21 fevereiro, 2023

𝑪𝒂𝒊𝒙𝒂 𝒅𝒂 𝑮𝒓𝒂𝒕𝒊𝒅ã𝒐, de Margarida Fonseca Santos

 

Autora: Margarida Fonseca Santos
Título: Caixa da Gratidão
N.º de páginas: 129
Editora: fábula
Edição: Outubro 2018
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este é o sétimo dos nove títulos que integram a colecção A escolha é minha e que apresenta como principais temas a gratidão, o voluntariado, a entre-ajuda e as relações intergeracionais.

No momento em que a luta dos profissionais da educação está na ordem do dia, ler este livro, foi uma lufada de ar fresco, na medida em que põe em relevo o trabalho do professor, neste caso da professora Fátima, e da escola pública.
A narrativa centra-se numa turma do 8.º ano, e é pelas vozes e perspectivas de dois alunos, Margarida e Marco, que vamos acompanhando as propostas da professora bem como as atitudes e decisões dos próprios e restantes alunos. Neste título, a autora, sob a batuta da professora, pretende criar valores de camaradagem, de reconhecimento/agradecimento, de gratidão e de entre-ajuda na sala de aula, na escola e na comunidade.

O mote é dado na epígrafe com a frase Nelson Mandela “Não pode haver maior dom do que o de dar o próprio tempo e energia para ajudar os outros, sem esperar nada em troca”.
Numa linguagem simples e delicada, apropriada ao seu público infanto-juvenil, a autora mostra como o acto de agradecer as coisas simples e boas e de ajudar quem mais precisa é importante e torna as pessoas melhores.

É um livro que recomendo aos mais jovens, mas também aos adultos. E por que não lê-lo e discuti-lo em família.


19 fevereiro, 2023

A Livraria, filme de Isabel Coixet





Intérpretes: Emily Mortimer, Bill Nighy, Patricia Clarkson.
Uma coprodução da ESP/GB/ALE, de 2017, com 113 min.



Opinião:

Dirigido pela realizadora catalã Isabel Coixet, a partir de uma adaptação do romance de Penelope Fitzgerald,  A Livraria (The Bookshop)  é um excelente filme  para os amantes de literatura e admiradores de trilhos sensíveis e bucólicos.

Florence Green (Emily Mortimer), uma jovem viúva, em 1959, decide abrir uma livraria na pacata vila de Hardborough, no litoral de Inglaterra. Com essa iniciativa inovadora vai criar anti-corpos com os habitantes que integram a elite retrógrada do lugar.  


Sendo um filme de silêncios, a acção é lenta, deixando, por vezes algumas lacunas aparentemente incompreensíveis. Por exemplo, talvez se exigisse mais vivacidade na actuação de Emily Mortimer quando interage com a poderosa Violet Gamart (Patricia Clarkson) e com o advogado Mr. Thomton (Jorge Suquet) que tudo fazem para impedir a abertura da livraria. 
Contudo, na minha opinião, essa forma de agir é facilmente ultrapassada pelo destaque dado às  expressões faciais e aos olhares da actriz que tão bem expressam manifestações de  dúvida, indignação, ternura, simpatia, coragem e desespero. 
Há duas personagens que se destacam pela positiva e que apoiam Florence Green,  Mr. Brundish (Bill Nighy), o velho e elegante recluso e leitor ávido de boa literatura com quem vive um amor platónico e Christine (Honor Kneafsey) a menina  ajudante da livraria, que se vai revelar numa figura importante e encantadora ao longo da trama.

Outro aspecto muito importante do filme e que apreciei bastante é a referência a alguns livros clássicos como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e  Lolita, de Vladimir Nabokov. Destaco também alguns sinais e presságios  presentes no filme, quer em citações de autores e poetas bem como na exposição das capas de alguns livros famosos. 


Trailer: 

18 fevereiro, 2023

𝑶 𝑨𝒏𝒐 𝒅𝒐 𝑷𝒆𝒏𝒔𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝑴á𝒈𝒊𝒄𝒐, de Joan Didion

 


Autora: Joan Didion
Título: O Ano do Pensamento Mágico
Tradutor: Hugo Gonçalves
N.º de páginas: 176
Editora: Cultura
Edição: Dezembro 2017
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3362)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Neste livro de memórias e sobretudo de factos vividos no presente, Joan Didion narra o período que se seguiu à morte do seu marido, John Dunne, e a longa doença da sua filha Quintana, nos cuidados intensivos.
É um relato, na primeira pessoa, intenso e sincero sobre a morte, a dor da perda, o vazio que se instala, a necessidade de conviver com o que fica para além do amor vivido a dois, da superação.

As frases iniciais com que Joan Didion inicia a viagem mais dolorosa e ameaçadora da sua vida marcam a densidade da narrativa:
"A vida muda rapidamente.
A vida muda num instante.
Sentas-te para jantar e a vida, como a conheces, termina.
(…)
A vida muda num instante.
Um instante normal".

