30 setembro, 2020

Morreu Quino, o criador de Mafalda (1932- 2020)

 


foto: http://www.correiodobrasil.com.br/morre-cartunista-quino-criador-fantastica-mafalda/


Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido por Quino, tinha 88 anos. Criou a personagem Mafalda nos anos 60.  Foi o “humorista gráfico mais internacional e mais traduzido da língua espanhola”, escreveu o El País. “Não há geração neste momento, em dezenas de países, que não chore a perda de um dos autores argentinos mais traduzidos, de par com Borges, Sabato e Cortázar”, acrescentou o diário argentino La Nación. “Que Mafalda ficou desconsoladamente órfã, é hoje o lugar-comum mais triste do mundo.”

Através da inconformada Mafalda, menina de seis anos da classe média argentina, fã dos Beatles e de panquecas, sempre avessa a comer sopa, Quino veiculou as suas angústias existenciais e críticas perante as injustiças sociais, recordou a Folha de S. Paulo. Mafalda preocupava-se com o rumo da humanidade e a paz no mundo. E o autor também.

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Um Longo Caminho, de Linda Sue Park




OPINIÃO


Um Longo Caminho é um livro baseado na vida de Salva Dut, um dos muitos Meninos Perdidos da segunda Guerra Civil do Sudão, em 1985. Paralelamente, há uma segunda história que ocorre em 2008, a de Nya, também ela sudanesa, também ela uma lutadora pela sobrevivência. As duas histórias cruzam-se no final. 
O relato é angustiante, doloroso, revelador das atrocidades cometidas naquele país. 
Com uma escrita simples, sensível e plena de subtilezas, a autora faz-nos perceber, nas entrelinhas, o sofrimento e o desespero de um povo. É a história de Salva, uma história de cerca de vinte anos, de tudo o que viveu, o que viu e o que sofreu desde que fugiu da sua aldeia para chegar ao campo de refugiados na Etiópia, primeiro, e depois no Quénia. Foram dias, meses anos de uma longa caminhada. 
“Sentiu-se como que à beira de um abismo enorme – um abismo cheio de desespero negro do nada.” (p.76)

Facilmente, este livro poderia enveredar pela descrição de actos violentos, de crueldade, porém, a autora opta por destacar a coragem, a vontade de vencer e a esperança. É uma verdadeira lição de vida. 

“Acima de tudo, lembrava-se do encorajamento que o tio lhe dera no deserto:
«- Um passo de cada vez… Um dia de cada vez. Só hoje – só temos de passar este dia…»

Salva disse isto de si para consigo todos os dias. Também o disse aos rapazes do grupo.
Um dia de cada vez, o grupo conseguiu chegar ao Quénia.
Chegaram a salvo mais de 1200 rapazes.
Demoraram um ano e meio. “ (p.86)




27 setembro, 2020

Rua de Paris em Dia de Chuva, de Isabel Rio Novo


OPINIÃO

Parti para a leitura deste livro com enormes expectativas. São muitos e convidativos os ingredientes que o compõem: a escrita da autora que muito aprecio; Paris (a “minha” cidade); Arte; Impressionismo… é uma viagem no tempo, é o regresso ao passado, mas sempre com um pé no presente. 
Adorei conhecer Gustave Caillebotte. Fiquei fascinada. O leitor é conduzido magistralmente pela vida e obra deste milionário, mecenas dos pintores impressionistas, seus contemporâneos, pintor vanguardista, colecionador de selos e de obras de arte, floricultor, velejador de regatas premiado, engenheiro e construtor naval. 

“Estamos, pois, em Paris, no inverno. Novembro ou início de dezembro [de 1877]. Gustave é um homem de estatura mediana, magro, de cabelo castanho-claro. (…). A Autora recorda estas coisas assim, como se as visse, porque na realidade as viu ou sente que as viu.” (p.12) 

A Autora, personagem do livro, vai cruzando a vida do biografado, inscrita nos factos históricos, sociais e culturais parisienses da época (Paris está em plena modernização sob o comando de Haussmann), com as suas recordações, pensamentos e intenções. 

“(…) a Autora tomou rapidamente uma decisão. Nada do que Helena afirmava [sobre Caillebotte] seria verdade. Ela, a Autora decidiria. “ (p.159) 

A intersecção das histórias recriadas é feita de forma sublime, com sensibilidade e paixão. “Era assim entre ela e Gustave Caillebotte” (p.16). Mas, não ficamos por aqui, para além desta intersecção constante ao longo da narrativa, há, ainda, uma outra ponta, uma outra personagem que também se cruza, com a Autora e de forma (in)directa com Caillebotte. Trata-se de Helena, a professora de História de Arte, especialista na vida e obra do pintor. Encontram-se várias vezes, num café em Paris. E apesar de ambas nutrirem uma paixão por Caillebotte, a relação entre as duas é tensa porque Helena enfrenta uma forte depressão. 

Ao longo do livro, a narradora revela-nos tudo sobre Gustave Caillebotte, apresenta-nos a sua família, elenca títulos de quadros pintados pelos artistas da época, descreve detalhadamente alguns dos quadros mais importantes do pintor e relata, ainda, as dificuldades pelas quais passaram os impressionistas e a incompreensão da sociedade perante esta nova maneira de representar a realidade. 

“Tentei, no fundo, mostrar-te o que vi. O que me tocava. O que me emocionava. Que pode ser a nossa passagem pelo mundo senão isso?” (p. 220). Refere Caillebotte sobre a sua pintura. 

Recomendo vivamente.


 

17 setembro, 2020

Início de mais um ano lectivo!

 


Pelo Sonho é que Vamos

"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos."


