11 julho, 2022

𝑴𝒐𝒓𝒓𝒆𝒓 𝑺𝒐𝒛𝒊𝒏𝒉𝒐 𝒆𝒎 𝑩𝒆𝒓𝒍𝒊𝒎, de Hans Fallada

 


Autor: Hans Fallada
Título: Morrer Sozinho em Berlim
Tradutor: Carlos Leite
N.º de páginas: 502
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3112


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Pouco tenho lido sobre a resistência alemã na ditadura nazista. Segundo o posfácio do editor português, esta narrativa “reporta-se aos acontecimentos reais, mas contém já interpretações, cria episódios ficcionados e novas personagens.”
Assim, é a partir da história real do casal Otto e Elise Hampel (Otto e Anna Quangel no romance) que o autor descreve a luta contra o regime de Hitler, dos horrores da vida alemã, sobretudo a berlinense, ao longo da segunda guerra mundial. Uma vida de medo, de desconfiança, de delação, de cobardia, de vícios, de tirania, de tortura.
“(…) É de tal maneira desgastante ter de prestar atenção todo o tempo, este medo que nunca acaba…” (p. 134).

Não vou revelar nada do enredo. É importante que o leitor vá mergulhando docemente na narrativa e que dela emirja, de vez em quando, para respirar e ganhar fôlego.
Hans Fallada constrói a sua narrativa de forma sublime e num estilo corrosivo. As suas personagens complexas e magnificamente construídas, revelam muito do carácter e do estatuto de cada figura-tipo da sociedade representada no romance. As duas personagens principais (o casal Quangel) são-nos apresentadas num crescendo, os meros operários exemplares e, por isso, insignificantes vão empreender uma campanha de resistência à propaganda nazista, primeiro na clandestinidade, de forma ingénua e aparentemente inofensiva, e depois na prisão pacífica e corajosamente.
“ (…) este terceiro Reich guardava surpresas sempre novas para os seus detratores mais acérrimos, a sua perversão transcendia a própria perversidade.”

A revelação de um país antissemita, cruel, delator, corrupto onde impera o medo, a violência, a morte é-nos feita de forma clara e objectiva. Tudo é dito, nada é evitado ou amenizado e o leitor não sai ileso de tão dolorosa e emotiva exposição.
“Camaradagem, rodadas de brindes, descontração, alegria, o repouso bem merecido depois de tanto trabalho a torturar os semelhantes e a conduzi-los ao cadafalso.” (p. 199)

Contudo, nem tudo é crueldade e, ao longo da narrativa, vamos mesmo assim descortinando actos de bravura, de solidariedade e de esperança.

Recomendo vivamente.




10 julho, 2022

𝑨 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂𝒅𝒊çã𝒐 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒂, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: A Contradição Humana
N.º de páginas: 36
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2010
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (empréstimo)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pequena pérola da literatura infantil portuguesa para ser lida por “humanos” de todas as idades.
Neste livro, Afonso Cruz apresenta-nos as observações e reflexões de uma criança curiosa e atenta às contradições do ser humano.
Numa simbiose toda ela contraditória de texto e ilustração, o autor, em tons de vermelho, preto e branco usa letras de tamanhos e tipos diferentes e desenhos expressivos para realçar a contradição humana.

Nenhum leitor fica imune à ironia e subtileza presentes nas narrativas (textual e imagética) que conduzem o leitor à constatação imediata das várias contradições. O autor desconstrói através do humor e de jogos de palavras a ideia inicial para no final a tornar menos óbvia.

Livro divertido e sério que parte do absurdo para nos fazer sorrir mas também reflectir.
Alguns exemplos:
- “À minha frente estava um casal de namorados, aos beijinhos. Eram 2 mas só tinham uma sombra (de tão agarrados que eles estavam)”
- “A minha tia gosta muito de pássaros mas prende-os em gaiolas. É uma pena."
- “Apesar de comer tanto açúcar, é uma pessoa amarga”



27 junho, 2022

𝑨𝒔 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂𝒔 𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒔 𝒐𝒃𝒔𝒆𝒓𝒗𝒂𝒎-𝒎𝒆, de Tomas Tranströmer

 


Autor: Tomas Tranströmer
Título: As minhas lembranças observam-me
Tradutor: A.P.
N.º de páginas: 101
Editora: Sextante Editora
Edição: Setembro 2012
Classificação: Memórias e Poesia
N.º de Registo: (2741)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Trata-se de um pequeno livro de memórias do autor galardoado com o Premio Nobel da Literatura 2011. Para além do texto em prosa, a edição inclui fotografias do autor e de alguns dos seus textos manuscritos, dez poemas inéditos (os primeiros que escreveu) e um posfácio de Pedro Mexia.
As suas memórias, escritas quando tinha sessenta anos, incidem sobretudo sobre a sua infância e juventude, a sua educação, os seus hábitos e gostos e o despertar para a poesia.

Na sua narrativa, organizada em breves capítulos e sem ordem cronológica, perpassa uma certa humildade e sensibilidade ao relatar apenas pequenas lembranças, pormenores aparentemente sem muita importância para o leitor, mas que para o autor foram marcantes na sua formação. Não se registam grandes feitos, apenas recordações mais ou menos fiáveis, mais ou menos adulteradas quer pela memória quer pela emoção de reviver. E a sua primeira memória não é um facto, mas sim um sentimento.
“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção de um estado de espírito.
A minha recordação datável mais antiga é a recordação de um sentimento. Um sentimento de orgulho. Fiz três anos, e disseram-me que isso era muito importante, que agora eu era grande.” (pp 11 e 12)

Percebemos com esta memória que se trata de uma pessoa sensível. Esta característica irá reforçar-se com a ausência da figura paterna ditada pelo divórcio dos pais e com a necessidade de se defender da hostilidade de alguns colegas e professores.
A vida recordada por Tranströmer é descrita com “rastos de luz”, como um cometa. Ele tenta recordar, mas há “regiões muito condensadas” que tornam a tarefa difícil. Assim, foca-se nos momentos de maior brilho e revela-se a criança curiosa, fascinada por museus, bichos, colecções de insectos, livros e bibliotecas; um garoto (9 anos) empenhado “ de alma e coração!” durante a guerra, “debruçado sobre o mapa da guerra que vinha no jornal” (p. 37) facilmente percebeu que ser nazi era mau “Os nazis eram tão desumanos como eu imaginava.” (p. 40); o adolescente que criou amizades com professores e que se refugiou nas traduções dos clássicos nas aulas de Latim.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores. (p. 55)

Foi pela via da tradução de Horácio que o autor despertou para a poesia. Tanto trabalhou de forma metódica e rigorosa os versos do clássico que ficou deslumbrado, ao ponto de escrever os seus primeiros poemas que publicou no jornal da escola.
“Esta alternância entre o medíocre e trivial e o vigoroso e sublime ensinou-me muito. Era a condição da poesia. Era a condição da vida. Através da forma (da Forma!) era possível elevar uma coisa a um estádio superior.” (p. 74).

