04 novembro, 2020

A Mulher Canhota, de Peter Handke

 


OPINIÃO


Este livro, também adaptado ao cinema por Wim Wenders (1978), retrata o desejo de uma mulher, Marianne, de se libertar da companhia do marido. A narrativa começa com um jantar a dois, seguido de uma noite íntima. Aparentemente, o casal vivia momentos de cumplicidade e de felicidade. Porém, essa felicidade é de curta duração porque ao acordar, a mulher tem “uma revelação” e diz ao marido: “Vai-te embora, Bruno. Deixa-me.” (p.19)

Assim, de forma abrupta, Marianne toma uma decisão, rompe a relação e passa a viver sozinha com o filho. E Handke centra-se na sua história. Recorre a frases curtas para nos descrever os seus actos quotidianos, as brincadeiras com o filho, os seus pensamentos, os seus encontros com o marido, o seu trabalho e relacionamento com uma amiga e outras personagens que desfilam nesta fase da sua vida (não são muitas). Algumas destas descrições poderiam ser dispensáveis porque são meras banalidades como, por exemplo, uma ida ao supermercado. Contudo, é no modo como o autor narra estes pequenos detalhes, estas banalidades que melhor entendemos a solidão e o desamparo da protagonista, bem como a sua forma de pensar e de sentir. 

Handke é exímio em retratar as relações humanas.



02 novembro, 2020

O Grande Rebanho, de Jean Giono


 

OPINIÃO


Pouco tenho lido sobre a Primeira Guerra Mundial, pelo que decidi ler o testemunho ficcionado de Jean Giono. Estamos perante uma visão muito humanista do autor, para além da descrição do sofrimento dos homens que partiram, ele aborda também o sofrimento e a angústia dos que ficaram, mulheres, crianças e homens mais velhos. 

O romance inicia com a passagem pela aldeia de um grande rebanho. Ao longo da transumância, há animais que ficam pelo caminho, feridos, moribundos, mortos. Imagem terrível, sangrenta, dolorosa dos “ animais [que] baliam em conjunto, um balir plangente, de dor.”(p.21)
"Os animais estavam exaustos, alguns agora doentes. Era um rebanho que nunca mais acabava. Os animais metiam pena, a arrastar-se na estrada. Não suportavam mais sofrimento." (p. 22) 
“Está tudo cheio de carneiros mortos pela estrada fora.” (p.26) 

Logo de início, percebemos que este rebanho é uma metáfora da guerra, aprendemo-lo pela voz de Clérestin, um habitante da aldeia, “E Clérestin pôs-se a olhar também para longe, para lá dos animais que passavam, como se visse presságios, terríveis profecias do que estava ainda para acontecer, profecias escritas com sangue e sofrimento que aquele rebanho anunciava, ali, diante deles, ao longo da estrada coberta de poeira.” (p.23) 

A mensagem é clara! Na guerra, tal como os animais, os homens exaustos, feridos, inúteis ficam para trás, abandonados! Sofrem, agonizam, morrem! Ninguém olha para trás e quem o fizer vai ficar com marcas, com traumas! 

Jean Giono descreve os horrores vividos nas trincheiras de forma crua e chocante em oposição à simplicidade, à beleza e aos sons da natureza. Através desta dicotomia, sempre presente ao longo da obra, o autor pretende mostrar o absurdo da guerra e realçar a vida, a esperança. É precisamente com esta mensagem que termina a obra. Uma criança nasce, filha de Olivier, um sobrevivente, e de Madeleine. 

"E antes de mais, digo-te: eis a noite, eis as árvores, eis os animais. Mais tarde verás a luz do dia. (...) terás oportunidade de amar (…), como alguém que cultiva a terra com a charrua (...). E amarás as estrelas.
(…) – Deixa, mulher, deixa. É preciso que lhe mostremos desde já o que é a esperança!” (p.220)


28 outubro, 2020

Uma aventura na biblioteca, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

 


OPINIÃO

No âmbito de uma actividade escolar, voltei aos livros “Uma Aventura…”. Como em Outubro se assinala o Mês Internacional das Bibliotecas Escolares, optei pelo título “Uma aventura na biblioteca”. 
Foi um prazer enorme relembrar estas aventuras, envolvi-me de novo nas peripécias do grupo de protagonistas e temi que algo de grave lhes acontecesse (apesar de já saber que tudo se resolve, no fim). E com este entusiamo, dou por mim a observar atentamente os alunos que estão comigo, também eles, a ler “Uma aventura…”. Tristemente, percebo que apenas três ou quatro estão realmente motivados, que alguns manifestam um evidente enfado e que os restantes fingem completamente que estão a ler. 
É nesse momento que me assaltam as minhas memórias de meninice e o prazer que tive em ler todos os livros das colecções dos Cinco e dos Sete, de Enyd Blyton. Devorei-os todos.
Era mesmo um prazer enorme! Esperava ansiosamente que a carrinha da Gulbenkian voltasse para poder escolher mais livros. Belas recordações! Saudades desses tempos de felicidade! 
Mas voltando à realidade que é bem mais preocupante, que fazer perante a falta de empatia destes jovens em relação aos livros e à leitura? Por que é que ler tem de ser um aborrecimento? Resta-me insistir… insistir… tentar motivá-los! Pode ser que consiga conquistar um ou outro. Se tal acontecer, já não é mau! 



27 outubro, 2020

As Bicicletas em Setembro, de Baptista-Bastos

 


OPINIÃO

Há muito que não lia Baptista-Bastos. Lamentável! Não podemos adiar escritores que nos revelam uma escrita perfeita, coerente, poética. 
Neste livro, conhecemos Jesuina, “a mulher cheia de lágrimas”, e alguns jovens que acolhia em sua casa, as vizinhas, as intrigas próprias de um bairro de Lisboa, a inveja, a maledicência, a dor e a solidão. 