Sebastião da Gama


13 setembro, 2020

Uma Agulha no Palheiro, de J. D. Salinger


 OPINIÃO




Uma Agulha no Palheiro (primeira edição portuguesa) ou À Espera no Centeio (numa nova tradução) li-o há muito tempo e tenho memória de ter gostado muito. Na altura, também eu era uma adolescente e diverti-me com as peripécias de Holden Caulfield, jovem de dezassete anos com as hormonas em ebulição.
A história é narrada pelo próprio, após ser expulso de um colégio interno (não era a primeira vez que tal acontecia) e circunscreve-se a um espaço temporal de dois a três dias, no mês de dezembro, de 1949, e em vésperas de Natal. 
“Só vos falarei do que se passou comigo durante o passado Natal. (…) Quero começar exactamente pelo dia em que saí da Escola Secundária Pencey, em Agerstown, na Pensilvânia.” (pp. 9 e 10) 

Holden é um jovem aparentemente inseguro, instável, estranho pois achava tudo uma chatice, tão depressa gostava de uma coisa ou de uma pessoa como logo de seguida a odiava. Tomava decisões precipitadas, das quais se arrependia logo de as ter tomado. Devido a este seu temperamento estava constantemente metido em apuros. 

O leitor acompanha-o nas deambulações por Nova Iorque, nos seus pensamentos, nas suas aventuras. Holden é um rebelde sonhador que põe tudo e todos em causa e penso que seja por esta razão que os jovens gostam de o ler. É próprio da idade e Holden é, para eles, um herói. Todos se revêem nas atitudes do protagonista, todos rejubilam com a sua coragem ao rejeitar as regras que lhe impõem. 

Porém, e apesar desta sua rebeldia, ele é bastante inteligente pois de forma lúcida e sarcástica, acaba por se auto criticar bem como as pessoas que o rodeiam e com quem vai convivendo. Ele questiona-se constantemente e arrepende-se das suas veleidades. 
“ Sou um tipo cobardolas. Ando sempre a fingir.” (p. 107) 
" Sou um idiota chapado. Não podia tolerá-la, mas de repente senti-me tão apaixonado que não me importaria de me casar com ela. Garanto-vos que sou completamente parvo. E não me custa admitir que o sou." (p. 144) 

Outro aspecto que define o carácter de Holden é o amor e a admiração que nutre pelo seu irmão, que faleceu muito novo, (invoca-o muita vez) e pela sua irmã mais nova, Phoebe. 

Hoje, ao reler a história de Holden, o impacto não foi o mesmo. A rebeldia da adolescência já lá vai muito longe, pelo que recomendo a sua leitura sobretudo aos mais jovens.


06 setembro, 2020

Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo


OPINIÃO



Notre-Dame de Paris, retrata a sociedade parisiense do século XV. É um romance histórico que tem como cenário principal a Catedral de Notre Dame, local de oração, de recolhimento e de refúgio. A acção decorre no ano de 1482. Victor Hugo descreve-nos de forma magistral os costumes da época e a arquitectura gótica, que ele tanto apreciou e valorizou. Ao longo do romance, várias páginas são dedicadas à Catedral com descrições detalhadas quer do seu exterior quer do interior. 
É neste local, onde tudo acontece e onde todos se concentram, que vamos assistir aos acontecimentos da cidade e conviver com Esmeralda, a jovem cigana, muito bela, amada por muitos e discriminada por outros; Quasímodo, homem disforme, desprezado por todos, sineiro da catedral; Claude Frollo, arquidiácono, que adopta Quasímodo quando abandonado à porta da catedral e Phoebus, capitão da guarda real. 

Estamos perante uma obra riquíssima em termos literários, históricos e estéticos. Victor Hugo ataca fortemente o clero abusivo e autoritário, critica o estado e a burguesia que vivem alheios à miséria do povo e à destruição de edifícios marcantes. Victor Hugo constrói a sua narrativa com base em dualidades. Ele põe em evidência a oposição entre a opulência e a miséria, o belo e o grotesco, o cómico e o horror.





 

05 setembro, 2020

Ordem Moral, filme de Mário Barroso



ORDEM MORAL ORDEM MORAL




UM FILME DE MÁRIO BARROS COM Maria de Medeiros, Marcello Urgeghe, João Pedro Mamede


SINOPSE

A história de uma mulher livre.

A 13 de Novembro de 1918, dois dias após o Armistício que põe cobro à Grande Guerra, num país mergulhado numa profunda miséria, no caos e na anarquia, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira e proprietária do Diário de Notícias, desaparece do seu domicílio no luxuoso Palácio de São Vicente de Fora. O marido, Dr. Alfredo da Cunha, poeta, dramaturgo e director do grande quotidiano, apela aos leitores para que ajudem a polícia e a família a encontrar a esposa desaparecida. Está lançada a maior campanha moralista, vingativa e punitiva de que há memória. Pagam-se polícias e detectives e desencadeia-se a maior « batida » no território nacional. A caça à doida começou.

Aos 48 anos, Maria Adelaide fugiu na companhia do jovem amante, Manuel Claro, seu antigo chauffeur, de 26 anos de idade. Sem dinheiro, roupa ou joias. Motivada pelo desejo sensual e profundo do amigo e a vontade de se libertar do jugo hipócrita e moralista que a sufocava. Três semanas mais tarde, um verdadeiro comando, irrompe-lhes em casa, sem mandato. Internada no hospício de Conde de Ferreira, graças à cumplicidade dos maiores alienistas portugueses, Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, Maria Adelaide vai enfrentar longos meses de prisão, de violência física e psíquica. Mas resiste. Com a cumplicidade de Manuel Claro evade-se do Conde de Ferreira e refugia-se no Rossão. Detectives a soldo da família descobrem o seu refúgio e levam-na de novo para o manicómio. Acusado de rapto, violação e sequestro privado, Manuel Claro é preso e ameaçado de uma pena de 18 anos de cadeia.

