11 junho, 2021

𝑨𝒍𝒎𝒐ç𝒐 𝒅𝒆 𝑫𝒐𝒎𝒊𝒏𝒈𝒐, de José Luís Peixoto

 


Autor: José Luís Peixoto
Título: Almoço de Domingo
N.º de páginas: 257
Editora: Quetzal
Edição: 1.ª Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3274)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Este romance biográfico revela-nos uma narrativa que decorre no futuro. Os três capítulos que o compõem marcam três dias importantes da vida de um alentejano de Campo Maior, império dos cafés Delta.

26, 27 e 28 de março. Os dois primeiros dias antecedem uma data muito importante, o dia do aniversário do Sr. Rui. São 90 anos. 90 anos de uma vida cheia de acontecimentos memoráveis. 90 anos de memórias e de recordações que de forma magistral e com muita sensibilidade nos vão sendo narradas.
Nestes três dias, e numa estrutura muito bem arquitectada, vamos descobrindo, no presente, a rotina pessoal e profissional do biografado, pela visão do narrador, e o passado que flui através da memória do mesmo protagonista. A acção que acontece no presente traz à memória uma acção idêntica, mas com anos de distância. E assim, numa intersecção de presente e passado, ao sabor da memória do Sr. Rui (ou será que é ao sabor da escrita do autor?) vamos conhecendo a sua família, as suas casas, os seus amigos, os seus empregados, os seus afectos, os seus sonhos, a sua resistência à pobreza, a sua luta no contrabando, a sua generosidade, o seu sucesso. Fica claro que para este homem a sua família desempenhou e continua a desempenhar um papel fulcral. Através da sua memória ele mantém essa ligação. Nos seus pensamentos convivem os pais, os irmãos, o tio, a sempre presente e doce Alice, a sua esposa, os filhos, as noras, os netos e bisnetos.

Este romance transpira humildade e generosidade quer do autor quer do biografado. É um hino ao Alentejo, à sensibilidade, à beleza e à resistência da gente alentejana. É uma homenagem ao homem, ao patriarca de uma família, ao patrão de toda uma povoação. É uma ode ao amor, ao amor sincero de toda uma família, a do passado e a do presente, que se reúne num almoço de domingo para celebrar os 90 anos do homem que tão bem soube conduzir a sua vida e a dos outros.

“Há silêncio bom, a companhia e a importância uns dos outros. Incentivado pelo domingo, começo a dizer alguma coisa, talvez alguma história da escola, não importa o assunto, desta vez não importa o assunto, conta muito mais que, neste instante, estamos juntos, tenho a atenção do meu pai, da minha mãe, das minhas irmãs e do meu irmão, Olham-me e escutam-me, estão fixos em cada palavra que digo. Estamos juntos. Sem parar de falar, satisfeito e criança, baixo o olhar sobre as minhas mãos de dez anos.
Quando o senhor Rui levantou o olhar das mãos de noventa anos, a pele engelhada e as veias nas costas das mãos, tinha todos à sua frente: os filhos, os netos, as noras, os bisnetos.” (p. 238)

“Com noventa anos o senhor Rui estava rodeado pela sua vida.” (p.249)


03 junho, 2021

𝑪ã𝒆𝒔 𝑴𝒂𝒖𝒔 𝒏ã𝒐 𝑫𝒂𝒏ç𝒂𝒎 , de Artur Pérez-Reverte

 


Autor: Arturo Pérez-Reverte
Título: Cães Maus Não Dançam
N.º de páginas: 157
Editora: Asa
Edição: 1.ª Fevereiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3270)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Cães Maus Não Dançam é uma parábola arrepiante, mas fabulosa! É pela perspectiva de um cão, Negro, que o autor nos leva a refletir sobre os valores da vida, sobre o politicamente correcto. Numa narrativa sublime, o autor cativa-nos e conta-nos uma história de sobrevivência, de amizade e de lealdade. Estes valores acabam por se sobrepor à extrema violência e, no final, salvam-se os bons e os maus são castigados.
À medida que acompanhamos a história de Negro, vamos também descobrindo o carácter do homem. O cão mata apenas por instinto de defesa, para sobreviver, mas quando tem um dono, é-lhe leal, segue-o até ao fim, ao contrário do homem que é capaz de o abandonar na beira de uma estrada porque já não lhe serve ou vai de férias…

“Há momentos na vida de um canídeo em que este arrisca tudo, como dizem os humanos, numa só cartada. E nessa cartada têm muito peso a nossa reputação e as nossas maneiras. As nossas atitudes. Entre os humanos há de tudo: seres dignos que nos dão educação, amor e felicidade, e seres miseráveis cujas virtudes não estão à altura das de um bom rafeiro: gente vil que nos dá cabo da vida e nos leva à tristeza, ao abandono, à solidão, ao horror e à loucura. Entre estes últimos, os maus, há também tipos muito diversos, do animal estúpido cuja bestialidade grosseira supera a nossa, até ao que tem dois dedos de testa e consegue raciocinar com inteligência.” (p. 128)

Adorei conhecer Negro, o “cão rafeiro, cruzamento de mastim espanhol e cão-de-fila brasileiro (…) olhos de velho, alma cheia de cicatrizes e olhar resignado, feito de séculos de sangue e fatalidade.” (p. 11), adestrado para assassino pelo homem, “corajoso e impiedoso” e sobretudo leal para com os seus amigos.

31 maio, 2021

𝒎𝒂𝒏𝒉ã 𝒆 𝒏𝒐𝒊𝒕𝒆, de Jon Fosse



Autor: Jon Fosse
Título: manhã e noite
N.º de páginas: 111
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: 1.ª Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3268)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


O título “manhã e noite” exprime metaforicamente o acto de nascer e de morrer. As duas partes abordam, assim, o nascimento e a morte de Johannes, protagonista deste romance.
Na primeira parte, o autor coloca, Olai, o pai de Johannes num monólogo reflexivo a ansiar pelo nascimento do filho, sem contudo, perder consciência de que quem nasce, ao nada voltará. Na segunda, a longa “reflexão encantatória” é feita pelo próprio Johannes.
“e agora ele virá, enquanto Marta, a mãe grita de dor, (…) e mais tarde, quanto tudo terminar , quando a hora dele chegar, desvanecer-se-á e tornará a ser nada e regressará ao lugar de onde veio, do nada para o nada, é esse o trajecto da vida, “ (p.14)

Jon Fosse de uma forma intensa, simples e despojada apresenta-nos uma belíssima reflexão sobre a efemeridade da vida. Neste texto, o nascimento está associado à dor, à angústia, à ansiedade da espera, enquanto a morte, pelo contrário, é leve e serena, sem medo e sem sofrimento.
Gostei muito da maneira como o protagonista foi conduzido por um amigo, Peter, também ele já morto, ao barco da travessia, indicando-lhe o bom caminho e levando-o para junto das pessoas que amou em vida. É uma clara alegoria a Caronte, o barqueiro que conduzia as almas dos recém-mortos à margem do Bem ou do Mal.
“E porque eu era o teu melhor amigo, cabe-me a mim ajudar-te a atravessar.” (p-107)

Neste pequeno livro, o autor pensa e questiona-se sobre a vida, sobre a existência de Deus. Segundo as suas reflexões, por vezes provocadoras, a vida e a morte, a manhã e a noite, devem ser encaradas com simplicidade, e dignidade. Aceitar o que Deus “porque ele existe” (p.15) rege para a vida de cada um, mas aceitar, de igual forma, o que Satanás também vai providenciando.

