13 novembro, 2022

𝑴ã𝒆, 𝑫𝒐𝒄𝒆 𝑴𝒂𝒓, de João Pinto Coelho


Autor: João Pinto Coelho
Título: Mãe, Doce Mar
N.º de páginas: 198
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: ()



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


João Pinto Coelho é cada vez mais um dos meus autores de eleição. Já me (nos) habitou a romances fortes, emotivos, marcantes e com finais surpreendentes, pelo que peguei neste livro com uma enorme expectativa porque era o seu novo livro que aguardava com ansiedade e porque já havia ecos muito positivos e que anunciavam novidades, mudança de tema. Mais curiosa e expectante fiquei quando o ouvi no Café com Letras.

Em Mãe, Doce Mar, o autor transporta-nos para o seu mundo, para o seu íntimo. E percebemos, de imediato, logo na primeira frase, que não ficaremos indiferentes à nova narrativa de JPC.
“Tinha doze anos quando conheci a minha mãe – esta frase dá para tudo, até para abrir um romance.
E, no meu caso, é verdade.”

E, assim, com um aperto no coração partimos à descoberta de Noah, de Frank e de Patience. A cada uma destas personagens, o autor dedicou capítulos próprios, que nos revelam, na primeira pessoa, flashes importantes das suas vidas e que, apenas, no final encaixam de forma surpreendente e fascinante.
O autor é exímio na construção do seu enredo, quando pensamos que nos vai revelar algo, ei-lo que trava e que cria uma pausa que nos deixa suspensos e nos força a ler e a ler numa busca incessante e que se vai tornar avassaladora. Eis um exemplo: “Não quero ir mais longe, revelar se o seu [da mãe] abraço teve o aperto perfeito ou até se aquelas lágrimas foram um caudal de culpa ou outra coisa qualquer.” (p. 9)

Sendo um romance autobiográfico nem sempre é fácil discernir onde entra a ficção. Também não faço questão de o saber. Não é importante. O que interessa mesmo é absorver a história que nos é narrada, desfrutar do poder e da força da escrita, sentir o prazer de uma boa leitura.

João Pinto Coelho neste romance enveredou por um novo caminho, saiu da sua zona de conforto conquistada merecidamente com três romances fabulosos, e não desiludiu. Pelo contrário, veio confirmar que é detentor de uma escrita bela, trabalhada como se de uma escultura se tratasse. Uma escrita sincera, extremamente humana que revela dramas, sofrimento, solidão,… neste caso, distancia-se do sofrimento colectivo para se centrar no “eu”. E que bem o fez. Como soube usar a metáfora do mar, ora calmo e contemplativo, ora tempestuoso para evidenciar os estados de alma das personagens.

Para concluir, resta-me sossegar JPC e dizer-lhe que pode continuar a confiar nos seus leitores, que, atentos, saberão ler nas entrelinhas, mesmo naquilo que não foi dito e que as luzes ficaram acesas. Brilhantes. Flamantes.

08 novembro, 2022

𝑴𝒂𝒓𝒈𝒂𝒓𝒊𝒕𝒂 𝒆 𝒐 𝑴𝒆𝒔𝒕𝒓𝒆, de Mikhail Bulgákov

 


Autor: Mikhail Bulgákov
Título: Margarita e o Mestre
Tradutor: António Pescada
N.º de páginas: 448
Editora: Colecção Mil Folhas
Edição: Agosto 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1363)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Ao pesquisar um pouco sobre a vida e obra do autor para uma melhor compreensão do livro, ficou claro que Mikhail Bulgakov não era apoiante do regime, tornando-se mesmo um autor polémico e muito crítico. Sendo vítima de censura, Margarita e o Mestre levou dez anos a ser escrito porque o autor sabia que não seria aceite no regime estalinista.
Só vinte e sete anos depois da sua morte, o livro foi publicado e tornou-se num fenómeno literário. Há no livro uma referência clara a este aspecto o que confere à narrativa um caracter autobiográfico. O Mestre da narrativa é escritor e Margarita é a sua amada e principal mentora. “Ela tem uma opinião demasiado elevada sobre o romance que eu escrevi. (…) deixe-me vê-lo. Woland estendeu a mão. (…) Infelizmente, isso não me é possível – respondeu o Mestre – porque o queimei no fogão.
- Desculpe, mas não acredito – disse Woland – isso não pode ser. Os manuscritos não ardem. (pp. 322 -323)

Temos assim, um livro desconcertante, divertido, empolgante e satírico. As duas partes que o compõem transportam-nos para universos de puro divertimento, mas também de profunda reflexão. O sobrenatural entrelaça-se magistralmente à crítica social e política do regime ditatorial de Estaline.
O Bem e o Mal, simbolicamente referidos na epígrafe, extraída da famosa obra Fausto, de Goethe, dão o mote à narrativa e preparam o leitor para a grande metáfora da vida e da natureza humana com um toque de cariz religioso.
“Quem és tu, então?”
“Parte daquela força que eternamente deseja o mal e eternamente cria o bem.”

Para além da dualidade Bem e Mal, há outras que se interligam como o amor e o ódio, a honestidade e a mentira e que condimentam todo o enredo e o tornam numa obra genial.
Partindo de uma trama realista e representativa de um país em plena ditadura, Bulgakov cria um enredo louco e absurdo, com personagens fabulosas e diabólicas que coloca numa Moscovo vazia de vontades e opiniões próprias, oprimida e devastada.

Não pensem que a história é taciturna, bem pelo contrário, e aí reside o encanto do livro, é que para retratar uma época sombria, o autor revela uma imaginação espantosa e com recurso à alegoria cria cenas divertidas, inventa diálogos com um forte sentido de humor, por vezes negro, estabelece pactos “que só o diabo sabe”, representa uma sociedade em crise de valores onde o mal predominava. 

Margarita e o Mestre é indiscutivelmente uma obra-prima da literatura universal. Na minha opinião, faz jus à literatura russa do século XIX que tanto aprecio e que leio sempre com enorme prazer.


