30 janeiro, 2023

À 𝑷𝒓𝒐𝒄𝒖𝒓𝒂 𝒅𝒂 𝑴𝒂𝒏𝒉ã 𝑪𝒍𝒂𝒓𝒂, de Ana Cristina Silva

 

Autora: Ana Cristina Silva
Título: À Procura da Manhã Clara
n.º de páginas: 294
Editora: Bertrand Editora
Edição: Maio 2022
Classificação: Romance biográfico
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


À Procura da Manhã Clara  é um romance biográfico sobre Annie Silva Pais, filha do director da PIDE, Fernando Silva Pais e de Armanda (Nita) Silva Pais. O pai que representa a opressão, o fascismo de um Portugal cinzento e pobre é, contudo, objecto do seu amor apesar do antagonismo ideológico que os divide; a mãe representa a futilidade, a hipocrisia e o bem-estar da burguesia durante O Estado Novo.

Annie vive numa constante angústia, primeiro por saber que o pai, o seu herói, é um dos principais responsáveis pela ditadura e repressão instauradas no país e, segundo, por perceber que não é amada pela mãe. Esta antipatia vai manter-se ao longo da narrativa, agudizando-se sempre que Annie toma decisões antagónicas aos ideais dos pais. O carácter de D. Nita está sublimemente caracterizado. A futilidade exposta nos registos que anota na sua agenda, a vaidade que estampa nos vestidos que manda fazer; a aparência elegante e cuidada que mantém no meio em que circula; a inclemência e os ciúmes que tem da própria filha tornam-na numa mulher infeliz e insensível. Este aspecto fica ainda mais patente quando é confrontada com a prisão do marido e com a doença da filha.

Annie educada num ambiente conservador e retrógrado sente-se sufocar. Consciente da sua beleza e inteligência, desejosa de liberdade e de contrariar a mãe, apaixona-se por homens estrangeiros que lhe confirmam as suas já convictas impressões de um país pobre, triste e torturado. Impulsiva, apaixonada e irreverente vai casar-se com um diplomata suíço que a levará até Cuba.
E aí, tudo muda na sua vida. Annie vai viver intensamente a revolução cubana, vai conhecer figuras históricas que deixam marcas indeléveis, vai ter relações fantasiosas e apaixonadas com homens importantes. Vai dedicar-se intensamente à causa, ao ideal de um país completamente diferente do seu.

Gostei imenso desta mulher “impulsivamente apaixonada” pela revolução cubana. A caracterização psicológica de Annie e da mãe, na narrativa, torna este livro emocionante e arrebatador. E é essa densidade que nos revela a natureza impulsiva e corajosa da protagonista, assim como a tensão constante entre mãe e filha, ao longo do romance, nos permite compreender o conflito de classes, a diferença geracional e as políticas instituídas nos dois países.

Outro aspecto que me agradou bastante está relacionado com a estrutura. A inclusão de cartas escritas na primeira pessoa e que nunca foram enviadas, como nos é dado a conhecer no prólogo, que resumem e contextualizam o que vai ser narrado no capítulo seguinte, permite à autora ficcionar um pouco o que foi a vida real e conhecida de Annie. O leitor aceita esses factos narrados como verídicos pois está completamente embrenhado nos conflitos da protagonista e vive de igual forma as suas emoções, desgostos e paixões.

Recomendo muito.


19 janeiro, 2023

Centenário do Nascimento de Eugénio de Andrade 1923 - 2023




O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade




17 janeiro, 2023

𝑨 𝒄𝒐𝒓 𝒅𝒐 𝒉𝒊𝒃𝒊𝒔𝒄𝒐, de Chimamanda Ngozi Adichie

 



Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Título: A cor do hibisco
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 366
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3360)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A cor do hibisco é o primeiro romance publicado pela escritora nigeriana (2003).

Adichie narra a história de uma família nigeriana, a partir da qual são apresentadas questões inerentes à cultura da Nigéria, bem como ao processo de colonização britânica ocorrido no país.
Penso que em certa medida, os conflitos abordados ao longo da narrativa revelam o contexto geral do país, bem como a própria vivência da autora. Adichie foca-se nas diferenças e nas relações conflituosas para mostrar uma África diferente com uma identidade e uma cultura bem próprias.

Kambili é a personagem responsável por explicitar, através da sua narrativa, as novas perspectivas sobre a história, a língua (há termos de Igbo em “entrelinguagem” que não foram traduzidos) e a cultura da Nigéria. É ela que representa, através do seu testemunho e das suas memórias, toda uma nação pós-colonial marcada por guerras e silenciada pelo Ocidente.

Kambili tem 15 anos. Cresce numa família abastada, mas sujeita a uma educação severa e cristã. Ela e o seu irmão Jaja vão ficar marcados pelo fanatismo religioso do pai, Eugene, e Beatrice é uma mãe e esposa submissa e maltratada. E esta é ideia que forjamos logo com a primeira frase do romance “As coisas começaram a desmoronar-se em casa quando o meu irmão, Jaja, não foi comungar e o Pai atirou seu pesado missal de um lado ao outro da sala e partiu as estatuetas da estante.”

