19 agosto, 2022

Porto - a excelência

 

Livraria Lello

Café A Brazileira


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Café Majestic

17 agosto, 2022

𝑶 𝑷𝒂𝒑𝒂𝒈𝒂𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑭𝒍𝒂𝒖𝒃𝒆𝒓𝒕, de Julian Barnes

 


Autor: Julian Barnes
Título: O Papagaio de Flaubert
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas:244
Editora: Quetzal
Edição (2.ª): Novembro 2019
Classificação: Biografia Romanceada
N.º de Registo: (3217)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Julian Barnes propõe-nos uma biografia (?) desconcertante, porque diferente, de Gustave Flaubert. Não há uma estrutura narrativa claramente definida, vamos percorrendo as páginas e vamo-nos deslumbrando com a facilidade (aparente) como o autor expõe a sua tese, a sua reflexão, a sua teoria, as suas críticas e como dialoga com o leitor e o envolve nas suas dúvidas e certezas.
 
É um livro extraordinário, deslumbrante porque nos oferece histórias aparentemente sem conexão, por vezes, incoerentes, umas verdadeiras outras falsas, entradas em dicionários e em diários íntimos, cronologias, listas, bestiários, apócrifos, citações, provas escritas. Questionamo-nos, constantemente, se é um romance, uma biografia, uma autobiografia, um ensaio, já que temos de tudo um pouco escrito com um enorme sentido de humor e muita ironia. Barnes joga com as ideias e com as palavras para seduzir o leitor e o envolver na sua narrativa.

Para nos falar do autor de Madame Bovary, mas também das coincidências/ironias da vida, de livros e de amor, Barnes cria um narrador - Geoffrey Braithwaite - inglês, médico, reformado, viúvo, de 60 anos que atravessa o canal da Mancha para ir até Ruão (Rouen), em França com o propósito de conhecer o verdadeiro (há duas versões) papagaio embalsamado (Lulu) que serviu de modelo a Flaubert aquando da escrita de um conto,“Un coeur simple” (1877).

O narrador apresenta-nos a sua vida para nela descobrirmos a de Flaubert. Subtilmente, o médico saltita da realidade à ficção, da sua própria vida à vida de Flaubert, do seu amor pela mulher Ellen, que morreu recentemente, ao amor de Flaubert por Louise Colet.
“Estou só a ganhar coragem para lhes [aos leitores] contar… o quê? Sobre quem? Dentro de mim lutam três histórias. Uma sobre Flaubert, uma sobre Ellen, outra sobre mim próprio.” (p. 108)

Assim, de capítulo em capítulo descobrimos alguns aspectos da vida de Flaubert, tais como as suas obras, viagens, amizades, amantes, familiares (mãe), sucessos e polémicas, medos e vaidades. Fica ainda claro que Flaubert é dado a fortes paixões, porém, sempre insatisfeito, torna-se incapaz de amar e de ser feliz, tal como Emma, a protagonista de Madame Bovary, a sua obra-prima.

E o papagaio? Não falarei dele… convido-vos a descobrir a narração de Geoffrey Braithwaite, que ora fala como médico, ora como biógrafo, ora como viúvo. Será, sem dúvida, para os amantes da literatura, uma leitura encantadora e sedutora.

Eu, descobri que Julian Barnes me fascinou e que quero ler mais livros dele; confirmei que Gustave Flaubert é um escritor talentoso e genial “ Flaubert é diferente. Acreditava no estilo mais do que ninguém. Trabalhava afincadamente pela beleza, pela sonoridade, pela exatidão; pela perfeição.” (p. 111).
Quando isto acontece, fico feliz e concluo que a leitura/a literatura cumpriu a sua função.

 


06 agosto, 2022

Ana Luísa Amaral (1956-2022)





TESTAMENTO

Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras.

Ana Luísa Amaral

04 agosto, 2022

𝑴𝒂𝒓𝒊𝒍𝒚𝒏 à 𝑩𝒆𝒊𝒓𝒂-𝑴𝒂𝒓, de Vicente Alves do Ó

 


