09 abril, 2026

𝑶 𝑷𝒐𝒅𝒆𝒓 𝒅𝒂 𝑳𝒊𝒕𝒆𝒓𝒂𝒕𝒖𝒓𝒂, de Maria do Carmo Vieira

 


Autora: Maria do Carmo Vieira
Título: O Poder da Literatura
N.º de páginas: 125
Editora: FFMS
Edição: Abril 2025
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3694)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




O Poder da Literatura revela, desde as primeiras páginas, a força que a leitura pode ter quando encontra leitores dispostos a agir. Um dos aspectos mais fascinantes do livro é o relato do trabalho desenvolvido em torno do Café Martinho da Arcada.
A partir da leitura de Fernando Pessoa, um grupo de alunos da Escola Secundária Marquês de Pombal, nos anos 80, descobre naquele café não apenas um cenário biográfico, mas um lugar de memória a exigir cuidado. O livro acompanha o modo como esses jovens, inicialmente distantes da poesia, se envolvem numa verdadeira cruzada cívica: organizam um abaixo-assinado, criam a APAMA – Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, promovem um concurso internacional de arquitectura e mobilizam esforços para impedir a descaracterização do espaço.
Este percurso mostra como a literatura pode sair do livro, atravessar a sala de aula e inscrever-se na cidade, convertendo um gesto de leitura numa forma de cuidado cívico.

O Martinho da Arcada surge, assim, não apenas como cenário pessoano, mas como um lugar onde memória, identidade e pertença se entrelaçam. Ao acompanhar o empenho dos alunos na defesa daquele espaço, Maria do Carmo Vieira mostra como a literatura pode despertar um sentido de responsabilidade cultural que vai muito além do cumprimento do programa. A mobilização que estes jovens conseguiram é, aliás, notável: figuras da política, do meio artístico, do universo educativo e muitas pessoas anónimas juntaram-se à causa, reconhecendo no café um símbolo que merecia ser preservado. O Martinho torna-se, deste modo, um território simbólico, um ponto de encontro entre passado e presente, entre a voz de Pessoa e a voz dos jovens que o redescobrem. E a intervenção dos alunos revela que a leitura, quando verdadeiramente vivida, é capaz de gerar cuidado, mobilização e continuidade.

No centro de O Poder da Literatura está também a figura de Maria do Carmo Vieira, uma professora cuja presença pedagógica ultrapassa largamente o espaço da sala de aula. O livro revela uma docente que alia conhecimento profundo, entusiasmo contagiante e uma empatia firme, capaz de transformar alunos que, à partida, não gostavam de Português, de poesia ou de Fernando Pessoa. A sua prática pedagógica assenta na convicção de que a literatura pode despertar, orientar e mobilizar. E é essa confiança no poder formativo dos textos que permite que os alunos se aproximem da leitura não como obrigação escolar, mas como descoberta pessoal e caminho de pertença.
A força do seu ensino reside numa combinação rara de rigor e afecto. Maria do Carmo Vieira não simplifica os textos para os tornar “acessíveis”; convida os alunos a subir até eles, confiando na sua capacidade de sentir e pensar. Essa exigência, temperada por uma atenção genuína às fragilidades e potencialidades de cada um, cria um ambiente onde a leitura deixa de ser um exercício escolar e ganha espessura interior. A professora não impõe entusiasmo: contagia-o. E é nesse gesto, simultaneamente intelectual e humano, que se percebe como conseguiu transformar alunos inicialmente distantes da literatura em leitores atentos, curiosos e capazes de reconhecer na palavra poética uma forma de se aproximarem do mundo.

Há, contudo, no livro, uma afirmação que merece ser interrogada: a ideia de que “todo o professor de Português gosta de ler”. Maria do Carmo Vieira formula-a a partir da sua própria ética profissional, onde a leitura é um gesto vital e quotidiano. Mas a minha leitura levou-me a suspender essa generalização. A experiência escolar mostra que nem todos os docentes cultivam uma relação viva com os livros, e que o gosto pela leitura não é um atributo automático da profissão, mas uma prática que exige dedicação, curiosidade e disponibilidade interior. É precisamente por isso que o exemplo da autora se destaca. porque. O ponto de interrogação que deixei nas margens do livro não diminui a força da sua afirmação; antes sublinha a singularidade da sua presença pedagógica.

O Poder da Literatura é, no fundo, a demonstração concreta de que a leitura pode transformar pessoas e lugares quando encontra mediadores verdadeiros. A luta pelo Martinho da Arcada, a mobilização inesperada de alunos e de toda uma comunidade, e a presença luminosa de Maria do Carmo Vieira revelam como a literatura, quando ensinada com autenticidade, ultrapassa o espaço escolar e inscreve-se na vida. Ao apresentar a ideia de que todos os professores de Português gostam de ler, o livro convida também a pensar sobre o que significa ensinar literatura hoje. Não basta transmitir conteúdos e “formatar” para os exames, é necessário criar condições para que a palavra literária se torne experiência, descoberta e responsabilidade.
A força deste livro reside em mostrar que a literatura continua a ser um lugar onde o mundo se pode reencontrar. E que mundo maravilhoso!


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