28 março, 2022

𝑨 𝑬𝒗𝒐𝒍𝒖çã𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒍𝒑𝒖𝒓𝒏𝒊𝒂 𝑻𝒂𝒕𝒆, de Jacqueline Kelly


A Evolução de Calpurnia Tate


Autora: Jacqueline Kelly
Título: A Evolução de Calpurnia Tate
Tradutora: Irene Guimarães
N.º de páginas: 246
Editora: Contraponto
Edição: Junho 2011
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (3352)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Calpurnia Tate, também apelidada por Callie Vee, é uma garota encantadora. Tem onze-anos-quase-doze e é a “única rapariga de sete irmãos”, factor relevante para a sua formação.
A história decorre no Texas, no ano de 1899, na viragem do século, numa época em que a mulher ainda se dedicava à aprendizagem das lides domésticas, aos bordados, à costura e às lições de música, de piano mais concretamente. Ora a nossa protagonista detesta estas tarefas convencionalmente femininas e prefere dedicar-se à leitura (é fascinada por Darwin, Dickens, e outros) e à investigação de animais e de plantas.
“CONTRA A MINHA VONTADE, chegara àquela idade em que uma jovenzinha deve adquirir as competências necessárias para governar o lar depois do casamento.” (p. 155)

Filha de uma família abastada que mantém a tradição de educar os filhos com determinados valores e de preparar as raparigas para a gestão do lar e da criação de uma família, Calpurnia foge habilmente a estas obrigações e refugia-se no laboratório com o avô. Curiosa e inteligente vai saber conquistar este homem, que detesta crianças e confunde os netos, e que vive num mundo onde tudo se questiona, se pensa e se regista num caderninho de apontamentos; num mundo repleto de experiências, de pesquisas, de observação, de catalogação e de análise quer de animais, de plantas, de um céu estrelado.

É neste mundo de aprendizagem, de mistério e de descoberta que Calpurnia se sente feliz ao ponto de desejar ir para a universidade (impensável para as raparigas da época que deviam casar e procriar) e tornar-se cientista. Sempre incentivada pelo avô com quem estabelece uma amizade sincera e cúmplice, Calpurnia vai evoluindo e desenvolvendo o seu espírito crítico.
“Saí pelas portas das traseiras e dirigi-me ao laboratório. Porquê perder tempo a «brincar», como me tinham ordenado, quando podia passar um tempo precioso com o avô? Ele não me considerava perigosa, quando me punha a pensar sobre alguma coisa. Na verdade, ele até me encorajava a isso.” (p. 212)

Narrado na primeira pessoa, Calpurnia seduz o leitor que se deixa facilmente envolver nas suas peripécias e na sua busca constante quer do autoconhecimento quer do conhecimento científico/naturalista.

Há razões suficientes para recomendar a leitura, sobretudo aos jovens curiosos.


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21 março, 2022

Um poema de Gastão Cruz (20/07/1941 - 20/03/2022)

 


foto minha


Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

Gastão Cruz


20 março, 2022

𝑬𝒖, 𝑴𝒂𝒍𝒂𝒍𝒂, de Malala Yousafzai com Christina Lamb

 


Autora: Malala Yousafzai com Christina Lamb
Tradutores: Maria de Almeida, Carlos Andrade e Cristina Carvalho
Título: Eu, Malala (A minha luta pela Liberdade e pelo Direito à Educação)
N.º de páginas: 351
Editora: Editorial Presença
Edição 6.ª: Outubro 2014
Classificação: Biografia
        N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Eu, Malala é um livro que documenta a vida de uma jovem paquistanesa que desde muito cedo lutou pela liberdade e pelo direito à educação para todas as crianças. Malala teve o privilégio de nascer numa família progressista que sempre a incentivou a estudar, a emitir a sua opinião, a falar publicamente e a lutar pelos seus sonhos.
O pai, homem instruído e defensor de uma educação para todos, abriu escolas para que meninos e meninas a pudessem frequentar e assim diminuir a taxa de analfabetismo no seu país.
Malala e as suas amigas adoravam ir à escola e tornaram-se excelentes alunas, mas as ameaças começaram a surgir, sobretudo sob o regime talibã e muitas meninas abandonaram a escola. Incentivada pelo pai, ativista social reconhecido por muitos e odiado por outros, percebeu que devia lutar pelo direito à educação das raparigas e tornou-se, também ela, uma ativista desafiadora do regime autoritário e opressor da liberdade das mulheres e da educação das crianças.

Narrada na primeira pessoa, a história de Malala expõe a violência, os massacres, as perseguições, o bombardeamento de escolas, a destruição de lojas, de casas… Mas expõe também a hospitalidade e a solidariedade de um povo dilacerado pelo terrorismo e a esperança de um mundo mais justo e mais livre onde as crianças possam sorrir e ser felizes.
Malala nos Agradecimentos referiu “Tive muita sorte em ter nascido de um pai que respeitou desde sempre a minha liberdade de pensamento e de expressão e que me fez parte da sua caravana da paz e de ter nascido de uma mãe que não só me encorajou, como encorajou também o meu pai, na nossa campanha a favor da paz e da educação.” (p. 346)

Esta sorte, Malala soube muito bem aproveitá-la e apesar das ameaças, de ter sido baleada e ter estado à beira da morte, esta jovem inteligente e corajosa sempre acreditou no poder das palavras, no poder da educação e é com elas que luta para que todas as crianças do mundo beneficiem de uma educação gratuita
“ – Peguemos nos nossos livros e nas nossas canetas. São as nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.” (p. 333)

Ao ler este livro, não posso deixar de ter um pensamento pelo povo ucraniano, também a sofrer sob o jugo de um ditador ganancioso e cruel que mata, bombardeia, destrói e separa famílias. Tudo pela ânsia de um império maior.