Autor: Vicente Alves do Ó
Título: Marilyn à Beira-Mar
N.º de páginas: 331
Editora: Oficina do Livro
Edição: Julho 2012
Classificação: Biografia romanceada
N.º de Registo: (2776)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Marilyn à Beira-Mar é uma biografia romanceada da história de amor dos pais do autor. Narrada na primeira pessoa, foi escrita para melhor conhecer e aceitar os “responsáveis pela sua existência” justificou Vicente Alves do Ó numa entrevista.
Gostei particularmente do livro. Conheço pessoalmente o autor, acompanho o seu trabalho sobretudo como realizador e argumentista. Este foi o primeiro livro que escreveu (2012).
O enredo atravessa os anos cinquenta a setenta e situa-se em S. Torpes (Sines), uma pequena vila alentejana à beira-mar. Sendo as personagens reais, todos os nomes foram alterados, mas facilmente identificáveis, para quem é ou vive na terra. É uma história intensa que põe em destaque o papel da mulher, sem direitos, destinada a ficar em casa, a obedecer ao pai, aos irmãos e ao marido, aceitando o casamento imposto, calando a violência, a infidelidade, tendo e criando filhos,…
Laura, a protagonista, sofreu tudo isto durante um tempo no primeiro casamento, mas rapidamente percebeu que não era o seu destino e fugiu para casa de uma tia, recentemente chegada da América. A partir daí, muita coisa vai mudar e tendo como pano de fundo a figura de Marilyn Monroe por quem se apaixona ao vê-la numa revista, Laura, imitando a sua Deusa, vai tornar-se na mulher bonita, sofisticada e moderna que vai enlouquecer, por razões diversas, homens e mulheres da pacata vila de S. Torpes.
“O ano 1959 chegou depressa e cheio de acontecimentos. Laura dispensou a mesada da tia, comprava cigarros na tabacaria, vestia-se com roupas que mandava vir de Lisboa e chegou a provocar escândalo, quando foi jantar sozinha ao restaurante mais caro da vila (…) e pior do que tudo isso, vestiu um par de calças aos olhos de toda a gente.” (p. 153)
Não se iludam. Laura não teve uma vida fácil, nem fútil como este excerto aparenta, pelo contrário, mas deixo-vos o prazer da descoberta com a leitura do livro.
Vicente Alves do Ó, Simão na narrativa, foca-se na maravilhosa e imprevisível mulher que foi a sua mãe, e através dela, da sua história, transporta-nos para um mundo extraordinário que acabou por herdar. O amor, o sonho, a paixão pelo cinema e a coragem de tudo abandonar para recomeçar, de novo e de novo…

“É tempo de abandono. Deixa os fantasmas para trás. (…) Achas mesmo que podes tirar conclusões depois da revisitação à história antiga? Achas que o passado pode responder com objectividade ao presente? (…) A continuidade é uma e a mesma verdade. A passagem de testemunho. Uma força maior, uma estrada sem princípio ou fim. E mesmo que abandones a estrada e entres no campo aberto do poema, da morte ou da revolta, haverá sempre um rasto de espinhos e de pétalas de rosa que te acompanharão.” (p. 327)

É assim que inicia o último capítulo (todos os capítulos apresentam títulos ingleses relacionados com Marilyn Monroe) e, na minha opinião, é uma bela síntese do que foi a vida de Laura, sua mãe.
Leiam e descubram um pouco da mentalidade de Sines, vila de pescadores, nos anos 50 e como tudo começou para Vicente Alves do Ó.

 


01 agosto, 2022

𝑶 𝑷𝒓𝒊𝒎𝒐 𝑩𝒂𝒔í𝒍𝒊𝒐, de Eça de Queirós

 



Autor: Eça de Queirós
Título: O Primo Basílio
N.º de páginas: 457
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/data
Classificação: Romance
N.º de Registo: (546)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Volta e meia, regresso a Eça de Queirós e à sua crítica mordaz da sociedade lisboeta do século XIX. Desta vez, escolhi O Primo Basílio, um romance de costumes que satiriza a moralidade de uma família burguesa. Eça recorre ao sarcasmo e à ironia para descrever a podridão da sociedade e explora o carácter das personagens para tipificar os comportamentos dos portugueses da época. As suas críticas recaem sobre adultério, incesto, ociosidade, futilidade, devassidão, falsidade e oportunismo.

As personagens são fabulosas, com grande dinamismo e realismo vamos acompanhando a trama tecida à volta de uma família burguesa. Através de um narrador omnisciente, conhecemos ao pormenor os diversos ambientes e o âmago das personagens como a bela, romântica e inconsequente Luísa, vítima do universo fantasioso das suas leituras, que ama o seu marido, mas facilmente se deixa envolver num caso, caindo nas armadilhas do sedutor, elegante, fútil e cínico primo Basílio. Luísa revela sentimentos contraditórios e indefinidos, confunde amor e desejo e ora prefere o primo, ora anseia pelo regresso e amor do marido que se ausentou em trabalho para o Alentejo.