Sem autocomiseração, num estilo assertivo, emocionante e perturbador, Joan Didion descreve ao sabor da pluma e da sua consciência a morte do marido, a doença grave da filha, os dias que passou nos hospitais e as recordações de cerca de 40 anos de casamento. Mas é o relato da sua experiência pessoal perante a morte, perante a perda, perante o vazio e a necessidade de superação, de resolução, de luta contra o tempo que desarma o leitor.

“Durante várias semanas, era assim que eu despertava para o dia.
Despertei e senti o sentimento da escuridão, não do dia.
(…)
Precisava de estar sozinha para que ele regressasse.
Este foi o princípio do meu ano do pensamento mágico.” (pp. 28 e 29)

Numa escrita ora ensaística com recurso a estudos, a pesquisas, ora confessional, precisa e brutal, ora literária com citações de poemas e de obras, Didion esmaga-nos com a limpidez e sinceridade das suas palavras, com a sua fragilidade, força e lucidez que lhe conferem uma extraordinária capacidade de escrutinar o seu interior e de se expor sem pudor.

Joan Didion lega-nos um testemunho incontornável em que “ A dor da perda acaba por ser um lugar que nenhum de nós conhece até o alcançarmos. Antecipamos (sabemos) que alguém que nos é próximo pode morrer (…) Mas não esperamos que esse choque seja eliminador, que desloque o corpo e amente.” (p. 145)


08 fevereiro, 2023

𝑶 𝑪𝒐𝒍𝒊𝒃𝒓𝒊, de Sandro Veronesi

 


Autor: Sandro Veronesi
Título: O Colibri
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 326
Editora: Quetzal
Edição: Março 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3377)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


O Colibri, de Sandro Veronesi é um livro maravilhoso, surpreendente e superlativamente cativante. Trata-se de uma saga familiar marcada pelo amor e amizade, pela perda e dor, pela fragilidade humana, pelo sonho, esperança e realização.

O título, “O colibri” remete para a alcunha atribuída ao protagonista na infância pela mãe, devido à sua pequena estatura, mas ao longo da leitura, percebemos que há outro sentido, mais metafórico, associado à capacidade da ave pairar no ar e que no protagonista se revela ao longo da sua vida numa luta constante pela superação da perda e da dor.
É Luísa, numa carta que escreve ao protagonista, que nos confirma o, já intuído, duplo sentido de “O colibri”:

“E compreendi de repente (…) que tu és realmente um colibri. Pois claro. Foi uma iluminação: tu és realmente um colibri. Mas não pelas razões pelas quais te foi dada essa alcunha: tu és um colibri porque, como o colibri, pões toda a tua energia em te manteres parado. (…) tal como o colibri é capaz de voar para trás. Por isso é tão agradável estar ao teu lado.” (p. 261)

Marco Carrera, “oculista e especialista em oftalmologista”, ao viver uma série de dramas vai aprender a pairar, a parar, a voltar atrás para se manter à tona da vida. Muitas vezes pensa em desistir, mas resiste e luta à sua maneira.

Estamos perante um romance fragmentado que flui ao sabor das recordações e das memórias, mas também de prolepses que predizem o futuro. Sem ordem cronológica vamos percorrendo a sua infância e juventude, conhecendo a família, a paternidade, os amigos, a grande paixão da sua vida, os desencontros, as perdas familiares irreparáveis, os sucessos, isto é, a vida.
Para dar sentido à fragmentação da narrativa, Veronesi entremeou os seus capítulos com cartas, muitas cartas, conversas telefónicas, emails, documentos, citações, o que lhe atribui um carácter polifónico e é ao leitor que cabe a reconstituição da trama que acompanha Marco Carrera, bem como descortinar a complexidade das relações humanas.

Termino como iniciei, reafirmando que se trata de um livro sublime que revela uma escrita sensível, elegante, emotiva e um ritmo delicado e fascinante, tal como o colibri, ou beija-flor, que voa natural, livre e airosamente. Recomendo.


07 fevereiro, 2023

Um poema de Sebastião da Gama

 



Companheira


Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
que a meus olhos se deram com igual
simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio...
Vieste (O Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas...). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.
E o Amor? E o Amor? E o Amor?
- Vieste.