Contudo, uma visita à tia e aos primos, em Nsukka, vai proporcionar aos dois irmãos uma nova visão do mundo, de convivência e sobretudo de liberdade. Esta nova perspectiva de vida vai ser difícil de absorver, sobretudo por Kambili, mas a pouco e pouco vai embrenhar-se nos seus espíritos e libertá-los das regras rígidas impostas pelo pai, ao ponto de questionarem a educação recebida, os hábitos familiares e a prática religiosa.

A dicotomia sociocultural nigeriana está estampada nas duas cores predominantes do hibisco na narrativa: o vermelho, na cidade de Enugu onde vive Kambili e a sua família simboliza o amor opressivo e a religião cristã; o azul, em Nsukka onde vivem a tia e os primos, representa a liberdade, a mudança, a descoberta.

Recomendo muito.


14 janeiro, 2023

09 janeiro, 2023

𝑶 Ú𝒍𝒕𝒊𝒎𝒐 𝑪𝒂𝒃𝒂𝒍𝒊𝒔𝒕𝒂 𝒅𝒆 𝑳𝒊𝒔𝒃𝒐𝒂, de Richard Zimler

 



Autor: Richard Zimler
Título: O Último Cabalista de Lisboa
Tradutor: José Lima
N.º de páginas: 383
Editora: Oceanos
Edição: Maio 2007
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (2307)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste primeiro livro de uma série de quatro, Richard Zimler narra detalhadamente o massacre de cerca de dois mil judeus (marranos), em Lisboa, na Páscoa de 1506, no reinado de D. Manuel.

O leitor não fica imune à crueldade dos factos ocorridos e instigados pelos frades dominicanos que incitam os cristãos ávidos de violência e de vingança em perseguição aos judeus. A veracidade histórica que perpassa ao longo da narrativa inculca, indelevelmente, ao leitor o medo, a suspeita, o ódio, a traição vividos pelos cristãos-novos que não conseguem abjurar a sua fé e que, por isso, clandestinamente continuam a praticar os seus rituais judaicos, sendo então perseguidos e atirados para a fogueira da Inquisição.

O leitor embrenhado na narrativa sente, igualmente, o cheiro das fogueiras, o cheiro nauseabundo dos corpos mortos, o cheiro do esterco que se acumula e estende nas ruas de Lisboa e assiste à fome, à seca severa e à peste que assolam na capital e matam tantas pessoas anónimas, inocentes.

Para narrar este episódio duro da nossa história, o autor enveredou por uma estrutura etiquetada de thriller. E assim, o mistério criado à volta do mestre cabalista Abraão Zarco, um dos judeus mais influentes da época, e do seu sobrinho Berequias Zarco vai permitir absorver mais facilmente toda a loucura, crueldade, intolerância e ignorância do ser humano. O enredo é um autêntico puzzle de figuras, intrigas e acontecimentos que se arrodilham ao longo da trama, mas que no final se esclarecem.

Para os apreciadores desta temática recomendo a sua leitura.



05 janeiro, 2023

𝑱𝒆(𝒖𝒙) - 𝑷𝒆𝒕𝒊𝒕𝒆 𝑨𝒏𝒕𝒉𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒆, de Fernando Pessoa



Autor: Fernando Pessoa
Título: Je(ux) - Petite Anthologie
Tradutor: Patrick Quillier
Ilustradora: Ghislaine Herbéra
N.º de páginas: 86
Editora: Editions Chandeigne
Edição: Junho 2018
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3419)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Quem me conhece bem sabe que tenho uma paixão por livros, que lhes dou uso, que os leio e que os empresto.

De Fernando Pessoa tenho quase toda a obra, alguns livros até tenho repetidos por questões de edição. Quando me ofereceram esta pequena antologia maravilhosa, a minha primeira reacção foi "Como é possível que eu ainda não tenha este livro!".

𝑱𝒆(𝒖𝒙) - 𝑷𝒆𝒕𝒊𝒕𝒆 𝑨𝒏𝒕𝒉𝒐𝒍𝒐𝒈𝒊𝒆, livro de capa dura, editado por Éditions Chandeigne, contém dezasseis poemas de Fernando Pessoa - ortónimo e heterónimos - em francês e todos ilustrados por Ghislaine Herbéra. Numa segunda parte, contém ainda os mesmos poemas originais, em português, com referência ao autor e à respectiva obra. Finaliza com um posfácio, em francês, de Joanna Cameira Gomes.

Adorei os poemas, que já conhecia porque sou uma leitora recorrente de Fernando Pessoa, mas nunca os tinha lido em francês, tornando assim esta leitura num exercício muito aprazível.

Adorei as ilustrações. Magníficas!

Esta simbiose de palavras, desenhos e cores torna, na minha opinião, este pequeno livro num objecto precioso e belo que vai enriquecer a minha estante de poesia.



30 dezembro, 2022

Votos para 2023

                                                                             Foto Filipe Miguel 


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis 


29 dezembro, 2022

𝑨𝒔 𝑫𝒐𝒆𝒏ç𝒂𝒔 𝒅𝒐 𝑩𝒓𝒂𝒔𝒊𝒍, de Valter Hugo Mãe

 


Autor: Valter Hugo Mãe
Título: As Doenças do Brasil
N.º de páginas: 273
Editora: Porto Editora
Edição: Setembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3320)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


VHM refere na sua epígrafe que retirou o título As doenças do Brasil de um excerto do “Sermão da Visitação de Nossa Senhora”, de Padre António Vieira (“Esta foi a origem do pecado original e esta é a causa causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda, e o Estado se perde.”).

