27 novembro, 2021

𝑨 𝑺𝒆𝒄𝒓𝒆𝒕𝒂 𝑽𝒊𝒅𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑰𝒎𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Al Berto

 

Autor: Al Berto
Título: A Secreta Vida das Imagens
N.º de páginas: 33
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Outubro 2000 (in O Medo)
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (1396)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



A Secreta Vida das Imagens é uma colectânea de poemas inspirados num conjunto de obras de artistas clássicos e contemporâneos, nacionais e estrangeiros que o autor amava e que de certa forma o desassossegavam na medida em que contribuíram para o seu “modo de viver e de ver o mundo.”

Dividido em três partes, o livro apresenta os poemas por ordem cronológica dos autores das obras de arte e cada poema é acompanhado por uma imagem representativa de uma pintura, escultura, instalação, fotografia dos artistas plásticos em causa.

A primeira parte é constituída, apenas, por três poemas que aludem a três pintores (Giotto, Fra Angelico e Zurbarán) que viveram entre os séculos XIII e XVII (renascimento – barroco)

A segunda parte contém nove poemas e nove reproduções de obras, sendo oito pinturas e uma fotografia. São artistas (de Cézanne a Warhol) do século XIX e XX e que integram os movimentos do pós-impressionismo e modernismo (nos seus variadíssimos -ismos).

A terceira parte inclui catorze poemas e imagens de representações artísticas: oito pinturas, três esculturas, duas instalações e uma fotografia. Este conjunto integra exclusivamente trabalhos de autores portugueses nascidos a partir de 1914, iniciando com António Dacosta e terminando com Rui Chafes.

A interacção entre a escrita – a literatura - e as restantes artes enriquece e intensifica os significados entre a vida vivida do poeta escritor e a obra e a vida do artista em destaque no poema. A relação entre o EU e o Outro; Eu, poeta/Outro, artista, torna-se mais complexa e de difícil interpretação na medida em que nem sempre se descortina quem é quem. Mas é esta mescla de vivido (autor) e observado (artistas) em que todos verbalizam a sua experiência criadora que tornam estes textos singulares e pluralistas.

Também nesta colectânea, Al Berto assumiu a sua vivência, a sua personalidade e entrelaça-as com o Eu do poema, isto é, com a biografia do artista. E ao propor uma determinada cronologia e uma selecção dos artistas e das suas obras, Al Berto acaba por emitir uma opinião própria e oferecer ao leitor a sua preferência artística.

É sempre com um prazer renovado e com novas descobertas que releio os livros de Al Berto.

Falso retrato de Andy Warhol

não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new York
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante


𝑨 𝑪𝒂𝒅𝒆𝒍𝒂, Pilar Quintana

 



Autor: Pilar Quintana
Título: A Cadela
N.º de páginas: 125
Editora: D, Quixote
Edição: Fevereiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3279)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pequeno livro com uma extraordinária mensagem! Brilhante! História aparentemente simples tal é a economia da escrita. Puro engano! A narrativa escorreita, firme, sem artífices vai manipulando o leitor, envolvendo-o numa trama avassaladora e simultaneamente encantadora.
Adorei a forma como a autora nos descreve Damaris, a mulher que adoptou uma cadela. É uma mulher de garra, que luta para vencer as dificuldades da vida, os traumas, os desgostos, a solidão, o (des)amor, que tolera o desinteresse do marido, mas não suporta a traição da cadela.
Não é uma história fácil, quando pensamos que já ultrapassámos uma situação, que já tudo acalmou, a narradora volta à carga com mais intensidade, mais dureza. Tudo é construído de momentos de acalmia e tempestuosos quer nas atitudes de Damaris quer na natureza. Tão depressa cai “uma chuvada tremenda, com raios e trovões” como “ (…) seria um daqueles raros de céu azul intenso e calor abrasador.” Com mestria a autora vai aliando o carácter humano com o que tem de bom e de perverso à beleza e violência da natureza. E tal como numa tempestade, a narrativa vai-se adensando e dando lugar a um total desconcerto.

Recomendo!



22 novembro, 2021

𝑼𝒎 𝑯𝒐𝒎𝒆𝒎 𝑷𝒂𝒓𝒂𝒅𝒐 𝒏𝒐 𝑰𝒏𝒗𝒆𝒓𝒏𝒐, de Baptista-Bastos



Autor: Baptista-Bastos
Título: Um Homem Parado no Inverno
N.º de páginas: 167
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Agosto 1995
Classificação: Romance
N.º de Registo: (558)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Numa escrita fragmentária, Baptista-Bastos guia-nos numa introspeção profunda sobre o Portugal de então e numa viagem ao passado em busca de redenção. Manuel, o protagonista, viúvo, decidiu ir até à aldeia, onde deseja permanecer vários meses, à procura de “respostas vitais”, de reviver momentos esquecidos, momentos de amor, momentos dolorosos. Sozinho, refugia-se na bebida e nas recordações, traído pelas memórias serve-se da imaginação para criar equívocos, sonhos, ilusões.
“As sombras e as opacidades da memória adensam-se quando procura estabelecer relações entre os episódios de que fora protagonista e os desafectos que os marcaram. Porém, tinha a consciência subtil da total vacuidade desse exercício estafante: a memória, como defesa, desmemoria-se.” (pp.29 e 30)

O narrador vai entrelaçando episódios do presente com relatos do passado, episódios pessoais com relatos e descrições de um Portugal decadente, pequenino, ignorante e medíocre. Há uma similitude entre este país em ruina e ele próprio, um homem só, perdido, desintegrado no tempo e que se desconhece.
“ (…) vivia na contradição de desejar esquecer e no desejo de conservar e de preservar tudo: mágoas, desgostos, deslealdades: a fuligem da vida, persistia em não apagar a consciência infeliz; essas ofensas, reavivadas no tempo em imagens, sons e palavras, constituíam o seu pesadelo e a sua desordem.” (p. 102)

Recomendo muito este livro quer pela beleza da escrita quer pela forma como retrata a passagem do tempo, a solidão de um homem, o confronto consigo próprio e, simultaneamente, a decrepitude de um país e a intolerância pela condição humana.


16 novembro, 2021

𝑼𝒎 𝑭𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆, de Ann Yeti


Autor: Ann Yeti
Título: Um Fio de Sangue
N.º de páginas: 112
Editora: Emporium
 Edição: Dezembro 2018
Classificação: Novela
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐

Este é o tipo de livro ao qual se aplica o provérbio “Quem vê caras, não vê corações”. Pois é, eu não o compraria só pela capa e pelo título. Porém, e é com agrado que revelo que contém uma história de sedução, de entrega e de amor, que poderia acabar em final feliz, não fosse a estupidez humana que tende a complicar o que é belo e simples. Mas já lá vamos.
Perguntar-me-ão, então, como tive acesso ao livro se era uma compra improvável? Pois, recebi-o num pacote muito simpático e com a seguinte mensagem: “Doar livros pode ser doloroso… quando nos cortamos no papel ao fazer o embrulho! Por isso, não se admire se encontrar um fio de sangue por aí…”
Claro que fiquei, de imediato seduzida (já percebi que a Ann sabe usar as palavras para seduzir…) e decidi lê-lo o quanto antes. E em boa hora o fiz!

O livro é pequeno e lê-se muito bem. Como já referi no início, temos um enredo empolgante que agarra o leitor que se mantém atento aos detalhes e curioso em desvendar o desfecho da relação entre a Joana e o Tomás.
A escrita é cuidada e intensa, clara e directa com laivos de subtileza, quando necessário, que muito apreciei e a composição gráfica é interessante. Um fio de sangue presente em todas as páginas, metáfora da vida, da dor, do sofrimento, indicia algo e arrefece-nos o ímpeto e retrai-nos perante a felicidade intensa vivida pelas personagens.

Há, contudo, um senão na minha opinião, que está relacionado com a estrutura, isto é, o facto de os capítulos terem títulos antecipa alguma informação sobretudo nos capítulos da Joana e do Tomás. Eu, pessoalmente, gosto de maior complexidade, acho que o leitor deve descobrir quem é quem, o que faz e o que pensa sem que essa informação esteja segmentada. Mas, esta é uma mera opinião, vale o que vale. Outros leitores apreciarão, certamente, esta apresentação.

Recomendo a leitura, gostei da Joana, jovem inteligente, moderna, sedutora, desafiadora e corajosa.
Quanto à Ann Yeti tem um futuro promissor na escrita. Basta escrever e seduzir o leitor para novos caminhos, novas sensações…   


13 novembro, 2021

𝑨 𝑴ã𝒆, de Pearl S. Buck


Autor: Pearl S. Buck
Tradutor: Isabel Risques
Título: A Mãe
N.º de páginas: 255
Editora: D. Quixote
2.ª Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3285)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A Mãe, de Pearl S. Buck transporta-nos para a China rural e pobre, onde os habitantes da aldeia vivem da terra arrendada a um proprietário a quem entregam a maior parte dos bens que produzem.
Como facilmente se depreende do título, a Mãe, personagem-tipo, é a protagonista da narrativa. Casada, com três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Cuida exemplarmente da sua família e da sogra que também vive lá em casa. Toma conta da casa e acompanha o marido na lavoura das terras e na colheita dos produtos. Dá-se bem com a vizinhança e é respeitada por todos. É feliz, ama a sua família apesar da vida miserável e de trabalho que leva.
Até que um dia tudo muda, e esta mãe vai passar por grandes dificuldades. Para não ser desconsiderada pelos outros, e manter a sua honra, forja artimanhas para dar entender que o marido não a abandonou, mas que partiu à procura de trabalho. A partir de então, a Mãe tudo faz para manter a família unida e dedica-se ao trabalho árduo do campo para sobreviverem. Com os filhos pequenos, um ainda de peito, e uma sogra incapacitada, é sobre ela que tudo recai, é ela que tudo gere sem um queixume, sem uma renúncia. Com dignidade e muita coragem vai ultrapassando algumas das dificuldades, mas a sua vida vai-se complicando e vai passar por várias provações.
Neste romance, percebemos o papel secundário da mulher na China sendo por isso o filho homem o mais desejado.
“Há muitas raparigas naquela aldeia, porque ali nunca as matam, como fazem em algumas cidades quando nascem raparigas.” (p. 169)
É a ela que cabe a educação dos filhos, a manutenção da casa, da roupa, o cuidar dos sogros (no casamento é a mulher que sai de casa para ir viver com a família do marido) e, ainda, acompanhar o marido no trabalho da terra.

Gostei da escrita simples e direta, subtil, por vezes, e esclarecedora quanto às tradições do povo chinês.
Apesar de a personagem ter uma vida miserável, de sacrifício, de trabalho, fustigada pela dor, pela injustiça, pela maldição, é uma história comovente porque nela predomina o amor de uma mãe e no final, há um grito de esperança.




10 novembro, 2021

𝑵𝒆𝒎 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝒄𝒂𝒔𝒂 é 𝒋á 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝒄𝒂𝒔𝒂, de Eva Guimarães



Autor: Eva Guimarães
Título: Nem minha casa é já minha casa
N.º de páginas: 142
Editora: Narrativa
Edição: Abril 2018
Classificação: Testemunhos
N.º de Registo: (3201)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Mais um testemunho de violência doméstica. Mais um testemunho de humilhação. Mas também e sobretudo um testemunho de superação.
Nada nos surpreende, neste relato. Infelizmente, é cada vez mais recorrente, os sonhos tornarem-se pesadelos e o amor transformar-se em ódio e em violência.
Ficamos chocados, sim, chocados com a violência física e sobretudo psicológica cometida pela “pessoa amada”, ficamos indignados perante a inoperância da justiça (portuguesa e espanhola) e de todos aqueles que deveriam proteger a vítima. Sentimos a dor, a solidão, a humilhação.
“Ao denunciar o seu agressor sem primeiro se pôr a salvo, tinha feito prova de uma ingenuidade suicida.
Tinha-se lançado aos lobos.
Era descobrir o caminho terrorífico que há-de percorrer a vítima que não conta com recursos, a vítima pobre.
O longo encadeamento do sofrimento, indiferença, humilhação, desídia.” (p. 58)

Ela (não é nunca referido o nome da personagem) que veio de Espanha para o Alentejo para viver a sua história de amor, vai ter de fugir para o seu país natal e tentar “recuperar a sua dignidade” e mais tarde a sua liberdade.
“Mas não era o Alentejo que Ela abandonava, os seus mares de oliveiras e de chaparros, os seus verões escaldando as searas louras, os invernos cheirando à lenha queimada nas lareiras. Isso, Ela levá-lo-ia sempre no seu coração.
O que Ela devia deixar para trás, aquilo de que fugia, era daquele casamento nefasto, daquele marido depravado e agressor.” (pp. 14 e 15)

Temos textos avulsos, sem ordem cronológica, muito bem escritos que revelam “um gesto de coragem, determinação e resiliência perante uma sucessão de factos tremendamente violentos.” (p. 141) e que pretendem servir de inspiração a outras mulheres que vivam uma situação semelhante.


07 novembro, 2021

𝑨𝒔𝒕é𝒓𝒊𝒙 𝒆𝒕 𝒍𝒆 𝑮𝒓𝒊𝒇𝒇𝒐𝒏, de Jean-Yves Ferri et Didier Conrad

 



Autor: Jean-Yves Ferri
Ilustrador: Didier Conrad
Título: Astérix et le Griffon
N.º de páginas: 48
Editora: Les Éditions Albert René
Edição: Outubro 2021
Classificação: Banda Desenhada
N.º de Registo: (----)


OPINIÃO ⭐⭐⭐



Astérix et le Griffon (em francês) é o 39.º álbum desta dupla imparável. Esta aventura vai levar Astérix, Obélix, Idéfix e o druida Panoramix ao mundo dos Samartas, tribo comandada por mulheres enquanto os homens ficam em casa a cuidar dos filhos. Esta é uma das várias novidades inseridas neste álbum. Outras há a destacar como a poção mágica que desta vez congela, o herói que acaba por ser Idéfix e não os habituais Obélix e Astérix, os jogos de palavras que nos remetem para a actualidade virtual e pandémica. Algumas destas referências são muito subtis.
Esta talvez tenha sido a alteração mais divertida. Dei por mim à procura das palavras escondidas: “Kalachnikova” “Trodéxès de collagène!”, “scythes attaqués”, “Critiques sur les FORUMS”,”T’as raison FAKENIUS”, “On respecte les distances”, entre muitas outras.
Diverti-me, mas não me entusiasmei. Falta o toque satírico e paródico tão característico da dupla genial (na minha opinião) da nona arte. Faltam as lutas dos irredutíveis gauleses com os romanos. Faltam os javalis. Falta a alegria do povo gaulês.

