amor. “recordas mãe a segurança /calada dos nossos abraços distantes?”

É impossível ficar indiferente a tanta melancolia e sensibilidade porque, afinal, em todos nós, há um pouco desta “criança em ruínas” que tenta sobreviver à tristeza e que acredita na existência da felicidade. 

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade.”



07 janeiro, 2020

Karen, de Ana Teresa Pereira


OPINIÃO

Parti com grandes expectativas para a leitura deste livro porque as recomendações eram muitas e boas. Fiquei um pouco desapontada com o final, pois temo não o ter bem entendido. Ou será que o final fica em aberto para manter a ambiguidade existente na identidade da personagem? 

Quanto ao enredo até funcionou bem e gostei. Uma rapariga que cai numa cascata e perde a memória. É ela que nos conta a sua história vivida no presente, imaginada, recordada “ Imagining… no, remembering… estava a tornar-se difícil separar o que imaginava do que recordava”. Esta dificuldade passou bem para o leitor que se deixa envolver neste mistério e que permanece na dúvida em relação à identidade de Karen. É mesmo ela ou há uma outra?
Como gostei da escrita, vou ter de dar outra oportunidade à autora, mas com outro livro e talvez até volte a este. 



05 janeiro, 2020

Deste Mundo e do Outro, de José Saramago


OPINIÃO




Temos 60 crónicas publicadas em 1968 e 69 no jornal A Capital. Não podemos esquecer que nesta época tudo era dito com meias palavras, nas entrelinhas “E eu, rapazinho que vivia apertado na pele que lhe coubera, lançava o bafo às vidraças e traçava desenhos incompreensíveis, com a vaga inquietação de quem adivinha que há nas coisas sentidos ocultos que só ocultamente podem ser entendidos.” (p. 32).

Saramago, a certa altura, numa crónica intitulada Viagens na minha terra, revisita à obra de Almeida Garrett, apresenta a seguinte questão: “Crónicas, que são? Pretextos, ou testemunhos? São o que podem ser.” (p. 50). 

Considero que estes textos são precisamente testemunhos, reflexões, uns mais irónicos que outros, do autor sobre pessoas importantes da sua vida (avô e avó maternos), sobre escritores que o marcaram, sobre aspectos da sua infância (a casa onde viveu), factos do dia-a-dia (cidade, amola-tesouras, praia, férias, etc), acontecimentos importantes (a ida à lua). Os textos estão tão bem escritos que alguns são autênticos contos. Ele próprio refere “Amigos, esta história é verdadeira. Todas as minhas histórias são verdadeiras, só que às vezes me foge a mão e meto na trama seca da verdade um leve fio colorido que tem nome fantasia, imaginação ou visão dupla.” (p. 59.) 

Outro aspecto que me agradou bastante é a cumplicidade estabelecida entre autor e leitor, há uma constante interpelação ao leitor “perdoará o leitor que eu me deixe escorregar pelo declive das utopias” (p. 77); “Dê-me a sua mão, leitor. Sente-se aqui, a meu lado, e escute a história simples do coração dos homens.” (p. 109); “Deu-me para aqui hoje, leitor. Tenha paciência e vire a página.” (p. 129); e por aí adiante. São múltiplos os exemplos e dou por mim a sorrir, pois adoro esta cumplicidade é como se eu fosse personagem dos textos de Saramago e isso é um tremendo privilégio. 



31 dezembro, 2019

O Terrorista Elegante, de Mia Couto e José Eduardo Agualusa



OPINIÃO

Um livro maravilhoso, bem-disposto e que me fez rir. Não esperava outra coisa. Assim que soube que Mia Couto e José Eduardo Agualusa tinham escrito este livro juntos, pensei "vai ser genial" e não me enganei. Não podia escolher um melhor livro para terminar o ano.
Recomendo vivamente!

29 dezembro, 2019

Pode um corpo morto, de Andreia Azevedo Moreira


OPINIÃO



Este pequeno livro integra a colecção Crateras Ficção, projecto que visa a publicação de textos inéditos de autores directamente ligados à EC.ON. 

