14 julho, 2026

𝑳𝒂𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒏𝒂, de Ana Cláudia Santos

 

Autora: Ana Cláudia Santos 
Título: Lavores de Ana
N.º de páginas: 122
Editora: Companhia das Letras
Edição: Março 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BMS)



OPINIÃO ⭐⭐⭐



A novela Lavores de Ana, de Ana Cláudia Santos, prende o leitor pela forma como retrata a aventura de mudar de país. Acompanhar a protagonista em Nápoles, a lidar com um dialecto difícil e com os choques do quotidiano, é um processo muito autêntico. A cena inicial com ela trancada na varanda dita um tom divertido e humano que anuncia um enredo dinâmico.

O ponto mais original da obra é a forma como a profissão da protagonista molda o seu modo de pensar. Sendo tradutora, não traduz apenas livros; passa o tempo a tentar “traduzir” as pessoas, os gestos e as manias dos outros. E traduz também as suas paixões humanas, reveladas nas relações amorosas com Enzo e Marco. Cada encontro funciona como um exercício de interpretação, uma tentativa de decifrar intenções, silêncios e impulsos com a mesma minúcia que aplica a um texto.

A divisão invulgar dos capítulos — OUVIDO, LÍNGUA, MÃO, SOPRO e VOZ — reforça esta leitura. Estão profundamente ligados à forma como ela vive a juventude em liberdade, em rebeldia, em experimentação. E são também instrumentos da tradução. Ouvir o mundo novo, arriscar a fala, escrever noutra língua, respirar fora do lugar de origem, encontrar uma voz própria. A protagonista organiza a vida por estes eixos, como se cada um fosse uma forma de se situar e de transformar o que vive.
Sendo a minha primeira experiência com a autora, a escrita deixou-me uma boa impressão. É limpa e directa, o que torna a leitura fluída. Ainda assim, o livro deixa um sabor agridoce. Na minha opinião, falta-lhe uma faísca emocional. Convence, mas não chega a apaixonar.

Recomendo a leitura pela leveza e pela escrita cuidada, embora não seja um livro para leitores muito exigentes. Quem procura algo que ultrapasse a narração de uma estada em Nápoles, o choque cultural e a juventude fértil em paixões poderá sentir alguma frustração. Anos mais tarde, já casada, a protagonista regressa à cidade, trazendo consigo uma experiência íntima que marca silenciosamente a vida adulta. Esse retorno ilumina a distância entre a leveza da juventude e a vida adulta que entretanto se consolidou. A cidade torna-se memória, e essa consciência dá ao final uma melancolia mais acentuada.



Sem comentários: