13 fevereiro, 2022

𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑫𝒊𝒂, 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒆 𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆, de Olga Tokarczuk

 



Autora: Olga Tokarczuk
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Título: Casa de Dia, Casa de Noite
N.º de páginas: 347
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: Junho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Para quem já conhece um pouco a obra da autora, não estranha a estrutura deste livro. Como se de um puzzle se tratasse, a narrativa desfila em histórias que se vão alternando, cruzando, completando. Fica a ideia que tal como para as fotografias tiradas por R. será necessário “compor com todas elas um só céu”, (p. 347) as suas histórias também só farão sentido depois de todas lidas.

É um livro que levanta sobretudo questões e que raras vezes dá respostas, que propõe reflexões, que inquieta e obriga a interiorizar certas vivências e que abre novas perspectivas sobre temáticas como a relação do ser humano com o seu próximo, com os animais, com a natureza e sobre a inevitável passagem do tempo, a imortalidade, a contemplação, o silêncio, …

A narradora vai descrevendo os poucos habitantes de Nowa Ruda, “Cidade do vale, das encostas e dos cumes. (…) Cidade onde o anoitecer chega subitamente vindo das montanhas e desaba sobre as casas como uma monstruosa rede de borboletas. (…) Cidade silesiana, prussiana, checa, austro-húngara e polaca. Cidade de periferias. (…) Cidade onde o tempo anda à deriva, as notícias chegam com atraso e os nomes confundem.” (pp. 338 e 339).

A sua descrição incide na singularidade de certas personagens e nas suas histórias fabulosas; nos vários enredos anedócticos e por vezes incompletos; nos relatos oníricos e transcendentes; na explanação de várias matérias históricas, sociais, cosmológicas e ambientais.

Toda a sua escrita revela um estilo e um olhar muito próprio do mundo, uma sensibilidade por outras formas de vida, por outras formas de encarar a existência. É uma escrita que apresenta as coisas de uma forma inabitual, que faz pensar e que provoca imensas dúvidas.
“ - o nosso mundo é povoado de pessoas adormecidas que morreram e sonham que estão vivas.” (p. 166)

Há histórias de uma beleza estonteante das quais sublinhei e retirei imensas passagens.


05 fevereiro, 2022

𝑻𝒓ê𝒔 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Umberto Eco e Eugenio Carmi

 


Autor: Umberto Eco
Ilustrador: Eugenio Carmi
Título: Três Contos
N.º de páginas: 113
Editora: Gradiva
Edição: Junho 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Três contos é uma belíssima união entre as palavras de Eco e as ilustrações de Carmi. Os traços abstractos e a paleta de cores estão em simbiose com a fantasia e a ironia presentes nos textos.
Três histórias curtas e directas, com temas actuais, como a guerra e a paz; a competitividade e a tolerância; poluição, consumo e consciência ambiental, que nos fazem reflectir.
Sendo o texto muito curto, não posso nem quero desvendar o teor dos contos. Transcrevo a última frase da sinopse que penso traduzir muito bem o conteúdo do livro “ Do encontro extraordinário entre um narrador e um artista, três histórias sobre o respeito e a esperança, para quem ama ler com a imaginação.”



03 fevereiro, 2022

𝑨𝒖𝒔𝒄𝒉𝒘𝒊𝒕𝒛, 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝑻𝒓𝒂𝒏𝒒𝒖𝒊𝒍𝒂, de Primo Levi

 

Autor: Primo Levi
Tradutores: Diogo Madre Deus e Maria do Rosário Pedreira
Título: Auschwitz, Cidade Tranquila
N.º de páginas: 166
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Auschwitz, Cidade Tranquila integra dez contos e dois poemas. Mais uma obra de não-ficção que nos conta o que aconteceu com o rigor que Primo Levi já nos habituou e que deve ser lido para que a memória não se apague. A verdade dos factos aqui relatada foi vivida, sofrida e observada. O autor, após a libertação, para se redimir da dor que as memórias dos campos de concentração lhe causam, tenta escrever, tenta testemunhar tudo o que viveu, tudo o que observou. Foi um período difícil, as consequências da sobrevivência foram devastadoras.

Estes contos percorrem um tempo de cerca de 30 anos. Há contos que narram de forma inequívoca o que viveu em Auschwitz, outros mais ficcionados, dizem-no também, mas é nas entrelinhas que descortinamos os factos ocorridos no Lager.
“A trinta anos de distância torna-se difícil reconstituir a espécie de exemplar humano que correspondia, em novembro de 1944, ao meu nome ou melhor ao meu número174517.”      (p. 97, Cério)

O conto que dá o título à obra, é um paradoxo. Com tudo o que sabemos, e com tudo o que Levi viveu e presenciou, como justificar o epíteto de “cidade tranquila”? Levi ajuda-nos a compreender: se para uns foi o inferno, para outros, os que colaboraram, os que não quiseram ver foi efectivamente uma cidade tranquila.

A apresentação de Fabio Levi e Domenico Scarpa, responsáveis pela organização do livro, é clara quanto à intenção de Primo Levi ao escrever (e muito) sobre o Lager: “Vítima, espectador e testemunha, Levi também sente que as suas descrições, a sua narração e a sua pesquisa nunca chegam a ser suficientes: por mais transparentes, precisas e perspicazes que elas sejam, é sempre pouco face à demasiada dor, à dor excessiva daquele lugar. É por isso que ao longo dos anos experimentará tantos pontos de vista sobre Auschwitz: a fim de o restituir no modo mais absoluto possível.” (pp.15 e 16)


É por isso que o leio. É por isso que recomendo as suas obras.



30 janeiro, 2022

𝑽𝒂𝒎𝒐𝒔 𝑳𝒆𝒓! 𝑼𝒎 𝑪â𝒏𝒐𝒏𝒆 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒐 𝑳𝒆𝒊𝒕𝒐𝒓 𝑹𝒆𝒍𝒖𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆, de Eugénio Lisboa

 


Autor: Eugénio Lisboa
Título: Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante
N.º de páginas: 132
Editora: Guerra e Paz
Edição: Março 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3310)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este pequeno livro é um autêntico convite à leitura para leitores, leitores compulsivos e sobretudo leitores relutantes. Para estes últimos, a quem efectivamente se dirige o livro, apresenta uma lista de 50 livros, de 35 autores portugueses.
Eugénio Lisboa começa por apresentar a sua experiência pessoal como leitor, os seus gostos literários, o seu método de leitura e indica muitas dicas interessantes.
“ Já então, eu vivia dentro dos livros” (p. 34),
“O gosto da leitura é um dos mais valiosos presentes que a vida nos pode oferecer.” (p. 46)
e
“(…) desde muito novo, senti que a leitura, para ser proveitosa, não devia encontrar um leitor passivo e apático. O leitor deve reagir, deve focar um olhar dinâmico, enriquecedor e crítico naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê. O leitor deve pensar naquilo que lê.” (p. 70)
De seguida, explica a razão da sua escolha e argumenta que para convencer quem ainda não gosta de ler, a “isca” tem de incluir livros mais acessíveis e termina com uma breve apresentação, um “vol d’oiseau”, sobre os autores da lista.
“As pessoas que nunca adquiriram o gosto de ler não fazem ideia do prazer incomensurável que desperdiçam.” (p. 46)