“A intriga e a má-lingua são o que há de mais engenhoso na vida. Caminham sem rumo, numa geometria confusa, nascidas do ócio e multiplicadas por uma espécie particular de ódio, de ciúme, de despeito.” (p. 50)

Num livro onde a imaginação e a memória se confundem, o leitor deixa-se facilmente conduzir pelas emoções, pelos lugares dos desejos, das desilusões, do sonho e da solidão. 
“ Ela [Jesuina] estremecia, emergia desse oceano antigo habitado por convulsas recordações, suspirava, permanecia largos momentos a recompor-se, reentrava na pobre realidade (…).” (p.22)

A metáfora das Bicicletas em Setembro reproduz magistralmente a efemeridade do tempo “fugitivo e eterno”, a revisitação a um passado que já só existe em recordações e a tentativa de sobreviver à saudade, à perda, à dor e à solidão.

“Sobre as nuvens em Setembro, que formavam círculos e pareciam rodas de bicicletas, quem me dera ir com elas, por esses céus fora, quem me dera.” (p.8) 


“Por detrás das cortinas das casas que já não há, ela vigia, observa as pessoas que por ali já não caminham, e olha para as nuvens que deixaram de ser rodas de bicicletas no céu.” (p.123)


21 outubro, 2020

Um Corpo na Biblioteca, de Agatha Christie

 


OPINIÃO


Gosto muito dos livros de Agatha Christie, mas confesso que este me desiludiu um pouco, primeiro porque o título induziu-me em erro, parti do princípio que a trama se desenvolveria numa biblioteca, ora, tal não acontece. Não posso afirmar que é um título enganador, porque não o é. O enredo, efectivamente, inicia aí com a descoberta de um corpo. Nada mais, tanto podia estar ali como noutra divisão qualquer. Segundo, porque a investigação é conduzida por inspectores locais. Miss Marple que é, no entanto, convidada a fazer a sua própria investigação é relegada para segundo plano, aparecendo esporadicamente. Este facto, anula um pouco, na minha opinião, o suspense e o desenvolvimento do seu raciocínio aos quais já nos habituou. Porém, é ela que desvenda o caso, facto que irrita os inspectores que mais uma vez concluem que “a velhinha com uma expressão doce de solteirona plácida e uma mente que vasculhou as profundezas da iniquidade humana e trata do assunto como se não fosse nada especial (…) que concerne a crimes, é o que há de melhor." 

Mas, considero que a mestria da autora no desenvolvimento do “enredo intrincado” continua bem presente. Ela é genial a apresentar pistas, a revelar factos muito plausíveis de incriminar cada uma das personagens. Como se previa, e não podia deixar de ser, é Miss Marple que, de forma surpreendente, revela o autor do crime. Brilhante! Tudo encaixa! Ela é mesmo a melhor! 




18 outubro, 2020

Memória de Elefante, de António Lobo Antunes

 


OPINIÃO


Memória de Elefante é a estreia de António Lobo Antunes como escritor. Já com um estilo muito próprio, mas ainda em formação, que requer uma leitura atenta e cuidada. Estamos perante a história de um homem, psiquiatra, que vive um momento conturbado da sua vida. 

O livro de carácter autobiográfico é perturbador pois concentra-se no protagonista, homem de meia-idade, divorciado, que vive um intenso conflito interior. A narrativa relata os acontecimentos de um dia de trabalho, mas incide sobretudo nos seus pensamentos, memórias, saudades (da mulher e dos filhos) e dúvidas existenciais. “Mas ele, ele, ELE quando é que se lixara?” (p.27). 

A solidão, a desilusão e a revolta são os sentimentos dominantes desta narrativa. O protagonista amargurado com a vida e consigo mesmo odeia tudo, o local onde trabalha, os colegas, os pacientes, a sociedade hipócrita.
Porém, no final, surge uma réstia de esperança ou será resignação?

“Amanhã recomeçarei a vida pelo princípio, serei o adulto sério e responsável que a minha mãe deseja e a minha família aguarda, chegarei a tempo à enfermaria, pontual e grave, pentearei o cabelo para tranquilizar os pacientes, mondarei o meu vocabulário de obscenidades pontiagudas. (…) preciso de qualquer coisa que me ajude a existir.” (p.188)

 


14 outubro, 2020

Isabel de Aragão - Entre o Céu e o Inferno, de Isabel Stilwell

 


OPINIÃO


É o primeiro livro que leio da autora. E posso afirmar que gostei, apesar de não ser leitora assídua de romances que narram a vida de reis ou rainhas. Considero que há sempre muita coscuvilhice e muita intriga. 
Sendo um romance histórico sobre Isabel de Aragão, a Rainha Santa Isabel, narra acontecimentos da nossa História com fidelidade. Tendo 527 páginas, poder-se-ia tornar num relato maçudo com tantas guerras e desavenças, com tantos filhos legítimos e bastardos, mas a escrita e a estrutura do romance (capítulos curtos) torna o relato vivo e interessante. Ficou claro o jogo político vigente na época entre os Reinos de Portugal, Aragão e Castela, provocando intrigas, guerras, mortes, ao longo de vários reinados. Mas há também momentos de imensa ternura entre mães e filhos; de cumplicidade entre o avô, D. Jaime I e “Rosinha” , entre Isabel e Vataça; de dor e angústia, de ódio e de morte; de intrigas e de acordos; de solidariedade e partilha entre Isabel e os seus doentes, pobres e desprotegidos. 
Porém, o que mais me agradou neste romance foi o destaque dado às mulheres, sobretudo à Rainha e a Vataça Lascaris. Duas mulheres fortes, inteligentes, decididas, amigas e aliadas. Raramente falharam e erraram, muitas vezes afastadas uma da outra pelas circunstâncias, por elas ditadas, conseguiram evitar ou diminuir desaires e agravos. 

“A melhor rosa de Aragão”, assim tratada pelo seu avô D. Jaime I, o Conquistador da Casa de Aragão, viveu “entre o céu e o inferno”, dividida entre o amor, a fé, a oração e as desavenças e confrontos, primeiro em Aragão e depois em Portugal. Foi uma vida inteira de planos, de estratégias, de intrigas para atenuar e resolver muitos dos conflitos provocados pelos seus familiares que “Como Caim e Abel” se digladiavam em busca de poder e de conquista de territórios


08 outubro, 2020

Louise Glück vence Prémio Nobel da Literatura 2020

 



A poeta norte-americana Louise Glück é a vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2020. O galardão foi-lhe atribuído pela sua “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna a existência individual universal”, justificou a Academia Sueca.

Louise Glück é a 16ª mulher a vencer o Nobel da Literatura desde a sua criação, em 1901, e uma das poucas norte-americanas a recebê-lo.

Louise Glück, de 77 anos, é uma das mais celebradas poetas norte-americanas. A escritora nasceu a 22 de abril de 1943, em Nova Iorque, e estreou-se no mundo da literatura em 1968, com a coletânea de poemas Firstborn, sendo desde logo apontada como uma das vozes mais fortes da nova geração de poetas dos Estados Unidos da América. Temas como a infância e vida familiar ou as relações estreias entre pais e irmãos destacaram-na de outros autores, e continuaram presentes na sua obra, constituída hoje por 12 volumes de poesia e alguns ensaios.



Paisagem/3

Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono

fora muito seco; o campo
ardeu como palha.

Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.

Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –

Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.

Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.

É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?

Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.

Pensas: como pude viver aqui?

Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.

Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.

O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.


07 outubro, 2020

A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel

 


OPINIÃO



Quem gosta de livros, de bibliotecas não pode deixar de ler este livro. É um livro bem estruturado, dividido em 15 capítulos e ilustrado com várias fotografias que complementam a informação dada pelo autor. 

Para criar e manter a sua biblioteca pessoal, múltiplas questões ( as mesmas de muitos bibliotecários) lhe foram surgindo. E é partindo da pergunta “Porque o fazemos, então?” (p.15) que Manguel nos explica por que razão ao longo dos tempos, desde a Antiguidade até ao presente, o homem vai reunindo livros em prateleiras e prateleiras. Respondendo a essa questão, o autor vai explanando o seu conhecimento e o seu fascínio pela história das bibliotecas. Das bibliotecas públicas e privadas; modernas, antigas, desaparecidas, míticas; de organização, de classificação, de democratização; de censura, de livros queimados, perdidos, roubados, proibidos, digitais, imaginados, lidos e não- lidos.

“Não tenho nenhum sentimento de culpa acerca dos livros que não li e que talvez nunca lerei; sei que os meus livros têm uma paciência sem limites. Esperarão por mim até ao fim dos meus dias.” (p. 218) 

Já percebemos, que para Manguel as bibliotecas não são meros espaços de armazenamento de livros. Se assim fosse, não precisaria de cerca de trezentas páginas para nos responder à questão inicial. Para ele, são espaços de cultura, de conhecimento, de informação que “espelham a identidade pluralista, vertiginosa e desafiante do país e dos tempos” (p.258) 

“Preservar e transmitir a memória, aprender através da experiência dos outros, partilhar conhecimento do mundo e de nós próprios são alguns dos poderes (e perigos) que os livros nos concedem, e as razões por que os estimamos tanto quanto os receamos. “ (p.227) 

Para terminar e vos motivar à leitura deste livro deixo-vos, futuro leitor, uma última citação:
“Todo o leitor é ou um andarilho que se detém ou um viajante que regressa.” (p. 260).

03 outubro, 2020

Astérix e Latraviata

 



OPINIÃO

Releio sempre as histórias de Astérix com imenso prazer. Divirto-me… delicio-me… é uma excelente terapia para aliviar o cansaço.



30 setembro, 2020

Morreu Quino, o criador de Mafalda (1932- 2020)

 


foto: http://www.correiodobrasil.com.br/morre-cartunista-quino-criador-fantastica-mafalda/


Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido por Quino, tinha 88 anos. Criou a personagem Mafalda nos anos 60.  Foi o “humorista gráfico mais internacional e mais traduzido da língua espanhola”, escreveu o El País. “Não há geração neste momento, em dezenas de países, que não chore a perda de um dos autores argentinos mais traduzidos, de par com Borges, Sabato e Cortázar”, acrescentou o diário argentino La Nación. “Que Mafalda ficou desconsoladamente órfã, é hoje o lugar-comum mais triste do mundo.”

Através da inconformada Mafalda, menina de seis anos da classe média argentina, fã dos Beatles e de panquecas, sempre avessa a comer sopa, Quino veiculou as suas angústias existenciais e críticas perante as injustiças sociais, recordou a Folha de S. Paulo. Mafalda preocupava-se com o rumo da humanidade e a paz no mundo. E o autor também.

Notícia completa in Observador

Um Longo Caminho, de Linda Sue Park




OPINIÃO


Um Longo Caminho é um livro baseado na vida de Salva Dut, um dos muitos Meninos Perdidos da segunda Guerra Civil do Sudão, em 1985. Paralelamente, há uma segunda história que ocorre em 2008, a de Nya, também ela sudanesa, também ela uma lutadora pela sobrevivência. As duas histórias cruzam-se no final. 
O relato é angustiante, doloroso, revelador das atrocidades cometidas naquele país. 
Com uma escrita simples, sensível e plena de subtilezas, a autora faz-nos perceber, nas entrelinhas, o sofrimento e o desespero de um povo. É a história de Salva, uma história de cerca de vinte anos, de tudo o que viveu, o que viu e o que sofreu desde que fugiu da sua aldeia para chegar ao campo de refugiados na Etiópia, primeiro, e depois no Quénia. Foram dias, meses anos de uma longa caminhada. 
“Sentiu-se como que à beira de um abismo enorme – um abismo cheio de desespero negro do nada.” (p.76)

Facilmente, este livro poderia enveredar pela descrição de actos violentos, de crueldade, porém, a autora opta por destacar a coragem, a vontade de vencer e a esperança. É uma verdadeira lição de vida. 

