29 agosto, 2024

𝑼𝒎 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐, Imre Kertész

 

Autor: Imre Kertész
Título: Um Outro 
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 97
Editora: Editorial Presença
Edição: Junho 2009
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3613)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Um outro é ao mesmo tempo o diário de um escritor em busca de uma identidade criativa e existencial; a crónica de um país também em busca de uma orientação; um conjunto de observações sobre o seu percurso literário, a civilização europeia, e o seu país, a Hungria; notas para futuros romances; lembretes de memórias fugazes de algumas viagens em trabalho; lembranças dos campos de concentração (esteve em dois); reflexões sobre o anti-semitismo, o sentimento nacional, o extermínio, a verdade e a mentira.

Após ter sobrevivido ao Holocausto, Kertész foi basicamente condenado ao silêncio durante quarenta anos pelo partido comunista que na altura acedeu ao poder, tendo os seus livros sido ignorados. Com a queda do muro de Berlim, deixa o seu país e, e vai viver para a capital alemã.
“Abriu-se, assim, a porta da cela em que me fecharam durante quarenta anos, e pode dar-se que seja bastante para me perturbar. Não se pode viver a liberdade onde se viveu o cativeiro”. (p. 10)

Por isso, neste livro Kertész está “numa relação de reciprocidade com a minha (sua) vida. Esta relação tem um nome: sujeição – Se fosse só isso, até ia bem. Mas que fragmento desta vida estilhaçada diz “eu”?” (p. 13) . É um autor em busca de um outro “eu”, isto é, em busca da sua identidade e da compreensão da sua realidade. “Eu, um outro” é um verso de Rimbaud (Je, est un autre) que o autor cita várias vezes ao longo dos seus textos e consta também como epígrafe. Aliás, as quatro epígrafes selecionadas remetem claramente para a problemática do “Eu”.

Ao longo das páginas, os seus apontamentos, apresentados como um caleidoscópio, reflectem claramente a ideia de alteridade. O autor apresenta-nos o seu entendimento do mundo quer através das suas vivências presentes, das suas memórias quer ainda da sua natureza criativa, questionando-se sempre sobre quem é, o que foi a sua vida (“o que é a vida perfeita?”), as suas obras, a sua qualidade como escritor.

Kertész foi considerado de forma crítica por alguns como sendo o “autor do Holocausto”. É um facto que os seus livros desenvolvem essa temática, mas vão muito para além disso. Como já referi, e neste livro fica bem claro, a sua preocupação é o questionamento das ideologias, das ditaduras, do horror, da sua interpretação do mundo.

Posso concluir que Kertész é um homem amargurado e sofredor que vive em constante questionamento, que duvida do que pensa, que não compreende a sua vida, que se autocritica (“ o eu estranho enraizado em mim o moralista que se autojustifica, o criador de fábulas mentiroso.” (p. 75)), que não se interessa pelo ser que é, que não sabe quem é. Mas uma coisa é certa e é ele próprio que a confessa “ tenho uma só identidade, a identidade da escrita.” (p. 46)
Felizmente, que esta identidade existe, pois só assim podemos desfrutar da sua obra. Não é uma leitura fácil. O texto não é cronológico, encontra-se entrecortado (em jeito de apontamentos) e saltita no tempo e nos espaços.

Vou procurar outros livros do autor.



Traz outro amigo também

 

                                                             Ilustração de Rachel Caiano



Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras

Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
Em toda a parte todo o mundo tem
Em toda a parte todo o mundo tem
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

Zeca Afonso


27 agosto, 2024

𝑶 𝑰𝒕𝒂𝒍𝒊𝒂𝒏𝒐, Arturo Pérez-Reverte



Autor: Arturo Pérez-Reverte
Título: O Italiano
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 365
Editora: Asa
Edição: Agosto 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3513)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



É o terceiro livro que leio de Arturo Pérez-Reverte e estou completamente rendida à sua escrita. Ora apreciem:
“ O dia languidesce aprazível, rotineiro: o céu torna-se violáceo sobre os terraços das casas e a luz crepuscular alonga e estende as sombras.” (p. 37)

Gosto da lucidez como narra os factos. Este romance é baseado em acontecimentos reais que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial na baía de Algeciras e Gibraltar, em 1942 – 1943. Na baía, um pequeno grupo de mergulhadores de combate italianos altamente especializados fazem explodir e afundar navios dos países aliados.
O Italiano é assim um romance de estratégia, de espionagem, de sabotagem, de guerra, mas também de amor, de uma paixão contida.

Por norma, o autor oferece-nos narrativas cativantes com contornos insólitos e com personagens de carácter, e esta não é excepção.
Pérez-Reverte executa na perfeição a alternância entre o passado (os acontecimentos) e o presente (a escrita), o ritmo da narrativa, as marcas do tempo, os silêncios que indiciam a tensão e a quietude das ações quer debaixo de água quer nos diálogos entre as personagens. O domínio da sua escrita, que se intensifica nas descrições, é fabuloso; a elegância como cala alguns dados sobre os protagonistas, a imparcialidade como descreve os factos, mais centrada nas acções em si do que no que elas representam; o reconhecimento do mérito e da honra do adversário atribuem a este romance uma intensidade e uma beleza fascinantes.