O país continua embrenhado na violência e anarquia. Sidónio Pais é assassinado. A reação dos poderes estabelecidos contra quem desrespeite a instituição familiar, é duma rara violência e hipocrisia. Maria Adelaide, só pode ter cedido à lubricidade da sua paixão pela simples razão de que enlouquecera. Confirmada a sua demência por Matos, Moniz e Cid, que a declaram degenerada hereditária, «privada da capacidade civil para reger a sua pessoa e administrar os seus bens», o Conselho de Família pronuncia a sua interdição.

Alfredo da Cunha, pode enfim vender o Diário de Notícias, num negócio considerado como milionário a que ela sempre se opusera e que, sem a sua interdição, teria sido impossível. O jornal passa a defender os interesses políticos, económicos e militares que sete anos depois, em 1926, iriam instaurar a Ditadura Nacional.

Sem baixar os braços, Maria Adelaide obtém que o Ministro do Interior decrete a sua saída do Hospício. A partir daí, graças ao seu talento literário, vai denunciar todo este miserável processo, batendo-se simultaneamente pela libertação de Manuel Claro, que acaba por obter ao cabo de 4 anos de cadeia sem culpa formada. A interdição de Maria Adelaide só é levantada em 1944, depois do falecimento do marido, e da transferência para o filho dos bens de que era legítima proprietária. Tinha 74 anos de idade.

30 agosto, 2020

Ernesto M. de Melo e Castro (1932-2020)

                                           
                                                        foto retirada da internet

Objecto-Casa


O objecto deste poema é aquela casa em frente
             6 meses
             3 meses
             um telhado para colocar.

O objecto são umas quatro paredes
            lentas
            penosas
            6 meses ou mais – quem sabe?

           Pelas quartas-feiras
           Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.

O objecto deste poema
          é a lentidão sagrada do construir
          da casa sita em frente da minha janela.

O objecto é o mistério da renovação do tempo.

O objecto é a quase realização
          um telhado para colocar
          6 meses
          3 homens
          uma habitação para cá do infinito.


E. M. de Melo e Castro

__________________

No álbum “Mar Virtual”,  Eugénia Melo e Castro homenageia o seu pai, Ernesto M. de Melo e Castro, poeta e ensaista reconhecido pela sua vasta poesia experimental. 
Eugénia seleccionou e musicou 14 poemas, acompanhada ao piano por Emílio Mendonça. 

Pode ouvir as músicas, aqui:  
https://www.onerpm.com.br/disco/album?album_number=4136496932&pagin=1   

ou aqui (Spotify) https://open.spotify.com/album/6Y1Ly9ikzC9fhXTYpDhKot

Abaixo coloco a foto do poema "Soneto Soma 14X" para ler e ouvir em simultâneo.



                                  







Série televisiva os "Herdeiros de Saramago"

 

                                          créditos da foto: facebook Herdeiros de Saramago

Esta série televisiva (RTP Play), assinada por Carlos Vaz Marques e Graça Castanheira, é composta por 11 episódios documentais sobre outros tantos escritores de língua portuguesa distinguidos com o Prémio José Saramago.
A estreia estava marcada na RTP para junho, mas acabou por ser adiada para novembro, pensada agora para coincidir com o aniversário de nascimento de José Saramago.

Segundo Carlos Vaz Marques, a série pretende mostrar facetas dos autores premiados que serão “uma revelação mesmo para quem lê há muito os livros que escrevem”.
O autor referiu ainda que faltam, por exemplo, documentários sobre os artistas portugueses enquanto se encontram no auge do seu processo criativo, e, consequentemente, faltarão bons documentos visuais no futuro. 

“A escassez de imagens dos nossos arquivos audiovisuais que documentem a vida e o pensamento de grandes nomes da cultura portuguesa é confrangedora”, notou, afirmando ter sido esse o motivo que o lançou neste projeto, para o qual pesou o facto de ser jornalista e de estar há muito ligado ao mundo dos livros, tornando-se-lhe evidente a falta de documentos audiovisuais no âmbito literário.

Notícia completa in Observador


27 agosto, 2020

O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça, de Ana Margarida de Carvalho

 



OPINIÃO


Ana Margarida de Carvalho presenteia-nos, uma vez mais, com uma escrita cuidada, complexa e perturbadora. É com mestria que vai entrelaçando histórias, diálogos, personagens, que por vezes confundem o leitor. Porém, à medida que se avança na narrativa, como um “carreiro de formigas”, lentamente, esta vai-se perfilando e completando. A imagem da formiga é uma constante ao longo do enredo e acompanha um dos protagonistas, Simão. “Quanto a mim, cumpro o que me destinou este livro, continuo andarilho, vou de abalada, batendo a sola, acompanhando o carreiro de formigas que dão voltas ao mundo,” (p. 254) 

Estamos nos finais dos anos 30, durante a Guerra Civil Espanhola. Entre “dois entardeceres”, numa paisagem agreste da raia alentejana, os habitantes de duas aldeias, debatem-se com problemas de sobrevivência, de miséria e de ódio. É neste espaço fictício que vamos mergulhar no íntimo dos personagens, carregar as suas emoções e viver momentos trágicos e dolorosos. “É nestas paragens que vagueia a alma,” (p.107) 

Lençol de Telhados e Nadepiori, as duas aldeias, apresentam características completamente diferentes quer ao nível da geografia, do clima e do comportamento dos seus habitantes. 