“Acima de tudo, lembrava-se do encorajamento que o tio lhe dera no deserto:
«- Um passo de cada vez… Um dia de cada vez. Só hoje – só temos de passar este dia…»

Salva disse isto de si para consigo todos os dias. Também o disse aos rapazes do grupo.
Um dia de cada vez, o grupo conseguiu chegar ao Quénia.
Chegaram a salvo mais de 1200 rapazes.
Demoraram um ano e meio. “ (p.86)




27 setembro, 2020

Rua de Paris em Dia de Chuva, de Isabel Rio Novo


OPINIÃO

Parti para a leitura deste livro com enormes expectativas. São muitos e convidativos os ingredientes que o compõem: a escrita da autora que muito aprecio; Paris (a “minha” cidade); Arte; Impressionismo… é uma viagem no tempo, é o regresso ao passado, mas sempre com um pé no presente. 
Adorei conhecer Gustave Caillebotte. Fiquei fascinada. O leitor é conduzido magistralmente pela vida e obra deste milionário, mecenas dos pintores impressionistas, seus contemporâneos, pintor vanguardista, colecionador de selos e de obras de arte, floricultor, velejador de regatas premiado, engenheiro e construtor naval. 

“Estamos, pois, em Paris, no inverno. Novembro ou início de dezembro [de 1877]. Gustave é um homem de estatura mediana, magro, de cabelo castanho-claro. (…). A Autora recorda estas coisas assim, como se as visse, porque na realidade as viu ou sente que as viu.” (p.12) 

A Autora, personagem do livro, vai cruzando a vida do biografado, inscrita nos factos históricos, sociais e culturais parisienses da época (Paris está em plena modernização sob o comando de Haussmann), com as suas recordações, pensamentos e intenções. 

“(…) a Autora tomou rapidamente uma decisão. Nada do que Helena afirmava [sobre Caillebotte] seria verdade. Ela, a Autora decidiria. “ (p.159) 

A intersecção das histórias recriadas é feita de forma sublime, com sensibilidade e paixão. “Era assim entre ela e Gustave Caillebotte” (p.16). Mas, não ficamos por aqui, para além desta intersecção constante ao longo da narrativa, há, ainda, uma outra ponta, uma outra personagem que também se cruza, com a Autora e de forma (in)directa com Caillebotte. Trata-se de Helena, a professora de História de Arte, especialista na vida e obra do pintor. Encontram-se várias vezes, num café em Paris. E apesar de ambas nutrirem uma paixão por Caillebotte, a relação entre as duas é tensa porque Helena enfrenta uma forte depressão. 

Ao longo do livro, a narradora revela-nos tudo sobre Gustave Caillebotte, apresenta-nos a sua família, elenca títulos de quadros pintados pelos artistas da época, descreve detalhadamente alguns dos quadros mais importantes do pintor e relata, ainda, as dificuldades pelas quais passaram os impressionistas e a incompreensão da sociedade perante esta nova maneira de representar a realidade. 

“Tentei, no fundo, mostrar-te o que vi. O que me tocava. O que me emocionava. Que pode ser a nossa passagem pelo mundo senão isso?” (p. 220). Refere Caillebotte sobre a sua pintura. 

Recomendo vivamente.


 

17 setembro, 2020

Início de mais um ano lectivo!

 


Pelo Sonho é que Vamos

"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos."


Sebastião da Gama


13 setembro, 2020

Uma Agulha no Palheiro, de J. D. Salinger


 OPINIÃO




Uma Agulha no Palheiro (primeira edição portuguesa) ou À Espera no Centeio (numa nova tradução) li-o há muito tempo e tenho memória de ter gostado muito. Na altura, também eu era uma adolescente e diverti-me com as peripécias de Holden Caulfield, jovem de dezassete anos com as hormonas em ebulição.
A história é narrada pelo próprio, após ser expulso de um colégio interno (não era a primeira vez que tal acontecia) e circunscreve-se a um espaço temporal de dois a três dias, no mês de dezembro, de 1949, e em vésperas de Natal. 
“Só vos falarei do que se passou comigo durante o passado Natal. (…) Quero começar exactamente pelo dia em que saí da Escola Secundária Pencey, em Agerstown, na Pensilvânia.” (pp. 9 e 10) 

Holden é um jovem aparentemente inseguro, instável, estranho pois achava tudo uma chatice, tão depressa gostava de uma coisa ou de uma pessoa como logo de seguida a odiava. Tomava decisões precipitadas, das quais se arrependia logo de as ter tomado. Devido a este seu temperamento estava constantemente metido em apuros. 

O leitor acompanha-o nas deambulações por Nova Iorque, nos seus pensamentos, nas suas aventuras. Holden é um rebelde sonhador que põe tudo e todos em causa e penso que seja por esta razão que os jovens gostam de o ler. É próprio da idade e Holden é, para eles, um herói. Todos se revêem nas atitudes do protagonista, todos rejubilam com a sua coragem ao rejeitar as regras que lhe impõem. 

Porém, e apesar desta sua rebeldia, ele é bastante inteligente pois de forma lúcida e sarcástica, acaba por se auto criticar bem como as pessoas que o rodeiam e com quem vai convivendo. Ele questiona-se constantemente e arrepende-se das suas veleidades. 
“ Sou um tipo cobardolas. Ando sempre a fingir.” (p. 107) 
" Sou um idiota chapado. Não podia tolerá-la, mas de repente senti-me tão apaixonado que não me importaria de me casar com ela. Garanto-vos que sou completamente parvo. E não me custa admitir que o sou." (p. 144) 

Outro aspecto que define o carácter de Holden é o amor e a admiração que nutre pelo seu irmão, que faleceu muito novo, (invoca-o muita vez) e pela sua irmã mais nova, Phoebe. 

Hoje, ao reler a história de Holden, o impacto não foi o mesmo. A rebeldia da adolescência já lá vai muito longe, pelo que recomendo a sua leitura sobretudo aos mais jovens.


