MAR

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20 janeiro, 2020

Os que Sucumbem e os que se Salvam, de Primo Levi



OPINIÃO

Com este livro concluí a leitura da trilogia de Auschwitz. Quarenta anos depois de ter escrito Se Isto é um homem, Primo Levi aborda de novo a problemática do Holocausto. Desta vez, tenta dar resposta às muitas questões que se lhe colocam constantemente sobre o extermínio causado pelos nazis. 

“Teremos sido capazes, nós sobreviventes, de compreender e de fazer compreender a nossa experiência?” (p.41)

Temos uma análise muito lúcida e dolorosa sobre os acontecimentos no Lager, sobre as atrocidades praticadas, sobre a desumanização, a humilhação e a “violência inútil” exercidas sobre os prisioneiros. No último capítulo “Cartas de alemães”, e no seguimento da tradução e publicação do seu livro Se Isto é um homem, na Alemanha (1959), Primo Levi, aborda também a questão da culpa em relação à opressão nazi. Nas várias cartas que recebeu e nas que transcreveu verifica-se que foi sentida e assumida por alguns, ignorada e negada por outros. 
Como o autor tem receio que estes factos caiam no esquecimento quer por parte dos sobreviventes como forma de atenuar a dor, quer por parte dos opressores para se distanciarem dos factos e assim aliviarem a culpa e a vergonha (se é que alguma vez as sentiram), então lega-nos o seu testemunho, nos dois primeiros livros, e as suas reflexões neste último para que a “memória colectiva” permaneça viva e passe de geração em geração. 

“À distância de quarenta anos, a minha tatuagem tornou-se parte do meu corpo. Não me vanglorio nem me envergonho dela, não a exibo nem a escondo. Mostro-a de má vontade a quem mo pede por simples curiosidade; prontamente e com ira a quem se declara incrédulo. Os jovens muitas vezes perguntam-me porque é que não a mando apagar, e isto espanta-me: porque havia de fazê-lo? Não somos muito no mundo a trazer este testemunho.” (p.138)



11 janeiro, 2020

Al Berto - dia de aniversário



NOITE DE LISBOA COM AUTO-RETRATO E SOMBRA DE IAN CURTIS



filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado


Al Berto 


10 janeiro, 2020

A criança em ruínas, de José Luís Peixoto



OPINIÃO


Por questões de trabalho, volto a ler este pequeno livro de poesia. Faço-o sempre com muito prazer, pois gosto da escrita do JLP. É um livro pleno de sensibilidade, com resquícios de tristeza e de saudade muito presentes no seu primeiro livro Morreste-me. 
O autor partilha com o leitor a solidão e a dor causadas pela desintegração/separação da família: a perda do pai, a saída de casa das irmãs, o alheamento da mãe.

“na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.” 

Para colmatar a saudade e a angústia dos lugares vazios, (“o teu sono anoiteceu mais que as mortes/que posso suportar e hei-de escrever-te/sempre e mais uma vez sozinho nesta noite”) o autor evoca a infância, relembra e (re)vive momentos de felicidade, de ternura e de amor. “recordas mãe a segurança /calada dos nossos abraços distantes?”

É impossível ficar indiferente a tanta melancolia e sensibilidade porque, afinal, em todos nós, há um pouco desta “criança em ruínas” que tenta sobreviver à tristeza e que acredita na existência da felicidade. 

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade.”



07 janeiro, 2020

Karen, de Ana Teresa Pereira


OPINIÃO

Parti com grandes expectativas para a leitura deste livro porque as recomendações eram muitas e boas. Fiquei um pouco desapontada com o final, pois temo não o ter bem entendido. Ou será que o final fica em aberto para manter a ambiguidade existente na identidade da personagem? 

Quanto ao enredo até funcionou bem e gostei. Uma rapariga que cai numa cascata e perde a memória. É ela que nos conta a sua história vivida no presente, imaginada, recordada “ Imagining… no, remembering… estava a tornar-se difícil separar o que imaginava do que recordava”. Esta dificuldade passou bem para o leitor que se deixa envolver neste mistério e que permanece na dúvida em relação à identidade de Karen. É mesmo ela ou há uma outra?
Como gostei da escrita, vou ter de dar outra oportunidade à autora, mas com outro livro e talvez até volte a este. 



05 janeiro, 2020

Deste Mundo e do Outro, de José Saramago


OPINIÃO




Temos 60 crónicas publicadas em 1968 e 69 no jornal A Capital. Não podemos esquecer que nesta época tudo era dito com meias palavras, nas entrelinhas “E eu, rapazinho que vivia apertado na pele que lhe coubera, lançava o bafo às vidraças e traçava desenhos incompreensíveis, com a vaga inquietação de quem adivinha que há nas coisas sentidos ocultos que só ocultamente podem ser entendidos.” (p. 32).

Saramago, a certa altura, numa crónica intitulada Viagens na minha terra, revisita à obra de Almeida Garrett, apresenta a seguinte questão: “Crónicas, que são? Pretextos, ou testemunhos? São o que podem ser.” (p. 50). 

Considero que estes textos são precisamente testemunhos, reflexões, uns mais irónicos que outros, do autor sobre pessoas importantes da sua vida (avô e avó maternos), sobre escritores que o marcaram, sobre aspectos da sua infância (a casa onde viveu), factos do dia-a-dia (cidade, amola-tesouras, praia, férias, etc), acontecimentos importantes (a ida à lua). Os textos estão tão bem escritos que alguns são autênticos contos. Ele próprio refere “Amigos, esta história é verdadeira. Todas as minhas histórias são verdadeiras, só que às vezes me foge a mão e meto na trama seca da verdade um leve fio colorido que tem nome fantasia, imaginação ou visão dupla.” (p. 59.) 