Pérez-Reverte ao ser personagem no enredo dá mais credibilidade à história. Como jornalista e escritor, tal como na sua vida, acrescenta informação sem atrapalhar a acção dos protagonistas. “Chegámos a um ponto desta narrativa em que os factos cedem o lugar à imaginação: um espaço em branco que, apesar da sua importância no que aconteceu mais tarde, só pode ser preenchido com suposições. E algumas delas são, inclusivamente, contraditórias. ” (p. 129)
A complexa relação que se estabelece entre os dois protagonistas Teseo (o italiano) e Elena (a livreira) é narrada de forma sublime, com uma enorme delicadeza.
“ O mar está calmo e só se ouve o rumor suave da água que lambe com suavidade a areia, onde um reflexo ténue assinala o contorno da margem. (…)
O italiano.
É isto o que realmente ela tem na cabeça.
Lombardo, Teseo, recorda; e por alguma estranha razão estremece ao fazê-lo, ao ponto de, sentada no selim da bicicleta, afastar as mãos do guiador e cruzar os braços como se de repente sentisse frio.” (p. 39)

Ao longo da narrativa, o leitor acompanha silenciosamente os mergulhadores e, intimamente, deseja que as suas acções obtenham sucesso; anseia que a paixão entre Elena e Teseo se cumpra e sobreviva à guerra; testemunha e admira a coragem e a frieza de Elena perante a sua iniciativa.

Estamos perante uma obra magistral, uma intensa “história de amor, mar e guerra” que de forma equilibrada mistura ficção e realidade e desperta no leitor a curiosidade sobre estes heróis anónimos da Segunda Guerra Mundial que não têm sido muito divulgados.

Recomendo este e todos os livros do autor, mesmo os que ainda não li, pois fico com a certeza de que não desiludirá.




26 agosto, 2024

Tertúlia com Rodrigo Guedes de Carvalho sobre o livro As Cinco Mães de Serafim

 

Foto Centro de Artes | Município de Sines


Um momento de tertúlia para falar de livros é sempre agradável. Mas quando contamos com a presença do escritor, torna-se bem mais interessante e enriquecedor. Perceber o porquê daquele enredo e das personagens, ouvir falar do processo criativo eleva-nos a outro patamar no entendimento da obra.

Foi muito bom. è importante que se dê continuidade a este tipo de iniciativas que promovem a leitura e a partilha de opiniões.

A minha opinião sobre o livro está publicada mais abaixo. Aceder aqui



25 agosto, 2024

Espectáculo RUGE

 

                                 Foto Centro de Artes | Município de Sines (divulgação)

                   

Poemas e canções pelas vozes de Rodrigo Guedes Carvalho e Daniela Onís e  música de Ruben Alves. Auditório Centro de Artes de Sines, 24 agosto 2024, 22 horas. 

Mais de hora e meia de um espectáculo bem concebido, inteligente, emotivo e oportuno que nos convoca a sentir as palavras ditas e cantadas com raiva, paixão, ironia e sentido de humor e  nos convida a reflectir e a RUGIR.


                                   Foto de Dina Rito - Centro de Artes | Município de Sines 


21 agosto, 2024

𝑪𝒂𝒓𝒖𝒏𝒄𝒉𝒐, de Leyla Martínez

 


Autora: Layla Martínez
Título: Caruncho
Tradutor: Guilherme Pires
N.º de páginas: 122
Editora: Antígona
Edição: Março 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3579)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Caruncho é uma história que entretece ficção e realidade muito condimentada de sobrenatural, “o combustível da raiva e o motor da fuga possível à musculada mão de aço patriarcal”. Narrada a duas vozes, a avó (a velha) e a neta, tem ainda como protagonista a casa onde vivem.

“Quando passei a soleira da porta, a casa precipitou-se sobre mim. Este monte de tijolos e sujidade faz sempre a mesma coisa, lança-se sobre qualquer pessoa que atravesse a porta e retorce-lhe as entranhas até a deixar sem fôlego.”

Este é o início da narrativa que prende e assusta de imediato o leitor. Que casa é esta? Que personagens vivem nesta casa?
Uma casa assombrada, suja, carunchosa que corrói e destrói. Uma “casa que range, que treme, que se encolhe e agiganta (…) que suspende a soberba dos poderosos e a violência arcaica, porém contemporânea, contra as mulheres”, que guarda sombras e segredos. Uma casa visitada por “anjos perigosos e pouco inocentes”, santos e vozes e lamentos. Uma casa que mantém cativas as mulheres que nela permanecem e por inerência o leitor que se deixa conduzir pela trama e da qual vai sair maravilhosamente perturbado. 
Fará isto sentido? Faz, faz todo o sentido porque, afinal, é da guerra civil espanhola, do período negro do franquismo, de uma Espanha agreste, traumatizada pela violência e pela opressão que a autora nos fala. Só que fá-lo de uma forma sublime. Recorre a fantasmas, bruxas, santos, anjos, maldições para retratar os traumas geracionais, o ódio, o desejo de vingança, a ânsia de punir os opressores.
Na aldeia onde vivem, a avó e a neta são evitadas e temidas pelos habitantes. São bruxas.

Assim, neste romance, as duas mulheres vivem uma pesada herança de memórias dolorosas da qual não conseguem escapar e que, como o caruncho, as corrói e destrói. A raiva, o ódio e o horror patentes na casa, nas paredes, nas portas, nos armários surgem num crescendo ao longo da narrativa e reflectem o ambiente de desespero e de sofrimento de décadas de violência e opressão.

A cada página, o leitor vive intensamente as emoções das personagens e com elas celebra raivosamente a força e a garra pela superação das injustiças sociais e de género, a consumação da vingança, a aniquilação dos poderosos.

Recomendo a leitura e fico à espera do próximo livro de Leyla Martínez.