É evidente que a nova dupla tenta integrar a actualidade nas novas aventuras, mas fará sentido se a essência das personagens se perder?



06 novembro, 2021

𝑼𝒎𝒂 𝑺𝒐𝒍𝒊𝒅ã𝒐 𝑫𝒆𝒎𝒂𝒔𝒊𝒂𝒅𝒐 𝑹𝒖𝒊𝒅𝒐𝒔𝒂, de Bohumil Hrabal

 


Autor: Bohumil Hrabal
Tradutora (do checo): Ludmila Dismanová
Título: Uma Solidão Demasiado Ruidosa
N.º de páginas: 143
Editora: Antígona
Edição: Setembro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3260)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Há 35 anos que Hanta vive numa solidão partilhada com a ruidosa prensa hidráulica. Na Praga de Kafka, assolada pela guerra, acompanhamos a vida absurda deste homem que passa os dias, os anos a prensar papel e livros numa cave suja, a recolher e a ler relíquias que lhe passam pelas mãos, a beber canecas e canecas de cerveja e a dormir numa casa velha repleta de livros. Hanta, apesar do ambiente miserável onde trabalha, é um homem feliz e culto, um pensador e um contador de memórias.

Narrado na primeira pessoa, Hanta relata-nos a sua “love story”. É um homem de contrastes, é um homem que se suja de sangue dos ratos prensados, mas também das letras dos livros.
“… há trinta e cinco anos que me sujo de letras, a tal ponto, que com o passar do tempo, me pareço com uma das pelo menos três toneladas de enciclopédias que terei prensado; sou um cântaro cheio de água viva e de água morta, basta inclinar-me um pouquinho e jorram de mim ideias lindas; sou culto independentemente da minha vontade e, assim nem sei bem que ideias são minhas, saídas da minha cabeça, e quais delas li.” (p.7)

É assim que Hanta se apresenta logo no início. E ao longo deste monólogo, temos uma imensidão de referências a livros, a bons livros. Temos metáforas, imagens lindíssimas. Temos histórias vividas, sonhadas, irreais.
“ …afinal não leio, apenas debico uma bela frase e chupo-a como um rebuçado, como se bebericasse lentamente um cálice de licor, até a ideia se dissolver em mim como álcool, tão devagar que não só penetre no meu cérebro e no meu coração, mas pulse também nas minhas veias até às raízes dos capilares.” (p.7).
Ninguém resiste a um texto destes. É lindo. É intenso. É poético.

Durante trinta e cinco anos, Hanta é o guardião dos livros, do conhecimento, das suas memórias, das suas histórias. Numa profunda solidão, ao ritmo de dois botões, o vermelho e o verde, Hanta cumpre a sua função com devoção, não com total zelo já que muitas vezes pára para ler uma raridade que lhe cai do “céu”, do buraco do tecto.
“…o disco da prensa avançava e recuava conforme eu premia o botão verde ou o botão vermelho e, nos intervalos, eu bebia cerveja e lia a Teoria do Céu, de Immanuel Kant,…” (p. 78) Porém, no final, Hanta é surpreendido pelo progresso (“iniciava-se uma nova era, com novos homens e mulheres e novos métodos de trabalho.” p. 99) +e vai ser substituído por dois jovens, que só bebem leite, mais qualificados, mas indiferentes aos livros e ao seu conteúdo e a sua prensa por uma maior, mais moderna e mais eficaz. Hanta indigna-se e toma uma decisão que não vou desvendar.

É um livro magnífico. Um hino aos livros, à literatura

02 novembro, 2021

𝑨 𝒎𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓 𝒒𝒖𝒆 𝒄𝒐𝒓𝒓𝒆𝒖 𝒂𝒕𝒓á𝒔 𝒅𝒐 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐, de João Tordo

 

Autor: João Tordo
Título: A mulher que correu atrás do vento
N.º de páginas: 456
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3146)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A Mulher que Correu Atrás do Vento é constituído por oito partes, algumas datadas no tempo e no espaço, numa estrutura complexa, mas que no final se encaixam como um puzzle. É um romance no feminino, sobre a vida de 4 mulheres (Beatriz, Lisbeth, Graça e Lia) e com inúmeras referências a livros, músicas, filmes, peças de teatro, pinturas, …. São histórias dentro de uma grande história. Um romance dentro de um romance. Será isto possível?
Como já é habitual no autor, a sua narrativa transborda de emoções. As suas personagens correm “atrás do vento” numa luta contra o abandono, a solidão, o medo, o remorso, a clausura interior. É um livro sobre as memórias, a redenção.
“Que aquilo que imaginamos é tão verdadeiro como a realidade, porque tem o poder de nos salvar, de redimir uma vida tantas vezes brutal, sempre efémera, desgostosamente solitária.” (p. 446)

Ao longo dos capítulos, as histórias das 4 mulheres vão-se entrelaçando e criando uma maior densidade. É este cruzamento que dificulta a leitura, por vezes, é necessário voltar atrás, reler algumas passagens, deixar o vento amainar. Mas é por isso que aprecio a escrita do autor, o ritmo, o jogo, a forma como subverte a arte de narrar, e até o final é surpreendente e esclarecedor, ou talvez não…

“As coisas começam num lugar distante no tempo e na geografia e, depois, parecem repetir-se infindavelmente, tal qual um relógio cujos ponteiros atravessam a mesma hora todos os dias. Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos, das mesmas esperanças.” (p. 439)



29 outubro, 2021

𝑶 𝑷𝒂𝒓𝒂í𝒔𝒐 𝒔ã𝒐 𝒐𝒔 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de Valter Hugo Mãe

 

Autor: Valter Hugo Mãe
Título: O Paraíso são os outros
N.º de páginas: 44
Editora: Porto Editora
Edição: Novembro 2014
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (2979)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Livro encantador sobre o amor e sobre as relações humanas. É pelo olhar de uma menina que vamos captando o entendimento das relações entre casais, amigos e animais. A sua inocência e naturalidade na abordagem da história transmitem-nos uma mensagem simples, mas profunda de significado.
“Os casais são criados por causa do amor. Eu estou sempre à espera de entender o que é. Sei que é algo como gostar tanto que dá vontade de grudar. Ficar agarrado , não fazer nada longe. Os casais são isso: gente muito perto.”(p. 15)

Com textos curtos e delicados e ilustrações atractivas o autor transmite às crianças uma mensagem de amor e de respeito e provoca nos adultos uma reflexão sobre a forma como cada um expressa o amor, o relacionamento com o outro.
“O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa de ser uma solução.” (p.35)

É um livro de ensinamentos. Maravilhoso! Foi difícil escolher as citações, já que todo o livro é delicioso.
“ A minha mãe explica que o amor também é namorar com cuidado.” (p.9)
“O amor é urgente. As pessoas ficam tão aflitinhas com o amor como quando querem fazer chichi.” (p.37)

23 outubro, 2021

𝑵𝒂𝒅𝒂 𝑴𝒆𝒏𝒐𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒖𝒎 𝑴𝒊𝒍𝒂𝒈𝒓𝒆, Markus Zusak

 

Autor: Markus Zusak
Tradutor: Miguel Romeira
Título: Nada Menos que um Milagre
N.º de páginas: 491
Editora: Editorial Presença
Edição: Abril 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Terminei a leitura do livro há dois dias, mas não consegui logo escrever sobre ele. Fica-se deslumbrado perante o virtuosismo da escrita e da estrutura. Cruzando tempos (ora passado, ora presente) e histórias, o autor vai desvendado (“Por agora, só têm de saber isto.”) os encontros, os laços, as perdas, os dias felizes e conturbados da família Dunbar.