Sebastião da Gama, in "Campo Aberto", Ática, 1983


31 janeiro, 2023

𝑶 𝑺𝒆𝒏𝒉𝒐𝒓 𝑰𝒃𝒓𝒂𝒉𝒊𝒎 𝒆 𝒂𝒔 𝒇𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒐 𝑨𝒍𝒄𝒐𝒓ã𝒐, de Éric-Emmanuel Schmitt

 

Autor: Eric-Emmanuel Schmitt
Título: O Senhor Ibrahim e as flores do Alcorão
Tradutora: Luzia Almeida
N.º de páginas: 69
Editora: Marcador
Edição: Setembro 2013
Classificação: Novela
N.º de Registo: (3415)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Nesta pequena novela, inicialmente escrita como peça de teatro, acompanhamos a história de Moisés, um menino judeu criado por um pai distante e austero que acabará por abandoná-lo. Momo, como é tratado na rua Bleue, vai aprender a viver sozinho e bem cedo descobre alegrias e prazeres em locais menos apropriados: “Quando fiz onze anos parti o meu mealheiro e fui às putas.” É com esta frase que inicia a narrativa). Ao longo desta aprendizagem, Momo vai encontrar no Senhor Ibrahim, o merceeiro árabe da rua, o pilar da sua vida. Esta amizade aparentemente improvável vai crescendo e fortalecendo. Juntos vão viver uma série de aventuras que lhes permitirá esbater preconceitos e diferenças, bem como respeitar e compreender outras culturas e religiões. Momo vai, lentamente, aprender a sorrir, a apreciar a vida. “ – A beleza, Momo, está em todo o lado. Olhes para onde olhares.” (p. 40) e a ser feliz.

Trata-se de uma história curta, escrita numa linguagem simples com laivos de humor que cativa e surpreende o leitor. A simplicidade da história pode provocar ambiguidades porque nem tudo é dito, mas fica o essencial, isto é, a inocência de Momo, e sobretudo, a generosidade e a sabedoria do Senhor Ibrahim que o adopta e lhe dá asas para crescer sem barreiras, que o acompanha nas suas aprendizagens e experiências e o orienta na evolução dos seus pensamentos. Sendo uma história simples, está carregada de sabedoria, de tolerância e amizade.


30 janeiro, 2023

À 𝑷𝒓𝒐𝒄𝒖𝒓𝒂 𝒅𝒂 𝑴𝒂𝒏𝒉ã 𝑪𝒍𝒂𝒓𝒂, de Ana Cristina Silva

 

Autora: Ana Cristina Silva
Título: À Procura da Manhã Clara
n.º de páginas: 294
Editora: Bertrand Editora
Edição: Maio 2022
Classificação: Romance biográfico
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


À Procura da Manhã Clara  é um romance biográfico sobre Annie Silva Pais, filha do director da PIDE, Fernando Silva Pais e de Armanda (Nita) Silva Pais. O pai que representa a opressão, o fascismo de um Portugal cinzento e pobre é, contudo, objecto do seu amor apesar do antagonismo ideológico que os divide; a mãe representa a futilidade, a hipocrisia e o bem-estar da burguesia durante O Estado Novo.

Annie vive numa constante angústia, primeiro por saber que o pai, o seu herói, é um dos principais responsáveis pela ditadura e repressão instauradas no país e, segundo, por perceber que não é amada pela mãe. Esta antipatia vai manter-se ao longo da narrativa, agudizando-se sempre que Annie toma decisões antagónicas aos ideais dos pais. O carácter de D. Nita está sublimemente caracterizado. A futilidade exposta nos registos que anota na sua agenda, a vaidade que estampa nos vestidos que manda fazer; a aparência elegante e cuidada que mantém no meio em que circula; a inclemência e os ciúmes que tem da própria filha tornam-na numa mulher infeliz e insensível. Este aspecto fica ainda mais patente quando é confrontada com a prisão do marido e com a doença da filha.

Annie educada num ambiente conservador e retrógrado sente-se sufocar. Consciente da sua beleza e inteligência, desejosa de liberdade e de contrariar a mãe, apaixona-se por homens estrangeiros que lhe confirmam as suas já convictas impressões de um país pobre, triste e torturado. Impulsiva, apaixonada e irreverente vai casar-se com um diplomata suíço que a levará até Cuba.
E aí, tudo muda na sua vida. Annie vai viver intensamente a revolução cubana, vai conhecer figuras históricas que deixam marcas indeléveis, vai ter relações fantasiosas e apaixonadas com homens importantes. Vai dedicar-se intensamente à causa, ao ideal de um país completamente diferente do seu.

Gostei imenso desta mulher “impulsivamente apaixonada” pela revolução cubana. A caracterização psicológica de Annie e da mãe, na narrativa, torna este livro emocionante e arrebatador. E é essa densidade que nos revela a natureza impulsiva e corajosa da protagonista, assim como a tensão constante entre mãe e filha, ao longo do romance, nos permite compreender o conflito de classes, a diferença geracional e as políticas instituídas nos dois países.