13 agosto, 2024

𝑴𝒂𝒔 é 𝒏𝒐 𝑹𝒐𝒔𝒕𝒐 𝒆 𝒏𝒐 𝑷𝒐𝒓𝒕𝒆 𝑨𝒍𝒕𝒊𝒗𝒐 𝒅𝒐 𝑹𝒐𝒔𝒕𝒐, Marcello Duarte Mathias

 


Autor: Marcello Duarte Mathias
Título: Mas É no Rosto e no Porte Altivo do Rosto
N.º de páginas: 69
Editora: D. Quixote
Edição(3.ª): Agosto 2021
Classificação: Ensaio
N.º de Registo: (3495)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Que livro belo! Maravilhoso! É um autêntico deleite acompanhar as divagações que o autor, em seis pequenos textos, presta ao quadro de Fernand Khnopff.
No prefácio, António Tabucchi atribui-lhe o título de “Um quadro de palavras” e refere no final que Marcello Duarte Mathias (MDM) “faz competir em plasticidade a língua portuguesa com a paleta de um grande pintor simbolista.” Ora, é isso mesmo! Temos um quadro belíssimo e sensual, que nos é descrito com delicadeza e elegância.
MDM através da contemplação do quadro, deixa-se mergulhar no tempo e pelo viés da memória, do sonho, da imaginação, levanta possibilidades, inventa cenários, descreve cenas com laivos de erotismo, constrói-se como lugar de busca, de interrogação, ou seja, “reconhecer-se”.
Nos seis textos “construídos como variações” não há uma descrição efectiva da tela, há, sim, uma apologia ao belo, ao sensual, uma homenagem à mulher amada.
O leitor saboreia as palavras, apodera-se das imagens e transforma-as à sua maneira. Ao seu belo prazer. E acaba, também e de certa forma, por ratificar como sua a epígrafe de Cecília Meireles “Se não chegas nem pelo sonho, por que insisto em te imaginar?”




   Étude de Femme | Fernand Khnopff | 1895 | Collection particulière | Paris




12 agosto, 2024

O MAR NOS TEUS OLHOS

 

                                                                           Foto GR




I

É o mar, meu amor,
na febre dos teus olhos
é o manso fascínio
da onda que se inventa
É o mar, meu amor,
mestiço nos teus olhos
é o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta


II

É o mar, meu amor,
o lastro dos sentidos
que afogas nos olhos
sem nunca te afundares
É o mar, meu amor,
que transportas nos olhos
e onde eu nado o tempo
sem nunca me encontrar


Maria Teresa Horta, Antologia Poética




11 agosto, 2024

𝑪𝒂𝒇𝒖𝒏é - 𝑻𝒓𝒐𝒑𝒆𝒍𝒊𝒂𝒔 𝒅𝒐 𝒔𝒆𝒄𝒓𝒆𝒕á𝒓𝒊𝒐 𝒅𝒂 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒂 𝒅𝒂 𝒂𝒊𝒂 𝒅𝒂 𝒓𝒂𝒊𝒏𝒉𝒂, de Mário Zambujal

 


Autor: Mário Zambujal
Título: Cafuné 
N.º de páginas: 243
Editora: Clube do autor
Edição: Outubro 2012
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3295)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Cafuné é um livro delicioso. Mário Zambujal recorre de forma exímia ao seu sentido de humor para retratar um período importante da nossa História de Portugal, “o alucinante começo do século XIX”.

O autor utiliza uma escrita leve e cuidada, pincelada de ironia para discursar sobre as invasões francesas e a fuga da corte para o Brasil. Sem narração histórica detalhada, mas mantendo mesmo assim alguma relevância, mescla habilmente a realidade com a ficção, focando-se no ambiente em que se movem as personagens da sociedade oitocentista e dando especial relevo às peripécias de Rodrigo Favinhas Mendes, “moço desatinado por mulheres” e de Urbino, um “frade que desistiu do convento sem desistir (até ver) da castidade. Gente simples”. Rodrigo, “um rapação de dezassete anos” que adora que lhe façam cafuné, encaixa perfeitamente na citação escolhida para epígrafe do livro “Uma particularidade do ser humano é não se limitar aos ciclos de cio. Todo o tempo é bom tempo.”

Este romance não será o melhor do Mário Zambujal, mas a elegância da sua escrita ao descrever as atribulações do malandro aventureiro, tornam-no muito divertido e refrescante. Leitura ideal para férias. Recomendo.


09 agosto, 2024

𝑶 𝑫𝒊á𝒓𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒏𝒆 𝑭𝒓𝒂𝒏𝒌 - 𝑫𝒊á𝒓𝒊𝒐 𝑮𝒓á𝒇𝒊𝒄𝒐, de Ari Folman e David Polonski

 

Autor/argumentista: Ari Folman
Ilustrador: David Polonski
Título: O Diário de Anne Frank - Diário Gráfico
N.º de páginas: 155
Editora: Porto Editora
Edição: Setembro 2017
Classificação: Diário Gráfico
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



70 anos depois de ser publicado O Diário de Anne Frank, eis que surge (2017) uma adaptação em diário gráfico pelas mãos do argumentista Ari Folman e do ilustrador David Polonski.

Esta adaptação, fiel ao original, ilustra os dois longos anos (Junho de 1942 a Agosto de 1944) que oito pessoas, entre as quais Anne Frank, viveram escondidas num anexo, em Amesterdão.
Os autores atribuíram uma especial ênfase às emoções vividas e sentidas no confinamento, não podemos esquecer o quanto é difícil partilhar um espaço reduzido e (sobre)viver com uma alimentação restrita e com regras rígidas estabelecidas. Para retratar as tensões e os conflitos que iam surgindo, os autores recorreram ao sentido de humor e ao sarcasmo de Anne Frank. Há, nesse sentido, ilustrações maravilhosas.

Para mim, os melhores momentos são as entradas de Anne Frank no seu diário – Kitty. Nele, ela confia os seus pensamentos mais íntimos, os seus ensejos e receios bem como alguns projectos para o futuro. A sua última entrada ocorreu a 1 de Agosto de 1944, três dias antes de o grupo ser descoberto pelos nazis. É uma entrada longa, reveladora do seu cansaço, do seu desalento por ser incompreendida pelos familiares. Na “conversa” que mantém com a sua querida Kitty ela tenta entender “o feixe de contradições” com as quais se debate. É-lhe difícil estar dividida em duas e não manter sempre a mesma postura.