Outro aspecto que me agradou bastante é a cumplicidade estabelecida entre autor e leitor, há uma constante interpelação ao leitor “perdoará o leitor que eu me deixe escorregar pelo declive das utopias” (p. 77); “Dê-me a sua mão, leitor. Sente-se aqui, a meu lado, e escute a história simples do coração dos homens.” (p. 109); “Deu-me para aqui hoje, leitor. Tenha paciência e vire a página.” (p. 129); e por aí adiante. São múltiplos os exemplos e dou por mim a sorrir, pois adoro esta cumplicidade é como se eu fosse personagem dos textos de Saramago e isso é um tremendo privilégio. 



31 dezembro, 2019

O Terrorista Elegante, de Mia Couto e José Eduardo Agualusa



OPINIÃO

Um livro maravilhoso, bem-disposto e que me fez rir. Não esperava outra coisa. Assim que soube que Mia Couto e José Eduardo Agualusa tinham escrito este livro juntos, pensei "vai ser genial" e não me enganei. Não podia escolher um melhor livro para terminar o ano.
Recomendo vivamente!

29 dezembro, 2019

Pode um corpo morto, de Andreia Azevedo Moreira


OPINIÃO



Este pequeno livro integra a colecção Crateras Ficção, projecto que visa a publicação de textos inéditos de autores directamente ligados à EC.ON. 

Foi uma boa surpresa a leitura deste livro que contém quatro textos em prosa. A autora revela uma escrita madura, por vezes dura na medida em que foca o assunto com palavras cruas e directas. Não há rodeios, mas há sentimento e intensidade, há coragem em abordar temas como a prostituição “Por que será menos digno ganhar dinheiro a fazer algo de que se goste do que acabar-se com o lombo a limpar escadas, “; o envelhecimento “ Considerei pertencer a uma estirpe incorruptível pela idade.”; o prazer sexual “Terei alguma vez sentido orgasmo ou alegria (…) Cinquenta anos. Mudanças não houve.” ; a beleza ou a falta dela “Reparei nas feições desagradáveis. Na vez da repulsa, ternura e preconceito.”. 

Colocando a mulher no centro da sua escrita, a autora crítica uma sociedade ainda demasiado machista e preconceituosa. 

Vejam como é belo este excerto retirado do segundo texto:
“Danço louca e despudorada. Inteira. Pela primeira vez, não represento. Sou. Uma mulher a dançar uma canção de desamor. Rodopio no meio de cadeiras brancas recostadas que estranham a desenvoltura, a ausência do medo e de expectativas.”


Zeca Afonso – o andarilho da voz de ouro, de José Jorge Letria




OPINIÃO

Livro infantil com uma escrita muito poética e com ilustrações maravilhosas que explica muito bem quem foi Zeca Afonso, o seu papel como poeta e cantor de intervenção, grande defensor da Liberdade.

A Passagem, de Horácio Medina


SINOPSE


A vida é de quem vive do que arde cá dentro.
Assim começa a passagem de Horácio Medina. Pela (re)visita aos campos da juventude e às passadas pela corrente forte e contínua que o persegue, este procura a resposta à pergunta existencial que Horácio Medina tanto se questiona e lhe intriga:
Quem sabe viver?


OPINIÃO

Horácio Medina tinha 23 anos quando publicou este livro de poesia, pelo que a sua escrita revela já alguma maturidade. O livro está dividido em três partes: Os Campos (20 poemas), A Corrente (12 poemas) e A Passagem (32 poemas). Temos o tema do tempo, a inevitabilidade da passagem do tempo e a busca incessante do “Eu”. Esta busca reflecte-se na urgência de viver. Há um crescendo desta ideia ao longo do livro. 
Na primeira parte, a passagem do tempo é vivida de forma serena:
“ Durmo como as crianças, que ao leve som ignoto/Levantam-se como quem lhes dá tudo.” ( II);
“Sentir o sentido de todas as ínfimas coisas, / Dos campos que são verdes e belos, / Que são meus, porque os vejo como são.” (VI)
“ Procuro o sol como quem procura o dia, /Esperando, assim, como qualquer ser, /Que amanheça o dia de todos os dias.” (XVII)

Na segunda parte, a mesma passagem do tempo já é mais tumultuosa, mais sofrida de acordo com a “corrente” das águas, ora do mar “com as ondas a rebentarem nos meus alicerces” (I), ora do rio “O rio corre e vai ter ao mesmo sítio de todo o sempre” (II);
“Afinal não há vida para além desta./ Afinal esta nunca existiu, / (…) As lágrimas são apenas o ato de ver mais que o visível/ E escorrem pela face, como um rio pela encosta abaixo.” (IV);
A vida é como o correr do rio. / Vê o dia e a noite e a paisagem enquanto passa. / Nasce, corre e leva sempre aos mesmos lugares. / E quem o vê correr não se vê correr.” (X) 

Finalmente, na terceira parte, a minha preferida, onde a passagem do tempo, da vida é a procura incessante do “Eu” “Assim me conheça” (XXII). Esta procura manifesta-se em desassossego, em questionamento e em cansaço “Sou o longe de mim e a proximidade que fora. / E agora, o que vem?” (VI)
“ Não creio em ilusões. Iludo-me. / Desassossego-me sossegado continuamente, “ (XIV); 
“ Oh, o que eu daria para não passar de hoje…” (XVI) 

Esta urgência de viver, como referi acima, deve-se ao facto de o autor ter uma missão a cumprir que é a de escrever (XV):
“(…) 
Escrevo como um danado e como se não houvesse amanhã; 
E o futuro fosse tão distante da minha alma de papel.
Porque escrevo não sei. 
Que deverei saber eu da minha literatura?
E os que lêem, que deverão saber eles de mim?
Ler é encher a alma. 
Escrever é libertação” 

Concordo plenamente com estes dois últimos versos. Medina cumpriu bem, na minha opinião, a sua missão. Resta-nos a nós leitores “encher a alma”. 




