MAR

MAR

20 maio, 2019

Antes de Ser Feliz de Patrícia Reis



SINOPSE

O princípio possível começa na Figueira da Foz, uma cidade que é uma espécie de décor, guardiã de memórias de Verão e outras vivências. Um miúdo apaixona-se na idade em que os sentimentos são voláteis e sem importância. O objecto do seu amor é uma rapariga difícil, esquiva e perturbada.
Há a morte da mãe dela, as tardes de praia no areal imenso, as idas a Buarcos, as festas do Casino.
E ainda um pai tímido e um tio criativo atrelado a um cão chamado Tejo. O amor não se desfaz com o tempo. O miúdo chega a rapaz e depois faz-se homem. Parte para Lisboa mas regressa sempre, como uma fatalidade. Espera que ela, a mulher que o obriga a parar no tempo, volte também à cidade, tome conta da sua herança e lhe dê outra vida.
Enquanto espera, acompanha o pai dela na doença, organiza papéis e pensamentos, vai a funerais, pendura um Canaletto precioso. Herda a casa que, em tempos, foi chão sagrado para ela; ela, que finge que não está.

OPINIÃO

Comprei este livro em 2010 aquando da sua publicação e ficou esquecido na estante entre tantos outros. Não merecia tal destino. Trata-se de uma novela belíssima porém triste. Pedro e Inês (só por si estes nomes indiciam algo) são os protagonistas e vivem na Figueira da Foz. Pedro ama Inês logo no primeiro dia que a conhece quando ela, na escola, se senta ao seu lado. Brincam juntos. Crescem juntos. Pedro torna-se um jovem pacato, silencioso, observador, preso pelo coração a Inês. Inês vive uma adolescência perturbada. 
Inês inadaptada à vida que leva, foge para Londres e afasta-se das suas raízes. Pedro mais tarde vai para Lisboa, mas não esquece o seu amor e regressará à terra com a esperança de que ela volte. 
A novela termina sem se saber o desfecho. Nada é dito sobre o futuro… 
Sente-se a tristeza e o leitor tem pena de Pedro que constrói a sua vida acreditando no regresso de Inês. 

Recomendo muito!


14 maio, 2019

72.º Festival de Cannes



O júri que atribuirá a Palma de Ouro será presidido pela realizadora neozelandesa Jane Campion.

Na competição, o festival conta com filmes de Jean-Luc Godard, Mike Leigh, David Cronenberg, Ken Loach, Tommy Lee Jones e Olivier Assayas.


Fora de competição, Cannes estreará a longa-metragem «Pontes de Sarajevo», composto por curtas-metragens de 13 realizadores europeus, entre os quais Teresa Villaverde, com o filme «Sara e sua mãe».

Na secção "Un Certain Regard", serão mostradas algumas primeiras obras, entre as quais «Lost River», realizada pelo  norte-americano Ryan Gosling; «La chambre bleue», de Mathieu Amalric  e «The salt of the earth», de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.



13 maio, 2019

Em tudo havia beleza [Ordesa] de Manuel Vilas



SINOPSE

Impelido por esta convicção, Manuel Vilas compõe, com uma voz corajosa, desencantada, poética, o relato íntimo de uma vida e de um país. Simultaneamente filho e pai, autor e narrador, Vilas escava no passado, procurando recompor as peças, lutando para fazer presente quem já não está. Porque os laços com a família, com os que amamos, mesmo que distantes ou ausentes, são o que nos sustém, o que nos define. São esses mesmos laços que nos permitem ver, à distância do tempo, que a beleza está nos mais simples gestos quotidianos, no afecto contido, inconfessado, e até nas palavras não ditas. 

Falando desde as entranhas, Vilas revela a comovente debilidade humana, ao mesmo tempo que ilumina a força única da nossa condição, a inexaurível capacidade de nos levantarmos de novo e seguirmos em frente, mesmo quando não parece possível. É desenhando um caminho de regresso aos que amamos que o amor pode salvar-nos.

Confessional, provocador, comovente, Em tudo havia beleza é uma admirável peça de literatura, em que se entrelaçam destino pessoal e colectivo, romance e autobiografia. Manuel Vilas criou um relato íntimo de perda e vida, de luto e dor, de afecto e pudor, único na sua capacidade de comover o leitor, de fazer da sua história a história de todos nós.

OPINIÃO

Em tudo havia beleza [Ordesa], é a primeira obra de Manuel Vilas editada no nosso país. Nela, o autor cruza a sua vida e a dos seus pais com a história política e social de Espanha sobretudo dos anos sessenta e setenta. 

Trata-se de um longo e repetitivo lamento, de “uma dor amarela”, de muitas e minuciosas recordações, de medos, de perdas, de sofrimento, de saudade, de solidão e de arrependimento (“Fui um pobre diabo. Não entendi a vida”). Mas também o reconhecimento do amor incondicional pelos seus pais. 

Trata-se de uma interpelação à morte, de um longo estágio de luto quer pela morte dos pais, de familiares e amigos e do próprio divórcio. Os pais são fantasmas que lhe aparecem em casa e que com ele dialogam. 

“Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.” 

Neste romance autobiográfico, o autor de forma simples, clara e directa explica o (seu) sentido da vida e faz-nos reflectir sobre o essencial da existência humana. 

“Este livro é a minha verdade. (…) Para mim, foi importante contar a minha verdade, como filho, mas também como pai.”