Na minha opinião, estamos perante uma reflexão filosófica escrita de forma simples e poética. Gostei muito, principalmente, da segunda parte.


29 maio, 2021

𝑴𝒂𝒓𝒊𝒂 𝑴𝒐𝒊𝒔é𝒔, de Camilo Castelo Branco

 


Autor: Camilo Castelo Branco
Título: Maria Moisés
N.º de páginas: 110
Editora: Porto Editora
Edição: 1.ª Maio 2014
Classificação: Novela
N.º de Registo: (Empréstimo BE)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Maria Moisés integra a obra Novelas do Minho. É a sexta das oito novelas que foram publicadas entre 1875 e 1877. Como o título da obra indica, trata-se de um retrato do Minho. Porém, e apesar da acção se situar naquela região específica, CCB retrata de forma satírica a realidade de todo um país marcado pela crise política provocada pela Revolução francesa e pelas invasões napoleónicas, mas também pelas lutas liberais.

Esta novela, dividida em duas partes, de pendor romântico apresenta já alguns traços realistas. A primeira parte narra a história de Josefa Lage que vive um amor proibido porque contrariado pelo pai do jovem António e que acaba num final trágico (tipicamente camiliano).

“ – Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade – pode V.ª S.ª dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispus. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca.”
(…) Ao outro dia, um mandado da regência ao intendente-geral da Policia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro" (pp. 36 e 37)

A segunda parte, revela-nos Maria Moisés, a menina enjeitada, salva do rio e criada pelos fidalgos da quinta de Santa Eulália. Como reconhecimento pela vida que teve decide, muito jovem, dedicar-se “aos meninos enjeitados”, acolhendo-os em sua casa.

CCB apresenta-nos, mais uma vez uma história sentimental com uma técnica narrativa muito bem estruturada, sobretudo na primeira parte: o leitor, no início da narrativa, é confrontado com uma morte, e só depois, ao longo da leitura, e através da fala das personagens, vai conhecendo a história de Josefa e a causa da sua morte.
Em suma, temos duas histórias, uma passional, de amor proibido e outra de solidariedade, de reencontro, ocorridas numa região aprazível, mas com gente agreste e conservadora.



𝑳á, 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒄𝒉𝒐𝒓𝒂, de Delia Owens

 


Autor: Delia Owens
Título: Lá, Onde o Vento Chora
N.º de páginas: 390
Editora: Porto Editora
Edição especial: Julho 2019
Classificação: Romance; YA
N.º de Registo: (Empréstimo BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Esta é a história de Kya, a miúda do pantanal. Um miúda que cresce sozinha depois de ter sido abandonada por todos os elementos da sua família. Kya, aos seis anos de idade, vai ter de aprender a sobreviver.

Apesar das dificuldades sentidas inicialmente, da dor provocada pelo abandono da família, principalmente, o da mãe, pela rejeição e intolerância a que é votada pelos habitantes da povoação, pela solidão de anos e anos, poder-se-ia pensar que a narrativa iria resvalar para a tristeza e o sofrimento, pelo contrário, é um hino à liberdade, ao amor e à beleza da natureza. Há descrições belíssimas da paisagem e de algumas espécies típicas do pantanal.

“E finalmente, num momento inesperado, a dor que sentia no coração desapareceu como água na areia. Continuava presente, mas a grande profundidade. Kya poisou a mão sobre a terra viva e morne, e o pantanal passou a ser a sua mãe.” (p. 43)

Trata-se de uma narrativa de formação onde a aprendizagem da vida, a descoberta de si e do corpo, estão fortemente ligadas à natureza. Kya rege a sua vida pelos ciclos do pantanal, descobre o seu corpo e os comportamentos humanos através da observação atenta dos animais. Kya selvagem e solitária faz do pantanal a sua casa e dos animais os seus amigos.
“Grande parte do que sabia aprendera-o com a vida selvagem. A natureza ensinara-a, nutrira-a e protegera-a, quando mais ninguém o fizera.” (p.385)

Extremamente inteligente e sensível rapidamente aprende a defender-se de tudo e de todos, a lutar contra o preconceito e a injustiça, mas também a descobrir o amor e a desilusão. Profundamente conhecedora e defensora da vida selvagem, a miúda do pantanal não entende o comportamento do ser humano e rejeita conviver e integrar-se na sociedade. “A natureza parecia ser a única pedra firme no caminho.” (p.225)

𝑳á, 𝒐𝒏𝒅𝒆 𝒐 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒄𝒉𝒐𝒓𝒂 é, simultaneamente, uma história deliciosa e pungente. Ninguém fica indiferente à vida de Kya e à sua relação com a natureza.


24 maio, 2021

Carlos Fiolhais escreve sobre o último livro de Afonso Cruz





No seu mais recente título, uma coletânea de pequenos textos, histórias e divagações à volta de livros, diz-nos que estes tanto podem matar como salvar-nos.



Tenho o vício dos livros. Não resisto nunca a entrar numa livraria ou alfarrabista. Leio pelo menos um livro por semana para fazer as recensões para este jornal e, por vezes, são mesmo dois ou três. Já me aconteceu regressar de uma livraria todo contente com um livro novo na mão, para verificar na minha biblioteca que afinal já tinha esse título, não passando de uma nova edição: não fico desconsolado, pois, se o tenho em duplicado, posso sempre oferecê-lo. E, de facto, duas edições diferentes são dois livros diferentes.

Se houvesse uma comunidade de “bibliófilos anónimos” não hesitaria em entrar, procurando apoio para “alcançar e manter a sobriedade através da abstinência total” de compra de livros. Encontraria lá gente muito interessante, como, por exemplo, Afonso Cruz, que acaba de publicar O Vício dos Livros, com a chancela da Companhia das Letras (do grupo Penguin Random House). É uma bela edição de capas duras, com ilustrações do próprio autor, que foi lançada no Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, 23 de Abril.

Tive a oportunidade de entrevistar Afonso Cruz em 23 de Novembro de 2018, no 10.º aniversário do Rómulo, Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, o centro que fundei à volta de uma biblioteca que homenageia Rómulo de Carvalho (nome real do poeta António Gedeão). Por essa biblioteca têm passado escritores como João Lobo Antunes, José Tolentino de Mendonça e Onésimo Teotónio Almeida. Tenho oferecido muitos livros a essa biblioteca, juntando-os a livros oferecidos, entre outros, por Guilherme Valente, o editor da Gradiva, e pela família de António Manuel Baptista, o grande divulgador da ciência. Também lá estão alguns livros de Afonso Cruz, que ele assinou na altura.

Afonso Cruz dispensa apresentações para além daquela que ele, com concisão, faz de si próprio nas badanas dos seus livros: “Escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Safed Lam. Em Julho de 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido, e haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, as Belas-Artes de Lisboa, o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de meia centena de países. Assina, desde Fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias sob o título “Paralaxe”. Recebeu vários prémios e distinções nas diversas áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.”