A autora revela engenho e inteligência na condução da intriga, no desenrolar da acção e, sobretudo, na selecção das palavras que tão bem traduzem os estados de alma e os gestos dos protagonistas. Ao longo de seis extensos capítulos, o leitor deixa-se inebriar pelas descrições, pelos diálogos cruzados, pelas frases longas, apenas separadas por vírgulas, quase diria que cada capítulo é constituído de uma só frase, o ponto final apenas surge para encerrar o capítulo. Tal como um carreiro de formigas…

“(…) que este é o livro de uma caminhada,
sem pausas?
sem pausas, sempre a caminhar, sempre em andamento, sem descanso, sem repouso, nem alívio,
como a vida?
como a vida, essa ratoeira de homens,
escuta, que disso percebo eu, esta história, este livro, estas linhas, carreiros de formigas, com intermitências, mas sempre seguindo o seu curso, o fim da última linha pegando no princípio da seguinte e assim por diante…” (p. 40) 


20 agosto, 2020

O tempo entre costuras, de María Dueñas

 




OPINIÃO

As 620 páginas deste livro foram lidas num ápice, não conseguimos despegar do enredo protagonizado por Sira Quiroga, uma jovem costureira de Madrid. Estamos na década de 1930, assistimos à guerra civil espanhola (1936-39), e acompanhamos a aliança de Franco e do seu governo com os alemães durante a segunda guerra mundial (1939-45). Ao longo da narrativa, envolvemo-nos nas intrigas, peripécias e reviravoltas da vida da narradora, Sira, em Madrid, em Tânger, Tétuan (Marrocos), de novo Madrid e numa incursão de poucos dias a Lisboa.

A autora tece a sua narrativa com mestria, cruza a vida pessoal de Sira com a história política do país, e constrói magistralmente encontros e desencontros, reviravoltas constantes sem nunca perder o fio à meada, abandonando personagens secundárias nos momentos certos, pois o importante é mesmo acompanhar a evolução do carácter da personagem principal que vai crescer no meio de paixões, amizades, traições, guerras, espionagem e muito, muito glamour sem no entanto perder a sua essência, o seu objetivo e o seu patriotismo. 

Sira que muito jovem se deixou arrastar por uma paixão louca, vai viver a traição, a desilusão e o sofrimento. “Um dos efeitos da paixão louca e obcecada é que anula os sentidos para perceber o que acontece a sua volta”. Porém, aproveitando as oportunidades que lhe vão surgindo, vai lutar pela sua sobrevivência e pela da sua mãe, mas também pelos seus ideais e pelo seu país. No final, temos uma Sira reconstruída, confiante, extremamente elegante e com uma forte personalidade.

Como a trama é tão atrativa e empolgante, foi realizada uma mini-série com o mesmo nome que vou tentar ver a fim de averiguar se é fiel ao romance. Recomendo muito.

 


16 agosto, 2020

Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco



OPINIÃO

Para além da escrita magistral, gostei sobretudo do tom sarcástico e divertido. Camilo Castelo Branco, neste livro, ataca fortemente a estética naturalista/realista que tentava impor-se na época e critica a ascensão oportunista da família Macário bem como os novos-ricos vindos do Brasil. 

A narrativa situa-se sobretudo no meio rural minhoto. Aí vive Eusébio Macário, um boticário viúvo, com a sua filha Custódia “rapariga pimpona, de muito seio e braços grossos, roliços, com pregas de carnação mole nos cotovelos e uma penugem de frutas mimosas que lhe punha umas tonalidades cupidíneas, irritantes” e com o filho José Macário, o Fístula, que estudou para padre em Braga, mas investiu sobretudo numa vida boémia, “em orgias de frigideiras”; o padre Justino “um patusco com chalaça”; Felícia, a amante do padre “uma mulheraça frescalhona, de uma coloração sanguínea, anafada, ancas salientes, de trinta e cinco anos, muito lavada, a cheirar às frescuras do linho perfumado de alfazema”; Bento, o mano de Felícia, regressado do Brasil, comendador e rico, gordo e ignorante, recebido na povoação com grandes honras. 

Ao longo da narrativa, o autor apresenta-nos uma família interesseira, hipócrita, que se move por valores imorais para ascender na vida e assim alcançar um novo estatuto social. Para além de satirizar os costumes da época, o autor aproveita para parodiar também os novos valores do realismo: longas e por vezes exaustivas descrições (das ervas, das flores, das doenças, das mezinhas e remédios…); descrição das personagens, traços físicos e psicológicos; riqueza lexical, vasta adjectivação, regionalismos entre outros aspectos. 

Agora resta-me ler A Corja para saber o que vai acontecer à família Macário. 

13 agosto, 2020

Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral

 




OPINIÃO

Neste romance, Afonso Reis Cabral “baralhou ficção” com uma história verídica que ocorreu em 2006, no Porto, e que foi bastante noticiada. Trata-se da história de Gisberta, cruelmente agredida e assassinada por um grupo de jovens. 

Confesso que iniciei a leitura com alguma apreensão pois conhecia o desfecho trágico, mas também com alguma curiosidade em perceber como o autor iria construir a sua narrativa sobre o caso. 

Na minha opinião, fê-lo muito bem, na medida em que soube suavizar a descrição dos actos violentos e dosear algumas emoções recorrendo a subentendidos e a uma escrita poética. 

“Engraçado como aos doze anos até circunstâncias de merda permitem camaradagem.” (pág. 201)
“E também omitiu que gostava de todas as histórias, não só dos contos da Gi, porque eram como desenhos com palavras.”(pág. 105) 

O autor, através de uma história (ou de várias) de amizade, vai narrando aspectos pessoais dos três miúdos, internados num lar e com um passado difícil. 

“Nós, os da Oficina, não conversávamos sobre o passado e não discutíamos o futuro, por isso surpreendeu-me ele [Samuel] anunciar que a conhecia, mas fiquei contente por não contar os pormenores ao Nélson, Só a mim. (…) O próprio acto de contar, esse sim, revelava uma vulnerabilidade que muitos poderiam entender como feminina – quer dizer, como fraqueza. Confiar em mim, pôs a nossa amizade à prova.” (p. 107) 

De forma alternada, vai-nos desvendando as suas histórias de vida e das pessoas com quem lidam, entre as quais a de Gisberta. É Rafa, um dos miúdos, que narra a história e que descobre Gi num edifício abandonado. A partir do momento em que partilha o seu segredo com os amigos Nelson e Samuel, a vida deles muda. Há momentos de amizade, de camaradagem, de solidariedade, de repulsa, de inveja, de insultos, de agressão, de crueldade. 

