18 setembro, 2021

𝑨 𝑻𝒆𝒓𝒄𝒆𝒊𝒓𝒂 𝑹𝒐𝒔𝒂, de Manuel Alegre

 


Autor: Manuel Alegre
Título: A Terceira Rosa
N.º de páginas: 133
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Julho 1999
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1047)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste pequeno livro em prosa, Manuel Alegre relata-nos simultaneamente uma história de amor e o final do Estado Novo.
Numa escrita poética, o autor tece um paralelismo entre o amor de Xavier e Cláudia que oscila entre encontros e desencontros, entre felicidade e solidão, e entre a decadência do regime e a Liberdade.
“Viveu a euforia de Lisboa Libertada, as chaimites que se passeavam, o sorriso das pessoas, a corrente que passava entre todos, o sentimento de pertença a um país, um movimento, um sonho. (…) Estava alegre e estava triste, partícipe e ausente. (…) Havia uma ausência, faltava o resto da sua mais secreta e íntima liberdade.” (p. 115)

Num tom confessional, e numa mescla de prosa e poesia, o autor recorre a pequenos textos, fragmentos intimistas para nos mostrar o caminho do amor, da paixão, da liberdade, mas também da solidão, da perda, da morte.
“ (Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto.
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?
Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto.)” (p.51)

É portanto uma leitura cativante, na medida em que o pensamento (de Xavier) convoca os momentos, as memórias mais marcantes e importantes de uma vida.


“O Medo”, de Al Berto: deslocação, fragmentação e fluxo

 

                        Al Berto / Ilustração de Marta Nunes – CCA (@martanunesilustra)



Erotismo. Se perguntarem aos demais do mundo literário e académico, o poeta sineense Alberto Raposo Pidwell Tavares, mormente conhecido pelo seu nome golpeado de Al Berto, acaba sempre descrito como um boémio cuja linguagem desagua sempre no corpo e na sexualidade. Ora, acolher tais raciocínios é permitir a formação de um pressuposto mental que nos impactará aquando da leitura da sua obra. Em rigor, a sua escrita é um rasgo de modernidade.

Texto de Pedro Lopes Adão, 

8 setembro, 2021   in Comunidade Cultura e Arte

15 setembro, 2021

𝑩𝒓𝒊𝒕𝒕-𝑴𝒂𝒓𝒊𝒆 𝑬𝒔𝒕𝒆𝒗𝒆 𝑨𝒒𝒖𝒊, de Fredrik Backman

 


Autor: Fredrik Backman
Título: Britt-Marie Esteve Aqui
N.º de páginas: 300
Editora: Porto Editora
Edição: Novembro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Devo confessar que no início estranhei a personagem, “chatarrona”, maníaca, inconveniente e “incompetente a nível social”, mas à medida que a história avança e que Britt-Marie se envolve no ambiente muito peculiar da localidade de Borg e se afeiçoa ao seu novo emprego e às personagens com quem lida diariamente, comecei também eu a modificar a minha opinião.

O “Primeiro estranha-se e depois entranha-se” aplica-se perfeitamente a este livro. Aos 63 anos, a vida de Britt-Marie sofre uma reviravolta estonteante e muito interessante. A dona de casa maníaca da limpeza, com comportamentos obsessivos vai transformar-se totalmente…. E o final é completamente inesperado, direi mesmo, fantástico!

O que torna este livro verdadeiramente fantástico e cativante é a forma como o autor nos narra a história baseando-se sempre nos pensamentos e nos comportamentos da protagonista. Carregado de humor, que por vezes atinge o absurdo, o nonsense, mostra-nos as dificuldades da vida, os obstáculos a vencer, a construção de valores, a transformação de caracteres, a descoberta de si próprio, …
A partir de situações divertidas porque caricaturais, o autor numa escrita simples, sentimental e muito cinematográfica transforma a história de vida de Britt-Marie numa crítica social muito pertinente.

Gostei. É um livro que nos faz sentir melhor. Que nos diverte.

12 setembro, 2021

𝑻𝒐𝒓𝒕𝒐 𝑨𝒓𝒂𝒅𝒐, de Itamar Vieira Junior

 


Autor: Itamar Vieira Junior
Título: Torto Arado
N.º de páginas: 279
Editora: Leya
Edição: Fevereiro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3208)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

A trama deste belíssimo romance situa-se no sertão baiano. Nele se evocam a discriminação racial, as relações de servidão, a luta pela terra, mas também crenças, feitiços e rituais. Numa narrativa a várias vozes, acompanhamos as vidas de Belonísia e Bibiana, duas irmãs fortemente ligadas devido a um incidente que ocorreu na infância.

São histórias de sofrimento, de constante luta, de violência às quais o leitor não fica de modo algum indiferente, mas a dureza da vida nas roças, o trabalho de sol a sol sem salário, as condições de habitação, a falta de alimentos, as situações de violência, a luta pela sobrevivência são narradas de forma sensível e subtil, mitigando assim a dureza e a crueldade presentes ao longo do enredo.
“Fui tomada por uma profunda tristeza ao ver aquelas duas vidas, desamparadas diante do que lhes haviam feito. Vi tanta crueldade ao longo do tempo, e mesmo calejada me comovo ao ver os homens derramando sangue para destruir sonhos. Vi senhores enforcarem seus escravos como castigo. Cortarem suas mãos no garimpo por roubarem um diamante. Acudi uma mulher que incendiou seu próprio corpo por não querer ser mais cativa de seu senhor. ( ….) “ (p. 220)
Como sabemos, ao longo dos tempos, e sobretudo durante a escravatura, a mulher foi (e ainda é, infelizmente) o elemento fraco, violentado, abusado e maltratado. Contudo neste romance, apesar de focar essas facetas, o autor com muita sensibilidade atribui às mulheres um papel importante, de destaque. A figura feminina é forte e lutadora, conhecedora da terra e esperançosa numa vida melhor para os seus filhos, crente na sabedoria dos mais velhos e na religião do seu povo, o Jaré.
“(…) Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força do seu corpo. A mulher que sentiu as dores do parto e deitou em silêncio, mordendo os lábios para parir mais um filho. (…) Era filha da gente forte que atravessou um oceano, que foi separada de sua terra, que deixou para trás sonhos e forjou no desterro uma vida nova e iluminada. Gente que atravessou tudo suportando a crueldade que lhes foi imposta.” (p.278)

Romance perturbador, impactante que com pinceladas de algum realismo mágico nos remete para as grandes obras de Jorge Amado e mesmo de Gabriel Garcia Márquez.