O Diário de Anne Frank é uma obra marcante e importante que testemunha factos verídicos sobre a perseguição e o extermínio de uma raça, neste período negro da História do século XX que é a Segunda Guerra Mundial.
Eu continuo a preferir o livro, mas esta adaptação gráfica merece ser lida pela qualidade das ilustrações e da adaptação textual que culminam numa obra emocionante.
Independentemente da opção que tomarem, não deixem de o ler e de incentivar outros à sua leitura. É importante manter viva a memória. Não é admissível que a história se repita.


08 agosto, 2024

Nada volta a ser o mesmo

 


                                                             Tristesse |  Luc Lavroff



Nada volta a ser o mesmo duas vezes.
Nem o amor.
Nem as pessoas.
Nem a vida...
Com o tempo tudo passa.
Vi, com alguma paciência, o inesquecível tornar-se esquecido e o indispensável sobrar.

Gabriel García Márquez


06 agosto, 2024

𝑨𝒔 𝑪𝒊𝒏𝒄𝒐 𝑴ã𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑺𝒆𝒓𝒂𝒇𝒊𝒎, de Rodrigo Guedes de Carvalho



Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Título: As Cinco Mães de Serafim
N.º de páginas: 451
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3600)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


As Cinco Mães de Serafim é um romance que enfoca a família e celebra a amizade.
Este romance de RGC mergulha o leitor na saga da família Temeroso. A narrativa centra-se na figura de Miguel Serafim, o filho mais novo, que em 2023 completa os 60 anos e a sua mãe, Maria Virgínia celebra os 100. Data importante que merece uma festa planeada pelo filho e os seus dois grandes amigos de infância, José Paulo e Vasco. Mais não direi porque o encanto do enredo é precisamente a descoberta dos mistérios que envolvem esta família e por consequência das pessoas que com ela convivem.

Gostei da história. A narrativa muito bem construída, articula com destreza episódios do passado e do presente que ocorrem, sem ordem cronológica, entre 1923 e 2023, no Norte do país. Este cruzamento de tempos mantém o leitor preso à história porque quando pensamos que algo vai ser desvendado, o narrador saltita de ano, de acontecimento. E, assim, vai adiando a revelação de factos que conduzirão a um desfecho imprevisível. Digo imprevisível porque nunca acerto nas minhas previsões, mas também duvido que outros leitores tenham conseguido antever os mistérios intrincados de uma família que aparenta união e felicidade. Ora, aquilo que parece nem sempre o é. Este axioma faz o sucesso do livro, na minha opinião.
Quanto ao desfecho, talvez não seja a palavra mais assertiva, uma vez que este fica em aberto, ou talvez não (?). Apesar de algumas revelações ficarem por explicar e de, provavelmente, alguns leitores se sentirem defraudados por isso (têm esse direito), eu gostei imenso do final porque assenta numa mensagem de esperança. A esperança que se alia à amizade e que prevalece à morte, à mentira, à separação. E quando assim é, tudo vale a pena. Tudo!
Assim, considero que o facto de o autor não ter desvendado alguns mistérios, não é relevante para o propósito do livro. O importante está lá, dito directamente ou nas entrelinhas e conduz o leitor à constatação de que a “amizade talvez seja um outro nome para família”.

A escrita de RGC é límpida e inteligente, sobretudo, na forma como constrói as personagens e o enredo. Ao optar por entretecer os tempos, enriquece sobremaneira a história na medida em que agarra o leitor e mantém-no em suspenso; ao insistir na repetição de frases, o que poderá desagradar a alguns leitores porque alonga a narrativa, facilita, na minha opinião, a leitura e rememora a história que ficou suspensa anteriormente. Considero que esta técnica atribui alguma tensão e induz uma espécie de loucura no sentido em que há necessidade de repetir o que já foi dito.

Recomendo a leitura.




04 agosto, 2024

O Silêncio, Nuno Júdice

 

                                                                     ©︎ Akira Kusaka


O SILÊNCIO


Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.


Nuno Júdice


03 agosto, 2024

Mar sonoro, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

                                                      


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen

30 julho, 2024

Um sítio para pousar a cabeça,

 

                                                                              GR




(...)

À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.


Manuel António Pina


Haiku | escrita criativa

 





𝘌𝘮 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢 𝘥𝘦 𝘮𝘢𝘳
𝘗𝘢𝘳𝘵𝘪𝘭𝘩𝘢 𝘭𝘪𝘷𝘳𝘰𝘴, 𝘴𝘰𝘳𝘳𝘪𝘴𝘰𝘴
𝘕𝘰 𝘢𝘻𝘶𝘭 𝘪𝘯𝘵𝘦𝘯𝘴𝘰




28 julho, 2024

𝑼𝒎 𝒄ã𝒐 𝒅𝒆𝒊𝒕𝒂𝒅𝒐 à 𝒇𝒐𝒔𝒔𝒂, de Carla Pais

 

Autora: Carla Pais
Título: Um cão deitado à fossa
N.º de páginas: 211
Editora: Porto Editora
Edição: Fevereiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3349)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A leitura de Um cão deitado à fossa estranha-se no início e depois entranha-se gradual e emocionalmente.

Estranha-se pela estrutura não linear da narrativa, pela alternância de vozes, a do narrador na 3.ª pessoa e a de Urbano, na primeira pessoa, pela repetição constante e ritmada de expressões/frases, pelas palavras cruas; entranha-se, exactamente, pelas mesmas razões pelas quais se estranha, mas sobretudo pela força e beleza da linguagem. A condução da sua narrativa revela uma capacidade brilhante de expor registos diferentes quer ao nível do grafismo quer ao nível da linguagem utilizada pelas personagens.

