Sentada na esplanada,
acolho o calor que sobra da tarde.
Abro o livro, as palavras avançam,
tocam-me subtilmente.
Entre goles de sumo fresco,
a marginal move-se
crianças, adultos,
corpos ainda salgados do mar.
Afasto o olhar das páginas
e deixo que a vida dos outros
se misture à minha.
Memórias felizes emergem,
o presente aproxima-se delas,
e uma história nova começa.
Mais crianças surgem
uma bola que escapa,
um grito que se eleva,
um instante de alegria.
Gaivotas atravessam o ar,
umas exibem-se, outras desaparecem
no azul esverdeado.
Eis a espuma dos meus dias
serenidade que se instala,
melancolia que me acompanha.
Fico ainda na esplanada.
A tarde abranda,
o sol inclina-se num gesto lento.
O cheiro do mar aproxima-se,
traz consigo uma memória antiga
que não sei nomear.
As conversas ao redor dissolvem-se,
ficam apenas fragmentos,
uma gargalhada,
um pedido ao empregado,
um silêncio partilhado entre dois.
Viro mais uma página
As palavras avançam,
abrem espaço dentro de mim.
Uma brisa leve
atravessa a mesa,
move a folha,
traz o grito das gaivotas.
A marginal continua a passar
passos apressados,
passos vagarosos,
vidas que não conheço.
E eu permaneço
entre páginas,
entre memórias,
entre o que chega e o que fica.
Na marginal, os passos abrandam.
Há quem pare,
há quem observe,
há quem siga sem olhar.
E então a luz transforma-se.
O sol aproxima-se da linha do mar,
desce num gesto lento.
O horizonte acende-se em tons suaves,
o dia despede-se
com a mesma serenidade.
Fico a ver essa descida,
espuma dos meus dias,
onde a melancolia repousa
e a luz se recolhe.

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