Eça desenhou bem a intriga e torna Luísa na figura típica da falta de moral representativa da família burguesa. Através do seu comportamento, o autor critica a farsa de um casamento aparentemente perfeito, e desmonta a imoralidade, os vícios e algumas virtudes (poucas) de todos os que com a protagonista convivem. Destaco duas personagens: Sebastião o leal e sincero amigo sempre disponível para ajudar a resolver os problemas e Juliana, a empregada virgem, feia e oportunista que anseia por uma vida melhor e que aproveita um descuido de Luísa para alcançar os seus objectivos.

A partir daí, a intriga arrasta-se para a chantagem e culmina num final trágico.

Eça, magistralmente, demonstra de forma caricatural a perversidade da imoralidade existente bem como a mediocridade e a decadência do país.

“Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. – Ele [Basílio] partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! (,,,) Ia para sempre. Safava-se!” (pp. 267 e 268).

“ – O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto país!... (…) - Aqui estamos! Aqui estamos num chiqueiro! “ (pp. 446 e 447)

Finalmente, gostaria ainda de salientar a intertextualidade deste romance com a obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Já não me recordo dos pormenores, mas tenho a ideia de que para além do tema do adultério há um registo e uma estrutura muito semelhantes, como a fase da conquista e o final. Será talvez uma boa oportunidade de reler esta obra-prima da literatura francesa.



29 julho, 2022

𝑺𝒊𝒓𝒂, de María Dueñas

 



Autora: Maria Dueñas
Título: Sira
Tradutora: Carla Ribeiro
N.º de páginas: 606
Editora: Porto Editora
Edição: Outubro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3335)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sira sendo a continuação de O Tempo Entre Costuras, não requer, contudo, a leitura obrigatória do seu precedente porque a autora, nos momentos essenciais, contextualiza a narrativa. Porém, a compreensão do seu enredo torna-se mais aliciante se os lermos pela ordem de publicação.

Tal como o primeiro, temos uma narrativa arrebatadora, cheia de peripécias e reviravoltas que ocorre numa determinada época e em vários espaços e contextos. A protagonista, deste segundo livro, amadureceu e tornou-se, ainda mais, numa mulher do mundo, inteligente e glamorosa. Tendo, no início, uma vida tranquila, casada com o homem que ama e que lhe garante algum desafogo económico e uma convivência social acima da média, Sira, anseia ter um papel mais activo e não depender exclusivamente do marido. Após dez anos de agitação e de uma vida altamente atribulada, este recente conforto, sufoca-a.
É o destino que vai decidir por ela e a vai de novo catapultar para um recomeço, para uma vida de encontros e desencontros, alegrias e desgostos, experiências inauditas, desafios constantes enriquecedores e perigosos.

A escrita flui naturalmente e fornece-nos informação rigorosa e descrições associadas à época, a personagens e a lugares reais, nomeadamente, sobre o Império Britânico no período do pós-guerra em Londres e em Jerusalém; sobre o Franquismo e a visita de Eva Perón a Espanha e sobre Tânger. O livro dividido em quatro partes, coloca Sira na Palestina, na Grã-Bretanha, Espanha e Marrocos, respectivamente.
Sira, neste livro, reinventa-se e torna-se numa mulher ainda mais forte e corajosa que se mantém fiel às suas amizades mais sinceras (recuperamos muitas personagens do primeiro livro), não perdendo nunca o seu carisma e a sua independência.

Recomendo muito a leitura dos dois livros. As muitas páginas de ambos lêem-se num ápice. Factos históricos e ficção enleiam-se na perfeição. É um prazer acompanhar os pensamentos e as decisões de Sira.
Ser-nos-á possível ansiar por uma Sira ainda mais completa e cativante, num próximo livro?



24 julho, 2022

𝑻𝒂𝒃𝒂𝒄𝒂𝒓𝒊𝒂 | 𝑻𝒉𝒆 𝑻𝒐𝒃𝒂𝒄𝒄𝒐 𝑺𝒉𝒐𝒑, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

 



Autor: Frenando Pessoa | Álvaro de Campos
Título: Tabacaria | The Tobacco Shop
Tradutor para inglês: Richard Zenith
Ilustrador: Pedro Sousa Pereira
N.º de páginas: 68
Editora: Clube de Autor
Edição: Novembro 2013
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Volto sempre a Fernando Pessoa com enorme prazer. Desta vez, pelas palavras e desenhos de Álvaro de Campos e Pedro Sousa Pereira, respectivamente.

Trata-se de uma edição lindíssima do poema “Tabacaria”. Em versão bilíngue, traduzido para o inglês por Richard Zenith, especialista de Fernando Pessoa.
Este livro de capa dura é uma verdadeira obra-prima. Para além do poema fabuloso, um dos meus preferidos, conta com a beleza das ilustrações que traduzem o sentido das palavras e com o entendimento e a paixão de Zenith tão bem explanados no posfácio.