06 setembro, 2021

𝑨 𝑪𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒂𝒔 𝑭𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔, de Augusto Abelaira

 



Autor: Augusto Abelaira
Título: A Cidade das Flores
N.º de páginas: 246
Editora: Unibolso
Edição: 1959
Classificação: Romance
N.º de Registo: (34)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Romance publicado em 1959 (o primeiro do autor) situa-se na Itália (Florença) de Mussolini, anos 30. Ao focar-se no regime fascista italiano, o que o autor pretende é denunciar a situação portuguesa e, assim, “sugerir uma certa imagem de Portugal, o Portugal fascista dos anos 50”. Desta forma, colocando a acção noutro país, o autor logra a política de censura salazarista.
A narrativa dividida em duas partes, aborda o comportamento dos jovens perante o regime opressor no antes e durante a segunda guerra mundial.
É interessante constatar como funcionou muito bem a transposição da situação portuguesa para o meio político, social e cultural italiano. As preocupações, os desejos, os comportamentos retratados evidenciam claramente o que se passava em Portugal. (É estranho que a censura não tivesse percebido, ou foi-lhe útil ser hipócrita como o autor refere no posfácio?).

“É assim, como poderemos viver felizes sob este regime? Ele mata-nos o espírito e até nos faz descrer das nossas próprias qualidades: pois não é certo que somos incapazes dum gesto heróico e de acabar com ele duma vez para sempre? Não. Estamos roídos pelo medo, pela nossa própria cobardia.” (p. 234)
Atitudes, como a falta de empenho político, incapacidade de lutar, apatia perante o opressor, medo, ausência de fé, autocomiseração, descrença no futuro, conformismo, estão muito bem explanadas ao longo da narrativa e são representativas de uma juventude italiana, mas sobretudo portuguesa.
“ - Não crês no futuro. No fundo conformaste-te com o presente, embora ele te repugne. Desiste. Tornaste-te conformista.” (p. 178)

A Cidade das Flores continua a ser um romance intemporal e actual. De forma sublime e com alguma ironia, o autor descreve situações, constrói diálogos que ora corta ora intercala, que provocam no leitor imensas questões, imensas dúvidas sobre a existência humana, o relacionamento amoroso, a amizade, a (in)justiça, o pensamento crítico, o valor da arte na sociedade, a vida rotineira, a opressão e a guerra.

Recomendo! É importante manter viva a história de um país.


 



01 setembro, 2021

𝑶 𝑹𝒆𝒕𝒓𝒂𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑹𝒊𝒄𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒂, de Camilo Castelo Branco

 


Autor: Camilo Castelo Branco
Título: O Retrato de Ricardina
N.º de páginas: 176
Editora: Aletheia Editores
Edição: Julho 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3061)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Mais uma novela camiliana em que o amor é o tema central. Amor proibido, casamentos arranjados pelos pais, rivalidades familiares, crimes, guerra civil entre absolutistas e liberais. Todos os ingredientes que Camilo Castelo Branco tão bem sabe gerir com laivos de ironia e crítica pessoal.
Estamos em pleno século XIX, numa sociedade hipócrita onde a mulher é discriminada e os seus desejos rejeitados. É a mulher que fica sempre mal vista, repudiada pela família e pela sociedade.
Logo no prefácio, o leitor é informado que “o enredo da novela estava, efectivamente, sobrecarregado de «casos incríveis», com encontros, desencontros e reencontros miraculosos.” E assim acontece. Esta novela sentimental assenta na relação amorosa entre Ricardina Pimentel e Bernardo Moniz. Relação contrariada e conturbada.

O que me agradou sobretudo nesta narrativa é o carácter de Ricardina que apesar do seu aspecto frágil e angelical, como é descrita, foge à norma da mulher passiva e submissa, sem liberdades e sem opinião, própria da época. Ricardina enfrenta as decisões do pai e luta corajosamente pelo seu amor, pelos seus ideais enfrentando todas as adversidades que lhe vão surgindo ao longo de vinte e poucos anos. A sua atitude de resistência à vontade paterna e de imposição dos seus próprios valores, mesmo que para isso, inicialmente, tenha de ir para um convento, torna-se numa atitude emancipatória da mulher.

Para concluir, nesta novela o bem sobrepôs-se ao mal. O amor venceu o ódio e a vingança. A fidelidade e a resignação venceram a angústia e o sofrimento. “ A liberdade veste de asas a paixão e dá trela à ave daninha até onde ela se libra.” (p. 140)

Para mim, é das melhores novelas do autor.



28 agosto, 2021

𝒆𝒔𝒕á 𝒇𝒓𝒊𝒐 𝒍á 𝒇𝒐𝒓𝒂..., de António Panarra



Autor: António Panarra 
Título: Está frio lá fora...
N.º de páginas: 862
Editora: Guerra & Paz
Edição: Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3269)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Está frio lá fora… é o primeiro (grande) romance de António Panarra. É um romance intimista, narrado a várias vozes, que aborda essencialmente temáticas intemporais como o amor, a perda, a sexualidade, a amizade, a solidão, a espera, a morte. De memórias, de escrita...
“Ao silêncio seguiu-se o seu sorriso. Inequivocamente triste. Evocador – diria eu – de memórias, histórias, sofrimentos. Poucos segundos levaram os seus olhos a despedir o tom baço, quase de cegueira e a regressarem à vida, num refulgir que os fez de novo azuis, da cor do céu.” (p. 193)

Manuel, o protagonista, narra-nos o grande amor da sua vida. Num enredo intenso, longo, dissecado, vamos acompanhando a paixão avassaladora entre Manuel e Afonso. Uma paixão de encontros, ternura e prazer, mas também de ausências e esperas, de solidão, de tristeza. É uma paixão que permanece para além da morte. “Encontro-me noutro plano da minha própria existência. Algures no meu interior, onde afinal habitas e habitaste sempre (…)” (p. 633)
É uma paixão de incertezas, de procura do “eu”, de dúvidas existenciais, de questionamentos,… “E eu precisava saber de mim. Saber quem sou, sem dúvida, mas essa era uma aventura que eu queria viver e só no fim, porventura, teria respostas. No confuso mapa de questões em que neste momento me movimento, preciso de saber pra onde ir, preciso de saber para onde posso ir sem que os meus passos sejam falsos logo à partida.” (p. 308)

Mas para além da história de Manuel e Afonso, há outras, muitas outras como a de AH, de Llena, de Idalina, de Simone, de Tomás, de Sancha,… histórias de vida complexas, todas marcadas pela dor de uma perda. Histórias narradas, de forma sublime, em longas conversas, por vezes, monólogos de quem rememora o passado, de quem revê memórias, em jeito de catarse.
“(…) A sua solidão! Profunda. Profundíssima. E não falo de ser ou não amada, de amar ou não. Falo de uma forma muito mais fundamental de solidão. Aquela em que um indivíduo está exclusivamente perante a sua consciência, perante o seu passado, perante as suas perdas e a sua própria fragilidade.” (p.393)

É um livro magnífico, perturbador, marcado pelo amor e pela liberdade de escolhas. É um livro que recomendo, que deve ser saboreado, tal como refere o protagonista quando, na página 129, fala das suas leituras:
“ Leio devagar (…) ler deixou de ser uma diversão ou uma forma de ocupar o tempo. Ler passou a ter valor. Ler passou a ser importante. (…) Aprendi então que um livro vale pela história que conta, e também que uma história contada vale pelas palavras escolhidas para conta-la. (…) Descobri-me sensível ao belo das palavras e ao que contêm de transcendência. Seja a arte das palavras harmónica ou dissonante, ou mesmo violenta e brutal, sobressai delas – se sabiamente escolhidas – o poder de acordar em quem as lê a intuição da dor, do sofrimento, do amor ou da alegria, da felicidade ou da mais profunda tristeza.”