06 novembro, 2022

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 2/7/2004)





Mar


Mar, metade da minha alma é feita de maresia 
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, 
Que há no vasto clamor da maré cheia, 
Que nunca nenhum bem me satisfez. 
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia 
Mais fortes se levantam outra vez, 
Que após cada queda caminho para a vida, 
Por uma nova ilusão entontecida. 

E se vou dizendo aos astros o meu mal 
É porque também tu revoltado e teatral 
Fazes soar a tua dor pelas alturas. 
E se antes de tudo odeio e fujo 
O que é impuro, profano e sujo, 
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética




29 outubro, 2022

𝑼𝒎𝒂 𝑷𝒂𝒊𝒙ã𝒐 𝑺𝒊𝒎𝒑𝒍𝒆𝒔, de Annie Ernaux

 



Autora: Annie Ernaux
Título: Uma Paixão Simples
Tradutora: Tereza Coelho
N.º de páginas: 70
Editora: Livros do Brasil
Edição: Outubro 2020
Classificação: Novela
N.º de Registo: ()


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em Uma Paixão Simples, Annie Ernaux, uma mulher “culta, independente e divorciada e já com filhos adultos” expõe a paixão intensa e obsessiva que viveu durante cerca de dois anos com um homem casado e bem mais novo. É a própria que refere que o seu livro é autobiográfico e que “não quero explicar a minha paixão – isso acabaria por considera-la erro ou desordem a justificar – quero, simplesmente, expô-la.” (p. 27)

Annie Ernaux mantém, neste livro, aquilo que tão bem a caracteriza, isto é, relatar a sua vida. Tudo é pessoal, vivido, sentido. Aceitamos que assim seja. Não se trata de exibicionismo, trata-se de frontalidade, de honestidade, de coragem porque despida de preconceitos e de julgamentos.

Numa escrita inteligente, acutilante e desabrida transporta-nos para os universos literário e fílmico, tipicamente francês, de Marguerite Duras, de Simone Beauvoir, Jean-Luc Godard, entre outros.
Uma Paixão Simples é a história de uma paixão pura, inquieta, obsessiva pelo desejo e pela espera; pela presença e pela ausência de quem se ama apaixonada e perdidamente; pelo erotismo e pela solidão que ficou…

“A partir do mês de Setembro do ano passado, não fiz mais nada a não ser esperar um homem: esperar que ele me telefonasse e que viesse a minha casa. (…) Era principalmente quando falava que eu tinha a impressão de viver por impulso. (…) As únicas ações em que eu empenhava a minha vontade, o meu desejo, e algo que deve ser a inteligência humana (prever, avaliar os prós e os contras, as consequências) tinham, todas, uma relação com esse homem. (…) Eu não tinha nenhum futuro a não ser o próximo telefonema a marcar um encontro”. (pp. 9 - 11)

É um livro brevíssimo, mas intenso. Um livro avassalador porque conta sem rodeios a paixão de uma mulher por um homem mais novo e casado; porque expõe a sua ansiedade, a sua sexualidade; porque expõe a sua existência tumultuosa; porque revela a razão de escrever apesar de “O tempo da escrita não tem nada a ver com o da paixão. No entanto quando comecei a escrever, era para continuar nesse tempo (…) não escrevi um livro sobre ele, nem sequer sobre mim. Transformei, simplesmente, em palavras – que ele não vai ler, sem dúvida, que não lhe são destinadas – aquilo que a sua existência, só por si, me trouxe. Uma espécie de dádiva invertida.” (pp 55-70)

Recomendo os livros de Annie Ernaux. Recomendo muito este livro pela forma como a autora explora as suas emoções e como nos transporta para o lugar das personagens desafiando-nos a viver a nossa experiência através da sua história, da sua paixão tão despudoradamente revelada.




25 outubro, 2022

Um poema

 

                                                                           Foto minha


Sísifo


Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga

23 outubro, 2022

𝑶𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒅𝒆𝒗𝒐𝒓𝒂𝒓𝒂𝒎 𝒐 𝒎𝒆𝒖 𝒑𝒂𝒊, de Afonso Cruz

 

Autor: Afonso Cruz
Título: Os livros que devoraram o meu pai
N.º de páginas: 126
Editora: Caminho
Edição (14.ª): Julho 2021
Classificação: Novela
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Já tinha lido Os livros que devoraram o meu pai, mas não tinha ainda escrito sobre ele. Então decidi relê-lo para emitir uma opinião.

É um livro mágico que se lê num fôlego. É um livro sobre livros e sobre a paixão pela literatura que nos transporta para o mundo real de Elias Bonfim, nos conduz numa viagem fantástica repleta de referências literárias e de histórias encantadoras que se “escondem nas partes brancas das folhas, entre as letras dos livros, nos espaços entre as palavras.” (p.64) e nos mergulha nos universos literários de A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells; O Estranho caso do Dr. Jeckyl and Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; Crime e Castigo, de Dostoievski e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Elias Bonfim é o protagonista desta narrativa. Com 12 anos herda a biblioteca do pai e decide ler todos os livros, na ânsia de encontrar respostas para o desaparecimento misterioso do pai.
“Li, numa das minhas tardes passadas no sótão um conto de um escritor argentino chamado Borges, sobre um labirinto que é um deserto. Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca.” (p. 28)

Nos longos períodos de leitura, Elias entrega-se à história e entra em amena conversa com as suas personagens. Assim, vai de enredo em enredo e numa mistura do quotidiano e do metafórico, engendra reflexões sobre o bem, o mal, a culpa e o medo, sem contudo cair na moralização.
“(…) custa-me sair das histórias que tenho vivido. Tenho visto ficções que só a realidade é que supera. E tenho um cão, (…) na realidade é Mr. Prendick (…) Um cão muito inteligente, de pelo preto e capaz de ser um animal perfeitamente racional. Característica de muitos cães e poucos homens.” (p. 76)

Recomendo para ser devorado por qualquer leitor! Porque é um livro simples e emocionante em constante diálogo com outros livros e "Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias." (p.126)