13 março, 2022

𝑴𝒂𝒅𝒂𝒍𝒆𝒏𝒂, de Isabel Rio Novo

 

Autora: Isabel Rio Novo
Título: Madalena
N.º de páginas: 199
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3346)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Nunca saio defraudada das leituras que faço dos livros de Isabel Rio Novo. Neste momento, considero-a uma das melhores escritoras portuguesas na nossa produção literária contemporânea.
O livro baseia-se em duas histórias, a da narradora e a da sua bisavó Madalena, assente em tempos distintos: o presente, o passado (1920) e o sonhado, mas que acabam por se interligar e dar sentido à narrativa.
Nesta narrativa há registos autobiográficos soberbamente mesclados à escrita ficcionada. A professora de história doente oncológica vai ocupar o seu tempo, “Tempo para esperar. E até lá, até esse desfecho qualquer, tempo para cumprir.” (p. 55) a ler as cartas dos seus antepassados e a descobrir a “viagem que com elas começava.” (p. 27).
Logo no início, somos informados da doença que afecta a protagonista, receamos pelo teor da narrativa, mas rapidamente percebemos que a urgência da protagonista não é a das “decisões expeditas”, mas sim a de descobrir “novas dimensões do tempo” e por isso opta pela arrumação de coisas velhas herdadas, partindo à descoberta de cartas, livros, fotografias…
Será então o tempo, a passagem do tempo, o fio condutor desta belíssima narrativa. É de vida e de morte, de bons e maus momentos, de sonhos, de memórias, de experiências vividas, de vivências sofridas, de novas dimensões do tempo, de “recorte de momentos, uma coleção de retalhos cheia de emendas e intervalos.” (p. 25)
É na intersecção dos vários tempos que considero que a autora brilhou. A narrativa balança harmoniosamente entre a história da narradora e a da Madalena Brízida, a bisavó, conduzindo o leitor nos meandros da doença e da crise matrimonial, do amor e do desamor, dos amores recalcados. A narrativa é construída no paralelismo destas duas personagens femininas e no final tudo faz sentido.
Gostaria ainda de focar dois aspectos que considerei interessantes. O primeiro é a referência, no enredo, de dois títulos de obras da autora e a segunda é a excelente selecção da obra “Les feuilles mortes”, da pintora surrealista Remédios Varo para a capa. Pormenores que evidenciam a preocupação com os detalhes e com a concepção de uma obra de arte que afinal o livro também é.



06 março, 2022

Cantata de Paz, Sophia de Mello Breyner Andreson

 

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Cantata de paz


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


"Vemos, ouvimos e lemos/Não podemos ignorar" é o refrão do poema escrito para uma vigília na Capela do Rato, em Lisboa, contra a guerra colonial e a favor da liberdade. Um poema que dá voz à revolta e que Francisco Fanhais musicou e cantou em 1970. 

Hoje, que a Ucrânia está a ser invadida e arrasada, é urgente revisitá-lo. 


04 março, 2022

𝑶 𝑷𝒊𝒓𝒂𝒕𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑭𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔, de Tiago Salazar



Autor: Tiago Salazar
Título: O Pirata das Flores
N.º de páginas: 180
Editora: Oficina do Livro
Edição: Novembro 2021
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3350)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A possibilidade de “parir um escrito”, este escrito, como refere o autor no prólogo chegou-lhe por email “Assunto: pirata. Conteúdo: açoriano, das Flores, Lages. Nome: António de Freitas. «Tens aqui o teu próximo livro», escreveu em apenso. Doravante era comigo.” (p. 11) e assim surgiu um romance histórico e de aventura que relata a viagem de António e do seu amigo Fernão que descontentes com a “vida beata” que levavam no Seminário de Angra e almejando ambos um futuro melhor, decidiram fugir e partir em busca de riqueza.
“Duas almas imberbes entregues a um rebanho de padres excitados pela castidade, obrigados a actos de contrição e a limpar as culpas com penitências (…) veio a nascer este ímpeto de escaparmos ao purgatório da ilha.” (p. 19)
Fernão que gosta de ler e de escrever vai ter a função de narrar todas as peripécias de pirataria, de crime, de corrupção, de libertinagem …
Gosto da escrita cuidada do autor e do rigor como enquadrou o enredo no tempo e no espaço históricos e culturais. Estruturado em duas partes – Uma Longa Jornada e A Oriente – o romance descreve, na primeira, as aventuras extraordinárias, por vezes cruéis, da viagem nos mares e na segunda, a vida “pecaminosa” levada em Macau rodeados de prazeres, mas também de malvadezas, de negócios ilícitos mantidos durante anos (tráfico de ópio, casas de prazer e de jogo). Tudo em prol de um enriquecimento louco, ávido e sem escrúpulos.
“Assistíamos e cometíamos estas vis malvadezas com confessa alegria, nem que fosse pelo sucesso de arrecadarmos os espólios, sem nos vermos na triste condição dos espoliados, “ (p. 74)
e
“O ingénuo aspirante a seminarista dera lugar ao astuto bandido, nada lhe molestando a consciência.” (p. 145)
O carácter dos dois piratas açorianos retratado no romance, transporta-nos para o tempo dos descobrimentos, em que os portugueses foram arrojados, inovadores e aventureiros.

27 fevereiro, 2022

Slava Ukraini

 


@carolinabranco


Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.


PRIMO LEVI, Se isto é um homem (1947)

19 fevereiro, 2022

𝑯𝒆𝒊-𝒅𝒆 𝒂𝒎𝒂𝒓-𝒕𝒆 𝒎𝒂𝒊𝒔, de Tiago Salazar

 



Autor: Tiago Salazar
Título: Hei-de amar-te mais
N.º de páginas: 131
Editora: Oficina do Livro
Edição: Maio 2013
Classificação: Diário
N.º de Registo: (3066)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Hei-de amar-te mais é um diário íntimo, onde o autor revela a sua paixão pela mulher, Cristina, pelos filhos, pela vida. É um belíssimo livro que partilha com o leitor os registos de um viajante ao longo de seis anos, sobre momentos importantes da sua vida, sobre a partida e o desejo de regresso, sobre a ausência e essencialmente sobre o seu relacionamento com a mulher, os filhos e os seus escritores maiores, como Clarice Lispector, Pablo Neruda, Henry Miller, Céline, entre outros.
É um livro de reflexões, de poemas, de fragmentos, de memórias. É uma autêntica declaração de amor. Uma ode ao amor.
É nas cartas endereçadas à mulher pelo autor que o leitor se deixa inebriar e se perde em divagações porque o amor descrito é belo, sincero, verdadeiro. Numa escrita sensível e apaixonada o autor revela um amor renovado diariamente, mesmo que à distância, alimentado por palavras e actos, celebrado como forma de vida intensa
“ Tento parar o olhar na maior beleza da praia, a luz do entardecer, mas o olhar nunca se detém como a luz dispersa nas sombras das enseadas. A beleza maior não está aqui derramada. A beleza, o amor, é o que somos quando a maré se aquieta e todos os fundos e meandros se revelam. Quando dois amantes afastados no acaso do mundo pensam amorosamente e infinitamente um no outro. Beijam-se e amam-se de memória no preciso instante em que a onda lânguida recolhe do mar como um longo abraço.” (p. 33)



15 fevereiro, 2022

𝑬𝒎 𝑸𝒖𝒂𝒓𝒆𝒏𝒕𝒆𝒏𝒂 – 𝒖𝒎𝒂 𝒉𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝒂𝒎𝒐𝒓, de José Gardeazabal



Autor: José Gardeazabal
Título: Quarentena - Uma História de Amor
N.º de páginas: 205
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3337)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Livro desafiador porque nem tudo está escrito. É preciso ler nas entrelinhas para captar toda a mensagem. Num tempo de confinamento obrigatório, a mente entra em ebulição. Tudo é revisto, tudo é analisado ao pormenor, tudo é questionado, tudo… mesmo o amor, sobretudo o fim de um amor.