Fui, depois da entrevista no Rómulo, jantar com ele, tendo confirmado que gosta de cerveja, bebida que, segundo me explicou, era na Terra Santa mais comum do que o vinho no tempo de Jesus Cristo. Daí o curioso título de um dos seus romances, Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012). Os seus títulos primam, aliás, pela originalidade. O primeiro, com um título também de ressonâncias religiosas, A Carne de Deus (Bertrand, 2008), é uma história de aventuras tendo a maçonaria como pano de fundo. Entre esses dois livros saíram A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010; reedição: Companhia das Letras, 2018) e O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho, 2011). Seguiram-se, com uma regularidade impressionante, outros romances: O Livro do Ano (Alfaguara, 2013), O Cultivo de Flores de Plástico (idem, 2013), Para Onde Vão os Guarda-Chuvas (Companhia das Letras, 2013), Flores (idem, 2015), Nem Todas As Baleias Voam (idem, 2016), Jalan Jalan: Uma leitura do mundo (idem, 2017; “jalan” significa, em indonésio, “passear”), O Princípio de Karenina (idem, 2018), e Paz Traz Paz (Companhia das Letras, 2019). O estilo literário é, como os títulos, bastante original. Alguns destes livros foram premiados: por exemplo, Jalan Jalan ganhou em 2017 o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga da Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Braga.

Gosto particularmente da colecção de sete livros de Afonso Cruz, intitulada Enciclopédia da Estória Universal, quase todos da Alfaguara, saídos entre 2009 e 2018. São conjuntos de histórias apócrifas e aforismos de autores fictícios. De início estranhei, mas depois entranhei.

Afonso Cruz escreveu também vários livros infanto-juvenis, sendo o primeiro Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho, 2010) e o mais recente Como Cozinhar uma Criança (Alfaguara, 2019). Mais uma vez títulos extraordinários. Um outro livro recente dele é o ensaio O Macaco Bêbedo Foi à Ópera (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019), uma breve história cultural do álcool, com histórias sobre cerveja e vinho.

O Vício dos Livros é uma colectânea de pequenos textos, histórias ou divagações à volta de livros, que, na sua maior parte, viram a luz do dia no Jornal de Letras. O primeiro, “A primeira vez que conheci um esquifobético (A neve desaparece mas o original não desoriginaliza)”, conta os rabiscos que um brasileiro maluco fez intempestivamente no livro A Brincadeira de Milan Kundera que Cruz estava a ler, uma algaravia que o “esquifobético” - um termo não dicionarizado - traduziu para dar a frase do parêntesis. O último, “A voz dos livros”, conta a oferta que um avô lhe fez do livro Eles Vieram de Madrugada, de Manuela Câncio Reis, a mulher do escritor Soeiro Pereira Gomes, que foi preso político durante longos anos. A dedicatória do avô, também preso político, dizia: “Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que passei”. Escreve Cruz: “Este livro deixou então de ser de Manuela Câncio Reis para passar a ser o livro que o meu avô me escreveu. E a voz que ouvi enquanto lia o livro era a sua”.

Revelo um pouco deste estimulante livro sobre livros. Aprendi que os livros podem matar. O texto “Porém, a poesia pode matar amigos” conta a história de dois amigos que discutiram qual era o género literário mais significativo, a poesia ou a prosa. O amante de poesia acabou por matar o antagonista à facada. No texto “O poeta que foi assassinado pelos seus próprios livros”, Afonso Cruz, depois de descrever casos reais em que a queda de uma biblioteca matou o seu proprietário, escreve: “Qualquer bom leitor, quanto maior for a sua biblioteca, mais sente o peso esmagador do que leu e, principalmente, do que não leu […] e nunca poderá ler, ainda que, felizmente, o faça de forma menos literal do que os exemplos antes referidos.” A literatura, se por vezes mata, noutras vezes pode salvar. Em “A morte, perante os livros, fica sem poder” o autor cita um estudo da Universidade de Yale que expõe os benefícios da leitura: “Ler 30 minutos por dia fará viver, em média, mais dois anos. Se não for pelo prazer de ler, talvez devamos ler pela nossa saúde.”

Um dos textos que mais gostei está relacionado com a física. Intitulado “Principio de Anti-Fermat”, parte da experiência do autor, adolescente, a ler num autocarro a caminho da escola: “O princípio de Fermat diz-nos que a luz não percorre a distância mais curta, mas sim o tempo menor entre dois pontos. Um leitor, muitas vezes, tenta encontrar o caminho mais lento entre dois pontos. Era isso o que eu fazia. Ia para a escola pelo caminho com mais palavras.”

Sobre a liberdade que a leitura confere, Afonso Cruz conta a história de uma mulher do Kuwait que abandonou as vestes e os hábitos tradicionais: “Comecei a ler e libertei-me”. Há outras citações. Por exemplo, de uma inscrição egípcia: “Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: Casa para terapia da alma”. E do escritor francês Jules Renard: “Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz.” São citados outros escritores como Plutarco, Lewis Carroll, Edith Wharton, Stefan Zweig, Franz Kafka, Aldous Huxley, Rainer Maria Rilke, Elias Canetti, George Steiner e Rosa Montero.

O texto “O que se esconde debaixo de um poema” fez-me lembrar Jorge Luís Borges: “Um poeta, quando escreve um poema e levanta a folha onde o escreveu, descobre uma infindável pilha de poemas onde foi escrita toda a poesia que precedeu o seu poema, e ao pousar essa mesma folha verá que já contém o peso de incontáveis poemas escritos sobre aquele que acabou de escrever.” De facto, os livros têm sempre um passado e um futuro.

Vou colocar O Vício dos Livros na minha biblioteca perto de outros livros sobre livros. Acho que fica bem perto do livrinho de Montaigne Dos Livros (Teorema, 1999), que aliás Afonso Cruz cita, e onde o escritor francês comenta as suas leituras: “Não me apego aos livros novos porque os antigos me parecem mais ricos e mais sólidos”. E do de Proust O Prazer da Leitura (idem, 1997), onde se lê: “O que difere essencialmente entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menor sensatez, mas a maneira como se comunica com ele; a leitura, ao arrepio da conversa, consistindo para cada um de nós em receber comunicação de outro pensamento, mas permanecendo a sós.”

Na biblioteca do Rómulo, em Coimbra, os livros de Afonso Cruz estão na companhia dos de Carl Sagan, que, em Cosmos (Gradiva, 2020), escreveu: “Os livros permitem-nos viajar através do tempo, de beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarmos e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana.” O mais recente livro de Afonso Cruz entrará um dia no Rómulo. Tenho esperança de que ajude a fomentar o vício dos livros.