Gostei da prosa. Gostei dos seus primeiros poemas. Falta ler a poesia que lhe valeu o Nobel.



26 junho, 2022

Sines vive Al Berto - Performance Literária





25. Junho. 2022 | 21.30 h | Auditório CAS

Performance literária / apresentação, fruto da contribuição de vários elementos da comunidade de Sines, a convite do Município e do Centro de Artes, dos mais variados e improváveis setores a partir da obra “Mar-de-Leva”.

Teaser | Sines Vive Al Berto  (ver vídeo)


O Elogio da Leitura (RTP 2 Arquivo ) - Al Berto

 



Programa dedicado à promoção da leitura e à divulgação de novas edições, com apresentação de Isabel Bahia, dedicado ao poeta Al Berto, pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares, que em conversa fala sobre si próprio e a sua poesia.

Autoria e Apresentação: Isabel Bahia  1989-04-01



21 junho, 2022

𝑨 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑨𝒖𝒓𝒐𝒓𝒂𝒔, de Cristina Carvalho

 


Autora: Cristina Carvalho
Título: A Casa das Auroras
N.º de páginas: 190
Editora: Planeta Manuscrito
Edição: Abril  2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Gosto das histórias de Cristina Carvalho. Há algo que me fascina nelas porque activa o meu imaginário em torno de ambientes oníricos, de situações inverosímeis, de rumores, de lugares encantados.

No caso, a história situa-se em Quintas num lugar com poucas casas e uma casa comercial que vende de tudo. É numa dessas casas, muito antiga – A casa das Auroras- visitada só por mulheres que tudo acontece “Tem havido sempre rumores de suspeição sobre quem são elas, o que fazem, porque se encontram ali todas as noites, durante a noite…” (p. 16). Não vou desvendar quem são e o que fazem. Convido-vos a ler o livro.
Posso acrescentar que quando vem a noite os tons são dourados e os choupos “dançam e vibram numa quente alegria sob a grande bola de Sol que ainda ilumina o crepúsculo e contorna as nuvens vermelhas que pintam o céu (…) e quem passar na rua poderá sentir, ouvir e perceber, se quiser, os sons acetinados das conversas das mulheres.” (p. 17).
São histórias de mulheres, mulheres extraordinárias. São momentos de desenovelar memórias, de conversas partilhadas, redentoras, de lamentos, de acusações, de críticas…

Temos uma escrita simples, fluida, poética, imagética. É este poder encantatório da escrita que me agrada, que me envolve e me faz viver o imaginário proposto pela autora. Mas há mais, muito mais, ao entrarmos na Casa das Auroras, acompanhando a jornalista que tenta saber quem são estas mulheres, somos envolvidos numa película de silêncio profundo, de isolamento, da qual sairemos mais esclarecidos, mas também mais pensativos em relação ao mundo em que vivemos e onde tantas coisas boas e más acontecem.


19 junho, 2022

𝑺𝒉𝒖𝒈𝒈𝒊𝒆 𝑩𝒂𝒊𝒏, de Douglas Stuart

 


Autor: Douglas Stuart
Título: Shuggie Bain
Tradutor:Hugo Gonçalves
N.º de páginas: 492
Editora: Alfaguara
Edição: Setembro 2021
Classificação:Romance
N.º de Registo: (3341)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Shuggie Bain relata o quotidiano de um rapaz especial e da sua mãe alcoólica. Situa-se nos anos 80, num meio hostil, de uma Glasgow pobre, violenta, conservadora e homofóbica marcada pelas políticas de austeridade de Thatcher.
Douglas Stuart para dar voz a esta personagem inspirou-se na sua própria infância vivida no seio da classe operária em Glasgow, também marcada pela homofobia, pela pobreza e pelo alcoolismo da sua mãe. (entrevista à agência Lusa)

Apesar da vida miserável das personagens, da angústia de Shuggie e os outros filhos verem a mãe a consumir-se pelo álcool, do bullying a que o protagonista é sujeito na escola e na vizinhança, a mensagem principal deste romance incide, na minha opinião, na grande história de amor do filho Shuggie pela mãe, Agnes.

Ao centrar a sua narrativa em Shuggie, porque poderia centrá-la em Agnes, o autor acaba por nos oferecer uma história de superação, de esperança, de questionamento sobre o que é ser normal numa sociedade machista, conservadora onde a homossexualidade não é aceite. Agnes e o seu filho mais novo são ostracizados, ridicularizados. Ela porque é bela, extravagante e alcoólica, ele porque é educado e “diferente”.

É uma história visceral, onde a dignidade, o amor-próprio, o orgulho e a vergonha coabitam. É uma história dilacerante, dura, cruel onde os vícios do álcool, do jogo, da prostituição se avolumam. É uma história de (auto)destruição, de abandono, de traição, de promiscuidade, de comiseração. Contudo, e apesar de tudo e todos, subsiste a doçura, a dedicação, a resiliência, o amor de um filho à sua mãe.

São cerca de 500 páginas que nos preenchem de múltiplas e contraditórias emoções, que nos arrepiam, que nos fazem refletir. O leitor mergulha nelas intensamente, dolorosamente, precisando de vir à tona, por vezes, para respirar, para aliviar a tristeza e o incómodo, para acalentar a esperança.

Sobrevivi, mas com algumas mazelas. Recomendo.

13 junho, 2022

Al Berto (11.01.1948 | 13.06.1997)

 


17 abril 74

Pensar intensamente em ti sem parar, de noite e de dia - até que o movimento do tempo fique suspenso, até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo, até que os dias não tenham sentido se não murmurar adoro-te noite adiante.

in Diários (p. 406)


12 junho, 2022

𝑨𝒇𝒂𝒔𝒕𝒂𝒓-𝒔𝒆 - 𝑻𝒓𝒆𝒛𝒆 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 Á𝒈𝒖𝒂, de Luísa Costa Gomes