22 outubro, 2022

𝒄𝒂𝒅𝒆𝒓𝒏𝒐 𝒂𝒇𝒆𝒈ã𝒐, de Alexandra Lucas Coelho

 


Autora: Alexandra Lucas Coelho
Título: caderno afegão
N.º de páginas: 326
Editora: Tinta-da-China
Edição (5.ª): Janeiro 2015
Classificação: Diário de Viagem
N.º de Registo: (3343)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Caderno afegão é um relato em directo, objectivo e incisivo sobre uma geografia da guerra, do sofrimento, da morte, da desigualdade, da miséria, mas também sobre as tradições de um país, sobre uma história multisecular.
“E qual é o problema maior de todos, inflação, desemprego, saúde, guerra? Resposta imediata, nesta roda de mulheres e um rapaz:
- Bombistas suicidas,” (p. 50)

Alexandra Lucas Coelho (ALC) viveu no Afeganistão, entre 31 de Maio e 28 de Junho de 2008, como jornalista do Jornal Público e da Rádio Difusão Portuguesa. Através do seu olhar limpo e atento aos detalhes vamos, diariamente, acompanhando os seus relatos de viagem pelo país, os seus retratos de vida, a sua interpretação subtil, mas sentida de um país em ruinas, em guerra.


A aparente facilidade com que deambula pelas cidades que escolheu visitar, não está isenta de riscos. Nestes momentos de maior perigo, o seu relato torna-se menos objectivo, mas rigoroso deixando apenas perceber o risco.
“Mandam-me esperar quieta. Não me posso mexer sem escolta. Nem pensar em tirar fotografias.
Presa em Bagram. 14h Bagram. Media Center.
Vão libertar-me após averiguações.” (pp. 290 – 291)

O contacto com as pessoas é real, o relato actualizado diariamente é concreto, é vivido é sentido. As suas emoções são perceptíveis quando descreve o cheiro das rosas, presente em todos os jardins de Cabul (“Nunca vi tão forte dedicação às flores. Parece estar acima de tudo e a tudo ser imune. No meio do trânsito mais tóxico há rotundas com rosas lindas em Cabul,”(p.71)), o banho das mulheres no Hamman, o chá numa roda de mulheres, as refeições nos vários hotéis, as mulheres vestidas de burqa azul, entre muitos outros aspectos.

ALC escreve como observa a realidade. Foca-se nos diferentes sectores da sociedade afegã e nos muitos estrangeiros (humanitários, contratados e jornalistas) de múltiplas origens que povoam o país. Foca-se, essencialmente, na situação das mulheres “que desaparecem dentro das burqas. Elas desaparecem mesmo. Aquele pedaço de pano azul mexe-se e de lá sai uma voz abafada,” (p. 216); nas mulheres que não sabem ler; nas mulheres que têm filhos “antes de estarem amadurecidas” (p. 202); nas mulheres que não são tratadas porque não podem “mostrar o corpo a um médico homem.” (p.200); nas mulheres que ficam enclausuradas em casa porque não podem sair sozinhas.
“Nesta casa, a filha mais nova ainda não parece ter idade para ser adulta, mas já tem idade para usar burqa. Com a burqa por cima não se vê que idade tem.” (p. 519)

Sou apreciadora da escrita da ALC. Preocupa-se em relatar o que observa. Informa. Descreve com rigor e objectividade. É directa, sucinta, sincera. De vez em quando, deslumbra-se um flash mais poético, mais emotivo “ O mundo era a sua [de Babur] ostra. Um permanente desfrute” (p. 66); “Ghuti põe a burqa, apagando a luz dos seus trajes verde-lima.” (p. 112); “É uma paisagem soberba, indomada.” (p. 154); “É muito escuro dentro de uma burqa.” (p. 163)

Recomendo.



17 outubro, 2022

Da minha janela...

(c) GR



Da minha janela avisto uma imensidão de telhas alaranjadas mesclada de paredes brancas.
Vejo, ainda, a casa do Gama grande, forte, vigilante.
Mas esta visão simples e objectiva não é sedutora!
O que me leva diariamente à minha janela, é outra imensidão!
Uma imensidão azul, prateada, brilhante!
Da minha janela, vivo o MAR!



 

15 outubro, 2022

Centenário de Agustina Bessa-Luís

 

                                           Foto Paulo Spranger/arquivo Global Imagens

Agustina Bessa-Luís nasceu  a 15 de Outubro de1922, em Vila Meã, Amarante e morreu  a 03 de junho de 2019, aos 96 anos, no Porto.

Destacou-se em 1954, com a publicação do romance A Sibila, que lhe valeu  vários prémios, entre os quais  os Prémios Camões e Vergílio Ferreira.

Recebeu igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra Os Meninos de Ouro, e, em 2001, por O Princípio da Incerteza I — Joia de Família.

Foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988.





14 outubro, 2022

𝑨 𝑽𝒊𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒅𝒆 𝑱𝒖𝒏𝒐, Pedro Almeida Maia

 


Autor: Pedro Almeida Maia
Título: A Viagem de Juno
N.º de páginas: 232
Editora: Edições Letras Lavadas
Edição: Março 2019
Classificação: Distopia
N.º de Registo: ( )



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A Viagem de Juno é uma incursão ao futuro. É uma viagem fantástica que ocorre no ano de 2049 e que apresenta vários desafios, à boa maneira de um thriller psicológico. Tendo como tema principal as alterações climáticas, que transformaram o mundo, vamos acompanhar Juno e o seu avô Lucas na resolução de um caso complexo.

Tratando-se de uma distopia, acaba por colocar questões muito pertinentes. A utilização da evolução tecnológica e científica pode ser exemplar, mas também perversa. O autor centra as personagens num cenário altamente avançado tecnologicamente: as viagens acontecem via Rede Tubular Subaquática “sinónimo de segurança, rapidez e pontualidade.” (p. 19); os homens são especializados e trabalham menos porque são as máquinas laboram; há sistemas de reconhecimento de voz; as informações surgem em hologramas; todos usam um pulsemob que faculta todo o tipo de informação, de dados e traduz automaticamente qualquer língua. Outra temática cativante do livro é a criopreservação. Acompanhamos a primeira reanimação criónica humana, a de Aron Hilmarsson, um geólogo islandês.