CARLOS FIOLHAIS 



19 maio, 2021

𝑨𝒓𝒔è𝒏𝒆 𝑳𝒖𝒑𝒊𝒏, 𝑳𝒂𝒅𝒓ã𝒐 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒔𝒂𝒄𝒂, de Maurice Leblanc



Autor: Maurice Leblanc
Título: Arsène Lupin, Ladrão de Casaca
N.º de páginas: 166
Editora: Leya
Edição especial: Fevereiro 2019
Classificação: Policial
N.º de Registo: (3282)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Conheci o Arsène Lupin, nos anos 70, através da televisão francesa. Era uma fã incondicional e agora com a nova edição dos seus livros, decidi reencontrá-lo.
Arsène Lupin, personagem criado por Maurice Leblanc, apareceu ao público, pela primeira vez, publicado na revista “Je Sais Tout”, corria o ano de 1905. Como teve um sucesso retumbante, o autor decidiu dar continuidade aos contos. Consta também, que este herói foi criado par dar resposta ao famoso detective inglês, Sherlock Holmes. Efectivamente, o último conto deste primeiro livro intitula-se “Sherlock Holmes chega demasiado tarde”. É um conto maravilhoso e, neste primeiro confronto entre o ladrão e o detective mais inteligentes da esfera ficcional, é, inevitavelmente, Arsène Lupin que sai vencedor, porém fica a promessa de novos encontros e quem sabe, talvez com desfechos diferentes.

“ E acredito que Arsène Lupin e Sherlock Holmes se encontrarão novamente algum dia. Sim, o mundo é muito pequeno. Iremos encontrar-nos, temos de encontrar-nos, e depois…” (p. 166).

O protagonista é um autêntico ladrão de casaca, muito cavalheiro e charmoso (le gentleman cambrioleur) que rouba para humilhar os ricos, a burguesia francesa.

Personagem muito carismática e sarcástica, age com regras bem definidas: não mata, não usa violência, anuncia-se, diverte-se e deixa sempre um cartão de visitas. Todos os seus actos são minuciosamente arquitectados. É mesmo encantador!


16 maio, 2021

𝑽𝒐𝒗ô 𝑻𝒔𝒐𝒏𝒈𝒐𝒏𝒉𝒂𝒏𝒂, de Augusto Carlos

 

Autor: Augusto Carlos
Título: Vovô Tsongonhana
N.º de páginas: 106
Editora: Nova vaga
Edição: 1.ª- 2005
Classificação: Conto
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐



Vovô Tsongonhana é o segundo livro de um conjunto de quatro volumes. O autor pretende mostrar, através da escrita, o caminho percorrido em busca da sua paz interior.
Neste volume, é narrada a história de um menino, Dudinho, que vive nas ruas de Maputo e é adoptado pelo “Vovô” com quem vai aprender a viver em liberdade e a respeitar a Natureza.
Numa escrita simples e fluida, o autor passa uma filosofia de vida ancorada no amor, no respeito pelo outro e pela Natureza.
Os ensinamentos que o vovô Moisés transmite a Dudinha são baseados no exemplo, no questionamento e na compreensão do mundo que o rodeia. Ensina-o a sobreviver, a buscar a “energia da Natureza” na colheita de frutos, na caça e na pesca. Ensina-o respeitar e a amar o próximo.
É um livro interessante que recomendo sobretudo aos mais jovens.


𝑶𝒔 𝑽𝒊𝒗𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de José Eduardo Agualusa

 



Autor: José Eduardo Agualusa
Título: Os Vivos e os Outros
N.º de páginas: 252
Editora: Quetzal
Edição: 1.ª- Abril 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3238)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em Os Vivos e os Outros, explora-se a literatura e o seu papel na vida dos escritores e dos leitores. Na Ilha de Moçambique, lugar paradisíaco, decorre, durante sete dias, um festival literário que reúne escritores africanos.

Nos sete capítulos, correspondentes aos sete dias do encontro, são narrados os vários acontecimentos relacionados com o festival, mas também com o isolamento provocado pela falta de comunicação (telefone e internet) consequência de uma violenta tempestade no continente. No final do primeiro dia/capítulo, o narrador informa que algo vai acontecer:
“É assim que tudo começa: a noite rasgando-se num enorme clarão, e a ilha separando-se do mundo. Um tempo terminando, um outro começando”. (p.31)

Assim, temos uma narrativa sobre pessoas confinadas num determinado tempo, num lugar maravilhoso onde vão acontecer coisas fabulosas relacionadas com as obras de alguns escritores e as suas personagens. O enredo vai desenvolver-se numa fusão da realidade com a ficção e com o maravilhoso, traço recorrente em vários livros do autor. “Somos nós quem constrói os mundos! – grita Moira – Somos nós! Os mundos germinam dentro da nossa cabeça, e crescem até não caberem mais, e então soltam-se e ganham raízes. A realidade é isso, é o que acontece à ficção quando acreditamos nela!” (p. 180)
É neste aspecto que se destaca a escrita de Agualusa, a sua mestria na fusão de um mundo imaginário com o real. Ao longo da narrativa construída à volta das percepções dos vários escritores e das conversas sobre literatura, escrita, história e cultura da ilha e sobre a identidade de um continente, surgem dúvidas, angústias, mas também reencontros, sonhos e momentos de criatividade.
Fica clara a crítica à sociedade, ao mundo literário. Há uma necessidade urgente de mudança, um desejo de uma sociedade melhor, do nascimento de um novo mundo.
Ao ler este livro não podemos deixar de assinalar a coincidência da ficção escrita por Agualusa e a realidade vivida no mundo actual. O próprio livro, antes de ser publicado, ficou confinado à espera da reabertura das livrarias. Surge como uma escrita visionária que representa o medo que se apoderou das pessoas, mas também a oportunidade de desfrutar das coisas simples.
“ Uli pede silêncio. Fala para todos, como se se dirigisse a cada um, com a mesma voz macia que usa , reza a lenda, para hipnotizar elefantes, explicando que aquela é uma situação extraordinária e que depressa se resolverá (...), aproveitem para ler e para escrever, ou apenas para conversar uns com os outros, como eu mesmo tenho feito, cercado de escritores que admiro há tantos anos e de amigos que vejo menos vezes do que gostaria. Acorrentados aos deveres do dia a dia, estamos sempre a queixar-nos de que nos falta tempo para as coisas simples da vida. Pois bem, agora temos tempo.” (p. 177)

Será que, tal como no livro, vamos sair deste confinamento com a ideia de que teremos um novo mundo, um mundo melhor? Ou não passa de uma utopia?


12 maio, 2021

𝑶 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒏𝒐𝒔 𝑻𝒆𝒎𝒑𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝑪ó𝒍𝒆𝒓𝒂, de Gabriel García Márquez



Autor: Gabriel García Márquez
Título: O Amor nos Tempos de Cólera
N.º de páginas: 387
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Outubro 1987
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3275)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Há livros que sabemos que são bons, que são de leitura obrigatória, mas que vão sendo protelados ou mesmo olvidados, até que surge uma oportunidade e então coloca-se a questão óbvia: por que razão é que não tinha ainda lido este livro?
É um livro fabuloso. Um grande romance muitíssimo bem escrito. Numa narrativa escorreita, o autor apresenta-nos uma história de amor (ou serão duas?) que ocorre em tempos de cólera, no mar das Caraíbas, num país em divergências político-sociais.

O romance, uma grande analepse, tem três protagonistas, a bela Fermina Daza e dois homens que a amam, Florentino Ariza e Juvenal Urbino. O primeiro amor, um amor muito platónico e pueril entre Florentino e Fermina é alimentado por esperas, olhares, promessas, sonhos e longas cartas, mas assim que é interceptado pelo pai dela, são imediatamente separados e o pai decide arranjar as coisas para casar a filha com o doutor Juvenal Urbino, médico respeitado, na região.
Florentino sofre uma forte desilusão e com o coração despedaçado jura esperar por ela, desejando a morte do marido. A espera revestida de um amor eterno, por vezes obsessivo, dura cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias e termina com um final maravilhoso, mas muito improvável.