Em Quarentena – uma história de amor, um casal que decidiu separar-se é obrigado a ficar em casa confinado. Ora, ficar em quarentena exige proximidade, partilha de espaços, vida em comum…
“Tínhamos decidido que um de nós faria a mala e abandonaria o apartamento. (…) Penduraram-nos um selo do lado de fora da porta.
Um Casal
0 Filhos
(…)
A nossa relação desapareceu pelo efeito preguiçoso do tempo – e agora isto: dão-nos mais tempo, os dois trancados no mesmo espaço.” (pp. 15 e 16)
A partir daqui, ao longo de 40 dias, temos o narrador que nos relata diariamente a partilha do espaço fechado com Mariana, a (ex)companheira, os seus pensamentos, os seus desejos, algumas boas memórias vividas a dois, a sua incompreensão do fim do relacionamento, a sua visão da política, da pandemia, da contradição dos números, o vazio das ruas, o sofrimento dos outros, a morte de muitos…

Há ainda registo dos diálogos, muito breves. Das dúvidas que se vão colocando sobre a situação actual, sobre o passado e sobre o futuro. A sós? Juntos? Afinal “Mariana é bonita”; “Mariana tem os olhos bonitos”, a boca também, mas está escondida pela máscara.

Ao longo dos dias, o narrador reaprendeu a olhar Mariana, quem sabe a amá-la… “Muita gente esquece o amor e esquece a história por detrás do amor, mas decidi não esquecer.” (p. 107)

Nesta quarentena (e certamente em todas as outras) há sempre uma televisão ligada, mas há sobretudo tempo para recordações, e das gavetas da memória surgem imensas referências literárias, artísticas, cinematográficas, musicais, única forma de se manter lúcido perante tanta incompreensão.

Numa escrita singular porque muito própria, o autor coloca o narrador numa posição de observador o que lhe permite interligar a realidade (distanciamento, factos, números), a introspecção (sentimentos, desejos) e as memórias (vivências conjugais).

Sendo este o primeiro livro que leio deste autor, fica a promessa e o interesse de o descobrir noutras leituras.



14 fevereiro, 2022

Dia de S. Valentim



                                   Pormenor da escultura Cupido e Psique, Museu do Louvre




"Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

Al Berto, in Lunário




13 fevereiro, 2022

𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑫𝒊𝒂, 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆, de Olga Tokarczuk

 



Autora: Olga Tokarczuk
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Título: Casa de Dia, Casa de Noite
N.º de páginas: 347
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: Junho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Para quem já conhece um pouco a obra da autora, não estranha a estrutura deste livro. Como se de um puzzle se tratasse, a narrativa desfila em histórias que se vão alternando, cruzando, completando. Fica a ideia que tal como para as fotografias tiradas por R. será necessário “compor com todas elas um só céu”, (p. 347) as suas histórias também só farão sentido depois de todas lidas.

É um livro que levanta sobretudo questões e que raras vezes dá respostas, que propõe reflexões, que inquieta e obriga a interiorizar certas vivências e que abre novas perspectivas sobre temáticas como a relação do ser humano com o seu próximo, com os animais, com a natureza e sobre a inevitável passagem do tempo, a imortalidade, a contemplação, o silêncio, …

A narradora vai descrevendo os poucos habitantes de Nowa Ruda, “Cidade do vale, das encostas e dos cumes. (…) Cidade onde o anoitecer chega subitamente vindo das montanhas e desaba sobre as casas como uma monstruosa rede de borboletas. (…) Cidade silesiana, prussiana, checa, austro-húngara e polaca. Cidade de periferias. (…) Cidade onde o tempo anda à deriva, as notícias chegam com atraso e os nomes confundem.” (pp. 338 e 339).

A sua descrição incide na singularidade de certas personagens e nas suas histórias fabulosas; nos vários enredos anedócticos e por vezes incompletos; nos relatos oníricos e transcendentes; na explanação de várias matérias históricas, sociais, cosmológicas e ambientais.

Toda a sua escrita revela um estilo e um olhar muito próprio do mundo, uma sensibilidade por outras formas de vida, por outras formas de encarar a existência. É uma escrita que apresenta as coisas de uma forma inabitual, que faz pensar e que provoca imensas dúvidas.
“ - o nosso mundo é povoado de pessoas adormecidas que morreram e sonham que estão vivas.” (p. 166)

Há histórias de uma beleza estonteante das quais sublinhei e retirei imensas passagens.


05 fevereiro, 2022

𝑻𝒓ê𝒔 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Umberto Eco e Eugenio Carmi

 


Autor: Umberto Eco
Ilustrador: Eugenio Carmi
Título: Três Contos
N.º de páginas: 113
Editora: Gradiva
Edição: Junho 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Três contos é uma belíssima união entre as palavras de Eco e as ilustrações de Carmi. Os traços abstractos e a paleta de cores estão em simbiose com a fantasia e a ironia presentes nos textos.
Três histórias curtas e directas, com temas actuais, como a guerra e a paz; a competitividade e a tolerância; poluição, consumo e consciência ambiental, que nos fazem reflectir.
Sendo o texto muito curto, não posso nem quero desvendar o teor dos contos. Transcrevo a última frase da sinopse que penso traduzir muito bem o conteúdo do livro “ Do encontro extraordinário entre um narrador e um artista, três histórias sobre o respeito e a esperança, para quem ama ler com a imaginação.”



03 fevereiro, 2022

𝑨𝒖𝒔𝒄𝒉𝒘𝒊𝒕𝒛, 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝑻𝒓𝒂𝒏𝒒𝒖𝒊𝒍𝒂, de Primo Levi

 

Autor: Primo Levi
Tradutores: Diogo Madre Deus e Maria do Rosário Pedreira
Título: Auschwitz, Cidade Tranquila
N.º de páginas: 166
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Auschwitz, Cidade Tranquila integra dez contos e dois poemas. Mais uma obra de não-ficção que nos conta o que aconteceu com o rigor que Primo Levi já nos habituou e que deve ser lido para que a memória não se apague. A verdade dos factos aqui relatada foi vivida, sofrida e observada. O autor, após a libertação, para se redimir da dor que as memórias dos campos de concentração lhe causam, tenta escrever, tenta testemunhar tudo o que viveu, tudo o que observou. Foi um período difícil, as consequências da sobrevivência foram devastadoras.

