Autora: Ana Saragoça
Título: A Turista Invisível
N.º de páginas: 181
Editora: Casa das Letras
Edição: Julho 2026
Classificação: Diário/Viagem
N.º de Registo: (3813)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Ler A Turista Invisível, de Ana Saragoça, é embarcar numa viagem que desafia os estereótipos associados às grandes aventuras de mochila às costas. Através de um registo diarístico sincero e espontâneo, acompanhamos a viagem de comboio de Lisboa a Roma de uma mulher que, após os 50 anos, decide finalmente cumprir o sonho de uma vida. O resultado é uma narrativa profundamente humana, que conquista de imediato o leitor.
O próprio título, A Turista Invisível, encerra uma das reflexões mais perspicazes da obra. Alusão à forma como o mundo, tantas vezes, deixa de "ver" as mulheres a partir dos 50 anos. Contudo, em vez de se submeter ao peso dessa invisibilidade social, a autora subverte-a e transforma-a num passaporte para a liberdade total. Ser invisível passa a significar a capacidade de observar o mundo e os outros sem a pressão do julgamento alheio, desfrutando da solidão escolhida e da autonomia absoluta.
A espontaneidade deste relato é temperada com um humor refinado e momentos de deliciosa honestidade, como quando decide, com um piscar de olho cúmplice, rasurar no diário a peripécia que se seguiu ao terceiro cocktail, deixando ao leitor o prazer do mistério.
Viajar com a Ana e a Saragocita é também viajar pela sua bagagem cultural; o texto transborda de múltiplas referências cinematográficas e artísticas que dialogam constantemente com o presente, transformando cada estação de comboio ou praça, ou rua italianas numa constante e terna revisitação ao passado, onde a memória é avivada a cada esquina, a dela e a nossa.
Para além disso, o livro brilha nas suas "bicadas" irónicas. Com uma lucidez aguçada, a autora distribui críticas bem-humoradas tanto aos costumes de Itália como aos de Portugal, despindo a viagem de qualquer deslumbre artificial. Mas é na gestão dos imprevistos que a Ana se torna verdadeiramente inspiradora. Ver a forma como soube resolver os múltiplos problemas que lhe foram aparecendo devido à sua própria distração é uma lição de vida.
A Turista Invisível prova, afinal, que a maturidade não se revelou na organização metódica (?) da viagem, mas sobretudo na capacidade de rir de si própria e a coragem de abraçar o imprevisto.
Apesar de conhecer sobretudo Roma e o Norte de Itália, este livro deixou-me com uma vontade enorme de ir a Nápoles. A energia que atravessa estas páginas, tão cheia de improviso e liberdade, acende o desejo de ver a cidade com os meus próprios olhos. Só não sei se me atrevo, como a Ana, a fazê-lo sozinha. Talvez seja essa a maior lição de A Turista Invisível - a de que a coragem pode nascer precisamente do passo que ainda hesitamos em dar.

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