06 setembro, 2020

Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo


OPINIÃO



Notre-Dame de Paris, retrata a sociedade parisiense do século XV. É um romance histórico que tem como cenário principal a Catedral de Notre Dame, local de oração, de recolhimento e de refúgio. A acção decorre no ano de 1482. Victor Hugo descreve-nos de forma magistral os costumes da época e a arquitectura gótica, que ele tanto apreciou e valorizou. Ao longo do romance, várias páginas são dedicadas à Catedral com descrições detalhadas quer do seu exterior quer do interior. 
É neste local, onde tudo acontece e onde todos se concentram, que vamos assistir aos acontecimentos da cidade e conviver com Esmeralda, a jovem cigana, muito bela, amada por muitos e discriminada por outros; Quasímodo, homem disforme, desprezado por todos, sineiro da catedral; Claude Frollo, arquidiácono, que adopta Quasímodo quando abandonado à porta da catedral e Phoebus, capitão da guarda real. 

Estamos perante uma obra riquíssima em termos literários, históricos e estéticos. Victor Hugo ataca fortemente o clero abusivo e autoritário, critica o estado e a burguesia que vivem alheios à miséria do povo e à destruição de edifícios marcantes. Victor Hugo constrói a sua narrativa com base em dualidades. Ele põe em evidência a oposição entre a opulência e a miséria, o belo e o grotesco, o cómico e o horror.





 

05 setembro, 2020

Ordem Moral, filme de Mário Barroso



ORDEM MORAL ORDEM MORAL




UM FILME DE MÁRIO BARROS COM Maria de Medeiros, Marcello Urgeghe, João Pedro Mamede


SINOPSE

A história de uma mulher livre.

A 13 de Novembro de 1918, dois dias após o Armistício que põe cobro à Grande Guerra, num país mergulhado numa profunda miséria, no caos e na anarquia, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, desaparece do seu domicílio no luxuoso Palácio de São Vicente de Fora. O marido, Dr. Alfredo da Cunha, poeta, dramaturgo e director do grande quotidiano, apela aos leitores para que ajudem a polícia e a família a encontrar a esposa desaparecida. Está lançada a maior campanha moralista, vingativa e punitiva de que há memória. Pagam-se polícias e detectives e desencadeia-se a maior « batida » no território nacional. A caça à doida começou.

Aos 48 anos, Maria Adelaide fugiu na companhia do jovem amante, Manuel Claro, seu antigo chauffeur, de 26 anos de idade. Sem dinheiro, roupa ou joias. Motivada pelo desejo sensual e profundo do amigo e a vontade de se libertar do jugo hipócrita e moralista que a sufocava. Três semanas mais tarde, um verdadeiro comando, irrompe-lhes em casa, sem mandato. Internada no hospício de Conde de Ferreira, graças à cumplicidade dos maiores alienistas portugueses, Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, Maria Adelaide vai enfrentar longos meses de prisão, de violência física e psíquica. Mas resiste. Com a cumplicidade de Manuel Claro evade-se do Conde de Ferreira e refugia-se no Rossão. Detectives a soldo da família descobrem o seu refúgio e levam-na de novo para o manicómio. Acusado de rapto, violação e sequestro privado, Manuel Claro é preso e ameaçado de uma pena de 18 anos de cadeia.

O país continua embrenhado na violência e anarquia. Sidónio Pais é assassinado. A reação dos poderes estabelecidos contra quem desrespeite a instituição familiar, é duma rara violência e hipocrisia. Maria Adelaide, só pode ter cedido à lubricidade da sua paixão pela simples razão de que enlouquecera. Confirmada a sua demência por Matos, Moniz e Cid, que a declaram degenerada hereditária, «privada da capacidade civil para reger a sua pessoa e administrar os seus bens», o Conselho de Família pronuncia a sua interdição.

Alfredo da Cunha, pode enfim vender o Diário de Notícias, num negócio considerado como milionário a que ela sempre se opusera e que, sem a sua interdição, teria sido impossível. O jornal passa a defender os interesses políticos, económicos e militares que sete anos depois, em 1926, iriam instaurar a Ditadura Nacional.

Sem baixar os braços, Maria Adelaide obtém que o Ministro do Interior decrete a sua saída do Hospício. A partir daí, graças ao seu talento literário, vai denunciar todo este miserável processo, batendo-se simultaneamente pela libertação de Manuel Claro, que acaba por obter ao cabo de 4 anos de cadeia sem culpa formada. A interdição de Maria Adelaide só é levantada em 1944, depois do falecimento do marido, e da transferência para o filho dos bens de que era legítima proprietária. Tinha 74 anos de idade.

30 agosto, 2020

Ernesto M. de Melo e Castro (1932-2020)

                                           
                                                        foto retirada da internet

Objecto-Casa


O objecto deste poema é aquela casa em frente
             6 meses
             3 meses
             um telhado para colocar.

O objecto são umas quatro paredes
            lentas
            penosas
            6 meses ou mais – quem sabe?

           Pelas quartas-feiras
           Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.

O objecto deste poema
          é a lentidão sagrada do construir
          da casa sita em frente da minha janela.

O objecto é o mistério da renovação do tempo.

O objecto é a quase realização
          um telhado para colocar
          6 meses
          3 homens
          uma habitação para cá do infinito.


E. M. de Melo e Castro

__________________

No álbum “Mar Virtual”,  Eugénia Melo e Castro homenageia o seu pai, Ernesto M. de Melo e Castro, poeta e ensaista reconhecido pela sua vasta poesia experimental. 
Eugénia seleccionou e musicou 14 poemas, acompanhada ao piano por Emílio Mendonça. 

Pode ouvir as músicas, aqui:  
https://www.onerpm.com.br/disco/album?album_number=4136496932&pagin=1   

ou aqui (Spotify) https://open.spotify.com/album/6Y1Ly9ikzC9fhXTYpDhKot

Abaixo coloco a foto do poema "Soneto Soma 14X" para ler e ouvir em simultâneo.



                                  







Série televisiva os "Herdeiros de Saramago"

 

                                          créditos da foto: facebook Herdeiros de Saramago

Esta série televisiva (RTP Play), assinada por Carlos Vaz Marques e Graça Castanheira, é composta por 11 episódios documentais sobre outros tantos escritores de língua portuguesa distinguidos com o Prémio José Saramago.
A estreia estava marcada na RTP para junho, mas acabou por ser adiada para novembro, pensada agora para coincidir com o aniversário de nascimento de José Saramago.

