09 julho, 2026

𝑷𝒂𝒓𝒕𝒊𝒅𝒂, de Julian Barnes

 

Autor: Julian Barnes
Título: Partida
Tradutor: Salvato Teles de Menezes
N.º de páginas: 185
Editora: Quetzal Editores
Edição: Janeiro 2026
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3778)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Partida, de Julian Barnes, surge como o seu testamento criativo definitivo, uma obra-prima onde o autor se despe de artifícios para estabelecer uma conversa com o leitor. Barnes escreve como se estivesse sentado ao nosso lado, numa esplanada de café, com um humor refinado e a consciência tranquila de quem sabe que esta é a sua última oportunidade de dialogar antes do silêncio definitivo.

O fio narrativo que sustenta esta reflexão é a história de Stephen e Jean, dois amigos de faculdade que namoraram na juventude e que foram apresentados pelo próprio narrador. Quarenta anos depois, após caminhos totalmente separados, os dois reencontram-se, de novo, com a cumplicidade do narrador, para tentar o que chamam de “a última possibilidade de ser feliz”. O contraste entre o amor idealizado da juventude e o afecto pragmático e adaptado à velhice serve de cenário perfeito para Barnes analisar o impacto avassalador do tempo nos afectos e nas relações.

É precisamente através deste reencontro que ganha uma importância fulcral a Memória Autobiográfica Involuntária (MAI). Enquanto a memória voluntária falha, esquece ou edita o passado, a MAI surge como uma força incontrolável. Através de gatilhos  inesperados como um vislumbre, um odor, um gesto, uma palavra… o passado assalta as personagens com uma verdade emocional e involuntária. Para Barnes, este mecanismo prova que os nossos "pequenos eus" da juventude continuam intactos e vivos dentro de nós, ligando o passado ao presente à revelia da nossa própria vontade, mesmo quando o corpo físico começa a falhar.

Essa falha do corpo é, aliás, o outro grande pilar do livro. Diagnosticado com um cancro no sangue, que espelha a própria realidade de Barnes, o narrador encara a doença que o acompanhará até ao fim com uma neutralidade desarmante. A velhice e a degradação física são tratadas como meros factos da biologia humana. Ele aborda a própria mortalidade através do filtro da ironia (muito britânica), como uma comédia ligeira que caminha inevitavelmente para um desfecho melancólico.

Pensei concluir, articulando esta despedida com O Sentido do Fim, uma vez que ambas as obras partilham a mesma estrutura de olhar para trás, após um hiato de quatro décadas. Escrito também na primeira pessoa, e com recurso a uma analepse de mais de 40 anos, a narrativa de O Sentido do Fim prende e inquieta o leitor desde o início. Nele, a escrita sensível e profunda patenteia o estado de espírito do protagonista, Tony Webster, impondo-se a um leitor que a lê avidamente, numa ânsia pela descoberta do final para libertar a personagem da agitação e da dúvida que a consomem. É aí que Barnes nos dá uma lição brutal sobre a importância do tempo que tece falhas na memória à medida que o homem envelhece, desenvolvendo o tema da morte focado nas circunstâncias e no que ficou na lembrança do protagonista, levando-nos a concluir que a “vida não é só adição e subtração. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso e remorso”.

Em Partida, Barnes dá o passo definitivo que pacifica essa inquietação. Se no livro anterior o leitor e Tony Webster ficavam sufocados pelo peso dessa acumulação de falhas, de perdas e remorsos, neste, o autor desiste do controlo racional e entrega a verdade à imprevisibilidade da MAI. Diante do diagnóstico, já não há a agitação ou a dúvida que consumiam o protagonista de O Sentido do Fim; há um despojamento pacífico. Julian Barnes já não procura decifrar ou julgar os erros do tempo; ele aceitou a finitude. Sendo este o último livro escrito pelo autor (assim, o afirma), a sua jornada criativa encerra-se aqui de forma intencional e lúcida. Contudo, para mim, enquanto leitora, Partida não será o ponto final absoluto. Se para ele este é o livro do adeus, para quem o lê a sua voz permanece viva, até porque ainda me restam descobrir e ler outras obras do seu passado. Enquanto a vida tem um final certo para o homem de carne e osso, a literatura garante que, para os seus leitores, os escritores, e neste caso, Julian Barnes, nunca deixarão de escrever.

 

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