É um livro cativante pois desperta a curiosidade do leitor sobre aspectos importantes e preocupantes do mundo actual. O livro apresenta possibilidades que apesar de fictícias poderão muito bem acontecer já que a evolução tecnológica e científica é uma evidência.
Gostei de “antever” que o futuro será bem mais confortável, mais seguro, mais limpo; que Portugal será um país rico; que a educação terá “o papel da excelência” com um ensino excitante onde as salas de aula serão “acusticamente perfeitas, dispostas em semicírculo, apetrechadas
com tecnologia holográfica e painéis simuladores de ambiência. Com temperatura, humidade e luminosidade controladas, os professores apenas tinham de se preocupar em ensinar.” (p. 164)
Mesmo tratando-se de uma distopia, continuo a crer que se trata, neste aspecto, ainda de uma utopia.

Recomendo a leitura. É um livro fascinante! É um livro multidisciplinar, de aventura, de ficção científica que se insere num contexto histórico, filosófico, científico e tecnológico, que levanta questões ambientais, éticas e de segurança que nos fazem reflectir.


10 outubro, 2022

Inquietação

 


O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço


Álvaro de Campos

08 outubro, 2022

Um poema



Autopsicografia

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa





07 outubro, 2022

𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂𝒔 𝒅𝒆 𝑼𝒎 𝑻𝒆𝒎𝒑𝒐 𝑺ó, de Ana Zorrinho

 



Autora: Ana Zorrinho
Ilustradora: Raquel Ventura
Título: Histórias de Um Tempo Só
N.º de páginas: 53
Editora: ORO - Caleidoscópio
Edição: 2019
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3397 )



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Histórias de um Tempo Só são histórias de vida tecida, de momentos, de memórias. Micro histórias de gente trabalhadora, sofrida, enrugada, cansada, resignada. Dez histórias de gente “perdida na solidão, nos tempos que viveram…”; de gente vestida de negro, vincada pelas rugas; de gente à espera da morte; de gente só, triste, arquitecta de um “mundo que inventa”, de devaneios, de saudades.
Dez textos de um tempo “frio, cortante”, ventoso, escuro, silencioso, sem palavras. Um tempo indiferente à dor, à violência, à solidão, à velhice, à morte…

Assim que abri o livro no primeiro texto – Maria - e li a primeira frase “O Largo já não é o mesmo.”, senti, de imediato, que ia gostar. O universo realista de Manuel da Fonseca (“Antigamente, o Largo era o centro do mundo.”) assaltou-me à mente e fez-me sorrir. E foi com este espírito que parti à descoberta da escrita da Ana Zorrinho, também ela de Cerromaior.

Descobri uma escrita poética, marcante e extremamente sensível. Nem tudo é dito. Muito deve ser entendido nas entrelinhas, na força das palavras, no ritmo dos versos, nas frases curtas, compassadas que marcam o tempo que passa, que vincam as rugas, que engelham as mãos.
A escrita da Ana é muito visual, por vezes até, muito fotográfica. O real e o imaginado mesclam-se tão harmoniosamente que o leitor não os destrinça.

Mas não é tudo! Falta-me aludir às ilustrações da Raquel Ventura que enriquecem e complementam estas histórias. Com um traço vincado, a preto e branco, também elas põem a nu a dureza da vida, também elas tecem as marcas do tempo.


06 outubro, 2022

Annie Ernaux vence Prémio Nobel da Literatura 2022


Annie Ernaux, Foto Catherine Hélie © Editions Gallimard




Annie Ernaux, escritora francesa  de 82 anos, foi hoje galardoada com o Prémio Nobel da Literatura.
É a 17.ª mulher a ser distinguida com este galardão atribuído pela Academia Sueca e a França é pela 16.ª vez contemplada com  o prémio literário mais importante do mundo. 

Com esta escolha, o júri do Nobel quis recompensar «a coragem e a acuidade clínica com que ela revela as raízes, as distâncias e os constrangimentos colectivos da memória pessoal». A Academia Sueca premiou uma escritora que «examina constantemente, de diferentes ângulos, vidas marcadas por disparidades, nomeadamente: género, língua e classe social».
Como primeira reacção, a escritora considera esta distinção uma «grande honra» e uma «responsabilidade: «Testemunhar (...) uma forma de justiça, do justo, em relação ao mundo».

O jornal francês  Le Monde  afirmou que se trata de  «uma obra que utiliza a autobiografia apenas de forma a contar uma história, sensações e emoções comuns», que é «admirável pela sua constância», num esforço contínuo para «tentar elucidar a realidade, para alcançar a compreensão e expressão de uma verdade sobre a existência, de outra forma inacessível».

Em Portugal, estão traduzidas as obras Os Anos, Uma Paixão Simples e O Acontecimento, todos editados pela chancela Livros do Brasil 

Já li Os Anos e adorei. Partilho a opinião que escrevi na altura e que está publicada neste mesmo blogue. 

https://fragmentos-lte.blogspot.com/search/label/Annie%20Ernaux 



05 outubro, 2022

𝑻𝒖 é𝒔 𝒂 𝒎𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓 𝒅𝒂 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝒗𝒊𝒅𝒂, 𝒆𝒍𝒂 é 𝒂 𝒎𝒖𝒍𝒉𝒆𝒓 𝒅𝒐𝒔 𝒎𝒆𝒖𝒔 𝒔𝒐𝒏𝒉𝒐𝒔, de Pedro Brito e João Fazenda

 