“Dali [do topo do torreão] veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidade de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém.” (p. 131). 

Afonso Reis Cabral põe em evidência os preconceitos de uma sociedade, a disfunção familiar e institucional, o abandono, a delinquência, a prostituição, a miséria e a sobrevivência. Trata-se de um mundo que ninguém quer ver e cada vez mais presente na nossa sociedade.

09 agosto, 2020

Manual para mulheres de limpeza, de Lucia Berlin



OPINIÃO


Manual para Mulheres de Limpeza é uma antologia que reúne 43 contos (short stories) dos muitos que escreveu.
As histórias baseiam-se na sua vida atribulada (viveu em vários países, teve vários casamentos, várias profissões, quatro filhos, problemas de saúde e alcoolismo). É precisamente, a fusão da realidade com a ficção que torna a sua escrita perturbadora. Dei por mim, a conferir a sua vida com a narrativa, a questionar-me se o narrado foi mesmo o vivido. No prefácio, Lydia Davis cita o filho de Lucia Berlin “As nossas histórias e memórias familiares foram lentamente moldadas, embelezadas e editadas, ao ponto de eu já não estar certo do que realmente aconteceu em todos os momentos.” 

Mas o importante é mesmo a sua escrita franca e, também, poética, “Uma iluminação indolente, como uma tarde mexicana no teu quarto. Consegui ver o sol na tua cara. “ (p.506), a forma como ela agarra o leitor e como o torna testemunha dos acontecimentos, sejam eles bons ou maus. Ela narra o quotidiano sem rodeios, ela transforma factos duríssimos, dolorosos em actos banais. Algumas histórias são difíceis pela brutalidade da sua descrição, outras são ternurentas, outras melancólicas, outras ainda plenas de humor. 


No último conto “Voltar a casa”, a narradora, sozinha, em casa, levanta uma série de questões “(…) Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado, por assim dizer, sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti? 

São perguntas vãs. O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso (…) Tudo o que de bom e de mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha.” (pp. 508 e 509)

Realidade? Ficção? Realidade ficcionada? De tudo um pouco, certamente! O que importa, verdadeiramente, é que se trata de um livro extraordinário.


31 julho, 2020

Adoração, de Cristina Drios




OPINIÃO

É o primeiro livro que leio da autora e gostei bastante. Trata-se de uma trama diferente, muito bem estruturada e concebida já que nela se cruzam dois tempos,  o passado e o presente. A acção ocorre em Palermo e inicia com um crime perpetrado pela Máfia. Poder-se-á pensar que estamos perante um policial, mas não. 

A autora, ao longo da narrativa, vai conduzindo o leitor através dos meandros da intriga, apresentando-lhe Antónia Rei, narrando-lhe detalhes da vida de Caravaggio, revelando-lhe aspetos da investigação de Salvatore Amato, criando suspense à volta dos personagens e de uma obra de Michelangelo Merisi, o Caravaggio. 

«A tela Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, ou A Adoração, pintada em 1609 por Michelangelo Merisi, o Caravaggio, foi roubada do Oratório de São Lourenço, em Palermo, a 17 de Outubro de 1969 e continua desaparecida.” 

É uma história maravilhosa, cheia de segredos e mistérios que muito nos diz sobre Caravaggio e a sua arte. 

“Um brigão, um arruaceiro, um desalmado sedutor que nada, excepto a sua paleta, domava. Eis o homem; um cão desaçaimado a ladrar na noite escura. Cedo na sua vida, viu-se homicida. E soube-se foragido.
A irascibilidade perdoa-se aos génios. (…) Caravaggio o génio da pintura dos corpos e das sombras, foi perdoado. “ (p. 94)

Numa escrita cuidada e límpida, dificilmente separamos a realidade da ficção. Tal como na obra de Caravaggio, há um constante jogo de luzes e sombras, de espelhos, um cruzamento de esperança, de dor, de morte e de desencontros. 
Recomendo vivamente.



27 julho, 2020

O Desfile de Primavera, de Richard Yates


OPINIÃO

Neste romance, Yates logo no início, dá o mote em relação ao destino das protagonistas da narrativa. “Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz”. 

E assim acontece, de facto. Apesar de muito diferentes e de terem tomado opções de vida antagónicas, o augúrio cumpre-se. Resta ao leitor descobrir as razões que tornam infelizes Sarah e Emily. A primeira, a mais velha, casou, teve filhos e assumiu o casamento como um acto “sagrado” pelo que suportou tudo... Emily, a mais nova e mais independente, opta por uma vida inconstante quer nas relações amorosas quer nos empregos. Admirada pela família, é considerada “a personificação da mulher liberta”. Mas esta liberdade vai transformá-la numa mulher infeliz e egoísta. Apesar da existência de um amor familiar, por vezes mais aparente do que efectivo, as mulheres da família, incluindo a mãe, divorciada há muito, caem no vício do álcool. Se assinalam um evento, uma festa, um encontro, celebram com álcool! Se fracassam ou se algo corre menos bem, mergulham no álcool! 

“Com a mãe em coma a uns trinta quilómetros, as duas abraçaram-se embriagadas e choraram pela perda do pai.” (p. 150) 

Assim, de forma sucinta e clara, o autor narra-nos a vida desta família, com destaque para a de Emily, e mostra-nos o essencial para compreendermos o destino das personagens. Sem contemplação assistimos à degradação das irmãs. Yates não poupa o leitor, apresenta descrições detalhadas de momentos de amor ilusório e transitório, de vivências emotivas e sofridas, mas, no final, o que prevalece é a melancolia e a solidão a que são votadas as personagens. 

“Tenho quase cinquenta anos e nunca compreendi nada em toda a minha vida” - termina Emily (p. 245).