Outro aspecto que me agradou bastante está relacionado com a estrutura. A inclusão de cartas escritas na primeira pessoa e que nunca foram enviadas, como nos é dado a conhecer no prólogo, que resumem e contextualizam o que vai ser narrado no capítulo seguinte, permite à autora ficcionar um pouco o que foi a vida real e conhecida de Annie. O leitor aceita esses factos narrados como verídicos pois está completamente embrenhado nos conflitos da protagonista e vive de igual forma as suas emoções, desgostos e paixões.

Recomendo muito.


19 janeiro, 2023

Centenário do Nascimento de Eugénio de Andrade 1923 - 2023




O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade




17 janeiro, 2023

𝑨 𝒄𝒐𝒓 𝒅𝒐 𝒉𝒊𝒃𝒊𝒔𝒄𝒐, de Chimamanda Ngozi Adichie

 



Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Título: A cor do hibisco
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 366
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3360)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A cor do hibisco é o primeiro romance publicado pela escritora nigeriana (2003).

Adichie narra a história de uma família nigeriana, a partir da qual são apresentadas questões inerentes à cultura da Nigéria, bem como ao processo de colonização britânica ocorrido no país.
Penso que em certa medida, os conflitos abordados ao longo da narrativa revelam o contexto geral do país, bem como a própria vivência da autora. Adichie foca-se nas diferenças e nas relações conflituosas para mostrar uma África diferente com uma identidade e uma cultura bem próprias.

Kambili é a personagem responsável por explicitar, através da sua narrativa, as novas perspectivas sobre a história, a língua (há termos de Igbo em “entrelinguagem” que não foram traduzidos) e a cultura da Nigéria. É ela que representa, através do seu testemunho e das suas memórias, toda uma nação pós-colonial marcada por guerras e silenciada pelo Ocidente.

Kambili tem 15 anos. Cresce numa família abastada, mas sujeita a uma educação severa e cristã. Ela e o seu irmão Jaja vão ficar marcados pelo fanatismo religioso do pai, Eugene, e Beatrice é uma mãe e esposa submissa e maltratada. E esta é ideia que forjamos logo com a primeira frase do romance “As coisas começaram a desmoronar-se em casa quando o meu irmão, Jaja, não foi comungar e o Pai atirou seu pesado missal de um lado ao outro da sala e partiu as estatuetas da estante.”

Contudo, uma visita à tia e aos primos, em Nsukka, vai proporcionar aos dois irmãos uma nova visão do mundo, de convivência e sobretudo de liberdade. Esta nova perspectiva de vida vai ser difícil de absorver, sobretudo por Kambili, mas a pouco e pouco vai embrenhar-se nos seus espíritos e libertá-los das regras rígidas impostas pelo pai, ao ponto de questionarem a educação recebida, os hábitos familiares e a prática religiosa.

A dicotomia sociocultural nigeriana está estampada nas duas cores predominantes do hibisco na narrativa: o vermelho, na cidade de Enugu onde vive Kambili e a sua família simboliza o amor opressivo e a religião cristã; o azul, em Nsukka onde vivem a tia e os primos, representa a liberdade, a mudança, a descoberta.

Recomendo muito.


14 janeiro, 2023

09 janeiro, 2023

𝑶 Ú𝒍𝒕𝒊𝒎𝒐 𝑪𝒂𝒃𝒂𝒍𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒅𝒆 𝑳𝒊𝒔𝒃𝒐𝒂, de Richard Zimler

 



Autor: Richard Zimler
Título: O Último Cabalista de Lisboa
Tradutor: José Lima
N.º de páginas: 383
Editora: Oceanos
Edição: Maio 2007
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (2307)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste primeiro livro de uma série de quatro, Richard Zimler narra detalhadamente o massacre de cerca de dois mil judeus (marranos), em Lisboa, na Páscoa de 1506, no reinado de D. Manuel.

O leitor não fica imune à crueldade dos factos ocorridos e instigados pelos frades dominicanos que incitam os cristãos ávidos de violência e de vingança em perseguição aos judeus. A veracidade histórica que perpassa ao longo da narrativa inculca, indelevelmente, ao leitor o medo, a suspeita, o ódio, a traição vividos pelos cristãos-novos que não conseguem abjurar a sua fé e que, por isso, clandestinamente continuam a praticar os seus rituais judaicos, sendo então perseguidos e atirados para a fogueira da Inquisição.

O leitor embrenhado na narrativa sente, igualmente, o cheiro das fogueiras, o cheiro nauseabundo dos corpos mortos, o cheiro do esterco que se acumula e estende nas ruas de Lisboa e assiste à fome, à seca severa e à peste que assolam na capital e matam tantas pessoas anónimas, inocentes.

Para narrar este episódio duro da nossa história, o autor enveredou por uma estrutura etiquetada de thriller. E assim, o mistério criado à volta do mestre cabalista Abraão Zarco, um dos judeus mais influentes da época, e do seu sobrinho Berequias Zarco vai permitir absorver mais facilmente toda a loucura, crueldade, intolerância e ignorância do ser humano. O enredo é um autêntico puzzle de figuras, intrigas e acontecimentos que se arrodilham ao longo da trama, mas que no final se esclarecem.