Toda a história está repleta de emoção. O realismo mágico, tão próprio do autor, torna plausível uma história com várias inverosimilhanças. Mas a linguagem poética e sensível, o uso de metáforas, o sentido de humor, a ironia e a técnica (estrutura circular) utilizada para narrar a história tornam este romance numa perfeição e o leitor que, em certos momentos, despreza Florentino Ariza, abomina o oportunismo e a superficialidade de Fermina Daza e critica a aventura, fora de casa, de Juvenal Urbino, acaba por ficar seduzido e enfeitiçado.

O Amor nos Tempos de Cólera é um romance sobre o amor e as suas contrariedades, sobre a passagem do tempo – da juventude à velhice – sobre o quotidiano de uma família marcado por hábitos conquistados ao longo de cinquenta anos de vida em comum, mas também sobre as guerras internas e a epidemia que assolam o país. Para além de um romance de amor é sobretudo um romance sobre um país e uma cultura e, ainda, sobre a redenção dos males deste mundo em que os sentimentos prevalecem sobre tudo, transpondo idades, preconceitos e conflitos.

Nesta obra, para mim das melhores de Garbo, o autor realiza com grande mestria, excelência e sensibilidade a arte de bem escrever.


02 maio, 2021

Dia da Mãe

 


                                                                         Pintura de Mary Cassatt 




FALA DE MÃE E FILHO

«Meu filho:
onde vais
que tens do rio o caminhar?»

Não espreites a estrada, mãe,
que eu nasci
onde o tempo se despenhou.

«Meu filho:
onde te posso lembrar
se apenas te dei nome para te embalar ?»

Mãe, minha mãe:
não te pese saudade
que eu voltarei sempre
como quem chega do mar.

«Meu filho:
onde te posso nascer
se meu ventre seco
nunca ninguém gerou?»

Mãe, nascerás sempre
na pedra em que te escuto:
a tua ausência, meu luto,
teu corpo para sempre insepulto.

Mia Couto, in Tradutor de Chuvas.

30 abril, 2021

𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓 𝒆𝒎 𝑩𝒓𝒂𝒏𝒄𝒐, de Rodrigo Guedes de Carvalho

 

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Título: Mulher em Branco
N.º de páginas: 295
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Março 2006
Classificação: Romance
N.º de Registo: (empréstimo)

OPINIÃO ⭐⭐


Há muito que andava para ler um livro do RGC, e ao comentar isto com uma amiga, emprestou-me este que tinha em casa. Como não gosto de ter livros emprestados durante muito tempo e porque este já o tinha há alguns meses, decidi que era o momento de pegar nele. 
Após a leitura de várias páginas, senti-me incomodada porque não estava a atinar com a técnica narrativa. Dei mais uma oportunidade e li mais umas tantas páginas porque a temática era interessante e a história tinha todos os ingredientes para ser atractiva. Esforço em vão, não consigo mesmo gostar da maneira como a história está a ser narrada, por vezes, nem sequer entendo quem esta a narrar. 
Confesso que ando muito cansada e que talvez não seja o momento oportuno para esta leitura. Não tenho por hábito deixar um livro a meio, acho sempre que o autor merece que se faça o esforço de o ler até ao fim, mas desta vez não vou insistir. 
Fica, contudo, a promessa de dar uma nova oportunidade ao autor, mas com outro livro.

29 abril, 2021

𝑶 𝑰𝒏𝒇𝒊𝒏𝒊𝒕𝒐 𝒏𝒖𝒎 𝑱𝒖𝒏𝒄𝒐, de Irene Vallejo



Autor: Irene Vallejo
Título: O Infinito num Junco
N.º de páginas: 406
Editora: Bertrand Editora
Edição: 1.ª- Outubro 2020
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: 3273



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


O Infinito num Junco justifica plenamente o subtítulo “A invenção do livro na Antiguidade e o nascer da sede da leitura”. É um livro fabuloso sobre a história do livro que não pode passar ao lado dos amantes deste objecto estranho que não precisa de um botão para abrir. Irene Vallejo doutorada em Estudos Clássicos conta-nos de forma minuciosa e apaixonada o seu interesse pelo livro e a sua sede de leitura. “Quando um relato me invade, quando a sua chuva de palavras penetra em mim, quando compreendo de forma quase dolorosa o que conta, quando tenho a segurança – íntima, solitária - de que o seu autor mudou a minha vida, volto a acreditar que eu, especialmente eu, sou a leitora de quem esse livro andava à procura. “ (p-109)
A leitura deste livro, foi uma viagem maravilhosa que teve início na Grécia com o surgimento do alfabeto e da escrita nos seus diversos suportes (fumo, tabuinhas, papiro, pergaminho, pele, papel e digital), na criação de bibliotecas pessoais e públicas, de livrarias e de escolas. É uma história gigantesca de conquistas, de perdas, de destruição, de materiais e técnicas, de reis conquistadores, de saqueadores, de poetas, de filósofos, de sábios, de colecionadores de livros, de bibliotecários, de escravos, de escribas, de copistas, de livreiros, de monges e freiras, de leitores e de mulheres fabulosas que ousaram estudar, aprender a ler e a escrever contrariando a civilização que tinha a ideia “tatuada na sua mente: a palavra pública pertencia apenas aos homens” (p.165)

Estamos em constante diálogo com os livros, viajamos no tempo e no espaço, vivemos nas memórias do passado e no presente, aprendemos imenso sobre as lutas e as conquistas gregas e romanas, acompanhamos algumas experiências pessoais da autora e aumentamos a nossa lista de livros a ler e de filmes a ver graças à quantidade de referências não só do passado mas também actuais.

Se considerarmos como Irene Vallejo que “A paixão do colecionador de livros é parecida com a do viajante. Toda a biblioteca é uma viagem; todo o livro é um passaporte sem data de caducidade.” e que “A leitura, como uma bússola, abria-lhe os caminhos do desconhecido” (p. 38), então este é um livro de leitura obrigatória.


24 abril, 2021

𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔, de Afonso Cruz



Autor: Afonso Cruz
Título: O vício dos livros
N.º de páginas: 118
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1.ª- Abril 2021
Classificação: Reflexões
N.º de Registo: 3281


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Para assinalar o Dia Mundial do Livro, li este belíssimo livro escrito e ilustrado por Afonso Cruz. Como se trata de um livro pequeno e de breve leitura, decidi Interromper a minha leitura actual  O Infinito num Junco, de Irene Vallejo, (livro fabuloso que apaixona qualquer viciado em livros, mas de leitura bem mais lenta quer pela dimensão quer pela informação) e assim comemorar o Dia em pleno.
𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 reúne histórias, relatos, poemas, memórias pessoais e reflexões sobre leitores, críticos e obviamente sobre o poder dos livros.