28 dezembro, 2019

Cartas Portuguesas, de Soror Mariana Alcoforado



OPINIÃO

Hoje, em que basicamente já não se escrevem cartas, muito menos de amor, considero que todos os amantes de livros e de literatura deveriam ler este pequeno livro maravilhoso. E esta edição de 2011 (Cocas Produções) é belíssima com ilustrações fabulosas de Susa Monteiro. 

Estas cartas atribuídas a Mariana Alcoforado são datadas de Janeiro de 1669. São cinco cartas de amor enviadas por Mariana, jovem freira que vivia num convento em Beja, a um oficial francês.·
Estas cinco cartas revelam uma paixão avassaladora, uma entrega total ao homem que a seduziu e que a abandonou sem qualquer explicação. Estamos perante um amor exacerbado, sofrido, sem retorno. 

“Mas pareceras-me digno do meu amor, antes que me houvesses dito que me amavas, mostraste-me uma grande paixão, senti-me deslumbrada, e abandonei-me a amar-te perdidamente.” 

“Sei bem que te amo como uma doida.
Não me queixo contudo de esta fúria insana no meu coração.” 

“Daqui a poucos dias vai fazer um ano que toda me entreguei a ti, sem recato”.

Magnífico! Arrebatador!


27 dezembro, 2019

É Março e É Natal em Ouagadougou, de António Pinto Ribeiro


OPINIÃO




Este livro, classificado como “livro de viagens” pouco ou nada descreve dos países visitados na entre 2004 e 2010. Trata-se sobretudo de pequenas notas de viagens efectuadas pelo autor em trabalho como professor ou como programador. 

O que gostei efectivamente de ler no livro são as muitas referências culturais apresentadas (cinema, músicas, escritores, museus …), sobretudo as literárias, pois o autor cita livros que devem ser lidos antes de se visitar determinado país ou determinada cidade. Por exemplo:
a) capítulo “Veneza” - “ Veneza, de Jan Morris, é o livro ideal para esta viagem; “
b) capítulo “Três dias em Paris” – “… é que nesta cidade apetece viver à volta de livros, da leitura de livros, da visita às livrarias, da compra ou troca de livros, da consulta às bibliotecas, (…) e ler, principalmente. “ 
c) capítulo “Cuba” – “Numa viagem a Cuba devemos entre outros livros possíveis, levar connosco A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.” 

E por aí adiante … 
É um livro diferente e interessante.



26 dezembro, 2019

Um Cântico de Natal, de Charles Dickens



SINOPSE

Um daqueles raros livros que deu expressão a algo enorme. Acredito que a própria vivência do Natal foi tocada por estas páginas.(…) Uma obra que nos faz pensar e que nos faz sentir. É por isso que continuará a ser lida.

OPINIÃO

Belíssimo conto que enaltece o verdadeiro espírito do Natal, despertando valores como “a caridade, a misericórdia, a tolerância e a benevolência”(p. 43). Nesta obra intemporal, muito bem escrita, o autor como em quase todos os seus livros, critica a sociedade e dá destaque aos que vivem com mais dificuldades. Charles Dickens, através das suas descrições tão realistas, consegue transportar o leitor para o âmago da acção e vivê-la intensamente como se fosse uma personagem. 
É um conto que nos faz reflectir sobre a vida, sobre as relações humanas, a solidariedade, a generosidade, … 
O ideal seria mesmo que o Natal fosse celebrado todos os dias, tal como Scrooge, angustiado pelas imagens que viu, referiu “ – Honrarei o Natal do fundo do coração e celebrá-lo-ei todo o ano” (p.142)



25 dezembro, 2019

Chuva sobre o Rosto, de Eugénio de Andrade




OPINIÃO

E como hoje, dia de Natal, há lugares vazios à mesa, nada melhor do que (re)ler estes 21 poemas de Eugénio de Andrade. O livro inicia com um retrato da sua mãe, por José Rodrigues. Todos os poemas são dedicados à mãe. Como referi numa leitura anterior, estamos perante um discurso cristalino, conciso, sentido e verdadeiro. Não há muito a dizer. A sua escrita diz tudo. A melhor homenagem é lê-lo. Transcrevo dois poemas… em memória da mulher que é/ foi a sua mãe. Pela saudade que tenho da minha. 

Essa mulher… 

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Casa na chuva 

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se a minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Ouço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


24 dezembro, 2019

À Sombra da Memória, de Eugénio de Andrade

´


SINOPSE

"Sou um homem com vocação para escutar. Vocação e paciência: fixa, imóvel, atenta ao rumor da luz, do coração batendo, ou simplesmente das palavras, quando se juntam para acasalar. Rumores que atravessam a nossa vida, se perdem na memória, regressam com as cabras, o focinho húmido dos primeiros orvalhos. Alguns desses rumores andam connosco desde menino, acabam perdidos num olhar, morrem à míngua de música. Rumores do azul fremente da sombra, dos cães ladrando no adro; rumor da chuva, os pingos grossos pressentindo a agonia das cigarras e do verão sobre as oliveiras; rumor do sol entrando pelo quarto, gatinhando até à cama."


OPINIÃO

Eugénio de Andrade é um dos meus poetas portugueses preferidos por duas razões específicas: a primeira, como não podia deixar de ser, a sua poesia; a segunda, porque é meu conterrâneo (nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão. Eu nasci no Tortosendo, concelho da Covilhã, mas vivi no Fundão). Por tudo isto, não compreendo como pude deixar este livro guardado na estante durante dez anos sem o ler. Incompreensível! Porém, releio amiúde a sua poesia. 
Este pequeno livro, em prosa, revela a sua sensibilidade perante a natureza, perante a amizade verdadeira, perante a arte. O autor “à sombra da memória”, fala-nos da sua infância, da sua mãe, dos amigos, dos lugares onde viveu e de algumas viagens. Tanto num tão pequeno livro, poder-se-ia afirmar. Sim, uma das principais características do autor é o uso apropriado da palavra. Nada está a mais, nada está a menos. Se assim é, na poesia o mesmo se verifica na prosa. Pelo que poderei afirmar que se trata de prosa poética. E citando o autor num dos seus poemas mais conhecidos: 

“São como um cristal, 
as palavras.” 