Neste longo poema, como o próprio autor o classificou nas notas de autor, VHM transporta-nos para a comunidade imaginária dos abaetés, como povo originário do Brasil, relata-nos a sua cultura, língua, educação, crenças e costumes e dá-nos a conhecer o passado colonial dos brancos e o seu impacto no presente.
Transparecem neste texto a emotividade e a sensibilidade do autor quer através da escrita poética quer através da caracterização do povo indígena. Abaeté significa “pessoa gentil” e é gentileza, cumplicidade, piedade, generosidade, mas também ingenuidade que encontramos no “povo dos três mares”. Também percebemos como a questão racial, o domínio do homem branco sobre os povos indígenas e negros perturba o autor (“O negro era um animal domesticado pelo branco.”). A referência à língua branca que fede e apodrece na boca é uma constante:
“E seu bafo fedeu muito entre todos. (…) é a língua branca. A língua e o fedor da língua branca, a palavra que apodrece na boca e apodrece a boca.” (p. 105)

A acção centra-se no caso de um jovem abaeté, Honra, que vive o drama de ser o fruto da violação de Boa de Espanto, uma “feminina”, por um homem branco. Honra não se conforma, vive revoltado e promete matar o branco, o inimigo. Honra, o guerreiro feio, sente-se indigno, ferido de morte e não aceita ter herdado a cor do homem branco, da “fera branca”.
“ sagrado Pai Todo, sou branco. Sei agora e não sei como não o via mesmo que vendo. Sou branco. E esta cor não é cicatriz, é ferida e não sara. O inimigo parasita em mim para sempre. Sou uma possessão. Um espírito baixado sobre minha dignidade abaeté. Sou um bicho como nenhum outro da mata. Um inimigo menos semelhante. Um excremento do branco no ventre de minha mãe. Sou a morte, sagrado Pai Todo.” (p. 33)

Honra, bem aceite pelo seu povo e educado segundo os preceitos abaeté, só começou a aceitar a sua condição quando encontrou, na mata, um negro a quem deram o nome de Meio da Noite, ainda mais desafortunado e a quem se afeiçoou, primeiro porque recebeu ordem de lhe dar uma “educação abaeté” e depois porque nasceu entre os dois “feios” uma enorme cumplicidade que não vou desvendar.
“Um pouco depois, no silêncio profundo da maloca, comovido, Meio da Noite pressentiu que Honra não dormia e isso lho perguntou. O guerreiro branco respondeu:
penso. Não consigo parar de pensar.
E o negro entoou:
sagrado Honra, se entendi o que aconteceu, se por sorte me salvaram, quero que saibas que estou grato. Sou grato. Fujo sozinho mas sou testemunha de milhares. Ei vi milhares. A minha vida é a prova de que existiram, existem, e a minha voz será sempre uma pertença deles também.
O branco perguntou:
o que significas com isso.
E o negro respondeu:
obrigado, sagrado Honra. A minha vida dignifica meu pai, minha mãe, meus avós, meus irmãos, meus povos.
Honra perguntou:
estás a chorar, animal negro.
E o negro entoou:
sim.
Então, Honra chorou também. As feras eram incapazes de chorar. No sol seguinte, até estupefacto, o guerreiro branco foi declarar ao pajé que o negro era alguém. Entoou:
é alguém sagrado Pai Todo, intuí seu espírito. Eu intuí. (pág. 118).

Em conclusão, a narrativa poética criada pelo autor não foge muito à realidade histórica. O “colector de palavras” concebeu um poema a partir do seu fascínio pelos povos originários, escrito com o assombro e a violência de uma realidade que pretende manter viva, como lhe disse o cacique dos Anacés: “vá, e diga ao seu povo branco que um dia chegou aqui para nos matar, que seguimos de braços abertos para os receber como amigos. Ensine ao seu povo que somos amigos.” (p. 266). E VHM cumpriu na perfeição.
Recomendo vivamente!



Fundão II

 









20 dezembro, 2022

𝑶 𝒆𝒏𝒊𝒈𝒎𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝒄𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒂𝒏ó𝒏𝒊𝒎𝒂𝒔, de Agatha Christie

 

Autora: Agatha Christie
Título: O enigma das cartas anónimas
Tradutora: Arminda Pereira
N.º de páginas: 191
Editora: ASA
Edição: Novembro 2001
Classificação: Policial
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐



Neste policial, Agatha Christie transporta-nos para a pequena aldeia de Lymstock, lugar aparentemente sossegado, mas que ao longo da narrativa se vai tornando num local de intrigas, de mexericos, de segredos, de cartas anónimas e de mortes. Jerry, o narrador, vai relatando os acontecimentos e vai acompanhando a investigação dos mistérios que ocorrem na pacata aldeia.
Sempre gostei da escrita de Agatha Christie, da forma como desenvolve a sua narrativa com personagens fabulosas e cenários enigmáticos; da apresentação dos crimes e da (des)construção da investigação que no final surpreende sempre o leitor.
Contudo, neste livro, o aparecimento tardio de Miss Marple, tornou o processo da investigação menos cativante. A perspicácia e a astucia da eterna bisbilhoteira que mexe e remexe nos casos não foram, na minha opinião, devidamente exploradas. O final é-nos revelado de forma vaga. Percebemos como Miss Marple desvendou o mistério, mas faltou o entusiasmo da investigação.



