Autor: Rui Zink
Título: Luto pela Felicidade dos Portugueses
N.º de páginas: 154
Editora: Quasi
Edição: Maio 2007
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (2311)
Será que o português sabe ser feliz ou prefere a melancolia de se queixar, esse hábito antigo que lhe serve de companhia? Em Luto pela Felicidade dos Portugueses, Rui Zink responde a esta e a muitas, muitas outras perguntas através de uma lente crítica que é tanto desconcertante quanto hilariante.
O livro reúne crónicas escritas originalmente entre 2000 e 2005 para a revista SOS Saúde, mas desengane-se quem procurar nestas páginas conselhos médicos tradicionais ou receitas de bem-estar. Zink oferece consciência, ironia e uma espécie de ternura que só existe quando se conhece bem o paciente. Ao incluir-se no diagnóstico e nas receitas, retira qualquer superioridade moral e mostra que os vícios que aponta são também os seus. Essa auto‑ironia atribui às crónicas uma autoridade e uma empatia que conquistam o leitor.
A genialidade da obra começa no título, onde “luto” carrega um duplo sentido que retrata a nossa identidade. Por um lado, evoca o verbo lutar, remetendo para a ideia de quem batalha pela dignidade e pela felicidade do seu povo. Por outro, surge como o substantivo, representando a tristeza e o pessimismo de um país. Ao juntar o luto à felicidade, Zink fixa o tom paradoxal da obra numa sátira que morde e, ao mesmo tempo, revela um carinho e um conhecimento profundo pelo país que critica.
Para lá da sua aparente leveza, a estrutura do livro funciona como uma paródia inteligente aos velhos fantasmas da identidade nacional, reorganizando Deus, Pátria e Família (três partes) em “laboratórios” onde o autor desmonta as suas/nossas obsessões.
Ao lermos estas crónicas hoje, mais de duas décadas depois, a sensação de déjà-vu é inevitável e quase cómica. Mudaram os palcos, do café para o Instagram ou outra rede social, mas os actores seguem o mesmo guião. Portugal continua a dar-se mal com a vida. Continua a não saber se o sexo dá felicidade? Se a felicidade dá dinheiro? E se o dinheiro dá saúde?
No fim de contas, Rui Zink deixa-nos com uma dúvida desconfortável - e se o nosso maior trauma não for a falta de felicidade, mas sim a perspectiva de um dia virmos a ser genuinamente felizes? Sem partilhar uma pequena maleita, sem amaldiçoar o(a) companheiro(a) infiel, sem sentir inveja/cobiça ou sem a meteorologia para justificar o humor, quem seríamos nós?
E hoje, ainda somos o povo neurótico, stressado e obcecado com as aparências que Rui Zink retratou entre 2000 e 2005? Ou será que o Instagram e as novas modas do bem-estar apenas maquilharam o velho fado que teima em permanecer? Querem responder?

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