Estamos perante um discurso cristalino e conciso que conduz o leitor através das recordações, através dos sentidos num propósito de nos falar de si, da sua escrita, do seu mundo.

“O poeta é um homem de bruscas iluminações, não tem fórmulas para chegar à poesia; ninguém lhe pode apontar caminhos; chega-se lá como os cegos, tacteando;” (pp. 32 e 33)

“Andei por lá, nestes primeiros dias de Julho, à procura do rasto dos passos miúdos do garoto que por ali cresceu com os juncos da ribeira, e abriu, o coração à música do mundo:” (p. 99) 

“É assim, às vezes, a graça da poesia visita-nos: a mim, a vocês e temos que ficar-lhe gratos. Eu, por ter escrito o poema; vocês, por o terem recriado quando o lêem.” (p 111)

23 dezembro, 2019

Feliz Natal




Natal, e não Dezembro


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal'




21 dezembro, 2019

A Porta, de Magda Szabó



SINOPSE
Romance escrito em tom confessional e vagamente autobiográfico, A Porta narra a estreita relação que se estabelece entre duas mulheres na Hungria dos anos do pós-guerra: Magda, uma jovem escritora, e a sua empregada, Emerence, uma camponesa analfabeta.
Magda, até então impedida de publicar, é politicamente reabilitada pelo regime, e torna-se escritora a tempo inteiro, alcançando, aos poucos, o merecido sucesso e reconhecimento social.
Ao mudar-se para um apartamento maior, emprega Emerence para a ajudar com as lides domésticas. Esta é uma figura enigmática, respeitada e quase temida pela vizinhança, sobre a qual exerce uma autoridade natural, embora ninguém conheça verdadeiramente o seu passado ou vida privada. A porta de sua casa está sempre fechada.
A inesperada e dramática doença do marido de Magda reforçará a ligação e intimidade entre as duas mulheres, as quais, não obstante as enormes diferenças que as separam, estabelecem uma insólita relação de dependência e confiança mútua, que fará Emerence abrir a porta de sua casa a Magda, revelando-lhe os segredos de um passado traumático, ao mesmo tempo que precipita um final trágico na sua relação.

Nova tradução, feita directamente do húngaro pelo reconhecido escritor e ensaísta Ernesto Rodrigues.

OPINIÃO

Livro fabuloso que ainda estou a digerir. É este tipo de livros que me dá prazer ler, em que a história remói e remói a minha mente, não consigo pensar noutra coisa a não ser nas personagens. 
A narradora que é escritora (autobiográfico?) e a sua empregada e porteira do prédio, Emerence, vivem durante mais de vinte anos uma relação ambígua, desconcertante e bastante tumultuosa ancorada em momentos de amizade, de ódio, de amor. 
As duas personagens dotadas de uma personalidade forte que vai oscilando entre o entendimento e a desconfiança, provocam no leitor sentimentos contraditórios e intensos. 
É pelas palavras de Magda, a narradora, que vamos conhecendo a vida das personagens, os erros cometidos, o remorso e a culpa que carrega, o segredo de Emerence que está por detrás da porta e que pouquíssimas pessoas conhecem, mas também um pouco da História da Hungria. 
Gostei muito do livro, da história que questiona as relações humanas, da escrita e sobretudo de Emerence, personagem com um carácter incrível.


11 dezembro, 2019

Contos do Natal, de Domingos Monteiro




SINOPSE

Nestes «Contos do Natal», dispersos por livros, jornais e revistas, e aqui reunidos ,”irmanam-se pela sua beleza, poder evocativo e profunda humanidade”, os imensos recursos do Homem e do Prosador.


OPINIÃO

Não conhecia Domingos Monteiro e fiquei seduzida pela sua escrita. Na minha opinião, estamos na presença de um excelente narrador de histórias. Este pequeno livro de sete contos concilia o real e a ficção. O autor atribui aos seus títulos características não observáveis e todas relacionadas com o Natal, diria até que recorre ao transcendente para destacar traços psicológicos das suas personagens bem como a miséria social em que se inserem. Estes aspetos são sobretudo visíveis nos contos “O Milagre”, “ Um Recado para o Céu” e “Ressurreição”.



08 dezembro, 2019

As crianças Invisíveis, de Patrícia Reis




SINOPSE

M. é uma criança habituada a ser usada e devolvida por famílias sucessivas como um produto que não satisfaz o cliente. Cresce numa instituição de acolhimento, onde vai descobrindo o poder da amizade e as armadilhas do desejo e da paixão. Esta é a sua história até chegar à idade adulta, atravessando um processo de invisibilidade, no qual a dor se confunde com a esperança de encontrar uma vida a que possa chamar sua. Ao seu lado existem outras crianças e ainda Conceição, a assistente social que escolhe amar M. incondicionalmente.

As Crianças Invisíveis é um romance que alia um exercício literário ímpar com um profundo trabalho de investigação sobre abandono, maus-tratos e adopção. Construindo toda a narrativa de uma maneira muito original, sem identificar o sexo das crianças, e a partir do olhar delas, a escrita límpida, poderosa e cirúrgica de Patrícia Reis conduz-nos, neste romance avassalador, através dos sonhos, do medo e da intimidade de um conjunto de personagens que percorrem a infância e a adolescência sem pai, nem mãe, nem identidade.


OPINIÃO


Belíssimo livro. Capa e separadores de capítulos apelativos. Estrutura cuidada e original e, sobretudo, uma escrita inteligente e concisa que nos permite mergulhar de forma avassaladora, sentida e emocionada na história de M., criança institucionalizada na “Casa”. 
Esta criança invisível foi adoptada por famílias sucessivas que a devolveram como se de uma mercadoria se tratasse. “Uma família leva uma criança para casa e faz um teste e, depois, pode dizer que se enganou, o amor não cresceu de repente, esplendoroso e gigante, capaz de ultrapassar todos os dissabores por ser amor, logo incondicional. M. sabia de tudo isto.” (p. 45)
“M. conhece muitas crianças devolvidas no período de pré-adopção, os tais seis meses”· (p. 45)

Sabendo que se trata de um romance ficcional que aborda a problemática da adopção, do abandono e maus-tratos, não consigo deixar de pensar que tudo o que foi narrado pode de facto acontecer e que, infelizmente, personifica histórias de muitas crianças. 

“ M. imagina que a Casa está cheia de potenciais construtores de ficção. Há um certo conforto nessa unidade., crianças prontas para imaginar realidades alternativas. M. não considera, nas suas efabulações, a possibilidade de uma mãe. Nem o seu cheiro, nem toque. Já passou essa fase.” (p..150) 

“uma vez criança invisível… Não se é igual às outras, é-se obrigatoriamente incomum, em desavença com a ordem do mundo.” (p.158)


02 dezembro, 2019

A história do senhor Sommer, de Patrick Süskind



SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Leitura recomendada no 7.º ano de escolaridade.

A história do senhor Sommer
No tempo em que eu ainda trepava às árvores, vivia na nossa aldeia, a uns dois quilómetros da nossa casa, um homem a quem chamavam senhor Sommer. Ninguém sabia qual era o seu nome de batismo e também ninguém sabia se ele tinha ou não uma profissão.
Mas embora pouco se soubesse sobre o senhor Sommer, toda a gente o conhecia, pois andava permanentemente de um lado para o outro. Podia nevar ou cair granizo, podia estar um temporal ou chover a cântaros, podia o sol queimar ou aproximar-se um furacão, sempre o senhor Sommer peregrinava como uma alma penada, atravessando a paisagem e os sonhos do narrador…


OPINIÃO

Trata-se de um pequeno livro encantador que cruza as histórias do narrador quando muito jovem “ no tempo em que eu ainda trepava às árvores – há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás” e do senhor Sommer, um homem que se instalou na aldeia com a sua mulher “Ninguém sabia de onde tinham vindo os Sommer. Chegaram simplesmente um dia qualquer – ela de autocarro, ele a pé”. 
O autor transporta-nos, através da sua memória, para os tempos da sua infância. Descreve momentos enternecedores, narra situações caricatas, transmite conhecimentos, de vária ordem, no âmbito da matemática, da física, da língua, …
Quanto ao senhor Sommer e apesar do título, o leitor pouco conhece desta personagem invulgar e caricata, a não ser que passa todos os dias do ano, quer faça sol quer chova torrencialmente, a caminhar apoiado no seu cajado. “ O senhor Sommer andava em peregrinação ” porque “sofre de claustrofobia”.

O livro integra as sugestões do PNL para os jovens de 11 a 13 anos, mas, na minha opinião, pode perfeitamente ser lido pelos menos jovens. E tem ilustrações belíssimas de Sempé.

30 novembro, 2019

O Segredo da Última Ceia, de Javier Sierra





SINOPSE


"O Cidadão do Século XXI observa um quadro, mas não o sabe ver." Além da imagem, os artistas querem contar algo, as suas pinturas são como novelas gráficas" assim explicou o escritor turolense na apresentação do seu último livro - O Segredo da Última Ceia. Através de uma literatura suave e trepidante, Sierra impulsiona o leitor a descobrir os enigmas escondidos nos traços de Da Vinci, porque toda a obra de arte esconde uma leitura. Este livro versa sobre a interpretação do quadro de Leonardo Da Vinci, A Última Ceia, que num olhar menos atento escapa a quem não o souber "ler". Três anos de viagens por Itália e de exaustivos trabalhos de investigação serviram de base a uma conclusão: após ler o livro, o leitor não voltará a ver o quadro com os mesmos olhos. Esta obra sacra mais conhecida da cristandade "está cheia de anomalias" afirmou o escritor e "eu proponho um exercício de paradoxos em torno delas". Através de uma denúncia anónima sobre incongruências existentes no quadro, será na personagem do padre dominicano Augustin Leyre, enviado especial a Milão, em 1497, que o autor fará a investigação sobre as mensagens do quadro que se revelam de forma codificada. Fica o aviso, não são precisos conhecimentos prévios de arte ou história para dar início à leitura deste livro.


OPINIÃO

O enredo principal deste thriller histórico acaba por estar directamente relacionado com o fresco de Leonardo Da Vinci, A Última Ceia, pintado, no final do século XV, no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie em Milão. 
Eu que não aprecio este género de literatura (thriller), acabei por gostar de ser conduzida pelo padre Leyre, ao serviço do Santo Ofício, na descoberta dos enigmas, dos segredos, na busca do autor das mortes atrozes ocorridas em Milão e, principalmente, na descodificação dos códigos secretos e da simbologia que envolvem esta a obra majestosa e singular de Da Vinci. 
Trata-se de um livro interessante que aborda temas como a arte, a religião, a criptografia, o mecenato, a heresia e a crença.


17 novembro, 2019

O deslumbre de Cecília Fluss, de João Tordo


SINOPSE

Aos catorze anos, Matias Fluss é um adolescente preocupado com três coisas: o sexo, um tio enlouquecido e as fábulas budistas. Vive com a mãe e a irmã mais velha, Cecília, numa espécie de ninho onde lambe as feridas da juventude: a primeira paixão, as dúvidas existenciais, os conflitos de afirmação. Sempre que sente o copo a transbordar, refugia-se na cabana isolada do tio Elias.
Cedo, contudo, a inocência lhe será arrancada. Ao virar da esquina, encontra-se o golpe mais duro da sua vida: o desaparecimento súbito de Cecília que, afundada numa paixão por um homem desconhecido, é vista pela última vez a saltar de uma ponte.