Não vou esmiuçar o sentido do poema. Cada um terá o seu. Prefiro recomendar a sua leitura e de preferência nesta edição para quem não é viciado neste género literário.
Os desenhos e a explicação de Zenith completam e explicam os diversos e contraditórios estados de alma do sujeito poético que da janela do seu quarto observa e analisa a tabacaria, a rua, a vida, mergulhando numa rotina movida pela solidão, angústia e pessimismo. A negação do “eu” é uma constante ao longo do poema que inicia com os tão conhecidos quatro versos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


𝑪𝒊𝒔𝒏𝒆𝒔 𝑺𝒆𝒍𝒗𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔- 𝑻ê𝒔 𝑭𝒊𝒍𝒉𝒂𝒔 𝒅𝒂 𝑪𝒉𝒊𝒏𝒂, de Jung Chang

 



Autora: Jung Chang
Título: Cisnes Selvagens - Três Filhas da China
Tradutor: Mário Dias Correia
N.º de páginas: 517
Editora: Quetzal Editores
Edição: 1995
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: 542

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Cisnes Selvagens- Tês Filhas da China é um belíssimo romance histórico sobre os grandes acontecimentos da China do século XX. Jung Chang mergulha nas suas memórias para nos relatar os tumultos políticos da ocupação japonesa até às políticas de Mao Zedong (Mao Tsé-Tun) vividos por três gerações de mulheres: a sua avó, a sua mãe e ela própria.
É através das perpectivas e vivências destas três mulheres que mergulhamos nesta aventura épica. A autora narra tradições, acontecimentos, reformas e transformações do seu país e da sua família ao longo de três gerações. De forma intimista, tomamos conhecimento das várias provações a que os pais foram submetidos para aderirem ao partido, sobretudo a mãe, dos momentos dolorosos vividos em família causados pelos “valores do partido” que se sobrepunham aos valores familiares.
São dilacerantes os relatos de episódios de extrema dureza que desvelam a angústia, o sofrimento e a incompreensão da mãe perante o alheamento e ausência do pai que sacrificava a sua vida pessoal e familiar em prol de uma causa.
É pela escrita que a autora tenta libertar-se dos traumas atrozes vividos na família, na escola, na sociedade. Bem cedo compreende que a sua família, que de início tinha privilégios devido à posição do pai, é também marcada pelo infortúnio, pela denúncia, pela perseguição, pela violência, pela tortura, pelas lutas constantes de um poder autocrático. Apesar de tudo e de todos, Jung Chang e os seus irmãos cresceram cercados de amor pelos seus pais e avó materna, mesmo estando muitas vezes separados.
Este facto bem como a coragem e a integridade dos seus pais vão facultar-lhe forças e discernimento para, silenciosamente, começar a duvidar da doutrina de Mao e tomar consciência das desigualdades sociais “O que fora que transformara as pessoas em monstros? Foi neste período que a minha devoção a Mao começou a esmorecer.” (p. 357)
É muito interessante acompanhar o seu confronto interior, as suas dúvidas, as emoções ao “desafiar abertamente Mao no tribunal do meu espírito.” (p. 483)

Recomendo muito. Ninguém sai incólume desta leitura que para além de nos permitir conhecer uma parte da História da China, nomeadamente, a destruição de um país e o aniquilamento de uma população causados pelo poder totalitário, faculta-nos, sobretudo, o testemunho visceral e intimista de uma mulher que se foca nas lutas travadas quer pela sua avó quer pela sua mãe. Destas quinhentas e poucas páginas, destaco como aspectos essenciais a compreensão da posição da mulher na sociedade chinesa; o auto conhecimento da própria autora; a esperança e as oportunidades necessárias para um futuro melhor.
“Tinha conhecido o privilégio e as denúncias, a coragem e o medo, tinha visto a bondade e a lealdade bem como as profundezas mais negras da alma humana. No meio do sofrimento, das ruínas e da morte, tinha sobretudo conhecido o amor e a indestrutível capacidade humana de sobreviver e procurar a felicidade. (…) Lancei um último olhar à minha vida passada e depois voltei-me para o futuro. Estava ansiosa por abraçar o mundo.” (p. 514)



21 julho, 2022

Há dias assim... de desassossego



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

(...)

Fiz de mim o que não soube.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara.
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho.
Já tinha envelhecido.
(...)