Foi uma boa surpresa a leitura deste livro que contém quatro textos em prosa. A autora revela uma escrita madura, por vezes dura na medida em que foca o assunto com palavras cruas e directas. Não há rodeios, mas há sentimento e intensidade, há coragem em abordar temas como a prostituição “Por que será menos digno ganhar dinheiro a fazer algo de que se goste do que acabar-se com o lombo a limpar escadas, “; o envelhecimento “ Considerei pertencer a uma estirpe incorruptível pela idade.”; o prazer sexual “Terei alguma vez sentido orgasmo ou alegria (…) Cinquenta anos. Mudanças não houve.” ; a beleza ou a falta dela “Reparei nas feições desagradáveis. Na vez da repulsa, ternura e preconceito.”. 

Colocando a mulher no centro da sua escrita, a autora crítica uma sociedade ainda demasiado machista e preconceituosa. 

Vejam como é belo este excerto retirado do segundo texto:
“Danço louca e despudorada. Inteira. Pela primeira vez, não represento. Sou. Uma mulher a dançar uma canção de desamor. Rodopio no meio de cadeiras brancas recostadas que estranham a desenvoltura, a ausência do medo e de expectativas.”


Zeca Afonso – o andarilho da voz de ouro, de José Jorge Letria




OPINIÃO

Livro infantil com uma escrita muito poética e com ilustrações maravilhosas que explica muito bem quem foi Zeca Afonso, o seu papel como poeta e cantor de intervenção, grande defensor da Liberdade.

A Passagem, de Horácio Medina


SINOPSE


A vida é de quem vive do que arde cá dentro.
Assim começa a passagem de Horácio Medina. Pela (re)visita aos campos da juventude e às passadas pela corrente forte e contínua que o persegue, este procura a resposta à pergunta existencial que Horácio Medina tanto se questiona e lhe intriga:
Quem sabe viver?


OPINIÃO

Horácio Medina tinha 23 anos quando publicou este livro de poesia, pelo que a sua escrita revela já alguma maturidade. O livro está dividido em três partes: Os Campos (20 poemas), A Corrente (12 poemas) e A Passagem (32 poemas). Temos o tema do tempo, a inevitabilidade da passagem do tempo e a busca incessante do “Eu”. Esta busca reflecte-se na urgência de viver. Há um crescendo desta ideia ao longo do livro. 
Na primeira parte, a passagem do tempo é vivida de forma serena:
“ Durmo como as crianças, que ao leve som ignoto/Levantam-se como quem lhes dá tudo.” ( II);
“Sentir o sentido de todas as ínfimas coisas, / Dos campos que são verdes e belos, / Que são meus, porque os vejo como são.” (VI)
“ Procuro o sol como quem procura o dia, /Esperando, assim, como qualquer ser, /Que amanheça o dia de todos os dias.” (XVII)

Na segunda parte, a mesma passagem do tempo já é mais tumultuosa, mais sofrida de acordo com a “corrente” das águas, ora do mar “com as ondas a rebentarem nos meus alicerces” (I), ora do rio “O rio corre e vai ter ao mesmo sítio de todo o sempre” (II);
“Afinal não há vida para além desta./ Afinal esta nunca existiu, / (…) As lágrimas são apenas o ato de ver mais que o visível/ E escorrem pela face, como um rio pela encosta abaixo.” (IV);
A vida é como o correr do rio. / Vê o dia e a noite e a paisagem enquanto passa. / Nasce, corre e leva sempre aos mesmos lugares. / E quem o vê correr não se vê correr.” (X) 

Finalmente, na terceira parte, a minha preferida, onde a passagem do tempo, da vida é a procura incessante do “Eu” “Assim me conheça” (XXII). Esta procura manifesta-se em desassossego, em questionamento e em cansaço “Sou o longe de mim e a proximidade que fora. / E agora, o que vem?” (VI)
“ Não creio em ilusões. Iludo-me. / Desassossego-me sossegado continuamente, “ (XIV); 
“ Oh, o que eu daria para não passar de hoje…” (XVI) 

Esta urgência de viver, como referi acima, deve-se ao facto de o autor ter uma missão a cumprir que é a de escrever (XV):
“(…) 
Escrevo como um danado e como se não houvesse amanhã; 
E o futuro fosse tão distante da minha alma de papel.
Porque escrevo não sei. 
Que deverei saber eu da minha literatura?
E os que lêem, que deverão saber eles de mim?
Ler é encher a alma. 
Escrever é libertação” 

Concordo plenamente com estes dois últimos versos. Medina cumpriu bem, na minha opinião, a sua missão. Resta-nos a nós leitores “encher a alma”. 