Segundo Carlos Vaz Marques, a série pretende mostrar facetas dos autores premiados que serão “uma revelação mesmo para quem lê há muito os livros que escrevem”.
O autor referiu ainda que faltam, por exemplo, documentários sobre os artistas portugueses enquanto se encontram no auge do seu processo criativo, e, consequentemente, faltarão bons documentos visuais no futuro. 

“A escassez de imagens dos nossos arquivos audiovisuais que documentem a vida e o pensamento de grandes nomes da cultura portuguesa é confrangedora”, notou, afirmando ter sido esse o motivo que o lançou neste projeto, para o qual pesou o facto de ser jornalista e de estar há muito ligado ao mundo dos livros, tornando-se-lhe evidente a falta de documentos audiovisuais no âmbito literário.

Notícia completa in Observador


27 agosto, 2020

O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida de Carvalho

 



OPINIÃO


Ana Margarida de Carvalho presenteia-nos, uma vez mais, com uma escrita cuidada, complexa e perturbadora. É com mestria que vai entrelaçando histórias, diálogos, personagens, que por vezes confundem o leitor. Porém, à medida que se avança na narrativa, como um “carreiro de formigas”, lentamente, esta vai-se perfilando e completando. A imagem da formiga é uma constante ao longo do enredo e acompanha um dos protagonistas, Simão. “Quanto a mim, cumpro o que me destinou este livro, continuo andarilho, vou de abalada, batendo a sola, acompanhando o carreiro de formigas que dão voltas ao mundo,” (p. 254) 

Estamos nos finais dos anos 30, durante a Guerra Civil Espanhola. Entre “dois entardeceres”, numa paisagem agreste da raia alentejana, os habitantes de duas aldeias, debatem-se com problemas de sobrevivência, de miséria e de ódio. É neste espaço fictício que vamos mergulhar no íntimo dos personagens, carregar as suas emoções e viver momentos trágicos e dolorosos. “É nestas paragens que vagueia a alma,” (p.107) 

Lençol de Telhados e Nadepiori, as duas aldeias, apresentam características completamente diferentes quer ao nível da geografia, do clima e do comportamento dos seus habitantes. 

A autora revela engenho e inteligência na condução da intriga, no desenrolar da acção e, sobretudo, na selecção das palavras que tão bem traduzem os estados de alma e os gestos dos protagonistas. Ao longo de seis extensos capítulos, o leitor deixa-se inebriar pelas descrições, pelos diálogos cruzados, pelas frases longas, apenas separadas por vírgulas, quase diria que cada capítulo é constituído de uma só frase, o ponto final apenas surge para encerrar o capítulo. Tal como um carreiro de formigas…

“(…) que este é o livro de uma caminhada,
sem pausas?
sem pausas, sempre a caminhar, sempre em andamento, sem descanso, sem repouso, nem alívio,
como a vida?
como a vida, essa ratoeira de homens,
escuta, que disso percebo eu, esta história, este livro, estas linhas, carreiros de formigas, com intermitências, mas sempre seguindo o seu curso, o fim da última linha pegando no princípio da seguinte e assim por diante…” (p. 40) 


20 agosto, 2020

O tempo entre costuras, de María Dueñas

 




OPINIÃO

As 620 páginas deste livro foram lidas num ápice, não conseguimos despegar do enredo protagonizado por Sira Quiroga, uma jovem costureira de Madrid. Estamos na década de 1930, assistimos à guerra civil espanhola (1936-39), e acompanhamos a aliança de Franco e do seu governo com os alemães durante a segunda guerra mundial (1939-45). Ao longo da narrativa, envolvemo-nos nas intrigas, peripécias e reviravoltas da vida da narradora, Sira, em Madrid, em Tânger, Tétuan (Marrocos), de novo Madrid e numa incursão de poucos dias a Lisboa.

A autora tece a sua narrativa com mestria, cruza a vida pessoal de Sira com a história política do país, e constrói magistralmente encontros e desencontros, reviravoltas constantes sem nunca perder o fio à meada, abandonando personagens secundárias nos momentos certos, pois o importante é mesmo acompanhar a evolução do carácter da personagem principal que vai crescer no meio de paixões, amizades, traições, guerras, espionagem e muito, muito glamour sem no entanto perder a sua essência, o seu objetivo e o seu patriotismo. 

Sira que muito jovem se deixou arrastar por uma paixão louca, vai viver a traição, a desilusão e o sofrimento. “Um dos efeitos da paixão louca e obcecada é que anula os sentidos para perceber o que acontece a sua volta”. Porém, aproveitando as oportunidades que lhe vão surgindo, vai lutar pela sua sobrevivência e pela da sua mãe, mas também pelos seus ideais e pelo seu país. No final, temos uma Sira reconstruída, confiante, extremamente elegante e com uma forte personalidade.

Como a trama é tão atrativa e empolgante, foi realizada uma mini-série com o mesmo nome que vou tentar ver a fim de averiguar se é fiel ao romance. Recomendo muito.

 


16 agosto, 2020

Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco



OPINIÃO

Para além da escrita magistral, gostei sobretudo do tom sarcástico e divertido. Camilo Castelo Branco, neste livro, ataca fortemente a estética naturalista/realista que tentava impor-se na época e critica a ascensão oportunista da família Macário bem como os novos-ricos vindos do Brasil. 

A narrativa situa-se sobretudo no meio rural minhoto. Aí vive Eusébio Macário, um boticário viúvo, com a sua filha Custódia “rapariga pimpona, de muito seio e braços grossos, roliços, com pregas de carnação mole nos cotovelos e uma penugem de frutas mimosas que lhe punha umas tonalidades cupidíneas, irritantes” e com o filho José Macário, o Fístula, que estudou para padre em Braga, mas investiu sobretudo numa vida boémia, “em orgias de frigideiras”; o padre Justino “um patusco com chalaça”; Felícia, a amante do padre “uma mulheraça frescalhona, de uma coloração sanguínea, anafada, ancas salientes, de trinta e cinco anos, muito lavada, a cheirar às frescuras do linho perfumado de alfazema”; Bento, o mano de Felícia, regressado do Brasil, comendador e rico, gordo e ignorante, recebido na povoação com grandes honras. 