Cita vários escritores, não incluídos na lista, que podem também cativar leitores: Maupassant, Simenon, Somerset Maugham, Kipling, Edgar Poe, Mark Twain, Domingos Monteiro, Torga ou Rodrigues Migueis – “todos estes grandes escritores são perfeitas “iscas” para vencer o fastio do leitor mais renitente” (p. 55)
Ao longo da sua exposição, o autor indica os seus autores de eleição portugueses e estrangeiros, e não evita algumas farpas a Gabriela Llansol, a James Joyce e a Agustina Bessa Luís, sendo as desta última, excessivamente duras, na minha opinião.

Não sendo eu uma leitora “relutante” posso afirmar que este pequeno livro é uma pérola para leitores viciados. Da sua leitura retirei algumas boas sugestões, confirmei outras tantas possíveis leituras e sublinhei imensas frases interessantes!

“E, agora, VAMOS LER!” (p. 132) já que “A leitura é, para os grandes leitores, um prazer, uma instrução e uma terapêutica” (p. 42)



27 janeiro, 2022

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 


Holocaust Encyclopedia - United States Holocaust Memorial Museum
(La selección de judíos húngaros en el campo de exterminio de Auschwitz-Birkenau, mayo de 1944.)



Fila Escura

Será possível escolher-se um percurso mais absurdo?
No Corso San Martino há um formigueiro
A meio metro dos carris do elétrico,
E precisamente na cabeça do carril
Estende-se uma longa fila escura,
Toca-se uma com outra formiga,
Talvez a espiar a sua vida ou fortuna.
Enfim, estas estúpida irmãs 
Obstinadas lunáticas obreiras
Escavaram na nossa a sua cidade,
Traçaram sobre os nossos os seus carris,
E percorrem-nos sem receio
Apressadas atrás dos seus subtis afazeres
Sem se preocuparem com
        Não quero escrevê-lo,
Não quero escrever sobre esta fila,
Não quero escrever sobre nenhuma fila escura
                     
                                                                     13 de agosto de 1980

Primo Levi,  Auschwitz, Cidade Tranquila



26 janeiro, 2022

𝑩𝒂𝒍𝒂𝒅𝒂 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝑺𝒐𝒑𝒉𝒊𝒆, de Filipe Melo e Juan Cavia



Autor: Filipe Melo
Ilustrador: Juan Cavia
Título: Balada para Sophie
N.º de páginas: 305
Editora: Companhia das Letras
Edição: Junho 2021
Classificação: Novela gráfica
N.º de Registo: (3308)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Esta novela gráfica é uma obra-prima! Com um argumento sublime escrito por Filipe Melo e magistralmente ilustrado por Juan Cavia, esta história transporta o leitor para um mundo sensorial, intenso, sensível, de uma beleza extraordinária. O enredo é triste e simultaneamente arrebatador. Há momentos de dor intensa, de desilusão, de amor, de ódio, de arrependimento, de solidão, de esperança. São momentos mágicos, deslumbrantes com um final brutal.
Não vou desvendar nada da história (a sinopse já revela muito). Cada leitor deve descobri-la e desfrutá-la com prazer, intensamente. Apenas referir que se trata de uma história de vida, sobre a complexidade humana perante as adversidades, sobre a redenção.

Podem acompanhar a leitura com o acompanhamento musical disponibilizado aos visitantes do site Bandas Desenhadas:

Ou pelo vídeo, no youtube, “Filipe Melo toca 'Balada para Sophie'"




24 janeiro, 2022

𝑬𝒄𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂, de Joana Bértholo

 

Autora: Joana Bértholo
Título: Ecologia
N.º de páginas: 499
Editora: Caminho
Edição: Maio 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Bib)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Leitura complexa, intensa e inquietante que nos coloca constantemente perante questões pertinentes e muito actuais de uma sociedade “doente”, tais como, a linguagem na desvalorização da palavra face às redes sociais; a ausência de pensamento, de opinião perante um facto; a aniquilação das relações interpessoais; a imposição do medo; as consequências do capitalismo e da privatização de tudo, onde tudo se paga, até as palavras; o conformismo de uns e a revolta de outros (poucos) perante certas decisões; a ausência de consciência e a negligência em relação ao meio-ambiente.
“Muitos Consumidores ainda não entendem que quando os produtos e serviços lhes são oferecidos, isso significa que eles próprios são o produto.
Mesmo aqueles que o entendem, pesam as grandezas em jogo e decidem-se a favor da qualidade de vida. Embarcam numa existência com controlo sobre variáveis e imprevistos, mas permanentemente controlados, Já não há «estar fora». Em nenhum aspecto da vida. Uma utopia individual dentro de uma distopia colectiva.” (p. 418)

Livro distópico que apresenta uma posição muito crítica, sustentada no progresso e no avanço tecnológico sem limites, na descoberta de palavras, pela voz de Candela, a criança que ao longo do livro vai colocando questões desconcertantes e que se constitui como um enorme campo experimental e lúdico de jogos de palavras (sinonímia, polissemia, antonímia, normalização, monitorização).
Numa estrutura invulgar, fora do comum, com tipologias textuais diferenciadas, Ecologia dispersa-se por várias linhas narrativas que revelam situações diversas, histórias familiares, personagens várias e que segundo um fio condutor acabam por se ligar e dar sentido ao que aparentemente parece desconexo. À semelhança de outras distopias bem conhecidas, há um “sistema” criado por Darla Walsh que apresenta um plano que vai transformar as palavras em produtos de consumo, taxadas de forma aleatória. Para tal, cria tecnologia avançada que permita registar, contabilizar, monitorizar as palavras ditas pelas pessoas e assim atribuir-lhes um valor a pagar. Mas como toda a tecnologia, também esta revela pontos fracos e acaba por não detectar palavras pronunciadas por gagos, ou cantadas, ou ditas ao contrário entre outros subterfúgios que as pessoas vão descobrindo.