É estonteante e perturbador acompanhar as alegrias e as dores desta família. Logo no início, são-nos fornecidos indícios sobre uma morte, há a revolta e a dor vividas pelos cinco irmãos, mas há também as alegrias e o amor.
“Claro que, naquele dia, o seu adversário seriam cinco irmãos.
Nós os irmãos Dunbar.
Eu , o Rory, o Henry, o Clayton e o Thomas.
Depois daquele dia, nunca mais fomos os mesmos.” (p. 20)

Numa narrativa tão sublimemente construída só mesmo no final nos inteiramos verdadeiramente do que aconteceu. E essa é a magia do autor, a sua escrita enleva-nos e mantém-nos suspensos numa alternância de dor e de alegria, de perda e de vida, de abandono e de reencontro. Os avanços e recuos da narrativa colocam o leitor numa atitude de reflexão e obrigam-no a viver emoções fortes e a “adoptar” os irmãos Dunbar.

É uma história de redenção na qual o amor e a união familiar se sobrepõem às mágoas e aos ressentimentos.
Recomendo muito! O livro narra-nos de forma intensa a história de uma família maravilhosa.

11 outubro, 2021

𝑼𝒎 𝑫𝒊𝒂, de Morris Gleitzman

 

Autor: Morris Gleitzman
Título: Um Dia
N.º de páginas: 159
Editora: fábula
Edição: Novembro 2017
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Um Dia é o primeiro livro da tetralogia sobre o Holocausto/ Segunda Guerra Mundial. Os quatro livros são recomendados pelo PNL2027 (dos 12 aos 18 anos) e foi por esta razão que decidi lê-lo.

Apesar de ser um livro juvenil, gostei de o ler. O autor aborda a temática de uma forma original, num estilo descontraído e aparentemente ligeiro.
Narrado na primeira pessoa, Félix Salinger, o protagonista, é uma criança judia, encantadora, inteligente e com uma imaginação muito fértil.
“Um dia, fugi de um esconderijo subterrâneo contando uma história. Era um bocadinho exagerada. Era um bocadinho fantasiosa. Era a minha imaginação a deixar-se levar.” (p. 97)

Como gosta muito de ler e de escrever, sempre que se depara com uma cena de violência protagonizada pelos nazis, e que devido à sua idade e inocência, não consegue compreender, imagina uma história que justifique o que presenciou.

Félix ao juntar-se a um homem (Barney) e a outras crianças resistentes, vai assistindo a dramas terríveis e no meio de tantas incertezas e privações vai criando laços de amizade e de solidariedade, mas também muitas desilusões. Já nem as suas histórias conseguem iludir a verdade dolorosa e sombria que está a viver. E não concebe que atos tão terríveis possam ser praticados por seres humanos.
“Porque é que os nazis farão sofrer assim só por causa de alguns livros.” (p. 71)

É uma história pequena, bem escrita, emocionante e perturbadora. O facto de ser narrada sob o olhar inocente de uma criança, conquista e apaixona o leitor, de qualquer faixa etária.
“ Vou dizer-te a verdade. Arranjei-te as botas porque toda a gente merece ter alguma coisa boa na vida, pelo menos uma vez.
Não sei o que dizer. É uma das coisas mais amáveis que já ouvi, mesmo em histórias.
Obrigado – segredo-lhe, mas ….
Fico confuso. De certeza que o Barney sabe que tenho montes de coisas boas na minha vida. Na verdade, até mais do que qualquer um naquela cave.” (p.119)

Fiquei com vontade de descobrir o que vai acontecer ao Félix…



07 outubro, 2021

𝑴𝒂𝒅𝒆𝒎𝒐𝒊𝒔𝒆𝒍𝒍𝒆 𝑪𝒉𝒂𝒏𝒆𝒍 𝒆 𝒐 𝑷𝒆𝒓𝒇𝒖𝒎𝒆 𝒅𝒐 𝑨𝒎𝒐𝒓, de Michelle Marly

 


Autor: Michelle Marly
Título: Mademoiselle Chanel e o Perfume do Amor
N.º de páginas: 333
Editora: Planeta
Edição: Junho2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (----)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

J’adore la Belle Époque! J’adore Paris! J’adore Chanel n.º 5!

Assim, à partida, e para mim, este livro apresenta todos os ingredientes para uma boa história, se ainda lhe acrescentarmos o glamour da vida parisiense, a vida boémia de alguns artistas e a elegância de Coco, teremos certamente uma excelente composição.
Baseado em factos reais, o romance apresenta-nos uma mulher franzina e elegante, extremamente lutadora, singrou na vida à custa da sua inteligência e do seu trabalho. Foi uma mulher moderna, inovadora, generosa (mecenas de vários artistas) e livre. Uma referência no mundo da alta-costura e que marcou toda uma época.

O livro narra uma parte importante da vida de Gabrielle Chanel, na buliçosa e cosmopolita cidade onde tudo acontece. Ao longo das trezentas páginas tomamos conhecimento da sua infância infeliz e traumatizante, da sua ascensão social, dos seus sucessos profissionais, dos seus reveses amorosos, mas também partilhamos das intrigas da elite francesa intelectual e artística e sobretudo mergulhamos no mistério que envolve a criação do perfume mais famoso do mundo - o icónico Chanel n.º 5 que imortaliza o seu grande amor.

Não é um livro arrebatador, mas é interessante para quem aprecia a efervescência intelectual, artística e boémia da cidade luz. Lê-se muito bem.