19 dezembro, 2022

𝑻𝒓𝒊𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂, de Jon Fosse

Autor: Jon Fosse
Título: trilogia
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 204
Editora: Cavalo de ferro
Edição (3.ª): Fevereiro 2022
Classificação: Novelas
N.º de Registo: (3357)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Trilogia requer, de início, um enorme esforço de concentração para aceitar a escrita de Jon Fosse e não desistir. Quase sem sinais de pontuação e com repetições exaustivas de frases, de falas, de verbos introdutores de discurso (“diz ele”), o texto torna-se, por vezes, insólito. Mas o que se estranha, no início, após algumas páginas, acaba por se entranhar e apreciar. E a partir daí, o leitor não mais quer parar. É a escrita simples e a melodia das frases provocada pelas repetições e pelas pausas inerentes ao diálogo que cativam e agarram o leitor.

Composto por três novelas, e apesar da distância temporal entre elas, as personagens mantêm-se sobretudo através da evocação constante e repetitiva de lugares, de pessoas e de acções. O passado, o presente e o futuro enleiam-se e tropeçam em enredos impossíveis, em ilusões, em sonhos, em memórias.
A primeira novela inicia com um jovem casal que, obrigado a sair da sua aldeia, vagueia ao frio e à chuva, na escuridão de uma cidade à procura de um abrigo. Ao longo desta trilogia, percorremos os mesmos caminhos de Asle e Alida, compreendemos a dificuldade de sobrevivência numa sociedade hostil, o desamparo de ser rejeitado e incompreendido por todos, e aplaudimos o amor existente entre os dois jovens que acaba por justificar os erros cometidos. Afinal, se segundo a sinopse, estamos perante uma “parábola de inspiração bíblica sobre o amor, o crime, o castigo e a redenção”, então tudo fará sentido num mundo dividido entre o Bem e o Mal.
Destaco a terceira novela pela beleza e sensibilidade da escrita na descrição das emoções de Alida. O seu amor por Ales mantém-se imutável e eterno mesmo para além da morte.
“ (…) e Alida acredita que ela e Asle ainda são um casal de namorados e estão juntos, ele com ela, ela com ele, ela nele, ele nela, pensa Alida e olha na direção do mar e do céu, e vê Asle, vê que o céu é Asle, e sente o vento, e o vento é Asle, ele está ali, ele é o vento, mesmo que ele não exista, ainda continua ali presente, (…)” p. 183

12 dezembro, 2022

𝑶 𝑪𝒐𝒏𝒗𝒊𝒅𝒂𝒅𝒐𝒓 𝒅𝒆 𝑷𝒊𝒓𝒊𝒍𝒂𝒎𝒑𝒐𝒔, de Ondjaki

 

Autor: Ondjaki
Título: O Convidador de Pirilampos
Ilustrador: António Jorge Gonçalves
N.º de páginas: 72
Editora: Caminho
Edição: Janeiro 2017
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (2999)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A conjugação da escrita poética e criativa de Ondjaki e a beleza do traço e das cores de António Jorge Gonçalves torna este livro numa autêntica maravilha.
“Em noites de lua nova, quando o céu finge estar só vestido de nudez, brilham penduradas as estrelas, pequenas e belas.
E na Floresta Grande?
Bem, na Floresta Grande brilham os pirilampos cintilantes.”

É a segunda obra que leio resultando do trabalho colaborativo destes dois criadores. E é engraçado que neste livro encontrei ecos do primeiro - Uma Escuridão Bonita - (livro encantador e que também recomendo), quer através da escuridão, da noite, quer mesmo pela referência ao título numa fala do menino dirigida ao avô “ – Avô, deixa te mostrar como uma escuridão pode ficar bem bonita.”

A história centra-se num menino muito curioso que tem medo do escuro e que gosta de ler o brilho dos pirilampos e de comunicar com eles, que gosta de passear na Floresta, de “cientistar” e de conversar com o seu avô sobre os seus inventos e “cientistações”.
“- Pensei que todos os pirilampos pudessem brilhar, mas nunca soube que eles comunicavam.
- Ah, mas é porque eu já cientistei os pirilampos muitas vezes.
- Já quê?
- Já cientistei… Cientistar é o que nós, os cientistas e inventores, fazemos.
Cientistamos as coisas, os animais, e alguns até cientistam o mundo. Não sabias, avô?
Não, mas gosto de aprender.”

A cumplicidade entre o avô e o menino permite criar uma bonita e educativa história de descobertas da natureza e da ciência e abordar temas como a liberdade, a confiança, a superação do medo e a sabedoria dos idosos na voz dos pirivelhos (“pirilampos apagados”) que contam histórias aos pirilampos.
“ Temos de voltar. O brilho dos pirilampos não vem da força dos corpos. Vem da força das estórias. E são os pirivelhos que as contam.”

