Autor: Joseph Andras
Título: Assim Lhes Fazemos a Guerra
Tradutor: Luís Leitão
N.º de páginas: 108
Editora: Antígona
Edição: Abril 2022
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3772)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Joseph Andras é um caso singular na literatura contemporânea. Segundo a breve pesquisa que registei, recusa prémios (Prix Goncourt 2016 e Prix Maya 2022), recusa fotografias, recusa a maquinaria da consagração. Escreve na sombra, com pseudónimo, quase clandestino, e talvez por isso a sua voz seja tão livre. Pouco conhecido do grande público, tornou‑se, no entanto, uma das consciências éticas mais intensas da literatura francesa.
Andras funde rigor documental e sensibilidade pelo que a sua escrita é de uma precisão admirável e de uma prosa poética, feita de frases tensas e contidas, que afasta o sentimentalismo e o espectáculo da dor. Há nela uma ética do olhar, firme, lúcida, sem adornos e uma economia verbal que questiona o conceito de progresso científico, da exploração animal e das minorias e que aproxima o leitor dos factos com uma lucidez quase física.
Em Assim Lhes Fazemos a Guerra, Andras constrói um tríptico a partir de três acontecimentos reais, separados por mais de um século e por três geografias distintas (Londres, Califórnia, Charleville). Cada painel acompanha um animal colocado no centro de práticas humanas que raramente são questionadas, mas que aqui surgem expostas na sua dimensão ética. Sem revelar o que sucede em cada caso, basta dizer que o autor convoca episódios documentados que atravessam laboratórios, instituições e sistemas de produção, e que os inscreve na história dos movimentos de libertação animal, que há mais de um século denunciam esta violência normalizada.
E há um detalhe que retive no terceiro painel. Andras convoca Rimbaud, porque a acção decorre em Charleville, a cidade natal do poeta, e evoca a forma como ele morreu, como se essa memória iluminasse o que está em jogo no episódio.
A metáfora é de Andras, mas ressoou em mim, porque também Rimbaud sentiu a urgência da fuga, a recusa do destino imposto. Há nessa coincidência uma pequena rebelião poética, um lampejo de liberdade no meio da violência banalizada.

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