02 outubro, 2021

𝑹𝒐𝒅𝒆𝒂𝒅𝒐 𝑫𝒆 𝑰𝒍𝒉𝒂, de João Miguel Fernandes Jorge

 


Autor: João Miguel Fernandes Jorge
Título: Rodeado De Ilha
N.º de páginas: 305
Editora: Relógio d'Água
Edição: Abril 2021
Classificação: Contos/Testemunhos
N.º de Registo: (3302)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Rodeado De Ilha reúne 31 textos ficcionais, ensaísticos e de viagem tendo como cenário várias ilhas dos Açores. Para além de relatos pessoais, o autor convoca para alguns dos seus textos Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal aparece em vários textos – Rui Chafes, António Dacosta, Júlio Pomar...
“Neste momento, riscado que foi esse sinal de um verão que subjaz na distância, mas que será ainda capaz de erguer erupções, brilhos que guardam «saudades da terra», da ilha, das ilhas, do mar das ilhas. Nesse caderno… Foi esse caderno que trouxe para estes meus dias do verão de 2001; e em cujas páginas irei agora escrever este ao redor das ilhas, e em que me quererei saber rodeado de ilha. Rodeado de mar.” (pp.69 e 70)
Nos seus textos desenvolve temas que lhe são queridos (assim o entendi) como a paisagem açoriana, de várias ilhas, os habitantes com os seus modos, os santos e as igrejas, as expedições, o vento forte, “de rajadas” e o mar, sempre o mar ora calmo, ora agitado. Mas também nos presenteia com várias páginas de arte, de beleza artística (obras literárias, poesia, exposições – escultura, pintura)
“Na ilha, nas ilhas, perpassa ainda a sombra de Deus sob a asa de uma ave. A sua cor, breve, como a atmosfera do azul e do verde, exalta-se em António Dacosta. A sua cor, pesada de negro e arrebatada de vermelho, movimenta-se em jogo e celebração nestas pinturas de Júlio Pomar.” (p.96)

Numa escrita cuidada, JMFJ oferece ao leitor olhares, ecos, vislumbres, emoções, inquietudes (“continuo a procurar uma ilha somente como sítio privilegiado para a racionalidade da inquietude”) de si, dos outros, das ilhas, do mar, do tempo, da arte, da natureza bela e agreste; imagens, metáforas, …
“ «Uma ilha é o umbigo do mar.» Terei lido, não sei em que poeta grego. Suponho que em Seferis.” (p.109)

20 setembro, 2021

𝑫𝒆𝒔𝒗𝒊𝒐, de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho

 

Autor: Ana Pessoa
Ilustrador: Bernardo P. Carvalho
Título: desvio
N.º de páginas: 197
Editora: Planeta Tangerina
Edição: Junho 2020
Classificação: Novela gráfica
N.º de Registo: (3267)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Desvio, a banda desenhada escrita por Ana Pessoa e ilustrada por Bernardo P. Carvalho narra-nos a história de Miguel, um jovem de 18 anos. Sozinho em casa porque os pais foram de férias, não lhe apetece estar com ninguém. Num verão quente, arrasta-se por casa, fuma, vê filmes, faz jogos de palavras, espalha “gostos” nas redes sociais dos amigos, videojogos, estuda código de estrada e “faz uma pausa” com a namorada. Quando sai, vai ao cinema e deambula pela cidade tirando fotos e filmando como um turista. Nunca está feliz, não entende o presente, questiona-se sobre o futuro. Farta-se de tudo e de todos, “quer fazer uma pausa de tudo.”
O texto reduzido, próprio de uma novela gráfica, é magnificamente completado com a narrativa visual muito colorida, expressiva e descritiva. Ficam muito claras as acções e os pensamentos de Miguel. Há momentos de silêncio fantásticos. As páginas com os desenhos e o texto estão harmoniosamente construídas. E isso torna esta banda desenhada excepcional.
Assim, o livro transmite muito bem as dúvidas, os medos e as expectativas dos adolescentes, bem como a angústia das mães que telefonam constantemente e que não sabem muito bem lidar com o filho/a filha que vive num mundo entediante, sem projetos, numa luta constante contra a rotina e em busca de uma identidade. Da sua identidade.
Recomendo este livro porque sem qualquer juízo de valor, foca-se na realidade, no mundo dos nossos jovens e quem lida com eles, sabe que é assim. E a forma como é narrada (texto e ilustração) leva-nos a refletir e a perceber o dilema existencial da vida de um jovem.
“Nunca sinto o que os outros querem que eu sinta.”
“E às vezes é difícil perceber onde estamos. Andamos perdidos nas mesmas ruas, nos mesmos labirintos, nos mesmos dramas.”



18 setembro, 2021

𝑨 𝑻𝒆𝒓𝒄𝒆𝒊𝒓𝒂 𝑹𝒐𝒔𝒂, de Manuel Alegre

 


Autor: Manuel Alegre
Título: A Terceira Rosa
N.º de páginas: 133
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Julho 1999
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1047)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste pequeno livro em prosa, Manuel Alegre relata-nos simultaneamente uma história de amor e o final do Estado Novo.
Numa escrita poética, o autor tece um paralelismo entre o amor de Xavier e Cláudia que oscila entre encontros e desencontros, entre felicidade e solidão, e entre a decadência do regime e a Liberdade.
“Viveu a euforia de Lisboa Libertada, as chaimites que se passeavam, o sorriso das pessoas, a corrente que passava entre todos, o sentimento de pertença a um país, um movimento, um sonho. (…) Estava alegre e estava triste, partícipe e ausente. (…) Havia uma ausência, faltava o resto da sua mais secreta e íntima liberdade.” (p. 115)

Num tom confessional, e numa mescla de prosa e poesia, o autor recorre a pequenos textos, fragmentos intimistas para nos mostrar o caminho do amor, da paixão, da liberdade, mas também da solidão, da perda, da morte.
“ (Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto.
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?
Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto.)” (p.51)

É portanto uma leitura cativante, na medida em que o pensamento (de Xavier) convoca os momentos, as memórias mais marcantes e importantes de uma vida.


“O Medo”, de Al Berto: deslocação, fragmentação e fluxo

 

                        Al Berto / Ilustração de Marta Nunes – CCA (@martanunesilustra)



Erotismo. Se perguntarem aos demais do mundo literário e académico, o poeta sineense Alberto Raposo Pidwell Tavares, mormente conhecido pelo seu nome golpeado de Al Berto, acaba sempre descrito como um boémio cuja linguagem desagua sempre no corpo e na sexualidade. Ora, acolher tais raciocínios é permitir a formação de um pressuposto mental que nos impactará aquando da leitura da sua obra. Em rigor, a sua escrita é um rasgo de modernidade.

Texto de Pedro Lopes Adão, 

8 setembro, 2021   in Comunidade Cultura e Arte

15 setembro, 2021

𝑩𝒓𝒊𝒕𝒕-𝑴𝒂𝒓𝒊𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒆𝒗𝒆 𝑨𝒒𝒖𝒊, de Fredrik Backman

 


Autor: Fredrik Backman
Título: Britt-Marie Esteve Aqui
N.º de páginas: 300
Editora: Porto Editora
Edição: Novembro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Devo confessar que no início estranhei a personagem, “chatarrona”, maníaca, inconveniente e “incompetente a nível social”, mas à medida que a história avança e que Britt-Marie se envolve no ambiente muito peculiar da localidade de Borg e se afeiçoa ao seu novo emprego e às personagens com quem lida diariamente, comecei também eu a modificar a minha opinião.

O “Primeiro estranha-se e depois entranha-se” aplica-se perfeitamente a este livro. Aos 63 anos, a vida de Britt-Marie sofre uma reviravolta estonteante e muito interessante. A dona de casa maníaca da limpeza, com comportamentos obsessivos vai transformar-se totalmente…. E o final é completamente inesperado, direi mesmo, fantástico!