É mesmo isto. Este livro vale pela história que conta e também pelas palavras sabiamente escolhidas.

15 agosto, 2021

𝑨𝒒𝒖𝒊 é 𝒖𝒎 𝒃𝒐𝒎 𝒍𝒖𝒈𝒂𝒓, de Ana Pessoa e Joana Estrela


Autor: Ana Pessoa
Ilustração: Joana Estrela
Título: Aqui é um bom lugar
N.º de páginas: 244
Editora: Planeta Tangerina
Edição: Março 2019
Classificação: Diário gráfico
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Aqui é um bom lugar é um diário gráfico muito original. Escrito por Ana Pessoa e ilustrado por Joana Estrela tem como protagonista uma jovem de 17 anos, a terminar o ensino secundário.
De leitura rápida e fácil revela textos curtos, pensamentos, emoções, memórias, banalidades, frases que ouve na rua, situações da escola, de leituras que inicia, que acaba …. De vez em quando lança uma pergunta, (O que é a loucura? O pensamento?...) dá a resposta, faz jogos de palavras, cita provérbios, expressões idiomáticas, revela a sua paixoneta pelo professor de Educação Física, etc, etc…. e tudo isto muito bem ilustrado com desenhos, recortes, fotos. A própria escrita (tamanho, estilo,…) diverge e torna-se por si só uma ilustração. Tudo escrito e ilustrado a azul e preto sobre caderno branco.

“A cachopa foi à biblioteca. Escolheu um livro que se chama “O AMANTE”. A cachopa lê sobre o amante porque não tem um amante. Bruxo.” (a ilustração representa a capa do livro onde consta o desenho de um pássaro, o título e a autora - Marguerite Duras)

Na página seguinte continua: “ A protagonista do livro tem 15 anos e já tem um amante. A leitora tem 17 anos e nunca teve um amante na vida.
PROTAGONISTA – 1 Leitora – 0”

Parece muito simples, não é? É, mas o simples é belo porque há sinceridade, sensibilidade e, por vezes, uma ponta de ironia. E espelha bem a maneira de agir e de pensar de uma adolescente. Vou tentar disseminar esta ideia, criar um diário gráfico, junto dos mais jovens.


13 agosto, 2021

𝑳𝒆𝒗𝒂𝒏𝒕𝒂𝒅𝒐 𝒅𝒐 𝑪𝒉ã𝒐, de José Saramago

 



Autor: José Saramago
Título: Levantado do Chão
N.º de páginas: 366
Editora: Caminho
Edição 14ª: Fevereiro 1999
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1039)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em A estátua e a pedra - o autor explica-se, texto que José Saramago apresentou numa conferência em Turim e que foi mais tarde publicado em livro, é-nos dito pelo próprio que Levantado do Chão (1980) é o primeiro livro do ciclo da estátua tendo o segundo ciclo, o da pedra, iniciado com  Ensaio sobre a Cegueira (p. 45).
Para que possamos entender esta metáfora, transcrevo a explicação do próprio autor: “(…) começou outro período da minha vida de escritor, no qual desenvolvi novos trabalhos com novos horizontes literários, dispondo portanto de elementos de juízo suficientes para afirmar com plena convicção que houve uma mudança importante no meu ofício de escrever. Não falo de qualidade, falo de perspectiva. É como se desde o Manual de Pintura e Caligrafia até a O Evangelho segundo Jesus Cristo, durante catorze anos, me tivesse dedicado a descrever uma estátua. O que é a estátua? A estátua é a superfície da pedra, o resultado de tirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura é descrever o exterior da pedra, e essa descrição, metaforicamente, é o que encontramos nos romances a que me referi até agora. (…) Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com o Ensaio sobre a Cegueira.” (pp. 33 e 34)

Partindo desta explicação, entende-se melhor a importância da obra Levantado do Chão, já com o estilo que se tornará muito próprio de Saramago. A história situa-se no Alentejo, descreve a vida de três gerações da família Mau-Tempo, desde os finais dos século dezanove até à Revolução de Abril de 1974 e relata a vida duríssima do campo, a miséria do povo, o poder dos latifundiários, da guarda republicana, a hipocrisia da igreja e as lutas camponesas para conseguir trabalho, redução de horário e um pagamento mais justo, a perseguição aos comunistas e a violência praticada quer nos postos da guarda quer nas prisões.
É um livro brilhante. Saramago de forma muito crítica retrata uma época política difícil, mas é nas pessoas, no seu quotidiano, nas suas lutas, nas suas dificuldades que ele centra toda a acção. E ao acompanharmos a família Mau-Tempo, vamos percebendo a evolução política e social do país, vamos entendendo a luta duríssima dos camponeses pelos seus direitos por uma vida mais digna e justa.

Saramago apresenta-nos uma escrita crítica, sensível, poética e perturbadora. Por exemplo, quando descreve um dos momentos mais cruéis, de tortura, recorre à metáfora do carreiro de formigas que surpreende, perturba e, simultaneamente, encanta o leitor.



03 agosto, 2021

𝑶 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝒅𝒐 𝑫𝒆𝒔𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐, de Ondjaki

 


Autor: Ondjaki
Título: O Livro do Deslembramento
N.º de páginas: 229
Editora: Caminho
Edição: Julho 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3236)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Ondjaki é um contador de estórias cativante. Gosto de o ouvir falar. Gosto de o ler. Gosto de o ler em voz alta para melhor captar a harmonia e a poesia das suas palavras.
Neste último romance auto ficcional, ele dá voz a uma criança angolana, que vive em Luanda. Numa Luanda ainda assolada pela guerra, onde ainda impera o medo “a cidade andava cheia de silêncios” (p.228). Porém, a narrativa centra-se em grande parte numa época de paz e só no final assistimos ao reacender da guerra civil.