Autor: Pedro Brito
Ilustrador: João Fazenda
Título: Tu és a mulher da minha vida, ela é a mulher dos meus sonhos
N.º de páginas: 
Editora: Edições Polvo
Edição (3.ª): Julho 2002
Classificação: Banda desenhada
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Esta obra veio parar-me às mãos por mero acaso. Posso afirmar que foi um acaso feliz já que se trata de uma pequena maravilha. Que marca um tempo actualíssimo (publicado em 2000) e um género artístico muito em voga.
Gostei da criação gráfica (desenhos e cores), de João Fazenda, que considero muito original. Gostei do argumento, de Pedro Brito, que se baseia nas relações humanas; na incapacidade de aceitar as diferenças do outro, na busca ambiciosa do sucesso profissional, na insegurança.
A história centra-se na vida de um casal que atravessa uma fase crítica em que os interesses de cada um tendem a afastar-se cada vez mais. Ambos criativos (ele, Tomás, escritor; ela, Elsa, pintora) manifestam alguma insatisfação profissional. Ele, sem inspiração para a escrita procura uma musa; ela, bajuladora, procura mecenas para a sua obra.
A história é simples, mas os diálogos extraordinários, o traço fino e o colorido (manchas vermelhas) das ilustrações tornam-na original e marcante.
É uma banda desenhada que recomendo. Quem folhear o livro, não ficará convencido porque as ilustrações, aparentemente, não são atractivas. Mas à medida que vamos lendo o argumento e observando as opções do traço e da cor, ficamos cada vez mais encantados.



28 setembro, 2022

𝑷𝒓𝒊𝒎𝒆𝒊𝒓𝒂 𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂 𝒅𝒐 𝑺𝒊𝒏𝒈𝒖𝒍𝒂𝒓, de Haruki Murakami

 


Autor: Haruki Murakami
Título: Primeira Pessoa do Singular
Tradutoras: Inês Rocha Silva e Maria João Lourenço
N.º de páginas: 171
Editora: Casa das Letras
Edição: Outubro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3386)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste livro composto por oito contos, o autor exibe uma escrita simples, elegante e poderosa.
Poderosa porque ludibria o leitor que, voluntariamente, se deixa levar, sem pretender distinguir as fronteiras do real e da ficção. Não há necessidade de o fazer!

Escritos na primeira pessoa, partimos do princípio e assumimos que tudo lhe aconteceu, que tudo viveu. E aí reside o encanto da sua escrita. O autor transforma em literatura factos banais de uma vida passada. As suas histórias, sobre namoradas de adolescência, basebol, poesia, música, muita música, tradições nipónicas, e até sobre um macaco erudito e massagista, elevam-nos, por vezes, a um patamar de surrealismo onde realidade, ficção e sonho se fundem harmoniosamente.

Gostei especialmente de dois contos: “Charlie Parker Plays Bossa Nova” e “Carnaval”. Há magia, nestes contos. É incrível como o autor discorre sobre a capacidade de criar, de ficionar (“Charlie Paker visitou-me em sonhos a fim de me agradecer – até aí lembrava-me – por lhe ter dado oportunidade, em anos que já lá iam, de tocar bossa nova. (…) Dá para acreditar? É bom que acreditem, Porque aconteceu mesmo.” (p.53)) e sobre a capacidade fascinante de encontrar beleza numa mulher feia (“ Ela era, provavelmente, a mulher mais feia que alguma vez conheci. (…) Quando vi F* pela primeira vez, achei-a logo incrivelmente feia. Porém, como era tão sorridente e simpática, senti-me envergonhado por me assaltar um sentimentos desta estirpe. “ (pp. 117 e 120)).

Recomendo. Temos uma leitura agradável, moderna com pinceladas da tradição nipónica e muitas referências culturais que nos permitem conhecer melhor Murakami.

27 setembro, 2022

Silêncios!

 

   
                                                            @Man Ray – An Other Body

(...)

sabes por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado o teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
(...)


Al Berto, O Medo - Carta da Flor do Sol (a meu amigo)


25 setembro, 2022

𝑨 𝑰𝒍𝒉𝒂, de Sándor Márai

 


Autor: Sándor Márai
Título: A Ilha
Tradutora: Piroska Felkai
N.º de páginas: 155
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Julho 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Emp)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em A Ilha, Sándor Márai apresenta-nos um texto conciso, intenso e perturbador que narra a dupla viagem do protagonista, Viktor Henrik Askenasi. A real, de Paris a uma estância balnear do Adriático e a interna, a dos questionamentos e reflexões que culmina no encontro de Askenasi com o destino.

O autor é exímio na descrição minuciosa dos estados de alma, dos pensamentos e das reflexões que conduzem o ser humano ao mais profundo do seu íntimo. A sua escrita torna-se visceral, de tal forma que inculca ao leitor as angústias, as dúvidas, bem como as decisões de Askenasi. De forma intensa e marcante, o leitor vive a mesma ansiedade na busca incessante da felicidade e questiona a felicidade temporária, previsível, rotineira e a sensação de vazio.

"Recordava-se feliz do trabalho feito, tinha cumprido praticamente todas as suas obrigações, tinha vivido conforme as exigências das circunstâncias e sociedade, apenas depois tinha seguido uma vida distinta, orientando-se com os instrumentos do corpo, e agora não tinha mais nada para fazer do que procurar a resposta à pergunta (…) Porque é que não conseguia encontrar satisfação? Ainda faltava dar resposta a essa pergunta. Considerou humilhante ter sucumbido de uma forma tão ridícula, e agora tinha que vaguear pelo mundo à procura da resposta noutras mulheres, tentar descobrir respostas parciais nos livros, perguntar a outros homens. «De pouco me serviram os métodos», pensou maldisposto.” (p. 103)

Askenasi aos 48 anos atravessa uma crise. Aconselhado por amigos e colegas, decide empreender uma viagem para recuperar e sobretudo encontrar as respostas às dúvidas que o assolam e que o tornam insatisfeito, ansioso e irritado. Cansou-se da mulher Anna;
Fugiu de Eliz a amante sensual e duvidosa que lhe devolveu a liberdade e a felicidade perdida com o casamento e o levou a romper com as regras estabelecidas da sociedade burguesa e conservadora em que se movimentava.

