17 maio, 2026

𝑨𝒔 𝑰𝒍𝒉𝒂𝒔 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔 - 𝑵𝒐𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝒑𝒂𝒊𝒔𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Raul Brandão

 


Autor: Raul Brandão
Título: As Ilhas Desconhecidas 
N.º de páginas: 204
Editora: Quetzal
Edição: Março 2011
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (3467)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, de Raul Brandão, é um livro de viagens que se lê como se percorresse uma galeria de quadros vivos. O autor não descreve apenas as ilhas, pinta-as, atribui-lhes um encanto particular e muito próprio. Cada página é uma tela onde a luz, o vento, o mar e as pessoas surgem em pinceladas largas, ora luminosas, ora sombrias, mas sempre intensas.
“Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com o sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima.” (p. 146)

Como acabei de referir, Brandão encontra nos Açores uma beleza agreste, feita de contrastes. As ilhas que visita revelam-lhe a alma do arquipélago e oferecem-lhe uma paleta inesperada, o dourado dos campos, o roxo profundo das hidrângeas/hortênsias, os verdes múltiplos das encostas, o alaranjado do sol, o negro do pico, o branco e cinzento das nuvens e o azul imenso do mar. Ele próprio se deslumbra com as “manchas roxas” das hidrângeas que bordam as estradas, e escreve, com gratidão poética, que o homem que teve essa ideia merecia uma estátua.
Mas para além da beleza, Brandão vê a dureza da vida. No Corvo, sobretudo, encontra uma comunidade pequena e resistente, moldada pelo isolamento, pelo clima severo e pela força do mar. A vida ali é um combate diário, mas também um exemplo de união. Todos se conhecem, todos se ajudam, todos dependem uns dos outros, todos são parentes. É uma humanidade sólida e silenciosa, que o impressiona tanto quanto a paisagem.

A essa dureza junta-se a pesca da baleia, uma das tarefas mais árduas e perigosas que ele testemunha. Brandão descreve os botes frágeis lançados ao mar, a coragem dos homens que enfrentam o animal colossal, o trabalho exaustivo que se segue para extrair o óleo e o cheiro intenso que impregna roupas, mãos, ar, chão. A peca à baleia surge como uma epopeia quotidiana feita de risco numa relação íntima com o mar.

O Pico, visto à distância, torna-se quase personagem. De São Jorge ou do Faial, a montanha surge como uma aparição que muda de forma conforme a luz e o nevoeiro.
“ISTO QUE DE LONGE era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno.” (p. 93)

E depois há a Madeira, que completa o arco da viagem. Após a rudeza atlântica dos Açores, surge como um jardim suspenso, mais luminoso e “muito inglês”, demasiado inglês para o autor. Aqui, a natureza parece dialogar com o homem de forma mais suave. A cor também é outra, mais tropical, mas o olhar crítico de Brandão mantém-se atento, impressionista, capaz de transformar cada detalhe em pintura.

A escrita de Raul Brandão é de uma enorme sensibilidade. Não se limita ao olhar, oferece o sabor do leite, do vinho, das frutas; convoca o cheiro da terra, o aroma dos ananases, o perfume do chá nas encostas, e até a doçura das bananas madeirenses. Cada frase abre uma porta para dentro da paisagem, como se o leitor respirasse o mesmo ar que ele. É uma prosa que vê, que cheira, que toca e que, por isso mesmo, pede ritmos próprios, pausas, desvios (pesquisa de imagens), reflexões e até sorrisos. Alguns desses ritmos pertencem, apenas, à beleza da frase. Os travessões, por exemplo, o autor usa‑os com naturalidade e insistentemente. Para os espíritos apressados que hoje vêem travessões e logo suspeitam de máquinas, vale a pena lembrar que Raul Brandão — esse pintor de palavras — usava e abusava deles muito antes de existir qualquer IA. O estilo não é um algoritmo, é uma voz. E a dele continua viva, luminosa e cheia de travessões.

No conjunto, As Ilhas Desconhecidas é um livro que revela lugares e modos de estar no mundo. A força das paisagens, a dignidade das gentes, a vibração das cores, a dureza da baleação, a instabilidade do tempo e a escrita que parece pintura fazem desta obra uma das mais belas viagens literárias da nossa literatura.



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