O que torna este livro verdadeiramente fantástico e cativante é a forma como o autor nos narra a história baseando-se sempre nos pensamentos e nos comportamentos da protagonista. Carregado de humor, que por vezes atinge o absurdo, o nonsense, mostra-nos as dificuldades da vida, os obstáculos a vencer, a construção de valores, a transformação de caracteres, a descoberta de si próprio, …
A partir de situações divertidas porque caricaturais, o autor numa escrita simples, sentimental e muito cinematográfica transforma a história de vida de Britt-Marie numa crítica social muito pertinente.

Gostei. É um livro que nos faz sentir melhor. Que nos diverte.

12 setembro, 2021

𝑻𝒐𝒓𝒕𝒐 𝑨𝒓𝒂𝒅𝒐, de Itamar Vieira Junior

 


Autor: Itamar Vieira Junior
Título: Torto Arado
N.º de páginas: 279
Editora: Leya
Edição: Fevereiro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3208)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

A trama deste belíssimo romance situa-se no sertão baiano. Nele se evocam a discriminação racial, as relações de servidão, a luta pela terra, mas também crenças, feitiços e rituais. Numa narrativa a várias vozes, acompanhamos as vidas de Belonísia e Bibiana, duas irmãs fortemente ligadas devido a um incidente que ocorreu na infância.

São histórias de sofrimento, de constante luta, de violência às quais o leitor não fica de modo algum indiferente, mas a dureza da vida nas roças, o trabalho de sol a sol sem salário, as condições de habitação, a falta de alimentos, as situações de violência, a luta pela sobrevivência são narradas de forma sensível e subtil, mitigando assim a dureza e a crueldade presentes ao longo do enredo.
“Fui tomada por uma profunda tristeza ao ver aquelas duas vidas, desamparadas diante do que lhes haviam feito. Vi tanta crueldade ao longo do tempo, e mesmo calejada me comovo ao ver os homens derramando sangue para destruir sonhos. Vi senhores enforcarem seus escravos como castigo. Cortarem suas mãos no garimpo por roubarem um diamante. Acudi uma mulher que incendiou seu próprio corpo por não querer ser mais cativa de seu senhor. ( ….) “ (p. 220)
Como sabemos, ao longo dos tempos, e sobretudo durante a escravatura, a mulher foi (e ainda é, infelizmente) o elemento fraco, violentado, abusado e maltratado. Contudo neste romance, apesar de focar essas facetas, o autor com muita sensibilidade atribui às mulheres um papel importante, de destaque. A figura feminina é forte e lutadora, conhecedora da terra e esperançosa numa vida melhor para os seus filhos, crente na sabedoria dos mais velhos e na religião do seu povo, o Jaré.
“(…) Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força do seu corpo. A mulher que sentiu as dores do parto e deitou em silêncio, mordendo os lábios para parir mais um filho. (…) Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada. Gente que atravessou tudo suportando a crueldade que lhes foi imposta.” (p.278)

Romance perturbador, impactante que com pinceladas de algum realismo mágico nos remete para as grandes obras de Jorge Amado e mesmo de Gabriel Garcia Márquez.




06 setembro, 2021

𝑨 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒂𝒔 𝑭𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔, de Augusto Abelaira

 



Autor: Augusto Abelaira
Título: A Cidade das Flores
N.º de páginas: 246
Editora: Unibolso
Edição: 1959
Classificação: Romance
N.º de Registo: (34)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Romance publicado em 1959 (o primeiro do autor) situa-se na Itália (Florença) de Mussolini, anos 30. Ao focar-se no regime fascista italiano, o que o autor pretende é denunciar a situação portuguesa e, assim, “sugerir uma certa imagem de Portugal, o Portugal fascista dos anos 50”. Desta forma, colocando a acção noutro país, o autor logra a política de censura salazarista.
A narrativa dividida em duas partes, aborda o comportamento dos jovens perante o regime opressor no antes e durante a segunda guerra mundial.
É interessante constatar como funcionou muito bem a transposição da situação portuguesa para o meio político, social e cultural italiano. As preocupações, os desejos, os comportamentos retratados evidenciam claramente o que se passava em Portugal. (É estranho que a censura não tivesse percebido, ou foi-lhe útil ser hipócrita como o autor refere no posfácio?).

“É assim, como poderemos viver felizes sob este regime? Ele mata-nos o espírito e até nos faz descrer das nossas próprias qualidades: pois não é certo que somos incapazes dum gesto heróico e de acabar com ele duma vez para sempre? Não. Estamos roídos pelo medo, pela nossa própria cobardia.” (p. 234)
Atitudes, como a falta de empenho político, incapacidade de lutar, apatia perante o opressor, medo, ausência de fé, autocomiseração, descrença no futuro, conformismo, estão muito bem explanadas ao longo da narrativa e são representativas de uma juventude italiana, mas sobretudo portuguesa.
“ - Não crês no futuro. No fundo conformaste-te com o presente, embora ele te repugne. Desiste. Tornaste-te conformista.” (p. 178)

A Cidade das Flores continua a ser um romance intemporal e actual. De forma sublime e com alguma ironia, o autor descreve situações, constrói diálogos que ora corta ora intercala, que provocam no leitor imensas questões, imensas dúvidas sobre a existência humana, o relacionamento amoroso, a amizade, a (in)justiça, o pensamento crítico, o valor da arte na sociedade, a vida rotineira, a opressão e a guerra.

Recomendo! É importante manter viva a história de um país.


 



01 setembro, 2021

𝑶 𝑹𝒆𝒕𝒓𝒂𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑹𝒊𝒄𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒂, de Camilo Castelo Branco

 


Autor: Camilo Castelo Branco
Título: O Retrato de Ricardina
N.º de páginas: 176
Editora: Aletheia Editores
Edição: Julho 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3061)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Mais uma novela camiliana em que o amor é o tema central. Amor proibido, casamentos arranjados pelos pais, rivalidades familiares, crimes, guerra civil entre absolutistas e liberais. Todos os ingredientes que Camilo Castelo Branco tão bem sabe gerir com laivos de ironia e crítica pessoal.
Estamos em pleno século XIX, numa sociedade hipócrita onde a mulher é discriminada e os seus desejos rejeitados. É a mulher que fica sempre mal vista, repudiada pela família e pela sociedade.
Logo no prefácio, o leitor é informado que “o enredo da novela estava, efectivamente, sobrecarregado de «casos incríveis», com encontros, desencontros e reencontros miraculosos.” E assim acontece. Esta novela sentimental assenta na relação amorosa entre Ricardina Pimentel e Bernardo Moniz. Relação contrariada e conturbada.

O que me agradou sobretudo nesta narrativa é o carácter de Ricardina que apesar do seu aspecto frágil e angelical, como é descrita, foge à norma da mulher passiva e submissa, sem liberdades e sem opinião, própria da época. Ricardina enfrenta as decisões do pai e luta corajosamente pelo seu amor, pelos seus ideais enfrentando todas as adversidades que lhe vão surgindo ao longo de vinte e poucos anos. A sua atitude de resistência à vontade paterna e de imposição dos seus próprios valores, mesmo que para isso, inicialmente, tenha de ir para um convento, torna-se numa atitude emancipatória da mulher.