Muito mais tarde, Matias será obrigado a revisitar a dor, quando a sua pacata vida de professor universitário é interrompida por uma carta vinda das sombras do passado, lançando a suspeita sobre o que aconteceu realmente à sua irmã — sem saber ainda que regressar ao passado poderá significar, também, resgatar-se a si mesmo.

No final desta «trilogia dos lugares sem nome», iniciada com O luto de Elias Gro, João Tordo explora, através de personagens únicas e universais, numa geografia singular, os temas da memória e do afecto, do amor e da desolação, da vida terrena e espiritual, procurando aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios.


OPINIÃO



Com este livro termino a trilogia dos Lugares Sem Nome. Três romances com personagens que transitam de uns para os outros, mas que podem ser lidos sem qualquer ordem. 

E continuo a achar que estes livros marcam uma viragem na escrita de João Tordo, tal como o enunciei aquando da leitura do Luto de Elias Gro, o primeiro que li e o primeiro da trilogia. A escrita continua sublime e bela, e tal como nos anteriores predominam os sentimentos, o questionamento a procura do eu. 

Neste livro em concreto, o autor explora a temática da perda da memória, do isolamento, da loucura. É Matias Fluss, adulto, numa tentativa de resgatar a sua memória, que nos conta a sua adolescência conturbada, a solidão e a loucura do seu tio Elias, a insatisfação e o desaparecimento da sua irmã Cecília. 

“Antes de começarmos a esquecer, temos de recordar, de começar por recordar, e aquele que começa a recordar, inversamente, começa também a esquecer” (p. 194) 

Mas o envelhecimento e o avanço da demência baralham tudo e é uma aluna de Matias que o ajuda a confrontar o passado e a revisitar a dor ao descobrir a verdade sobre a sua irmã. Trata-se de um complexo caminho para levar o leitor ao questionamento sobre a vida, sobre a condição humana. 

Nos três livros temos a fuga e o isolamento como meios de esquecer o passado. Em todos, o leitor vive o desespero da personagem, assiste à sua decadência, à loucura, à dor, por vezes à esperança. 

“Caminhei até à praia, via as gaivotas saltarem empoleiradas nas suas perninhas ridículas, o mar entrava lentamente pela areia dentro. Nada nos aprisiona, concluí. Somos nós que construímos a cela, que nos enclausuramos, e isso dói. Mas é preciso que doa, que doa muito, até que a dor de abrir uma brecha nesse muro seja menor que a dor de permanecer preso lá dentro, Na maior parte das vidas, tal nunca sucede.” (p. 326) 




06 novembro, 2019

Obra poética - Vol. 1, de Sophia de Mello Breyner Andresen



OPINIÃO

Para assinalar os 100 anos do nascimento de Sophia nada melhor do que ler a sua obra. Volto regularmente à sua poesia. Tudo nela faz sentido. É uma poesia sensível, escrita de forma clara, com palavras certas e concretas. Neste primeiro volume, o mar cruza a sua obra. O mar como lugar de liberdade. O mar associado a outros elementos como praia, noite, jardim, deuses, heróis, cidade (como oposição, como “vida suja”), casa, vento, sentimentos, poemas… 

As ondas quebraram uma a uma 
Eu estava só com a areia e a espuma 
Do mar que cantava só pra mim. 


Aparentemente simples, a sua escrita capta o real, é crítica e interventiva. Claro que a sua interpretação é subjectiva, depende de quem lê e de como se lê. Porém, surpreendente e emocionante porque o leitor, apesar da sua interpretação não consegue discernir o real do imaginado. 

Esgotei o meu mal, agora 
Queria tudo esquecer, tudo abandonar 
Caminhar pela noite fora 
Num barco em pleno mar. 

Mergulhar as mãos nas ondas escuras 
Até que elas fossem essas mãos 
Solitárias e puras 
Que eu sonhei ter

Recomendo-vos Sophia! Eu, voltarei! Porque gosto do seu apelo! 

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas 
Deixarei que o teu nome se perca repetido 

Mas espera-me: 
Pois por mais longos que sejam os caminhos 
Eu regresso.



02 novembro, 2019

Centenário do nascimento de Jorge de Sena




OS TRABALHOS E OS DIAS



Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena






21 outubro, 2019

Três Cartas da Memória das Índias, de Al Berto



OPINIÃO


Reler. Ler de novo. Sempre. O Medo de Al Berto faz parte daqueles livros que me acompanham sempre. De tempos a tempos, volto a ele quer por questões de trabalho (planificação de actividades) quer por gosto pessoal. A escolha, desta vez, recaiu sobre as Três Cartas da Memória das Índias. 

Estes três textos remetem o leitor para a época das navegações portuguesas, (“As Índias por descobrir”) terra longínqua, possível destino de Al Berto que não sabe muito bem qual será o seu destino. Para ele, o importante é mesmo partir, fugir, procurar um lugar onde as fronteiras se esbatam… 

“ não sei o que me espera longe daqui
nem onde pararei de viajar
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar”

Os destinatários destas três cartas imaginárias (ou não?) são, respectivamente, a mulher, o pai e um amigo. 

À primeira, o poeta atribuiu o nome “Carta da árvore triste”; à segunda, “Carta da região mais fértil” e à terceira, “Carta da flor do sol”. Em intertextualidade com um livro de Pyrard de Laval “Tradução e descrição dos animais, árvores e frutos das Índias Orientais”, o poeta explica-nos, assim, a razão pela atribuição destes nomes às cartas.