Ao longo da narrativa, o autor apresenta-nos uma família interesseira, hipócrita, que se move por valores imorais para ascender na vida e assim alcançar um novo estatuto social. Para além de satirizar os costumes da época, o autor aproveita para parodiar também os novos valores do realismo: longas e por vezes exaustivas descrições (das ervas, das flores, das doenças, das mezinhas e remédios…); descrição das personagens, traços físicos e psicológicos; riqueza lexical, vasta adjectivação, regionalismos entre outros aspectos. 

Agora resta-me ler A Corja para saber o que vai acontecer à família Macário. 

13 agosto, 2020

Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral

 




OPINIÃO

Neste romance, Afonso Reis Cabral “baralhou ficção” com uma história verídica que ocorreu em 2006, no Porto, e que foi bastante noticiada. Trata-se da história de Gisberta, cruelmente agredida e assassinada por um grupo de jovens. 

Confesso que iniciei a leitura com alguma apreensão pois conhecia o desfecho trágico, mas também com alguma curiosidade em perceber como o autor iria construir a sua narrativa sobre o caso. 

Na minha opinião, fê-lo muito bem, na medida em que soube suavizar a descrição dos actos violentos e dosear algumas emoções recorrendo a subentendidos e a uma escrita poética. 

“Engraçado como aos doze anos até circunstâncias de merda permitem camaradagem.” (pág. 201)
“E também omitiu que gostava de todas as histórias, não só dos contos da Gi, porque eram como desenhos com palavras.”(pág. 105) 

O autor, através de uma história (ou de várias) de amizade, vai narrando aspectos pessoais dos três miúdos, internados num lar e com um passado difícil. 

“Nós, os da Oficina, não conversávamos sobre o passado e não discutíamos o futuro, por isso surpreendeu-me ele [Samuel] anunciar que a conhecia, mas fiquei contente por não contar os pormenores ao Nélson, Só a mim. (…) O próprio acto de contar, esse sim, revelava uma vulnerabilidade que muitos poderiam entender como feminina – quer dizer, como fraqueza. Confiar em mim, pôs a nossa amizade à prova.” (p. 107) 

De forma alternada, vai-nos desvendando as suas histórias de vida e das pessoas com quem lidam, entre as quais a de Gisberta. É Rafa, um dos miúdos, que narra a história e que descobre Gi num edifício abandonado. A partir do momento em que partilha o seu segredo com os amigos Nelson e Samuel, a vida deles muda. Há momentos de amizade, de camaradagem, de solidariedade, de repulsa, de inveja, de insultos, de agressão, de crueldade. 

“Dali [do topo do torreão] veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidade de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém.” (p. 131). 

Afonso Reis Cabral põe em evidência os preconceitos de uma sociedade, a disfunção familiar e institucional, o abandono, a delinquência, a prostituição, a miséria e a sobrevivência. Trata-se de um mundo que ninguém quer ver e cada vez mais presente na nossa sociedade.

09 agosto, 2020

Manual para mulheres de limpeza, de Lucia Berlin



OPINIÃO


Manual para Mulheres de Limpeza é uma antologia que reúne 43 contos (short stories) dos muitos que escreveu.
As histórias baseiam-se na sua vida atribulada (viveu em vários países, teve vários casamentos, várias profissões, quatro filhos, problemas de saúde e alcoolismo). É precisamente, a fusão da realidade com a ficção que torna a sua escrita perturbadora. Dei por mim, a conferir a sua vida com a narrativa, a questionar-me se o narrado foi mesmo o vivido. No prefácio, Lydia Davis cita o filho de Lucia Berlin “As nossas histórias e memórias familiares foram lentamente moldadas, embelezadas e editadas, ao ponto de eu já não estar certo do que realmente aconteceu em todos os momentos.” 

Mas o importante é mesmo a sua escrita franca e, também, poética, “Uma iluminação indolente, como uma tarde mexicana no teu quarto. Consegui ver o sol na tua cara. “ (p.506), a forma como ela agarra o leitor e como o torna testemunha dos acontecimentos, sejam eles bons ou maus. Ela narra o quotidiano sem rodeios, ela transforma factos duríssimos, dolorosos em actos banais. Algumas histórias são difíceis pela brutalidade da sua descrição, outras são ternurentas, outras melancólicas, outras ainda plenas de humor. 


No último conto “Voltar a casa”, a narradora, sozinha, em casa, levanta uma série de questões “(…) Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado, por assim dizer, sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti? 

São perguntas vãs. O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso (…) Tudo o que de bom e de mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha.” (pp. 508 e 509)

Realidade? Ficção? Realidade ficcionada? De tudo um pouco, certamente! O que importa, verdadeiramente, é que se trata de um livro extraordinário.


31 julho, 2020

Adoração, de Cristina Drios




OPINIÃO

É o primeiro livro que leio da autora e gostei bastante. Trata-se de uma trama diferente, muito bem estruturada e concebida já que nela se cruzam dois tempos,  o passado e o presente. A acção ocorre em Palermo e inicia com um crime perpetrado pela Máfia. Poder-se-á pensar que estamos perante um policial, mas não. 

A autora, ao longo da narrativa, vai conduzindo o leitor através dos meandros da intriga, apresentando-lhe Antónia Rei, narrando-lhe detalhes da vida de Caravaggio, revelando-lhe aspetos da investigação de Salvatore Amato, criando suspense à volta dos personagens e de uma obra de Michelangelo Merisi, o Caravaggio. 

«A tela Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, ou A Adoração, pintada em 1609 por Michelangelo Merisi, o Caravaggio, foi roubada do Oratório de São Lourenço, em Palermo, a 17 de Outubro de 1969 e continua desaparecida.” 

É uma história maravilhosa, cheia de segredos e mistérios que muito nos diz sobre Caravaggio e a sua arte. 