Para os apreciadores desta temática recomendo a sua leitura.



05 janeiro, 2023

𝑱𝒆(𝒖𝒙) - 𝑷𝒆𝒕𝒊𝒕𝒆 𝑨𝒏𝒕𝒉𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒆, de Fernando Pessoa



Autor: Fernando Pessoa
Título: Je(ux) - Petite Anthologie
Tradutor: Patrick Quillier
Ilustradora: Ghislaine Herbéra
N.º de páginas: 86
Editora: Editions Chandeigne
Edição: Junho 2018
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3419)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Quem me conhece bem sabe que tenho uma paixão por livros, que lhes dou uso, que os leio e que os empresto.

De Fernando Pessoa tenho quase toda a obra, alguns livros até tenho repetidos por questões de edição. Quando me ofereceram esta pequena antologia maravilhosa, a minha primeira reacção foi "Como é possível que eu ainda não tenha este livro!".

𝑱𝒆(𝒖𝒙) - 𝑷𝒆𝒕𝒊𝒕𝒆 𝑨𝒏𝒕𝒉𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒆, livro de capa dura, editado por Éditions Chandeigne, contém dezasseis poemas de Fernando Pessoa - ortónimo e heterónimos - em francês e todos ilustrados por Ghislaine Herbéra. Numa segunda parte, contém ainda os mesmos poemas originais, em português, com referência ao autor e à respectiva obra. Finaliza com um posfácio, em francês, de Joanna Cameira Gomes.

Adorei os poemas, que já conhecia porque sou uma leitora recorrente de Fernando Pessoa, mas nunca os tinha lido em francês, tornando assim esta leitura num exercício muito aprazível.

Adorei as ilustrações. Magníficas!

Esta simbiose de palavras, desenhos e cores torna, na minha opinião, este pequeno livro num objecto precioso e belo que vai enriquecer a minha estante de poesia.



30 dezembro, 2022

Votos para 2023

                                                                             Foto Filipe Miguel 


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis 


29 dezembro, 2022

𝑨𝒔 𝑫𝒐𝒆𝒏ç𝒂𝒔 𝒅𝒐 𝑩𝒓𝒂𝒔𝒊𝒍, de Valter Hugo Mãe

 


Autor: Valter Hugo Mãe
Título: As Doenças do Brasil
N.º de páginas: 273
Editora: Porto Editora
Edição: Setembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3320)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


VHM refere na sua epígrafe que retirou o título As doenças do Brasil de um excerto do “Sermão da Visitação de Nossa Senhora”, de Padre António Vieira (“Esta foi a origem do pecado original e esta é a causa causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda, e o Estado se perde.”).

Neste longo poema, como o próprio autor o classificou nas notas de autor, VHM transporta-nos para a comunidade imaginária dos abaetés, como povo originário do Brasil, relata-nos a sua cultura, língua, educação, crenças e costumes e dá-nos a conhecer o passado colonial dos brancos e o seu impacto no presente.
Transparecem neste texto a emotividade e a sensibilidade do autor quer através da escrita poética quer através da caracterização do povo indígena. Abaeté significa “pessoa gentil” e é gentileza, cumplicidade, piedade, generosidade, mas também ingenuidade que encontramos no “povo dos três mares”. Também percebemos como a questão racial, o domínio do homem branco sobre os povos indígenas e negros perturba o autor (“O negro era um animal domesticado pelo branco.”). A referência à língua branca que fede e apodrece na boca é uma constante:
“E seu bafo fedeu muito entre todos. (…) é a língua branca. A língua e o fedor da língua branca, a palavra que apodrece na boca e apodrece a boca.” (p. 105)

A acção centra-se no caso de um jovem abaeté, Honra, que vive o drama de ser o fruto da violação de Boa de Espanto, uma “feminina”, por um homem branco. Honra não se conforma, vive revoltado e promete matar o branco, o inimigo. Honra, o guerreiro feio, sente-se indigno, ferido de morte e não aceita ter herdado a cor do homem branco, da “fera branca”.
“ sagrado Pai Todo, sou branco. Sei agora e não sei como não o via mesmo que vendo. Sou branco. E esta cor não é cicatriz, é ferida e não sara. O inimigo parasita em mim para sempre. Sou uma possessão. Um espírito baixado sobre minha dignidade abaeté. Sou um bicho como nenhum outro da mata. Um inimigo menos semelhante. Um excremento do branco no ventre de minha mãe. Sou a morte, sagrado Pai Todo.” (p. 33)