É então pelas lembranças e pelo olhar de Ndalu (Ndalinho) que vamos conhecendo as suas estórias e a dos camaradas adultos (família, amigos e vizinhos). São páginas de puro encanto, de sensibilidade e boa disposição. Nem tudo é verdade, mas parece que é de tão bom o registo que enleva o leitor. Mas isso não tem importância e o leitor foi informado, logo na página 16, que “em Luanda, cadavez uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória”

E as estórias verdadeiras ou inventadas são maravilhosas, e como "às vezes aqui quando te dizem uma coisa, é mais fácil só acreditar, duvidar dá muito trabalho e ainda traz discussões que não levam a lado nenhum” (p. 56), então deixemo-nos embalar pelas lembranças e pensamentos de Ndalinho e pelas palavras poéticas de Ondjaki.
“ gosto dessa hora de muito cedo, parece que a cabeça também fica mais limpa, com bom espaço para pensamentos
as coisas que chegam dos sonhos, os restos da noite, misturam-se com todas essas coisas frescas que penso de manhã, penso sozinho: penso de lembrar, penso de imaginar e penso ainda de misturar com todos os barulhos e as coisas que tenho de imaginar que estão a acontecer nas outras casas, nos outros quintais, depois, se a pessoa deixar os olhos fecharem, quase que recomeça a sonhar…” (p. 104)

e ainda

“ eu a olhar o olhar da tia Tó toda orgulhosa, como ela dizia, da minha língua portuguesa, ás vezes ela perguntava-me onde é que eu ia buscar tantas ideias, se eram de verdade ou inventadas, eu tinha de lhe explicar outra e outra vez que em Angola não era preciso inventar nada, ou a cidade te dava as estórias, ou a rua, ou a escola ou então havia sempre uma caixa cheia de estórias em cada família” (p.226)

É verdade, Ondjaki tem uma enorme caixa cheia de belas estórias que tão bem sabe partilhar com os seus leitores.
Recomendo muito este livro, ou qualquer um do autor. Este foi publicado em 2020 para assinalar os 20 anos de carreira literária.



01 agosto, 2021

𝑴𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓𝒆𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒍ê𝒆𝒎 𝒔ã𝒐 𝒑𝒆𝒓𝒊𝒈𝒐𝒔𝒂𝒔, de Stefan Bollmann

 


Autor: Stefan Bollmann
Título: Mulheres que lêem são perigosas
N.º de páginas: 150
Editora: Círculo de Leitores
Edição: Abril 2007
Classificação: Arte
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Quando descobri este livro na biblioteca da minha escola, decidi imediatamente que teria de o ler. Quem gosta de livros e de ler não fica indiferente ao título.

É sobretudo um livro de arte, belíssimo, que revela várias obras de pintura, fotografia e desenho. Todas reproduzem mulheres a ler. Todas são acompanhadas de uma breve explicação sobre o artista, a época e sobre a mulher que lê.
Elke Heidnreich refere isso mesmo no seu prefácio: “ Nas imagens deste livro faltam os homens. Trata-se apenas de mulheres que lêem. São mulheres mais velhas e mulheres mais jovens, estão sentadas ou deitadas, vestidas ou desnudas, vemos os seus braços, o seu cabelo, a cabeça inclinada, só raramente vemos os seus olhos, só quando acabaram de ler ou olham em frente depois de interromper a leitura por alguns momentos.” (p.17)

Elke Heidnreich faz uma contextualização apaixonada da leitura, da relação da mulher com a leitura, numa intertextualidade com a arte e a literatura.

Stefan Bollmann, introduz este livro com uma breve história da leitura desde o século XIII ao XXI.
“ A leitura dá-nos prazer e consegue transportar-nos para outros mundos – ninguém que já perdeu a noção do tempo e do lugar quando estava embrenhado num livro irá refutá-lo. Mas a ideia de que a leitura deve dar-nos prazer, de que esse é o seu principal objectivo, é relativamente nova: foi mais ou menos definida no século XVII e ganhou raízes mais fortes no século XVIII.” (p. 23)
No final da introdução, o autor explica o porquê da apresentação das imagens de artistas famosos. “A galeria de imagens de mulheres a ler que se segue funciona como um museu virtual. Folheando o livro para trás e para diante, o leitor pode deambular nele, captar olhares e fazer associações. Os comentários curtos destinam-se a apoiar este circuito: Até as imagens de leitura precisam de ser lidas.” (p. 37)

Em seis capítulos, como se visitássemos salas de um museu, dedicados às leitoras abençoadas, fascinadas, autoconfiantes, sentimentais, apaixonadas e solitárias, encontramos sempre imagens fortes de mulheres leitoras, livres, confiantes, curiosas, sonhadoras, enigmáticas, apaixonadas, …

Foi um verdadeiro prazer ler este livro, esta obra de arte. Não podemos olvidar que, no início a leitura era apenas uma actividade de homens, já foi muito reprimida, já foi considerada como uma heresia, já foi causadora de distúrbios familiares, políticos, …

Sendo assim, só posso concordar com Elke Heidnreich quando ela refere: “Da leitura resulta a autoconfiança, da autoconfiança resulta a coragem de ter ideias próprias.” (p.17)

Leiam e sejam perigosas!

29 julho, 2021

𝑩𝒍𝒂𝒄𝒌𝒑𝒐𝒕, de Dennis McShade

 


Autor: Dennis McShade
Título: Blackpot
N.º de páginas: 58
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Outubro 2009
Classificação: Policial
N.º de Registo: (3296)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Blackpot é uma novela policial de 58 páginas, escrita por Dennis McShade, alter-ego de Dinis Machado. Faz parte da série Peter Maynard (4.º livro). Contudo Maynard, o assassino profissional dos livros anteriores, não integra esta narrativa curta e de leitura rápida (cerca de 30 minutos). Sem protagonista evidente, poder-se-á afirmar que talvez seja a morte, já que se trata de uma sucessão de assassínios.
Através de conversas curtíssimas, cinematográficas, desenrola-se sob os nossos olhos toda uma “reorganização” de uma sociedade. Entre jogos de xadrez, telefonemas curtos, encontros, os vários homens “de lá de baixo” e os “de lá de cima”, apenas identificados pelos nomes de código, vão-se abatendo com precisão, silenciosamente. Não nos são apresentados os motivos, apenas poderemos subentendê-los a partir desta frase: “Pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão. “ (p.50)

No final, no último capítulo, o leitor retém a seguinte frase: “Victor foi com a mão, maquinalmente, à estante e retirou de lá La Chute, de Camus. Abriu o livro e leu pela milésima vez a frase que mais odiava: «Quando todos formos culpados então será a democracia». Atirou o livro para a lareira acesa e ficou a vê-lo arder durante cinco minuto.” (p.58)
Qual é então a intenção de Dinis Machado ao escrever esta novela? É que ele não nos dá muita informação, apenas acção e mortífera. Sabemos que os homens chamados para matar estão doentes, velhos, decadentes…. Será que combatendo o medo, a solidão, a injustiça nos conduz à libertação, a uma nova vida?
Durante a leitura não há tempo para reflectir, o leitor é levado pela rapidíssima acção. Só no final, e provavelmente, após uma releitura imediata, se vislumbram algumas, possíveis, interpretações, como aquela que já sugeri. Haverá, no entanto, outras possibilidades, sobretudo se nos detivermos na análise simbólica dos nomes das personagens, do jogo de xadrez.




