Autora: Toni Morrison
Título: A nossa casa é onde está o coração
Tradutora: Manuela Madureira
N.º de páginas: 140
Editora: Presença
Edição (3.ª): Agosto 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3810)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Em A nossa casa é onde está o coração, Toni Morrison entrega-nos uma narrativa minimalista na extensão, mas monumental no seu impacto emocional e social. A autora transporta-nos para a América da década de 1950. Uma época profundamente marcada pelas cicatrizes do racismo estrutural e pelos traumas da Guerra da Coreia.
A trama acompanha Frank Money, um jovem veterano negro que regressa do combate com um caso severo de depressão. Frank está desancorado, a derivar num país que exigiu o seu sacrifício na frente de batalha, mas que lhe nega a dignidade mais básica nas ruas. A narrativa torna-se mais viva quando ele recebe a notícia de que a sua irmã mais nova, Cee, corre perigo de vida após ser alvo de experiências médicas abusivas. A travessia geográfica que Frank empreende para a salvar transforma-se, progressivamente, numa viagem de resgate da sua própria identidade e sanidade.
Para estes dois irmãos, a sua terra natal em Lotus, na Geórgia, sempre foi um lugar detestado e associado à opressão. No entanto, é precisamente nesse espaço rural e comunitário que ambos encontram a redenção.
A escrita de Toni Morrison é poética e cirúrgica. Nenhuma palavra é desperdiçada. E a estrutura torna-se, na minha opinião, num dos aspetos mais fascinantes da obra. A narrativa, na terceira pessoa, é periodicamente interrompida pela voz do próprio Frank, na primeira pessoa. Nestas passagens, o protagonista questiona e desafia o próprio narrador, um processo genial que espelha a mente fragmentada de um soldado a tentar reconstruir a sua própria verdade.
A nossa casa é onde está o coração retrata a violência histórica e a segregação, mas recusa-se a ser uma história de desespero. É, acima de tudo, uma celebração poderosa dos laços fraternos e da conquista do nosso destino.
Recomendo vivamente a leitura deste livro a quem procura uma história intensa, fluída, e marcante. Sendo esta a minha segunda experiência com Toni Morrison, depois de ter ficado deslumbrada com Beloved, posso afirmar que estas duas obras se complementam de forma magnífica. Enquanto Beloved nos esmaga com o peso histórico da escravatura e do trauma materno, A nossa casa é onde está o coração oferece uma perspectiva mais focada na cura e na reconstrução da identidade no pós-guerra.
São dois livros que justificam a atribuição do Prémio Nobel (1993) e provam por que razão Morrison se tornou uma voz relevante da literatura mundial.
"Fiquei ali um longo momento a contemplar aquela árvore.
Tinha um aspeto tão forte,
Tão belo.
Ferida ao meio de cima a baixo
Mas viva e de saúde.
A Cee tocou-me no ombro
Ao de leve.
Frank?
Tinha um aspeto tão forte,
Tão belo.
Ferida ao meio de cima a baixo
Mas viva e de saúde.
A Cee tocou-me no ombro
Ao de leve.
Frank?
Sim?
Anda, irmão. Vamos para casa."
Anda, irmão. Vamos para casa."

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