Para concluir, nesta novela o bem sobrepôs-se ao mal. O amor venceu o ódio e a vingança. A fidelidade e a resignação venceram a angústia e o sofrimento. “ A liberdade veste de asas a paixão e dá trela à ave daninha até onde ela se libra.” (p. 140)

Para mim, é das melhores novelas do autor.



28 agosto, 2021

𝒆𝒔𝒕á 𝒇𝒓𝒊𝒐 𝒍á 𝒇𝒐𝒓𝒂..., de António Panarra



Autor: António Panarra 
Título: Está frio lá fora...
N.º de páginas: 862
Editora: Guerra & Paz
Edição: Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3269)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Está frio lá fora… é o primeiro (grande) romance de António Panarra. É um romance intimista, narrado a várias vozes, que aborda essencialmente temáticas intemporais como o amor, a perda, a sexualidade, a amizade, a solidão, a espera, a morte. De memórias, de escrita...
“Ao silêncio seguiu-se o seu sorriso. Inequivocamente triste. Evocador – diria eu – de memórias, histórias, sofrimentos. Poucos segundos levaram os seus olhos a despedir o tom baço, quase de cegueira e a regressarem à vida, num refulgir que os fez de novo azuis, da cor do céu.” (p. 193)

Manuel, o protagonista, narra-nos o grande amor da sua vida. Num enredo intenso, longo, dissecado, vamos acompanhando a paixão avassaladora entre Manuel e Afonso. Uma paixão de encontros, ternura e prazer, mas também de ausências e esperas, de solidão, de tristeza. É uma paixão que permanece para além da morte. “Encontro-me noutro plano da minha própria existência. Algures no meu interior, onde afinal habitas e habitaste sempre (…)” (p. 633)
É uma paixão de incertezas, de procura do “eu”, de dúvidas existenciais, de questionamentos,… “E eu precisava saber de mim. Saber quem sou, sem dúvida, mas essa era uma aventura que eu queria viver e só no fim, porventura, teria respostas. No confuso mapa de questões em que neste momento me movimento, preciso de saber pra onde ir, preciso de saber para onde posso ir sem que os meus passos sejam falsos logo à partida.” (p. 308)

Mas para além da história de Manuel e Afonso, há outras, muitas outras como a de AH, de Llena, de Idalina, de Simone, de Tomás, de Sancha,… histórias de vida complexas, todas marcadas pela dor de uma perda. Histórias narradas, de forma sublime, em longas conversas, por vezes, monólogos de quem rememora o passado, de quem revê memórias, em jeito de catarse.
“(…) A sua solidão! Profunda. Profundíssima. E não falo de ser ou não amada, de amar ou não. Falo de uma forma muito mais fundamental de solidão. Aquela em que um indivíduo está exclusivamente perante a sua consciência, perante o seu passado, perante as suas perdas e a sua própria fragilidade.” (p.393)

É um livro magnífico, perturbador, marcado pelo amor e pela liberdade de escolhas. É um livro que recomendo, que deve ser saboreado, tal como refere o protagonista quando, na página 129, fala das suas leituras:
“ Leio devagar (…) ler deixou de ser uma diversão ou uma forma de ocupar o tempo. Ler passou a ter valor. Ler passou a ser importante. (…) Aprendi então que um livro vale pela história que conta, e também que uma história contada vale pelas palavras escolhidas para conta-la. (…) Descobri-me sensível ao belo das palavras e ao que contêm de transcendência. Seja a arte das palavras harmónica ou dissonante, ou mesmo violenta e brutal, sobressai delas – se sabiamente escolhidas – o poder de acordar em quem as lê a intuição da dor, do sofrimento, do amor ou da alegria, da felicidade ou da mais profunda tristeza.”

É mesmo isto. Este livro vale pela história que conta e também pelas palavras sabiamente escolhidas.

15 agosto, 2021

𝑨𝒒𝒖𝒊 é 𝒖𝒎 𝒃𝒐𝒎 𝒍𝒖𝒈𝒂𝒓, de Ana Pessoa e Joana Estrela


Autor: Ana Pessoa
Ilustração: Joana Estrela
Título: Aqui é um bom lugar
N.º de páginas: 244
Editora: Planeta Tangerina
Edição: Março 2019
Classificação: Diário gráfico
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Aqui é um bom lugar é um diário gráfico muito original. Escrito por Ana Pessoa e ilustrado por Joana Estrela tem como protagonista uma jovem de 17 anos, a terminar o ensino secundário.
De leitura rápida e fácil revela textos curtos, pensamentos, emoções, memórias, banalidades, frases que ouve na rua, situações da escola, de leituras que inicia, que acaba …. De vez em quando lança uma pergunta, (O que é a loucura? O pensamento?...) dá a resposta, faz jogos de palavras, cita provérbios, expressões idiomáticas, revela a sua paixoneta pelo professor de Educação Física, etc, etc…. e tudo isto muito bem ilustrado com desenhos, recortes, fotos. A própria escrita (tamanho, estilo,…) diverge e torna-se por si só uma ilustração. Tudo escrito e ilustrado a azul e preto sobre caderno branco.

“A cachopa foi à biblioteca. Escolheu um livro que se chama “O AMANTE”. A cachopa lê sobre o amante porque não tem um amante. Bruxo.” (a ilustração representa a capa do livro onde consta o desenho de um pássaro, o título e a autora - Marguerite Duras)

Na página seguinte continua: “ A protagonista do livro tem 15 anos e já tem um amante. A leitora tem 17 anos e nunca teve um amante na vida.
PROTAGONISTA – 1 Leitora – 0”

Parece muito simples, não é? É, mas o simples é belo porque há sinceridade, sensibilidade e, por vezes, uma ponta de ironia. E espelha bem a maneira de agir e de pensar de uma adolescente. Vou tentar disseminar esta ideia, criar um diário gráfico, junto dos mais jovens.


13 agosto, 2021

𝑳𝒆𝒗𝒂𝒏𝒕𝒂𝒅𝒐 𝒅𝒐 𝑪𝒉ã𝒐, de José Saramago

 



Autor: José Saramago
Título: Levantado do Chão
N.º de páginas: 366
Editora: Caminho
Edição 14ª: Fevereiro 1999
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1039)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em A estátua e a pedra - o autor explica-se, texto que José Saramago apresentou numa conferência em Turim e que foi mais tarde publicado em livro, é-nos dito pelo próprio que Levantado do Chão (1980) é o primeiro livro do ciclo da estátua tendo o segundo ciclo, o da pedra, iniciado com  Ensaio sobre a Cegueira (p. 45).
Para que possamos entender esta metáfora, transcrevo a explicação do próprio autor: “(…) começou outro período da minha vida de escritor, no qual desenvolvi novos trabalhos com novos horizontes literários, dispondo portanto de elementos de juízo suficientes para afirmar com plena convicção que houve uma mudança importante no meu ofício de escrever. Não falo de qualidade, falo de perspectiva. É como se desde o Manual de Pintura e Caligrafia até a O Evangelho segundo Jesus Cristo, durante catorze anos, me tivesse dedicado a descrever uma estátua. O que é a estátua? A estátua é a superfície da pedra, o resultado de tirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura é descrever o exterior da pedra, e essa descrição, metaforicamente, é o que encontramos nos romances a que me referi até agora. (…) Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com o Ensaio sobre a Cegueira.” (pp. 33 e 34)

Partindo desta explicação, entende-se melhor a importância da obra Levantado do Chão, já com o estilo que se tornará muito próprio de Saramago. A história situa-se no Alentejo, descreve a vida de três gerações da família Mau-Tempo, desde os finais dos século dezanove até à Revolução de Abril de 1974 e relata a vida duríssima do campo, a miséria do povo, o poder dos latifundiários, da guarda republicana, a hipocrisia da igreja e as lutas camponesas para conseguir trabalho, redução de horário e um pagamento mais justo, a perseguição aos comunistas e a violência praticada quer nos postos da guarda quer nas prisões.
É um livro brilhante. Saramago de forma muito crítica retrata uma época política difícil, mas é nas pessoas, no seu quotidiano, nas suas lutas, nas suas dificuldades que ele centra toda a acção. E ao acompanharmos a família Mau-Tempo, vamos percebendo a evolução política e social do país, vamos entendendo a luta duríssima dos camponeses pelos seus direitos por uma vida mais digna e justa.

