OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Neste espaço pretende-se divulgar actividades culturais/educativas/lúdicas ou simplesmente participar, partilhar opiniões, leituras, viajar...
09 julho, 2023
𝑶 𝑫𝒆𝒗𝒆𝒓 𝒅𝒆 𝑫𝒆𝒔𝒍𝒖𝒎𝒃𝒓𝒂𝒓 - 𝑩𝒊𝒐𝒈𝒓𝒂𝒇𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑵𝒂𝒕á𝒍𝒊𝒂 𝑪𝒐𝒓𝒓𝒆𝒊𝒂, de Filipa Martins
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
02 julho, 2023
O Tempo...
escapa entre instantes, palavras, sorrisos
carrega imagens, memórias
persiste
oscila entre o ser e o devir
30 junho, 2023
Ausência!
ouvir-te num breve instante,
dizer o que é amor sem o dizer,
tirar de mim um poema que te cante;
e ver passar-te por entre os dedos
o fio de luz que prende os teus olhos,
e vê-lo enrolar-se em segredos
quando a tua voz o apaga e acende;
tocar-te os lábios num fim de verso,
ver-te hesitar entre sorriso e mágoa,
perguntar se o teu rosto tem reverso,
e ter nele uma transparência de água:
é o que vejo em ti no cair de véu
em que me dás a terra que vale o céu.
Nuno Júdice
29 junho, 2023
O mar dos meus olhos
O mar dos meus olhos
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética
27 junho, 2023
Silêncios !
converso
contigo,
na tua presença
converso comigo.
Hesitante
estou numa encruzilhada,
o único caminho que conheço
é o caminho de volta.
O aroma das nozes
a fragrância do jasmim
o aroma da chuva sobre a terra.
Aos olhos dos pássaros
o ocidente
é onde o sol se põe
e o oriente
onde o sol nasce,
apenas isso.
Uma mulher de cabelos brancos
observa as flores da cerejeira:
Haveria chegado a primavera da minha velhice?
A abelha
permanece indecisa
entre milhares de flores de cereja
Brotou
floresceu
murchou
caiu
nem sequer uma pessoa a viu
A aranha
deixa os seus afazeres
por um instante
ante o espetáculo do alvorecer
Uma monja
acaricia
um tecido de seda:
Será adequado a um hábito?
Perdoai e esquecei
as minhas culpas
mas não de modo
que eu as esqueça completamente.
Abbas Kiarostami
26 junho, 2023
𝑨 𝒇𝒍𝒐𝒓 𝒆 𝒐 𝒑𝒆𝒊𝒙𝒆, de Afonso Cruz
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
18 junho, 2023
Sines vive Al Berto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
... não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me...
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo...
... em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
... em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
... em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
... em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
... em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
... em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento
Al Berto
17 junho, 2023
𝑼𝒎 𝑪ã𝒐 𝒏𝒐 𝑴𝒆𝒊𝒐 𝒅𝒐 𝑪𝒂𝒎𝒊𝒏𝒉𝒐, de Isabela Figueiredo
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
16 junho, 2023
Inquietação !
Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado.
A verdade é que nunca soube o nome dessa flor
que nalguns olhos abre logo de madrugada.
Agora para saber é tarde.
O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa
É sobre o meu corpo que chove.
Eugénio de Andrade, in Branco no branco
13 junho, 2023
Recordar Al Berto
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
Al Berto, o livro dos regressos
11 junho, 2023
𝑩𝒊𝒃𝒍𝒊𝒐𝒕𝒆𝒄𝒂 𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒍, de Jorge Luís Borges
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
07 junho, 2023
Eu, eu mesmo
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.—
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
30 maio, 2023
𝑬𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒓 𝒅𝒆𝒑𝒐𝒊𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒖𝒔𝒄𝒉𝒘𝒊𝒕𝒛, de Günter Grass
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
24 maio, 2023
𝑶 𝑫𝒆𝒔𝒂𝒑𝒂𝒓𝒆𝒄𝒊𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑱𝒐𝒔𝒆𝒇 𝑴𝒆𝒏𝒈𝒆𝒍𝒆, de Olivier Guez
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Recomendo a leitura.
20 maio, 2023
𝑬𝒊𝒄𝒉𝒎𝒂𝒏𝒏 𝒆𝒎 𝑱𝒆𝒓𝒖𝒔𝒂𝒍é𝒎, 𝒖𝒎𝒂 𝒓𝒆𝒑𝒐𝒓𝒕𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 𝒂 𝒃𝒂𝒏𝒂𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐 𝒎𝒂𝒍, Hannah Arendt
Tradutora: Ana Corrêa da Silva
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
19 maio, 2023
Ausência...
Por toda a minha vida eu vou te amar
E em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E em cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
Eu sei que vou te amar
Vinícius de Moraes e Tom Jobim
14 maio, 2023
Desassossego
há dias em que tudo em mim sou eu
outros há em que me não conheço
há dia em que o mundo todo é meu
e outros em que nem a mim pertenço
há dias em que todo eu sou desprezo
outros há em que tudo em mim é saudade
há dias em que indivisível
uno
ileso
e outros
como hoje
em que sou metade da metade da metade
Norberto Morais, Poesia Vol. 1
13 maio, 2023
Inquietação!
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
07 maio, 2023
Dia da Mãe
Beleza
Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.
Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.
Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:
É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
05 maio, 2023
Dia da Língua Portuguesa
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O’Neill, Há palavras que nos beijam
02 maio, 2023
Texto de Al Berto
Foto minha (Vila Nova de Milfontes - 2023)
01 maio, 2023
Silêncios !
Francesca da Rimini | Ary Scheffer | Pintura
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
Almeida Garrett, in Folhas Caídas
30 abril, 2023
𝑳𝒆 𝑱𝒆𝒖𝒏𝒆 𝑯𝒐𝒎𝒎𝒆, de Annie Ernaux
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Sem excessos, directa, sensível e corajosa, Ernaux não foge à verdade e revela logo no início que fazer amor era o meio para chegar à escrita.
29 abril, 2023
𝑺𝒊𝒅𝒅𝒉𝒂𝒓𝒕𝒉𝒂, de Hermann Hesse
28 abril, 2023
Desassossego!
obra de Paula Rego
... no desalinho triste das minhas emoções confusas...
Livro do Desassossego, por Bernardo Soares | Fernando Pessoa.
27 abril, 2023
Silêncios!
espaço interior
quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,
resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,
quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe
a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
25 abril, 2023
𝑨𝒏𝒅𝒂𝒓 𝒂 𝑷é, de Henry David Thoreau
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
23 abril, 2023
𝑽𝒐𝒍𝒇𝒓â𝒎𝒊𝒐, de Aquilino Ribeiro
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
22 abril, 2023
Inquietação
Inquietação
Será ternura? Será afeição?
o que em mim vive...
será tudo? Em ebulição...
Será amor? Será paixão?
o que me torna insone...
será tudo? Em exaltação...
Será dúvida? Será ilusão?
o que me ilude...
e me destrói a razão...
Será receio? Será desilusão?
o que me inquieta...
e me corrói o coração...
O que quer que seja...
é inquietação...
Tudo é inquietação!
GR






