23 julho, 2020

Folhas de viagem, de Blaise Cendrars



OPINIÃO



Feuilles de Route/ Folhas de Viagem é um diário de bordo, em forma de poema. Em janeiro de 1924, o autor é convidado para ir ao Brasil. Embarca no Havre, a bordo do Formose, e chega ao Rio de Janeiro, em fevereiro do mesmo ano. Ao longo da viagem, vai registando as suas impressões… São 40 os poemas, nesta edição em bilingue (francês e português). Eis dois excertos:

SUR LES CÔTES DU PORTUGAL 
Du Havre nous n’avons fait que suivre les côtes comme les navigateurs anciens
Au large du Portugal la mer est couverte de barques et de chalutiers de pêche 

Elle est d’un bleu constant et d’une transparence pélagique
Il fait beau et chaud
Le soleil tape en plein
(…) 

SAINT-PAUL
J’adore cette ville
Saint-Paul est selon mon cœur
Ici nulle tradition
Aucun préjugé
ni ancien ni moderne
(…) 

E termina desta forma: 

POURQUOI J’ÉCRIS?
Parce que… 

Para mim, simples leitora, esta resposta agrada-me, não preciso de saber por que escreve, basta-me apreciar o que escreve tão bem! 



22 julho, 2020

Duas Histórias de Praga, de Rilke



OPINIÃO

Estas duas histórias, escritas pelo autor quando tinha 24 anos, retratam o ambiente político agitado pelo confronto nacionalista, no final do século XIX, em Praga. Na altura, era habitada por cento e quarenta mil checos e vinte e sete mil alemães.
“Foi ali [no Café Nacional, por poetas e pintores, actores e estudantes] que Wanda ouviu falar das questões da “nação” e que tomou, pela primeira vez, conhecimento das suas aflições e dificuldades e das suas aspirações secretas e profundas” (p.101)
Os protagonistas são jovens estudantes que vivem a ocupação alemã e por conseguinte acompanham os ideais revolucionários da época. 
As duas histórias apresentam a mesma temática e algumas personagens em comum. No segundo conto 
Gostei de ler e de conhecer o testemunho do autor sobre esta época conturbada da sua cidade natal.


19 julho, 2020

Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, de Gao Xingjian,



OPINIÃO



Pequeno livro de escrita simples e subtil, composto por seis contos, sendo que o último – Instantâneos - consiste numa seleção de apontamentos, observações, descrições, … 

Os cinco primeiros contos abordam situações comuns que refletem não só o modo de pensar da sociedade oriental, mas também o da ocidental. Temos temas como a felicidade de um jovem casal em lua-de-mel; a brevidade da vida retratada num acidente mortal com as habituais e múltiplas opiniões da multidão “entendida”, situação depressa resolvida e esquecida; a indiferença perante as dificuldades do outro, um jovem quase morre afogado e ninguém se apercebe; o desinteresse e a dor causada pela ausência do outro, uma rapariga chora num parque enquanto espera, em vão, que o outro chegue; o encontro e a lembrança de um amor passado e que já não faz sentido; a saudade de uma infância feliz rememorada na procura dos lugares onde viveu com o avô e a dor sentida ao descobrir que desapareceram e foram substituídos por uma cidade de betão. 
É no último conto que deu título ao livro (o meu preferido) que o autor melhor explana a sua escrita poética e melancólica, porque sendo mais extenso, tem espaço para criar uma história mais comovente, mais emotiva. Ao contrário das primeiras narrativas, que sendo mais curtas, nem tudo é dito, cabe ao leitor ler nas entrelinhas e captar a profundidade da mensagem.



17 julho, 2020

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf


OPINIÃO

Foi uma viagem maravilhosa através da Suécia e na companhia de um grupo muito simpático de patos bravos, de um ganso branco e de Nils. O jovem Nils, é-nos apresentado como um jovem rebelde e cruel para os animais da casa, até que um dia, algo lhe acontece e Nils inicia uma viagem muito particular que o levará até à Lapónia. Para o nosso jovem protagonista será uma viagem de aprendizagem e de ensinamentos que o transformará completamente. Nils aprende a conhecer o seu país, a sua história e geografia, apreende valores como a liberdade, a solidariedade, a humildade e o respeito pelo outro e pela natureza. 
Através de uma história cativante, a autora revela-nos muito do seu país, das suas tradições e crenças, mas o mais importante são os ensinamentos e valores transmitidos.





11 julho, 2020

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis


OPINIÃO


Livro maravilhosamente bem escrito. Capítulos curtos. Enredo interessante e fora do comum já que o narrador conta a sua vida como defunto. Através das suas memórias póstumas, o protagonista, Brás Cubas, tece fortes críticas à sociedade burguesa da época. O facto de estar morto permite-lhe abordar os assuntos sem rodeios. E informa o leitor, interpelando-o directamente, disso mesmo. 

“Talvez espante o leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a fraqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião. O contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade!” (pp. 83 e 84) 

Através de uma ironia fina e de um sentido de humor apurado, Brás Cubas põe em evidência a hipocrisia dos homens e da religião, dos valores familiares e políticos, da escravatura. Ele próprio, que se considera medíocre, inútil e fútil, aceita as condições vigentes, o que lhe permite abordar os assuntos com propriedade. É falando dele que ridiculariza os outros. 

No último capítulo, ao qual atribuiu o título “Das Negativas”, ele define-se desta forma: “ Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. (…) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. (p. 314). Porém, viveu uma grande história de amor (que ocupa grande parte da narrativa), cimentada no adultério. Percebemos, ao longo do livro, que Brás Cubas é um fraco que se deixa arrastar pelas ocasiões, que não luta pelos seus interesses. Senão vejamos: “Não a vi partir; mas à hora marcada, senti alguma cousa que não era dor nem prazer, uma cousa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico.” (p. 245) 

Recomendo vivamente este livro. Confesso que eu própria já o devia ter lido. É incompreensível que um livro desta qualidade tenha ficado tanto tempo na estante. Contrario a consideração do narrador, no capítulo “O Senão do Livro”, ao referir que o seu livro é “enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica” (p. 172). Pelo contrário é muito vivo e satírico com laivos de humor cirúrgicos. 