Tabacaria, Álvaro de Campos| Fernando Pessoa




11 julho, 2022

𝑴𝒐𝒓𝒓𝒆𝒓 𝑺𝒐𝒛𝒊𝒏𝒉𝒐 𝒆𝒎 𝑩𝒆𝒓𝒍𝒊𝒎, de Hans Fallada

 


Autor: Hans Fallada
Título: Morrer Sozinho em Berlim
Tradutor: Carlos Leite
N.º de páginas: 502
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3112


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Pouco tenho lido sobre a resistência alemã na ditadura nazista. Segundo o posfácio do editor português, esta narrativa “reporta-se aos acontecimentos reais, mas contém já interpretações, cria episódios ficcionados e novas personagens.”
Assim, é a partir da história real do casal Otto e Elise Hampel (Otto e Anna Quangel no romance) que o autor descreve a luta contra o regime de Hitler, dos horrores da vida alemã, sobretudo a berlinense, ao longo da segunda guerra mundial. Uma vida de medo, de desconfiança, de delação, de cobardia, de vícios, de tirania, de tortura.
“(…) É de tal maneira desgastante ter de prestar atenção todo o tempo, este medo que nunca acaba…” (p. 134).

Não vou revelar nada do enredo. É importante que o leitor vá mergulhando docemente na narrativa e que dela emirja, de vez em quando, para respirar e ganhar fôlego.
Hans Fallada constrói a sua narrativa de forma sublime e num estilo corrosivo. As suas personagens complexas e magnificamente construídas, revelam muito do carácter e do estatuto de cada figura-tipo da sociedade representada no romance. As duas personagens principais (o casal Quangel) são-nos apresentadas num crescendo, os meros operários exemplares e, por isso, insignificantes vão empreender uma campanha de resistência à propaganda nazista, primeiro na clandestinidade, de forma ingénua e aparentemente inofensiva, e depois na prisão pacífica e corajosamente.
“ (…) este terceiro Reich guardava surpresas sempre novas para os seus detratores mais acérrimos, a sua perversão transcendia a própria perversidade.”

A revelação de um país antissemita, cruel, delator, corrupto onde impera o medo, a violência, a morte é-nos feita de forma clara e objectiva. Tudo é dito, nada é evitado ou amenizado e o leitor não sai ileso de tão dolorosa e emotiva exposição.
“Camaradagem, rodadas de brindes, descontração, alegria, o repouso bem merecido depois de tanto trabalho a torturar os semelhantes e a conduzi-los ao cadafalso.” (p. 199)

Contudo, nem tudo é crueldade e, ao longo da narrativa, vamos mesmo assim descortinando actos de bravura, de solidariedade e de esperança.

Recomendo vivamente.




10 julho, 2022

𝑨 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂𝒅𝒊çã𝒐 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒂, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: A Contradição Humana
N.º de páginas: 36
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2010
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (empréstimo)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pequena pérola da literatura infantil portuguesa para ser lida por “humanos” de todas as idades.
Neste livro, Afonso Cruz apresenta-nos as observações e reflexões de uma criança curiosa e atenta às contradições do ser humano.
Numa simbiose toda ela contraditória de texto e ilustração, o autor, em tons de vermelho, preto e branco usa letras de tamanhos e tipos diferentes e desenhos expressivos para realçar a contradição humana.

Nenhum leitor fica imune à ironia e subtileza presentes nas narrativas (textual e imagética) que conduzem o leitor à constatação imediata das várias contradições. O autor desconstrói através do humor e de jogos de palavras a ideia inicial para no final a tornar menos óbvia.

Livro divertido e sério que parte do absurdo para nos fazer sorrir mas também reflectir.
Alguns exemplos:
- “À minha frente estava um casal de namorados, aos beijinhos. Eram 2 mas só tinham uma sombra (de tão agarrados que eles estavam)”
- “A minha tia gosta muito de pássaros mas prende-os em gaiolas. É uma pena."
- “Apesar de comer tanto açúcar, é uma pessoa amarga”



27 junho, 2022

𝑨𝒔 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂𝒔 𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒔 𝒐𝒃𝒔𝒆𝒓𝒗𝒂𝒎-𝒎𝒆, de Tomas Tranströmer

 


Autor: Tomas Tranströmer
Título: As minhas lembranças observam-me
Tradutor: A.P.
N.º de páginas: 101
Editora: Sextante Editora
Edição: Setembro 2012
Classificação: Memórias e Poesia
N.º de Registo: (2741)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Trata-se de um pequeno livro de memórias do autor galardoado com o Premio Nobel da Literatura 2011. Para além do texto em prosa, a edição inclui fotografias do autor e de alguns dos seus textos manuscritos, dez poemas inéditos (os primeiros que escreveu) e um posfácio de Pedro Mexia.
As suas memórias, escritas quando tinha sessenta anos, incidem sobretudo sobre a sua infância e juventude, a sua educação, os seus hábitos e gostos e o despertar para a poesia.