“Lembrou-se de que amara muito Anna, de tudo o que tinham feito juntos nos primeiros anos de casamento, naquele quarto quando ainda «eram desconhecidos um para o outro» e existia um certo mistério entre eles. Quando desapareceu o mistério começou o pudor.” (p. 78);

"Já levava três meses que Askenasi vivia com a mulher desconhecida [Eliz], quando começou a notar com surpresa que a felicidade ou o prazer, ou seja, aquele estado anímico extraordinário que se costuma considerar como a única recompensa pelos sofrimentos terrestres, na realidade era muito pouco parecido com aquilo que havia imaginado. O que estava vivendo era sem dúvida felicidade, mas às vezes parecia-lhe que era um estado incómodo, complexo e, no fim de contas, pouco agradável. (…) Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, com uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora.” (p. 81)

Como escreveu Saramago “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”, também Askenasi precisou de encontrar a sua ilha para perceber a sua solidão e entender o seu destino.

Recomendo! É um livro fabuloso!


Silêncios!

 




Deitada na praia, fecho os olhos e recordo tudo aquilo que ainda não vi.


in Azul-Instantâneo, Pedro Vala 



24 setembro, 2022

𝑶𝒔 𝑫𝒆𝒛 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝑺𝒂𝒏𝒕𝒊𝒂𝒈𝒐 𝑩𝒐𝒄𝒄𝒂𝒏𝒆𝒈𝒓𝒂, de Pedro Marta Santos


Autor: Pedro Marta Santos
Título: Os Dez Livros de Santiago Boccanegra
N.º de páginas: 494
Editora: Teorema
Edição: Fevereiro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3330)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Começo por afirmar que não foi uma leitura fácil sobretudo no início. É uma leitura que requer concentração e alguma lentidão. Sendo o autor guionista, a construção deste livro, isto é, destes dez livros, é feita de momentos, de avanços e de recuos no tempo, de histórias cruzadas, de personagens que saltitam de livro para livro, como se de um filme se tratasse. Parece alucinante, e assim é de facto! Por vezes, perdemo-nos e já não sabemos quem é quem, nem onde se encontra, nem mesmo em que ano, mas Santiago, a personagem comum a todos os livros, orienta-nos habilmente pelos diferentes caminhos e tempos do livro.

Como já referi, e como o próprio título indica, o livro contém dez livros e a cada um está associado o nome de uma personagem, à excepção do último. Assim dito, parece um enredo simples, linear em que cada livro trataria da história de uma personagem. Nada disso, desenganem-se! Há uma deambulação constante de personagens, há uma convergência de escolhas, de peripécias, de laços familiares, há um saltitar constante no tempo, ora vamos para trás, ora voltamos para a frente.

São cerca de 500 páginas de desassossego, de entusiasmo, de encantamento, mas também de repulsa, de dor, de redenção. Há imensas referências históricas e culturais; há descrições belíssimas de pinturas, de obras de arte, de livros, de momentos musicais que seduzem e nos agarram até à próxima cena, à próxima página. Há momentos maravilhosos, apoteóticos e apocalípticos (como o final) que nos surpreendem e, quase, nos parecem reais. Considero que quando isto acontece, quando realidade e fantasia se unem harmoniosamente, é porque a escrita é fascinante. Em literatura, não me preocupo em destrinçar o real da fantasia e o verídico do ficcionado. Deleito-me em apreciar a narrativa, em si, a qualidade da escrita e a capacidade de apresentar uma estrutura diferente. Foi o que aconteceu neste livro. Fiquei completa e agradavelmente cativada e arrebatada.


11 setembro, 2022

𝑫𝒐 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝑫𝒆𝒎ó𝒏𝒊𝒐𝒔, de Gabriel García Márquez



Autor: Gabriel García Márquez
Título: Do Amor e Outros Demónios
Tradutora: Maria do Carmo Abreu
N.º de páginas: 180
Editora: D. Quixote
Edição (10.ª): Agosto 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3301)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A prosa de Gabriel García Márquez (GGM) continua a encantar-me e a surpreender-me pelo conteúdo. O enredo surge de um acontecimento testemunhado pelo autor, na altura jovem repórter, como ele próprio nos informa no prefácio. À procura de uma notícia, GGM, no dia 26 de Outubro de 1949, vai assistir à desocupação das criptas funerárias do antigo convento de Santa Clara que ia ser vendido. Por sorte, para nós leitores, “No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, lá estava a notícia. (…) uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora de cripta” (p. 13)

Este acontecimento lembra-lhe uma das várias lendas que a sua avó lhe contava. Esta conta a história de “uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe pelos seus muitos milagres.” (pp. 13 e 14)

Assim, ao avistar os cabelos espalhados fora da cripta, GCM lembrou-se da avó e da lenda e imaginando que poderia muito bem ser a mesma criança, escreveu a sua notícia como lhe tinha sido solicitado e projectou este livro.

Não se trata de uma história feliz, pelo contrário é triste e angustiante. Desta vez, o Amor em figura de Demónio vai destruir todo o tipo de relação existente entre as várias personagens. E Sierva Maria, a protagonista, é a maior vítima. Sendo uma criança diferente, incompreendida e temida vai ser sujeita a exorcismos por se considerar que está possuída pelo Demónio.
Bem à maneira do realismo mágico que GGM tão bem popularizou e desenvolveu, temos uma história de amor, alimentada pelo desejo, repleta de mistérios, feitiços, sacrilégios, crenças. Ingredientes propícios à movimentação e actuação do Santo Ofício.
GGM, num misto de realidade e ficção, serve-se da possessão demoníaca, do sobrenatural para abordar temas como a religião, a superstição, a loucura, a diferença de culturas (negros, índios e espanhóis), a desigualdade e a repressão criadas e evidenciadas pela colonização.

Recomendo, claro! É um livro que levanta questões importantes do passado, do nosso imaginário, mas muitas ainda bem actuais e que merecem reflexão.