Joana Berthólo ao projectar no futuro esta sua visão da sociedade, acaba por pôr em evidência o presente, a realidade. Vivemos numa sociedade de consumo e de (des)informação, sob o engodo do marketing (muito bem demonstrado no livro) e do livre (falso) acesso à informação veiculada pelas redes sociais, tudo se paga, tudo se compra, todos opinam, todos escrevem, todos têm razão, nada se verifica, nada se confirma, nada se analisa…
Através de um discurso irónico, corrosivo, bem-humorado, a autora desmonta a relação ambígua entre o poder e o saber, questiona a hierarquia de valores, ou a falta dela, e alerta para as questões ecológicas.


22 janeiro, 2022

𝑶 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐 𝒅𝒂 𝑰𝒍𝒉𝒂 𝑫𝒆𝒔𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: O conto da ilha desconhecida
N.º de páginas: 39
Editora: Caminho
Edição (3.ª): dezembro 2007
Classificação: Conto
N.º de Registo: (2643)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Já li, reli e voltei a ler este pequeno conto de Saramago, mas nunca escrevi sobre ele. Por motivos profissionais tornou-se uma leitura obrigatória e quase anual. Mas sempre que o leio, é com um prazer redobrado que acompanho o pedido do homem “dá-me uma barco” e a decisão da mulher da limpeza em acompanhá-lo à procura da ilha desconhecida. Não vou desvendar a história que narrada sublimemente nos leva a questionar sobre a nossa existência, que nos faz olhar para dentro.
A ilha desconhecida mais não é do que uma alegoria à busca interior e ao conhecimento de si próprio “(…) mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, (…) Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós,” (pp. 27 e 28)
Não desistir dos seus sonhos é outra mensagem que se retira deste pequeno texto, ou será que é a mesma? E que afinal está tudo interligado. Concretizar os sonhos mais não é do que lutar por algo que se deseja, desvendar o que nos vai na alma e, no caso, o desejo material do homem era na verdade a descoberta do seu íntimo, do seu auto-conhecimento. Não sabendo como resolver essa premissa, por si só, transferiu-a para a descoberta de uma ilha desconhecida.
“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar” (p. 23)

Numa mescla de fantasia e filosofia com pinceladas de ironia, Saramago propõe-nos uma auto-reflexão e mostra-nos um caminho para a resolução das muitas dificuldades que nos vão surgindo pela vida.
Trata-se, afinal, de um conto com múltiplas viagens… a viagem de cada leitor.
Recomendo muito este conto, sobretudo para quem se quer iniciar no vasto mundo saramaguiano. Sendo um texto curto permite ao leitor abordar e adaptar-se ao estilo muito próprio do autor com pontuação reduzida, diálogos não assinalados e um ritmo peculiar. (Lê-lo em voz alta, facilita)


12 janeiro, 2022

𝑼𝒎 𝑷𝒊𝒏𝒈𝒐 𝒏𝒂 Á𝒈𝒖𝒂, de Ann Yeti

 


Autora: Ann Yeti
Título: Um Pingo na Água
N.º de páginas: 156
Editora: Sell Out (Narrativa)
Edição: Março 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3336)

OPINIÃO ⭐⭐⭐

Neste seu segundo livro, Ann Yeti apresenta-nos uma protagonista deveras interessante. É uma mulher inteligente, trabalhadora, super independente, sensual e bem-disposta. Desde muito jovem, devido a circunstâncias pessoais, foi obrigada a tornar-se autónoma e a gerir a sua vida pessoal e profissional.
É uma mulher de sucesso, profissionalmente bem resolvida e, até certa altura, poder-se-á afirmar que em termos afectivos também o é, tendo em conta que é bastante independente e moderna quanto ao seu relacionamento amoroso.
Sendo uma mulher bonita, sensual e inteligente, Ana provoca nos homens uma forte atracção, levando alguns a cometer algumas loucuras saudáveis.
Assim, numa escrita escorreita, cativante, concisa e transparente como “um pingo de água”, a narrativa transporta-nos para o quotidiano de Ana e vamos acompanhando o seu sucesso e reconhecimento profissionais, bem como as suas opções amorosas e relações sexuais que vai manter com João e Carlos. Cada um à sua maneira, porque muito diferentes, conseguiu quebrar a barreira erguida por Ana e conquistar o seu coração.
Gostei da história narrada, gostei das personagens, sobretudo da feminina com o seu carácter honesto, lúcido, independente e, por vezes ambíguo, que lhe confere encanto e empatia.
É uma história de amor, de vivências intensas, mas também de perda e de superação.

11 janeiro, 2022

No dia do seu aniversário... (74 anos)


Foto minha


"Tudo vem ao chamamento. Penso mar, e o mar enche-me a alma e as mãos. Balbucio cal, e na pele do tempo cresce uma casa onde não viverei, ergue-se uma cidade de melancolia na incerteza dos punhos, e nela nos ferimos.
Digo sol, e quase cego consigo tocar-lhe. Só por ti clamo, e não te acendes, nem regressas, e me queimas.”

 Al Berto, in Lunário



 

09 janeiro, 2022

𝒍𝒖𝒕𝒐, de Eduardo Halfon


Autor: Eduardo Halfon
Título: luto
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 106
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3280)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Neste livro, Halfon narra a complexidade das relações familiares fechada no silêncio como processo de luto e por consequência de culpa. O narrador, que se confunde com autor, regressa à casa dos avós, nas margens do lago Amatitlán, na Guatemala, e aí vai desvendando as suas memórias e os segredos da família. Foi com o intuito de entender alguns destes segredos ou “o que me contavam em criança” (p. 11) que decidiu voltar ao seu passado em busca da verdade. Assim, revisita a sua infância marcada pela situação política da Guatemala , o exílio da família para os Estados Unidos, a deportação do avô nos campos de concentração, e sobretudo a morte do seu tio paterno Salomón, entre outros.

A narrativa fragmentada saltita entre o passado e o presente, de personagem em personagem, de história em história. Nada é linear, mas tudo faz sentido. Estes saltos fluem naturalmente e imprimem intensidade e eficácia à narrativa; as deslocações geográficas dão consistência à sua identidade; a revelação dos segredos move reflexões, sentimentos contraditórios e quebra as convicções mantidas durante anos.

À medida que a narrativa evolui, o narrador vai-se libertando do passado, e só o consegue quando se afasta da família e se aproxima de outras personagens, figuras míticas guatemaltecas, que o ajudam a “ver a sua verdade” (p. 92)

É um livro muito breve, cerca de 100 páginas, com uma escrita cuidada, simples, ritmada e poética que seduz o leitor pela sua sensibilidade.