Nesta narrativa, a autora não poupa o leitor. A sua escrita, como já o referi, é cuidada e poética, mas é de uma extrema crueza. Este aspecto acaba por se destacar na medida em que é, na minha opinião, intencional. As palavras cruas e cruéis, difusamente repetidas nas falas, nas interrogações, nos pensamentos das duas personagens principais, Urbano e Ofélia, caem no leitor como “um soco”. 
Um soco que o desperta para a existência de uma cultura geracional (o livro aborda três gerações) enraizada numa sociedade machista e violenta, de submissão da mulher-objecto que cuida da casa e dos filhos “ (porque choras, mãe?) ”; um soco que põe a nu a indiferença “sou feito de pó (…) que se cola às paredes (…) do corpo, ainda não cresci, pai, falta-me carne dentro da pele suja”, o desamor, a infidelidade, a agressividade “és como a puta da tua mãe, um inútil, desgraçado…”; um soco que sacode as emoções de quem página após página “vive”, de igual modo, as agruras de uma vida rural povoada de fantasmas no pó dos dias da “madeira esfarelada que se crava na pele e nos olhos”; um soco que o acorda para a realidade violenta de uma família destruída.


Carla Pais, tal como em Mea Culpa, leva o leitor a reflectir sobre os sentimentos humanos, a dureza da vida e, neste caso em particular, sobre a família. A ausência de afectos, o sofrimento silencioso que muitas vezes cala a violência doméstica, a traição, a submissão da mulher ao homem são ainda agravos desprezíveis e inaceitáveis da nossa sociedade.

Para terminar, Um cão deitado à fossa, que remete para um verso de Herberto Helder, citado como epígrafe, caracteriza desde logo o protagonista. Urbano rejeitado por um pai numa família desfeita, vai ele próprio destruir a sua família, destratando a mulher e afastando afectivamente os filhos.

Por isso Carla Pais oferece-nos um livro que mexe com o leitor, que abala profundamente os seus sentimento e que o força a encarar a realidade de frente. Nem que para isso lhe envie “socos” e mais “socos”.
“ajeita o teu corpo no meu, Urbano”
(…)
“Ajeita os teus olhos nos teus filhos que cresceram,

Se gostam de livros que mexem com as emoções e se ainda não conhecem a obra de Carla Pais procurem-na e leiam os seus livros. Não se vão arrepender.



25 julho, 2024

𝓪𝓼 𝓬𝓪𝓼𝓪𝓼 das Bibliotecárias

 

       
 


Ontem, dia 24 de julho,
   𝘌𝘮 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢 𝘥𝘦 𝘮𝘢𝘳
  𝘗𝘢𝘳𝘵𝘪𝘭𝘩𝘢 𝘭𝘪𝘷𝘳𝘰𝘴, 𝘴𝘰𝘳𝘳𝘪𝘴𝘰𝘴
  𝘕𝘰 𝘢𝘻𝘶𝘭 𝘪𝘯𝘵𝘦𝘯𝘴𝘰
coube-me a mim receber a equipa interconcelhia das bibliotecas escolares do Alentejo Litoral que acolheu duas novas colegas. Como era o último encontro deste ano letivo preparei um desafio disfarçado de miminho. Inspirei-me em dois livros maravilhosos - 𝓐𝓼 𝓖𝓪𝓵𝓸𝓬𝓱𝓪𝓼 𝓥𝓮𝓻𝓶𝓮𝓵𝓱𝓪𝓼, de Pedro Seromenho e 𝓪𝓼 𝓬𝓪𝓼𝓪𝓼 𝓭𝓪𝓼 𝓬𝓸𝓲𝓼𝓪𝓼, de João Pedro Mésseder, ambos ilustrados magistralmente por Rachel Caiano.

O encontro iniciou com a visita à exposição Thalassa! Thalassa! O Mar e o Mediterrâneo na obra de Sophia patente no piso -1 no Centro de Artes de Sines.
Depois, subimos ao piso 2 e descobrimos 𝓪 𝓬𝓪𝓼𝓪 da hora do conto, espaço lindo e convidativo, onde a nossa (sim, a nossa... vá! de todos) Cristina Fernandes encanta, com as suas leituras, as crianças de Sines. (Bem hajam Cristina e Liliana Rodrigues

Aí, e antes da ordem de trabalhos, convidei as colegas a descobrir 𝓪 𝓬𝓪𝓼𝓪 de papel que lhes ofereci. Um origami poético com desenhos e palavras que continha o tal desafio disfarçado de miminho, ou seja, uma tarefa de escrita criativa (sou mesmo chata, não sou! onde já se viu atribuir uma tarefa de férias!) Prometo divulgar em setembro/outubro o resultado.
De seguida, inspirada pelo espaço encantador e também imbuída no espírito das músicas do mundo, a nossa colega Fátima Nunes partilhou a leitura do último capítulo do livro Í𝒏𝒅𝒊𝒂, 𝒂 𝑷𝒓𝒊𝒏𝒄𝒆𝒔𝒂 𝒅𝒐 𝑴𝒂𝒓.

Depois destes momentos criativos, e enquanto degustávamos umas deliciosas cerejas e uvas, a nossa coordenadora Lucinda Simoes divulgou algumas informações pertinentes e as prioridades para as bibliotecas escolares para o ano letivo 2024/2025. Não as vou divulgar aqui, mas deslumbramos já muito Engenho e Arte.

No final, por entre trocas de souvenirs, de discursos, de abraços, de sorrisos, de uma ou outra lagrimazita, despedimo-nos da colega Rosa S B Martins que finda as suas funções como bibliotecária escolar.