28 julho, 2021

𝑼𝒎 𝑨𝒏𝒋𝒐 𝒏𝒐 𝑻𝒓𝒂𝒑é𝒛𝒊𝒐, de Manuel da Fonseca

 



Autor: Manuel da Fonseca
Título: Um Anjo no Trapézio
N.º de páginas: 125
Editora: Caminho
Edição: Outubro 1990
Classificação: Contos
N.º de Registo: (445)



OPINIÃO ⭐⭐⭐1/2


Um Anjo no Trapézio inclui sete contos em que o espaço narrativo se situa em Lisboa e não no seu Alentejo litoral (Santiago do Cacém). Já não temos a gente humilde e trabalhadora do campo que se reúne nas praças, nas feiras, nos montes, da rua e passamos a descobrir gente infeliz, desamparada que vive com dificuldades e na incerteza, na miséria, no álcool, na doença, na violência doméstica, na solidão, na corda bamba…

Como habitualmente, Manuel da Fonseca revela uma escrita interventiva mais social que política (neste livro), retratando o povo, a sua vida. Ele exalta o ser humano, descreve-o física e psicologicamente de forma sublime, emotiva. É muito a partir destas descrições que depreendemos a vida da personagem. E nunca nos indica o final, cabe ao leitor, se assim o entender, imaginar o fado da personagem.
Não é o melhor livro do autor, na minha opinião, gostei mais dos anteriores, talvez porque se focam mais no campo, nos alentejanos. Este é todo citadino e por isso as problemáticas são diferentes, mas como já referi, a preocupação do autor em denunciar as questões sociais, mantêm-se.

Vale a pena ler Manuel da Fonseca!



27 julho, 2021

Um poema de Manuel da Fonseca





ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
Tu que choras uma angústia qualquer
E falas de coisas mansas como o luar
E paradas
Como as águas de um lago adormecido,
Acorda!
Deixa de vez
As margens do regato solitário onde miras
Como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
Desse país inventado
Onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
Do barco ao deus-dará
E esse ar de renúncia
Às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
Liberta-te dessa paz podre de milagre
Que existe
Apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
Abre os braços e luta!
Amigo,
Antes de a morte vir
Nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca – Poemas Completos




26 julho, 2021

𝑷𝒆𝒓𝒆𝒈𝒓𝒊𝒏𝒂çã𝒐, de Olivier Rolin

 


Autor: Olivier Rolin
Título: Peregrinação
N.º de páginas: 261
Editora: Sextante Editora
Edição: Agosto 2019
Classificação: Romance /Viagens
N.º de Registo: (3210)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Peregrinação, foi escrito, em parte, em Cascais onde o autor permaneceu durante uns meses numa residência literária. Este título é uma homenagem ao nosso país que o autor admira e à nossa literatura.
“Os Açores, esse arquipélago perdido no meio do Atlântico, entre Europa, Áfica e Américas, foi lá que iniciei a minha peregrinação, por acaso, como se me tivesse atirado à água…” (p. 261)
Olivier Rolin, no seu prefácio, informa-nos que sempre viajou muito por questões profissionais, “por vezes era enviado por um jornal, noutras era para me documentar para um livro, noutras ainda era por ocasião de uma tradução ou para participar numa palestra, nunca como turista.”
Refere ainda que durante trinta anos encheu cerca de sessenta cadernos e que foi neles que se inspirou para escrever este livro.
“ Há dois anos, comecei a relê-los. Das palavras (…) emergiram recordações que me deram vontade de esboçar com elas uma espécie de retrato, subjetivo e fragmentário, do mundo que é o meu e se confunde, em grande parte com a minha vida. (…) Não está organizado por nenhuma cronologia, por nenhuma data, por nenhuma coerência geográfica, apenas pelo fio fortuito da memória. Quis criar um efeito de cintilação e quase de vertigem, porque é assim o mundo: cintilante e vertiginoso.”
Efectivamente, é o que o livro nos oferece, uma belíssima viagem vertiginosa, cintilante confortável e enriquecedora. Os seus destinos fogem aos roteiros habituais do turismo.
Para além das digressões políticas, religiosas, sociais, ambientais, e literárias (há imensas referências aos seus escritores de eleição), entre outras, o autor relata-nos episódios da sua vida, alguns divertidos outros mais solitários :“Jantares solitários, em lugares onde ninguém estava à minha espera, a minha vida tem muitos.” (p. 60)

Das múltiplas incursões, “devaneios, obsessões, encontros, acasos” (p.75), imagens que representam o seu mundo, destaco uma que exemplifica o tom bem-disposto e irónico com que nos presenteou ao longo da sua “peregrinação”. Trata-se de uma belíssima “galeria de retratos, crónica de ocasiões falhadas”.
“ E isto, esta ideia de que a vida é também feita de tudo o que lhe escapou, do que a sensibilizou como a luz sensibiliza (sensibilizava) o papel fotográfico sem permanecer nele, incita-me a compor as seguintes saudações a algumas beldades com quem me cruzei, com quem apenas me cruzei, mas que contam mais na minha vida do que tantas pessoas cuja conversa me aborreceu (ou que a minha conversa aborreceu), de quem perdi a memória ao passo que me lembro destas, que foram para mim baudelairianas transeuntes que eu teria amado (mas elas não sabiam: (…).“ (p. 206)

Outro aspecto que apreciei é o constante diálogo que o autor mantém com o leitor. Estas interpelações directas criam uma simbiose muito interessante:“Podem não acreditar (azar o vosso), mas este livro está a escrever-se diante dos vossos olhos, à medida que o leem (…)” (p.34) e provocam-nos a ilusão de estarmos também em viagem. “ No meu barco de papel, em bússola, à aventura, divaguei por tempos e lugares (…).Vimos países, pessoas, ouvimos línguas a rumorejar, percorremos milhares e milhares de quilómetros (sem contar com aqueles que andei, dando voltas em frente da minha secretária… ). “ (p. 261).

Recomendo, mas acredito que este tipo de relato possa não ser do agrado de alguns leitores.
Nada como experimentar! Além do mais, podemos sempre viajar confortavelmente instalados num sofá ou deitados no areal de uma praia deste mundo!

24 julho, 2021

𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒔 𝑵𝒐𝒓𝒎𝒂𝒊𝒔, de Sally Rooney

 



Autor: Sally Rooney
Título: Pessoas Normais
N.º de páginas: 248
Editora: Relógio d'Água
Edição: Agosto 2018
Classificação: YA
N.º de Registo: (Emp)

OPINIÃO ⭐⭐⭐


Pessoas Normais narra a história de dois jovens, Marianne e Connel, colegas de liceu e mais tarde da mesma Universidade, em Dublin. A acção situa-se num curto espaço de tempo (4 anos) e foca-se muito, por vezes em demasia, na minha opinião, no relacionamento entre jovens, incidindo sobretudo na relação “anormal” (ou será que é normal?) entre Marianne e Connell.

No início da leitura, tive dúvidas sobre a relevância da história e questionei-me se valeria a pena lê-lo até ao fim. Como gosto de dar uma segunda oportunidade ao livro (ou ao autor), decidi ir até ao fim. Foquei-me sobretudo no não dito, ou dito de forma muito leve e acabei por entender a mensagem patente nos temas abordados, muito recorrentes nos nossos jovens: ser ou não ser aceite num grupo; a angústia do que os outros pensam de nós; os problemas familiares; o bullying; a amizade; o amor; a sexualidade; as relações abusivas; o álcool, a depressão; o suicídio.
Apesar dos temas complicados, a construção da narrativa torna-os mais suaves, menos complexos, na medida em que são abordados naturalmente pelos jovens. Construída essencialmente a partir de diálogos, torna-se assim, mais clara a mensagem que a autora pretendeu passar, isto é, a construção de uma identidade possa ela parecer normal ou anormal aos olhos dos outros e dos próprios leitores. Os protagonistas vão crescendo e aprendendo. Normalmente, vão se transformando e aceitando as relações, a vida.
Posso concluir que o livro apresenta assuntos muitíssimo actuais. As reflexões dos protagonistas, em determinados momentos, perturbam o leitor e a história que parecia banal e entediante, acaba por se tornar importante.