Lego-vos o pequeno texto “Princípio de anti-Fermat” que achei delicioso (p. 45)
Quando era adolescente, ia para a escola ler. Apanhava o autocarro que levava mais tempo (hora e meia em vez de uma hora, no total) porque assim não tinha de sair e apanhar o metro, permitindo-me passar mais tempo a ler. Como a paragem de origem era perto de minha casa, havia sempre lugar no autocarro. Escolhia o último, à janela.
O princípio de Fermat diz-nos que a luz não percorre a distância mais curta, mas sim o tempo menor entre dois pontos. Um leitor, muitas vezes, tenta encontrar o caminho mais lento entre dois pontos. Era isso que eu fazia. Ia para a escola pelo caminho com mais palavras.” (sublinhado meu)

E como amanhã se comemora o Dia da Liberdade, transcrevo também um excerto do texto “Liberdade” (p.49)
“ Caminhei pelo centro da cidade com uma escritora, bastante famosa no mundo árabe, (…). Tinha sido casada, durante mais de uma década, com um homem de uma família muito conservadora, teve dois filhos e depois divorciou-se. O que aconteceu? Perguntei eu, e ela respondeu que se libertou. Como? Insisti.
- Comecei a ler e libertei-me.”

E para terminar: “Ao contrário de tantos outros vícios, o dos livros, é, na verdade, uma virtude. De facto, ter livros não é o mesmo que, por exemplo, ter dinheiro. Ter livros é como ter amigos, ter dinheiro é como ter com que pagar a amigos. (p.65)

Recomendo a todos os viciados em livros. Só mesmo aos viciados porque os não-viciados não compreenderão que “a leitura é um diálogo entre autor e leitor e que, se não houver um abalo qualquer naquele que lê, então tudo terá sido em vão.” (p.62)

    



17 abril, 2021

𝑩𝒆𝒍𝒐𝒗𝒆𝒅 , de Toni Morrison

 


Autor: Toni Morrison
Título: Beloved
N.º de páginas: 351
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- 2009
Classificação: Romance
N.º de Registo: 2710


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Beloved talvez seja o romance mais conhecido de Toni Morrison, venceu o Prémio Pulitzer em 1988 e foi certamente importante na atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1993. É o primeiro romance de uma trilogia que inclui Jazz e Paraíso.
Baseado em factos reais mas também sobrenaturais, resgata a memória individual de algumas personagens, mas sobretudo colectiva da escravatura norte-americana no estado de Ohio no pós-Guerra da Secessão. Trata-se de uma narrativa de redenção, da história de um povo que foi escravizado, violentado, torturado. Mesmo após a liberdade, as marcas permanecem, corroem e desgastam.
“Os brancos achavam que quaisquer que fossem os modos, sob cada pele escura existia uma selva. (…) Quanto mais os negros se desgastavam a tentar convencê-los que eram amistosos, que eram inteligentes e afectuosos, que eram humanos, quanto mais se cansavam a convencer os brancos de algo que achavam que nem devia ser questionado, mais a selva crescia e se adensava.”(p. 259)

A leitura não é linear, é mesmo, em certas passagens, desconexa e requer alguma concentração. Apesar de uma linguagem poética e pungente, há passagens difíceis não só devido às histórias cruéis, ao desgaste emocional, aos traumas vividos pelas personagens mas também devido a uma linguagem mais densa e a uma estrutura complexa.
É uma leitura desafiante que causa ambiguidades e que obriga o leitor a juntar as peças, como num puzzle, para acompanhar a mensagem. Tal como em relação ao holocausto é necessário escrever e ler sobre estes períodos da nossa História para que a memória permaneça.





09 abril, 2021

𝑳é𝒙𝒊𝒄𝒐 𝑭𝒂𝒎𝒊𝒍𝒊𝒂𝒓, de Natalia Ginzburg

 


Autor: Natalia Ginzburg
Título: Léxico Familiar
N.º de páginas: 191
Editora: Relógio d'Água
Edição: 1.ª- Janeiro 2019
Classificação: Romance 
N.º de Registo: 3277



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Natalia Ginzburg conta a história da sua família integrada numa Itália de Mussolini. Esta suposta, digo suposta porque a autora refere na advertência que “não se trata da minha história, mas antes, embora com vazios e lacunas, da história da minha família”), autobiografia romanceada está bem escrita, e os acontecimentos familiares e históricos são narrados de forma sincera, íntima, elegante e divertida.

Tratando-se de histórias banais do dia-a-dia, por vezes sem importância, a autora, apesar de também narrar momentos de detenção, de perseguição e de morte, opta por resgatar a sua memória familiar dando ênfase ao “léxico”, às frases proferidas por cada elemento da família. O mais marcante e peculiar é sobretudo o do pai. Este, bastante severo nos seus juízos, dirigia-se aos filhos e à esposa de forma insultuosa e preconceituosa. Todos eram estúpidos e tratava-os de “cafres” e “asnos”.

“Qualquer ato ou gesto nosso que considerasse inapropriado, definia-o como «uma cafrealidade». – Não sejam cafres! Não façam cafrealidades! – gritava-nos a todo o momento.” (p. 9)

A trama avança, assim, transportada pelos gritos do pai, pelos desabafos da mãe, pela poesia de uns, pelas expressões de outros, pelas frases vezes sem conta repetidas e que atribuem identidade e ritmo à história.

“Somos cinco irmãos. Vivemos em cidades diferentes, alguns de nós no exterior, e não nos escrevemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, uns para os outros, indiferentes ou distraídos. Mas basta, entre nós, uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo da nossa infância. (…), para redescobrirmos no mesmo instante as nossas relações de outrora, e a nossa infância e a nossa juventude, indissoluvelmente ligadas a essas frases , a essas palavras. Uma dessas frases ou palavras faria que nos reconhecêssemos mutuamente, como os irmãos que somos, na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso latim, o vocabulário dos nossos dias idos, (…) o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive nos seus textos, salvos da fúria das águas, da corrosão do tempo. Essas frases são o fundamento da nossa unidade familiar,…(pp. 25 e 26)

O leitor abanca nesta família judia, intelectual e activista, convive com os amigos e familiares, diverte-se com as piadas, toma partido nas brigas entre irmãos, acompanha as lutas de resistência antifascista, de prisão, de fuga e de morte, aceita a forma subtil e por vezes ingénua da autora em relação à intolerância e à perseguição dos antifascistas e dos judeus porque fica claro que a autora não pretende explorar os seus sentimentos, mas sim em revisitar os momentos vividos em família e com os amigos.

Gostei e recomendo este livro porque está muitíssimo bem escrito e porque nos transporta para uma época importante da história e da cultura de Itália. 



04 abril, 2021

𝑺𝒖𝒊𝒕𝒆 𝑭𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒊𝒔𝒆, de Irène Némirovsky

 

Autor: Irène Némirovsky
Título: Suite Francesa
N.º de páginas: 579
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Outubro 2005
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: 2026

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Suite Française, escrito aquando da invasão da França pelas forças nazis, contém duas, “Tempestade de Junho” e “Dolce”, das cinco partes previstas pela autora; várias notas manuscritas que evidenciam o seu método de trabalho e as suas pretensões sobre este livro, por exemplo, nelas ficamos a saber que a terceira parte se chamaria “Cativeiro”; e ainda um vasto conjunto de cartas que indicam a troca de correspondência existente entre o seu marido e várias pessoas/organismos para tentar libertar a sua mulher que foi capturada e deportada para Auschwitz.