08 janeiro, 2022

𝑶 𝑵𝒆𝒕𝒐 𝒅𝒐 𝑯𝒐𝒎𝒆𝒎 𝒎𝒂𝒊𝒔 𝑺á𝒃𝒊𝒐 - 𝑼𝒎𝒂 𝑩𝒊𝒐𝒈𝒓𝒂𝒇𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑱𝒐𝒔é 𝑺𝒂𝒓𝒂𝒎𝒂𝒈𝒐, de Tomás Guerrero

 

Autor: Tomás Guerrero
Título: O Neto do Homem mais Sábio
Tradutor: João Miguel Lameiras
N.º de páginas: 144
Editora: Levoir
Edição: 2020
Classificação: Novela Gráfica
N.º de Registo: (3340)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Considero esta novela gráfica uma belíssima homenagem a José Saramago, mas também a Fernando Pessoa, por via do seu heterónimo Ricardo Reis.

Tomás Guerrero foi feliz ao pegar na frase, ​“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, proferida por Saramago no discurso em Estocolmo, aquando da atribuição do Prémio Nobel em 1998, referindo-se ao seu avô Jerónimo Melrinho.
A tarefa de narrar em banda desenhada a vida e obra de Saramago é arriscada, mas Guerrero foi genial ao colocar os “defuntos” Jerónimo Melrinho (avó de Saramago) e Ricardo Reis, inspirando-se na obra O Ano da Morte de Ricardo Reis, em conversa animada sobre Saramago e, assim, vão guiando o leitor ao longo das páginas que o mesmo é dizer, ao longo da vida do biografado.

Esta narração a duas vozes, iniciada em Estocolmo, em 1998, vai instruindo o leitor com informações biográficas desde a infância na Azinhaga até aos últimos dias em Lanzarote, com citações muito bem enquadradas nas ilustrações, que considero magníficas, e ainda com a divulgação das obras publicadas.

A representação da história através das ilustrações, dos desenhos sai fora do comum, não temos as convencionais vinhetas tornando-o mais próximo de um livro ilustrado do que propriamente de uma banda desenhada. Como referiu Valter Hugo Mãe no prefácio “ as suas pranchas são riquíssimas, equilibradas, surpreendentes. Sem exageros, mantendo até uma estranha atmosfera da mesma humilde personalidade de Saramago.” Poder-se-á referir que por vezes os desenhos nada acrescentam ao texto em termos de informação, são naturalmente um complemento, tornam-no mais belo, mais poético.
Outra característica facilitadora da leitura do texto é a cor diferente atribuída a cada uma das duas vozes, permitindo a sua identificação imediata.

Apesar de gostar muitos da ilustração, é sobretudo o texto que mais aprecio, a conversa mantida por Jerónimo Melrinho, o homem mais sábio, que não sabia ler, e Ricardo Reis traduz a visão que Saramago tinha de si próprio, dos seus familiares e do mundo.

Recorrendo de novo ao prefácio escrito por Valter Hugo Mãe, subscrevo a sua opinião que a expressa de forma notável: “ Este livro é brilhante. É íntimo, delicado, brilhante. Com ele, Saramago continua a nascer”.


06 janeiro, 2022

𝑶𝒃𝒋𝒆𝒄𝒕𝒐 𝑸𝒖𝒂𝒔𝒆, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: Objecto Quase
N.º de páginas: 142
Editora: Caminho
Edição (4.ª): Novembro 1998
Classificação: Contos
N.º de Registo: (2673)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Objecto Quase integra seis contos breves onde as personagens são, na sua maioria, “coisificadas”, ou melhor dizendo, os objectos são humanizados. Esta característica é evidente nos contos “Cadeira” e “Embargo”. Outros há em que a fantasia, o surreal, o absurdo tomam conta da história e deparamo-nos com uma “animalização” do homem. Em todos, é evidente o tom sarcástico e a crítica à sociedade capitalista, à necessidade do ser humano em possuir bens e à sua dependência.
Ao longo dos seis contos, o autor conduz-nos por caminhos diversos, e que recorrendo a situações surreais, retrata o pessimismo, a depressão, a dependência e a imperfeição do ser humano.
A escrita destes seis contos revela o poder de observação, a capacidade de esmiuçar factos, o sentido crítico e bem-humorado do autor. Os seus textos, apesar de curtos, são autênticos trabalhos literários: descrições detalhadas; metáforas espantosas; histórias criativas repletas de ironia e de intensidade.

Por exemplo, no primeiro conto, “Cadeira”, fica-se pela descrição detalhada e irónica da cadeira que foi atacada pelo bicho da madeira e que vai destruindo o interior da perna que fará cair o homem que nela se senta. Facilmente percebemos que o episódio relata a queda de Salazar. Trata-se se uma alegoria ao fim da ditadura e do sistema vigente. A cadeira representa o poder. Se esta se torna decrépita, insegura, então o poder está decadente e deve ser substituído. É notável a descrição do momento em que o homem se sentou na cadeira, se recostou e finalmente caiu. Por vezes, parece que o narrador se desvia do assunto, tecendo outras histórias, outros factos, mas se o faz é para tornar mais intensa e credível a descrição sem nunca perder o fio condutor da narrativa em curso.

Gostei de todos os contos, mas a minha preferência recai em “Coisas”, o quarto conto. Classificá-lo-ia como uma distopia. As pessoas são hierarquizadas por ordem alfabética (têm a letra desenhada na mão), de acordo com a sua posição social. Tudo é absurdo, as coisas começam a ter reacções humanas, começam a tomar consciência da sua situação: objectos (portas, jarros, marcos do correio, degraus,…) desaparecem misteriosamente, paredes e prédios desabam, relógios deixam de funcionar, sofás têm febre, pessoas ficam nuas, cidades inteiras desaparecem …
Saramago põe em destaque a paranoia individual, mas sobretudo a colectiva, ele anula toda a materialidade e põe a nu o homem para o confrontar com a sua existência, com a sociedade em que se insere e vive de acordo com o que lhe é ditado. O homem torna-se objecto perante a inoperância e tirania do poder. O conto termina com uma réstia de esperança, de mudança porque, afinal, há sempre alguém que luta pela diferença.

Nestes textos, como em toda a obra, Saramago é exímio na crítica social.


02 janeiro, 2022

𝑫𝒂 𝑴𝒆𝒊𝒂-𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆 à𝒔 𝑺𝒆𝒊𝒔, de Patrícia Reis

 


Autora: Patrícia Reis
Título: da meia-noite às seis
N.º de páginas: 183
Editora: D. Quixote
Edição: Janeiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3278)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Este último livro de Patrícia Reis tem como pano de fundo a pandemia que vivemos. É, por isso, um livro na ordem do dia.
É o primeiro livro que leio sobre este tema, e escolhi-o porque sei que a autora não trataria o assunto de forma lamechas, mas sim de forma directa, envolvente e que nos fará reflectir. Não me enganei, a autora aborda a perda, o recomeço, os efeitos da pandemia, mas também versa sobre homofobia, racismo, conservadorismo, jornalismo, fake news, política e redes sociais.
“Qualquer pessoa nas redes sociais era jornalista, dizendo coisas, atiçando os espíritos, destilando fel, muito fel. A Rui Vieira faltava-lhe a capacidade para compreender como a ética deixara de ser fundamental.” (p. 117) “ Ele sabia estar a viver um tempo em que a verdade era essa: valia tudo:” (p. 116)
A protagonista, Susana Ribeiro de Andrade, perde o marido, em plena pandemia e vê-se completamente desamparada, confinada, obrigada a cumprir normas e, assim, a fazer o seu luto em casa, sozinha. Nesse período, ela é transportada para “um elevador de memórias” e dá-nos a conhecer a sua vida e sobretudo os seis anos de casamento com António Ribeiro de Andrade. São tempos angustiantes e de dor, mas também de referências culturais.
“ E estes pensamentos iam surgindo, assim como fios desatinados num novelo que já não se mantinha inteiro, a esfarelar-se no chão que era o que restava do coração dela. Restava-lhe isso, uma certa memória que lhe devolvia o marido através da música, da arte, dos livros.” 
(p. 74)

Forçada a retornar ao seu emprego como locutora numa estação de radio, acaba por aceitar o horário da meia-noite às seis, pensando que é a melhor maneira para não enfrentar a noite, em casa. De início, é apenas a voz das notícias, à hora certa, escritas pelo jornalista Rui Vieira, também, ele, vítima de um acidente no qual perdeu a voz. A cumplicidade que se estabelece na relação de trabalho acaba por ser a sua salvação. Ambos, um pela escrita, outra pela voz vão recriar o programa da noite e reinventar a solidão dos ouvintes e sobretudo a deles.
Com uma escrita muito característica de Patrícia Reis, as palavras fluem e o leitor ávido vai atrás do enredo e acompanha cada personagem nas suas angústias, nas suas fragilidades, nas suas resoluções e nas conversas tidas via email com Rui Vieira e via Whatsapp com os ouvintes do programa. Dois meios, que representam bem a forma como a pandemia nos apartou das relações presenciais e nos coagiu às tecnologias. Patrícia Reis toca na ferida, mostra o quão urgente é alterarmos a forma de viver no que toca às relações humanas, de repensarmos a vida.
É um livro sobre pessoas, sobre a solidão e a perda, mas sobretudo sobre a recuperação da identidade, sobre esperança e amizade, de redenção graças ao poder de uma voz que na noite, na solidão, vence barreiras e encontra apoio e ânimo ao pedir que lhe contem histórias felizes. Só isso!



29 dezembro, 2021

𝑼𝒎𝒂 𝑽𝒆𝒍𝒉𝒂 𝒆 𝒐 𝒔𝒆𝒖 𝑮𝒂𝒕𝒐 𝒆 𝒂 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝒅𝒐𝒊𝒔 𝒄ã𝒆𝒔, de Doris Lessing

 



Autores: Doris Lessing
Título: Uma Velha e o seu Gato e a História de dois cães
Tradutora: Ana Falcão Bastos
N.º de páginas: 94
Editora: Bertrand Editora
Edição: Abril 2016
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Dois pequenos contos devastadores e que muito significam. Doris Lessing escreve o que lhe vai na alma, livremente, sem se preocupar com o politicamente correcto. O tema predominante nos dois contos é a liberdade. A liberdade dos que rejeitam uma sociedade preconceituosa, uma sociedade normalizadora.
Num estilo directo, cru, por vezes cruel, mas também comovente, brota, no primeiro conto, uma crítica manifesta ao abandono dos idosos pelos filhos, facilmente esquecidos ou despachados para um lar e, no segundo, uma crítica mais subtil às opções, preferências e formas de ser e de viver.
Na conquista pela liberdade quer de Hetty, quer do gato Tibby, quer ainda dos dois cães, Jock e Bill, há lutas tremendas de subsistência, mas há também manifestações de afecto e de gratidão dos animais para com os seus donos. Nas duas narrativas registam-se momentos de extrema dureza, crueldade até, mas também de ternura. Hetty e Tibby tornam-se ambos sem-abrigo e vadios, mas livres. Hetty recusou todas as démarches do estado para a fecharem num lar, preferiu viver na errância, na companhia do seu gato leal que a aquecia do frio e caçava pombos para se alimentarem.
Se na primeira narrativa a opção de viver em liberdade é clara, na segunda, ainda o é mais. Dois jovens irmãos, a mando dos pais, tentam treinar e domesticar dois cães, mas não conseguem. E a crítica que subjaz neste conto é que devemos aceitar as pessoas, no caso, os animais sem alterar as suas características, a sua forma de ser. A liberdade é mais importante do que qualquer redução à domesticidade.
“O meu pai queixava-se de que os cães não obedeciam a ninguém. Exigia treino sério e sem tréguas. O meu irmão e eu ficávamos a ver a nossa mãe a afagar Jock e a ralhar com Bill e estabelecemos um acordo tácito. Partíamos para o Grande Vlei, mas, uma vez lá chegados, andávamos de um charco para o outro, enquanto os cães faziam o que lhes apetecia e descobriam as alegrias da liberdade.” (p. 73)

Ora, nos dois contos o final não é nada simpático, é triste e devastador, Dir-se-á que é o preço da liberdade! Mas será que tem de ser sempre assim? Fica a pergunta em jeito de reflexão.



27 dezembro, 2021

𝑨𝒔 𝑴𝒂𝒊𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂𝒔 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂𝒔 𝒅𝒆 𝑵𝒂𝒕𝒂𝒍, de vários autores

 


Autores: Vários
Título: As mais Belas Histórias de Natal
N.º de páginas: 180
Editora: Vega
Edição (2.ª): 2007
Classificação: Contos
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Uma magnífica recolha de doze contos de Natal escritos por autores conceituados como Aquilino Ribeiro, Charles Dickens, Tolstoi, François Mauriac e Selma Lagerlöf, entre outros.
Todos os contos apresentam ensinamentos e incentivam à bondade à generosidade, à entre-ajuda e à esperança, sem todavia esquecer a crítica à avareza, à inveja, à desunião, ao poder.
Gosto de (re)ler estas histórias, transportam-me para a minha infância, quando ia com os meus amigos apanhar o musgo e colher o azevinho para o presépio, quando esperava pelas prendinhas que o Menino Jesus (ainda acreditava) deixava nos sapatinhos colocados junto à lareira e que só abríamos no dia 25. Não havia Pai Natal, não havia consumismo desenfreado.
Sendo propícia esta época para olharmos para os outros com mais atenção e carinho, não devemos, contudo, descurar estes cuidados ao longo do ano, sobretudo para com as pessoas que nos são mais próximas, já que afinal, são estes os valores que nos são transmitidos pelas personagens que habitam estas e outras histórias natalícias. E se aplicarmos o aforismo “Natal é quando o homem quiser” que seja, então, ao longo do ano e não somente nestes dias que se transformam em euforia.