Honra, bem aceite pelo seu povo e educado segundo os preceitos abaeté, só começou a aceitar a sua condição quando encontrou, na mata, um negro a quem deram o nome de Meio da Noite, ainda mais desafortunado e a quem se afeiçoou, primeiro porque recebeu ordem de lhe dar uma “educação abaeté” e depois porque nasceu entre os dois “feios” uma enorme cumplicidade que não vou desvendar.
“Um pouco depois, no silêncio profundo da maloca, comovido, Meio da Noite pressentiu que Honra não dormia e isso lho perguntou. O guerreiro branco respondeu:
penso. Não consigo parar de pensar.
E o negro entoou:
sagrado Honra, se entendi o que aconteceu, se por sorte me salvaram, quero que saibas que estou grato. Sou grato. Fujo sozinho mas sou testemunha de milhares. Ei vi milhares. A minha vida é a prova de que existiram, existem, e a minha voz será sempre uma pertença deles também.
O branco perguntou:
o que significas com isso.
E o negro respondeu:
obrigado, sagrado Honra. A minha vida dignifica meu pai, minha mãe, meus avós, meus irmãos, meus povos.
Honra perguntou:
estás a chorar, animal negro.
E o negro entoou:
sim.
Então, Honra chorou também. As feras eram incapazes de chorar. No sol seguinte, até estupefacto, o guerreiro branco foi declarar ao pajé que o negro era alguém. Entoou:
é alguém sagrado Pai Todo, intuí seu espírito. Eu intuí. (pág. 118).

Em conclusão, a narrativa poética criada pelo autor não foge muito à realidade histórica. O “colector de palavras” concebeu um poema a partir do seu fascínio pelos povos originários, escrito com o assombro e a violência de uma realidade que pretende manter viva, como lhe disse o cacique dos Anacés: “vá, e diga ao seu povo branco que um dia chegou aqui para nos matar, que seguimos de braços abertos para os receber como amigos. Ensine ao seu povo que somos amigos.” (p. 266). E VHM cumpriu na perfeição.
Recomendo vivamente!



Fundão II

 









20 dezembro, 2022

𝑶 𝒆𝒏𝒊𝒈𝒎𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝒄𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒂𝒏ó𝒏𝒊𝒎𝒂𝒔, de Agatha Christie

 

Autora: Agatha Christie
Título: O enigma das cartas anónimas
Tradutora: Arminda Pereira
N.º de páginas: 191
Editora: ASA
Edição: Novembro 2001
Classificação: Policial
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐



Neste policial, Agatha Christie transporta-nos para a pequena aldeia de Lymstock, lugar aparentemente sossegado, mas que ao longo da narrativa se vai tornando num local de intrigas, de mexericos, de segredos, de cartas anónimas e de mortes. Jerry, o narrador, vai relatando os acontecimentos e vai acompanhando a investigação dos mistérios que ocorrem na pacata aldeia.
Sempre gostei da escrita de Agatha Christie, da forma como desenvolve a sua narrativa com personagens fabulosas e cenários enigmáticos; da apresentação dos crimes e da (des)construção da investigação que no final surpreende sempre o leitor.
Contudo, neste livro, o aparecimento tardio de Miss Marple, tornou o processo da investigação menos cativante. A perspicácia e a astucia da eterna bisbilhoteira que mexe e remexe nos casos não foram, na minha opinião, devidamente exploradas. O final é-nos revelado de forma vaga. Percebemos como Miss Marple desvendou o mistério, mas faltou o entusiasmo da investigação.



19 dezembro, 2022

𝑻𝒓𝒊𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂, de Jon Fosse

Autor: Jon Fosse
Título: trilogia
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 204
Editora: Cavalo de ferro
Edição (3.ª): Fevereiro 2022
Classificação: Novelas
N.º de Registo: (3357)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Trilogia requer, de início, um enorme esforço de concentração para aceitar a escrita de Jon Fosse e não desistir. Quase sem sinais de pontuação e com repetições exaustivas de frases, de falas, de verbos introdutores de discurso (“diz ele”), o texto torna-se, por vezes, insólito. Mas o que se estranha, no início, após algumas páginas, acaba por se entranhar e apreciar. E a partir daí, o leitor não mais quer parar. É a escrita simples e a melodia das frases provocada pelas repetições e pelas pausas inerentes ao diálogo que cativam e agarram o leitor.