04 setembro, 2022

𝑬𝒖 𝑽𝒐𝒖, 𝑻𝒖 𝑽𝒂𝒊𝒔, 𝑬𝒍𝒆 𝑽𝒂𝒊, Jenny Erpenbeck

 


Autora: Jenny Erpenbeck
Título: Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai
Tradutora: Ana Falcão Bastos
N.º de páginas: 268
Editora: relógio d'Água
Edição: Novembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3154)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai é um livro pleno de interpelações sobre a forma como o Ocidente olha, recebe e trata os refugiados africanos.

A narrativa centra-se na figura do académico Richard, recentemente reformado e viúvo, que não sabe muito bem como ocupar os seus dias vazios, como passar o tempo. Até que um dia, sentado à mesa, ouve na televisão que “dez homens, ao que parece refugiados, reuniram-se e iniciaram uma greve de fome” (p. 24).
Richard culpabiliza-se por não ter visto estes homens e percebe que “Falar do que é verdadeiramente o tempo é uma coisa que provavelmente pode fazer melhor com aqueles que caíram fora dele. Ou, se se preferir, que estão encerrados nele.” (pp. 41 e 42)

Para saber quem são estes homens e o que se passa na Alexanderplatz bem no centro de Berlim, Richard lê sobre o tema dos refugiados e decide conversar com eles. Para isso, preparou uma série de questões, porque “é importante fazer as perguntas certas.”

Ao longo da narrativa, mergulhamos com Richard no mundo desses homens: o presente, às voltas com a vida, de um lado para o outro em busca de uma identidade, de um acolhimento; o passado, cruel, violento, de perdas e guerra.
Richard fala com eles em inglês ou italiano e um pouco em alemão com aqueles que vão aprendendo a língua nas aulas que lhes são facultadas. É da aprendizagem do verbo ir, numa dessas aulas, que surge o título do livro.
Numa escrita limpa, clara e intensa, a narrativa flui e tomamos conhecimento do grave problema que assola a Europa, e percebemos como é urgente encontrar uma resposta para esta crise política e humanitária.

A abordagem ao tema é clara e objectiva, não há acusações directas, não há “parti-pris”, não há opiniões pré-concebidas. Contudo, estamos perante uma denúncia política, uma tragédia humanitária que urge resolver.

Gostei da relação estabelecida entre a realidade dura e cruel dos refugiados e a ficção criada pelo protagonista. Sendo um (ex)professor universitário imerso nos livros e nos pensamentos, Richard vai atribuir aos homens que vai entrevistando nomes como Tristão, Ulisses ou Apolo. Assim, ele estabelece um paralelo com figuras e episódios da literatura clássica, aspectos do mundo que ele domina e que o orientam na violenta caminhada destes homens sem, no entanto, satisfazerem as suas dúvidas nem darem resposta à pergunta chave deste romance “Para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há de ir?”




30 agosto, 2022

𝑴𝒂𝒅𝒂𝒎𝒆 𝑩𝒐𝒗𝒂𝒓𝒚 - 𝑴œ𝒖𝒓𝒔 𝒅𝒆 𝑷𝒓𝒐𝒗𝒆𝒏𝒄𝒆, de Gustave Flaubert

 



Autor: Gustave Flaubert
Título: Madame Bovary - Mœurs de Provence
N.º de páginas:403
Editora: Le Livre National
Edição: 4.ème trimestre 1977
Classificação: Romance
N.º de Registo: (139)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Há livros que merecem ser relidos e Madame Bovary é um deles. A oportunidade surgiu, naturalmente, depois da releitura de O Primo Basílio, de Eça de Queirós e de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Pelo que parti para esta leitura com elevadíssimas espectativas. Conhecendo o enredo, dediquei-me a certos detalhes que me permitiram confrontar a obra com as duas citadas.
Posso afirmar que saí marcada e maravilhada com a qualidade da escrita e da descrição quer das personagens quer dos ambientes. Emma Bovary não foi, nesta leitura, a descoberta mais importante, já sabia, tal como a Luísa do Eça, que era bela e sedutora, dada a leituras de cariz idílico e insatisfeita com a vida entediante que o marido lhe oferecia, carente de grandes paixões como as que vivia nos livros, ousada, adúltera, e levada a excessos de compras para se oferecer um luxo que à partida lhe estava negado.
Emma não se deixa cair na “vidinha” simples e triste, luta pelos seus ideais, mesmo que sejam inalcançáveis porque vive no mundo das ilusões adquiridas na ficção. E nisso, Flaubert ao dar-lhe esse protagonismo, contraria o exemplo das mulheres/heroínas submissas que povoavam os romances da época que ela lia.

Madame Bovary é uma crítica fortíssima aos comportamentos da burguesia. Critica a vida fútil e a ociosidade das mulheres, a idealização do amor, a práctica religiosa, o oportunismo. Ridiculariza o comportamento dos amantes. Apresenta o adultério como forma de apimentar a vida e o suicídio como uma resolução forte e corajosa.

Gustave Flaubert levou cinco anos a escrever a sua obra-prima. Publicada, primeiro, em fascículos num jornal, foi levada a tribunal por ser considerada imoral. No julgamento, foi-lhe perguntado quem era “Madame Bovary”, a protagonista do romance, ao que ele respondeu “Madame Bovary, c’est moi!”. Felizmente, para nós leitores, foi absolvido e, o seu livro pôde ser publicado (1857).
Recomendo uma leitura lenta que permita absorver os detalhes e o encanto da escrita do autor. Sendo uma obra-prima do realismo, é evidente que tem muitas descrições que alguns leitores poderão considerar excessivas e cansativas. Eu adorei.

 


29 agosto, 2022

Silêncios|

 


Silêncio


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz


25 agosto, 2022

𝑼𝒏𝒆 𝒂𝒏𝒏é𝒆 𝒄𝒉𝒆𝒛 𝒍𝒆𝒔 𝑭𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒊𝒔, de Fouad Laroui

 



Autor: Fouad Laroui
Título: Une année chez les Français
N.º de páginas:287
Editora: Julliard  (Pocket)
Edição: Agosto 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Empréstimo)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Une année chez les Français narra a história de Mehdi Khatib, em grande parte inspirada na adolescência do autor.
Mehdi é uma criança que vive em Beni-Mellal, uma pequena vila isolada de Marrocos. Apesar de viver com dificuldades, Mehdi é inteligente e é um apaixonado pela leitura, facto que lhe proporcionará uma bolsa de estudo, que o levará a frequentar, como interno, o elitista e prestigiado liceu francês (Lycée Lyautey) em Casablanca. O liceu está reservado aos filhos de altos funcionários e famílias influentes do regime marroquino, bem como aos filhos de franceses e estrangeiros com cargos importantes em Marrocos.

No liceu, Mehdi vai sofrer várias vicissitudes quer ao nível da comunicação quer ao nível das normas de convivialidade quer ainda ao nível de comportamentos para com os colegas, professores e assistentes. O primeiro embate vai ser conhecer as normas do liceu e os hábitos dos seus frequentadores. Oriundo de um meio social pobre, não tem acesso ao luxo e aos hábitos culturais, linguísticos e sociais dos restantes colegas. Apesar das suas origens, por exemplo, em 1969, ano em que decorre a acção, desconhece a existência da televisão e conhece muito mal o uso do telefone, Mehdi acaba por se tornar um dos melhores alunos.


A narrativa constrói-se alicerçada nas diferenças culturais e linguísticas. Mehdi que na escola apenas falava francês e tudo o que lia era nesta língua, sabe de cor frases/excertos de livros clássicos como La Fontaine, La Comtesse de Ségur, Jules Verne, … (o que fará os jovens franceses corarem de vergonha) sem contudo saber o significado de uma grande parte das palavras, mas não conhece expressões do dia-a-dia, não conhece nada de calão (muito usado pelos colegas e pelos assistentes) e também não domina o árabe.
É então nesta conjectura que alguns episódios hilariantes se vão desenrolar. O nosso pequeno Mehdi quando se encontra numa situação delicada, e foram imensas, cria um mundo de fantasia baseado nas obras lidas, tenta desenvencilhar-se o melhor que pode e, muitas vezes, adia a resposta para não revelar a verdadeira origem da sua família.

Esta maneira de ser engraçado, aplicado (sempre a ler e a estudar) e espontâneo vai causar a admiração e a aceitação de todos ao ponto de ser convidado a passar os fins-de-semana em casa de um colega francês, Denis Berger. É um mundo completamente diferente que vai descobrir.

O choque cultural presente na obra, está muitíssimo bem descrito com muito sentido de humor, muita ironia e delicadeza. As personagens estão fabulosamente caracterizadas e os episódios gravitam à volta de mal-entendidos provocados pela incompreensão linguística ou pelo desconhecimento de alguns hábitos comportamentais.

Não conhecendo o autor, é a primeira obra que leio, fiquei fascinada pela sua escrita e pela paixão que demonstra ter pela língua e pela literatura (há várias referências literárias). Fiquei com curiosidade e vontade de ler outras obras do autor.
Recomendo a leitura, se possível em francês, desta história divertida, apaixonante e ternurenta. Receio que a tradução perca o encanto e o efeito causados pelos jogos de palavras.





23 agosto, 2022

𝑨𝒔 𝑽𝒊𝒅𝒂𝒔 𝒅𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de Pedro Mexia

 



Autor: Pedro Mexia
Título: As Vidas dos Outros
N.º de páginas:206
Editora: Tinta da China
Edição: Outubro 2010
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3325)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Este livro reúne 58 crónicas publicadas desde 2007 a 2010 no jornal o Público. São textos curtos que se lêem muito bem e que revelam a erudição, a inteligência, as referências e talvez as preferências do autor. São pequenas conversas delicadas e cultas que o autor partilha com o leitor, como refere Rui Ramos no prefácio “ (…) Ao contrário do especialista, o erudito [Pedro Mexia] não nos quer convencer: quer passar o tempo connosco, discorrer, perder-se, deambular, não ir a lado nenhum, como em qualquer conversa.” (p. 12)

Nestas crónicas são abordadas matérias muito diversas. Pedro Mexia escreve sobre a vida de escritores, actores/actrizes, cineastas, músicos, pintores, fotógrafos, sobre arte, livros, religião, filosofia e outras áreas e saberes. Não há um fio condutor, nem uma sequência lógica, “Os labirintos só têm graça quando nos perdemos neles.” (p. 11). Há uma escolha aleatória que certamente responde aos interesses do autor, ou quiçá a algum acontecimento ocorrido na época, aquando da escrita da crónica.

Ao iniciar com Epicuro e ao discorrer sobre a felicidade “(…) estão na origem de uma vida feliz, mas o raciocínio sóbrio, que procura as causas de toda a escolha e toda a rejeição e afasta as opiniões através das quais a maior perturbação se apodera da alma.” (p. 19), é, na minha modesta opinião, uma escolha feliz (ressalvo o pleonasmo) na medida em que introduz o pensamento e a índole do autor na escolha dos assuntos (das vidas) que apresenta. Percebe-se que há conhecimento (muito) e prazer na escrita dos seus textos. Diz apenas o essencial, mas o suficiente para captarmos a sua preferência, a sua escolha.

O interessante é que ao lermos estes textos, para além de aprendermos sobre o visado ou sobre a matéria em foco (e confesso que aprendi muito), vamos também descobrindo um pouco da vida do próprio autor. Pelo menos é a minha percepção desta leitura.

Para concluir, transcrevo um excerto da crónica “Alteza Sereníssima, sobre Grace Kelly. É uma das minhas preferidas e também acho que sua alteza sereníssima será uma das figuras preferidas do autor na medida em que a sua maneira de ser (subtileza) se adequa à premissa da actriz/princesa.
“ Grace Kelly será sempre a mulher ideal dos homens que apreciam a subtileza. «Não gosto de nada que seja óbvio, tanto no sexo, como na maquilhagem ou na roupa. Gosto mais de coisas subtis, que deixam espaço à imaginação», disse Grace, e é todo um programa. (…) A beleza é obviamente um dom da natureza, mas o gosto é uma conquista cultural.” (pp.156-159).