Na carta à mulher, o sujeito poético refere o seu cansaço em relação à vida comum, ao quotidiano, à rotina “o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias” e refere também a existência de um amigo cuja amizade não consegue explicar.

Na carta ao pai, o sujeito poético aborda o longo tempo de silêncio existente entre ambos (“há muito que o silêncio se fez entre nós”) e apresenta as razões da sua partida: a monotonia do amor conjugal, a insistência da mulher na realização das tarefas caseiras,

“não sei se o pai poderá compreender esta velocidade
aqui tudo se tornou dia após dia mais doloroso
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa
parece que mais nada existe para ela”

e o encontro de “outras compensações/ a amizade segura de uma amigo”

Finalmente, a carta a um amigo, verdadeira razão do abandono, da partida “queria dizer-te por que parto/ por que amo”. O desejo, a procura insaciável do “tu”, o medo da ausência, da solidão justificam a partida, o isolamento

“estou definitivamente só
estou preparado para o grande isolamento da noite
para o eterno anonimato da morte
mas perdi o medo
a loucura assola-me
preparo a última viagem às Índias imaginadas”

(Re) Leiam Al Berto. Eu, adoro a sua escrita… e vou (re)lê-lo sempre.



20 outubro, 2019

A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty, de Peter Handke




SINOPSE

Neste livro, em que a angústia causada pelo penalty é um metáfora da vida, aspecto sublinhado no filme sobre ele feito por Wim Wenders, Peter Handke fala-nos de um amigo guarda-redes que depois de ser despedido do emprego assassina uma mulher sua ocasional amante e deambula num mundo que parece ter perdido todo o sentido.

OPINIÃO

O livro A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty, do escritor austríaco Peter Handke (Prémio Nobel da Literatura 2019), adaptado ao cinema pelo alemão Wim Wenders, é uma metáfora da vida. 

A narrativa retrata Joseph Bloch, um canalizador que antes tinha sido um famoso guarda-redes. No dia em que é despedido do seu emprego, Bloch sai de casa e começa a deambular pela cidade. Uma angústia existencial instala-se nele e passa a ter uma vida sem sentido. Porém, a sua errância vai transformar-se em fuga devido ao assassínio que cometeu. 

Peter Handke desenvolve a sua trama descrevendo simplesmente os factos e gestos do personagem. Sem intriga, apenas errância e ambiguidade. Trata-se de um texto minimalista, com uma escrita cinematográfica, frases simples e curtas, alguns diálogos muito curtos e, por vezes, sem sentido. 

“Porque é que ele estava sempre a sentar-se, a levantar-se, a sair, a andar por ali, a voltar? perguntou a locatária.” (p. 43) 

O leitor não compreende muito bem o que leva Bloch a agir desta forma. O despedimento? O assassínio? Nada sabemos do seu passado, nada nos diz sobre a sua atitude, nem os raros pensamentos nos elucidam. Bloch tem um comportamento alienado e, gradualmente, à medida que a sua doença avança, vai perdendo consciência da realidade. 

“De novo sozinho no quarto encontrou tudo mudado. (…) Sentou-se em cima da cama: ainda mesmo agora a cadeira estava à direita dele, e neste momento estava à esquerda. Estaria a imagem do avesso? Olhou da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda. Repetiu o movimento dos olhos da esquerda para a direita e este olhar pareceu-lhe uma leitura.” (p.94) 

A sua angústia surge da distorção do real, da desordem emocional. Poder-se-á concluir que Bloch sofre de esquizofrenia? 

É na parte final que Peter Handke coloca Bloch a assistir a um jogo de futebol e obviamente descreve a atitude do guarda-redes perante um penalty. 

“É cómico ver o guarda-redes assim, sem a bola, a correr de um lado para o outro à espera da bola” disse ele (Bloch). 

Angústia, ansiedade, sucesso e derrota são emoções comuns à vida e ao futebol.




14 outubro, 2019

Leva-me Contigo - Portugal a pé pela Estrada Nacional 2, de Afonso Reis Cabral



SINOPSE

A Estrada Nacional 2, com os seus quase 739 quilómetros, é a maior de Portugal e uma das maiores do mundo. Atravessa Portugal de Chaves a Faro, numa linha contínua que não é feita só de asfalto. Estrada mítica e com identidade própria, é o mais belo caminho para conhecer as pessoas, as paisagens - o País, em suma. O escritor Afonso Reis Cabral - autor dos romances O Meu Irmão (vencedor do Prémio LeYa) e Pão de Açúcar - decidiu percorrê-la a pé.

Durante vinte e quatro dias, completamente sozinho, deixou que a estrada o guiasse: cruzou montanhas e planícies, mergulhou em rios, caminhou debaixo de tempestades e sob o sol ardente. Mas sobretudo parou para conversar com quem encontrava. No fim de cada dia, publicava na sua página de Facebook um diário escrito no telemóvel relatando os principais eventos da viagem. Com milhares de leitores, comentários e partilhas, os seus textos geraram grande entusiasmo.


OPINIÃO

Vou começar pelo fim. Recomendar muito este livro de Afonso Reis Cabral que relata a sua aventura de percorrer a EN2 a pé e sozinho (de Chaves a Faro – 738 Km), entre 22 de abril a 15 de maio. 

Sozinho, pela estrada, mas muito acompanhado pelas redes sociais. Afonso decidiu partilhar esta caminhada no seu facebook e fê-lo tão bem, com uma escrita simples porque real, mas tão poética que foi conquistando apoios e cada vez mais e mais leitores que, ansiosamente, esperavam pelo seu relato diário. 

“Antes da Sertã, aconselhado pelo caldo-verde, deitei-me à sombra de um sobreiro, imaginei o fio de estrada que ficou para trás e adormeci.” 