Autor: Luísa Costa Gomes
Título: Afastar-se - treze contos sobre Água
N.º de páginas:213
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3369)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Afastar-se! Tal como a água que corre, que se afasta, assim é a vida. Nos treze contos que integram este livro, a água, como a própria autora o refere, “está sempre presente, doce, clorada, salgada, mais larga ou mais discreta, no oceano (…) no duche, (…) na saliva (…) na piscina”. A água surge como meio de integração, de salvação (terapia), de prazer e de dissolução.
“ Atira-se para se afastar da margem. Avança sem coordenação e elegância. Oblíqua na água calma e quando se cansa vira o peito aos céus e flutua, engolindo um ou outro pirolito. Nada com uma determinação de galgo, sem olhar para trás, cada vez para mais longe até sentir que está no meio do mar, Aí, deita-se ao comprido na água e goza o ser. (p. 9)
e
“No amor, na piscina onde se nada. Cada banho me retira uma camada de pele à medida que mergulho na alegria. Sou cada vez mais carne viva. Sofro e sofro sem dó nem piedade. Gozo a minha indecência. A água está morna e faz-me querer ser água e regar cada torrão do jardim. Ao cair do sol vou cavar buracos e espremo as lágrimas lá para dentro. Saltam dos olhos, as pequenas idiotas. E aspiro a que ao terceiro dia esteja tão seca e ressequida que possa flutuar como um lanho e dissolver-me à superfície.» (p. 79)

São relatos que expressam o vivido, o sentido, o desfiar de memórias, o desejo de liberdade, projectos de escrita. São relatos que se cruzam com gente famosa como Byron, Pirandello, Kierkegaard, entre outros que, não citados, podem ser identificados. São relatos simples e simultaneamente complexos. Simples porque descrevem actos comuns, verosímeis, autobiográficos (?). Complexos porque revelam a natureza humana, o âmago da personagem: fraquezas, ambições, desejos, sonhos.
A escrita burilada, poética, ritmada, fluída, densa, subjectiva conduz o leitor a múltiplas interpretações, a imaginar o não dito, mas legado nas entrelinhas.
Gosto desta literatura libertadora que funciona, aqui, como uma boia, sobretudo quando “afastar-se” significa ir mais além, correr riscos, libertar-se, sonhar, ou seja, VIVER.


06 junho, 2022

𝒆𝒔𝒕𝒆 𝒔𝒂𝒎𝒃𝒂 𝒏𝒐 𝒆𝒔𝒄𝒖𝒓𝒐, de Raquel Ribeiro

 


Autor: Raquel Ribeiro
Título: este samba no escuro
N.º de páginas: 229
Editora: Tinta da China
Edição: Novembro 2013
Classificação: Romance
N.º de Registo: (2934)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Cuba como pano de fundo, ilha promotora de ilusões, de vitórias e de derrotas. Havana desencantada, fracassada, pobre. Povo iludido, revolucionário (alguns), triste, submisso, estropiado, orgulhoso e sonhador. São estes os ingredientes que Raquel Ribeiro nos oferece neste seu belo romance.

Numa mescla de realidade e ficção, onde nem sempre descortinamos os seus limites, o enredo leva-nos para o interior de uma Havana triste e sombria. Aí conhecemos Álvaro e Lia que revelam a genuinidade de um país completamente defraudado dos seus sonhos e iludidos perante o futuro. Duas personagens que se amam, mas que vivem em ideais opostos. Ela é uma militante optimista que acredita na liberdade. Ele vive e reage à realidade, ao dia-a-dia e deseja sair do país.

Álvaro que viaja de uma pequena localidade (Ciego) para Havana, a fim de cumprir dois duros anos de serviço militar, rapidamente percebe que o seu sonho se desvaneceu (“Afinal Havana não era tão livre como a imaginara” (p. 17)). O centro de Havana, onde vive o povo, depressa se revela moribundo, caótico. A autora não se detém na Havana dos turistas, a da periferia, a das belas praias, onde nada falta. A autora cinge-se, e muito bem, à Havana do povo esmagado pela pobreza, pela fome, pela falta de luz, de água, de tudo; à Havana da corrupção, da opressão, da violência, da descriminação racial, da prostituição; à Havana sem soluções, privada de sonhos e de liberdade.

“ O Cerro era o limite entre o que se sabe de Havana e o desconhecido (...) o Cerro era a Havana de verdade, a Havana onde muitos cubanos não se atreveriam sequer a ir, onde se dizia que só havia pretos e criminosos.
Descendo do centro, a cidade começava triplamente a escurecer. Turistas e senhoras brancas de sombrinha, nem vê-los, polícia também não: só mães pretas com crianças e sacos pela mão, pais pretos a engraxar sapatos, jovens suspeitos parados nas esquinas ou sentados sobre o muro, chinelando, para a frente e para trás. De vez em quando ouvem-se tiros, mas a vida continua enquanto a morte não se atravessa no caminho. Os prédios não têm as cores feéricas da Havana da Unesco, as cores quentes do Caribe, o amarelo, o laranja, o rosa choque (...) ” (pp. 60, 61)

Para amenizar o desalento evidente que encontra em Cuba, a autora recorre a versos de Chico Buarque para imbuir a sua narrativa de alguma sensibilidade e esperança. Este samba no escuro (verso do chico) é um romance que põe a nu os contrastes, os desencontros, a ambivalência dos seus habitantes e da própria autora. Numa entrevista que deu ao Jornal i (23/12/2013), assumiu-o claramente “Vivo entre o amor e o ódio muito extremados, relativamente à ilha, às pessoas, ao sistema, à vida (…). Essa ambivalência respira-se todos os dias.”

No final, fica a ideia, apesar de tudo, que podemos acreditar num futuro melhor. Há esperança de que as mudanças possam surgir.



30 maio, 2022

𝑬, 𝒅𝒆 𝒓𝒆𝒑𝒆𝒏𝒕𝒆, 𝒂 𝒂𝒍𝒆𝒈𝒓𝒊𝒂, de Manuel Vilas

 


Autor: Manuel Vilas
Título: E, de repente, a alegria
Tradutor: Vasco Gato
N.º de páginas: 405
Editora: Alfaguara
Edição: Março 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3225)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


E, de repente, a alegria é a continuação, de certa forma, do seu romance anterior. Neste, fica mais clara a figura do narrador autobiográfico. Temos a exaltação do amor filial evocado quer pelas memórias dos pais (os seus fantasmas) quer pelas vivências dos seus filhos ainda jovens. Focando-se na sua vida de escritor, o “viajante da palavra” como ele se intitula, vai deambulando pelo mundo para falar dos protagonistas do seu último livro, aquele que efectivamente lhe deu protagonismo, encontrando sempre algo que lhe avive a memória e o transporte para o passado e inevitavelmente para o pai ou para a mãe.

Assim, Manuel Vilas, de país em país, de cidade em cidade, de hotel em hotel, sempre em viagem com a sua mala e as suas memórias, vai coabitando com Arnold, “o senhor da minha confusão, o chefe da minha instabilidade emocional” (p.53) e revisitando o passado para resolver o futuro.

“Aquela mala e eu, duas estátuas de solidão, a andar pelo mundo, os dois infinitamente perdidos, a pedir alegria, a andar pelos aeroportos, de cidade em cidade, ambulantes, pois o movimento é prova de vida.” (p. 53)

Com extrema facilidade fala de si e dos seus próximos mais queridos (pais, filhos e mulher actual), das suas emoções, das suas perturbações e fragilidades e da sua solidão. Escreve para “arrumar” a sua vida, para dar sentido às suas memórias, para criar marcas que ficarão nas memórias dos seus filhos. Escreve para que a sua vida fique registada, para que os filhos, no futuro, não precisem de inventar o passado do pai como ele teve de fazer com os seus. Escreve “em busca de um perdão imaginário.”

O seu registo intimista e confessional penetra no leitor e fá-lo intuir e partilhar o que lhe vai na alma. O leitor torna-se cúmplice dos seus momentos de alegria, de procura da beleza, mas também da sua luta interior, das suas noites em branco, dos momentos negros que lhe infernizam a vida e o colocam, por vezes, na iminência da autodestruição. Mas o amor sobrepõe-se à depressão, à vontade de acabar com tudo.

Manuel Vilas ao falar de si e dos seus entes mais queridos, fala também de Espanha, do mundo e das transformações culturais, sociais e políticas.
Percebemos que há uma forte consciência da fugacidade do tempo (“O violento ciclo da vida, e penso agora no meu envelhecimento, cumpre-se inexoravelmente”), da proximidade da morte e da necessidade clara de reflectir sobre a sua existência, sobre a solidão, o desespero e a depressão e, sobretudo, a busca incessante da beleza, ou seja, da alegria. A beleza que surge nas coisas mais banais do quotidiano, ou no amor que sente ainda pelos pais, ou no convívio com os filhos e a mulher ou ainda numa conversa com um leitor numa das suas múltiplas apresentações que faz pelo mundo.

“(…) disse que eu era um órfão com cinquenta anos. É uma definição exacta de mim mesmo. Um órfão com mais de cinquenta anos que se arrasta pelo mundo atrás de uma coisa nova que apareceu na sua vida: uma esperança à qual umas vezes chama beleza, e outras, alegria. E há que ter fé na alegria, porque sem ela a vida humana não prevalecerá.” (p.239)



22 maio, 2022

𝑨 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒓𝒂𝒅𝒂 𝑭𝒂𝒎í𝒍𝒊𝒂, de Sandro William Junqueira


Autor: Sandro William Junqueira
Título: A Sangrada Família
N.º de páginas: 195
Editora: Caminho
Edição: Junho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3358)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


É o primeiro livro que leio do autor e as expectativas estavam altas. Não desiludiu. A história das famílias Capote e Monteiro é narrada a quatro vozes. Filomena, Ezequiel, Teodoro e Manuel Monteiro são os protagonistas deste “drama-pouco-burguês” que vivem do medronho e que praticam o ódio e a violência, mas também de amor de uma maneira pouco convencional.
“ Duas famílias equidistantes em terras e riqueza, inimigas em medronho, continuam a exercer o ódio e a praticar o rancor. (…) E se ele cair, podre, no chão, não há fermentação nem destilação. E não há aguardente para ninguém. E sem não há substância que nos alimente. O ódio fermentado. O amor destilado” (p. 28)

O enredo desenrola-se na serra de Monchique onde o fogo é um “turista” devorador e recorrente que facilmente anula as ilusões dos seus habitantes e produtores da famosa aguardente de medronho.
Parece uma história banal, não tivesse o autor subvertido a escrita, o enredo, a estrutura, as palavras e até os ditados populares. Num jogo complexo, as quatro personagens, de forma alternada, contam-nos as suas histórias (e as histórias dos outros elementos da sua família), os seus actos, os seus pensamentos, os seus desejos e vinganças.

O conhecimento da história destas duas famílias, que sempre se odiaram, mas que a dada altura se ligam por amor, ou será por ânsia de vingança? (Cabe-vos a vós, futuros leitores, desvendar este enleio) vai ser adquirido capítulo a capítulo, de voz em voz, ora baralhando, ora esclarecendo.
Numa escrita direta, desabrida, vernácula, fragmentada e repetitiva, as múltiplas facetas das personagens desfilam ao longo das 195 páginas e o leitor deixa-se arrastar e seduzir sem por vezes destrinçar a ficção da realidade.
O autor é eficaz nessa ilusão pois ao transpor para as personagens essa dúvida, consegue actuar diretamente no leitor e, assim, confundi-lo. “Quem me dera ser uma personagem e este drama todo, uma ficção” refere Manuel Monteiro (p. 129).
Penso que é graças à presença desta ilusão e à interpelação constante do leitor que a mensagem passa, que a crítica, nem sempre, perceptível se constrói e se interioriza.
“ Se falo disto, se conto estas coisas, é porque dói.
Faltam árvores a este país e ninguém faz nada.
É só palavras, palavras, palavras:
Se não fossem eles, Teodoro, Ezequiel e Filomena, eu não estaria aqui:
Se não fossem eles e o fogo, vocês não estariam aqui.” (p. 75 – voz de Manuel Monteiro)


14 maio, 2022

𝑨 𝒉𝒆𝒓𝒂𝒏ç𝒂 𝒅𝒆 𝑬𝒔𝒛𝒕𝒆𝒓, de Sándor Márai

 



Autor: Sándor Márai
Título: A herança de Eszter
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 150
Editora: D. quixote
Edição 6.ª: Fevereiro 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em A herança de Eszter, a narrativa desenvolve-se numa analepse, isto é, a protagonista, narradora omnisciente, conta a “história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou.” (p. 7). Por isso ela conhece bem os factos, as intrigas e o carácter de Lajos, o único homem que amou em toda a sua vida.
Como um círculo que se fecha, também Eszter sentiu necessidade de rever e de narrar a sua vida de enganos, de submissão, de abandono. Fê-lo porque sentiu que, aproximando-se da morte, só assim resgataria a paz. É o ponto final de uma história de mais de vinte anos, de uma história de mentiras, de desilusões, de roubos e, contudo, de esperança e de sonho.

Vamos assistindo incrédulos a tudo o que Eszter nos narra sobre Lajos e não entendemos tanta submissão, tanta inércia, tanta cedência.
Sándor Márai é exímio na descrição psicológica das suas personagens. Numa escrita simples, profunda e sensível conta-nos a história desta mulher solteira que viveu sem brilho um amor doentio por um canalha sedutor e sem escrúpulos.
É brilhante como o carácter das personagens é desvendado e como vamos assimilando a noção de dever (“cumprir o meu dever”) da protagonista, como a sua fragilidade emocional vai num crescendo, tornando-se facilmente manipulável, permanecendo, contudo, lúcida.

Fica assim bem claro o antagonismo de carácter das duas personagens, tornando incompreensível, para o leitor, a atitude de Eszter.

Livro que se lê num dia, mas que deixa marcas porque é uma história verosímil de grande densidade psicológica.
 Recomendo.


13 maio, 2022

 


Autor: Vera Duarte
Título: Amanhã Amadrugada
N.º de páginas: 104
Editora: Vega
Edição: 1993
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em Amanhã Amadrugada, Vera Duarte revela-se uma lutadora pelos direitos humanos. Para tal, convoca o amor, a paixão , a justiça, a igualdade, ou pelos menos, um maior equilíbrio de género, a liberdade.

A sua escrita revela-se de forma antagónica, dividida e sempre indagadora e consciente do muito que ainda há para fazer numa sociedade onde a mulher permanece “prisioneira de estereótipos interiorizados e recusados” (p. 10).
Vera Duarte divide o seu livro em quatro partes (“Cadernos”) e neles descreve o que viveu, o que sentiu, o que observou de forma “confessional, emotiva e crítica”.

Temos textos sobre o amor, a paixão, o Eu/Tu, a mulher, o mar, o arquipélago, a morte, a revolução, o sonho, a ânsia da liberdade.

"Carência

Amar-te loucamente
abrir sobre ti as janelas do meu ser
ser campo aberto e florido
e viver assim
em estranhas madrugadas
à luz dos candeeiros
envolta em luas e neblinas?

antes
êxtase e paixão
mãos vazias
corpo carente"

Percebemos, à medida que avançamos na leitura dos textos e dos poemas, o seu amor incondicional a Cabo Verde, a África, e o desejo de uma pátria livre.
Penso que ao interligar prosa (poética) e poemas, fica claro que a ausência de fronteiras na literatura se deveria aplicar ao mundo. A sua liberdade ficcional, representa o seu desejo de liberdade como mulher e como povo.

“(…)
Homens mulheres crianças
Na pátria livre libertada
Plantando mil milharais
Serão a chuva caindo
Na nossa terra explorada”

10 maio, 2022

𝑶 𝑫𝒆𝒔𝒆𝒓𝒕𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝑻á𝒓𝒕𝒂𝒓𝒐𝒔, Dino Buzzati

 

Autor: Dino Buzzati
Título: O Deserto dos Tártaros
Tradutora: Margarida Periquito
N.º de páginas: 231
Editora: Cavalo de Ferro
Edição 4.ª: Maio 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3359)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Feliz a hora em que me recomendaram a leitura deste livro, no clube de leitura do PNL. Foi assim que descobri o autor e esta belíssima e surpreendente narrativa. Provavelmente ter-me-ia escapado, como me escapou até à data, e, agora, depois de o ler, confesso que seria uma lacuna literária imperdoável.

O Deserto dos Tártaros foi publicado pela primeira vez em 1940, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. É considerada a obra mais importante de Buzzati e integra a extensa lista dos clássicos da literatura mundial.
Narra a história de Giovanni Drogo promovido a oficial. O jovem tenente é destacado para a Fortaleza Bastiani localizada na fronteira com um deserto. Lugar isolado e inóspito, sem acção, sem guerra, que apenas promove uma vida entediante, rotineira, porém ditada pela burocracia e por protocolos completamente anacrónicos.

Drogo de início pensou desistir e abandonar a Fortaleza, mas algo de inexplicável aconteceu assim que avistou o edifício e a paisagem envolvente e acabou por ficar…
“Todavia, como na tarde anterior do fundo do desfiladeiro, Drogo olhava-a [a fortaleza] hipnotizado, e uma inexplicável agitação penetrava-lhe no coração.” (p. 22)
Não vou revelar mais nada sobre a vida do protagonista na fortaleza, pois tiraria todo o encanto da descoberta da leitura. Posso, contudo, acrescentar que “ justamente naquela noite principiava para ele a irremediável fuga do tempo (…) Sentira o pulsar do tempo a marcar avidamente o compasso da vida.” (pp. 52-53)

Todo o oficial que é enviado para este lugar tem o sonho, o desejo, de alcançar a glória numa batalha, a “esperança de coisas nobres e grandiosas”, mas o narrador omnisciente vai fornecendo indícios, presságios ao longo da narrativa e cedo percebemos que tal poderá não acontecer. Mas a dúvida persiste no leitor e este jogo é magnificamente conduzido ao longo do texto.

Acompanhamos o tédio, o torpor, a apatia, a inércia perante uma tomada de decisão, a infelicidade, mas também a vaidade militar, o “prazer das regras de serviço”, o prazer da solidão, o hábito de uma vida acomodada e rotineira e as emoções sentidas perante a beleza das “negras voragens do vale”, das montanhas cobertas de neve, dos ecos das cornetas, das luzes do crepúsculo, …

Tal como no mito de Sísifo onde “o homem vive sua existência em busca de sua essência, do seu sentido, e encontra um mundo desconexo, ininteligível”, aqui, na narrativa os homens preparam-se diariamente para uma batalha que nunca acontecerá, para a glória que nunca conhecerão. “A glória é a moeda mais inútil, vã e falsa em uso entre nós.“ (Montaigne)

É o absurdo! E assim, o tempo passa, e passa e “a vida da Fortaleza devorava os dias, um após outro, todos semelhantes, a uma velocidade vertiginosa.” (p. 75)
É um livro sobre a fugacidade do tempo, sobre decisões, sobre oportunidades perdidas e sobretudo sobre o conformismo, e, apesar de tudo, também sobre a esperança.
É um livro que levanta muitas questões, que nos faz reflectir sobre o sentido da vida, sobre as decisões que tomamos, ou não, ao longo da nossa existência.

Recomendo vivamente!

 

01 maio, 2022

Dia da MÃE!



“Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.”

Poema de António Ramos Rosa


30 abril, 2022

𝒒𝒖𝒆𝒓𝒊𝒅𝒂 𝒊𝒋𝒆𝒂𝒘𝒆𝒍𝒆, de Chimamanda Ngozi Adichie

 


Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Título: querida ijeawele
Tradutora: Ana Saldanha
N.º de páginas: 94
Editora: D. Quixote
Edição 3.ª: Março 2021
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3355)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em 𝒒𝒖𝒆𝒓𝒊𝒅𝒂 𝒊𝒋𝒆𝒂𝒘𝒆𝒍𝒆 estamos perante a carta que a autora endereçou como resposta a uma amiga de infância quando esta lhe perguntou: Como educar a minha filha para o feminismo?

Numa linguagem simples, franca, emotiva e assertiva a autora apresenta quinze sugestões que abordam temas que reflectem os princípios fundamentais de uma educação para a igualdade de direitos para mulheres e homens, para a criação de um mundo mais justo e sobretudo para a importância de reflectirmos e decidirmos sobre o que verdadeiramente queremos ser.

“Toda a gente vai ter opiniões sobre o que deverias fazer, mas o que importa é o que tu queres para a tua vida e não o que os outros querem que tu queiras.” (p. 17)

Ela recorre a exemplos claros do dia-a-dia, cita acções e palavras de pessoas conhecidas/famosas, partilha vivências pessoais, define objectivos e expectativas, rejeita actos de permissão, de obediência, de condicionamento da mulher “ «Porque és menina» nunca é razão para nada. Nunca.” (p. 24)

Educar para o feminismo é ser uma pessoa inteira, completa; é partilhar os cuidados do bebé igualmente; é “questionar a ideia do casamento como um prémio para as mulheres”; é escolher brinquedos por tipo e não por género; é anular a “ideia da igualdade condicional das mulheres”; é promover a leitura, o prazer dos livros; é questionar a linguagem e ensinar o que se deve valorizar; é encarar o casamento como uma relação de igualdade, de felicidade; é ter consciência da humanidade, ser honesta e corajosa, rejeitar o desejo de agradar e de ser “boazinha” para com as pessoas más; é criar um sentido de identidade cultural; é desenvolver hábitos de atividades saudáveis; é aceitar a sua feminilidade e não relacionar a aparência com a moralidade (“Nunca lhe digas que uma saia curta é imoral” (p. 67)) mas sim uma questão de gosto e de atractividade; é reconhecer a importância da biologia como matéria, mas nunca como “justificação para qualquer norma social”; é falar abertamente de sexualidade e é saber dizer “não” e é sobretudo não associar a vergonha à sexualidade; é saber receber e dar amor; é não atribuir valor à diferença, é preparar para “sobreviver num mundo de diversidade”; é ser humilde e não “universalizar os seus padrões e experiências”; é finalmente ser feliz e saudável.

Após a leitura deste manifesto, pode-se concluir que a forma mais evidente de caminharmos para uma sociedade igualitária assenta na possibilidade de nos questionarmos sobre o papel da mulher e do homem na sociedade, sobre a aceitação do outro e de si próprio (ser uma pessoa inteira, completa). Compreender que ser feminista não é excluir o homem, é aceitar as diferenças de cada um, é aceitar a igualdade de direitos para todos, é tentar criar um mundo mais justo.

“Para mim, o feminismo é sempre contextual. (…) A nossa premissa feminista deveria ser: Eu tenho importância. Eu tenho igual importância. Não «se ao menos». Não «desde que». Tenho igual importância. Ponto final.” (p. 12)



29 abril, 2022

𝑺𝒊𝒏𝒐𝒑𝒔𝒆 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Afonso Cruz

 

Autor: Afonso Cruz
Título: Sinopse de Amor e Guerra
N.º de páginas: 175
Editora: Companhia das Letras
Edição: Dezembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sinopse de Amor e Guerra é o segundo livro da colecção Geografias, cuja acção se desenrola em Berlim, depois da II Guerra Mundial, mais concretamente nos anos anteriores e pouco depois à construção do muro, parede que viria a dividir uma cidade e a separar vidas, amores, destinos, “Uma parede que era a prefiguração da morte” (p. 109)

Através de uma escrita simples, fluída e poética, muito poética, vamos acompanhando a história de Theobald Thomas e Bluma Janek, dois amigos que se conhecem desde a infância, que parecem feitos um para o outro e que, mais tarde, através do poder dos livros e da poesia acabam por se apaixonar. “ A vida de ambos pacificara-se e convergira. Encostavam olhares, encostavam as mãos ao arrumar os livros, citavam poetas, por vezes em uníssono. Era uma boa explicação do amor, essa coincidência dos versos que diziam.
Descreviam-se um ao outro pela forma como as palavras saíam das suas bocas, simultâneas e idênticas. Esculpiam-se mutuamente, tendo por ferramenta a poesia.” (p.89):

Este livro é inspirado numa história real, focado no binómio amor e guerra, com realce para a ausência, para a perda e para reencontros, para a banalidade do mal como forma de sobrevivência. Contudo, nos dias sombrios que vivemos, quero acreditar que, tal como na narrativa, há um raio de sol que brilha e que permite ter esperança num mundo melhor, num mundo mais unido, mais pacífico, sem medo, sem separação, sem barbárie.


Para além da história de Theobald e Bluma, o autor deu uma piscadela de olho ao poder dos livros, à beleza das palavras, da poesia. É notória a sua força na transformação das frases em algo de sensível, de belo e, simultaneamente, educativo “ Telefonar sem qualquer motivo é sinal de amor” (p. 76), é apenas um dos muitos exemplos.

Soube a pouco, gostaria que houvesse mais desenvolvimento, mais detalhes para uma maior compreensão e aceitação das personagens, das suas motivações, das suas decisões. Gostaria de obter mais respostas sobre os limites do amor e da guerra, sobre as questões afloradas.
Será que neste mundo em que vivemos, vale tudo?
Apesar de tudo, não me considero defraudada porque o título é claro, trata-se de uma sinopse…


25 abril, 2022

𝑨𝒃𝒓𝒂ç𝒐, de José Luís Peixoto

 



Autor: José Luís Peixoto
Título: Abraço
N.º de páginas: 655
Editora: Quetzal
Edição: Outubro 2011
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2857)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Abraço é uma colectânea de cento e sessenta e duas crónicas escritas ao longo de dez anos e que marcam três fases distintas: os seis, os catorze e os trinta e seis anos da vida do autor. A sequência das crónicas que integram este livro foi sublimemente organizada. Tudo faz sentido. Assumimos o livro como um todo e não como uma colectânea de textos que foram publicados de forma avulsa em jornais e revistas.

Os textos apresentam uma escrita intimista, corajosa e aparentemente simples, já que o autor parte do banal, do quotidiano, por vezes, de uma palavra, de uma ideia, de uma emoção para olhar para dentro de si, para expor os seus segredos, as suas vivências pessoais e familiares, sobretudo com os filhos, os pais e a irmã, as suas viagens, o seu processo de criação, as suas leituras, os seus pensamentos, as suas vitórias. Falam da sua infância e adolescência no Alentejo; falam de livros, livrarias, escritores, de filmes e cinema, de objectos banais; falam de amor, da vida, da sua vida de forma desassombrada, intimista, sem filtros, e cativante.

À conta de tudo isto, há todo um processamento da memória, mas há também o registo presente, simultâneo, do vivido e do escrito e há ainda a interpelação directa ao leitor que, em muitos textos, participa quase espontaneamente como se ele próprio abraçasse a escrita. Interessante como a narração, a descrição de um facto banal se transforma em literatura, em prosa poética e o leitor fica suspenso nas palavras, nas frases, na beleza da história.

Este livro é um compêndio de abraços à vida, às palavras lidas e escritas, aos leitores, aos lugares.
“Pureza, aceita esta palavra nos teus gestos, em cada uma das tuas palavras, e, aos poucos, chegará ou regressará aos teus pensamentos. (…) Não deixes que te armadilhem os cálculos e labirintos. São demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. (…) Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.
Agora, vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.” (pp. 653 a 655)




16 abril, 2022

𝑨𝒔 𝑷𝒆𝒒𝒖𝒆𝒏𝒂𝒔 𝑽𝒊𝒓𝒕𝒖𝒅𝒆𝒔, de Natalia Ginzburg

 


Autora: Natalia Ginzburg
Título: As Pequenas Virtudes
Tradutor: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 143
Editora: Relógio D'Água
Edição: Junho 2021
Classificação: Ensaios
N.º de Registo: (3356)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐




Livro fabuloso. A beleza e a leveza da escrita, a clareza das palavras elevam-nos e encantam-nos e o que é dito obriga-nos a reflectir, a mergulhar no nosso imo. Nenhum leitor permanecerá indiferente e certamente que jamais será o mesmo, após a leitura destes breves textos.
Este é um livro que não pode ficar arrumado na estante dos livros comuns. É um livro que deve juntar-se aos grandes escritores, na estante da boa literatura, à qual podemos sempre voltar.

Em As Pequenas Virtudes, livro de 11 breves ensaios escritos entre 1944 e 1966, em momentos diferentes e de forma independente, a autora aborda vários temas, muito autobiográficos numa perfeita mescla de memórias, de vivido, de sentido e de observado. Com extrema sensibilidade e sinceridade, mas também com tristeza e nostalgia, ela detém-se nos detalhes do quotidiano, na sua vida, nas relações humanas, no seu relacionamento com os próximos, no seu “ofício” e de forma direta, clara, crua, por vezes, ela entremeia a memória, a reflexão, a fantasia e oferece-nos estes ensaios de uma grande lucidez e sobriedade.

O livro está dividido em duas partes, na primeira, temos, sob um olhar próprio e subtil, textos sobre lugares de desterro (Itália) e exílio (Inglaterra), sobre pessoas que conheceu nesses momentos de sofrimento e sobre figuras importantes na sua vida, os dois maridos e o poeta Cesare Pavese. A segunda parte debruça-se sobre temas mais gerais que permitem uma autoanálise profunda e reflexões sobre a sua formação, a sua escrita, sobre valores, vocações e afectos, amizades e sobre a educação. O último texto, que dá título ao livro, é sublime.
"No que se refere à educação dos filhos, penso que lhes devem ensinadas não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença pelo dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desprezo do perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor da verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de conhecer." (p. 129)

Poderia continuar a opinar e a citar sobre cada um dos ensaios de tão belos e cativantes que são. Não vou fazê-lo. Prefiro que o leiam, lentamente, e que, tal como eu, o descubram e desfrutem da sua beleza e intensidade. Porém, termino com uma citação de um dos textos que mais me arrebatou.

“Há um perigo na dor, do mesmo modo que há um perigo na felicidade, no que se refere às coisas que escrevemos. Porque a beleza poética é um conjunto de crueldade, de soberba, de ironia, de afecto carnal, de fantasia e de memória, de claridade e de obscuridade, e, se não conseguirmos alcançar todo esse conjunto, o nosso resultado será pobre, precário e pouco vital. (…) Há o perigo de sermos astuciosos e de fazermos batota. È um ofício bastante difícil, como se pode ver, mas o mais belo ofício do mundo.” (pp. 95 e 97)

14 abril, 2022

Um poema | José Saramago




Química

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

 José Saramago, in Os Poemas Possíveis


13 abril, 2022

𝑵𝒊𝒌𝒆𝒕𝒄𝒉𝒆: 𝑼𝒎𝒂 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒐𝒍𝒊𝒈𝒂𝒎𝒊𝒂, de Paulina Chiziane

 


Autora: Paulina Chiziane
Título: Niketche; Uma História de Poligamia
N.º de páginas: 334
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1582)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


História muito bem conseguida. Narrada na primeira pessoa, pela voz de Rami, a protagonista é uma mulher do sul (Maputo), bonita, casada com Tony, comandante da polícia, mãe de cinco filhos e primeira-dama de um casamento polígamo.

Numa narrativa repleta de humor e de autenticidade, acompanhamos a vida de Rami que financeiramente estável, é atormentada pela constante ausência do marido. Numa sociedade onde predomina uma cultura fortemente machista e patriarca, a culpa recai nela porque não sabe manter o casamento e agarrar o marido. Apesar de saber que o marido é a causa do seu sofrimento e da sua tristeza, Rami, vira-se para o espelho e questiona: “Diz-me, espelho meu; serei eu feia? Serei eu mais azeda qua a laranja-lima? Por que é que o meu marido procura outras e me deixa aqui? O que é que as outras têm que eu não tenho? (… ) Oh, espelho meu, o que achas de mim? Devo renovar-me?
- Renova-te, sim. Mas antes, procura uma vassoura e varre o lixo que tens dentro do peito. Varre as loucuras que tens dentro da mente. Varre, varre tudo. Liberta-te. Só assim viverá a felicidade que mereces.” (p. 34)

Ao descobrir os motivos da ausência do Tony e como uma fera ferida de traição vai cobrar satisfações à sua rival e acaba por saber que afinal não tem só uma, mas quatro (Julieta, Lu, Saly e Mauá). Decidida a vingar-se, vai atrás de cada uma delas e marca uma reunião secreta em sua casa e expõe o marido perante a situação e obriga-o a assumir a poligamia conforme a tradição do país.
“Somos éguas perdidas galopando a vida, recebendo migalhas, suportando intempéries, guerreando-nos umas às outras. O tempo passa, e um dia todas seremos esquecidas. Cada uma de nós é um ramo solto, uma folha morta, ao sabor do vento – explico. Somos cinco. Unamo-nos num feixe e formemos uma mão. Cada uma de nós será um dedo, e as grandes linhas da mão a vida, o coração, a sorte, o destino e o amor. Não estaremos tão desprotegidas e poderemos segurar o leme da vida e traçar o destino.” (p. 107)
Rami vai assim, inconformada mas decidida, tomar conta desta situação e vamos acompanhando o seu crescimento interior, as suas angústias, as suas dúvidas, …

Paulina Chiziane numa escrita poética, irónica e subtil ilustra o percurso de Rami, a submissão da mulher ao regime patriarcal, a violência opressiva imposta pelas tradições, a união e a transformação da mulher, a reivindicação do seu papel de mulher e de mãe numa sociedade que encara a mulher como ser inferior, destinada a servir o homem e a sofrer em silêncio.
“Quero ser tudo: vento, peixe, gota de água, nuvem branca, qualquer coisa menos mulher. (…) Quero ser um grão de areia ao vento e dançar o meu niketche ao som das flautas de todas as brisas.” (p. 304)

Recomendo muito a leitura. Rami é uma mulher fantástica que expõe as suas fraquezas, mas também a sua força e a sua nobreza. Toda a narrativa é construída na base da sua consciência que nos faz refletir sobre a condição da mulher negra na sociedade moçambicana. É uma crítica de costumes que traduz a luta pela igualdade de género.
Com um estilo leve, sarcástico e divertido, a autora gere a narrativa a seu belo prazer e que ora encanta e diverte ora comove o leitor com as peripécias de ciúmes, de luta, de vingança, de infidelidade, mas também de amor e partilha.

10 abril, 2022

𝑴𝒖𝒓𝒓𝒐 𝒏𝒐 𝑬𝒔𝒕ô𝒎𝒂𝒈𝒐, de Paulo Jorge Pereira

 


Autor: Paulo Jorge Pereira
Título: Murro no Estômago
N.º de páginas: 205
Editora: 20|20 Editora (Influência)
Edição: Outubro 202o
Classificação: Testemunhos
N.º de Registo: (3353)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste livro, Paulo Jorge Pereira reúne sete histórias de vítimas de violência doméstica e oito testemunhos de profissionais que acompanham de muito perto estes casos e que lutam por combater este flagelo cada vez mais crescente.

Alice, Beatriz, Carla, Deolinda, Patrícia, Sónia e Telma legam-nos, na primeira pessoa, as suas histórias duras, sofridas e emotivas na esperança de “que mais ninguém sofra” e como exemplo para “que mais ninguém tenha medo de contar a sua” história.

O autor intercalou cada uma destas histórias com o testemunho de vários profissionais: da APAV (assessor técnico da direção), da Polícia de Segurança Pública, Polícia Judiciária (diretor), do Serviço Social (casa de abrigo), do Ministério Público, Polícia Judiciária (psicóloga forense), Comunicação Social (SIC), da APAV (psicóloga clínica). Para quem lê, a inclusão destes textos é importante, primeiro porque alivia a tensão e a dor sentidas na leitura de cada história, mas sobretudo porque são complementares e esclarecedores de todo o processo desenvolvido no apoio, na assistência e na defesa destas mulheres (e crianças) vítimas de violência.

Recomendo a leitura deste livro porque é importante que se leiam estas histórias reais. É importante denunciar quem sofre. É importante acusar quem agride física e psicologicamente. É importante acabar com este flagelo que matou “ mais de 500 mulheres nos últimos 15 anos” e como refere Daniel Contrim no prefácio "A violência doméstica é democrática. Atinge todos os sexos, todas as idades, todas as cores. De todo o lado. Em todo o lado" pelo que não podemos ignorar.

Se queremos que as nossas crianças vivam num mundo melhor, é urgente alterar esta forma de encarar a violência porque “a violência aprende-se” facilmente em casa, na escola, no recreio, na rua… “ A violência doméstica é responsabilidade de cada um de nós. Qualquer que seja o nosso papel na sociedade. A liberdade é natural. O amor é natural.” (p. 17, prefácio)




03 abril, 2022

𝑨çú𝒄𝒂𝒓 𝑸𝒖𝒆𝒊𝒎𝒂𝒅𝒐, de Avni Doshi

 

Autora: Avni Doshi
Título: Açúcar Queimado
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 286
Editora: D. Quixote
Edição: Agosto 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3321)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


“Mentiria se dissesse que a infelicidade da minha mãe nunca me deu prazer.
Sofri às mãos dela em criança e qualquer dor que, ulteriormente, ela sentisse me parecia um espécie de redenção, um reequilibrar do universo…"

Assim inicia o livro de Avni Doshi. Avni, filha de imigrantes indianos, nasceu nos Estados Unidos, em 1982. Hoje, vive no Dubai e oferece-nos uma história sobre a memória e sobre a relação complicada e instável entre uma filha e sua mãe.

É Antara, a narradora, que o profere e que, de imediato, dá o tom à narrativa. Percebemos que a relação não será pacífica e que talvez haja um acerto de contas entre mãe (Tara) e filha (Antara).

Mas como agir quando tudo se desmorona, quando se perde a capacidade de viver o presente, de recordar o passado, de prever o futuro? É neste desconcerto que Antara nos vai relatando a sua vida, na companhia intermitente da mãe.
Intercalando passado e presente, Antara descreve a sua relação com a mãe. Foca-se nas diferenças, no antagonismo existente entre ambas e na ilusão de se entenderem e de se amarem. Antara é a antítese de Tara.
“A minha mãe tem um nome lindo. Tara. Significa «estrela»… Ela chamou-me Antara «intimidade», não por adorar o nome, mas por se odiar a si própria. Queria que a vida da filha fosse o mais diferente possível da sua. Antara era, na realidade, an-Tara: Antara seria a negação da mãe.” (p. 263)

Numa escrita inteligente e directa com laivos de humor, ironia e sagacidade, vamos acompanhando a vida desta mulher (a vida que ela escolhe viver) feita de altos e baixos, de (des)entendimentos, de rejeição, de desespero, de rancor, mas também de superação, de procura de uma solução, e sobretudo de amor.

Para além da relação de amor e ódio entre mãe e filha que domina toda a narrativa, destaco ainda outros aspectos interessantes como, a problemática da doença, o respeito à identidade, a ambiguidade da maternidade e a diversidade cultural.
“ Nunca estive tão perto de a odiar como nesses anos de adolescência. Desejava muitas vezes que ela nunca tivesse nascido, sabendo que isso me aniquilaria também; percebia que estávamos profundamente ligadas uma à outra e que a destruição dela acarretaria irrevogavelmente a minha.” (p. 214)

No final da leitura, dilacerante, retenho o desespero de uma filha que tenta resgatar a memória de sua mãe como meio de afastar a proximidade da morte, ao ponto de colocar em risco o seu próprio casamento e a sua sanidade mental.
“Nunca me libertarei dela. Está-me entranhada na medula e nunca lhe serei imune.
(p. 285)