04 maio, 2019

as velhas de Hugo Mezena



SINOPSE

A partir de um conjunto de histórias de mulheres sem grande história, Hugo Mezena descreve, com delicadeza e mestria, as fragilidades e anseios de quem deixou de sonhar com o dia seguinte. 
Um livro extremamente tocante sobre as eternas-crianças que envelhecem dentro de cada ser humano, e a forma como o Portugal moderno as trata.
O novo livro de um autor-revelação elogiado unanimemente pela crítica literária.


OPINIÃO

Vinte e três narrativas curtas, vinte e três velhas. Em poucas palavras e numa linguagem simples, sincera e directa Hugo Mezena diz muito sobre estas mulheres que envelheceram e que vivem num mundo próprio, numa casa vazia repleta de memórias presentes, de memórias perdidas, de rotinas perdidas, de nomes esquecidos ou trocados, de poucas ou nenhumas visitas, de algumas coscuvilhices entre vizinhas, de fantasmas… 

Em todas estas histórias tão diferentes (ou talvez não) percebe-se que a solidão e a perda são pontos comuns. 

A realidade destas vidas faz parte do nosso dia-a-dia, da nossa sociedade cada vez mais insensível e alheia à velhice, aos idosos que vivem isolados, que são abandonados, que são depositados em lares e esquecidos. 

Reitero a simplicidade e a beleza das narrativas que muito nos fazem reflectir sobre o nosso presente e sobretudo sobre o nosso futuro. Antevi, de imediato, mais uma história, a da “Dona Graciosa”, pois para lá caminho…



18 abril, 2019

Vamos comprar um poeta de Afonso Cruz


SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 9.º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula.

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspectos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exactidão e até os afectos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito - como acontece com os pintores ou os escultores - mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das acções desinteressadas.

OPINIÃO

Em Vamos comprar um poeta, os assuntos do dia-a-dia versam sobre a conjuntura económica, a necessidade de apertar o cinto, o orçamento da empresa, lucro, contas e mais contas. Tudo (o nome das pessoas, os alimentos que se ingerem, os sentimentos…) é quantificado em números, em estatísticas, em gramas, em percentagem, em tamanho. 

Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares. O meu irmão levantou-se com alegria e espreguiçou-se duas vezes, esticando os braços de dívida colossal para os lados.” 

A narrativa é feita na primeira pessoa por uma jovem que vive inserida numa família focada nos números, até ao dia em que lhe apeteceu comprar um poeta, como se compra um animal de estimação. 

“Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?” (…) “Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?” 

Ora, a presença do poeta vai alterar a ordem normal da vida desta família. A protagonista, a pouco e pouco, deixa-se contaminar pelas metáforas do poeta (encaradas como mentiras pelos outros) e vai adquirindo o gosto pela poesia, pelo belo, pela cultura. “Estarei a ficar poética?” questiona-se. 

Sorriu, ou, como diria o poeta, a boca desenhou um sorriso depois de o lápis ter feito amor com o papel e desse beijo de grafite ter nascido…É melhor parar com isto, que loucura é esta?!” 

Com esta pequena e belíssima história, Afonso Cruz pretende chamar a atenção para a excessiva importância que se dá à economia, e ao consumismo na nossa sociedade em detrimento da cultura e da poesia. É um apelo urgente à cultura, à beleza, à poesia. “NUNCA SE ABANDONA A POESIA NEM NUM PARQUE, NEM NA VIDA” 

Recomendo vivamente.

16 abril, 2019

Notre-Dame de Paris




Il était monté tout en haut de Notre-Dame,
Se tenant, essoufflé, près du lourd carillon.
L’infirme caressait le fabuleux bourdon
Et la vue de Paris émerveillait son âme…

Sous ses pieds s’étendaient la Seine et ses bateaux,
L’île de la Cité, ses places, ses venelles,
Les flèches et les tours, tranquilles sentinelles...
Plus loin, c'était Montmartre et ses charmants coteaux.

Quasimodo pencha la tête et regarda :
Sur le parvis dansait la belle Esmeralda,
Créoles, caraco doré, châle vermeil.

Et le bossu, parmi les gargouilles sévères,
Les griffons, les serpents, les guivres, les chimères,
Rêvait d’un peu d’amour et d’un rai de soleil…

Jean-Paul Labaisse 2009
d'après le roman de Victor Hugo

______________



Notre-Dame est bien vieille : on la verra peut-être
Enterrer cependant Paris qu'elle a vu naître ;
Mais, dans quelque mille ans, le Temps fera broncher
Comme un loup fait un bœuf, cette carcasse lourde,
Tordra ses nerfs de fer, et puis d'une dent sourde
Rongera tristement ses vieux os de rocher !

Bien des hommes, de tous les pays de la terre
Viendront, pour contempler cette ruine austère,
Rêveurs, et relisant le livre de Victor :
- Alors ils croiront voir la vieille basilique,
Toute ainsi qu'elle était, puissante et magnifique,
Se lever devant eux comme l'ombre d'un mort !


Gérard de Nerval

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Tous les yeux s’étaient levés vers le haut de l’église. Ce qu’ils voyaient était extraordinaire. Sur le sommet de la galerie la plus élevée, plus haut que la rosace centrale, il y avait une grande flamme qui montait entre les deux clochers avec des tourbillons d’étincelles, une grande flamme désordonnée et furieuse dont le vent emportait par moments un lambeau dans la fumée. Au-dessous de cette flamme, au-dessous de la sombre balustrade à trèfles de braise, deux gouttières en gueules de monstres vomissaient sans relâche cette pluie ardente qui détachait son ruissellement argenté sur les ténèbres de la façade inférieure. À mesure qu’ils approchaient du sol, les deux jets de plomb liquide s’élargissaient en gerbes, comme l’eau qui jaillit des mille trous de l’arrosoir. Au-dessus de la flamme, les énormes tours, de chacune desquelles on voyait deux faces crues et tranchées, l’une toute noire, l’autre toute rouge, semblaient plus grandes encore de toute l’immensité de l’ombre qu’elles projetaient jusque dans le ciel. Leurs innombrables sculptures de diables et de dragons prenaient un aspect lugubre. La clarté inquiète de la flamme les faisait remuer à l’œil. Il y avait des guivres qui avaient l’air de rire, des gargouilles qu’on croyait entendre japper, des salamandres qui soufflaient dans le feu, des tarasques qui éternuaient dans la fumée. Et parmi ces monstres ainsi réveillés de leur sommeil de pierre par cette flamme, par ce bruit, il y en avait un qui marchait et qu’on voyait de temps en temps passer sur le front ardent du bûcher comme une chauve-souris devant une chandelle.


Sans doute ce phare étrange allait éveiller au loin le bûcheron des collines de Bicêtre, épouvanté de voir chanceler sur ses bruyères l’ombre gigantesque des tours de Notre-Dame.


Extrait du livre : « Notre-Dame de Paris » de Victor Hugo

15 abril, 2019

Meia Hora para Mudar a MInha Vida de Alice Vieira



SINOPSE


Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 3º ciclo, destinado a leitura autónoma.

Ela ficou a olhar para o carro, até que ele desapareceu ao fundo da rua. Depois correu para casa abriu a porta, atravessou o corredor, entrou no quarto, abriu a gaveta, encontrou a agenda. Teclou o número no telemóvel.
Ela sabe que vai finalmente regressar a casa. Diz-se muitas vezes que a nossa vida é um palco. No caso de Branca, que nasceu no meio de uma enorme salva de palmas, a expressão é mesmo para ser levada à letra —como, mais tarde, ela acabará por perceber.


OPINIÃO


Há muito que não lia um livro juvenil de Alice Vieira. Como a autora vai estar na minha escola senti necessidade de a (re)ler. Sendo esta obra dirigida a um público mais jovem, nada impede que qualquer adulto a leia. Penso mesmo que terá um melhor entendimento da mensagem. E a Alice escreve muito bem pelo que a leitura se revela sempre um prazer. 

Meia Hora Para Mudar A Minha Vida é a história de uma rapariga, Branca, que nasceu numa casa-teatro. Aí viveu até ao momento em que Elas (assim identificadas na narrativa) a entregaram à sua avó. 

Trata-se de um livro juvenil que aborda a questão da adolescência, a idade em que tudo se questiona. Branca, com 16 anos relembra a sua vida e questiona-se sobre o lugar e o espaço certos para sonhar e ser feliz, sobre a importância da verdadeira família. 

Para além desta problemática, Alice Vieira aborda ainda com paixão a vivência de um grupo de pessoas insólitas, mas generosas e felizes que constituem a Feira (nome do grupo de teatro de amadores) e põe a ridículo a figura das assistentes sociais que se recusam ver o verdadeiro lugar da felicidade. Nesta casa-teatro era-se feliz e havia sempre lugar para mais um, nada se perguntava e só se exigia “não ter medo do trabalho, amar Gil Vicente sobre todas as coisas (mesmo não sabendo muito bem quem ele era), obedecer a Mercúrio – e não ser do Sporting.”


14 abril, 2019

Mar de Afonso Cruz


SINOPSE

O novo volume da Enciclopédia da História Universal, série distinguida com o Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Mais uma vez, Afonso Cruz volta a desafiar os géneros e escreve um volume de Enciclopédia que, afinal, é um romance em várias entradas: um conjunto de histórias interligadas entre si, todas elas sobre o MAR, o seu apelo, o seu fascínio. Histórias encantatórias a que não faltam personagens inesquecíveis, como a do homem que tem o céu tatuado na pele ou o músico que lança cartas de amor ao mar.


OPINIÃO

Mar - Enciclopédia da Estória Universal, é uma obra extraordinária. Mais uma de Afonso Cruz. Por ordenação alfabética, o leitor vai tendo contacto com histórias que se entrelaçam, acontecimentos, pensamentos, recordações, aforismos, citações tendo sempre o mar como elemento comum. 

“A sabedoria é um peixe que cresce na alma.”

“Por vezes, passeio pelas recordações que tenho da mãe, sento-me junto ao mar da minha infância.”

"Dizem que cada homem é uma ilha, mas, para ser preciso, cada homem é um náufrago."

Nem sempre é fácil de descortinar a realidade do imagético e é este aspecto que, na minha opinião, torna este livro intenso, inquietante, deslumbrante. O leitor facilmente se deixa envolver pela escrita poética e pelas personagens fabulosas de Afonso Cruz. Há mães que diminuem, há um homem com constelações tatuadas no corpo, há o One-eyed-Jonas, há o Elijah- o-impossível, há um bilhete de autocarro de Houston, há cartas de amor em garrafas que chegam à orla da praia, há náufragos, há ilhas, há peixes, há pão... Há textos longos com várias entradas, há textos curtos, há textos de uma só frase… Há poesia!

A segunda vez que a vi, tive a ousadia de lhe atirar algumas palavras, e ela teve a bonomia de as receber no colo dos seus ouvidos, como quem embala recém-nascidos.”




08 abril, 2019

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector



SINOPSE

Nesta obra, Lóri é a personagem central, enquanto Ulisses ocupa um papel secundário, mero referencial para os pensamentos e atitudes de Lóri. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Uma viagem na qual Ulisses funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida.

OPINIÃO

Ao iniciar o livro com uma vírgula “,estando tão ocupada, viera das compras…”, o leitor é colocado de imediato em alerta. Percebe-se que a utilização da pontuação, ao longo de toda a narrativa, é uma provocação em harmonia com o estado de espírito de Lóri, a personagem central feminina e ao terminar o texto com dois pontos “… eu penso o seguinte:” mantém em aberto essa mesma provocação. Se a escrita foge aos padrões estabelecidos também a vida desta personagem se encontra em fase de aprendizagem. Pode-se afirmar que a narrativa acompanha o processo de aprendizagem, lento, inseguro, superando barreiras internas e medos. 
É através de Ulisses, que funciona como âncora, como pólo orientador, que Lóri empreende a sua viagem interior em busca de si própria e do prazer sem culpa. Percurso difícil, já que Lóri se esconde atrás da dor e da solidão. Porém, graças à espera paciente de Ulisses e sobretudo à busca e à percepção do que acontece no seu íntimo, ela conseguirá entender a sua existência e valorizar a beleza da vida. Só então ela se sentirá “pronta” para amar sem culpa e sem medo. O final do livro, extremamente sensual, revela isso mesmo. É a entrega mútua sem receio e consciente do amor e da vida. 
Mais uma vez, Clarice Lispector não desilude o leitor. Gostei muito da maneira como ela nos faz reflectir sobre a vida. 

“De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário, E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário.” (p.97)




26 março, 2019

Nomes da Noite de Lília Tavares



SINOPSE


Sob o signo da noite, Lília Tavares, em cada poema deste 5.º livro de poesia não reproduz o dizível, mas permite o indizível.
A autora desabriga-se no avesso da pele das suas memórias que numa eternidade gasta e passada a quiseram ocultar. O eu-poético, embora contido, traz à luz a sua ambivalência que se exprime mediante recursos simbólicos. A incompletude habita as suas raízes: vivências, memórias, viagens, amores. 
Ainda são nocturnas estas viagens, revela. Menina e depois mulher, a autora decompõe-se em matéria subjectiva, como um todo desconhecido. A sua poesia serve-se de alguma economia das palavras para desconstruir uma teia de silêncios, entrelaçada em fios de desejo, de amores e de veredas. 
Num novelo cingido pelo prefácio de Carlos Campos, desfiam-se 70 poemas onde se entremeiam 7 fotografias repletas de significado de Paulo Eduardo Campos, também ele poeta. 

À sombra de uma dessas imagens, pode ler-se: 

«Acordo nas ervas, anoiteço barco, 
como árvore e terra despertaria amanhã.»



OPINIÃO

Apesar de ser de Sines, não conhecia Lília Tavares. Foi através do meu livreiro, Joaquim Gonçalves, que tomei conhecimento da apresentação do livro Nomes da Noite na sua livraria e com a presença da autora. Como sempre o tento fazer, leio previamente o livro em causa, em jeito de preparação. 


E em boa hora o fiz porque fui agradavelmente surpreendida. Trata-se de um livro de poesia, dividido em cinco partes com um total de 71 poemas e 7 fotografias, estas de Paulo Eduardo Campos. 
A noite, como o título o indica, é o elemento principal do livro. A sua presença regista-se em 65 poemas, quer através da palavra “noite” quer por outras de mesmo significado, tais como: lua, luar, lunar, nocturno, anoitecer, pernoitar. Nos outros 6 poemas, surge quase sempre a ideia de sol, manhã, dia, luz, amanhecer, isto é, o desejo, o encontro do “tu”, do “outro”, o recomeço, o despir da noite (“O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia.” ; “ O amanhã trará no colo uma braçada de flores.”)
Poder-se-ia pensar que se trata de uma escrita triste, soturna, mas não, estamos perante uma escrita sensorial e intimista. A noite é melancolia, desassossego, inquietude, solidão, silêncio, abrigo, nudez, amor, corpos, cores, frutos, flores, mar, vento, espuma… 

A noite é confidente, é cúmplice (“Noite semente, companheira, lugar, / amante que nos alberga e nos enlaça.”), é a personificação do “eu” (“Nos meus lugares espalhados. / Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.”), mas também do “outro” (“o teu nome é a noite”; “ Este quarto tem a textura da noite. / Os dedos escrevem-te, beijam-te e/ tornam presentes os rumores da tua ausência.”). 


E termino com este monóstico que serve de legenda a uma das 7 fotografias: "A lua cuida sempre de quem adormece nas linhas de um livro".





25 março, 2019

Um poema de Sophia


O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética





23 março, 2019

Estar Vivo Aleija de Ricardo Araújo Pereira


SINOPSE

Da crítica ao império dos telemóveis e das redes sociais ao elogio do silêncio, passando pela acérrima defesa da liberdade de expressão e pela metafísica do pecado, estes textos tanto falam de Cristiano Ronaldo como de Kierkegaard ou do Candy Crush. 

Pelo caminho, desmonta-se o mito da auto-ajuda, discutem-se eternos problemas de linguagem que só a RAP apoquentam, questionam-se intolerâncias alimentares e o complexo de Édipo, e levantam-se questões prementes para os casais da sociedade actual, como a escolha entre ter filhos ou ser feliz para sempre.


OPINIÃO

Estar Vivo Aleija é a compilação das 69 crónicas que Ricardo Araújo Pereira escreveu para o jornal brasileiro, "Folha de S. Paulo". Nestas crónicas, o autor questiona a (sua) vida com sarcasmo e muito sentido de humor. 

Aborda assuntos muito diversos tais como o sorriso, o silêncio, as redes sociais, os telemóveis, estudos de saúde, a língua portuguesa, a gastronomia, o receio da morte, entre muitos outros. Faz citações e apresenta referências de vária ordem: obras, autores, cantores, jogadores de futebol…
Ao longo do livro e de crónica em crónica, Ricardo Araújo Pereira vai contaminando o leitor com as suas preocupações, emoções e zombarias de forma brilhante. 

O facto de recorrer a aspectos simples do quotidiano e a uma linguagem clara e cativante torna a leitura deste livro muito agradável. O leitor rende-se à sapiência cultural e linguística do autor.



21 março, 2019

Dia Mundial da Poesia



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




18 março, 2019

Que Importa a Fúria do Mar de Ana Margarida de Carvalho


SINOPSE


Frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou…
Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.
Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma.
Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.
Que Importa a Fúria do Mar é um romance de estreia com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou.

Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2012 e considerado um dos livros do ano em 2013 pelo jornal Público. Venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela APE-DGLAB - 2013.


OPINIÃO

Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho fala-nos de Eugénia, uma jornalista, e de Joaquim, um dos últimos sobreviventes, da Revolta na Marinha Grande, de 18 de Janeiro de 1934. 

Eugénia pretende fazer uma reportagem sobre o passado de Joaquim, sobre a sua deportação no Campo de Concentração do Tarrafal. Através da memória do entrevistado ficámos a conhecer um pouco melhor este lugar tenebroso, lugar de fome, de doenças, de tortura (a frigideira) e de morte. Tomámos também conhecimento da sua paixão por Luísa, razão pela qual sobreviveu, pois a força do amor sobrepôs-se ao sofrimento, ao terror e à loucura vividos naquela prisão. 

Apesar do início me parecer um pouco confuso, até encarreirar na narrativa, a leitura do livro acaba por ser arrebatadora. É um misto de prazer e de dor. Reconheço que a autora escreve muito bem. Faz uma escolha rigorosa do léxico, e recorre a várias referências literárias e históricas. Mais o que mais me surpreendeu, pela positiva, é a estrutura do romance, já que a autora, de forma magistral, intercala tempos, espaços e personagens, saltitando entre o passado e o presente quer de uma quer de outra personagem.




 

08 março, 2019

Dia da Mulher





CALÇADA DE CARRICHE


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

ANTÓNIO GEDEÃO

Poesias Completas (1956-1967)

04 março, 2019

Chanson Douce de Leïla Slimani



SINOPSE

Lorsque Myriam, mère de deux jeunes enfants, décide malgré les réticences de son mari de reprendre son activité au sein d'un cabinet d'avocats, le couple se met à la recherche d'une nounou. Après un casting sévère, ils engagent Louise, qui conquiert très vite l'affection des enfants et occupe progressivement une place centrale dans le foyer. Peu à peu le piège de la dépendance mutuelle va se refermer, jusqu'au drame.
À travers la description précise du jeune couple et celle du personnage fascinant et mystérieux de la nounou, c'est notre époque qui se révèle, avec sa conception de l'amour et de l'éducation, des rapports de domination et d'argent, des préjugés de classe ou de culture. Le style sec et tranchant de Leïla Slimani, où percent des éclats de poésie ténébreuse, instaure dès les premières pages un suspense envoûtant.


OPINIÃO

Leïla Slimani inicia o seu livro, vencedor do Prémio Goncourt 2016, com a frase “ Le bébé est mort”. Nas três primeiras páginas ficamos a conhecer o desenlace de algumas personagens e facilmente percebemos que algo de perverso e de doentio vai acontecer nesta “Chanson douce”. 
Louise, a protagonista, é a ama contratada pelo casal Massé (Paul e Myriam). Muito competente, dedica-se totalmente à família, construindo uma relação de amor que a pouco e pouco vai evoluindo para uma obsessão paranóica. 
Leïla Slimani é exímia na maneira como narra e como agarra o leitor ao longo da sua narrativa. Porém, e apesar do desfecho dramático, a autora não expõe totalmente a demência da ama. Vai sugerindo, revelando alguns episódios, mas nunca desvela a sua motivação final. 
Ao descrever o dia-a-dia de Louise no seio da família, a autora convida o leitor à reflexão, pois foca aspectos referentes à sociedade actual parisiense: o quotidiano e o drama das famílias após a maternidade, a relação ambígua entre a ama e a família, a educação, a realização profissional, a exigência obsessiva da sociedade, a emigração ilegal e o preconceito racista na contratação das amas. 

Gostei muito do livro, da densidade das personagens e do enredo que questiona e espelha uma sociedade cada vez mais exigente e intransigente.






26 fevereiro, 2019

A Gaivota de Sándor Márai


SINOPSE

Alto funcionário ministerial, culto, solitário e seguro de si próprio, o homem acaba de ditar uma ordem de enorme significado, uma decisão que, numa questão de horas afectará, inexoravelmente, milhões de pessoas. No entanto, a sua serenidade aparentemente imutável desmorona-se com o aparecimento inesperado de Aino Laine, uma formosa jovem finlandesa de nome poético, que tem uma notável semelhança com a única mulher que ele amou, morta há anos. Então, contrariando o que aconselham a prudência profissional e o decoro, este convida a mulher desconhecida para o acompanhar nessa mesma noite à ópera. 

Começa assim entre ambos um diálogo íntimo e profundo, um arriscado jogo de sedução, onde a paixão, a nostalgia e a força do destino provocam uma perturbante transformação no sólido equilíbrio burguês de um homem sensato e honrado. Publicado pela primeira vez em 1943 — um período da Segunda Guerra Mundial de extraordinária tensão e incerteza na Hungria, cujo regime tinha alinhado com a Alemanha nazi — A Gaivota é mais um exemplo da prosa incomparável, incisiva e intransigente de Sándor Márai, um dos maiores escritores do século XX.


OPINIÃO

Livro magistralmente escrito. De leitura complexa, apresenta uma escrita metafórica, densa e plena de ambiguidade, nada é dito claramente, e também porque a voz do narrador (escrita na 3.ª pessoa) se confunde com os pensamentos da personagem. Obra portentosa, envolvente, onde o poder das palavras é esmagador e a manipulação do segredo é levada até ao fim. 


Numa mescla de realidade e onírico, a trama da história situa-se em plena segunda guerra mundial e é através de monólogos e de diálogos íntimos e profundos, que o leitor vai tomando conhecimento, lentamente, da vida das duas personagens envolvidas: um alto funcionário ministerial, cujo nome desconhecemos e uma jovem finlandesa de nome Aino Laine/Única Onda. A chegada desta jovem vai alterar os planos do alto funcionário, desmoronar a sua serenidade e mudar o seu destino. 
De leitura obrigatória.




21 fevereiro, 2019

Pardinhas de António Mota



SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 7º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

Velho e doente, o avô João quis fazer uma viagem à terra onde tinha nascido: Pardinhas. E é em Pardinhas, junto de uma casa em ruínas, que ele conta aos netos a sua infância e adolescência. Uma história e vivência que os netos ignoram...

OPINIÃO

Livro infanto-juvenil, de leitura agradável que relata uma história simples mas cheia de significados. João, avô de duas crianças, encontra-se doente e pede para visitar a terra onde nasceu, Pardinhas. A viagem que de início aparentava tornar-se “uma seca” para os dois netos acabou por ser uma revelação. 
Numa primeira parte, a narrativa aborda a vida familiar de uma família cuja rotina vai ser alterada com a chegada do avô doente. Deparamo-nos com o desencontro de gerações quer ao nível das vivências quer dos afectos. Em Pardinhas, junto à casa onde viveu, o avô relata as suas memórias de infância aos netos. Esta parte é excepcional, pois revela-nos a vida difícil mas unida de uma família, num meio rural e isolado, as privações de vária ordem, o analfabetismo, a luta pela sobrevivência, a emigração. 
É o testemunho, de um Portugal de outrora, que o avô lega aos seus netos. E estes, finalmente cativados pela história do avô, aceitam-no com carinho.



18 fevereiro, 2019

Um poema de Eugénia de Vasconcellos




A SUNDAY KIND OF LOVE


Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse Sunday kind of love.
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto
somos nós:
uma existência de papel.



in, sete degraus sempre a descer, Eugénia de Vasconcellos


17 fevereiro, 2019

sete degraus sempre a descer de Eugénia de Vasconcellos

SINOPSE

Depois da publicação de O Quotidiano a Secar em Verso, livro que o poeta e crítico José Mário Silva saudou como «um meteorito que cruzou o céu da poesia portuguesa», este novo livro de Eugénia de Vasconcellos é uma delicada interrogação do ofício poético e da linguagem amorosa, da sua decepção e cinzas. No posfácio, o poeta e escritor brasileiro Marco Lucchesi chama a Sete Degraus sempre a Descer, «alta poesia», uma «poesia sísmica, de larga magnitude», aproximando-a da «noite dos sentidos», de Al Berto, e João da Cruz, de Teresa de Ávila e de Adélia Prado. 

Sete Degraus sempre a Descer oferece à poesia portuguesa vivências amorosas com que a nossa língua teme conviver ou que se envergonha de tocar: a humildade dos objectos e das coisas, uma faca, laranjas, lençóis e cama, a ardente relação com as pulsões e sentimentos, o beijo, o desejo, a carne e o espírito.


OPINIÃO

É o segundo livro de poesia que leio da Eugénia Vasconcellos. Está dividido em quatro partes e apresenta apenas 23 poemas. Começa por questionar a escrita poética “C’est quoi la poésie?” e termina questionando o amor “C’est quoi l’amour?” 

Trata-se de uma leitura surpreendente porque a autora revela uma escrita discursiva traduzindo uma experiência fundada no quotidiano, no real, é uma escrita simples e directa e simultaneamente intensa. 


C’est quoi la poésie?
A poesia não é coisa das páginas dos livros –
não se faz na tipografia.
Ainda que seja nas páginas dos livros que
Se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel –
É sempre de amor que se faz um corpo,
É por amor que um corpo se dá.
A poesia é da vida. É de quem tem.
A dor é de quem tem. O amor é de quem?
A alegria?
De quem tem.
Ao fim , depois do tempo, depois de mim, é de quem lê.
C’est quoi la poésie?
(…)




Al Berto ilustrado por 26 artistas

Foi inaugurada em Roma uma exposição de gravuras de 26 artistas portugueses.

O desafio proposto por Federico Bertolazzi, professor de literatura portuguesa na Universidade de Roma Tor Vergata e tradutor para italiano, junto com Claudio Trognoni, do livro Horto de Incêndio para a editora Passigli em 2018, era de interpretar livremente poemas do último livro publicado em vida por Al Berto, Horto de Incêndio.


No texto de apresentação da exposição escreveu que esta “é uma homenagem livre e apaixonada a um poeta que marcou com força a cena literária e artística do seu país”. Um poeta que “conseguiu dar corpo a uma inquietação partilhada por muitos, e as suas palavras encarnaram uma espécie de grito colectivo que, partido das entranhas do ser, ousou erguer-se contra a morte”.

Em Novembro, esta exposição ficará patente no Museu do Chiado. 