Eu fui uma dessas pessoas, diariamente, à noite, lá estava eu à espera do seu relato. Por isso, também eu fiz a EN2 com o Afonso, não pela estrada, não com sofrimento e cansaço sob chuva intensa ou calor tórrido, mas sim, pelas suas palavras, pelas suas descrições das pessoas e da paisagem que tanto me cativaram. 

“Ainda não decidi se a chuva é boa companhia. Por um lado, mete-me muito para dentro de mim mesmo, fico resumido ao poncho e vejo pouco mais do que a ponta das sapatilhas; por outro, isto de estar sempre a escorrer limpa-me o corpo e o espírito. A estrada e eu tomamos duche juntos como amantes.” 

Afonso Reis Cabral é um jovem escritor de 29 anos. Escreveu O Meu Irmão e ganhou o Prémio Leya, 2014; escreveu Pão de Açúcar e ganhou o Prémio José Saramago 2019; com este ainda não ganhou nenhum prémio, mas conquistou muitos leitores e admiradores. 


10 outubro, 2019

Afonso Reis Cabral vence Prémio José Saramago 2019



                                                                    créditos SIC Notícias (net)

Afonso Reis Cabral venceu o Prémio Literário José Saramago. O anúncio foi feito no dia 8 pela presidente do júri, Guilhermina Gomes, na sede da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa.
O escritor de 29 anos foi distinguido com o romance Pão de Açúcar que retrata a vida de Gisberta, uma transexual que foi assassinada na cidade do Porto, em 2006.

O Prémio José Saramago é atribuído pela Fundação Círculo de Leitores, a cada dois anos, a jovens autores com idade não superior a 35 anos, que escrevam uma obra literária em língua portuguesa.

09 outubro, 2019

Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig





SINOPSE


«É talvez a mais extraordinária odisseia na história da humanidade, esta expedição de 265 homens decididos, dos quais só regressaram 18 no navio desmantelado, mas trazendo içada no mastro a bandeira da máxima vitória.» Da Introdução

OPINIÃO

É sempre com enorme prazer que leio Stefan Zweig. E mais uma vez, não me desiludiu, pelo contrário. Esta biografia de Fernão de Magalhães, o primeiro homem que há 500 anos levou a cabo a circum-navegação, revela-nos uma descrição detalhada do homem, da época (descobrimentos) e do grande feito histórico alcançado. 

Aprendi muito sobre este homem empreendedor, observador e curioso (características que lhe permitiram adquirir uma grande sabedoria sobre a arte de navegar). Com uma personalidade fortíssima e com uma vontade enorme de alcançar o seu sonho, planeou cuidadosamente cada pormenor da viagem. Nada foi esquecido, tudo foi analisado. Nada nem ninguém (e muitos obstáculos teve de ultrapassar, quer em terra antes da partida, quer durante a viagem) conseguiu deter este homem de conduzir a sua frota até ao Pacífico pelo Ocidente. Recomendo muito a leitura desta biografia. Foi com prazer que “viajei” com estes dois homens: o herói que conquistou o mundo e o escritor que tão bem e imparcialmente o descreveu




01 outubro, 2019

O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro




SINOPSE

Tudo se passa há muitos, muitos anos, num local de fronteiras bem diferentes das actuais e marcado por grandes extensões de solo árido. Nalgumas zonas, os aldeões viviam em abrigos, parte dos quais cavados na encosta dos montes, ligados uns aos outros por passagens subterrâneas. Era num sítio assim que habitava o casal de idosos que tem lugar central nesta história: Axl e Beatrice. Um dia os dois decidiram ter chegado a hora de procurar o filho que há muito não viam e de quem pouco se recordavam. Naquele tempo longínquo esta era uma viagem que, previsivelmente, traria perigos. Mas aquela proporcionou muito mais do que isso. Uma amnésia colectiva parecia ter-se instalado naquela zona, como uma névoa que descera à terra para fazer esquecer em parte o passado, individual e colectivo. Mas a viagem de Axl e Beatrice revela-se um regresso à lembrança. E esta nem sempre deixa um rasto feliz.
Esta é uma história sobre memórias perdidas, amor, vingança e guerra. É ainda uma história que recua ao passado, transportando o leitor para terrenos percorridos por cavaleiros do rei Artur e monges, ogres e dragões. Um dragão em particular - Querig - é o foco das atenções. E, em relação a ele, as missões dividem-se. A diferença entre poupá-lo ou tirar-lhe a vida pouco tem de fantasia. Depois de dez anos sem publicar ficção de fôlego, Ishiguro apresenta-se agora com uma história inesperada que, por certo, fica na memória.


OPINIÃO

Este livro é uma alegoria da vida. Apesar de não apreciar literatura fantástica, e este livro tem alguns aspectos dessa índole, considero que a narrativa principal nos faz reflectir sobre a vida, de como com o passar do tempo surgem o desgaste emocional, a perda da memória, as suspeições, as doenças e a morte. 

A acção situa-se na Idade Média, no tempo do Rei Artur marcado pelas lutas entre bretões e saxões. Estamos na presença de guerreiros, duendes, ogres e dragões. Porém, os protagonistas são Axl e Beatrice, um casal de idosos, que, certo dia, decidem empreender a viagem à procura do filho que deixaram de ver há muito tempo. A particularidade deste casal e de tantos outros habitantes é que não têm memória devido a uma “névoa” que os faz esquecer quer do passado quer de acontecimentos mais recentes. Ao longo da viagem, várias peripécias vão acontecendo, umas mais terríveis que outras, e algumas lembranças vão surgindo o que causa, por vezes, algum mal-estar, algumas dúvidas entre o casal. Mas o amor e a cumplicidade que os une superam todas as dificuldades e os conflitos que se lhes apresentam ao longo da viagem. 

O próprio título O Gigante Enterrado encerra uma grande metáfora que não posso explicar pois tiraria o prazer da descoberta da leitura. 

Ishiguro presenteia-nos com uma escrita poética e com um final maravilhoso.