Na sua narrativa, organizada em breves capítulos e sem ordem cronológica, perpassa uma certa humildade e sensibilidade ao relatar apenas pequenas lembranças, pormenores aparentemente sem muita importância para o leitor, mas que para o autor foram marcantes na sua formação. Não se registam grandes feitos, apenas recordações mais ou menos fiáveis, mais ou menos adulteradas quer pela memória quer pela emoção de reviver. E a sua primeira memória não é um facto, mas sim um sentimento.
“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção de um estado de espírito.
A minha recordação datável mais antiga é a recordação de um sentimento. Um sentimento de orgulho. Fiz três anos, e disseram-me que isso era muito importante, que agora eu era grande.” (pp 11 e 12)

Percebemos com esta memória que se trata de uma pessoa sensível. Esta característica irá reforçar-se com a ausência da figura paterna ditada pelo divórcio dos pais e com a necessidade de se defender da hostilidade de alguns colegas e professores.
A vida recordada por Tranströmer é descrita com “rastos de luz”, como um cometa. Ele tenta recordar, mas há “regiões muito condensadas” que tornam a tarefa difícil. Assim, foca-se nos momentos de maior brilho e revela-se a criança curiosa, fascinada por museus, bichos, colecções de insectos, livros e bibliotecas; um garoto (9 anos) empenhado “ de alma e coração!” durante a guerra, “debruçado sobre o mapa da guerra que vinha no jornal” (p. 37) facilmente percebeu que ser nazi era mau “Os nazis eram tão desumanos como eu imaginava.” (p. 40); o adolescente que criou amizades com professores e que se refugiou nas traduções dos clássicos nas aulas de Latim.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores. (p. 55)

Foi pela via da tradução de Horácio que o autor despertou para a poesia. Tanto trabalhou de forma metódica e rigorosa os versos do clássico que ficou deslumbrado, ao ponto de escrever os seus primeiros poemas que publicou no jornal da escola.
“Esta alternância entre o medíocre e trivial e o vigoroso e sublime ensinou-me muito. Era a condição da poesia. Era a condição da vida. Através da forma (da Forma!) era possível elevar uma coisa a um estádio superior.” (p. 74).

Gostei da prosa. Gostei dos seus primeiros poemas. Falta ler a poesia que lhe valeu o Nobel.



26 junho, 2022

Sines vive Al Berto - Performance Literária





25. Junho. 2022 | 21.30 h | Auditório CAS

Performance literária / apresentação, fruto da contribuição de vários elementos da comunidade de Sines, a convite do Município e do Centro de Artes, dos mais variados e improváveis setores a partir da obra “Mar-de-Leva”.

Teaser | Sines Vive Al Berto  (ver vídeo)


O Elogio da Leitura (RTP 2 Arquivo ) - Al Berto

 



Programa dedicado à promoção da leitura e à divulgação de novas edições, com apresentação de Isabel Bahia, dedicado ao poeta Al Berto, pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares, que em conversa fala sobre si próprio e a sua poesia.

Autoria e Apresentação: Isabel Bahia  1989-04-01



21 junho, 2022

𝑨 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑨𝒖𝒓𝒐𝒓𝒂𝒔, de Cristina Carvalho

 


Autora: Cristina Carvalho
Título: A Casa das Auroras
N.º de páginas: 190
Editora: Planeta Manuscrito
Edição: Abril  2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Gosto das histórias de Cristina Carvalho. Há algo que me fascina nelas porque activa o meu imaginário em torno de ambientes oníricos, de situações inverosímeis, de rumores, de lugares encantados.

No caso, a história situa-se em Quintas num lugar com poucas casas e uma casa comercial que vende de tudo. É numa dessas casas, muito antiga – A casa das Auroras- visitada só por mulheres que tudo acontece “Tem havido sempre rumores de suspeição sobre quem são elas, o que fazem, porque se encontram ali todas as noites, durante a noite…” (p. 16). Não vou desvendar quem são e o que fazem. Convido-vos a ler o livro.
Posso acrescentar que quando vem a noite os tons são dourados e os choupos “dançam e vibram numa quente alegria sob a grande bola de Sol que ainda ilumina o crepúsculo e contorna as nuvens vermelhas que pintam o céu (…) e quem passar na rua poderá sentir, ouvir e perceber, se quiser, os sons acetinados das conversas das mulheres.” (p. 17).
São histórias de mulheres, mulheres extraordinárias. São momentos de desenovelar memórias, de conversas partilhadas, redentoras, de lamentos, de acusações, de críticas…

Temos uma escrita simples, fluida, poética, imagética. É este poder encantatório da escrita que me agrada, que me envolve e me faz viver o imaginário proposto pela autora. Mas há mais, muito mais, ao entrarmos na Casa das Auroras, acompanhando a jornalista que tenta saber quem são estas mulheres, somos envolvidos numa película de silêncio profundo, de isolamento, da qual sairemos mais esclarecidos, mas também mais pensativos em relação ao mundo em que vivemos e onde tantas coisas boas e más acontecem.