Adorei. Recomendo.

11 dezembro, 2022

𝑽𝒊𝒔𝒕𝒂 𝑪𝒉𝒊𝒏𝒆𝒔𝒂, de Tatiana Salem Levy

 

Autora: Tatiana Salem Levy
Título: Vista Chinesa
N.º de páginas: 122
Editora: 20|20 - Elsinore
Edição: Agosto 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3334)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Que livro! Que história! Que coragem! A da escritora, Tatiana Salem Levy, que narra a história de uma amiga muito próxima, vítima de violação. A da amiga, Joana Jabace, que ousou relatar, descrever o sucedido, o horror; que permitiu que as feridas ainda tão vivas na sua mente, no seu corpo fossem de novo e, mais uma vez, abertas; que fez questão de revelar a sua identidade.

A autora sublinha, no final, que se trata de um romance baseado numa história real. Este facto não suaviza a leitura, apenas nos dá a possibilidade de imaginar que o acto de violação, o crime, porque se trata de um crime, não tenha sido tão cruel, tão violento e que as marcas corporais e psicológicas não sejam tão profundas e traumatizantes. Pura ilusão! Percebemos, de imediato, que a personagem está marcada para a vida.
“(…) aquela terça-feira na mata ficou cravada não só na alma, como eu achei que fosse acontecer. Ficou impressa no corpo. Está tudo escrito na minha pele, sei que está, tudo o que aconteceu, até os detalhes que eu disse que tinha contado para a polícia, mas não contei, porque nunca se conta tudo, há sempre uma parte que falta.” (p. 51)

Tatiana Salem Levy não foge à cruel realidade. Apresenta-nos um testemunho intenso, duríssimo de uma luta individual pela superação de um acto horrível, pela aceitação de um corpo mutilado, pelas vivências inerentes à investigação policial, pela dolorosa integração na família e na sociedade.
A narração, sob forma de carta que a protagonista escreve aos filhos, não é linear, ocorre por camadas, por memórias, por fragmentos, por momentos do presente, por expectativas de um futuro melhor.
“Pensando melhor, não é bem uma carta. É mais um testemunho. Um testemunho, não. O testamento que eu não quero deixar para vocês.” (p. 43)

A autora foca-se nos detalhes. Cirurgicamente, narra o indizível; descreve a dor como se fosse sua, visceral; explora o corpo magoado e mutilado; desmonta a consciência traumatizada; enfrenta a luta pela superação do medo, do mal, da escuridão, mas também da vida, do seu amor de mulher e de mãe de dois filhos, da esperança.
“Cada vez que alguém acreditava ter encontrado a minha salvação, eu podia ver o sorriso nos seus olhos. E era essa aminha meta, esse o sentido que não me deixava afundar no sofá.” (p. 55)

O leitor, sem fôlego, sente a dor, a revolta, a rejeição do corpo, vive as agressões, as angústias, participa nos depoimentos, no reconhecimento do agressor, nas sessões de terapia e acompanha a recuperação lenta, muito lenta.
O leitor horrorizado pela maldade humana deixa-se envolver nos detalhes da história, deixa de respirar e dilacerado anseia pela superação, pela recuperação desta mulher, de todas as mulheres vítimas de violação.

LEIAM! Merece ser lido!



10 dezembro, 2022

Saber o que és

 

Foto minha


Saber o que és, dizer o teu corpo,
ouvir-te num breve instante,
dizer o que é amor sem o dizer,
tirar de mim um poema que te cante;

e ver passar-te por entre os dedos
o fio de luz que prende os teus olhos,
e vê-lo enrolar-se em segredos
quando a tua voz o apaga e acende;

tocar-te os lábios num fim de verso,
ver-te hesitar entre sorriso e mágoa,
perguntar se o teu rosto tem reverso,

e ter nele uma transparência de água:
é o que vejo em ti no cair de véu
em que me dás a terra que vale o céu.

Nuno Júdice


04 dezembro, 2022

𝑼𝒎𝒂 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒏𝒐 𝑭𝒊𝒎 𝒅𝒐 𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐, de Michael Cunningham

 

Autor: Michael Cunningham
Título: Uma Casa no Fim do Mundo
Tradutor: Rui Pires Cabral
N.º de páginas: 363
Editora: Gradiva
Edição (4.ª): Outubro 2003
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3326)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Publicada em 1990, a narrativa situa-se nas décadas de 1960 a 1980. Com imensas referências musicais e cinematográficas, retrata as relações complexas de três amigos que tentam viver juntos, formando uma família pouco convencional. A narrativa foca-se nos problemas da vida familiar, nas dúvidas dos jovens, da vida adulta, no envelhecimento e na perda, mas também na amizade, no amor e ainda no desenvolvimento da SIDA na comunidade homossexual.

Narrada a quatro vozes, de forma alternada, a narrativa desenrola-se à volta das vidas de Jonathan e Bobby, amigos de infância, inseparáveis, que desenvolvem uma relação obsessiva apenas quebrada quando um deles vai para a universidade. Contudo, a relação é retomada mais tarde e alargada a Clare com quem formarão um singular triângulo amoroso.