Estes contos percorrem um tempo de cerca de 30 anos. Há contos que narram de forma inequívoca o que viveu em Auschwitz, outros mais ficcionados, dizem-no também, mas é nas entrelinhas que descortinamos os factos ocorridos no Lager.
“A trinta anos de distância torna-se difícil reconstituir a espécie de exemplar humano que correspondia, em novembro de 1944, ao meu nome ou melhor ao meu número174517.”      (p. 97, Cério)

O conto que dá o título à obra, é um paradoxo. Com tudo o que sabemos, e com tudo o que Levi viveu e presenciou, como justificar o epíteto de “cidade tranquila”? Levi ajuda-nos a compreender: se para uns foi o inferno, para outros, os que colaboraram, os que não quiseram ver foi efectivamente uma cidade tranquila.

A apresentação de Fabio Levi e Domenico Scarpa, responsáveis pela organização do livro, é clara quanto à intenção de Primo Levi ao escrever (e muito) sobre o Lager: “Vítima, espectador e testemunha, Levi também sente que as suas descrições, a sua narração e a sua pesquisa nunca chegam a ser suficientes: por mais transparentes, precisas e perspicazes que elas sejam, é sempre pouco face à demasiada dor, à dor excessiva daquele lugar. É por isso que ao longo dos anos experimentará tantos pontos de vista sobre Auschwitz: a fim de o restituir no modo mais absoluto possível.” (pp.15 e 16)


É por isso que o leio. É por isso que recomendo as suas obras.



30 janeiro, 2022

𝑽𝒂𝒎𝒐𝒔 𝑳𝒆𝒓! 𝑼𝒎 𝑪â𝒏𝒐𝒏𝒆 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒐 𝑳𝒆𝒊𝒕𝒐𝒓 𝑹𝒆𝒍𝒖𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆, de Eugénio Lisboa

 


Autor: Eugénio Lisboa
Título: Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante
N.º de páginas: 132
Editora: Guerra e Paz
Edição: Março 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3310)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este pequeno livro é um autêntico convite à leitura para leitores, leitores compulsivos e sobretudo leitores relutantes. Para estes últimos, a quem efectivamente se dirige o livro, apresenta uma lista de 50 livros, de 35 autores portugueses.
Eugénio Lisboa começa por apresentar a sua experiência pessoal como leitor, os seus gostos literários, o seu método de leitura e indica muitas dicas interessantes.
“ Já então, eu vivia dentro dos livros” (p. 34),
“O gosto da leitura é um dos mais valiosos presentes que a vida nos pode oferecer.” (p. 46)
e
“(…) desde muito novo, senti que a leitura, para ser proveitosa, não devia encontrar um leitor passivo e apático. O leitor deve reagir, deve focar um olhar dinâmico, enriquecedor e crítico naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê.” (p. 70)
De seguida, explica a razão da sua escolha e argumenta que para convencer quem ainda não gosta de ler, a “isca” tem de incluir livros mais acessíveis e termina com uma breve apresentação, um “vol d’oiseau”, sobre os autores da lista.
“As pessoas que nunca adquiriram o gosto de ler não fazem ideia do prazer incomensurável que desperdiçam.” (p. 46)

Cita vários escritores, não incluídos na lista, que podem também cativar leitores: Maupassant, Simenon, Somerset Maugham, Kipling, Edgar Poe, Mark Twain, Domingos Monteiro, Torga ou Rodrigues Migueis – “todos estes grandes escritores são perfeitas “iscas” para vencer o fastio do leitor mais renitente” (p. 55)
Ao longo da sua exposição, o autor indica os seus autores de eleição portugueses e estrangeiros, e não evita algumas farpas a Gabriela Llansol, a James Joyce e a Agustina Bessa Luís, sendo as desta última, excessivamente duras, na minha opinião.

Não sendo eu uma leitora “relutante” posso afirmar que este pequeno livro é uma pérola para leitores viciados. Da sua leitura retirei algumas boas sugestões, confirmei outras tantas possíveis leituras e sublinhei imensas frases interessantes!

“E, agora, VAMOS LER!” (p. 132) já que “A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica” (p. 42)



27 janeiro, 2022

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 


Holocaust Encyclopedia - United States Holocaust Memorial Museum
(La selección de judíos húngaros en el campo de exterminio de Auschwitz-Birkenau, mayo de 1944.)



Fila Escura

Será possível escolher-se um percurso mais absurdo?
No Corso San Martino há um formigueiro
A meio metro dos carris do elétrico,
E precisamente na cabeça do carril
Estende-se uma longa fila escura,
Toca-se uma com outra formiga,
Talvez a espiar a sua vida ou fortuna.
Enfim, estas estúpida irmãs 
Obstinadas lunáticas obreiras
Escavaram na nossa a sua cidade,
Traçaram sobre os nossos os seus carris,
E percorrem-nos sem receio
Apressadas atrás dos seus subtis afazeres
Sem se preocuparem com
        Não quero escrevê-lo,
Não quero escrever sobre esta fila,
Não quero escrever sobre nenhuma fila escura
                     
                                                                     13 de agosto de 1980

Primo Levi,  Auschwitz, Cidade Tranquila



26 janeiro, 2022

𝑩𝒂𝒍𝒂𝒅𝒂 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝑺𝒐𝒑𝒉𝒊𝒆, de Filipe Melo e Juan Cavia



Autor: Filipe Melo
Ilustrador: Juan Cavia
Título: Balada para Sophie
N.º de páginas: 305
Editora: Companhia das Letras
Edição: Junho 2021
Classificação: Novela gráfica
N.º de Registo: (3308)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Esta novela gráfica é uma obra-prima! Com um argumento sublime escrito por Filipe Melo e magistralmente ilustrado por Juan Cavia, esta história transporta o leitor para um mundo sensorial, intenso, sensível, de uma beleza extraordinária. O enredo é triste e simultaneamente arrebatador. Há momentos de dor intensa, de desilusão, de amor, de ódio, de arrependimento, de solidão, de esperança. São momentos mágicos, deslumbrantes com um final brutal.
Não vou desvendar nada da história (a sinopse já revela muito). Cada leitor deve descobri-la e desfrutá-la com prazer, intensamente. Apenas referir que se trata de uma história de vida, sobre a complexidade humana perante as adversidades, sobre a redenção.

Podem acompanhar a leitura com o acompanhamento musical disponibilizado aos visitantes do site Bandas Desenhadas:

Ou pelo vídeo, no youtube, “Filipe Melo toca 'Balada para Sophie'"




24 janeiro, 2022

𝑬𝒄𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂, de Joana Bértholo

 

Autora: Joana Bértholo
Título: Ecologia
N.º de páginas: 499
Editora: Caminho
Edição: Maio 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Bib)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Leitura complexa, intensa e inquietante que nos coloca constantemente perante questões pertinentes e muito actuais de uma sociedade “doente”, tais como, a linguagem na desvalorização da palavra face às redes sociais; a ausência de pensamento, de opinião perante um facto; a aniquilação das relações interpessoais; a imposição do medo; as consequências do capitalismo e da privatização de tudo, onde tudo se paga, até as palavras; o conformismo de uns e a revolta de outros (poucos) perante certas decisões; a ausência de consciência e a negligência em relação ao meio-ambiente.
“Muitos Consumidores ainda não entendem que quando os produtos e serviços lhes são oferecidos, isso significa que eles próprios são o produto.
Mesmo aqueles que o entendem, pesam as grandezas em jogo e decidem-se a favor da qualidade de vida. Embarcam numa existência com controlo sobre variáveis e imprevistos, mas permanentemente controlados, Já não há «estar fora». Em nenhum aspecto da vida. Uma utopia individual dentro de uma distopia colectiva.” (p. 418)

Livro distópico que apresenta uma posição muito crítica, sustentada no progresso e no avanço tecnológico sem limites, na descoberta de palavras, pela voz de Candela, a criança que ao longo do livro vai colocando questões desconcertantes e que se constitui como um enorme campo experimental e lúdico de jogos de palavras (sinonímia, polissemia, antonímia, normalização, monitorização).
Numa estrutura invulgar, fora do comum, com tipologias textuais diferenciadas, Ecologia dispersa-se por várias linhas narrativas que revelam situações diversas, histórias familiares, personagens várias e que segundo um fio condutor acabam por se ligar e dar sentido ao que aparentemente parece desconexo. À semelhança de outras distopias bem conhecidas, há um “sistema” criado por Darla Walsh que apresenta um plano que vai transformar as palavras em produtos de consumo, taxadas de forma aleatória. Para tal, cria tecnologia avançada que permita registar, contabilizar, monitorizar as palavras ditas pelas pessoas e assim atribuir-lhes um valor a pagar. Mas como toda a tecnologia, também esta revela pontos fracos e acaba por não detectar palavras pronunciadas por gagos, ou cantadas, ou ditas ao contrário entre outros subterfúgios que as pessoas vão descobrindo.

Joana Berthólo ao projectar no futuro esta sua visão da sociedade, acaba por pôr em evidência o presente, a realidade. Vivemos numa sociedade de consumo e de (des)informação, sob o engodo do marketing (muito bem demonstrado no livro) e do livre (falso) acesso à informação veiculada pelas redes sociais, tudo se paga, tudo se compra, todos opinam, todos escrevem, todos têm razão, nada se verifica, nada se confirma, nada se analisa…
Através de um discurso irónico, corrosivo, bem-humorado, a autora desmonta a relação ambígua entre o poder e o saber, questiona a hierarquia de valores, ou a falta dela, e alerta para as questões ecológicas.


22 janeiro, 2022

𝑶 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐 𝒅𝒂 𝑰𝒍𝒉𝒂 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: O conto da ilha desconhecida
N.º de páginas: 39
Editora: Caminho
Edição (3.ª): dezembro 2007
Classificação: Conto
N.º de Registo: (2643)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Já li, reli e voltei a ler este pequeno conto de Saramago, mas nunca escrevi sobre ele. Por motivos profissionais tornou-se uma leitura obrigatória e quase anual. Mas sempre que o leio, é com um prazer redobrado que acompanho o pedido do homem “dá-me uma barco” e a decisão da mulher da limpeza em acompanhá-lo à procura da ilha desconhecida. Não vou desvendar a história que narrada sublimemente nos leva a questionar sobre a nossa existência, que nos faz olhar para dentro.
A ilha desconhecida mais não é do que uma alegoria à busca interior e ao conhecimento de si próprio “(…) mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, (…) Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós,” (pp. 27 e 28)
Não desistir dos seus sonhos é outra mensagem que se retira deste pequeno texto, ou será que é a mesma? E que afinal está tudo interligado. Concretizar os sonhos mais não é do que lutar por algo que se deseja, desvendar o que nos vai na alma e, no caso, o desejo material do homem era na verdade a descoberta do seu íntimo, do seu auto-conhecimento. Não sabendo como resolver essa premissa, por si só, transferiu-a para a descoberta de uma ilha desconhecida.
“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar” (p. 23)

Numa mescla de fantasia e filosofia com pinceladas de ironia, Saramago propõe-nos uma auto-reflexão e mostra-nos um caminho para a resolução das muitas dificuldades que nos vão surgindo pela vida.
Trata-se, afinal, de um conto com múltiplas viagens… a viagem de cada leitor.
Recomendo muito este conto, sobretudo para quem se quer iniciar no vasto mundo saramaguiano. Sendo um texto curto permite ao leitor abordar e adaptar-se ao estilo muito próprio do autor com pontuação reduzida, diálogos não assinalados e um ritmo peculiar. (Lê-lo em voz alta, facilita)


12 janeiro, 2022

𝑼𝒎 𝑷𝒊𝒏𝒈𝒐 𝒏𝒂 Á𝒈𝒖𝒂, de Ann Yeti

 


Autora: Ann Yeti
Título: Um Pingo na Água
N.º de páginas: 156
Editora: Sell Out (Narrativa)
Edição: Março 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3336)

OPINIÃO ⭐⭐⭐

Neste seu segundo livro, Ann Yeti apresenta-nos uma protagonista deveras interessante. É uma mulher inteligente, trabalhadora, super independente, sensual e bem-disposta. Desde muito jovem, devido a circunstâncias pessoais, foi obrigada a tornar-se autónoma e a gerir a sua vida pessoal e profissional.
É uma mulher de sucesso, profissionalmente bem resolvida e, até certa altura, poder-se-á afirmar que em termos afectivos também o é, tendo em conta que é bastante independente e moderna quanto ao seu relacionamento amoroso.
Sendo uma mulher bonita, sensual e inteligente, Ana provoca nos homens uma forte atracção, levando alguns a cometer algumas loucuras saudáveis.
Assim, numa escrita escorreita, cativante, concisa e transparente como “um pingo de água”, a narrativa transporta-nos para o quotidiano de Ana e vamos acompanhando o seu sucesso e reconhecimento profissionais, bem como as suas opções amorosas e relações sexuais que vai manter com João e Carlos. Cada um à sua maneira, porque muito diferentes, conseguiu quebrar a barreira erguida por Ana e conquistar o seu coração.
Gostei da história narrada, gostei das personagens, sobretudo da feminina com o seu carácter honesto, lúcido, independente e, por vezes ambíguo, que lhe confere encanto e empatia.
É uma história de amor, de vivências intensas, mas também de perda e de superação.

11 janeiro, 2022

No dia do seu aniversário... (74 anos)


Foto minha


"Tudo vem ao chamamento. Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos. Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.
Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe. Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.”

 Al Berto, in Lunário



 

09 janeiro, 2022

𝒍𝒖𝒕𝒐, de Eduardo Halfon


Autor: Eduardo Halfon
Título: luto
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 106
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3280)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Neste livro, Halfon narra a complexidade das relações familiares fechada no silêncio como processo de luto e por consequência de culpa. O narrador, que se confunde com autor, regressa à casa dos avós, nas margens do lago Amatitlán, na Guatemala, e aí vai desvendando as suas memórias e os segredos da família. Foi com o intuito de entender alguns destes segredos ou “o que me contavam em criança” (p. 11) que decidiu voltar ao seu passado em busca da verdade. Assim, revisita a sua infância marcada pela situação política da Guatemala , o exílio da família para os Estados Unidos, a deportação do avô nos campos de concentração, e sobretudo a morte do seu tio paterno Salomón, entre outros.

A narrativa fragmentada saltita entre o passado e o presente, de personagem em personagem, de história em história. Nada é linear, mas tudo faz sentido. Estes saltos fluem naturalmente e imprimem intensidade e eficácia à narrativa; as deslocações geográficas dão consistência à sua identidade; a revelação dos segredos move reflexões, sentimentos contraditórios e quebra as convicções mantidas durante anos.

À medida que a narrativa evolui, o narrador vai-se libertando do passado, e só o consegue quando se afasta da família e se aproxima de outras personagens, figuras míticas guatemaltecas, que o ajudam a “ver a sua verdade” (p. 92)

É um livro muito breve, cerca de 100 páginas, com uma escrita cuidada, simples, ritmada e poética que seduz o leitor pela sua sensibilidade.



08 janeiro, 2022

𝑶 𝑵𝒆𝒕𝒐 𝒅𝒐 𝑯𝒐𝒎𝒆𝒎 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝑺á𝒃𝒊𝒐 - 𝑼𝒎𝒂 𝑩𝒊𝒐𝒈𝒓𝒂𝒇𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑱𝒐𝒔é 𝑺𝒂𝒓𝒂𝒎𝒂𝒈𝒐, de Tomás Guerrero

 

Autor: Tomás Guerrero
Título: O Neto do Homem mais Sábio
Tradutor: João Miguel Lameiras
N.º de páginas: 144
Editora: Levoir
Edição: 2020
Classificação: Novela Gráfica
N.º de Registo: (3340)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Considero esta novela gráfica uma belíssima homenagem a José Saramago, mas também a Fernando Pessoa, por via do seu heterónimo Ricardo Reis.

Tomás Guerrero foi feliz ao pegar na frase, ​“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, proferida por Saramago no discurso em Estocolmo, aquando da atribuição do Prémio Nobel em 1998, referindo-se ao seu avô Jerónimo Melrinho.
A tarefa de narrar em banda desenhada a vida e obra de Saramago é arriscada, mas Guerrero foi genial ao colocar os “defuntos” Jerónimo Melrinho (avó de Saramago) e Ricardo Reis, inspirando-se na obra O Ano da Morte de Ricardo Reis, em conversa animada sobre Saramago e, assim, vão guiando o leitor ao longo das páginas que o mesmo é dizer, ao longo da vida do biografado.

Esta narração a duas vozes, iniciada em Estocolmo, em 1998, vai instruindo o leitor com informações biográficas desde a infância na Azinhaga até aos últimos dias em Lanzarote, com citações muito bem enquadradas nas ilustrações, que considero magníficas, e ainda com a divulgação das obras publicadas.

A representação da história através das ilustrações, dos desenhos sai fora do comum, não temos as convencionais vinhetas tornando-o mais próximo de um livro ilustrado do que propriamente de uma banda desenhada. Como referiu Valter Hugo Mãe no prefácio “ as suas pranchas são riquíssimas, equilibradas, surpreendentes. Sem exageros, mantendo até uma estranha atmosfera da mesma humilde personalidade de Saramago.” Poder-se-á referir que por vezes os desenhos nada acrescentam ao texto em termos de informação, são naturalmente um complemento, tornam-no mais belo, mais poético.
Outra característica facilitadora da leitura do texto é a cor diferente atribuída a cada uma das duas vozes, permitindo a sua identificação imediata.

Apesar de gostar muitos da ilustração, é sobretudo o texto que mais aprecio, a conversa mantida por Jerónimo Melrinho, o homem mais sábio, que não sabia ler, e Ricardo Reis traduz a visão que Saramago tinha de si próprio, dos seus familiares e do mundo.

Recorrendo de novo ao prefácio escrito por Valter Hugo Mãe, subscrevo a sua opinião que a expressa de forma notável: “ Este livro é brilhante. É íntimo, delicado, brilhante. Com ele, Saramago continua a nascer”.


06 janeiro, 2022

𝑶𝒃𝒋𝒆𝒄𝒕𝒐 𝑸𝒖𝒂𝒔𝒆, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: Objecto Quase
N.º de páginas: 142
Editora: Caminho
Edição (4.ª): Novembro 1998
Classificação: Contos
N.º de Registo: (2673)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Objecto Quase integra seis contos breves onde as personagens são, na sua maioria, “coisificadas”, ou melhor dizendo, os objectos são humanizados. Esta característica é evidente nos contos “Cadeira” e “Embargo”. Outros há em que a fantasia, o surreal, o absurdo tomam conta da história e deparamo-nos com uma “animalização” do homem. Em todos, é evidente o tom sarcástico e a crítica à sociedade capitalista, à necessidade do ser humano em possuir bens e à sua dependência.
Ao longo dos seis contos, o autor conduz-nos por caminhos diversos, e que recorrendo a situações surreais, retrata o pessimismo, a depressão, a dependência e a imperfeição do ser humano.
A escrita destes seis contos revela o poder de observação, a capacidade de esmiuçar factos, o sentido crítico e bem-humorado do autor. Os seus textos, apesar de curtos, são autênticos trabalhos literários: descrições detalhadas; metáforas espantosas; histórias criativas repletas de ironia e de intensidade.

Por exemplo, no primeiro conto, “Cadeira”, fica-se pela descrição detalhada e irónica da cadeira que foi atacada pelo bicho da madeira e que vai destruindo o interior da perna que fará cair o homem que nela se senta. Facilmente percebemos que o episódio relata a queda de Salazar. Trata-se se uma alegoria ao fim da ditadura e do sistema vigente. A cadeira representa o poder. Se esta se torna decrépita, insegura, então o poder está decadente e deve ser substituído. É notável a descrição do momento em que o homem se sentou na cadeira, se recostou e finalmente caiu. Por vezes, parece que o narrador se desvia do assunto, tecendo outras histórias, outros factos, mas se o faz é para tornar mais intensa e credível a descrição sem nunca perder o fio condutor da narrativa em curso.

Gostei de todos os contos, mas a minha preferência recai em “Coisas”, o quarto conto. Classificá-lo-ia como uma distopia. As pessoas são hierarquizadas por ordem alfabética (têm a letra desenhada na mão), de acordo com a sua posição social. Tudo é absurdo, as coisas começam a ter reacções humanas, começam a tomar consciência da sua situação: objectos (portas, jarros, marcos do correio, degraus,…) desaparecem misteriosamente, paredes e prédios desabam, relógios deixam de funcionar, sofás têm febre, pessoas ficam nuas, cidades inteiras desaparecem …
Saramago põe em destaque a paranoia individual, mas sobretudo a colectiva, ele anula toda a materialidade e põe a nu o homem para o confrontar com a sua existência, com a sociedade em que se insere e vive de acordo com o que lhe é ditado. O homem torna-se objecto perante a inoperância e tirania do poder. O conto termina com uma réstia de esperança, de mudança porque, afinal, há sempre alguém que luta pela diferença.

Nestes textos, como em toda a obra, Saramago é exímio na crítica social.


02 janeiro, 2022

𝑫𝒂 𝑴𝒆𝒊𝒂-𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆 à𝒔 𝑺𝒆𝒊𝒔, de Patrícia Reis

 


Autora: Patrícia Reis
Título: da meia-noite às seis
N.º de páginas: 183
Editora: D. Quixote
Edição: Janeiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3278)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Este último livro de Patrícia Reis tem como pano de fundo a pandemia que vivemos. É, por isso, um livro na ordem do dia.
É o primeiro livro que leio sobre este tema, e escolhi-o porque sei que a autora não trataria o assunto de forma lamechas, mas sim de forma directa, envolvente e que nos fará reflectir. Não me enganei, a autora aborda a perda, o recomeço, os efeitos da pandemia, mas também versa sobre homofobia, racismo, conservadorismo, jornalismo, fake news, política e redes sociais.
“Qualquer pessoa nas redes sociais era jornalista, dizendo coisas, atiçando os espíritos, destilando fel, muito fel. A Rui Vieira faltava-lhe a capacidade para compreender como a ética deixara de ser fundamental.” (p. 117) “ Ele sabia estar a viver um tempo em que a verdade era essa: valia tudo:” (p. 116)
A protagonista, Susana Ribeiro de Andrade, perde o marido, em plena pandemia e vê-se completamente desamparada, confinada, obrigada a cumprir normas e, assim, a fazer o seu luto em casa, sozinha. Nesse período, ela é transportada para “um elevador de memórias” e dá-nos a conhecer a sua vida e sobretudo os seis anos de casamento com António Ribeiro de Andrade. São tempos angustiantes e de dor, mas também de referências culturais.
“ E estes pensamentos iam surgindo, assim como fios desatinados num novelo que já não se mantinha inteiro, a esfarelar-se no chão que era o que restava do coração dela. Restava-lhe isso, uma certa memória que lhe devolvia o marido através da música, da arte, dos livros.” 
(p. 74)

Forçada a retornar ao seu emprego como locutora numa estação de radio, acaba por aceitar o horário da meia-noite às seis, pensando que é a melhor maneira para não enfrentar a noite, em casa. De início, é apenas a voz das notícias, à hora certa, escritas pelo jornalista Rui Vieira, também, ele, vítima de um acidente no qual perdeu a voz. A cumplicidade que se estabelece na relação de trabalho acaba por ser a sua salvação. Ambos, um pela escrita, outra pela voz vão recriar o programa da noite e reinventar a solidão dos ouvintes e sobretudo a deles.
Com uma escrita muito característica de Patrícia Reis, as palavras fluem e o leitor ávido vai atrás do enredo e acompanha cada personagem nas suas angústias, nas suas fragilidades, nas suas resoluções e nas conversas tidas via email com Rui Vieira e via Whatsapp com os ouvintes do programa. Dois meios, que representam bem a forma como a pandemia nos apartou das relações presenciais e nos coagiu às tecnologias. Patrícia Reis toca na ferida, mostra o quão urgente é alterarmos a forma de viver no que toca às relações humanas, de repensarmos a vida.
É um livro sobre pessoas, sobre a solidão e a perda, mas sobretudo sobre a recuperação da identidade, sobre esperança e amizade, de redenção graças ao poder de uma voz que na noite, na solidão, vence barreiras e encontra apoio e ânimo ao pedir que lhe contem histórias felizes. Só isso!



29 dezembro, 2021

𝑼𝒎𝒂 𝑽𝒆𝒍𝒉𝒂 𝒆 𝒐 𝒔𝒆𝒖 𝑮𝒂𝒕𝒐 𝒆 𝒂 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒊𝒔 𝒄ã𝒆𝒔, de Doris Lessing

 



Autores: Doris Lessing
Título: Uma Velha e o seu Gato e a História de dois cães
Tradutora: Ana Falcão Bastos
N.º de páginas: 94
Editora: Bertrand Editora
Edição: Abril 2016
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Dois pequenos contos devastadores e que muito significam. Doris Lessing escreve o que lhe vai na alma, livremente, sem se preocupar com o politicamente correcto. O tema predominante nos dois contos é a liberdade. A liberdade dos que rejeitam uma sociedade preconceituosa, uma sociedade normalizadora.
Num estilo directo, cru, por vezes cruel, mas também comovente, brota, no primeiro conto, uma crítica manifesta ao abandono dos idosos pelos filhos, facilmente esquecidos ou despachados para um lar e, no segundo, uma crítica mais subtil às opções, preferências e formas de ser e de viver.
Na conquista pela liberdade quer de Hetty, quer do gato Tibby, quer ainda dos dois cães, Jock e Bill, há lutas tremendas de subsistência, mas há também manifestações de afecto e de gratidão dos animais para com os seus donos. Nas duas narrativas registam-se momentos de extrema dureza, crueldade até, mas também de ternura. Hetty e Tibby tornam-se ambos sem-abrigo e vadios, mas livres. Hetty recusou todas as démarches do estado para a fecharem num lar, preferiu viver na errância, na companhia do seu gato leal que a aquecia do frio e caçava pombos para se alimentarem.
Se na primeira narrativa a opção de viver em liberdade é clara, na segunda, ainda o é mais. Dois jovens irmãos, a mando dos pais, tentam treinar e domesticar dois cães, mas não conseguem. E a crítica que subjaz neste conto é que devemos aceitar as pessoas, no caso, os animais sem alterar as suas características, a sua forma de ser. A liberdade é mais importante do que qualquer redução à domesticidade.
“O meu pai queixava-se de que os cães não obedeciam a ninguém. Exigia treino sério e sem tréguas. O meu irmão e eu ficávamos a ver a nossa mãe a afagar Jock e a ralhar com Bill e estabelecemos um acordo tácito. Partíamos para o Grande Vlei, mas, uma vez lá chegados, andávamos de um charco para o outro, enquanto os cães faziam o que lhes apetecia e descobriam as alegrias da liberdade.” (p. 73)

Ora, nos dois contos o final não é nada simpático, é triste e devastador, Dir-se-á que é o preço da liberdade! Mas será que tem de ser sempre assim? Fica a pergunta em jeito de reflexão.



27 dezembro, 2021

𝑨𝒔 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂𝒔 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂𝒔 𝒅𝒆 𝑵𝒂𝒕𝒂𝒍, de vários autores

 


Autores: Vários
Título: As mais Belas Histórias de Natal
N.º de páginas: 180
Editora: Vega
Edição (2.ª): 2007
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Uma magnífica recolha de doze contos de Natal escritos por autores conceituados como Aquilino Ribeiro, Charles Dickens, Tolstoi, François Mauriac e Selma Lagerlöf, entre outros.
Todos os contos apresentam ensinamentos e incentivam à bondade à generosidade, à entre-ajuda e à esperança, sem todavia esquecer a crítica à avareza, à inveja, à desunião, ao poder.
Gosto de (re)ler estas histórias, transportam-me para a minha infância, quando ia com os meus amigos apanhar o musgo e colher o azevinho para o presépio, quando esperava pelas prendinhas que o Menino Jesus (ainda acreditava) deixava nos sapatinhos colocados junto à lareira e que só abríamos no dia 25. Não havia Pai Natal, não havia consumismo desenfreado.
Sendo propícia esta época para olharmos para os outros com mais atenção e carinho, não devemos, contudo, descurar estes cuidados ao longo do ano, sobretudo para com as pessoas que nos são mais próximas, já que afinal, são estes os valores que nos são transmitidos pelas personagens que habitam estas e outras histórias natalícias. E se aplicarmos o aforismo “Natal é quando o homem quiser” que seja, então, ao longo do ano e não somente nestes dias que se transformam em euforia.

26 dezembro, 2021

𝑪𝒐𝒎𝒐 𝒂 Á𝒈𝒖𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆, de Marguerite Yourcenar



Autora: Marguerite Yourcenar 
Título: Como a Água que Corre 
N.º de páginas: 188
Editora: Abril/ControlJornal
Edição:  Maio 2000
Classificação: Novelas
N.º de Registo: (1104)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Como a Água que Corre contém três novelas, escritas em períodos diferentes e um posfácio para cada uma delas. Nestes, a autora fornece informações importantes que elucidam o leitor sobre determinados aspectos que motivaram a sua escrita e as subsequentes alterações. Por exemplo, ficámos sabedores de que “Anna, Soror...”, a primeira novela” é uma obra de juventude e que inicialmente foi escrita para ser um romance, um longo romance. Todas as novelas foram várias vezes alteradas e reeditadas. “Outros pormenores houve, bem entendido, que foram omitidos, acrescentados ou mudados.” (p. 185)
A autora esclarece que o título atribuído a esta recolha representa a imagem de “um rio, ou por vezes da torrente, ora lamacenta ora límpida, que é a vida.” (p. 165) Eu acrescentaria que o título representa também a mestria da sua escrita, do seu estilo. As palavras fluem naturalmente ao ritmo do rio, do tempo, da vida e o leitor fica rendido à beleza da narrativa.

Gostei sobretudo da segunda novela, “Um Homem Obscuro”, que nos apresenta as aventuras de Natanael, um rapaz simples, de índole transparente, tal como a água que corre, que se dá bem com qualquer pessoa apesar da existência de diferenças: “Apesar da diferença de cor, entendera-se bem com o mestiço; apesar da religião, que ela aliás não praticava, fora Sarai uma mulher como outra qualquer, também havia ladras baptizadas, (…)” (p. 132) Natanael é daqueles que pensam, que questionam, e aproveitam as ocasiões boas que a vida lhes apresenta, mantendo sempre a sua independência.

A terceira novela, mais curta, “Uma Bela Manhã” dá continuidade à segunda, e narra uma parte da vida de Lázaro, filho de Natanael e da prostituta Sarai. O pequeno Lázaro, que nunca conheceu seu pai, “não tinha limites, e bem podia sorrir amigavelmente ao seu próprio reflexo…”(p. 155) partiu com uma companhia de teatro, livre, para realizar um sonho “nessa sensação de ser tantas pessoas ao mesmo tempo, a viverem tantas aventuras” (p. 155) Nisso, sem o saber, era igual ao pai.

Para concluir, e citando de novo a autora que no segundo posfácio refere, “Toda a obra literária é assim feita de um misto de visão, lembrança e acto, de noções e de informações recebidas, no decorrer de uma vida, através da palavra ou dos livros, e de resquícios da nossa própria existência.” (p. 180). Só posso acrescentar que esta recolha de Marguerite Yourcenar espelha maravilhosamente a sua forma de encarar a obra literária. Nela, tudo flui como a água que corre e a obra-prima emerge e transporta o leitor na sua corrente ora calma ora impetuosa.