19 junho, 2022

𝑺𝒉𝒖𝒈𝒈𝒊𝒆 𝑩𝒂𝒊𝒏, de Douglas Stuart

 


Autor: Douglas Stuart
Título: Shuggie Bain
Tradutor:Hugo Gonçalves
N.º de páginas: 492
Editora: Alfaguara
Edição: Setembro 2021
Classificação:Romance
N.º de Registo: (3341)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Shuggie Bain relata o quotidiano de um rapaz especial e da sua mãe alcoólica. Situa-se nos anos 80, num meio hostil, de uma Glasgow pobre, violenta, conservadora e homofóbica marcada pelas políticas de austeridade de Thatcher.
Douglas Stuart para dar voz a esta personagem inspirou-se na sua própria infância vivida no seio da classe operária em Glasgow, também marcada pela homofobia, pela pobreza e pelo alcoolismo da sua mãe. (entrevista à agência Lusa)

Apesar da vida miserável das personagens, da angústia de Shuggie e os outros filhos verem a mãe a consumir-se pelo álcool, do bullying a que o protagonista é sujeito na escola e na vizinhança, a mensagem principal deste romance incide, na minha opinião, na grande história de amor do filho Shuggie pela mãe, Agnes.

Ao centrar a sua narrativa em Shuggie, porque poderia centrá-la em Agnes, o autor acaba por nos oferecer uma história de superação, de esperança, de questionamento sobre o que é ser normal numa sociedade machista, conservadora onde a homossexualidade não é aceite. Agnes e o seu filho mais novo são ostracizados, ridicularizados. Ela porque é bela, extravagante e alcoólica, ele porque é educado e “diferente”.

É uma história visceral, onde a dignidade, o amor-próprio, o orgulho e a vergonha coabitam. É uma história dilacerante, dura, cruel onde os vícios do álcool, do jogo, da prostituição se avolumam. É uma história de (auto)destruição, de abandono, de traição, de promiscuidade, de comiseração. Contudo, e apesar de tudo e todos, subsiste a doçura, a dedicação, a resiliência, o amor de um filho à sua mãe.

São cerca de 500 páginas que nos preenchem de múltiplas e contraditórias emoções, que nos arrepiam, que nos fazem refletir. O leitor mergulha nelas intensamente, dolorosamente, precisando de vir à tona, por vezes, para respirar, para aliviar a tristeza e o incómodo, para acalentar a esperança.

Sobrevivi, mas com algumas mazelas. Recomendo.

13 junho, 2022

Al Berto (11.01.1948 | 13.06.1997)

 


17 abril 74

Pensar intensamente em ti sem parar, de noite e de dia - até que o movimento do tempo fique suspenso, até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo, até que os dias não tenham sentido se não murmurar adoro-te noite adiante.

in Diários (p. 406)


12 junho, 2022

𝑨𝒇𝒂𝒔𝒕𝒂𝒓-𝒔𝒆 - 𝑻𝒓𝒆𝒛𝒆 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 Á𝒈𝒖𝒂, de Luísa Costa Gomes


Autor: Luísa Costa Gomes
Título: Afastar-se - treze contos sobre Água
N.º de páginas:213
Editora: D. Quixote
Edição: Maio 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3369)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Afastar-se! Tal como a água que corre, que se afasta, assim é a vida. Nos treze contos que integram este livro, a água, como a própria autora o refere, “está sempre presente, doce, clorada, salgada, mais larga ou mais discreta, no oceano (…) no duche, (…) na saliva (…) na piscina”. A água surge como meio de integração, de salvação (terapia), de prazer e de dissolução.
“ Atira-se para se afastar da margem. Avança sem coordenação e elegância. Oblíqua na água calma e quando se cansa vira o peito aos céus e flutua, engolindo um ou outro pirolito. Nada com uma determinação de galgo, sem olhar para trás, cada vez para mais longe até sentir que está no meio do mar, Aí, deita-se ao comprido na água e goza o ser. (p. 9)
e
“No amor, na piscina onde se nada. Cada banho me retira uma camada de pele à medida que mergulho na alegria. Sou cada vez mais carne viva. Sofro e sofro sem dó nem piedade. Gozo a minha indecência. A água está morna e faz-me querer ser água e regar cada torrão do jardim. Ao cair do sol vou cavar buracos e espremo as lágrimas lá para dentro. Saltam dos olhos, as pequenas idiotas. E aspiro a que ao terceiro dia esteja tão seca e ressequida que possa flutuar como um lanho e dissolver-me à superfície.» (p. 79)

