Autora: Han Kang
Título: Lições de Grego
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 193
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Outubro 2024
Classificação: romance
N.º de Registo: (3647)
Na constelação literária de Han Kang — onde o corpo, o silêncio e a ferida são matéria de escrita — Lições de Grego surge como um romance de aproximação lenta, feito de gestos mínimos e de uma escuta atenta. Em diálogo com o universo de A Vegetariana, este romance volta a explorar o corpo que falha e a linguagem que se fragmenta, mas fá-lo com uma luz mais ténue, mais humana.
A protagonista vive num mutismo, consequência de traumas recentes: a morte da mãe e a perda da custódia do filho. A voz não lhe responde — não como função física, mas como gesto emocional. O silêncio torna-se o único território onde ainda consegue respirar. É um silêncio denso, activo, que organiza o luto e protege o que resta dela.
O professor de Grego enfrenta a perda progressiva da visão. O mundo estreita-se, desfoca-se, ameaça desaparecer. A cegueira iminente não é apenas diagnóstico, é metáfora da fragilidade, da dependência crescente, da necessidade de reaprender a ver para além do visível.
Ambos carregam fragilidades que não os definem, mas que moldam a forma como se aproximam do outro.
Ela conhece o professor nas aulas. Entra muda e permanece muda. E, no entanto, a sua presença é tudo menos passiva. O silêncio dela tem peso e ambivalência, como uma presença que se move sem fazer ruído. Obriga-o a abrandar, a ajustar o ritmo, a ensinar de outra maneira. Ele, que vê cada vez menos, aprende a perceber gestos, pausas, respirações. Ela, que não consegue falar, encontra outras formas de comunicar.
A relação nasce dessa interdependência discreta. Uma relação que não resolve, mas que ilumina. Uma relação que transforma o silêncio em gesto e a fragilidade em possibilidade.
Se A Vegetariana explora a recusa do corpo — o corpo que se nega, que se retira do mundo — Lições de Grego trabalha o corpo que falha, mas que continua a procurar ligação. Nos dois livros, Han Kang escreve a violência interior com uma delicadeza quase orgânica. Em ambos, o silêncio é linguagem. E em ambos, o corpo é metáfora e campo de batalha.
Aqui, ao contrário da radicalidade de A Vegetariana, há uma ternura subterrânea, uma aproximação lenta, quase respiratória. O que une estes dois romances é a capacidade de Han Kang de transformar o que é frágil em matéria luminosa.
A estrutura do romance acompanha essa respiração. Alterna momentos de introspecção com cenas de grande quietude, onde o gesto substitui a palavra e o silêncio ocupa o espaço narrativo. Não há pressa em avançar a acção; o que importa é o movimento interior, a forma como cada personagem se recria. A narrativa progride como quem tacteia no escuro — devagar, mas com intensidade crescente. A estrutura fragmentada espelha essa incompletude, essa tentativa de reconstruir sentido a partir do que se perdeu.
Há ainda uma musicalidade subtil: repetições, pausas, motivos que regressam como ecos. É uma escrita que pede atenção e convida o leitor a entrar no mesmo compasso das personagens — um compasso feito de silêncio e hesitação. Depurada, precisa, quase respiratória, a prosa de Han Kang assenta em frases curtas, ritmo contido e imagens sensoriais que traduzem o que as personagens não conseguem dizer.
Lições de Grego é um romance sobre duas solidões que se reconhecem. Sobre corpos que falham e, ainda assim, procuram sentido. Han Kang transforma fragilidade em forma literária, num livro que se lê devagar, como quem aprende uma língua nova — uma língua feita de silêncio, de cuidado e de uma luz que se insinua mesmo nos momentos mais sombrios.

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