Termino com esta citação que vem no seguimento da anterior e que para mim revela a genialidade do autor.
(…) vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…” (p. 172)



04 julho, 2020

No vazio da Onda- Trio e Quarteto, de R. L. Stevenson


OPINIÃO


Esta narrativa que se divide em duas partes tem tanto de cómico como de trágico. A acção inicia em Papeete, na ilha de Taiti, continua em viagem pelo mar (primeira parte) e vai terminar na “Ilha nova” (segunda parte), uma ilha perlífera.
A história incide no fracasso, no desencanto da vida, na redenção. Os protagonistas são três homens com características comportamentais bem diferentes e que por razões também diversas se encontram em Papeete, a viver miseravelmente na rua. Com identidades falsas, os três embarcam, literalmente, numa aventura que não terá um final feliz para todos. 

É um livro de leitura agradável que nos faz reflectir sobre o carácter das pessoas e as opções de vida.



30 junho, 2020

A portuguesa e outras novelas, de Robert Musil


OPINIÃO

Este livro divide-se em duas partes: a primeira, Três Mulheres - Novelas e a segunda, Uniões – Duas Narrativas.
Numa escrita irrepreensível e ensaística, Musil tece reflexões sobre o comportamento e os sentimentos das protagonistas de cada história. 

“E enquanto ela se retraía como uma película, sentindo nas pontas dos dedos a angústia silenciosa de pensar em si e as suas sensações se lhe colavam como pequenos grãos e as emoções escorriam como areia (…) o passado surgiu-lhe então, repentinamente, como expressão inacabada de algo ainda para acontecer.” (p. 143) 

De forma minuciosa, vamos conhecendo as dúvidas existenciais e, por vezes complexas, das personagens femininas. Estas dúvidas dissecadas, questionadas até à exaustão provocam algum desconforto no leitor porque este participa na mediação constante entre o sentimento e a razão; conhece os seus pensamentos, as emoções, as ideias, as motivações; especula e julga as decisões tomadas. 
“Para uma busca indefinida, a alma é qualquer coisa deste género. Durante toda a sua vida obscura, Verónica sentira receio de um amor e nostalgia de um outro; em sonhos, as coisas são por vezes idênticas ao que ela desejaria”. (p. 218) 

Musil é exímio na interpretação do comportamento humano. Ele interliga o presente e o passado, a realidade e o sonho; ele invoca os traumas psicológicos da infância, de algumas personagens, e fá-los reviver na vida adulta; ele retrata o desassossego constante. 
Musil não poupa o leitor, pelo contrário, embrenha-o nas narrativas, incomoda-o, instiga-o à reflexão. 

(…) Havia nela um ligeiro desassossego, uma nostalgia quase malsã de uma tensão extremada, o pressentimento de uma derradeira agudização. E, às vezes, parecia destinada a um mal de amor desconhecido.” (p.140)

28 junho, 2020

A Balada do Medo, de Norberto Morais


OPINIÃO



Neste livro, Norberto Morais transporta-nos de novo para um espaço imaginário. São Gabriel dos Trópicos é o país inexistente onde decorre uma parte da acção já que o protagonista, Cornélio Santos Dias de Pentecostes, passa muitos anos da sua vida, primeiro como suposto caixeiro-viajante, a circular pela região e mais tarde a fugir de uma morte anunciada. 
Ao longo da narrativa, o leitor fica deslumbrado quer pelas descrições dos locais quer pela caracterização das numerosas personagens pitorescas e extraordinárias presentes. 
O próprio protagonista é uma personagem fabulosa. Tem uma vida múltipla, com várias identidades, vive rodeado de mentira e de subterfúgios para trair a sua mulher e enganar as restantes mulheres que vai conquistando por onde passa. “Era com elaborado engenho que mantinha uma vida múltipla, conjugando afectos em todas as províncias do Norte, onde tinha mulheres aguardando-lhe o regresso. A solidão e a lonjura entre as cidades amparavam-lhe os pretextos” (p.9) 

Mas um dia tudo muda, e o folgazão passa a viver sob a égide do medo e do desespero de ludibriar o seu algoz e de assim escapar com vida. 

A leviandade e a falsidade protagonizadas por Cornélio são apresentadas com grande sentido de humor e uma grande mestria ao nível da escrita e da construção do romance. Porém, o autor pretende mais do que divertir com as peripécias amorosas da personagem, ele convoca o leitor a uma reflexão sobre a irracionalidade do ser humano perante a iminência da morte.


17 junho, 2020

O Homem que via passar os comboios, de Georges Simenon



OPINIÃO

É o primeiro livro que leio do autor e é considerado, segundo algumas críticas, como o seu melhor. 
Confesso, que também gostei muito. É um policial diferente de todos os que já li. Aqui, a narrativa não se centra na figura policial ou no detective, mas sim no criminoso. Nada de suspense, tudo nos é apresentado com naturalidade como se a loucura fosse o passo para a felicidade. E não será?
É fantástico acompanhar os actos e os pensamentos de Kees Popinga. Tudo é magistralmente planeado para que nada falhe e consiga escapar à polícia. O leitor torna-se cúmplice ao acompanhar a nova vida errática da personagem e vai gerindo as suas emoções ora com um sorriso ora com incredulidade. 
Fica a promessa de outras leituras.