26 dezembro, 2021

𝑪𝒐𝒎𝒐 𝒂 Á𝒈𝒖𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆, de Marguerite Yourcenar



Autora: Marguerite Yourcenar 
Título: Como a Água que Corre 
N.º de páginas: 188
Editora: Abril/ControlJornal
Edição:  Maio 2000
Classificação: Novelas
N.º de Registo: (1104)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Como a Água que Corre contém três novelas, escritas em períodos diferentes e um posfácio para cada uma delas. Nestes, a autora fornece informações importantes que elucidam o leitor sobre determinados aspectos que motivaram a sua escrita e as subsequentes alterações. Por exemplo, ficámos sabedores de que “Anna, Soror...”, a primeira novela” é uma obra de juventude e que inicialmente foi escrita para ser um romance, um longo romance. Todas as novelas foram várias vezes alteradas e reeditadas. “Outros pormenores houve, bem entendido, que foram omitidos, acrescentados ou mudados.” (p. 185)
A autora esclarece que o título atribuído a esta recolha representa a imagem de “um rio, ou por vezes da torrente, ora lamacenta ora límpida, que é a vida.” (p. 165) Eu acrescentaria que o título representa também a mestria da sua escrita, do seu estilo. As palavras fluem naturalmente ao ritmo do rio, do tempo, da vida e o leitor fica rendido à beleza da narrativa.

Gostei sobretudo da segunda novela, “Um Homem Obscuro”, que nos apresenta as aventuras de Natanael, um rapaz simples, de índole transparente, tal como a água que corre, que se dá bem com qualquer pessoa apesar da existência de diferenças: “Apesar da diferença de cor, entendera-se bem com o mestiço; apesar da religião, que ela aliás não praticava, fora Sarai uma mulher como outra qualquer, também havia ladras baptizadas, (…)” (p. 132) Natanael é daqueles que pensam, que questionam, e aproveitam as ocasiões boas que a vida lhes apresenta, mantendo sempre a sua independência.

A terceira novela, mais curta, “Uma Bela Manhã” dá continuidade à segunda, e narra uma parte da vida de Lázaro, filho de Natanael e da prostituta Sarai. O pequeno Lázaro, que nunca conheceu seu pai, “não tinha limites, e bem podia sorrir amigavelmente ao seu próprio reflexo…”(p. 155) partiu com uma companhia de teatro, livre, para realizar um sonho “nessa sensação de ser tantas pessoas ao mesmo tempo, a viverem tantas aventuras” (p. 155) Nisso, sem o saber, era igual ao pai.

Para concluir, e citando de novo a autora que no segundo posfácio refere, “Toda a obra literária é assim feita de um misto de visão, lembrança e acto, de noções e de informações recebidas, no decorrer de uma vida, através da palavra ou dos livros, e de resquícios da nossa própria existência.” (p. 180). Só posso acrescentar que esta recolha de Marguerite Yourcenar espelha maravilhosamente a sua forma de encarar a obra literária. Nela, tudo flui como a água que corre e a obra-prima emerge e transporta o leitor na sua corrente ora calma ora impetuosa.


25 dezembro, 2021

𝑨 𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆 𝒅𝒆 𝑵𝒂𝒕𝒂𝒍, de Sophia de Mello Breyner Andresen


Autora: Sophia de Mello Breyner Andresen
Título: A Noite de Natal
Ilustrador: Jorge Nesbitt
N.º de páginas: 34
Editora: Porto Editora
Edição 5.ª: Novembro 2013
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3332)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A Noite de Natal é um dos livros para (re)ler sempre com prazer. É um conto que nos transporta para o verdadeiro significado do Natal, isto é, para os valores da amizade, do amor e da partilha. Gestos simples que por vezes, tão rapidamente, esquecemos.
Gosto especialmente de Sophia e os seus contos legam-nos um mundo encantado e maravilhoso.


 

Natal, Fernando Pessoa


                                           



«Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só, e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!»


Fernando Pessoa

21 dezembro, 2021

𝑳𝒆 𝑷𝒂𝒚𝒔 𝒅𝒆𝒔 𝑨𝒖𝒕𝒓𝒆𝒔, Leïla Slimani



Autora: Leïla Slimani
Título: Le Pays des Autres
N.º de páginas: 407
Editora: Gallimard (Folio)
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3299)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Le Pays des Autres é o primeiro livro de uma prevista trilogia, sustentada numa história familiar (a da própria autora) que tem como pano de fundo a independência de Marrocos, de 1944 a 1955.

O livro narra a história de Mathilde, uma jovem francesa, oriunda da Alsácia, que se apaixona, em 1944, pelo oficial Amine Belhaj, um marroquino que combatia no exército colonial francês na Segunda Guerra Mundial. No final da guerra, o jovem casal vai viver para Meknes, em Marrocos, uma colónia francesa.
Mathilde cedo percebe que este não é o seu mundo. Sente-se sufocada pela aridez da terra e do clima, pelas dificuldades em construir e manter uma harmonia familiar, em aceitar os usos e costumes religiosos e culturais, sobretudo em relação à mulher. Vista como inimiga pelos nativos porque é francesa e como uma selvagem pelos colonos franceses porque casou com um marroquino, é assim, rejeitada e criticada por todos. É, por isso, natural que se instale no seio familiar um confronto constante e doloroso, onde os sonhos são constantemente adiados. Este confronto, já por si, difícil de gerir, vai intensificar-se com a situação política, nas lutas de libertação que levarão o país à independência do protetorado, provocando conflitos entre marroquinos e franceses. Mathilde e Amine vão viver intensamente este conflito, vão tentar sobreviver à constante e ambígua luta interior entre amor e rejeição, submissão e emancipação, respeito pela identidade do outro e fidelidade às tradições culturais e religiosas.

O enredo deste livro entranha-se no leitor e permanece muito para além da última página. A escrita de Slimani, sem deixar de questionar e de narrar a verdade, revela uma grande humanidade e subtileza na caracterização das personagens, na descrição dos actos de violência, na submissão da mulher ao poder do homem. O título representa os dois lados desta ambiguidade porque representa o país que não é certamente o de Mathilde, mas também o país que não é dos marroquinos porque se encontra ocupado pelos franceses.