Pelas12h15 mudámos de 𝓬𝓪𝓼𝓪 e dirigimo-nos para outra, A Palmeira (nome sugestivo que nos faz sonhar com as férias já bem merecidas). Foi um bom repasto! Tempo para degustar, conversar, lembrar histórias divertidas de roupa esquecida, de personagens desencontradas ... e sorrir e gargalhar.

A tarde terminou para algumas em reuniões (trabalho oblige) e para outras em passeio pelas ruas movimentadas e festivas em modo FMM.
Despeço-me até setembro! Desejo-vos boas leituras e umas boas férias se possível com galochas vermelhas.
 
Nota: a tarefa de férias consiste em escolher 𝓐 𝓬𝓪𝓼𝓪 ... e dar uma definição poética. Eu escolhi as galochas, como é óbvio.

𝓐 𝓬𝓪𝓼𝓪 𝓭𝓪𝓼 𝓰𝓪𝓵𝓸𝓬𝓱𝓪𝓼
𝘈𝘣𝘳𝘪𝘨𝘢 𝘰𝘴 𝘱é𝘴 𝘥𝘢 𝘤𝘩𝘶𝘷𝘢 𝘦 𝘢𝘥𝘰𝘳𝘢 𝘴𝘢𝘭𝘵𝘪𝘵𝘢𝘳 𝘯𝘢𝘴 𝘱𝘰ç𝘢𝘴 𝘥𝘦 á𝘨𝘶𝘢.
𝘘𝘶𝘢𝘯𝘥𝘰 𝘷𝘦𝘳𝘮𝘦𝘭𝘩𝘢𝘴, 𝘴ã𝘰 𝘤𝘰𝘳 𝘥𝘰 𝘢𝘮𝘰𝘳.

GR

23 julho, 2024

𝒂𝒔 𝒄𝒂𝒔𝒂𝒔 𝒅𝒂𝒔 𝒄𝒐𝒊𝒔𝒂𝒔, de João Pedro Mésseder | 𝑨𝒔 𝑮𝒂𝒍𝒐𝒄𝒉𝒂𝒔 𝑽𝒆𝒓𝒎𝒆𝒍𝒉𝒂𝒔, de Pedro Seromenho

 

Autor: João Pedro Mésseder |  Pedro Seromenho
Título: as casas das coisas | As Galochas vermelhas
Ilustradora: Rachel Caiano 
N.º de páginas: 43 | 34
Editora: Caminho | paleta
Edição: Setembro 2023 | 2024
Classificação: Infantil
N.º de Registo: 3607 | 3610




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Dois livros encantadores que merecem ser lidos e apreciados. Dois autores diferentes, uma mesma ilustradora, Rachel Caiano. Amantes das palavras e dos traços que se completam maravilhosamente.
Apesar de diferentes, ou talvez por isso mesmo, trabalhei-os em conjunto e foi a simbiose perfeita. 
 O primeiro cheio de “casario” e de pequenos textos poéticos, convida o leitor a imaginar outras tantas casas… O segundo, narra o caminho das galochas vermelhas da Mia Flor. O caminho que lhe permite “correr, brincar e ser livre!” Ambos com desenhos FABULOSOS. Não me canso de apreciar os traços e as cores que tão bem completam e ilustram as palavras.

Após a leitura destes dois livros e, tal uma criança maravilhada, não resisti ao apelo de inventar imediatamente uma casa para as galochas. (nada de espectacular, apenas um exercício)

A casa das galochas
Abriga os pés da chuva e adora saltitar nas poças de água.
Quando vermelhas, são cor do amor.
 




20 julho, 2024

𝑨𝒈𝒏𝒆𝒔 𝑮𝒓𝒆𝒚, de Anne Brontë

 


Autora: AnneBrontë
Título: Agnes Grey
Tradutora: Manuela Porto
N.º de páginas: 206
Editora: Relógio d'Água
Edição: Julho 2019
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3519)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Agnes Grey escrito em 1847 com pseudónimo masculino, Acton Bell, foi a primeira obra de Anne Brontë. Trata-se de um romance de formação com laivos autobiográficos que narra o percurso de uma jovem preceptora, Agnes Grey. A autora, pelo viés da literatura, lega-nos um testemunho importante sobre a sociedade inglesa da era vitoriana.

Agnes é uma jovem lutadora, destemida e forte que aprende a viver com os seus conflitos interiores e que tudo faz para superar os seus sonhos, os seus desejos. Ela rompe barreiras familiares e sociais quando decide sair de casa para trabalhar como preceptora, a fim de apoiar financeiramente a família.
“Devia ser muito bom ser-se precetora! Ver mundo, começar uma vida nova, ter iniciativa, utilizar as minhas próprias faculdades, até então inaproveitadas, experimentar as minhas capacidades, que eu própria desconhecia, ganhar o meu sustento e poder ajudar e confortar o meu pai, a minha mãe e a minha irmã …” (p. 15)

É no relato das suas experiências laborais em casa de famílias aristocráticas e ricas que se percepciona a crítica à forma como as crianças são instruídas e educadas pelos pais. Para Agnes, sem experiência e muito jovem, torna-se uma tarefa árdua, pois as crianças, rebeldes e egoístas, não lhe obedecem e tratam-na como subalterna. Em momento algum, ela pode contrariar as crianças extremamente mimadas, pelo que a sua primeira experiência torna-se, assim, num fracasso.
“ A minha tarefa, à medida que os dias passavam, em vez de se tornar mais fácil, pelo contrário, complicava-se, pois os caráteres iam-se evidenciando. Bem cedo percebi que a designação de precetora, dada à minha pessoa, era mais do que ironia. Os pequenos não tinham a menor noção do que fosse obediência. Eram como leõezinhos indomáveis. (…)” (p. 30)

Mas não desiste e ingressa noutra família decidida a vencer e a incutir nos seus pupilos algum conhecimento e boas regras de conduta. Nem sempre é fácil. A sua autoridade, se é que alguma vez a conseguiu impor, é constantemente desafiada. Porém, e apesar da vida difícil que mantém longe da família e sujeita aos reveses impostos pelas crianças e jovens que tem sob a sua responsabilidade, acaba por conhecer pessoas boas e, no final, todo o seu esforço é compensado. Convido-vos a descobri-lo.