13 junho, 2020

Ofício de Amar, Al Berto no Programa - A Vida Breve



Al Berto - Programa diário de poesia dita pelos seus autores, acrescentando património raro e valioso ao arquivo da rádio

https://www.rtp.pt/play/p1109/e202326/a-vida-breve    (para ouvir abrir link ou clicar no título)

Ofício de Amar

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto

10 junho, 2020

Luanda, Lisboa; Paraíso, de Djaimilia Pereira de Andrade




OPINIÃO


É o segundo livro que leio da autora. Este, na minha opinião, mais intenso quer na escrita quer na narrativa.
O livro com capítulos curtos poder-se-ia ler num fôlego, mas não, lemos e relemos para melhor absorver o sentido das palavras, que de tão poderosas e simbólicas, nos atingem profundamente. 
O início da narrativa é premonitório. O leitor antevê que não vai ser fácil, que a narrativa irá por caminhos difíceis, duros, emotivos. E de facto assim acontece.

“Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar. O calcanhar esquerdo do filho mais novo de Cartola de Sousa nasceu malformado. O pai deu-lhe um nome helénico, tentando resolver o destino com a tradição.” 

Os protagonistas, Cartola e Aquiles, pessoas simples e de boa fé, partem de Luanda rumo a Lisboa (“a cidade do progresso”) para tratar do calcanhar de Aquiles. Esta viagem, Cartola, o pai, “sonhara com ela uma vida inteira”. E representa a esperança de um futuro mais risonho e a cura do calcanhar do filho. Porém, mais não é do que o trampolim para o desenraizamento, o desencanto, o silêncio, a miséria.
“Pai e filho não enganaram nem a fome nem o frio, mas haviam-nos enfrentado como dois ventos contrários que se disputam num cruzamento. Seis anos passaram sem melancolia.”
“ (…) A história empurrou-os para uma margem sem que dessem conta de que tinham chegado a terra. Postos de parte, não tinham nem a dignidade dos espoliados nem a honradez redutora dos desgraçados. Tinham apenas o heroísmo insuspeito de terem ficado de lado, como ervas daninhas, querubins, migalhas de pão, e a graça de se poderem reerguer fora do campo de visão de quem os soubesse existentes, enquanto clandestinos…”

Esta dureza é atenuada por breves momentos de ternura e de amor presentes nas cartas e telefonemas trocados, de quatro em quatro semanas, entre Cartola e Glória, a mulher, e pela amizade que o unia a Pepe, o taberneiro, e a Iuri, um miúdo de Paraíso, o bairro onde (sobre)vivem. Com o desenvolvimento destas amizades, a esperança reavivou-se. Mas o Fado há muito que estava traçado. 
Recomendo muito. É um livro fabuloso, muito marcante. Djaimilia sabe do que fala e fá-lo muito bem.


06 junho, 2020

O macaco bêbedo foi à ópera, de Afonso Cruz



OPINIÃO



O macaco bêbedo foi à ópera é um breve, mas muito interessante ensaio sobre a influência do álcool, da embriaguez, na civilização ao longo dos tempos. Afonso Cruz desenvolve a teoria de que os macacos desceram das árvores para apanhar os frutos maduros que se encontram no chão. Ora, segundo a mesma teoria, os frutos maduros têm mais açúcar, fornecem mais energia e emanam um cheiro a álcool. “O que sustenta a teoria do macaco bêbedo é que o fruto caído e demasiado maduro está em processo de fermentação. Cria etanol. E o etanol viaja pelo ar com facilidade e chega ao nariz de quem procura açúcar. Resumindo: o macaco desce da árvore porque lhe cheira a álcool e isso significa açúcar, energia, calorias, consequentemente um cérebro maior, e muitos milénios depois a possibilidade de ir à ópera.” (p. 14) 

Porém o autor não fica por aqui, para além de demonstrar claramente como tudo isto se processa, o autor foca-se também no desenvolvimento da agricultura, na sedentarização do homem, no fabrico do álcool, sobretudo da cerveja, no consumo do mesmo e no impacto causado no homem e por conseguinte na sociedade.
“Essa mudança teve consequências, boas e más, cabendo a cada um relevar ou obliterar os argumentos que porá na sua balança filosófica, política, social e ética.” (p. 39) 

Para desenvolver a sua teoria deveras surpreendente, pelo menos para mim, o autor lega-nos, ao longo do texto, várias referências a outros livros permitindo, a quem o desejar, o aprofundamento deste tema. Ma o que destaco deste ensaio é a simplicidade e a clareza da escrita, com pinceladas de ironia o que de certa forma facilita a assimilação da informação e torna a leitura cativante. A certa altura, quando o autor desenvolve alguns aspectos causados pela embriaguez, como a loucura, a jovialidade, a demência temporária, entre outros, refere que “ a poesia é uma forma de embriaguez da língua, das palavras, e que o poeta, um pouco como o bêbedo, a criança, o profeta (…) relaciona coisas irrelacionáveis e as transforma em beleza e, mais do que isso, na possibilidade de novas teorias científicas, sociais, políticas e tecnologia.” (pp. 46, 47) 

Ora, foi isto que aconteceu na escrita deste ensaio. Afonso Cruz certamente um pouco embriagado (ele próprio é produtor de cerveja artesanal), ofereceu-nos este delicioso pequeno livro.


31 maio, 2020

Trold - Histórias dos mares do Norte, vol.1, de Jonas Lie



OPINIÃO

Este primeiro volume contém 16 contos. A maioria desenrola-se no Norte da Noruega, nos mares, nos fiordes, nas falésias escarpadas, nas florestas. É nestes ambientes agrestes que a população vive, tendo no mar o seu principal sustento. “Não era nada fácil lutar contra as ondas do mar nas tempestades de inverno. Não era muito longa a vida dos pescadores. “
Jonas Lie relata-nos essas dificuldades povoando os seus contos de monstros e seres fantásticos com poderes sobrenaturais, deuses nórdicos, povos estranhos, figuras fantasmagóricas. Estamos perante uma temática plena de misticismo e crenças populares. 
“Toda a falésia escarpada de Lofoten tem um aspecto tão estranho que evoca exactamente os trolls do Loke de Utgard, os quais foram transformados em pedra, lá no distante mar do Norte”

É uma leitura agradável. Facilmente ficamos seduzidos pela escrita simples destas histórias encantatórias.