Saramago apresenta-nos uma escrita crítica, sensível, poética e perturbadora. Por exemplo, quando descreve um dos momentos mais cruéis, de tortura, recorre à metáfora do carreiro de formigas que surpreende, perturba e, simultaneamente, encanta o leitor.



03 agosto, 2021

𝑶 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝒅𝒐 𝑫𝒆𝒔𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐, de Ondjaki

 


Autor: Ondjaki
Título: O Livro do Deslembramento
N.º de páginas: 229
Editora: Caminho
Edição: Julho 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3236)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Ondjaki é um contador de estórias cativante. Gosto de o ouvir falar. Gosto de o ler. Gosto de o ler em voz alta para melhor captar a harmonia e a poesia das suas palavras.
Neste último romance auto ficcional, ele dá voz a uma criança angolana, que vive em Luanda. Numa Luanda ainda assolada pela guerra, onde ainda impera o medo “a cidade andava cheia de silêncios” (p.228). Porém, a narrativa centra-se em grande parte numa época de paz e só no final assistimos ao reacender da guerra civil.

É então pelas lembranças e pelo olhar de Ndalu (Ndalinho) que vamos conhecendo as suas estórias e a dos camaradas adultos (família, amigos e vizinhos). São páginas de puro encanto, de sensibilidade e boa disposição. Nem tudo é verdade, mas parece que é de tão bom o registo que enleva o leitor. Mas isso não tem importância e o leitor foi informado, logo na página 16, que “em Luanda, cadavez uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória”

E as estórias verdadeiras ou inventadas são maravilhosas, e como "às vezes aqui quando te dizem uma coisa, é mais fácil só acreditar, duvidar dá muito trabalho e ainda traz discussões que não levam a lado nenhum” (p. 56), então deixemo-nos embalar pelas lembranças e pensamentos de Ndalinho e pelas palavras poéticas de Ondjaki.
“ gosto dessa hora de muito cedo, parece que a cabeça também fica mais limpa, com bom espaço para pensamentos
as coisas que chegam dos sonhos, os restos da noite, misturam-se com todas essas coisas frescas que penso de manhã, penso sozinho: penso de lembrar, penso de imaginar e penso ainda de misturar com todos os barulhos e as coisas que tenho de imaginar que estão a acontecer nas outras casas, nos outros quintais, depois, se a pessoa deixar os olhos fecharem, quase que recomeça a sonhar…” (p. 104)

e ainda

“ eu a olhar o olhar da tia Tó toda orgulhosa, como ela dizia, da minha língua portuguesa, ás vezes ela perguntava-me onde é que eu ia buscar tantas ideias, se eram de verdade ou inventadas, eu tinha de lhe explicar outra e outra vez que em Angola não era preciso inventar nada, ou a cidade te dava as estórias, ou a rua, ou a escola ou então havia sempre uma caixa cheia de estórias em cada família” (p.226)

É verdade, Ondjaki tem uma enorme caixa cheia de belas estórias que tão bem sabe partilhar com os seus leitores.
Recomendo muito este livro, ou qualquer um do autor. Este foi publicado em 2020 para assinalar os 20 anos de carreira literária.



01 agosto, 2021

𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓𝒆𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒍ê𝒆𝒎 𝒔ã𝒐 𝒑𝒆𝒓𝒊𝒈𝒐𝒔𝒂𝒔, de Stefan Bollmann

 


Autor: Stefan Bollmann
Título: Mulheres que lêem são perigosas
N.º de páginas: 150
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Abril 2007
Classificação: Arte
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Quando descobri este livro na biblioteca da minha escola, decidi imediatamente que teria de o ler. Quem gosta de livros e de ler não fica indiferente ao título.

É sobretudo um livro de arte, belíssimo, que revela várias obras de pintura, fotografia e desenho. Todas reproduzem mulheres a ler. Todas são acompanhadas de uma breve explicação sobre o artista, a época e sobre a mulher que lê.
Elke Heidnreich refere isso mesmo no seu prefácio: “ Nas imagens deste livro faltam os homens. Trata-se apenas de mulheres que lêem. São mulheres mais velhas e mulheres mais jovens, estão sentadas ou deitadas, vestidas ou desnudas, vemos os seus braços, o seu cabelo, a cabeça inclinada, só raramente vemos os seus olhos, só quando acabaram de ler ou olham em frente depois de interromper a leitura por alguns momentos.” (p.17)

Elke Heidnreich faz uma contextualização apaixonada da leitura, da relação da mulher com a leitura, numa intertextualidade com a arte e a literatura.

Stefan Bollmann, introduz este livro com uma breve história da leitura desde o século XIII ao XXI.
“ A leitura dá-nos prazer e consegue transportar-nos para outros mundos – ninguém que já perdeu a noção do tempo e do lugar quando estava embrenhado num livro irá refutá-lo. Mas a ideia de que a leitura deve dar-nos prazer, de que esse é o seu principal objectivo, é relativamente nova: foi mais ou menos definida no século XVII e ganhou raízes mais fortes no século XVIII.” (p. 23)
No final da introdução, o autor explica o porquê da apresentação das imagens de artistas famosos. “A galeria de imagens de mulheres a ler que se segue funciona como um museu virtual. Folheando o livro para trás e para diante, o leitor pode deambular nele, captar olhares e fazer associações. Os comentários curtos destinam-se a apoiar este circuito: Até as imagens de leitura precisam de ser lidas.” (p. 37)

Em seis capítulos, como se visitássemos salas de um museu, dedicados às leitoras abençoadas, fascinadas, autoconfiantes, sentimentais, apaixonadas e solitárias, encontramos sempre imagens fortes de mulheres leitoras, livres, confiantes, curiosas, sonhadoras, enigmáticas, apaixonadas, …

Foi um verdadeiro prazer ler este livro, esta obra de arte. Não podemos olvidar que, no início a leitura era apenas uma actividade de homens, já foi muito reprimida, já foi considerada como uma heresia, já foi causadora de distúrbios familiares, políticos, …

Sendo assim, só posso concordar com Elke Heidnreich quando ela refere: “Da leitura resulta a autoconfiança, da autoconfiança resulta a coragem de ter ideias próprias.” (p.17)

Leiam e sejam perigosas!