“Bobby e eu [Clare], Jonathan e eu, o nosso amor e amizade misturados, a desequilibrada família que tínhamos tentado construir – tudo isso me parecera no dia anterior mais um disparatado episódio da minha vida.” (p.251)

Trata-se de um livro forte, sensível, inquietante, muito bem escrito. O autor escreve sem pressa, com precisão e com afeição, preocupado em dar resposta às fragilidades, às incertezas, às inquietações que assolam as personagens ao longo da narrativa e que, provavelmente serão as suas, já que o romance está na primeira pessoa. Fica claro que este livro se centra muito nas opções de vida de cada um. Marcadas por alegrias, tristezas, angústias, decepções, fugas, todas deixam “pegadas” na complexa caminhada da vida e do relacionamento humano.

É uma leitura reveladora, intimista e emocionante. Gostei da abordagem ao tema, da forma como nos apresenta a fragilidade do ser humano, as suas dúvidas, os seus pensamentos, as suas contradições, necessidades e interesses. No livro, os quatro narradores têm tempo e espaço para exporem as suas histórias, as suas visões do mundo, as suas ambições e sonhos, ou então permanecerem inertes, mergulhados nos seus pensamentos, nos seus silêncios.


24 novembro, 2022

𝑨𝒏𝒂, de Maria Teresa Horta

 




Autora: Maria Teresa Horta
Título: Ana
N.º de páginas: 57
Editora: Futura
Edição: 1974
Classificação: Prosa
N.º de Registo: (3322)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Ana sublinha a urgência de escrever da sua autora e o desejo centrado na mulher. Escrito em prosa é um texto fragmentado, anacrónico porque avança ao ritmo de memórias, repetitivo para acentuar a posição da mulher na sociedade. É um texto pautado na submissão da mulher perante a voz inquiridora e inquisidora do homem, que vive em “clausura”, na mulher que aceita o seu destino: “mulher de pertença e objecto, floreira ou aceite dos outros, decoro.” (p.20)
O discurso feminista pela luta da liberdade a que a autora já nos habituou, realça neste livro, o desejo centrado no corpo da mulher, o silêncio que separa o homem e a mulher, a distância que se vai cavando ao longo do “manso perfurar do tempo” . Assim, a autora faz da sua escrita uma arma contra a diferença, a opressão, em defesa da mulher e dos seus pontos de vista, a favor da liberdade corporal e sexual, da identidade própria, sem a interdição moral imposta à mulher.


22 novembro, 2022

𝑻𝒓𝒂𝒃𝒂𝒍𝒉𝒐𝒔 𝒅𝒐 𝑶𝒍𝒉𝒂𝒓, de Al Berto

 


Autor: Al Berto
Título: Trabalhos do Olhar
N.º de páginas: 78
Editora: Contexto
Edição: Novembro 1982
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (2787)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Revisitar a escrita de Al Berto é uma constante e uma necessidade quer por questões profissionais quer pessoais.

Trabalhos do Olhar estabelece uma relação entre a arte e a vida em que o “olhar” é o regulador da sociedade, da cultura, do poder, da ficção; um “olhar” límpido, atento, explicitamente homossexual que pretende subverter as normas instituídas; um “olhar” que transmite o desejo como matéria-prima da escrita, da sua escrita.
Al Berto usa uma linguagem homoerótica, apropria-se de topos da narrativa de sedução, de engate, de voyeurismo como, por exemplo, em “Truque do gato” (p. 29); o “olhar felino” que almeja o outro, o rapaz:
“(…)
espio o anoitecer, por trás das inexistentes cortinas
apercebo o rapaz com a silhueta do gato morto
junto ao peito, o meu olhar tornou-se felino
sorrio à minha ficção quotidiana
pego num lápis e recomeço a escrever”

É a escrita que alimenta Al Berto, que o mantém vivo, que o liga ao mundo por onde viaja “sem rumo”, que lhe acalenta o desejo, que lhe aviva as memórias que subtrai do “papel fotográfico” e que lhe permite todos os “Trabalhos do Olhar”, bem como revelar “escrevo-te a sentir tudo isto” e “não tenho medo de morrer aqui” . Estas revelações provocam no poeta a necessidade absoluta de escrever entre os silêncios onde se estabelece o caos do passar dos dias e onde se encontram as palavras, as imagens, as fotografias que acabam por restabelecer a ordem.

Al Berto escreve sobre sentimentos, sobre corpo(s), sobre memória, sobre solidão e morte, sobre o mar, a noite, a natureza e o cheiro das cidades costeiras, sobre feridas, sobre a escrita
“(…)
a escrita é um marulhar incessante
imito a paisagem como se te imitasse, ou escrevesse
teu corpo dilui-se nos ossos da página, contamina as cartilagens das sílabas
resta-me o fingimento sibilante das palavras
caminho pelo interior das dunas, apago o rasto de tinta acetinada, sou terra num texto onde não encontro água
só noite e um rumor imperceptível no coração
mais nada” (p. 19)

Recomendo! Muito!