Não sendo um romance extraordinário, lê-se com enorme prazer e adorei acompanhar o crescimento de Agnès. A sua integridade e tenacidade levam-na a ultrapassar as dificuldades sentidas em meios familiares desconhecidos que protagonizam valores e comportamentos diferentes dos seus.

Escrito na primeira pessoa, a autora, no papel de protagonista, transmite ao leitor as suas vivências e a visão da sociedade em relação à mulher emancipada que opta por trabalhar, por ser independente. Neste sentido, e tendo em conta a época, poder-se-á afirmar que este primeiro livro de Anne Brontë revela já um certo pendor feminista. O facto de recear a crítica que certamente não publicaria este livro escrito por uma mulher, fê-la assinar com nome masculino.




16 julho, 2024

𝑷𝒓𝒐𝒇𝒆𝒔𝒔𝒐𝒓 𝑼𝒏𝒓𝒂𝒕 𝒐𝒖 𝑶 𝑭𝒊𝒎 𝒅𝒆 𝒖𝒎 𝑻𝒊𝒓𝒂𝒏𝒐, de Heinrich Mann


Autor: Heinrich Mann
Título: Professor Unrat ou O Fim de um Tirano
Tradutor: Bruno C. Duarte
N.º de páginas: 239
Editora: E-Primatur
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3434)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Escrito em 1905, Professor Unrat ou o Fim de um Tirano, foi o primeiro livro de Heinrich Mann, irmão deThomas Mann.

A acção decorre em Lübeck, cidade alemã, e retrata a decadência de um professor, a perda de valores da sociedade com a ascensão do nazismo.

Unrat que significa lixo, é o nome que os alunos e, por inerência, todos os habitantes da localidade, atribuem ao professor do liceu, de seu nome Raat. A alcunha vai acompanhá-lo ao longo da história e até o leitor acaba por aceitá-lo, à medida que evoluem as suas atitudes conducentes a um final decadente. Não há nunca empatia pela personagem. Unrat é um professor severo, moralista e dominado pela ânsia de vingança trata os seus alunos provenientes de uma classe social mais elevada, com hostilidade e arrogância, exercendo o seu poder de professor dentro de uma sala de aula.
“O instinto despótico de Unrat esbarrava no limite extremo da capacidade humana de submissão…” (p. 96)
Porém, um dia ao conhecer uma cantora de cabaré, Rosa Fröhlich, tudo muda na vida deste professor e dos seus alunos (nada mais revelarei) e da maioria dos habitantes.

Esta narrativa expõe magistralmente a moral de uma classe média, a queda de um professor de prestígio, respeitado pelos seus pares, mas que ao cair na libertinagem e que pelo viés do seu ideal de vingança se vai degradando de tal forma que se perde na anarquia do seu poder.

Este livro foi mal aceite pela crítica literária instituída que não via com bons olhos a denúncia da realidade social através da descrição psicológica de um tirano. Durante anos ficou “esquecido”, tendo-se tornado famoso através da adaptação cinematográfica, de O Anjo Azul de Josef von Sternber com Marlene Dietrich e Emil Jannings (1930)



14 julho, 2024

𝑻𝒆𝒓𝒓𝒂 𝑨𝒎𝒆𝒓𝒊𝒄𝒂𝒏𝒂, de Jeanine Cummins

 


Autora: Jeanine Cummins
Título: Terra Americana
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 445
Editora: Asa
Edição (3.ª): Agosto 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3385)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Terra Americana entranha-se-nos nos poros, impede-nos de respirar, mergulha-nos na crueldade, na violência, na morte. Livro fabuloso, muitíssimo bem escrito que agarra o leitor logo na primeira página. Baseado numa realidade ainda actual, faz-nos reflectir sobre as condições de sobrevivência dos milhares de migrantes que lutam por encontrar noutro país uma vida mais segura.

Esta narrativa centra-se na fuga desesperada e muito sofrida de uma mãe (Lídia) e seu filho (Luca). Fogem pela vida, pela sobrevivência depois de verem chacinada a sua família mais próxima às mãos de narcotraficantes, em Acapulco. Ela sabe que “a sua sobrevivência é uma questão de instinto e não de vontade.” (p. 320) Ela desconhece tudo. Os riscos, as dificuldades, o horror a que se vão submeter.

Sem alternativa, sabendo apenas que tudo fará para salvar o seu filho, Lídia foge do luto que se impõe e que mais tarde ou mais cedo terá de fazer, para se concentrar no terror, no medo de não conseguir sobreviver e chegar à fronteira do deserto de Sonora. É através destes dois sobreviventes, imigrantes forçados, que vamos enfrentar uma viagem louca, desenfreada, violenta envolta de um medo inavaliável, mas também de uma coragem insuspeitada à partida e descobrir o sofrimento e o desespero de todos os que, como eles, tentam escapar à denúncia, à deportação, à morte.

A escrita de Cummins é magistral, perturbadora e envolvente. Após uma longa pesquisa e recorrendo a informação verídica sobre a problemática da imigração, construiu uma narrativa forte que evolui num crescendo de horror, pontuada por momentos de extrema violência, sobretudo para as mulheres jovens, e de riscos iniludíveis quer no acesso ao comboio “a besta” quer na travessia do deserto. Contudo e, apesar, de tanta crueldade e violência há momentos bonitos, ternurentos, de solidariedade, de união e, por que não, de esperança.