17 julho, 2021

𝑶 𝒎𝒆𝒖 𝒏𝒐𝒎𝒆 é 𝑳𝒖𝒄𝒚 𝑩𝒂𝒓𝒕𝒐𝒏, de Elizabeth Strout

 


Autor: Elizabeth Strout
Título: O meu nome é Lucy Barton
N.º de páginas: 173
Editora: Alfaguara
Edição: Setembro 2016
Classificação: autobiografia
N.º de Registo: (Emp)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


“Toda a vida me fascina” é a última frase deste pequeno e apaixonante livro. Esta frase, só por si, levar-nos-ia a pensar que a protagonista, Lucy Barton, teve uma vida fácil. Não é verdade, bem pelo contrário.
Este livro fascinante transporta-nos para o mundo das relações familiares. É numa cama de hospital, onde permanece várias semanas, que Lucy nos faz o balanço da sua vida. Saltitando entre o passado e o presente, vamos descobrindo a sua vida miserável enquanto criança e adolescente, a falta de amor dos pais, mas sobretudo da mãe, a sua saída de casa, o seu casamento, as suas duas filhas, a sua paixão pela escrita, …
Numa escrita muito sentida e subtil, a narrativa sugere, silencia, não escancara a violência, a solidão, o abandono, a falta de amor e de assunto entre mãe e filha, a conquista da cumplicidade.

Ninguém fica indiferente a esta história que coloca em foco as relações entre mães e filhas. A chegada inesperada da mãe de Lucy ao hospital vai reacender as feridas do passado, mas também vai servir de redenção. “Não tenho qualquer recordação de a minha mãe algum dia me ter beijado. Talvez me tenha beijado, contudo; posso estar enganada.” (p. 120)
A visível falta de amor, de atenção e de carinho entre mãe e filha torna estas duas mulheres melancólicas. Há uma latente urgência em compensar estas falhas, mas falta coragem para o dizer, as escassas conversas convergem para a banalidade, contudo, fica-nos a impressão de um perdão, de uma conquista, de uma aproximação.
“Talvez fosse a escuridão, apenas com a fresta de luz pálida que entrava pela porta e a constelação do magnífico Edifício Chrysler mesmo ao nosso lado aquilo que nos permitia falar de um modo como nunca antes havíamos falado. (…) Senti-me tão feliz. Oh, a felicidade de falar assim com a minha mãe!” (p. 36)

Lucy que viveu uma grande parte da sua vida numa família disfuncional, carente de tudo: de comida, de conforto, de higiene, … vai mais tarde refugiar-se nos livros e na escrita e vai escrever a “história de uma mãe que ama a sua filha. De modo imperfeito. Porque todos nós amamos de forma imperfeita. (p. 94)

Gostei de conhecer Lucy Barton e o seu “modo imperfeito” de amar a mãe e as suas duas filhas.
Recomendo!


16 julho, 2021

𝑳'𝑨𝒎𝒐𝒖𝒓 𝑨𝒑𝒓è𝒔, Marceline Loridan-Ivens

 

Autor: Marceline Loridan-Ivens
Título: L'Amour Après
N.º de páginas: 149
Editora: Grasset (Livre de Poche)
Edição: 2018
Classificação: autobiografia
N.º de Registo: (3304)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Adorei este livro de Marceline Loridan-Ivens. Escrito em colaboração com Judith Perrignon, nele evoca a sua deportação, aos 15 anos, para campos de concentração (1944) e narra a sua vida como sobrevivente. Foi-lhe muito difícil aceitar que era uma das que tinha ficado para contar a sua história.
Marceline é uma mulher de garra, forte, atenta ao seu tempo, lega-nos um testemunho intenso quer na escrita quer no cinema como realizadora, primeiro ao lado do seu segundo marido, o realizador Joris Ivens, depois em nome pessoal (La petite Prairie aux Bouleaux, 2003).
Neste pequeno livro, a autora com oitenta e nove anos, através de cartas de amor, bilhetes, apontamentos, recordações que vai tirando de uma mala que manteve fechada durante 50 anos, conta-nos a sua vida, apresenta-nos os seus amigos, os seus amantes, fala-nos dos filmes que realizou e produziu, dos livros que leu, … mas o que é verdadeiramente marcante é a forma como nos descreve a sua lenta reconstrução, a difícil aceitação do seu corpo seco, murcho (“je suis asséchée”) e afectado pela violência e pela nudez vividas e presenciadas nos campos, mas também a descoberta do amor e do verdadeiro prazer.
Gosto do seu estilo frontal, sem pudor, livre, irónico. Só uma mulher de espírito aberto que integrou e marcou uma geração, em Paris, ousaria viver como ela o fez. Namorou muitos, muitos mesmo, (e nunca o escondeu), mas não foi feliz até um certo dia. Viveu sem medo, numa interrogação constante, sem se preocupar com a opinião dos outros. Para ela o amor, era não fazer o outro sofrer, era viver o dia-a-dia, aproveitar as ocasiões.
Quando uma amiga, também sobrevivente, lhe telefona e pergunta o que está a fazer? Marceline responde: trabalho sobre o amor (“je travaille sur l’amour”) (p. 144), o amor após [campos de concentração].
É um livro emocionante e perturbador. Que recomendo! Falta-me ler o anterior, Et tu n’es pas revenu, dedicado ao pai que não regressou.


10 julho, 2021

𝑶 𝑸𝒖𝒂𝒓𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑮𝒊𝒐𝒗𝒂𝒏𝒏𝒊, de James Baldwin



Autor: James Baldwin
Título: O Quarto de Giovanni
N.º de páginas: 190
Editora: Alfaguara
Edição: Abril 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3258)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este é o segundo livro que leio de James Baldwin e confirmo a boa opinião que tive da primeira leitura (Se esta rua falasse). A sua escrita agarra o leitor e as temáticas abordadas quer num quer no outro, deixam marcas e levam-nos a refletir.
O enredo deste livro acontece em Paris, anos 50, e centra-se em David, um jovem nova-iorquino que fugiu do seu país, do domínio paterno e dos seus fantasmas em busca da sua identidade.
Narrado na primeira pessoa, intercalando passado e presente, o jovem David descreve a sua vida boémia, nos bares parisienses frequentados por homens ricos em busca de álcool, de jovens e de sexo, enquanto Hella, a sua namorada, viaja por Espanha. Num desses bares, conhece um jovem com quem vai partilhar o quarto, pequeno e “debaixo de água”.
"Na realidade, não fiquei lá muito tempo (conhecemo-nos na Primavera e eu sai no Verão), mas ainda assim sinto que passei lá uma eternidade. A vida naquele quarto parecia decorrer debaixo de água, como disse, e estou certo de ter atravessado um oceano de mudanças, lá.” (p.99)

Assim, a relação entre David e Giovanni, o sedutor barman italiano, é o ponto fulcral deste livro.
É uma relação intensa e perturbadora que vai pôr em evidência os preconceitos, o medo de assumir a sua sexualidade e por consequência a mentira, a vergonha e a negação do amor.