Foto do facebook do MArt



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16 fevereiro, 2019

O Mistério da Estrada de Sintra de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão



SINOPSE

Em viagem de Sintra para Lisboa, o médico Dr.*** e o escritor F… são interceptados por um grupo de quatro mascarados, que os sequestram. Encaminhados, de olhos cobertos, para um prédio misterioso, é apenas quando as suas vendas são retiradas que os dois amigos descobrem os contornos macabros do rapto de que foram alvo - aos seus pés encontra-se o cadáver de um estrangeiro. Quem será este homem e qual a sua história? Publicado inicialmente nas páginas do Diário de Notícias, entre Julho e Setembro de 1870, sob forma de cartas anónimas, e nesse mesmo ano com edição em livro, O Mistério da Estrada de Sintra foi resultado da colaboração de dois grandes mestres, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. É considerada a primeira narrativa policial da literatura portuguesa.


OPINIÃO

Este livro escrito a duas mãos, apresentado de forma inédita, é considerado o primeiro policial português. Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão agitaram a sociedade lisboeta com a divulgação de “um crime” no Diário de Notícias, entre Julho e Setembro de 1870. Através de cartas anónimas publicadas no jornal, os leitores que acreditam na sua veracidade, vão descobrindo o desenrolar da história, do mistério. Só mais tarde os dois autores revelam que se trata de ficção. 

Apesar de ser o primeiro romance de Eça, as suas principais características já estão patentes, já se evidencia a tendência irónica e satírica à crónica de costumes e à escrita romântica muito difundida na época. A relação entre as personagens está impregnada de um romantismo desmedido (rapto, assassinato, encontros clandestinos, traição, amores, desamores, ciúmes, …) em que as mulheres (Condessa de W. e Cármen) vivem grandes paixões, excessivas, trágicas que as conduzem à morte ou à reclusão. 

Trata-se de um livro agradável repleto de ironia com um suspense bem delineado e com descrições fabulosas apesar de, por vezes, algumas serem um pouco exaustivas e repetitivas o que torna a narrativa lenta. 



11 fevereiro, 2019

Correntes d`Escritas celebram vinte anos





As Correntes d`Escritas, o festival literário com sede e coração na Póvoa de Varzim, celebram este ano vinte anos. O programa inclui mais de 140 participantes, oriundos de 20 países, alguns deles galardoados com importantes prémios literários. 

O Festival tem início a 16 de Fevereiro e vai prolongar-se até dia 27, ocupando vários lugares e espaços da Póvoa. Pelo meio, e como já é tradição, será entregue o prémio literário Correntes d’Escritas. 

Mesas redondas, apresentações de livros, exposições, animações e decorações de rua, tudo está a postos para que esta seja uma das grandes edições das Correntes. 

Consultem aqui o programa


10 fevereiro, 2019

O Luto de Elias Gro de João Tordo

SINOPSE


Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. 
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. 
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.


OPINIÃO

Este livro de João Tordo marca, na minha opinião, uma viragem na sua escrita. Deixamos de ter uma história que gira em volta de um mistério à procura de uma solução para termos uma narrativa triste e angustiada. Temos um homem cheio de mágoa que escolhe a fuga e o isolamento numa ilha pequena para esquecer os fantasmas do passado que o assombram violentamente (a separação da mulher amada e a morte da filha). Temos personagens fabulosas com histórias e segredos para desvendar. 

A escrita de João Tordo é bela, intensa e profunda e requer uma leitura pausada, introspectiva, silenciosa e triste. Há descrições sublimes de melancolia, de amor, de fé, de solidão, de silêncio, de dor, de perda. Vivemos o desespero da personagem, compreendemos a necessidade de estar só, de “ouvir” o silêncio, assistimos ao seu percurso que o leva à desistência da vida, à decadência humana e sentimo-nos tristes e desesperados, por vezes, esperançados. 

"Se tu morresses eu ficava triste.
Porquê?
Porque fazes parte da minha história.” 

O Luto de Elias Gro, primeiro volume de uma trilogia, “Trilogia dos lugares sem nome”, é sem dúvida, a mais bonita obra do João Tordo que já li e já li quase todos os seus livros. 

"As pessoas são feitas de porcelana, concluiu. Lascam com facilidade, instigam em nós a urgência de não as deixar cair. Partem-se em pedaços se as largarmos. Esses pedaços são inconsoláveis. É impossível tornarmos a juntá-los e, se o tentarmos, ficaremos para sempre a observar as rachas que inadvertidamente lhes causámos, cicatrizes que não passam. Por mais que as pessoas jurem que são feitas de outro material, acredite em mim quando lhe digo que são feitas de porcelana, da mais frágil e dispendiosa." 



28 janeiro, 2019

Burgueses somos nós todos ou ainda menos de Mário de Carvalho



SINOPSE


Um marido recalcitrante ludibriado pela mulher defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas, dois homens de meia-idade rememorando no luxo das suas casas os tempos de jovens revolucionários; doutores, engenheiros, administradores em tensão, todos em certa vivenda às Avenidas Novas, banco de grandes investimentos; uma enfermaria de hospital; cortejo e exéquias; engates de esquina; os filhos dos outros; traições e uma vingança sórdida; retalhos de vida, de uma sociedade, de um Portugal desencantado, sob o olhar sempre irónico de Mário de Carvalho.


OPINIÃO



“Burgueses somos nós todos ou ainda menos”, título retirado de um poema de Mário Cesariny (abaixo publicado), é um livro de onze narrativas curtas. Nestes contos o autor, através de uma escrita subtil e irónica, apresenta-nos “histórias de burgueses desencantados”, isto é, sobre a sociedade que o rodeia. 

É sempre com prazer que abordo a prosa de Mário de Carvalho quer pela temática tratada de forma sublime quer pelo vocabulário variado e invulgar que me obriga a usar o dicionário para verificar o sentido das palavras usadas que tão bem se aplicam à descrição dos ambientes e das personagens narrados. 
Raio de Luz


Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Burgueses somos nós todos
ó literatos.
Burgueses somos nós todos
ratos e gatos.

Burgueses somos nós todos
por nossas mãos.
Burgueses somos nós todos
que horror irmãos. 

Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Mário Cesariny, «Nobilíssima Visão»



23 janeiro, 2019

Sono de Haruki Murakami


SINOPSE

«Há dezassete dias que não durmo.»
Assim tem início a história que Haruki Murakami imaginou e escreveu sobre uma mulher que, certo dia, deixou de conseguir dormir. Pela calada da noite, enquanto o marido e o filho dormem o sono dos justos, ela começa uma segunda vida. E, de um momento para o outro, as noites tornam-se de longe mais interessantes do que os dias... mas também, escusado será dizer, mais perigosas.


OPINIÃO

Trata-se de um pequeno livro com ilustrações lindíssimas em tonalidades azuis, à semelhança da capa, de leitura aparentemente simples e tranquila sem grande intensidade. 
A protagonista, mulher casada, que tem um filho pequeno, narra-nos o seu dia-a-dia banal, rotineiro que de um momento para o outro deixou de ter sono. O conto começa exactamente com essa referência “Há dezassete dias que não durmo”. 
É pois sobre os impactos que este estado de “prolongamento da existência” (dezassete dias sem dormir nunca) terá na sua vida quotidiana que a protagonista nos revela as suas reflexões sobre a banalidade da vida que tem e as suas percepções do mundo e dos familiares. O leitor, sem grande perturbação, vai assim pressentindo que algo de sombrio vai acontecer. 
É esta característica que muito aprecio na escrita do Murakami, isto é, sem dizer directamente, deixa que o leitor perceba e se sinta muito próximo da personagem porque acaba por sofrer com ela.

20 janeiro, 2019

A Trégua de Primo Levi


SINOPSE

Primo Levi inscreveu o seu nome entre os maiores escritores do século XX, a partir da experiência de prisioneiro e sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz. A sua prosa literária tem a força expressiva das narrativas em que a voz da testemunha se alia ao trabalho da memória e da recriação da vida nos limites máximos da dor e da destruição.

A Trégua, continuação de Se Isto é um Homem, é considerado por muitos críticos a sua obra-prima: diário da viagem rumo à liberdade, depois de dois anos de internamento no lager nazi, este livro, mais do que uma simples evocação biográfica, é um extraordinário romance picaresco.

A aventura movimentada e pungente por entre as ruínas da Europa libertada - desde Auschwitz, através da Rússia, da Roménia, da Hungria e da Áustria, até Turim -, desenrola-se ao longo de um itinerário tortuoso, pontilhado de encontros com pessoas pertencentes a civilizações desconhecidas e vítimas da mesma guerra: desde Cesare amigo de toda a gente, charlatão, trapaceiro, temerário e inocente, até aos bíblicos comboios do Exército Vermelho desarmado. 

A epopeia de uma humanidade reencontrada, que procura uma nova vontade de viver depois de ter atingido o limite extremo do horror e da miséria.



OPINIÃO

Neste segundo livro da trilogia de Auschwitz, Primo Levi narra o que ele e muitas outras pessoas viveram durante dez longos meses: de 27 de Janeiro de 1945 (libertação do campo pelos russos) até 19 de Outubro (chegada a casa em Turim). Foram meses de alegria (num primeiro momento), dor, sofrimento, fome, angústia e ansiedade. Num relato duro e cru e descritivo da realidade ficamos surpreendidos, ou não, pelo caos e pela miséria existentes nos países que os ex-prisioneiros atravessaram ao longo da viagem (Rússia, Eslováquia, Roménia, Hungria, Áustria, Alemanha e Itália). É incompreensível que numa Europa semi-destruída ainda prevalecesse o absurdo das formalidades e o fechar de olhos à situação destes “passageiros” que tão urgentemente necessitavam de regressar a casa, a uma vida normal. 
Se bem que de forma diferente em relação ao primeiro livro, Se Isto É Um Homem, porque nada iguala o sofrimento vivido num campo de concentração, o autor, neste livro, continua a testemunhar magistralmente o horror da guerra e o desrespeito da dignidade humana. 

“ Após o ano de Lager, de sofrimento e de paciência; após o gelo e a fome e o desprezo e a arrogante companhia do grego; após as doenças e a miséria de Katowice; após as transferências insensatas, por que nos sentíamos condenados a errar eternamente através dos espaços russos, como inúteis astros apagados; após o ócio e a nostalgia acerba de Stárie Dorogui, estávamos de novo em subida, portanto, em viagem para cima, a caminho de casa. “ (pág. 248) 

“Cheguei a Turim a 19 de Outubro… Reencontrei uma cama larga e limpa, que à noite (instante de terror) cedeu macia debaixo do meu peso. Mas só ao cabo de muitos meses se desvaneceu em mim o hábito de caminhar com o olhar fixo no chão, como que à procura de alguma coisa para comer ou para embolsar rapidamente e vender por pão; e não cessou de me visitar, a intervalos ora curtos ora espaçados, um sonho pleno de terror.” (pág. 285)


19 janeiro, 2019

Um poema de Eugénio de Andrade (19 jan. 1923)

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Arte: José Viana

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.


Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”