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29 março, 2026

19 janeiro, 2026

Eugénio de Andrade | Dia de Aniversário (19.Jan. 1923)


 



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade


25 setembro, 2025

43 vezes o tempo

 


43 vezes o tempo
(para quem caminha com raízes, sem precisar de legenda)

Houve entendimento,
mais que prometimento,
houve tempo,
marcas que o tempo não apaga,
que não se escreveram em pedras,
apenas esculpidas no coração.

Houve ritos,
mais que pactos e palavras,
no gesto de cada dia,
na hesitação de um prato lavado,
no silêncio entre dois cafés.

Não houve alaridos,
houve tempo,
tempo que não se mede
nem conta medalhas.

43 vezes o tempo,
sem manual,
com desvios,
com coragem para ficar
quando o amor já não precisa
de nome,
mas ainda tem lugar.

GR

18 junho, 2025

Faz 15 anos (18.06.2010)

 



Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago


16 junho, 2025

Um poema de Joaquim Cardoso Dias

 

The Couple | Jennifer Lombardo | 2014




NA LINGUAGEM DE UM AMOR


estas árvores tocam
com as folhas
o murmúrio das searas
os dedos húmidos da paisagem
o branco vivo 
de um pássaro a correr nas mãos

choram o poeta triste
do outro lado da floresta
longe
muito longe dessas terras

esse rio de árvores e de pássaros

levantando no silêncio
todas as suas asas azuis

bebendo do rumor dos beirados
essa luz doente

para adormecer assim
no prolongamento dos ombros
nesses abraços de olhos nos olhos

a mão de tocar outra mão
e um suspiro de ficar sozinho


O Preço das Casas, Joaquim Cardoso Dias 



13 junho, 2025

Al Berto | 13.06.1997

 

                                                              Foto GR - Sines



Cromo


andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Salsugem, Al Berto

Al Berto faleceu em Lisboa no dia 13 de junho de 1997, com apenas 49 anos



21 abril, 2025

Papa Francisco | 1927 - 2025

 



«Todos, todos, todos»


266.º Papa da Igreja Católica

Nascimento: Buenos Aires, Argentina · 16 de abril de 1927
Morte: Cidade do Vaticano · 7h35 -  21 de abril de 2025 (88 anos)

Nacionalidade: argentino

Nome de nascimento: Jorge Mario Bergoglio
Progenitores: Mãe: Regina Maria Sivori Gogna (1911-1981)
                    Pai: Mario Giuseppe Bergoglio Vasallo (1908-1959)

Funções exercidas: - Bispo auxiliar de Buenos Aires (1992-1997)
                             - Arcebispo coadjutor de Buenos Aires (1997-1998)
                             - Arcebispo de Buenos Aires (1998-2013)

Congregação: Companhia de Jesus
Diocese: Diocese de Roma
Eleição: 13 de Março de 2013 (12 anos e 39 dias) 
Entronização: 19 de março de 2013





25 março, 2025

Dias emotivos e solarengos

 



Há dias em que a vida nos bafeja com abraços, sorrisos, carinho, miminhos. Podia ter resumido tudo com a palavra afectos, mas não era a mesma coisa. 

Hoje, foi um dia desses. Emotivo e solarengo! Mais um! Sou uma sortuda!
Ora vejam se não tenho razão!
Em mais um, dos muitos, encontros das professoras bibliotecárias do Alentejo Litoral, fomos principescamente recebidas pela Senhora Diretora e pela nossa colega Paula Gomes, anfitriãs da Escola Profissional de Desenvolvimento Agrícola de Grândola. Na visita à biblioteca requalificada ouvimos poemas lidos pelos alunos e, na sala de trabalho, os mesmos alunos e seus professores presentearam-nos com um buffet vistoso e apetitoso. Estão de parabéns!