16 dezembro, 2021

𝑨 𝑫𝒆𝒍𝒊𝒄𝒂𝒅𝒆𝒛𝒂, David Foenkinos


Autor: David Foenkinos
Tradutora: Catarina Almeida
Título: A Delicadeza
N.º de páginas: 227
Editora: Presença
Edição: Agosto 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3248)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


É o primeiro livro que leio deste autor e fiquei seduzida. Compreendo agora por que foi selecionado para tantos prémios da rentrée literária em França.
É um livro desconcertante, divertido e delicado. Sim, é um livro que trata dos assuntos sentimentais, sejam eles dolorosos ou amorosos com uma tremenda delicadeza e naturalidade.
O enredo revela-nos uma história de amor, simples mas nada convencional. E é aqui que reside o encanto deste romance. Nathalie, a protagonista vive sete anos de um amor perfeito até que uma tragédia rompe essa felicidade. Entra em depressão profunda, perdida num luto que parece não ter fim, até que o destino lhe apresenta uma inusitada oportunidade,
É um beijo dado num momento de devaneio, sem sentido e completamente inesperado que vai espoletar uma improvável relação. Contra todas as expectativas é com Markus que Nathalie irá ultrapassar a dor e dar um novo rumo à sua vida. Markus é um homem pouco atractivo, tímido, com um fraco historial junto do sexo oposto, mas com um enorme sentido de humor e delicado no trato com os colegas e, naturalmente, com Nathalie.
Um beijo vai provocar um turbilhão de sentimentos desconexos nas duas personagens e tudo vai mudar.
Gostei muito da forma como Foenkinos nos conta a história, como nos descreve com exactidão, simplicidade e delicadeza o que cada personagem sente e pensa.
“Nathalie pensara que esse beijo fora ditado pelo acaso de uma pulsão. Talvez não. Talvez o acaso não existisse: Talvez tudo aquilo não tivesse sido senão o progresso inconsciente de uma intuição. O pressentimento de que estaria bem com aquele homem. (…)
- Posso beijá-la? – perguntou ele.
- Não sei… parece-me que estou a chocar uma constipação.
-Não tem importância. Estou disposto a ficar doente consigo. Posso beijá-la?
Nathalie gostara tanto que ele lhe tivesse perguntado. Era uma forma de delicadeza. Cada momento passado com Markus desviava-se da normalidade.” (p. 150)

A estrutura sai um pouco fora da caixa, na medida em que após cada capítulo surge um pequeno texto, uma entrada de dicionário, uma receita, um pensamento, enfim um complemento, sem nada alterar ou acrescentar ao enredo, mas que atribui certo encanto. Eis um exemplo:
“Pensamento de um filósofo polaco
Há pessoas formidáveis
que conhecemos no momento errado.
E há pessoas que são formidáveis
porque as conhecemos no momento certo.” (p. 94)

É um livro diferente para ler e para oferecer. É um livro que enaltece pequenos gestos, palavras sinceras, sentidas e que mostra a necessidade de aceitar quem verdadeiramente nos estima e nos respeita. É um livro de descoberta do outro e de superação da dor.


13 dezembro, 2021

𝑶𝒓𝒈𝒖𝒍𝒉𝒐 𝒆 𝑷𝒓𝒆𝒄𝒐𝒏𝒄𝒆𝒊𝒕𝒐, de Jane Austen

 

Autor: Jane Austen
Tradutora: Ângela Miranda Cardoso
Título: Orgulho e Preconceito
N.º de páginas: 396
Editora: Presença
Edição: Fevereiro 2014
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Neste clássico de literatura inglesa, a autora retrata a sociedade da época, início do século XIX, de forma brilhante. Pela caracterização das diversas personagens percebemos o quanto as relações humanas são interesseiras e promíscuas, muitas vezes, encobertas pelo estatuto social. Fica desde logo claríssima a ideia de que para que um casamento se realize (e penso que esta é um tema predominante na obra) não importa o amor, mas sim o valor do dote. Os valores morais como a hipocrisia, os ciúmes, a ambição e a ignorância tendem a prevalecer sobre a inteligência, a honestidade, a sinceridade e o amor verdadeiro.
Ao longo da narrativa, fica assim patente a importância dada ao dinheiro bem como o orgulho e o preconceito da maioria das personagens em relação à origem das famílias.
É na descrição de personagens psicológica e emocionalmente fortes que reside a beleza da escrita de Jane Austen. Num tom sarcástico a autora desafia os padrões da época e é em Elizabeth e em Mr Darcy, personagens modeladas, isto é, que evoluem ao longo da narrativa, que se centram esses desafios. Elizabeth revela uma personalidade forte e avançada para o seu tempo. Ela carrega em si a alteração necessária às convenções sociais e culturais da época. Não receia contrariar o papel destinado à mulher, não se subjuga às normas, não aceita o casamento por conveniência, critica abertamente as atitudes, e as decisões dos seus familiares e, mais importante, acaba por assumir os seus próprios erros e de os corrigir.
O mesmo se passou com Mr. Darcy que, de início, justifica a sua arrogância devido à riqueza e privilégio social que detém, mas que por amor, se modifica e decide casar uma uma mulher humilde, de estatuto inferior, contrariando o estabelecido na família e, por consequência, na época.
Assim, entre os dois protagonistas, a relação inicial pautada pela indiferença, arrogância e preconceito acaba por evoluir e transformar-se numa relação amorosa, verdadeira e de entendimento, tendo prevalecido a inteligência e a vontade própria de cada um.
Podemos afirmar que Jane Austen conseguiu demonstrar, protagonizando momentos divertidos e caricatos, que é possível alterar as mentalidades e corrigir comportamentos. Penso que o “Ridendo castigat mores”, de Gil Vicente se aplica aqui na perfeição.


12 dezembro, 2021

𝑺𝒐𝒃𝒓𝒆 𝒂 𝑳𝒆𝒊𝒕𝒖𝒓𝒂, de Marcel Proust


Autor: Marcel Proust
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Título: Sobre a Leitura
N.º de páginas: 52
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2020
Classificação: Ensaio
N.º de Registo: (3309)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Este pequeno ensaio sobre a leitura foi escrito pela primeira vez como prefácio ao livro “O Sésamo e os Lírios (Sésame et ses Lys), de John Ruskin, tendo no entanto, mais tarde, sido editado de forma independente e é hoje considerado um clássico sobre o prazer de ler.
Proust inicia o seu texto demonstrando que a leitura lega ao leitor imagens “dos lugares e dos dias” em que são feitas. Ele descreve episódios da sua infância sobre os seus hábitos de leitura que ficaram amplamente marcados na sua memória. Ele apreciava o silêncio e o isolamento para usufruir do prazer que a leitura lhe proporcionava.
O autor considera o acto de ler como uma terapia, “uma espécie de disciplina curativa…”
“ Enquanto a leitura é para nós a iniciadora cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós mesmos a porta das moradas nas quais não teríamos sabido penetrar, é salutar o seu papel na nossa vida. (…) como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros, como um mel completamente preparado pelos outros e que só temos de nos dar ao trabalho de recolher nas prateleiras das estantes e de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso de corpo e de espírito.” (p. 30)

Proust prefere a amizade que obtém dos livros em detrimento da amizade humana:
“Sem dúvida, a amizade, a amizade que tem que ver com os indivíduos, é uma coisa frívola, e a leitura é uma amizade. Mas pelo menos é uma amizade sincera, e o facto de se dirigir a um morto, a um ausente, lhe alguma coisa de desinteressado, de quase tocante. (…) Com os livros, não há amabilidade. Esses amigos, se passamos com eles o serão, é porque temos verdadeiramente vontade de o fazer. A eles, pelo menos, muitas vezes só contrariados os deixamos. ” (p.36)

Em suma, a leitura, como acto solitário e silencioso, permite ao leitor intuir, decifrar o pensamento do outro, educar o seu espírito, “sair de si-mesmo, viajar” e adquirir a capacidade de pensar e de criar.
“Ora, esse impulso que o espírito preguiçoso não pode encontrar em si mesmo, e que tem de lhe chegar de outrem, é claro que terá de recebê-lo no interior da solidão fora da qual, como vimos, não pode produzir-se essa atividade criadora que se trata precisamente de nele ressuscitar. Da pura solidão o espírito preguiçoso nada poderia tirar, uma vez que é incapaz de pôr ele mesmo em movimento a sua atividade criadora. (…) O que é necessário pois, é uma intervenção que, vinda embora de um outro, se produza no fundo de nós mesmos; é sobretudo o impulso de um outro espírito, mas recebido no interior da solidão. (…) A única disciplina que poderá exercer uma influência favorável sobre tais espíritos é, portanto, a leitura…mas, aqui, ainda, a leitura não age senão à maneira de uma incitação que em nada pode substituir-se à nossa atividade pessoal…” (p. 29)

É um pequeno livro maravilhoso.

07 dezembro, 2021

𝑴𝒆𝒔 𝑨𝒑𝒑𝒓𝒆𝒏𝒕𝒊𝒔𝒔𝒂𝒈𝒆𝒔, de Colette

 

Autor: Colette
Título: Mes Apprentissages
N.º de páginas: 213
Editora: Ferenczi
Edição: 1936
Classificação: Memórias
N.º de Registo: (67)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em 1909, aquando do seu divórcio, Colette referiu que "Só se morre do primeiro homem". Neste livro de memórias escrito em 1936, percebemos que passados vinte e cinco anos dessa tomada de decisão, a ferida ainda não cicatrizou. Num testemunho directo, porém seleccionado (apenas nos revela o que bem entende ou se lembra), ela regressa aos seus primeiros anos de jovem esposa, relata alguns factos da sua família, sobretudo da mãe que sempre a apoiou e a quem ela escondeu o seu fracassado casamento, evoca personalidades do mundo jornalístico e literário com o qual conviveu desde muito cedo, e centra-se, acima de tudo, na acusação contra o seu marido Willy.

Colette descreve a sua vida de casada com um homem mais velho e infiel, que a trancava no quarto para a obrigar a escrever a famosa obra Claudine (4 volumes) que ele editou como sendo de sua autoria. Era ele que tomava todas as decisões financeiras e domésticas, e ela sujeitava-se a tudo e obedecia.

Colette não consegue explicar a sua passividade e obediência ao marido. Justifica-a pela personalidade dominante deste, pelo medo de ficar sozinha e de confessar o seu fracasso. Foram treze anos de submissão, de humilhação, de incertezas e de desamor numa cidade que ela odiava, apesar dos encontros intelectuais que mantinha graças aos conhecimentos do marido, acabando por manter uma vida mundana, já que o casal frequentava os melhores salões parisienses. A hipocrisia e os falsos valores da alta sociedade reinavam na época.
O facto de ele a ter obrigado a escrever, lesando-a sobre os direitos de autor, acabou por lhe proporcionar, mais tarde, uma carreira literária e permitiu-lhe fomentar amizades fiéis que permaneceram ao longo da sua vida e a ajudaram a sair do logro.

Numa escrita inteligente e sincera, a autora acaba por ajustar contas com o marido, revelando a todos o seu verdadeiro carácter, mas também assume a sua própria fragilidade e, zangada, confessa que foi ele que acabou por deixá-la, antes que ela o fizesse. No final, e sem rancor, refere que “aprendeu a viver”.      



03 dezembro, 2021

𝑨 𝒗𝒊𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒐 𝑬𝒍𝒆𝒇𝒂𝒏𝒕𝒆, de José Saramago

 

Autor: José Saramago
Título: A Viagem do Elefante
N.º de páginas: 258
Editora: Caminho
Edição: Outubro 2008
Classificação: Romance
N.º de Registo: (2481)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


É uma releitura e como todas as releituras que faço, fico sempre mais satisfeita. A minha disponibilidade para a narrativa, visto que já conheço a trama, é mais centrada nos pormenores quer da escrita quer do carácter das personagens quer ainda das descrições.

O livro narra a viagem de um elefante, Salomão, vindo da Índia, mas que estava há dois anos em Lisboa e que foi oferecido pelo rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). É, portanto, essa viagem de Lisboa a Viena que o elefante e o seu cornaca, Subhro, terão de fazer acompanhados por um séquito bem específico e que garantirá que tudo corra como planeado.
Segundo o próprio autor, este livro é uma metáfora da vida humana. O facto de Saramago ter estado doente aquando da sua escrita (que esteve em risco de ser concluído) pode ter tido alguma influência na descrição da “viagem” do elefante que afinal acaba por ter o mesmo fim que a do ser humano, isto é, a morte, porque todos morremos, de forma diferente, é um facto, mas no fundo a passagem pela vida é isso mesmo e “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam” (epígrafe do livro).
A escrita é poética, fácil, prazerosa, repleta de considerações bem-humoradas sobre os comportamentos humanos e a sociedade da época (século XVI). Apesar de ser um livro com uma temática mais leve, a ironia e o sentido crítico de Saramago mantêm-se. A longa viagem mais não é do que a sua visão atenta sobre o homem, os representantes da igreja, a burocracia da administração, do Estado, a corrupção, a ignorância mas também a simplicidade e a sabedoria do povo.
“… uma boa coisa que a ignorância tem é defender-nos dos falsos saberes” (p.121) e “ … não há dúvida de que as melhores lições nos vêm sempre das pessoas simples.” (p. 144)
A genialidade da escrita e o sarcasmo sempre presentes são razões muito válidas para continuar a ler Saramago. Um dos meus autores preferidos.