04 julho, 2021

𝑬𝒎𝒃𝒂𝒍𝒂𝒏𝒅𝒐 𝒂 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝑩𝒊𝒃𝒍𝒊𝒐𝒕𝒆𝒄𝒂 – 𝑼𝒎𝒂 𝑬𝒍𝒆𝒈𝒊𝒂 𝒆 𝒅𝒆𝒛 𝑫𝒊𝒗𝒂𝒈𝒂çõ𝒆𝒔, de Alberto Manguel

 



Autor: Alberto Manguel
Título: Embalando a minha Biblioteca
N.º de páginas: 143
Editora: Tinta da China
Edição: Fevereiro 2018
Classificação:Não ficção
N.º de Registo: (3258)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

É o terceiro livro que leio do autor sobre livros. Gosto de ler livros escritos por quem também gosta de livros e Alberto Manguel é um grande leitor e um apaixonado por livros. Na sua biblioteca organizada “segundo os seus próprios critérios e valores”, continha cerca de trinta e cinco mil livros. Foi, no entanto, obrigado a desfazê-la e a embalar todos os seus livros. Foi uma tarefa árdua que só concretizou com a ajuda de amigos e difícil, já que o autor considera que embalar uma biblioteca “é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final.” (p. 36) e olhar para o espaço vazio é sentir “o peso da ausência num grau quase insuportável.” (p.37)
Ao embalar a sua biblioteca, o autor vai reflectindo e divagando sobre variadíssimos temas sempre ligados às suas leituras, aos livros, às bibliotecas, aos seus autores de eleição como Borges, Cervantes, Carroll, Dante, Kafka, Shakespeare, …. “Se os livros são os nossos registos da experiência e as bibliotecas os nossos repositórios de memória, um dicionário é o nosso talismã contra o esquecimento:” (p. 111)


Para ele, as suas bibliotecas “são, todas elas, uma espécie de autobiografia com várias camadas (…) a minha memória interessa-se mais pelos livros do que por mim” (p. 20)
A biblioteca privada de Manguel é um espaço de divagação, é a sua vida “sei que a minha verdadeira história, toda ela, está lá, algures nas prateleiras, e tudo o que preciso é de tempo e de sorte para a encontrar. Nunca acontece. A minha história continua a escapar-me, porque nunca é uma história definitiva.
Em parte, é assim porque sou incapaz de pensar em linha recta. Divago.” (p.16)

Como o subtítulo indica, o livro apresenta uma elegia e dez divagações. Cada uma destas divagações termina com um texto em itálico, mais pessoal, onde o autor nos expõe algumas das suas vivências e experiências e, sobretudo, o processo de esvaziamento e empacotamento da sua biblioteca. A última divagação é sobre as bibliotecas nacionais, tema que me é muito caro, já que retiro ensinamentos que posso aplicar numa biblioteca escolar, local onde diariamente dialogo e divago com os livros. De entre muitas ideias retiradas, partilho esta com a qual concordo profundamente: “O único método que leva comprovadamente ao nascimento de um leitor, não foi, tanto quanto sei, ainda descoberto. A experiência diz-me que o que resulta, ocasionalmente, embora nem sempre, é o exemplo de um leitor apaixonado. Por vezes, a experiência de um amigo, um pai, um professor, um bibliotecário claramente comovido pela leitura de uma certa página, pode inspirar, se não imitação imediata, pelo menos curiosidade. Parece-me um bom ponto de partida.” (pp. 136, 137)

Este livro é o testemunho fantástico e sincero do homem que teve de “sepultar” a sua biblioteca, e que reconhece o seu comportamento obsessivo perante os livros.
É um autêntico manifesto de amor aos livros, às bibliotecas e à literatura. Recomendo a todos os apaixonados pelos livros, pela leitura.


02 julho, 2021

𝑪𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂 𝑴𝒊𝒎, de Valter Hugo Mãe

 



Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Contra mim
N.º de páginas: 281
Editora: Porto Editora
Edição: Outubro 2020
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (3252)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Contra mim
é um livro muito pessoal e intimista. Partindo de textos e apontamentos dispersos guardados durante anos e revisitando as suas memórias, o autor foca-se essencialmente na sua infância e parte da adolescência vividas em Angola, onde nasceu, e depois em Paços de Ferreira e Caxinas.

“Regressado com dois anos e meio de idade, eu esquecera quanto vira em Angola. Esquecera as pessoas, a cor das pessoas, esquecera as casas, os campos, o calor, os odores.
Durante um longo tempo, entusiasmado com ser criança, a minha consciência parecia fazer com que Paços de Ferreira fosse um lugar absoluto, um mundo absoluto, extenso e suficiente, incrível e até demasiado.” (p. 36)

De forma simples, directa, sincera e fascinante, o autor comove o leitor: primeiro, porque o remete para a sua própria infância/adolescência; segundo, porque vive as alegrias, as vitórias, as tristezas e as desilusões do protagonista e terceiro, porque acompanha o seu sonho, a sua criatividade, o seu interesse pelas palavras, pela poesia. Desde muito pequeno que juntava palavras num caderno para lhes dar o seu sentido e através delas crescer e criar o seu mundo.

“Sem saber ainda escrever, eu listava as minhas palavras no pensamento e pedia à minha mãe que me repetisse as que esquecia, não entendia ou queria ouvir como se as pudesse colher de novo, frutos da bela árvore que era a minha mãe. Frutos ou brinquedos. Meus melhores, fiéis e incorruptíveis brinquedos.” (p. 48)
e
“As palavras eram joias. Ouvir as minhas tias à conversa era apanhar dinheiro que lhes caía boca fora.” (p.49)

Valter, a criança imaginativa, o “miúdo carente, espantado, pacóvia e medricas” (p.83) relembra e partilha com o leitor a sua rotina em casa com a família, na escola, e com os (poucos) amigos; as suas descobertas de criança; a descoberta do seu corpo e da” rotunda pequenina entre as pernas das meninas”; os seus primeiros e tristes amores; o seu relacionamento com o “irmão horizontal” que morreu prematuramente; a sua crença particular em Deus.

“Eu acreditava em Deus porque estava grato e necessitava ter alguma figura a quem corresponder nesse sentimento arrebatado que vinha da oportunidade de existir. Que, por muitos anos, na minha timidez, se resumia a assistir. Talvez não existisse. Talvez apenas assistisse. Era, contudo, o bastante para uma gratidão sem reservas.” (p. 78)

É um livro lindo, com descrições ternurentas, aparentemente inocentes, com ideias claras, desconstruídas e muito interessantes.