Após uma manhã de trabalho (confesso que desta vez não registei nada) sempre enriquecedora e muito bem orientada pela nossa querida coordenadora Lucinda Simões, fui surpreendida , ou talvez não porque conheço muito bem este grupo maravilhoso, mas, como dizia, fui surpreendida pelas palavras gratificantes, carinhosas e emotivas das minhas (ex)colegas de labuta livrólica e pelos miminhos encantadores que me ofereceram. Conhecem-me muito bem. De mim, receberam em troca abraços (não chorei, contive-me) e um pequeno caderno com uma singela mensagem, mas muito sentida. Elas sabem que sim.
Depois destas emoções e dos respectivos registos fotográficos para memória futura, continuámos a celebração da minha saída, não despedida, do grupo de trabalho, no restaurante "Villa Mariscos". A boa disposição foi crescendo à medida que o repasto avançava. Até tive direito a um poema dedicado e lido pela minha amiga Fátima Nunes. Adorei. 

Só um aparte: se não conhecem, convido-vos a degustar o arroz de lingueirão ou as migas.
Para finalizar o dia, não podia faltar a já habitual visita cultural e, assim, fomos visitar o Núcleo Museológico Grândola Vila Morena. Pequeno mas muito interessante. Não percam quando forem almoçar ao tal restaurante que vos indiquei.

Partilho algumas fotos que confirmam a minha narrativa (palavra em moda) e que evidenciam o dia maravilhoso que vivi, vivemos.
Sou eternamente grata às minhas queridas colegas com quem tenho partilhado momentos inesquecíveis de aprendizagem, convívio e carinho.
Alda, Ana, Antónia, Bina, Catarina, Deolinda, Fátima, Lucinda, Maria José, Mariana, Noélia, Rosa, Rosinda, Rute estão no meu coração. Sabem disso!!! 





18 fevereiro, 2025

Dias simples e emotivos


Hoje, fui à minha escola para assistir à segunda fase do Concurso de Leituras na Planície.
Contudo, o teor desta minha mensagem é outro como podem constatar pelas fotos.
Fui agradavelmente surpreendida pelo carinho de um grupo de alunos que representam a associação de estudantes da escola. É bom quando o trabalho de uma vida é reconhecido, mas quando o é pelos alunos ficamos, ainda, mais emocionados e eternamente gratos. Vim de braços e coração cheios.



          

         



08 fevereiro, 2025

Emoções

Mais um dia de emoções. Desta vez fui surpreendida pelas funcionárias da minha escola. Sou-lhes grata, a todas. Não vou mencionar ninguém porque sabem quem são e também sabem que as guardarei sempre no meu coração. 






01 fevereiro, 2025

Sei para onde vou ...

 


Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam” (Saramago) e, assim, hoje, é o primeiro dia do resto da minha vida.

Foram 44 anos letivos de dedicação à Escola Pública (42 anos, 5 meses, 27 dias para efeitos de aposentação, já que deduziram os dias dos horários incompletos e das colocações tardias, mas esqueceram-se de adicionar as horas extraordinárias – as efectivas e as outras) e prolongaram   até ao limite do prazo (3 meses) a análise do processo (trabalhei mais dois meses para além da data prevista).

Sempre quis ser professora. Sempre amei a minha profissão. Confesso que nem sempre foi fácil, mas no balanço final guardo sobretudo as conquistas.
Chegou o tempo de dar o meu lugar a outro/a professor/a. Ninguém é eterno. Ninguém é insubstituível. O governo, numa tentativa de colmatar o problema de falta de professores, ainda, acenou com a possibilidade de continuar e em troca “oferecia-me” até 750€. Porém, este mesmo governo esqueceu-se de que também eu tive, durante cerca de seis anos a carreira congelada. Os meus colegas vão ter, e muito bem, a recuperação desse tempo, mas quem se encontra, como eu, no topo da carreira, não recebe nada em compensação. Repito, NADA. Por isso, é mais do que evidente que não continuarei no activo, não aceitarei “a esmola” dos 750€. Gostaria de ser reconhecida pelo trabalho que desenvolvi e compensada pelo tempo TODO que trabalhei. Há formas de o fazer (redução no tempo para aposentação, compensação monetária, aumento do vencimento, …), basta querer, basta haver vontade e criatividade políticas.

Ao longo destes anos “vivi” em várias escolas, pelo país. Uma, lembrarei para sempre como a minha “segunda casa”. Nela cresci, amadureci e me apaixonei pelo meu/nosso poeta, Al Berto.