28 dezembro, 2019

Cartas Portuguesas, de Soror Mariana Alcoforado



OPINIÃO

Hoje, em que basicamente já não se escrevem cartas, muito menos de amor, considero que todos os amantes de livros e de literatura deveriam ler este pequeno livro maravilhoso. E esta edição de 2011 (Cocas Produções) é belíssima com ilustrações fabulosas de Susa Monteiro. 

Estas cartas atribuídas a Mariana Alcoforado são datadas de Janeiro de 1669. São cinco cartas de amor enviadas por Mariana, jovem freira que vivia num convento em Beja, a um oficial francês.·
Estas cinco cartas revelam uma paixão avassaladora, uma entrega total ao homem que a seduziu e que a abandonou sem qualquer explicação. Estamos perante um amor exacerbado, sofrido, sem retorno. 

“Mas pareceras-me digno do meu amor, antes que me houvesses dito que me amavas, mostraste-me uma grande paixão, senti-me deslumbrada, e abandonei-me a amar-te perdidamente.” 

“Sei bem que te amo como uma doida.
Não me queixo contudo de esta fúria insana no meu coração.” 

“Daqui a poucos dias vai fazer um ano que toda me entreguei a ti, sem recato”.

Magnífico! Arrebatador!


27 dezembro, 2019

É Março e É Natal em Ouagadougou, de António Pinto Ribeiro


OPINIÃO




Este livro, classificado como “livro de viagens” pouco ou nada descreve dos países visitados na entre 2004 e 2010. Trata-se sobretudo de pequenas notas de viagens efectuadas pelo autor em trabalho como professor ou como programador. 

O que gostei efectivamente de ler no livro são as muitas referências culturais apresentadas (cinema, músicas, escritores, museus …), sobretudo as literárias, pois o autor cita livros que devem ser lidos antes de se visitar determinado país ou determinada cidade. Por exemplo:
a) capítulo “Veneza” - “ Veneza, de Jan Morris, é o livro ideal para esta viagem; “
b) capítulo “Três dias em Paris” – “… é que nesta cidade apetece viver à volta de livros, da leitura de livros, da visita às livrarias, da compra ou troca de livros, da consulta às bibliotecas, (…) e ler, principalmente. “ 
c) capítulo “Cuba” – “Numa viagem a Cuba devemos entre outros livros possíveis, levar connosco A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.” 

E por aí adiante … 
É um livro diferente e interessante.



26 dezembro, 2019

Um Cântico de Natal, de Charles Dickens



SINOPSE

Um daqueles raros livros que deu expressão a algo enorme. Acredito que a própria vivência do Natal foi tocada por estas páginas.(…) Uma obra que nos faz pensar e que nos faz sentir. É por isso que continuará a ser lida.

OPINIÃO

Belíssimo conto que enaltece o verdadeiro espírito do Natal, despertando valores como “a caridade, a misericórdia, a tolerância e a benevolência”(p. 43). Nesta obra intemporal, muito bem escrita, o autor como em quase todos os seus livros, critica a sociedade e dá destaque aos que vivem com mais dificuldades. Charles Dickens, através das suas descrições tão realistas, consegue transportar o leitor para o âmago da acção e vivê-la intensamente como se fosse uma personagem. 
É um conto que nos faz reflectir sobre a vida, sobre as relações humanas, a solidariedade, a generosidade, … 
O ideal seria mesmo que o Natal fosse celebrado todos os dias, tal como Scrooge, angustiado pelas imagens que viu, referiu “ – Honrarei o Natal do fundo do coração e celebrá-lo-ei todo o ano” (p.142)



25 dezembro, 2019

Chuva sobre o Rosto, de Eugénio de Andrade




OPINIÃO

E como hoje, dia de Natal, há lugares vazios à mesa, nada melhor do que (re)ler estes 21 poemas de Eugénio de Andrade. O livro inicia com um retrato da sua mãe, por José Rodrigues. Todos os poemas são dedicados à mãe. Como referi numa leitura anterior, estamos perante um discurso cristalino, conciso, sentido e verdadeiro. Não há muito a dizer. A sua escrita diz tudo. A melhor homenagem é lê-lo. Transcrevo dois poemas… em memória da mulher que é/ foi a sua mãe. Pela saudade que tenho da minha. 

Essa mulher… 

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Casa na chuva 

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se a minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Ouço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.