21 novembro, 2022

𝑶 𝑨𝒏𝒐 𝒅𝒂 𝑫𝒂𝒏ç𝒂𝒓𝒊𝒏𝒂, de Carla M. Soares

 


Autora: Carla M. Soares
Título: O Ano da Dançarina
N.º de páginas: 389
Editora: Marcador
Edição: Abril 2017
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3361)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐ 


O Ano da Dançarina é a minha estreia com Carla M. Soares. Já tinha lido várias opiniões positivas sobre os seus livros e decidi-me por este, tendo em conta os temas abordados que, apesar da diferença temporal, considero muito actuais.

A acção decorre no ano de 1918, primeiro em França, durante a Primeira Guerra Mundial e depois em Lisboa. Aí acompanharemos as movimentações da família Lopes Moreira, as políticas de Sidónio Pais e a devastação provocada pela gripe espanhola.

Gostei da escrita cuidada e fluida e da forma como os dados históricos se integram na acção. A pesquisa intensa e cuidada realizada pela autora enobreceu a narrativa pois os factos históricos e a ficção cruzam-se na perfeição. As personagens bem construídas e interessantes psicologicamente encaixam com mestria no tempo histórico e nos vários espaços. Na minha opinião, este aspecto é fulcral no livro, causando um forte impacto na história, já que permite uma melhor caracterização das personagens tornando-se um elemento essencial no desenvolvimento dos conflitos sociais, psicológicos e até culturais.

Trata-se de uma história cativante que nos agarra compulsivamente. Gostei do enquadramento social e político e adorei acompanhar e “sentir” intensamente as paixões, as dores, as lutas, as perdas da família Lopes Moreira e dos seus próximos.

O Ano da Dançarina para além da ambiguidade do seu título que muito tem para revelar, oferece ao leitor uma vasta informação sobre a época, mas também a possibilidade de sonhar. Foi uma leitura muito aprazível.


16 novembro, 2022

15 novembro, 2022

Ainda há quem saiba cuidar


Ilustração, Tayebeh Tavasoli


Há pessoas que são abrigo, sem saber...
Há pessoas que são abrigo, mesmo sem querer!
Há pessoas que se tornam abrigo!
Só porque sabem escutar.
Só porque sabem abraçar!
Só porque sabem amar!
Há pessoas que se tornam porto de abrigo.
Âncora.
Há pessoas que são o abrigo do sol, o abrigo da noite... o abrigo de tudo o que perturba por ser em demasia.
Há pessoas que mesmo sem querer, são portos de abrigo. Só porque sabem cuidar. Despindo a razão e usando apenas, o coração!


Marisa Sousa, Guarde de Mim


14 novembro, 2022

Rafael Gallo vence Prémio José Saramago 2022





O escritor brasileiro Rafael Gallo é o vencedor do Prémio José Saramago pelo seu romance Dor fantasma, que será publicado em Portugal pela Porto Editora.

Bruno Vieira Amaral, escritor distinguido com o Prémio Literário José Saramago 2015, e membro do júri desta edição, enalteceu a qualidade da escrita do autor.

"É mão cirúrgica, aplicando incisões seguras e sábias, é mão de pintor, na pincelada criativa e intencional, é mão de maestro segurando a batuta e guiando a orquestra num crescendo de som e fúria que culmina no magistral desenlace do romance", afirmou.

A edição deste ano teve como jurados os escritores e anteriores premiados José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, João Tordo e Bruno Vieira Amaral, além de Pilar del Rio, presidenta da Fundação José Saramago, Guilhermina Gomes, em representação da Fundação Círculo de Leitores e Presidente do Júri, e a escritora brasileira Nélida Piñon, membro honorário.

O Prémio Literário José Saramago foi instituído para celebrar a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 ao autor de "Memorial do Convento", visando jovens autores, cuja primeira edição tivesse sido publicada num país da lusofonia.

Notícia completa em  Expresso 


13 novembro, 2022

𝑴ã𝒆, 𝑫𝒐𝒄𝒆 𝑴𝒂𝒓, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Mãe, Doce Mar
N.º de páginas: 198
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: ()



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


João Pinto Coelho é cada vez mais um dos meus autores de eleição. Já me (nos) habitou a romances fortes, emotivos, marcantes e com finais surpreendentes, pelo que peguei neste livro com uma enorme expectativa porque era o seu novo livro que aguardava com ansiedade e porque já havia ecos muito positivos e que anunciavam novidades, mudança de tema. Mais curiosa e expectante fiquei quando o ouvi no Café com Letras.

Em Mãe, Doce Mar, o autor transporta-nos para o seu mundo, para o seu íntimo. E percebemos, de imediato, logo na primeira frase, que não ficaremos indiferentes à nova narrativa de JPC.
“Tinha doze anos quando conheci a minha mãe – esta frase dá para tudo, até para abrir um romance.
E, no meu caso, é verdade.”

E, assim, com um aperto no coração partimos à descoberta de Noah, de Frank e de Patience. A cada uma destas personagens, o autor dedicou capítulos próprios, que nos revelam, na primeira pessoa, flashes importantes das suas vidas e que, apenas, no final encaixam de forma surpreendente e fascinante.
O autor é exímio na construção do seu enredo, quando pensamos que nos vai revelar algo, ei-lo que trava e que cria uma pausa que nos deixa suspensos e nos força a ler e a ler numa busca incessante e que se vai tornar avassaladora. Eis um exemplo: “Não quero ir mais longe, revelar se o seu [da mãe] abraço teve o aperto perfeito ou até se aquelas lágrimas foram um caudal de culpa ou outra coisa qualquer.” (p. 9)

Sendo um romance autobiográfico nem sempre é fácil discernir onde entra a ficção. Também não faço questão de o saber. Não é importante. O que interessa mesmo é absorver a história que nos é narrada, desfrutar do poder e da força da escrita, sentir o prazer de uma boa leitura.

João Pinto Coelho neste romance enveredou por um novo caminho, saiu da sua zona de conforto conquistada merecidamente com três romances fabulosos, e não desiludiu. Pelo contrário, veio confirmar que é detentor de uma escrita bela, trabalhada como se de uma escultura se tratasse. Uma escrita sincera, extremamente humana que revela dramas, sofrimento, solidão,… neste caso, distancia-se do sofrimento colectivo para se centrar no “eu”. E que bem o fez. Como soube usar a metáfora do mar, ora calmo e contemplativo, ora tempestuoso para evidenciar os estados de alma das personagens.

Para concluir, resta-me sossegar JPC e dizer-lhe que pode continuar a confiar nos seus leitores, que, atentos, saberão ler nas entrelinhas, mesmo naquilo que não foi dito e que as luzes ficaram acesas. Brilhantes. Flamantes.

08 novembro, 2022

𝑴𝒂𝒓𝒈𝒂𝒓𝒊𝒕𝒂 𝒆 𝒐 𝑴𝒆𝒔𝒕𝒓𝒆, de Mikhail Bulgákov

 


Autor: Mikhail Bulgákov
Título: Margarita e o Mestre
Tradutor: António Pescada
N.º de páginas: 448
Editora: Colecção Mil Folhas
Edição: Agosto 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1363)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Ao pesquisar um pouco sobre a vida e obra do autor para uma melhor compreensão do livro, ficou claro que Mikhail Bulgakov não era apoiante do regime, tornando-se mesmo um autor polémico e muito crítico. Sendo vítima de censura, Margarita e o Mestre levou dez anos a ser escrito porque o autor sabia que não seria aceite no regime estalinista.
Só vinte e sete anos depois da sua morte, o livro foi publicado e tornou-se num fenómeno literário. Há no livro uma referência clara a este aspecto o que confere à narrativa um caracter autobiográfico. O Mestre da narrativa é escritor e Margarita é a sua amada e principal mentora. “Ela tem uma opinião demasiado elevada sobre o romance que eu escrevi. (…) deixe-me vê-lo. Woland estendeu a mão. (…) Infelizmente, isso não me é possível – respondeu o Mestre – porque o queimei no fogão.
- Desculpe, mas não acredito – disse Woland – isso não pode ser. Os manuscritos não ardem. (pp. 322 -323)

Temos assim, um livro desconcertante, divertido, empolgante e satírico. As duas partes que o compõem transportam-nos para universos de puro divertimento, mas também de profunda reflexão. O sobrenatural entrelaça-se magistralmente à crítica social e política do regime ditatorial de Estaline.
O Bem e o Mal, simbolicamente referidos na epígrafe, extraída da famosa obra Fausto, de Goethe, dão o mote à narrativa e preparam o leitor para a grande metáfora da vida e da natureza humana com um toque de cariz religioso.
“Quem és tu, então?”
“Parte daquela força que eternamente deseja o mal e eternamente cria o bem.”

Para além da dualidade Bem e Mal, há outras que se interligam como o amor e o ódio, a honestidade e a mentira e que condimentam todo o enredo e o tornam numa obra genial.
Partindo de uma trama realista e representativa de um país em plena ditadura, Bulgakov cria um enredo louco e absurdo, com personagens fabulosas e diabólicas que coloca numa Moscovo vazia de vontades e opiniões próprias, oprimida e devastada.

Não pensem que a história é taciturna, bem pelo contrário, e aí reside o encanto do livro, é que para retratar uma época sombria, o autor revela uma imaginação espantosa e com recurso à alegoria cria cenas divertidas, inventa diálogos com um forte sentido de humor, por vezes negro, estabelece pactos “que só o diabo sabe”, representa uma sociedade em crise de valores onde o mal predominava. 

Margarita e o Mestre é indiscutivelmente uma obra-prima da literatura universal. Na minha opinião, faz jus à literatura russa do século XIX que tanto aprecio e que leio sempre com enorme prazer.


06 novembro, 2022

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)





Mar


Mar, metade da minha alma é feita de maresia 
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, 
Que há no vasto clamor da maré cheia, 
Que nunca nenhum bem me satisfez. 
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia 
Mais fortes se levantam outra vez, 
Que após cada queda caminho para a vida, 
Por uma nova ilusão entontecida. 

E se vou dizendo aos astros o meu mal 
É porque também tu revoltado e teatral 
Fazes soar a tua dor pelas alturas. 
E se antes de tudo odeio e fujo 
O que é impuro, profano e sujo, 
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética