IA - Copilot - 16.09.2026
Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: " Platero", e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal ...
Eu conhecia bem aquele trote alegre, mas, naquele dia, ele foi música de boas-vindas para a família que recebíamos no alojamento rural.
Nascidos e criados entre o betão cinzento da grande cidade, os pequenos irmãos nunca tinham visto um burro de perto. Para eles, o mundo media-se pela altura dos prédios e o único reino animal que conheciam, resumia-se aos pombos do parque e ao cão do vizinho. Nunca tinham visto um burro de perto. Para eles, os animais do campo eram figuras estáticas nas páginas dos livros.
Lembro-me de como recuaram, fascinados e temerosos, quando Platero se aproximou. Mas a doçura daquele olhar de azeviche desfez qualquer receio. Vi a mais nova estender a mão pequenina, tocando no pêlo macio e ouvi a gargalhada do irmão ao sentir o sopro morno do focinho na sua palma.
Platero, habituado aos meus silêncios e à calmaria do campo, rendeu-se imediatamente àquela energia nova. Descobri que ele adorava aqueles mimos ruidosos dos nossos hóspedes. Com uma paciência infinita, o meu velho amigo deixava que as crianças lhe fizessem tudo o que a imaginação ditava; aceitava com bonomia as coroas de papoilas que lhe penduravam nas orelhas; caminhava devagar para acompanhar os passos deles e deitava-se na erva, servindo de almofada viva para as brincadeiras da tarde. Havia uma cumplicidade dócil entre eles e Platero respondia a cada risada e a cada gritinho com um abanar de cauda e um pequeno relincho que fazia, ainda mais, gargalhar as crianças. Pela primeira vez, os ecrãs dos telemóveis e os jogos de vídeo foram substituídos pelo cheiro a terra molhada e pela amizade pura de um animal que os entendia sem palavras.
Mas o tempo não pára. O vento de fim de Verão começou a soprar mais fresco ao entardecer e a bagagem foi novamente arrumada na mala do carro, desta vez com algumas pedrinhas do riacho e flores secas guardadas como tesouros.
Na manhã da partida, assisti à despedida silenciosa. A menina abraçou-se ao pescoço do burro, chorando baixinho, enquanto o irmão lhe oferecia a última maçã com os olhos marejados. Platero, sentindo a tristeza no ar, permaneceu imóvel, encostando o focinho húmido nas mãos deles, soltando um sopro demorado. Ficámos os dois na vedação a vê-los partir, com as orelhas caídas, vendo o carro desaparecer.
De volta à rotina da cidade, os miúdos passaram os últimos dias em casa imersos numa súbita saudade, estranhando o silêncio do apartamento e sentindo a ausência daquele burrito que lhes roubara o coração, enquanto aqui, o prado também se recolhia na mesma nostalgia.
Passaram as férias, e, com as primeiras folhas amarelas, as crianças regressaram ao colégio. Solidão. O sol da casa parece vazio. Na imaginação soam gritos longínquos e risos de outrora...
17.09.2026
GR
Nota: Trata-se de um exercício de escrita criativa. O início e o final, em itálico, foram retirados da obra Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez

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