19 junho, 2021

𝑨 𝑳𝒖𝒂 𝒆 𝒂𝒔 𝑭𝒐𝒈𝒖𝒆𝒊𝒓𝒂𝒔, de Cesare Pavese

Autor: Cesare Pavese
Título: A Lua e as Fogueiras
N.º de páginas:159
Editora: Colecção Mil Folhas
Edição: Outubro 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1390)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em A Lua e as Fogueiras, provavelmente um romance de carácter autobiográfico, Cesare Pavese confronta-nos com o mundo interior e exterior do protagonista.
Trata-se de um romance intimista, que retrata a vida solitária de um homem em busca de uma identidade que nunca encontrará mesmo quando regressa à sua terra natal e que, simultaneamente, relata a vida de uma comunidade rural.
“Não sabia que crescer queria dizer partir, envelhecer, ver morrer, encontrar Mora como estava agora. (p.72)

A narrativa foca-se no regresso do protagonista, de 40 anos, que volta à sua aldeia natal, às suas raízes, após uma longa ausência de 20 anos, nos Estados-Unidos, para onde partira em busca de uma melhor vida, mas sobretudo com o intuito de apagar o nome de “bastardo” que todos lhe atribuíam e de inverter o seu destino votado à pobreza.
Assim, temos uma narrativa sobre a passagem do tempo regida pelas estações do ano, a angústia existencial de um homem que vive só, mas também a descoberta e a revelação de factos que compõem a sua memória e o seu passado. Na descrição do vale revisitado, estão vivos os sabores, os odores, os sons, as cores, a crença na lua e nas fogueiras que povoaram a sua infância.
“Que significa este vale para uma família que venha do mar, que nada saiba da Lua e das fogueiras? É indispensável tê-lo sentido com os ossos do corpo, tê-lo nos ossos como o vinho e a polenta. Então é possível conhecê-lo sem ser preciso falar dele, e quando andou dentro de nós muitos anos sem o sabermos, desperta agora ao chocalho de uma carroça, ao sacudir do rabo de um boi, ao sabor de uma sopa, a uma voz que se escuta na praça, à noite." (p. 51)

Nesta narrativa está ainda patente a critica a uma sociedade fragmentada que vive sob o espectro da guerra, e estratificada socialmente, determinada pela riqueza e pelo poder. É nas conversas que mantém com Nuto, seu amigo de infância e que reencontra na terra, que a crítica é mais evidente:
“- Lembras-te das conversas que tínhamos com o teu pai na loja? Ele já nessa altura dizia que os ignorantes nunca abandonariam a sua condição, visto que a força está na mão de quem tem interesse em que as pessoas não compreendam, nas mãos do governo, dos exploradores, dos capitalistas,…Então reinavam os fascistas e era preciso calar estas coisas…” (p.129).

É um livro interessante que nos faz reflectir. Sabendo que o autor se suicidou poucos meses depois da saída deste livro, não podemos dissociar a vida do protagonista da narrativa e a própria vida do autor.



18 junho, 2021

Valter Hugo Mãe vence Grande Prémio de Romance e Novela da APE 2020


                                        Imagem: Antena Minho /antenaminho.pt


Valter Hugo Mãe é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/DGLAB), pela obra Contra mim. 

O júri fundamentou a sua escolha com estes argumentos: “…Contra mim, de Valter Hugo Mãe, merecedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2020 pela qualidade de construção narrativa, na cuidada arquitectura do texto, e pela expressividade poética da linguagem, na poderosa evocação de tempos e de lugares da infância. Esta escrita recria, sensível e ironicamente, o olhar comovido da criança, na descoberta do mundo e das palavras, e nesse gesto de resgate podemos ler a projecção de um autor a desenhar-se perante os seus leitores. ”




13 junho, 2021

𝑶 𝑱𝒂𝒑ã𝒐 é 𝒖𝒎 𝒍𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒆𝒔𝒕𝒓𝒂𝒏𝒉𝒐, de Peter Carey



Autor: Peter Carey
Título: O Japão é um lugar estranho
N.º de páginas:174
Editora: Tinta da China
Edição: 1.ª Setembro 2010
Classificação: Viagem
N.º de Registo: (2649)


OPINIÃO ⭐⭐⭐


O Japão é um lugar estranho é a história da viagem do autor com o filho, de 12 anos, a Tóquio, em busca do mundo dos autores de anime (filmes animados) e da manga (banda desenhada). Peter Carey deixa-se atrair pela nova cultura japonesa. É o filho, Charley, que completamente apaixonado por estes temas o motiva para empreenderem esta viagem. Mas não será uma viagem convencional, o filho só aceita ir se não forem visitar o “Verdadeiro Japão, não – disse Charley. – Tens de me prometer. Nada de templos. Nada de museus.”
 (p. 27.)

Como Carlos Vaz Marques referiu no prefácio, no início deste século XXI, há uma nova vaga de adolescentes ocidentais vidrados na cultura popular japonesa. “Há já quem se refira a um fenómeno de m.a.s.s. culture: manga, anime, sushi e sashimi. A viagem que este livro nos propõe é uma tentativa de descoberta da fonte desse fascínio.” (p.16)
Confesso que para uma leiga, como eu, desta vertente cultural japonesa, o livro tornou-se um pouco estranho, mas ao mesmo tempo interessante porque me permitiu conhecer um pouco mais deste país estranho. Já para os aficionados de manga e anime aceito que seja deveras cativante.
Outro aspecto importante e que mais me agradou foi perceber o choque cultural, o confronto de duas civilizações tão díspares. O estrangeiro que chega ao Japão com ideias pré-concebidas e arrogantes que causam mal-entendidos, rapidamente conclui que nada entende deste país, desta sociedade regida por regras próprias e rigorosas. “É melhor não saber nada do que saber apenas um pouco” (p. 76)

Neste confronto cultural, vamos viajando com o pai e filho e descobrindo a gastronomia, a forma de vestir, de cumprimentar, o desenvolvimento informático e as particularidades dos quartos dos hotéis (dimensão do quarto, da casa de banho, das sanitas) entre outros aspectos históricos como o trauma, ainda presente, causado pelos bombardeamentos e bem representado em vários anime; os samurais também eles personagens de manga.

Tratando-se de um livro de viagens, de caracter informativo, considero que é interessante pela abordagem cultural, pela visão ocidental ignorante e errada deste país estranho. Contudo, e apesar, deste povo evidenciar uma mentalidade forte e cumpridora, também não escapa à ocidentalização.
“Charley entregou o presente [à avó de Takashi] e a seguir fez uma vénia à senhora.
Ela retribuiu a vénia e subitamente, inesperadamente, inclinou-se para a frente e deu-lhe um beijo na cara. (…)
- Surpreendeu-me que ela te tivesse beijado. - disse eu – Não pensei que eles fizessem isso.
- Deve ser o Verdadeiro Japão. – disse ele [Charley]” (pp. 167e168)