Recomendo muito a sua leitura, por três razões. A primeira porque é um livro controverso na medida em que suscita diversas opiniões sobre a problemática, ainda actual e premente, da imigração quer em território americano quer em território europeu; a segunda, porque é um livro que nos habita, que deixa marcas e a terceira porque é um livro sobre mulheres, mulheres corajosas, mulheres sobreviventes.
Para finalizar, gostaria de referir que Luca, com oito anos, é uma criança extraordinária que se agarra à vida e que leva com ele a sua mãe e as outras personagens que se uniram a ele.


Joyeux 14 juillet

 Claude Monet | La rue Montorgueil, Paris | 1878


Liberté 

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.


Paul Eluard



13 julho, 2024

Espera-me


                                                                        Foto GR




Espera-me


Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome
se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.


Sophia de Mello Breyner Andresen



09 julho, 2024

Súplica

 




Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga



07 julho, 2024

Encontro Regional Ler, escrever e contar a LIBERDADE | 4 e 5 Junho | Évora



“Lembra-me um sonho lindo,…”diz a canção do Fausto. Também eu poderia iniciar assim o meu balanço dos dois dias do Encontro passados na bela e quente cidade alentejana.

Mas não foi um sonho! Foi concreto, foi vivido, foi sentido! Por isso, adapto o verso e inicio com “lembra-me um encontro lindo,…”, um Encontro de aprendizagem, de partilha de boas práticas, de livros, de escrita, de poesia, de contos e recontos, mas também de descoberta de arte, património, gastronomia, de encontros, de conversas, de abraços, de emoções, de LIBERDADE!

Neste Encontro, no auditório da DGEsTE, visionei pequenos vídeos fabulosos que versavam, de variadíssimas formas, sobre Abril, sobre a Liberdade, … elaborados por alunos das nossas escolas.

Neste Encontro, assisti a uma esclarecida e cativante “aula” de História proferida por Fernando Rosas, que para além de nos apresentar factos da Revolução dos cravos, lembrou-me (nos), que no “entardecer sombrio” que toda a Europa vive presentemente, é importante “recorrer à leitura, ao livro, para semear a liberdade”. Obviamente, que como leitora, continuarei a lançar sementes para que a liberdade perdure, inteira e limpa.

Neste Encontro, na Escola Secundária André de Gouveia, participei activamente no Workshop “Escritas em forma de Abril”, dinamizado pelo escritor João Pedro Mésseder. Foram três horas de deslumbramento pelas palavras ditas, lidas e escritas, pelas ilustrações, pelos livros e pelas partilhas. Foram três horas de palavras claras, leves, anoitecidas, livres, musicais, … em forma de Abril.
O calor cortou-me a inspiração, mas não a liberdade de escrever, pelo que partilho o haicai que criei:

Que nunca esqueças
a clara madrugada
de abril pintada


  

Ao entardecer, na companhia bem disposta e amiga de mais seis companheiros de luta, entenda-se, de bibliotecas escolares, deambulámos pelas ruas à descoberta do património, da gastronomia (que belo repasto!) e de uma temperatura abaixo dos 39.º. 

No dia seguinte, regressámos à escola secundária, e voltei a maravilhar-me, desta vez, pelas palavras e ilustrações do multifacetado Pedro Seromenho no Workshop “ O livro e a liberdade”. Tal uma criança ávida de sonhos, deixei-me conduzir pelas histórias poeticamente narradas e apreciei as ilustrações e desenhos revelados/criados. Foi um despertar de memórias, de emoções!

        

        




À tarde, assisti, de novo, à partilha de boas práticas das escolas alentejanas e ouvi João Couvaneiro que nos presenteou com uma conferência interessante sobre Educar para a Liberdade em tempos de Inteligência Artificial. Retive algumas ideias importantes e sugestões de ferramentas. Cito duas frases referidas que considero pertinentes e com as quais também concordo e que se adequam aos novos desafios da IA.
A primeira, “O exemplo não é a melhor forma de educar! É a única!”
A segunda, “Não é no dia em que se plantam as sementes, que se colhem as maçãs.”

E para terminar este longo texto que, provavelmente, poucos lerão, recorro à poesia, mais propriamente, a aforismos de João Pedro Mésseder (Inéditos)

“Liberdade: soubesses defini-la, mas apenas sabes dizer a falta que ela te faz.
Por cada Abril que semeias, mil Abris hás de colher.
A liberdade é um farol, talvez seja até um mar.”

Lucinda, Fátima, Rosa, Antónia, Rute, Mariana, Catarina e Rui (comparsas do Encontro), sei que sabem definir a Liberdade, pelo que resta-vos (nos) continuar a semear Abris. Agradeço-vos por terem partilhado comigo estes dois dias.
Ao João Pedro Mésseder e ao Pedro Seromenho agradeço as palavras, as ilustrações, os livros e, sobretudo, a liberdade na partilha dos vossos conhecimentos e experiências.

A todos os que directa e indirectamente contribuíram para a organização deste evento e que participaram nos diversos momentos, o meu bem-haja.

Marcamos Encontro para 2025. Muitas e boas leituras!


01 julho, 2024

Fausto Bordalo Dias (1948 - 2024)

 


Ao vivo nos 40 anos de “Por Este Rio Acima” | Aula Magna | Lisboa | Rita Carmo



Lembra-me um sonho lindo



Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado

Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Canta rouxinol canta
Não me dês penas
Cresce girassol cresce
Entre açucenas

Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o vento ardendo
Em fumos de incenso

Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado

Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Ai como eu te quero
Ai de madrugada
Ai alma da terra
Ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Canta rouxinol canta
Não me dês penas
Cresce girassol cresce
Entre açucenas

Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o vento ardendo
Em fumos de incenso

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada


Canção de Fausto Bordalo Dias