“Um brigão, um arruaceiro, um desalmado sedutor que nada, excepto a sua paleta, domava. Eis o homem; um cão desaçaimado a ladrar na noite escura. Cedo na sua vida, viu-se homicida. E soube-se foragido.
A irascibilidade perdoa-se aos génios. (…) Caravaggio o génio da pintura dos corpos e das sombras, foi perdoado. “ (p. 94)

Numa escrita cuidada e límpida, dificilmente separamos a realidade da ficção. Tal como na obra de Caravaggio, há um constante jogo de luzes e sombras, de espelhos, um cruzamento de esperança, de dor, de morte e de desencontros. 
Recomendo vivamente.



27 julho, 2020

O Desfile de Primavera, de Richard Yates


OPINIÃO

Neste romance, Yates logo no início, dá o mote em relação ao destino das protagonistas da narrativa. “Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz”. 

E assim acontece, de facto. Apesar de muito diferentes e de terem tomado opções de vida antagónicas, o augúrio cumpre-se. Resta ao leitor descobrir as razões que tornam infelizes Sarah e Emily. A primeira, a mais velha, casou, teve filhos e assumiu o casamento como um acto “sagrado” pelo que suportou tudo... Emily, a mais nova e mais independente, opta por uma vida inconstante quer nas relações amorosas quer nos empregos. Admirada pela família, é considerada “a personificação da mulher liberta”. Mas esta liberdade vai transformá-la numa mulher infeliz e egoísta. Apesar da existência de um amor familiar, por vezes mais aparente do que efectivo, as mulheres da família, incluindo a mãe, divorciada há muito, caem no vício do álcool. Se assinalam um evento, uma festa, um encontro, celebram com álcool! Se fracassam ou se algo corre menos bem, mergulham no álcool! 

“Com a mãe em coma a uns trinta quilómetros, as duas abraçaram-se embriagadas e choraram pela perda do pai.” (p. 150) 

Assim, de forma sucinta e clara, o autor narra-nos a vida desta família, com destaque para a de Emily, e mostra-nos o essencial para compreendermos o destino das personagens. Sem contemplação assistimos à degradação das irmãs. Yates não poupa o leitor, apresenta descrições detalhadas de momentos de amor ilusório e transitório, de vivências emotivas e sofridas, mas, no final, o que prevalece é a melancolia e a solidão a que são votadas as personagens. 

“Tenho quase cinquenta anos e nunca compreendi nada em toda a minha vida” - termina Emily (p. 245).


23 julho, 2020

Folhas de viagem, de Blaise Cendrars



OPINIÃO



Feuilles de Route/ Folhas de Viagem é um diário de bordo, em forma de poema. Em janeiro de 1924, o autor é convidado para ir ao Brasil. Embarca no Havre, a bordo do Formose, e chega ao Rio de Janeiro, em fevereiro do mesmo ano. Ao longo da viagem, vai registando as suas impressões… São 40 os poemas, nesta edição em bilingue (francês e português). Eis dois excertos:

SUR LES CÔTES DU PORTUGAL 
Du Havre nous n’avons fait que suivre les côtes comme les navigateurs anciens
Au large du Portugal la mer est couverte de barques et de chalutiers de pêche 

Elle est d’un bleu constant et d’une transparence pélagique
Il fait beau et chaud
Le soleil tape en plein
(…) 

SAINT-PAUL
J’adore cette ville
Saint-Paul est selon mon cœur
Ici nulle tradition
Aucun préjugé
ni ancien ni moderne
(…) 

E termina desta forma: 

POURQUOI J’ÉCRIS?
Parce que… 

Para mim, simples leitora, esta resposta agrada-me, não preciso de saber por que escreve, basta-me apreciar o que escreve tão bem! 



22 julho, 2020

Duas Histórias de Praga, de Rilke



OPINIÃO

Estas duas histórias, escritas pelo autor quando tinha 24 anos, retratam o ambiente político agitado pelo confronto nacionalista, no final do século XIX, em Praga. Na altura, era habitada por cento e quarenta mil checos e vinte e sete mil alemães.
“Foi ali [no Café Nacional, por poetas e pintores, actores e estudantes] que Wanda ouviu falar das questões da “nação” e que tomou, pela primeira vez, conhecimento das suas aflições e dificuldades e das suas aspirações secretas e profundas” (p.101)
Os protagonistas são jovens estudantes que vivem a ocupação alemã e por conseguinte acompanham os ideais revolucionários da época. 
As duas histórias apresentam a mesma temática e algumas personagens em comum. No segundo conto 
Gostei de ler e de conhecer o testemunho do autor sobre esta época conturbada da sua cidade natal.


19 julho, 2020

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian,



OPINIÃO



Pequeno livro de escrita simples e subtil, composto por seis contos, sendo que o último – Instantâneos - consiste numa seleção de apontamentos, observações, descrições, … 

Os cinco primeiros contos abordam situações comuns que refletem não só o modo de pensar da sociedade oriental, mas também o da ocidental. Temos temas como a felicidade de um jovem casal em lua-de-mel; a brevidade da vida retratada num acidente mortal com as habituais e múltiplas opiniões da multidão “entendida”, situação depressa resolvida e esquecida; a indiferença perante as dificuldades do outro, um jovem quase morre afogado e ninguém se apercebe; o desinteresse e a dor causada pela ausência do outro, uma rapariga chora num parque enquanto espera, em vão, que o outro chegue; o encontro e a lembrança de um amor passado e que já não faz sentido; a saudade de uma infância feliz rememorada na procura dos lugares onde viveu com o avô e a dor sentida ao descobrir que desapareceram e foram substituídos por uma cidade de betão. 
É no último conto que deu título ao livro (o meu preferido) que o autor melhor explana a sua escrita poética e melancólica, porque sendo mais extenso, tem espaço para criar uma história mais comovente, mais emotiva. Ao contrário das primeiras narrativas, que sendo mais curtas, nem tudo é dito, cabe ao leitor ler nas entrelinhas e captar a profundidade da mensagem.