18 fevereiro, 2026

𝑫𝒆𝒅𝒊𝒄𝒐-𝒍𝒉𝒆 𝒐 𝑴𝒆𝒖 𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐, de Mario Vargas Llosa

 

Autor: Mario Vargas Llosa
Título: Dedico-lhe o Meu Silêncio
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 252
Editora: Quetzal
Edição: Julho 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3656)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 



Dedico‑lhe o Meu Silêncio é um romance breve e surpreendentemente luminoso, onde Mario Vargas Llosa regressa ao Peru pela via mais íntima, a da música crioula.
A narrativa organiza‑se em alternância: um capítulo acompanha Toño Azpilcueta e a sua obsessão sobre a valsa peruana e o desejo de escrever o livro sobre a vida fugaz de Lalo Molfino, o génio da guitarra; o capítulo seguinte abre‑se para a história cultural do Peru, explorando a música popular como veículo da identidade do país. Este movimento contínuo entre o percurso individual e a memória colectiva dá ao romance uma pulsação própria e profundamente envolvente. Entre essas duas linhas narrativas, a figura de Lalo Molfino destaca‑se como o coração musical do romance. É através dele que o livro encontra a sua vibração mais funda: “Não, não era simplesmente a destreza com que os dedos do chiclayano arrancavam notas que pareciam novas. Era algo mais. Era sabedoria, concentração, mestria extrema, milagre.” (p. 29)

A música crioula surge como território afectivo e como espelho do Peru: mestiça, popular, contraditória, capaz de atravessar classes sociais e de abalar preconceitos. Toño acredita, com uma fé quase utópica, que a valsa peruana tem a força de unir o país, de reconciliar diferenças, de recordar a todos uma origem comum. Essa crença, ingénua e grandiosa, dá ao romance uma vibração emocional rara, como se Llosa escrevesse para salvar uma música que, sendo do povo, “inspira a sociabilidade”.

Um outro elemento forte do romance é a metáfora das ratazanas, que atormentam Toño sempre que algo lhe corre mal. Para ele, esses animais representam “a corrupção, a doença e a debilidade” que ameaçam o espírito colectivo da música crioula. São a sombra do país e a sombra do próprio protagonista: forças que corroem, que dividem, que minam a utopia de união que a valsa crioula promete. Sempre que falha, Toño “sente” as ratazanas a treparem‑lhe pelo corpo, como se o seu medo tivesse forma e movimento. Esta imagem, tão física e tão perturbadora, contrasta com a leveza da música e reforça a tensão entre o sonho e a ruína que atravessa o romance.

É aqui que Lalo Molfino se torna essencial. Ele encarna o génio popular e, simultaneamente, a ruína; o músico que não precisa de teoria nem de tratados para compreender a alma da valsa peruana, não sabe conviver com os pares. A sua guitarra é memória, improviso, dor e festa. Através dele, Llosa mostra que a música crioula não é apenas um género, mas uma forma de estar no mundo, uma respiração colectiva. “(…) serviu para aproximar as pessoas e combater os preconceitos e o racismo.” (p. 91)

O arco das três edições do livro dentro do livro funciona como uma parábola sobre o acto de criar. A primeira edição nasce após múltiplas revisões; a segunda confirma o sucesso; a terceira, inflada por mais cem páginas, revela o perigo do excesso. A ruína editorial que se segue é também simbólica. Llosa sugere que há um momento em que a obra deixa de pertencer ao autor e passa a pertencer ao mundo.

No fundo, este romance é uma homenagem ao poder e à beleza da música que vive na voz e nos sons dos seus autores e que incarna uma identidade que se reinventa a cada momento. Llosa celebra a utopia de acreditar que uma música pode unir um povo, mesmo sabendo que essa utopia é, talvez, o mais belo dos fracassos.



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