Autor: João Céu e Silva
Título: Uma longa viagem com José Saramago
N.º de páginas: 416
Editora: Porto Editora
Edição: Março 2009
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (2529)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Em Uma Longa Viagem com José Saramago, João Céu e Silva oferece-nos uma biografia que foge completamente à fórmula tradicional deste género. O grande mérito da obra reside na sua estrutura imersiva, que cruza a pluralidade de vozes daqueles que privaram com o Prémio Nobel português, num registo directo de dezenas de horas de entrevistas gravadas.
Lemos os testemunhos de familiares, amigos, editores e pessoas que marcaram o percurso do escritor, e entramos na intimidade das suas reflexões.
Mas há um detalhe que torna esta leitura incrivelmente comovente e que, para mim, é o verdadeiro coração do livro. Muitas das horas de entrevista foram gravadas numa altura em que Saramago se encontrava muito debilitado pela doença. É Impressionante ver como a fragilidade do corpo contrasta com a lucidez absoluta do seu pensamento. Havia ali uma urgência em partilhar e em manter aquele compromisso com o jornalista, numa demonstração de generosidade e força de vontade admiráveis. O seu discurso manteve-se irónico, provocador, humanista e com aquela clareza cortante que sempre o caracterizou.
O livro acaba por ser uma viagem guiada pelos bastidores da sua própria criação literária, onde o autor nos explica a génese de várias obras. Viajámos ao passado para conhecer a sua terra natal e os seus avós; as dificuldades da sua juventude e o seu percurso como trabalhador (vários ofícios) e escritor; mas também para perceber como as gentes de Lavre moldaram o seu estilo em Levantado do Chão, e revisitámos, ainda, momentos fracturantes da sua vida. Um destes pontos é a referência à polémica em torno de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, quando o Secretário de Estado da Cultura vetou o livro para um prémio europeu. Ouvir Saramago falar sobre essa afronta ajuda-nos a compreender a mágoa que o levou a mudar-se em definitivo para Lanzarote.
O mais fascinante, contudo, é vê-lo a olhar para a frente. Na altura das entrevistas, o escritor lutava contra o tempo para terminar A Viagem do Elefante. Perceber que aquela escrita tão viva, bem-humorada e irónica sobre as peripécias do elefante Salomão nasceu num período de tanto sofrimento físico dá uma dimensão quase heroica à obra.
No fundo, João Céu e Silva oferece-nos uma obra imperdível. Mais do que compreender o processo de escrita que deu origem a obras-primas como Levantado do Chão, Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, A Jangada de Pedra, entre muitas outras, mostra-nos que o escritor não se deixou silenciar e que a sua literatura foi a sua maior forma de resistência.
Um livro importante para quem quer conhecer o homem por trás do Nobel.

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