Uma das particularidades deste livro, publicado postumamente pela sua filha mais velha, Denise Epstein (2004), é o facto de a autora escrever a sua história à medida que vive os acontecimentos. O que narrou foi o que testemunhou, e na impossibilidade de continuar a escrever porque foi deportada, não concluiu a terceira parte que já se encontrava em fase avançada. A autora já tinha anotado o que pretendia narrar, mas faltava-lhe o desenvolvimento real da acção (esta intenção está muito clara nas notas anexadas) porque o caracter e o destino das personagens vão-se modificando de acordo com o evoluir da ocupação, da guerra.

Na primeira parte, a autora descreve a debandada geral dos franceses de Paris. Não se debruça tanto sobre os factos em si, mas sim sobre os detalhes dos comportamentos das personagens-tipo seleccionadas. É através da caracterização das personagens e das suas atitudes que percebemos o cenário do enredo influenciado por “factores de ordem social, cultural e económica”. Sem fazer juízos de valor, a autora incide nas reacções, nos comportamentos egoístas, mesquinhos, hipócritas dos franceses abastados forçados a abandonar o conforto do lar e a segurança do seu emprego/estatuto, mas também na ingenuidade e integridade de algumas personagens, poucas, de classe média.

“Meu Deus, o que eu vi! Portas fechadas, onde se batia em vão para pedir um copo de água, refugiados que pilhavam as casas; por toda a parte, de uma ponta à outra, a desordem, a cobardia, a vaidade, a ignorância! Ah! Que triste figura a nossa!” (p. 241)

Na segunda parte, a narrativa desloca-se para o campo, para um pequeno burgo ocupado pelos alemães. Nesta parte, a autora vai insistir nos afectos, nas relações entre familiares, entre vizinhos, mas sobretudo no relacionamento entre franceses e alemães. Há descrições fabulosas de desentendimentos familiares, de denúncias de vizinhos, de favores, de colaboracionismo, de revolta, de amor e de resistência. O leitor não ficará alheio à história de Lucile, viúva(?) e de Bruno Von Falk (esta história, trouxe-me à memória outro livro, também citado nas notas do tradutor, célebre pela narração de uma história idêntica, Le Silence de la Mer, de Vercors).
A autora foi criticada pela sua “suposta” empatia e aceitabilidade do alemão inimigo instalado nos lares franceses, mas o que ela pretendeu foi pôr em evidência o contraste de alguns alemães sensíveis e cultos perante a hipocrisia, a cobardia e o oportunismo de alguns franceses colaboracionistas. Em seu abono, não devemos esquecer que nessa altura ainda se desconhecia muito do que iria acontecer e que ela própria iria viver, e também que tinha previsto mais três partes que certamente esclareceriam a sua posição perante o inimigo. (já se antevê nas suas notas)

Numa escrita intensa apesar de sóbria e simples, com ambientes e personagens meticulosa e soberbamente descritos, a autora agarra o leitor e transporta-o para um cenário de caos, de medo, de traição, de morte, mas também de paixão e leva-o a questionar-se sobre o papel de cada um nesta guerra. Nas notas, a autora alerta ”o leitor só tem de ver e ouvir”.

Recomendo vivamente. Este é sem dúvida o melhor livro que li da autora. Ganhou o Prémio Renaudot em 2004 e foi adaptado ao cinema por Saul Dibb, em 2014.



23 março, 2021

𝙊 𝙖𝙢𝙤𝙧 𝙦𝙪𝙚 𝙨𝙞𝙣𝙩𝙤 𝙖𝙜𝙤𝙧𝙖, de Leila Ferreira


 Autor: Leila Ferreira
Título: O amor que sinto agora
N.º de páginas: 220
Editora: Planeta
Edição: 1.ª- Julho 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3151


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Foi um livro que me surpreendeu pela positiva. Foi-me oferecido e só o li porque me foi recomendado. É um daqueles livros que nunca compraria pelo título, mas ainda bem que cedi à recomendação e confesso que também fui influenciada pela opinião do Agualusa.
Trata-se de um livro assaz pequeno, não pelo número de páginas, mas pela quantidade de texto já que se trata de um romance epistolar. A escrita é simples, mas profunda e que subtilmente nos conduz através de uma narrativa dura, intimista e dolorosa que nos faz reflectir sobre violência, amores, desamores, opções de vida, incompletudes.

Quatro anos após a morte de sua mãe, Ana arranja finalmente coragem para ler a carta que ela lhe deixou. É uma carta dolorosa como se calcula e Ana ao “abrir as janelas do quarto trancado onde guardou a dor”, sente necessidade de retomar o diálogo, de ”desenterrar o léxico do [nosso] afecto e devolver a cada sílaba e a cada sentimento o direito de existir” (p.16) e, então, decide escrever-lhe cartas para lhe narrar tudo o que nunca teve coragem de dizer de viva voz.
O leitor vai acompanhando a viagem interior de Ana, vai tomando conhecimento da sua infância infeliz, dos seus medos, das suas reflexões. Ana recebe uma herança pesada, sofrida, violentada, que se inicia com a sua bisavó, e chega até ela. Quatro gerações, é muito tempo para quebrar hábitos e valores estabelecidos em que tudo se suporta, mesmo a violência sexual por amor aos filhos.
Ana, caiu no fundo, mas lentamente soube erguer-se, fez o luto das três mulheres que marcaram a sua vida, sobretudo a sua mãe, e conquistou a esperança de ser feliz.

22 março, 2021

𝙑𝙖𝙡𝙚 𝘼𝙗𝙧𝙖ã𝙤, de Agustina Bessa-Luís




Autor: Agustina Bessa-Luís
Título: Vale Abraão
N.º de páginas: 273
Editora: Relógio d'Água
Edição: 7.ª- Setembro 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3162

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em Vale Abraão, deparamo-nos com uma releitura de Madame Bovary, de Flaubert. A história de Ema, a “Bovarinha” portuguesa vai desenrolar-se nas margens do Douro senhorial e vinhateiro.
Ao longo da obra, admiraremos a beleza da região ,magnificamente descrita, e assistiremos à decadência das suas casas, das famílias rurais e à imposição da “burguesia de jeans”.
“Sim, é certo, das janelas do Romesal via-se o Vale Abraão, terra de Paivas e Semblanos. Destacavam-se as propriedades mais sumptuosas, entre maciços das árvores de jardim; o resto eram casas agaioladas com mansardas revestidas de lousa, mas raras. Que o vale era sobretudo recatado na sua abastança, que decaíra muito com a alta dos salários e as vocações migratórias.” (p.43)

Ema que casou com um dos Paivas, Carlos Paiva, o médico medíocre e apático, vai manter uma vida que romperá com os valores tradicionais atribuídos à mulher da província. Inteligente e de uma beleza exorbitante, por isso considerada de perigosa quer pelos homens, que a desejam e rejeitam simultaneamente, quer pelas mulheres que a invejam.
“Desde que se dispôs a frequentar uma sociedade acima do seu meio e educação. Ema optou por usar, a título de ameaça, um comportamento desequilibrado. Encarnou a personagem associal, primeiro desajeitadamente, o que era quase o segredo do seu sucesso.” (p. 200)

Ema, à semelhança de muitas protagonistas agustinianas, vai ter uma vida tumultuosa, de constantes crises, sempre em busca de algo que a satisfaça. Invejada e inconstante, rejeita o fracasso e repele o sofrimento. Inconformada com a passividade e mediocridade do marido, considerado por muitos como um santo e o “cornudo simpático”, procura fora de casa uma forma de consolo, de prazer carnal, já que verdadeiramente, não ama ninguém. Insatisfeita com os seus próprios desejos, leva uma vida mesquinha e fútil tentando escapar de uma mediocridade há muito interiorizada. “ Os mimos, os pequenos sonhos perdulários que o pai lhe permitia, estavam proibidos naquela casa que era pior do que pobre, era mesquinha.” (p. 47).

Ao longo da narrativa, e à medida que vamos assistindo ao desgaste físico e psicológico da protagonista, vamos igualmente acompanhando a degradação e a ruína das casas do vale. Desde cedo que se antevê um final trágico para Ema e para a região.

Recomendo a leitura desta e de outras obras. A autora que tem uma obra riquíssima é, por muitos, ignorada porque se considera a sua escrita complexa. Pode ser verdade, mas se lida com cuidado e atenção, verificaremos que é afinal sublime e veiculadora de uma história bem portuguesa.


11 março, 2021

𝙊𝙨 𝙇𝙤𝙪𝙘𝙤𝙨 𝙙𝙖 𝙍𝙪𝙖 𝙈𝙖𝙯𝙪𝙧, de João Pinto Coelho

 


Autor: João Pinto Coelho
Título: Os Loucos da Rua Mazur
N.º de páginas: 311
Editora: Leya
Edição: 1.ª- Novembro 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3043


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Nesta segunda leitura, realizada para participar no evento promovido pelo clube de Leitura do PNL2027, e conhecendo já a história, apreciei sobretudo a escrita, deliciei-me nos melhores momentos do enredo e despachei as descrições de crueldade e de intolerância.

São belíssimas as descrições dos encontros dos três amigos de infância, Yankel, Eryk e Shionka, mas sobretudo de Yankel e Shianka. Assim, como a descrição final.

Neste livro, há uma demonstração clara do comportamento humano, e no caso, em particular, protagonizado numa pequena localidade por vizinhos cristãos e judeus. Enquanto nas crianças vinga a inocência e o amor, nos adultos domina a inveja e a intolerância que os leva a cometer actos de grande crueldade.

Continuo a achar que é um livro magnífico, agora ainda mais. Não é um livro sobre o Holocausto, embora possa parecer, é um livro sobre a leitura, o amor e a maldade humana.

Recomendo muito, esta e qualquer obra do autor.

08 março, 2021

Dia da Mulher





O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes,

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética




06 março, 2021

𝙀𝙢 𝙏𝙤𝙙𝙤𝙨 𝙤𝙨 𝙎𝙚𝙣𝙩𝙞𝙙𝙤𝙨, de Lídia Jorge



Autor: Lídia Jorge
Título: Em Todos os Sentidos
N.º de páginas: 261
Editora: D. Quixote
Edição: 1.ª- Abril 2020
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: 3230


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


São 41 os textos classificados na introdução pela autora como crónicas “Como não podemos vencer o tempo, escrevemos textos que o desafiam a que chamamos crónicas.” (p. 11). Porém, no texto 24, “O Signo da Brevidade”, a autora também escreve “dizem-me que estas crónicas não são verdadeiras crónicas porque têm contos na sua origem. Aceito essa declaração de impureza. Infiel seria eu se assim não fosse. Pois, na verdade, escrevo contos desde que aprendi a redigir,… Porque um conto é um raciocínio colorido,” (p.149).

Ora é justamente esta mescla de crónica, de conto, de testemunho, de memórias que tornam estes textos interessantes e singulares. Neles, a autora apresenta-nos o seu olhar atento e lúcido sobre a actualidade, reflexões críticas deste mundo ora cruel, ora solidário, ora selvagem… mas também de um mundo belo, de amizade, de aceitação do outro,… estes textos revelam uma enorme serenidade, sabedoria e lucidez.

Todos partem de uma história, de uma memória, de um facto concreto, mas que em crescendo se vão desenvolvendo até ao propósito final que por vezes é apenas sugerido. O que me leva a concordar com a afirmação “ Existe um oximoro na arte, ela atinge-nos em pleno peito quando sugere, e não mostra.” (p. 211)

Recomendo vivamente.


01 março, 2021

𝙊 𝘿𝙚𝙡𝙛𝙞𝙢, de José Cardoso Pires


Autor: José Cardoso Pires
Título:O Delfim
N.º de páginas: 363
Editora: Moraes
Edição: 1.ª- Maio 1968 - 7..ª  - Janeiro 1978
Classificação: Romance
N.º de Registo:184


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de O Delfim, considerada a melhor obra do escritor, foi um autêntico deleite linguístico. Muito bem escrito, num tom bem-humorado e repleto de ironia, transporta-nos para uma pequena localidade, Gafeira, onde nada de importante acontece a não ser a caçada anual.
“Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço, pelas nádegas.” (p.39)

É nesta magnífica encenação que o leitor vai tomar conhecimento, pela voz do escritor-caçador, de uma história de crime e mistério que ocorreu na lagoa da aldeia.
“Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.” (p.9) e acrescento eu, O Delfim.

Gafeira, terra de uma família tradicional e privilegiada, dona de uma lagoa mítica, é então o palco do passado, das lendas, dos rumores, das sombras, das superstições, onde a sua população vive uma existência rural, alheia ao progresso, apesar das marcas de modernidade que vão surgindo, e confinada em si mesma, onde misticismo e realidade muitas vezes se confundem.

Este livro, publicado em 1968, é uma verdadeira caricatura do Estado Novo e simboliza, por excelência, o tempo da decadência, o fim de um regime, muito bem plasmado em Palma Bravo, O Delfim, que sem poder ter filhos, representa o fim de uma linhagem, em Maria das Mercês, sua mulher, que morre afogada na lagoa, na própria lagoa que adquire características fantasmagóricas e no narrador que insone no seu quarto desfila em pensamento o passado e o presente, as conversas que teve com os habitantes da aldeia e os acontecimentos que ocorreram, sem todavia desvendar o mistério das mortes.

Se ainda não vos convenci a ler este livro, deixo mais dois excertos que considero magníficos:
Falta uma vírgula na paisagem:
E a tarde escorre sem estremecer. Nem um golpe de ar, nem um pássaro, um ruído ao menos a descer dos montes pela estrada. Isto, no fundo, é morte. Podia-se pôr uma cegonha na torre da igreja – seria a vírgula. Um pescoço longo e curvo. Espalmado no ar sobre o largo.” (pp.136 e 137)
e
“«Mulher inabitável…» Gosto, é frase altiva, a prumo – de título para alegoria:
A MULHER INABITÁVEL
Na brancura de uma folha de papel (que é indiscutivelmente um território de sedução, um corpo a explorar), no centro e bem ao alto, planta-se a frase. Ela apenas, o título, como um diadema de dezassete letras.” (p. 139)