Composto por três novelas, e apesar da distância temporal entre elas, as personagens mantêm-se sobretudo através da evocação constante e repetitiva de lugares, de pessoas e de acções. O passado, o presente e o futuro enleiam-se e tropeçam em enredos impossíveis, em ilusões, em sonhos, em memórias.
A primeira novela inicia com um jovem casal que, obrigado a sair da sua aldeia, vagueia ao frio e à chuva, na escuridão de uma cidade à procura de um abrigo. Ao longo desta trilogia, percorremos os mesmos caminhos de Asle e Alida, compreendemos a dificuldade de sobrevivência numa sociedade hostil, o desamparo de ser rejeitado e incompreendido por todos, e aplaudimos o amor existente entre os dois jovens que acaba por justificar os erros cometidos. Afinal, se segundo a sinopse, estamos perante uma “parábola de inspiração bíblica sobre o amor, o crime, o castigo e a redenção”, então tudo fará sentido num mundo dividido entre o Bem e o Mal.
Destaco a terceira novela pela beleza e sensibilidade da escrita na descrição das emoções de Alida. O seu amor por Ales mantém-se imutável e eterno mesmo para além da morte.
“ (…) e Alida acredita que ela e Asle ainda são um casal de namorados e estão juntos, ele com ela, ela com ele, ela nele, ele nela, pensa Alida e olha na direção do mar e do céu, e vê Asle, vê que o céu é Asle, e sente o vento, e o vento é Asle, ele está ali, ele é o vento, mesmo que ele não exista, ainda continua ali presente, (…)” p. 183

12 dezembro, 2022

𝑶 𝑪𝒐𝒏𝒗𝒊𝒅𝒂𝒅𝒐𝒓 𝒅𝒆 𝑷𝒊𝒓𝒊𝒍𝒂𝒎𝒑𝒐𝒔, de Ondjaki

 

Autor: Ondjaki
Título: O Convidador de Pirilampos
Ilustrador: António Jorge Gonçalves
N.º de páginas: 72
Editora: Caminho
Edição: Janeiro 2017
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (2999)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A conjugação da escrita poética e criativa de Ondjaki e a beleza do traço e das cores de António Jorge Gonçalves torna este livro numa autêntica maravilha.
“Em noites de lua nova, quando o céu finge estar só vestido de nudez, brilham penduradas as estrelas, pequenas e belas.
E na Floresta Grande?
Bem, na Floresta Grande brilham os pirilampos cintilantes.”

É a segunda obra que leio resultando do trabalho colaborativo destes dois criadores. E é engraçado que neste livro encontrei ecos do primeiro - Uma Escuridão Bonita - (livro encantador e que também recomendo), quer através da escuridão, da noite, quer mesmo pela referência ao título numa fala do menino dirigida ao avô “ – Avô, deixa te mostrar como uma escuridão pode ficar bem bonita.”

A história centra-se num menino muito curioso que tem medo do escuro e que gosta de ler o brilho dos pirilampos e de comunicar com eles, que gosta de passear na Floresta, de “cientistar” e de conversar com o seu avô sobre os seus inventos e “cientistações”.
“- Pensei que todos os pirilampos pudessem brilhar, mas nunca soube que eles comunicavam.
- Ah, mas é porque eu já cientistei os pirilampos muitas vezes.
- Já quê?
- Já cientistei… Cientistar é o que nós, os cientistas e inventores, fazemos.
Cientistamos as coisas, os animais, e alguns até cientistam o mundo. Não sabias, avô?
Não, mas gosto de aprender.”

A cumplicidade entre o avô e o menino permite criar uma bonita e educativa história de descobertas da natureza e da ciência e abordar temas como a liberdade, a confiança, a superação do medo e a sabedoria dos idosos na voz dos pirivelhos (“pirilampos apagados”) que contam histórias aos pirilampos.
“ Temos de voltar. O brilho dos pirilampos não vem da força dos corpos. Vem da força das estórias. E são os pirivelhos que as contam.”

Adorei. Recomendo.

11 dezembro, 2022

𝑽𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑪𝒉𝒊𝒏𝒆𝒔𝒂, de Tatiana Salem Levy

 

Autora: Tatiana Salem Levy
Título: Vista Chinesa
N.º de páginas: 122
Editora: 20|20 - Elsinore
Edição: Agosto 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3334)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Que livro! Que história! Que coragem! A da escritora, Tatiana Salem Levy, que narra a história de uma amiga muito próxima, vítima de violação. A da amiga, Joana Jabace, que ousou relatar, descrever o sucedido, o horror; que permitiu que as feridas ainda tão vivas na sua mente, no seu corpo fossem de novo e, mais uma vez, abertas; que fez questão de revelar a sua identidade.

A autora sublinha, no final, que se trata de um romance baseado numa história real. Este facto não suaviza a leitura, apenas nos dá a possibilidade de imaginar que o acto de violação, o crime, porque se trata de um crime, não tenha sido tão cruel, tão violento e que as marcas corporais e psicológicas não sejam tão profundas e traumatizantes. Pura ilusão! Percebemos, de imediato, que a personagem está marcada para a vida.
“(…) aquela terça-feira na mata ficou cravada não só na alma, como eu achei que fosse acontecer. Ficou impressa no corpo. Está tudo escrito na minha pele, sei que está, tudo o que aconteceu, até os detalhes que eu disse que tinha contado para a polícia, mas não contei, porque nunca se conta tudo, há sempre uma parte que falta.” (p. 51)

Tatiana Salem Levy não foge à cruel realidade. Apresenta-nos um testemunho intenso, duríssimo de uma luta individual pela superação de um acto horrível, pela aceitação de um corpo mutilado, pelas vivências inerentes à investigação policial, pela dolorosa integração na família e na sociedade.
A narração, sob forma de carta que a protagonista escreve aos filhos, não é linear, ocorre por camadas, por memórias, por fragmentos, por momentos do presente, por expectativas de um futuro melhor.
“Pensando melhor, não é bem uma carta. É mais um testemunho. Um testemunho, não. O testamento que eu não quero deixar para vocês.” (p. 43)

A autora foca-se nos detalhes. Cirurgicamente, narra o indizível; descreve a dor como se fosse sua, visceral; explora o corpo magoado e mutilado; desmonta a consciência traumatizada; enfrenta a luta pela superação do medo, do mal, da escuridão, mas também da vida, do seu amor de mulher e de mãe de dois filhos, da esperança.
“Cada vez que alguém acreditava ter encontrado a minha salvação, eu podia ver o sorriso nos seus olhos. E era essa aminha meta, esse o sentido que não me deixava afundar no sofá.” (p. 55)

O leitor, sem fôlego, sente a dor, a revolta, a rejeição do corpo, vive as agressões, as angústias, participa nos depoimentos, no reconhecimento do agressor, nas sessões de terapia e acompanha a recuperação lenta, muito lenta.
O leitor horrorizado pela maldade humana deixa-se envolver nos detalhes da história, deixa de respirar e dilacerado anseia pela superação, pela recuperação desta mulher, de todas as mulheres vítimas de violação.

LEIAM! Merece ser lido!



10 dezembro, 2022

Saber o que és

 

Foto minha


Saber o que és, dizer o teu corpo,
ouvir-te num breve instante,
dizer o que é amor sem o dizer,
tirar de mim um poema que te cante;

e ver passar-te por entre os dedos
o fio de luz que prende os teus olhos,
e vê-lo enrolar-se em segredos
quando a tua voz o apaga e acende;

tocar-te os lábios num fim de verso,
ver-te hesitar entre sorriso e mágoa,
perguntar se o teu rosto tem reverso,

e ter nele uma transparência de água:
é o que vejo em ti no cair de véu
em que me dás a terra que vale o céu.

Nuno Júdice


04 dezembro, 2022

𝑼𝒎𝒂 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒏𝒐 𝑭𝒊𝒎 𝒅𝒐 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐, de Michael Cunningham

 

Autor: Michael Cunningham
Título: Uma Casa no Fim do Mundo
Tradutor: Rui Pires Cabral
N.º de páginas: 363
Editora: Gradiva
Edição (4.ª): Outubro 2003
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3326)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Publicada em 1990, a narrativa situa-se nas décadas de 1960 a 1980. Com imensas referências musicais e cinematográficas, retrata as relações complexas de três amigos que tentam viver juntos, formando uma família pouco convencional. A narrativa foca-se nos problemas da vida familiar, nas dúvidas dos jovens, da vida adulta, no envelhecimento e na perda, mas também na amizade, no amor e ainda no desenvolvimento da SIDA na comunidade homossexual.

Narrada a quatro vozes, de forma alternada, a narrativa desenrola-se à volta das vidas de Jonathan e Bobby, amigos de infância, inseparáveis, que desenvolvem uma relação obsessiva apenas quebrada quando um deles vai para a universidade. Contudo, a relação é retomada mais tarde e alargada a Clare com quem formarão um singular triângulo amoroso.

“Bobby e eu [Clare], Jonathan e eu, o nosso amor e amizade misturados, a desequilibrada família que tínhamos tentado construir – tudo isso me parecera no dia anterior mais um disparatado episódio da minha vida.” (p.251)

Trata-se de um livro forte, sensível, inquietante, muito bem escrito. O autor escreve sem pressa, com precisão e com afeição, preocupado em dar resposta às fragilidades, às incertezas, às inquietações que assolam as personagens ao longo da narrativa e que, provavelmente serão as suas, já que o romance está na primeira pessoa. Fica claro que este livro se centra muito nas opções de vida de cada um. Marcadas por alegrias, tristezas, angústias, decepções, fugas, todas deixam “pegadas” na complexa caminhada da vida e do relacionamento humano.

É uma leitura reveladora, intimista e emocionante. Gostei da abordagem ao tema, da forma como nos apresenta a fragilidade do ser humano, as suas dúvidas, os seus pensamentos, as suas contradições, necessidades e interesses. No livro, os quatro narradores têm tempo e espaço para exporem as suas histórias, as suas visões do mundo, as suas ambições e sonhos, ou então permanecerem inertes, mergulhados nos seus pensamentos, nos seus silêncios.