Leccionei várias disciplinas/áreas disciplinares (francês, técnicas de tradução de francês, português, área de projecto, estudo acompanhado, educação cívica e LLED) e desempenhei muitas funções e vários cargos. Uns mais fáceis, outros bem menos, uns mais divertidos, outros nem tanto, mas desempenhei-os sempre com sentido de responsabilidade e muito empenho. Errei como todo o ser humano, mas dei sempre o meu melhor.

Ao longo destes anos conheci, lidei e convivi com muitas, muitas pessoas: alunos, professores, técnicos especializados, assistentes técnicos, assistentes operacionais, pais e encarregados de educação, entre outras de diversas instituições, profissões, parcerias…

No meu coração guardo muitas, muitas mesmo, que não citarei, como compreenderão. Nesta minha travessia houve, e ainda há, pessoas maravilhosas com quem aprendi, diariamente; com quem partilhei conhecimentos, ensinamentos, gargalhadas, sorrisos, tristezas, desabafos, abraços, fotografias, livros, leituras, muitas leituras, …; com quem continuarei a aprender e a partilhar…

A TODAS o meu ENORME agradecimento e carinho.
Saberei manter vivas as boas memórias. As outras, já as abandonei pelo caminho.

Até breve… vou continuar por aí… ao contrário de José Régio, sei por onde vou…

A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí! (Régio)

GR


19 janeiro, 2025

Eugénio de Andrade | Dia de aniversário (19.Jan. 1923)

 



Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


Eugénio de Andrade




11 janeiro, 2025

Al Berto | Dia de aniversário (11.Jan.1948)


 



 


ELE bebe vinho, pousa as palavras lentamente, semeia-as no interior do caderno de capa preta
sente a resinadas árvores nos dedos, a língua enegrecida pelo desejo
lambe as ervas reclinadas dos campos, as coxas abertas da noite, o orvalho nasce-lhe da boca
     qualquer coisa continua a explodir , amarinha-me pelo ventre
um astro de paredes frias por onde enfio o sexo... todos os buracos do texto se enchem de lava
são longos caminhos aveludados
o puto vomita, nenhum som na amanhã que aconteceu..., 
a língua continua impregnada de ópio esquecido, sono das papoulas, madrugada de crianças geométricas
do outro lado da cidade, aquele onde não vivemos, tudo acordou normalmente   

   
  




02 janeiro, 2025

Mãe | Saudades

 

  


47
Foi a minha mãe que me ensinou a amar as flores. Todas a fascinavam: as caídas, as imperfeitas, as que perdem o brilho por desgaste, as que não duram muito, mas são vibrantes no momento. A minha mãe tocava-lhes como se as tratasse por  «tu». No fundo, amava as flores e as pessoas da mesma forma.

in Máquina de Escrever Sentimentos, Inês Meneses, p. 34



14 julho, 2024

Joyeux 14 juillet

 Claude Monet | La rue Montorgueil, Paris | 1878


Liberté 

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.


Paul Eluard



12 junho, 2024

Françoise Hardy (1944 - 2024)

 Direitos de autor: Jean-Marie Périer/Photo12


Françoise Hardy morreu ontem, dia 11, com 80 anos. 

Foi o seu filho Thomas Dutroc que nas redes sociais publicou uma fotografia e anunciou a partida da mãe (Maman est partie)

Estrela da canção francesa tornou-se famosa em 1962, quando interpretou para o grande público a famosa canção Tous les garçons et les filles. 

FonteFrançoise Hardy : ses chansons cultes - Vídeo Dailymotion


29 março, 2024

Um poema de João Pires

 




Tu és fogo que queima intensamente
Caráter enérgico, forte e valente
Sempre disposta a novas aventuras
Líder habilidosa, cheia de posturas

Proativa e sem medo de arriscar
Sempre pronta para se aventurar
Lutas para abrir novos caminhos
Sempre à frente, seguindo os teus destinos

Com coragem e determinação
Tu enfrentas qualquer situação
Mesmo diante das adversidades
Segues em frente com firmeza e verdade.

João Pires