São relatos que expressam o vivido, o sentido, o desfiar de memórias, o desejo de liberdade, projectos de escrita. São relatos que se cruzam com gente famosa como Byron, Pirandello, Kierkegaard, entre outros que, não citados, podem ser identificados. São relatos simples e simultaneamente complexos. Simples porque descrevem actos comuns, verosímeis, autobiográficos (?). Complexos porque revelam a natureza humana, o âmago da personagem: fraquezas, ambições, desejos, sonhos.
A escrita burilada, poética, ritmada, fluída, densa, subjectiva conduz o leitor a múltiplas interpretações, a imaginar o não dito, mas legado nas entrelinhas.
Gosto desta literatura libertadora que funciona, aqui, como uma boia, sobretudo quando “afastar-se” significa ir mais além, correr riscos, libertar-se, sonhar, ou seja, VIVER.


06 junho, 2022

𝒆𝒔𝒕𝒆 𝒔𝒂𝒎𝒃𝒂 𝒏𝒐 𝒆𝒔𝒄𝒖𝒓𝒐, de Raquel Ribeiro

 


Autor: Raquel Ribeiro
Título: este samba no escuro
N.º de páginas: 229
Editora: Tinta da China
Edição: Novembro 2013
Classificação: Romance
N.º de Registo: (2934)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Cuba como pano de fundo, ilha promotora de ilusões, de vitórias e de derrotas. Havana desencantada, fracassada, pobre. Povo iludido, revolucionário (alguns), triste, submisso, estropiado, orgulhoso e sonhador. São estes os ingredientes que Raquel Ribeiro nos oferece neste seu belo romance.

Numa mescla de realidade e ficção, onde nem sempre descortinamos os seus limites, o enredo leva-nos para o interior de uma Havana triste e sombria. Aí conhecemos Álvaro e Lia que revelam a genuinidade de um país completamente defraudado dos seus sonhos e iludidos perante o futuro. Duas personagens que se amam, mas que vivem em ideais opostos. Ela é uma militante optimista que acredita na liberdade. Ele vive e reage à realidade, ao dia-a-dia e deseja sair do país.

Álvaro que viaja de uma pequena localidade (Ciego) para Havana, a fim de cumprir dois duros anos de serviço militar, rapidamente percebe que o seu sonho se desvaneceu (“Afinal Havana não era tão livre como a imaginara” (p. 17)). O centro de Havana, onde vive o povo, depressa se revela moribundo, caótico. A autora não se detém na Havana dos turistas, a da periferia, a das belas praias, onde nada falta. A autora cinge-se, e muito bem, à Havana do povo esmagado pela pobreza, pela fome, pela falta de luz, de água, de tudo; à Havana da corrupção, da opressão, da violência, da descriminação racial, da prostituição; à Havana sem soluções, privada de sonhos e de liberdade.

“ O Cerro era o limite entre o que se sabe de Havana e o desconhecido (...) o Cerro era a Havana de verdade, a Havana onde muitos cubanos não se atreveriam sequer a ir, onde se dizia que só havia pretos e criminosos.
Descendo do centro, a cidade começava triplamente a escurecer. Turistas e senhoras brancas de sombrinha, nem vê-los, polícia também não: só mães pretas com crianças e sacos pela mão, pais pretos a engraxar sapatos, jovens suspeitos parados nas esquinas ou sentados sobre o muro, chinelando, para a frente e para trás. De vez em quando ouvem-se tiros, mas a vida continua enquanto a morte não se atravessa no caminho. Os prédios não têm as cores feéricas da Havana da Unesco, as cores quentes do Caribe, o amarelo, o laranja, o rosa choque (...) ” (pp. 60, 61)

Para amenizar o desalento evidente que encontra em Cuba, a autora recorre a versos de Chico Buarque para imbuir a sua narrativa de alguma sensibilidade e esperança. Este samba no escuro (verso do chico) é um romance que põe a nu os contrastes, os desencontros, a ambivalência dos seus habitantes e da própria autora. Numa entrevista que deu ao Jornal i (23/12/2013), assumiu-o claramente “Vivo entre o amor e o ódio muito extremados, relativamente à ilha, às pessoas, ao sistema, à vida (…). Essa ambivalência respira-se todos os dias.”

No final, fica a ideia, apesar de tudo, que podemos acreditar num futuro melhor. Há esperança de que as mudanças possam surgir.